Um Domingo a Ouvir The Las Vegas Story dos Gun Club

Era Domingo. Fui acordado pelo sol a lamber-me os olhos Acorda, mandrião!, disse.
Levantei-me da cama. Espreitei pela janela. Era Domingo. Um dia igual aos outros mas com menos gente na rua. Menos gente atarefada. Menos gente a caminho do trabalho. Menos gente a trabalhar. Menos gente no café no rés-do-chão do prédio. Mais gente a comprar pão que a beber café e a tomar o pequeno-almoço na esplanada.
Estava sol e calor. Ia para a praia, pronto. Decidido. Ia dormir para a praia. Mergulhar no mar. Ver as miúdas. Beber umas cervejas.
Fui lavar o carro. Tomei banho. Desci ao café e comprei pão. Fiz duas sandes de fiambre com manteiga. Agarrei num pêssego.
Ainda não eram dez da manhã e o tempo mudara de cara. O sol tinha ido embora. O tempo, agora, estava cinzento. Começou a levantar-se vento.
Resolvi esperar. Larguei o pêssego na mesa da cozinha.
Ao meio-dia começou a chover.
Ao meio-dia e meio caiu granizo. O tempo ficou frio.
Acendi um cigarro e fui até à janela. Olhei para o meu carro lavado. A ser fustigado pela chuva. A ser sovado pelo granizo.
Começou a doer-me a cabeça. Tomei um Ben-U-Ron Caff. Vesti uma camisola de algodão. Com capuz. Enfiei o capuz na cabeça. Sentei-me no sofá. Fechei os olhos. Comecei a zunir. O corpo a baloiçar. Para a frente e para trás. Para a frente e para trás.
Levantei-me. Fui pôr um disco na aparelhagem. The Las Vegas Story dos Gun Club
A dor de cabeça tinha-se dissipado.
Pus-me a aspirar a casa. Não ouvia a música. Aumentei o volume para ouvir por cima do barulho do aspirador.
Na rua continuava a chover.
Haviam várias festas nas aldeias aqui à volta. E estava a chover.
Havia um concerto do Zé Café & Guida. E estava a chover.
Não saí de casa.
Acabei de aspirar. Puxei a agulha do prato para o início do disco.
Acendi um cigarro. Voltei à janela para fumar. Olhei de novo para o carro. Estava realmente bem lavadinho. Mandei o resto do cigarro para a rua.
Fui à casa-de-banho. Mijei. Olhei-me ao espelho. Mandei um murro no espelho e parti-me em mil-e-um estilhaços que se espalharam por toda a casa-de-banho.
Fiz sangue. Sangue no espelho. No lavatório. Na bancada de pedra. A mão passeou-se pela cara. Levou-me sangue à boca. Senti um pedaço de vidro espetar-se no lábio. Cuspi-o.
Saí da casa-de-banho. Entrei no quarto. Enfiei-me debaixo do edredão. Enrolei-me nele. Estava a tremer. Estava com frio. Estava ansioso. Sentia-me cansado. Sentia-me sozinho.
Estes Domingos cinzentos de chuva e frio deixam-me assim. Ao fundo ouvia o Give Up the Sun. E foi assim.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/30]

A Mosca Mole

Estava nu em cima da cama.
Puxei o edredão para baixo, despi-me e deitei-me em cima da cama. Estava à espera dela. Deixei a porta da rua no trinco e vim esperá-la na cama. Era uma surpresa.
Mas a porra da mosca apareceu por ali e nunca mais foi embora. Uma mosca daquelas chatas, moles, que anda ali a voar baixinho, devagarinho, que passam junto aos ouvidos e fazem iiãooo, e irritam, incomodam, dão cabo dos nervos. Pousam em todo o lado. Estão moles mas quando as tentamos apanhar, são sempre rápidas. Mas não tão rápidas que não fiquemos com a sensação que é possível apanhá-las. Mas é raro acontecer. Só com alguma sorte. Ou insistência.
Ela estava atrasada.
E a mosca não ia embora.
Estava a azucrinar-me.
Levantei-me. Agarrei na camisola que tinha largado no chão e pus-me à cata dela.
Abri os estores. As luzes do tecto. Os candeeiros das mesas-de-cabeceira. Tudo para ver melhor. Onde é que andas, minha vaca? disse alto para a mosca.
Vi-a na parede. Levei o braço atrás e mandei-lhe rápido com a camisola em chicote, mas vi-a sair. Eu vi a mosca escapar nano-segundos antes de a camisola lá chegar. Merda.
Agucei o olhar. Procurei no tecto e nas paredes brancas. Nada. Olhei para os lençóis brancos. Para a cabeceira da cama. Para uma mesa-de-cabeceira. Para a outra. Nada também. Foi embora, pensei.
Larguei a camisola no chão. Desliguei as luzes. Baixei os estores. Voltei para cima da cama. E ainda não estava deitado quando a ouvi zunir ao meu ouvido, iiãooo! Parou no meu joelho e começou a subir pela perna acima. Mandei-lhe com a mão aberta. Nada. Foda-se, pá!
Voltei a levantar-me. Puxei de novo os estores. Acendi as luzes. Todas as luzes. Agarrei na camisola e recomecei à procura da mosca.
Olhei pormenorizadamente para cima do móvel. Dos livros em cima do móvel. Nada.
Virei-me para o armário. Vi e revi cada canto das portas do armário. Nada.
E então, vi o ponto negro, solitário, parado na parede branca por cima da cabeceira da cama. E comecei a aproximar-me dela. Devagar. Devagarinho. Com o braço puxado atrás. E a camisola tombada, agarrada pela mão.
Olá! Cheguei!… ouço dizer atrás de mim. Viro-me e vejo-a à entrada do quarto. E continua O que é que estás a fazer aí todo nu?
Eu viro-lhe as costas e resmungo entre os dentes Agora não!, e reparo que a mosca já não está onde estava. Foda-se! Sai daqui que tenho uma guerra para ganhar! disse-lhe, brusco. E ela saiu.
E eu fui à procura da mosca. Tinha de a encontrar.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/31]