Escondido, parte 02

[continuação de ontem]

Corri pelas ruas esconsas à volta da Rua Direita, na zona histórica de Leiria, no sopé do monte do castelo. Ouvia gritos. Ouvia gente a chorar. Percebia o pânico a correr por aquelas mesmas ruas por onde eu tentava fugir. Uma grande confusão.
Mais uma vez, quase a chegar ao fim de uma rua, percebi que estava também bloqueada por uma carrinha da caixa aberta com uns quantos carecas fardados de militares, ou para-militares ou milícia. Voltei para trás. Outra vez. Contra o fluxo de gente que corria, uns atrás dos outros, sem saber muito bem para onde é que iam, indo só para sair de onde estavam, para fugir, para escapar aquela gente que parecia estar ali para lhes dar caça. Nos dar caça.
Parei frente a uma casa abandonada. Olhei em volta. Estava sozinho. Via pessoas a correrem ao fundo, numa perpendicular. Dei um pontapé na porta e abri-a para trás. Entrei no prédio e fechei a porta nas minhas costas, o melhor que consegui.
Fiquei parado ali, ao fundo das escadas, a tentar ouvir. A tentar ouvir algum barulho vindo de dentro da casa. Só percebia o barulho da rua, das ruas adjacentes. De vez em quando, sentia alguém a correr do outro lado da porta, naquela rua mais escondida. Ninguém parou lá em frente, em frente à porta, em frente ao prédio.
Subi as escadas devagar. A casa estava muito destruída. Ainda estava em pé. Ainda mantinha a estrutura do prédio, dos vários apartamentos, mas havia muitas janelas quebradas, vidros partidos, pedaços de tijolo, lixo, muito pó. Subi as escadas com cuidado até ao último andar. Talvez fosse um terceiro andar. Ali na zona histórica de Leiria, os prédios são antigos e não muito altos. Alguns prédios, como este, estavam assim, abandonados, a acumular valor. Um dia seriam vendidos por bom dinheiro. Onde não há para venda, a venda atinge valores incalculáveis. Mesmo numa terra pequena e ignorada como Leiria.
Cheguei ao último patamar. Havia duas portas de entrada para dois apartamentos. Um à direita e outro à esquerda. As duas portas abertas. Abertas, não. Ausentes. Entrei para o apartamento do lado esquerdo e fui entrando até chegar ao que terá sido um quarto. Um quarto que ainda tinha janela com vidros. Entrei dentro desse quarto e sentei-me no chão, encostado a uma parede húmida, a descansar. A descansar e a pensar no que tinha acontecido.
E que raio tinha acontecido?
Estava numa manifestação pacífica, numa cidade pacífica. Estava numa manifestação pacífica que mais parecia uma festa. Estava toda a gente contente por sair do confinamento a que tínhamos sido sujeito durante tanto tempo. E, depois, aquilo.
Aquilo era o quê? Um grupo de gente de cabeça rapada, vestidos de igual, como se fossem militares, ou milícia, com tacos de baseball nas mãos. Chegaram em carrinhas de caixa aberta. Começaram a bater em toda a gente. A bater a eito. Não era uma contra-manifestação. Era mesmo um ataque. Não, uma caça. Era uma caça. Toda a gente começou a fugir e não havia por onde fugir. As ruas estavam todas cortadas. Tínhamos sido apanhados numa ratoeira. Sem escapatória. Vi muita gente a tombar. Vi muita gente a ser atingida pelos tacos de baseball. Vi cabeças a rebentar. Vi gente a ser espezinhada.
Onde é que estariam os meus amigos?
Alguém teria conseguido sair dali?
E a polícia? Porque é que não tinha visto nenhum polícia?
Apetecia-me fumar um cigarro mas sabia que era melhor estar sossegado. Não podia correr o risco de dar nas vistas, de me descobrirem. Devia manter o silêncio. Não fazer fumo. Não dar nenhum motivo, a ninguém, de me descobrirem ali dentro. Não tarda seria noite e depois logo se veria. Talvez, então, pudesse sair. Ir embora. Voltar para casa. Encontrar outras pessoas. Tentar perceber o que é que se teria passado. O que é que teria saído no noticiário das oito horas da noite.
Deixei-me estar sentado no chão, encostado à parede húmida. Até o rabo me começar a doer e eu me levantar. Fui com cuidado até à janela. Estava a começar a escurecer. Espreitei a rua. Não via ninguém. Mas continuava a ouvir vozes, gritos, vindos das ruas em volta.
Estava a começar a ficar com fome. Não que tivesse fome. Acho que eram os nervos que me estavam a atacar. Depois da agitação das últimas horas e depois de, finalmente, ter recuperado a respiração na tranquilidade daquele pequeno prédio velho e abandonado, comecei a chorar. Um choro nervoso. Um choro de medo e incompreensão.
E dei comigo, incrédulo, a perguntar-me como tudo aquilo tinha sido possível no século XXI? Como é que tudo aquilo tinha acontecido com toda a tecnologia que, aparentemente, nos dava toda a informação e conhecimento e nos protegia para que nada daquilo voltasse a acontecer?
Finalmente era noite.
As coisas não pareciam mais calmas. Continuava a haver barulho de gente em fuga. De gente atrás de outra gente. De gente em pânico. De gritos histéricos. De gritos de confronto.
Afinal, ainda iria ficar por ali bastante mais tempo do que o tempo que estava a pensar ficar.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/19]

O Contribuinte

Houve um tempo em que os bancos ocuparam os centros das cidades.
A Caixa Geral de Depósitos, por exemplo, tomou o lugar das igrejas e passou a ser o edifício com mais impacto na malha arquitectónica da zona histórica das cidades. Construiu edifícios enormes, por vezes demasiado grandes para os centros mirrados das cidades da média dimensão. Uma arquitectura a lembrar a Roma imperial. Edifícios de linhas direitas. Utilização de pedra clara. Nalguns casos, vidro. Eram um símbolo de poder. Edifícios criados para causar impressão. Um certo esmagamento. Respeito. Medo.
Os outros bancos, numa lógica de crescimento constante, começaram a invadir os centros históricos, a invadir a baixa das cidades, como se a cidade fosse só deles. Abriram agências em todo o lado. Umas em cima das outras. Fecharam cafés. Pastelarias. Lojas antigas. Memórias. Memórias das próprias cidades. Memórias da história das cidades. Os bancos ajudaram a encarecer o metro quadrado nestas zonas. Alguns deles transformaram tanto os edifícios para onde se deslocaram que os edifícios tornaram-se outros. Houve grandes transformações urbanas motivadas pela proliferação das agências bancárias. Mataram edifícios intemporais por troca por uma modernidade parola que está envelhecida antes mesmo de começar a funcionar.
Os anos passaram. As novas tecnologias mudaram a relação dos bancos com os seus clientes. Os clientes deixaram de ser clientes para passarem a ser fonte de rendimento. Tudo é pago. Tudo é pago para uma classe que vive da utilização do dinheiro alheio. Tudo é pago e tudo é feito para ser o próprio cliente a ter todo o trabalho. E, como se não bastasse, agora começaram a abandonar os centros das cidades. Depois de ajudarem e esvaziar os centros das cidades, agora deixam-nas ao Deus-dará. Mudam-se para centros-comerciais. Mudam-se para centros-financeiros. Para zonas de escritórios. Locais de maior agrupamento de clientes, esquecendo-se do funcionamento real das cidades.
Penso nisto ao olhar para o banco fechado à minha frente. Não é só a porta que está fechada. É mesmo o banco. Encerrou. Leio o papel colado no vidro da porta. Mudámos para outro sítio, dizem. Desde ontem. Nem o Multibanco funciona. E esse sítio para onde mudaram é outro sítio mesmo. É noutra localidade. E agora? Não pensam em mim? Afinal têm lá o meu dinheiro.
Estou parado frente à porta fechada do banco. Sinto-me deprimido. Os ombros tombam. Ouço um barulho atrás de mim. Um barulho que me assusta. Um barulho grave e muito alto. Viro-me para trás e vejo um carro com o chassis quebrado. Um carro que quebrou o chassis na lomba da passadeira camuflada. Atrás de mim há uma passadeira em lomba. Mas o tempo comeu a pintura da passadeira. E não há manutenção. É um dos grandes problemas destas tempos. A manutenção. O motorista não viu a lomba. Nem vinha muito depressa. Mas o suficiente para ser bloqueado pela lomba. Não é a primeira vez que vejo coisas assim acontecer. Mas nunca como hoje. Um chassis quebrado. Numa lomba em passadeira cega, surda e muda.
Sinto que deixei de ser uma pessoa. Sinto que passei a ser um número numa qualquer folha Excel. Sou o número que paga. E é só isso que sou. Um contribuinte.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/02]

E a Laura Acompanhou-me a Casa

Fim de um dia de trabalho. Estou na cidade. No meio da cidade. Tenho fome. Preciso de jantar.
Olho à minha volta. Procuro um toldo. Um néon. Uma placa. Um nome. Procuro um restaurante. Um sítio onde mitigar a fome. E descansar um pouco. Nada. Muito néons mas nenhum restaurante.
Pego no telemóvel. Serve para muita coisa. Google. Restaurantes na cidade. Na parte baixa da cidade. Na zona histórica. E mereço qualquer coisa mais. Peixe cru. Japoneses na zona histórica da cidade. E lá vou eu a caminho de um sushi. Subo. Viro. Desço. Já não existe. O Google está desactualizado. Experimento outro. Percorro. Subo. Ora porra! Um corner! É isto um corner? Outro. Desço. Caminho. Escadas. Viro. Está vazio. Existe. Está aberto. Mas está vazio. Não é apelativo. Experimento mais um. O último, digo-me alto. Estou cansado. Mas ando. Ando. Ando mais um pouco. Modernices. Música em altos berros. Turistas jovens à entrada. Fumam. Falam alto para se sobreporem à música. Parecem estudantes do Erasmus. Não. Definitivamente não. Estou cansado.
Desisto. Na minha cidade saía à rua e tropeçava em restaurantes de sushi.
Continuo com fome.
Prometo entrar no primeiro restaurante que não tenha música aos berros, miúdas com as mamas ao léu e adolescentes aos saltos e a empinar shots.
E lá vou eu.
Ora bem. Cá estou. No primeiro.
Um sítio agradável. Pouca gente. Mas com gente. Uma decoração minimal. Suave. Mas acolhedora. A lista é curta. Uma lista de conceitos. Mas intrigante.
Escolho ceviche de não-sei-quê. Com redução. E espuma. Acompanho com um vinho tinto de não-sei-donde.
Estou cansado. Mas estou sentado. Trazem-me umas fatias de um pão escuro e saboroso. Um bocado de queixo de cabra com pó de laranja. Manteiga de qualquer-coisa que tem uma cor creme e uns bocados de cebolinho por lá espalhado. Devoro tudo enquanto o diabo esfrega um olho. E é depois de comer tudo que me lembro que não tinha lavado as mãos. Ainda vou a tempo. Lavo as mãos. As mão e a cara. E a boca. Estou transpirado. Cheiro-me os sovacos. Não cheiro mal. Ato os atacadores das sapatilhas que descubro desatados. Como é que isto aconteceu?
Regresso à mesa. Sento-me e colocam-me o prato à frente. A quantidade não é muita mas a decoração agrada-me. Parece um quadro do Pollock. Tenho pena de o destruir. Fico a olhar para ele por instantes. Custa-me. Estou aqui para comer, penso. E antes de terminar de formular a frase, já comi tudo. Pouco mas intenso. Tenho o interior da boca a explodir de sensações. Uma pequena maravilha. E não fiquei com nada preso nos dentes. Não preciso de palitos. Nem de fio-dentário.
Pago. Vou-me embora.
Chego ao carro e começa a chover. Uma chuva violenta. Laura. Parece que se chama Laura e está deprimida.
Já matei a fome. Estou cansado. Agora preciso de dormir.
Arranco para casa. Abro o vidro do carro. A chuva molha-me a cara e eu pergunto à Laura Queres vir comigo? E ela vem. Acompanha-me até casa. É a minha companhia.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/05]