Não Devia Ter Bebido o Último Copo

Arrasto-me pela estrada fora. Pesam-me os pés e a cabeça. Os pés têm dificuldade em colocar-se um a seguir ao outro, a cabeça tende a cair sobre o peito. Vejo tudo a dançar à minha volta. Como o carrossel da Feira de Maio. A bacia que gira sobre si própria enquanto o carrossel anda às voltas e acima e abaixo. Sinto-me enjoado. Sinto um vómito a querer subir, mas consigo que fique lá em baixo, quietinho, sossegado.
Não devia ter bebido o último copo.
A casa fica longe. A minha casa. A casa onde estou a viver. Estou lá sozinho. Vivo sozinho naquela casa. Uma casa grande. Não gosto de beber sozinho. Gosto de companhia. Gosto de conversar enquanto bebo. Gosto de beber. Também gosto de conversar. Não gosto quando bebo o último copo.
Não devia ter bebido aquele copo.
Tropeço num dos pés ou um dos pés tropeça em qualquer coisa e eu caio. Não consigo levar as mãos à frente e caio com a cara. Acho que parti o nariz. Acho que fiz sangue. Mas não me dói muito. Não me consigo levantar. Tenho de fazer um esforço. Tenho de voltar para casa. Não posso ficar aqui. Estou pesado. Tenho de emagrecer. Comer menos pão. Beber menos. Fazer exercício físico. Aqui dou uma gargalhada. Eu a fazer exercício físico? acho que me ouvi perguntar. Dou nova gargalhada. Ou é a mesma? O meu exercício físico preferido é o zapping de cu enterrado no sofá, de preferência com um cigarro numa mão e um copo de vinho noutra.
Estive a beber uns copos de vinho no café. No café da aldeia. Não devia ter bebido o último copo.
Estava a saber-me bem, estar ali na conversa. O vinho escorrega e só dou por ele quando ele dá por mim. Quando ele dá por mim, já não dá mais para dar conta dele porque ele já deu conta de mim.
Preciso de arrotar.
Primeiro, levantar-me. Está difícil. Difícil mas não impossível.
Vamos lá. Recomeçamos a caminhada. O fim da rua está cada vez mais distante. Levantou-se esta ventania. Oh, pá! Que arroto azedo. Foda-se!
Não devia ter bebido o último copo.
Devia ter comido alguma coisa. Ajudava a ensopar. Mas não me apetece. Quando é que começa outra vez o Benfica?
Olha, os candeeiros já estão ligados. Já é de noite? Porra, já é de noite?
O que é que eu vou fazer agora?
Quero deitar-me. Mas não posso fechar os olhos. Vou tomar um banho. Tenho calor. Tenho sangue. Tenho sangue na cara, porra! Dói-me o nariz. Parti o nariz? Como é que parti esta merda? Oh, que caralho! Como é que fiz isto?
Tenho de ir depressa para casa. Porra, a estrada mexe-se. Tenho de ir mais depressa. Tenho de tentar manter o equilíbrio e não sair da estrada. Corro. Corro. Corro e não caio. Mas a rua não acaba. Corro. Corro mas parece que estou no mesmo sítio. Não consigo sair daqui.
Volto a tropeçar. Caio. Outra vez. Desta vez levo as mãos à minha frente. Eu vejo-me a cair e a levar as mãos à frente da cara, do corpo. Mas caio de joelhos. Foda-se! Estou de calções. Rasgo os joelhos. Há mais sangue. Não sei se é o mesmo, se é outro. Vou vomitar. Foda-se! Vomito-me todo. Estou maldisposto. Ouço um carro a buzinar. O que é que o carro está a fazer no passeio? Faço-lhe um pirete. Vai para o caralho, pá! digo-lhe. Ou acho que lhe digo. Não me ouço. Estarei afónico? Quero levantar-me. Tenho sangue. A cabeça está à roda. Quero ir para casa. Não quero ir para o hospital. Apetecia-me beber uma cerveja. Fumar uma joint.
Não devia ter bebido aquele último copo de vinho. Estava estragado, com certeza. Agora vou morrer. Oh, foda-se! Agora vou morrer! Não quero morrer. Não quero morrer sozinho. Quero ir para casa. Quero ir para a cama. Choro. Choro? Porque raio é que choro? Paneleirices! És um homem ou um garoto? Eu acho que sou um garoto. Que homem estaria nesta situação? Bom, um homem como eu. Oh, pá! Cala-te que já não consigo ouvir-te. Deixa-te ficar aqui deitado. Deixa-te ficar aqui que estás bem. Afasta-te é um pouco deste vomitado. Alguém vomitou aqui. Preciso de mijar. Acho que vou ficar aqui um bocadinho. Para descansar. Só preciso de descansar um bocadinho. Depois fumo um cigarro. Fumo um cigarro e bebo um copo, tomo um Ventilan, um Voltaren, um Ben-U-Ron e dois Xanax e fico bem.
Não devia ter bebido aquele copo.
Vou ficar bem.
Vou, vou.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/19]

A Minha Incapacidade de Esperar por Ela

Às vezes estamos assim os dois, eu e ela, encostados à janela aberta a olhar as montanhas brilhantes lá ao fundo, e estamos meigos, carinhosos, lentos, eu e ela, em comunhão, num respirar coordenado, como se fossemos só um, os dois ao mesmo ritmo, o olhar nas montanhas mas o tacto aqui, aqui onde estamos os dois, eu atrás dela, ela com as mãos apoiadas na sacada da janela, eu com as mãos nas ancas dela, às vezes a apertar os ossos salientes das ancas, e puxo-a para mim, e afasto-a de mim, com meiguice, seguindo o respirar mútuo, e deixamo-nos ir, um com o outro, vamos onde formos, nunca nos preocupamos muito com o destino, é o caminho que priorizamos, e eu murmuro-lhe palavras aos ouvidos, e vejo-a contorcer-se, vejo o corpo dançar curvas impossíveis, e o nosso balançar ganha velocidade, uma velocidade ganha numa progressão tranquila, não há pressa de chegar a lado nenhum, só de ir, de nos deixarmos ir, uma viagem que começamos devagar, muito lentamente e que aos poucos vai ganhando velocidade e a nossa respiração começa a despegar-se uma da outra, cada um ganha então o seu próprio ritmo, cada um tenta a sua velocidade, uma vida própria, um galope que se sente cada vez mais rápido, e que se torna alucinante, uma velocidade terminal, uma velocidade que nos faz esquecer o caminho e então o desejo, o meu e o dela, é, afinal, chegarmos o mais depressa possível ao nosso destino e nessa altura já não vejo as montanhas que calculo que continuem brilhantes lá ao fundo mas quero lá saber das montanhas, nem eu nem ela queremos saber das montanhas, preocupados agora com a nossa própria vida, a deixamos o egoísmo tomar conta de nós e por vezes até me passa pela cabeça Primeiro eu!, e sei que não é por vezes, é quase sempre, esta incapacidade de esperar por ela, egoísta é o que eu sou, mas às vezes, e isto sim, é mesmo só às vezes, aproveito estes momentos de loucura controlado, em que ela está num mundo diferente do meu, do nosso, em que ela está num mundo muito dela e onde eu não entro, às vezes, dizia, aproveito esses momentos de velocidade terminal para chegar a minha boca ao seu ouvido e sussurrar-lhe o que não conseguia dizer-lhe de outro modo, como o que lhe disse da última vez Fui despedido! que, infelizmente serviu de travão de mão, travou-lhe o galope, parou a velocidade, ela recuperou a respiração e ganhou lucidez suficiente para me dizer Foda-se, pá! Outra vez?
E eu não aprendo. Nunca aprendo.
E zango-me comigo.
Nessas alturas sinto-me culpado por fazer parar a viagem e sinto-me na obrigação de esquecer de mim e ajudá-la a ela, a repegar na viagem, a repegar no ponto onde estava, embora às vezes seja já tarde demais, e ela fica zangada comigo e deixa a janela e as montanhas brilhantes lá ao fundo e vai para a sala fazer zapping na televisão mas, outras vezes, não poucas, consegue esquecer os meus erros e recuperar a viagem e chegar lá onde ela chega sempre que quer ir e, no fim, depois de tudo sanado, acabamos os dois por celebrar o fim da viagem a fazer um gin tónico com limão espremido.
E então penso que, afinal, ainda vou aprendendo coisas. E já não me sinto mais zangado comigo.

[escrito directamente no facebook em 2021/06/12]

(bocejo)

Corro para tirar a roupa do estendal. Já é a terceira vez hoje que retiro a roupa do estendal por causa da chuva e ainda vamos a meio da tarde. Apanho a roupa para o meu regaço e deixo as molas de plástico lá penduradas. Entro em casa com a roupa e largo-a em cima da mesa da cozinha. Rezo para a mesa estar limpa. Penso sempre isto mas nunca verifico o estado da mesa depois de retirar a roupa de lá. Desta vez fica mesmo em cima da mesa. Não vou voltar a estendê-la. Mas não posso deixá-la aqui, penso. Agarro num cigarro enquanto penso que preciso da mesa para trabalhar. Volto a agarrar na roupa toda e levo-a para a sala. Deixo-a cair em cima do sofá. E penso que pode ficar aqui indefinidamente até deixar de estar húmida. Agarro numa meia para confirmar e confirmo, está húmida. Não molhada, mas húmida.
Regresso à cozinha. Acendo o cigarro que começa a ficar molhado da saliva. Olho lá para fora e quase que me sai uma asneira da boca. Não sei porque não saiu. Não está cá ninguém para a ouvir. Eu não disse a asneira porque não está cá ninguém para a ouvir ou não tive necessidade de dizer a asneira porque estou sozinho? Que porra de conversa, a minha. Não tenho mais nada para fazer? Posso ir dar uma volta. Voltou o sol, não é? Era por isso que ia gritando uma obscenidade. Fui apanhar a roupa do estendal por causa da chuva e já aí está de novo o sol. Mas não, não me apetece dar uma volta. Não me apetece fazer nada. Não me apetece sair de casa. Não me apetece ficar em casa. Não me apetece ver televisão. Não me apetece ler. Olha apetece-me fumar. Dou uma passa e repito Apetece-me fumar!
Bocejo. Dou um enorme bocejo. Sinto os olhos fecharem-se. Os olhos fecham-se e humedecem. Sinto um calafrio pela espinha. Um tédio, este Domingo. Um tédio, esta vida. Uma porra, pá! Eu sou o pá. É comigo que falo. Tenho de ter paciência comigo quando os Domingos me atropelam assim. E falo comigo próprio para não enlouquecer.
O que é que hei-de ir fazer?
Cortei o cabelo para ir à praia e o tempo não está de praia. Na televisão, os gritos do João Baião afastam-me de qualquer redenção. Estou cansado do zapping. Também não tenho paciência para ver um filme. Não tenho paciência para nada. Apago o cigarro. Afinal, apetecia-me ir ver um jogo de futebol da União de Leiria, ao antigo estádio, mais pequeno, mais de acordo com a cidade e a quantidade de gente da cidade que gosta de ver futebol, o estádio antes das megalomanias europeias que hipotecaram o futuro da cidade. Quanto dinheiro é que a cidade ainda deve por causa do estádio? E alguém quer saber? Ei! Apetecia-me ir ao estádio antigo, com uma almofada debaixo do braço para proteger o rabo do frio das bancadas de cimento e umas moedas para comprar tremoços e pevides que iria comer ao longo do jogo. Sim, era isso o que me apetecia mesmo fazer.
Volto a bocejar.
Dou uma volta pela cozinha. Olho pelas janelas para a rua. Vejo o maço de cigarros em cima da mesa da cozinha, ao lado do computador aberto. Coloco as mão nos bolsos das calças, saio pelo corredor e vou até ao quarto. Encosto-me à cama e deixo-me cair, pesado, lá em cima, as mãos dentro das calças.
Ainda tenho tempo de pensar Espero não arrefecer.

[escrito directamente no facebook em 2021/05/09]

A Mancha

Vou fazer uma pausa. Parar. Deixar de lado prazos, pedidos, obrigações e todas as outras coisas que me obrigam a correr, estar sempre atrasado, nunca ter tempo para nada e alimentar a azia.
Desliguei o computador. O iPad. O telemóvel. A campainha de casa. Não estou para o Facebook, para o Instagram, para o Twitter, não vou ao Gmail nem ao Tinder.
Respiro.
Abro uma garrafa de vinho. O que é que tenho aqui? Um Monte dos Pegos. Força. Descalço as botas e tiro as meias. Sinto os pés no chão de madeira. Sinto os pés a descontraírem. A ficarem maiores. A ganharem espaço. Bebo um gole e percebo o vinho a escorrer por mim abaixo, por dentro de mim.
Tenho um arrepio.
Estou um pouco nervoso. Tenho medo de não conseguir não fazer nada. Tenho medo de ficar parado. De não conseguir ficar parado. Roo as unhas. Percebo o que estou a fazer e páro. Bebo outro gole de vinho. Sento-me no sofá. Ligo a televisão. Estendo as pernas para cima da mesa de apoio. Agarro numa almofada e abraço-a. Cheira a humidade. A almofada cheira a humidade. Mando-a para o canto da sala. Deixo-me recostar no sofá. A cabeça tombada. Faço zapping. Faço zapping como desporto. Passo de canal a canal sem perceber o que é que está a dar em qualquer um deles. Estou a ficar nervoso. Sinto que estou a ficar nervoso, com o dedo no comando a mudar de canal e sem conseguir estar quieto. Não quero saber dos programas televisivos para nada. A televisão é uma companhia. Uma companhia passiva. Está ali, debita vozes que me embalam, mas nem sei o que dizem as vozes. Às vezes corro o espectro televisivo até dar a volta a todos os canais disponíveis no cabo e voltar ao início e não percebo a quem interessa tanto canal. Há gente para isto tudo? Para os reality shows? Para estes documentários televisivos? Para estes desportos estranhos – são desportos, não são? Para a tourada? E para a caça? E para a pesca? E para estas pessoas com cartas de Tarot e números de telefone coloridos?
Deixo-me tombar no sofá. A cabeça numa almofada bafienta. Os pés em cima de um braço de apoio. A luz do candeeiro bate-me nos olhos. Tenho de me levantar e apagar a luz. Mas ainda agora me deitei. Estou cansado. Não consigo levantar-me. Devia ter um sensor para desligar e acender as luzes com um par de palmas. Já vi isso num filme. Não sei que filme. Um filme qualquer que não deixou história para além das palmas para acender e desligar as luzes. Um dia também vi um filme com preservativos fluorescentes. Estava tudo às escuras e só se viam os preservativos fluorescentes a deslocarem-se na negritude do ecrã. Às vezes desapareciam. Outras vezes apareciam. Não era um filme pornográfico. Era uma comédia com algum humor brejeiro. Acho que era um filme do Blake Edwards, mas posso estar enganado. A memória já não é a mesma.
Estou cansado.
Respiro.
Então ouço Alerta CM. Foda-se! Levanto-me a custo. Desligo a televisão. Desligo a luz do candeeiro de tecto. Vou à cozinha. Encho de novo o copo de vinho. Acendo um cigarro. Abro a janela da rua. Está frio. Debruço-me. Olho a rua lá em baixo. Sinto uma vertigem. Reparo que tenho uma mancha no braço, perto do pulso, e não me lembro de ela lá estar. A garganta estrangula-se. E se…
Abano a cabeça. Afasto os maus pensamentos. Não! Não, pá!
Começa a chover. Chuva tocada a vento. Vem para cima de mim. Apaga-me o cigarro. Mando a beata molhada fora, para a rua.
Dispo as calças. E a camisola. Tiro as cuecas. Fico nu. Deixo-me estar nu, à janela, à chuva, a olhar a mancha no braço, perto do pulso, uma mancha que não é muito grande mas é suficiente para me entreter o pensamento. Não devia ter desligado o computador. Podia ir ao Google ver se percebo o que é isto. Mas é melhor estar quieto. Sabe-me bem a chuva. Sabe-me bem o frio. Gosto do meu corpo arrepiado. Tenho sede. Onde é que deixei o copo? Não consigo não olhar para a mancha.

[escrito directamente no facebook em 2020/12/15]

Os Passos por Cima de Mim

Há dias em que ouço os passos no apartamento por cima de mim. Há dias em que ouço os gritos na cave por baixo de mim.
Nada disto seria preocupante se vivesse num apartamento na cidade, como já vivi, e onde a convivência com os sons da vida da vizinhança é uma companhia constante. Mas não. Vivo numa casa térrea, sem cave, e com um pequeno sótão que não utilizo e onde nunca entrei.
Há dias em que estou deitado no sofá, a olhar para a televisão num correr de zapping tão rápido que não fixo nenhuma imagem e os sons que me ficam são umas onomatopeias sem sentido, quando sinto, sobre mim, passos a caminhar. Pequenos passos a caminhar. Já pensei se não serão ratos. Mas os gatos aqui da casa já trataram de todos os ratos que por aqui havia. Agora, o que caçam, são os coelhos selvagens que passam aqui pelo quintal ou que eles vão caçar ao terreno lá do outro lado da estrada. Que barulho será esse que passa por cima de mim? De quem serão os passos? E serão passos?
Há dias em que estou na cama, às vezes a dormir, e sou despertado por gritos de pânico que parecem vir de baixo, debaixo de terra, porque não há outro baixo de mim que não seja terra, não há cave, nem nenhum bunker nem túnel. Mas ouço os gritos e sinto como são aflitos e aflitivos.
Acordo e fico ali assim, em silêncio, na cama, a evitar mexer-me para não fazer nenhum barulho, e apuro os ouvidos e fico quieto, atento, à espera de novo grito. Geralmente, o grito não volta. Nem o grito nem nada que se lhe assemelhe. Mas, algumas vezes, sinto os passos que se passeiam por cima de mim como quando estou na sala deitado sobre o sofá, a passarem aqui, sobre mim, sobre mim aqui no quarto, deitado na cama. Ouço-os. Serão as patas de algum rato?
Ou será que há fantasmas aqui em casa?
Eu não sou de ter medo nem tendo a levar a sério estas coisas sobrenaturais de fantasmas e almas do outro mundo mas, nos dias em que ouço estes barulhos, descubro-me mais sensível e fico com algum receio, não de coisas transcendentes, mas de coisas terrenas, como um bandido, um assassino, alguém que vai entrar aqui em minha casa, no meu quarto, na minha cama e me vai espetar a lâmina fria de um punhal vinte vezes, trinta vezes, no peito, por todo o ódio que o punhal terá às pessoas e de quem eu serei fiel depositário.
Outras vezes descubro-me no sonho, no sonho de alguém que não eu, que eu não sonho, e percebo-me a ser perseguido por seres alienígenas que me querem raptar para me levarem para planetas distantes e analisarem-me.
Há ainda umas vezes em que me encontro num sonho em que sonho que estou no sonho de outra pessoa e pergunto-me como raio é que sei isto tudo e não me perco e depois fico com uma grande dor de cabeça, vomito e acabo por acordar em casa, no chão da cozinha, a ouvir o cão da vizinha a ladrar, coisa que faz só quando se lançam foguetes a anunciar as festas das aldeias vizinhas e umas baratas a passearem-se por cima de mim.
Hoje ainda não ouvi passos nem gritos. Mas descobri uma aranha peluda ali na parede em frente a olhar para mim.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/15]

Para um Diário da Quarentena (Oitavo Andamento)

Desde que começou esta crise com o coronavírus e eu me remeti a uma reclusão voluntária, que não difere em muito da minha vida habitual pré-Covid-19, que decidi começar uma espécie de diário dos meus dias de clausura.
Ao fim de duas semanas, e precisei de tanto tempo para entender, percebi que os meus dias são sempre iguais, banais, de um minimalismo tão grande que parecem algumas das obras do Philip Glass, e concluí que afinal não tenho grandes coisas para contar a quem quer que seja.
Resta-lhes ficar como memórias destes dias. É claro que vou continuar a escrever sobre estes dias de confinamento. O que é que iria fazer se não estivesse aqui a escrever o que estou a escrever?
Os dias repetem-se. Ora faz sol, ora está a chover. Uns dias faz calor, outros faz frio. Por vezes levanto-me de manhã, faço café e vou bebê-lo para o alpendre enquanto olho as montanhas lá ao fundo (quando não estão cobertas pelo nevoeiro), outras vezes deixo-me ficar enfiado debaixo do edredão a cozer a depressão. Umas vezes sento-me à mesa da cozinha, frente ao computador, a trabalhar, outras vezes passeio-me pelo quintal sem conseguir fazer o que tenho de fazer. Às vezes almoço, às vezes não. Tem dias em que me sento no alpendre a ler as notícias nos jornais online, e tem dias em que me encosto à ombreira da porta e vejo a luz descer até ser noite. Às vezes apanho uma maçã da macieira, limpo-a às calças e como-a ali mesmo, outras vezes vou fumar um cigarro para a estrada na esperança vã de ver passar um carro, uma motorizada. Há dias em que dou uma volta pela aldeia e não me cruzo com ninguém, nem mesmo com o padre, e há dias em que me sento no sofá, ligo a televisão e fico a ver a CMTV até começar a enervar-me. nessa altura dou um murro na parede, faço sangue nas nozes dos dedos e tenho de tomar um Brufen para acalmar as dores. A CMTV puxa-me pela violência e por vezes, só às vezes, vejo-a para destilar um pouco da fúria que me acossa. Às vezes dá resultado. Mas só às vezes, não sempre.
Quando tenho paciência, por vezes faço um bom jantar, experimento receitas, invento misturas, quando não tenho paciência como um pão com manteiga, às vezes um pão de véspera, duro, mas só o torro quando consigo ir ao fundo de mim buscar um pouco de vontade, o que não acontece sempre e, na maior parte das vezes, acabo por comer o pão com manteiga assim, duro e seco, e fico embuchado.
Tem noites que me sento no sofá a fazer zapping até adormecer com o comando na mão, cair para o lado e acordar com um fio de baba a escorrer-me pelo canto da boca, mas tem noites em que me sento no alpendre, a ouvir os barulhos da bicharada nocturna e a fumar uma ganza. Às vezes vejo um filme, uma série. Às vezes leio um livro. Mas a cabeça foge-me e na maior parte das vezes o livro fica a meio, adormeço a meio do filme e não vejo o resto dos episódios da série.
Há dias em que o relato do número de mortos e de casos detectados me deixa triste e antecipo o apocalipse num futuro bem próximo. Outros dias o relato desses números deixa-me indiferente e então temo que me esteja a tornar num tipo insensível.
Às vezes não vejo as mensagens que recebo e não atendo as chamadas que me fazem. Deixo tocar o telemóvel até se calar e, depois, desligo-o. Outras vezes leio as mensagens e respondo-lhes, atendo o telefone e até gosto de falar com quem acabo por falar. Mas essas vezes são muito raras. Acontecem muito pouco e sem avisar.
Uma constante que acompanha todos os meus dias, os dias assim-assim e os dias assado é o copo de vinho. Ah, e também o cigarro. São duas as constantes que servem para todas as estações em todos os dias do ano. Esteja eu como estiver, ter um copo de vinho tinto numa mão e um cigarro aceso na outra faz parte de mim, tanto como respirar. E não sou esquisito, posso passar da Barca Velha à Adega Cooperativa da Batalha. Embora a minha carteira esteja bem mais para beber Adega Cooperativa da Batalha que outra coisa.
Os dias repetem-se. Iguais. Monótonos. Continuo sem álcool, sem máscaras e sem sabão azul e branco. Bebo vinho e fumo cigarros, às vezes ganzas. Se não mato o bicho de uma maneira, tento de outra. Não creio muito nas minhas hipóteses de me livrar dele com vinho tinto e cigarros mas, pelo menos, contento o espírito e dou-me alento à alma. Posso morrer mas vou satisfeito. Pelo menos um poucochinho satisfeito.

Para um Diário da Quarentena (Terceiro Andamento)

Hoje foi um dia bizarro. Tudo o que não fiz ontem, fiz hoje.
Levantei-me cedo, seduzido pelo sol matinal. Lancei logo o edredão para os pés da cama. Saí de um salto, vesti uma t-shirt e fui à cozinha pôr o café a fazer. Liguei o iPod à coluna e deixei em modo aleatório. Arrancou com PJ Harvey. Uh Huh Her. Acendi um cigarro e fui fumá-lo para o alpendre. Os gatos vieram roçar-se nos meus pés descalços, dengosos, a ronronar.
Lancei o cigarro para o meio do quintal e entrei em casa para ir tomar um duche.
Sentia-me bem-disposto.
Pensei se eu seria mesmo eu.
Tomei o duche. Vesti-me. Bebi café. Comi uma banana. Lavei os dentes e peguei na chave do carro. Desliguei o iPod antes de sair de casa.
Hoje tinha de sair. Por motivos de trabalho, tinha de sair do meu refúgio. Largar as minhas rotinas. Tinha de ir longe. Não ia estar com muita gente. Nem ia demorar muito tempo. Mas era longe. Tinha de ir encher o depósito do carro. Ia aproveitar para registar o Euromilhões. Comprar pão fresco. Umas garrafas de vinho, que andam a esvaziar-se muito depressa.
Tinha umas máscaras e umas luvas no carro caso precisasse. Algumas moedas. O multibanco. Um lápis com borracha para marcar o código do cartão e fazer os pagamentos. E um frasco aspersor com álcool.
Fui.
Fiz o que tinha a fazer.
E regressei.
Entrei em casa. Despi-me ainda na cozinha. Pus a roupa na máquina e lavei-a a quarenta graus. Depois lavei-me a mim e vesti um fato-de-treino.
Abri uma garrafa de Adega de Pias, das mais baratas. Sentei-me à mesa da cozinha, frente ao computador e comecei a escrever. E escrevi bastante e durante bastante tempo. Tanto tempo que tive tempo de despejar a garrafa de vinho. Só então parei e acendi um cigarro. E reparei que já era de noite.
Este foi um bom dia, pá! pensei.
Lembrei-me que havia o Festival Eu Fico em Casa e liguei o Instagram. E deixei a tocar. Nem sabia quem é que estava a tocar. Acho que nem conhecia. Deixei na coluna.
Abri outra garrafa de Adega de Pias. Cortei uns legumes. Desfiei um resto de frango assado que tinha no frigorífico. Salteei tudo no wok. Depois misturei uns bocados de sementes de sésamo e uma azeitonas.
Desliguei o festival e liguei a televisão. Hora do noticiário. Jantei os legumes salteados com o resto de frango desfiado na companhia do vinho tinto a tomar atenção às novidades da Covid-19, aos infectados e aos mortos. Afinal estávamos em emergência, ou não?
As coisas estavam cada vez pior.
Mas eu continuava bem disposto.
Quem seria eu, afinal?
Desliguei a televisão da cozinha. Baixei a tampa do computador. Arrumei a louça suja na máquina. Agarrei num copo e despejei-lhe dois dedos de Bushmills. Sem gelo. Fui para a sala. Liguei a televisão. Ao fim de algum tempo de permanência nos canais de notícias, comecei com o zapping.
Comecei a sentir a melancolia a instalar-se.
Relaxei.
Afina, eu era eu. Sou eu. E aqui estou, de rabo enfiado no fundo do sofá, a ganhar coragem para ir à cozinha buscar mais um bocado de whiskey e trazer para aqui o cinzeiro. Mas não me consigo levantar. Apetece-me, mas não me apetece. Tenho qualquer coisa a tremer dentro de mim.
Sorrio, mas não sei de quê.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/17]

Recomeçar

Ela já tinha mandado o pano de cozinha molhado para o chão. Na verdade atirou-mo a mim, mas eu desviei-me e ele caiu no chão. Salpicou pingos de água em toda a volta. Agora ela tinha um prato de sopa na mão. Não sabia se o ia mandar ou não. Ela já não estava a falar. Nem me apercebi que entretanto deixara de falar. Tinha-me perdido nos meus pensamentos sobre esta repetição quase diária. Já nem estranhava. Ela olhava para mim. Só olhava para mim. Os olhos raiados de sangue. Como se estivesse possuída por alguma entidade maléfica. O prato de sopa na mão.
Que merda é que eu fiz agora? perguntava-me em silêncio. Era um pergunta retórica, claro. Não estava à espera de resposta. Alguma coisa eu devia ter feito. Ou não ter feito. Mas não me lembrava de nada que pudesse ter despoletado aquela reacção tão irritada dela. Outra vez. Nos últimos tempos, isto repetia-se e eu não conseguia descobrir a razão. Mais tarde haveria de querer fazer as pazes comigo. Pedia desculpa e acabávamos a foder no chão da sala. Mas eu estava a ficar farto. Estava saturado destas discussões que, para mim, não tinham sentido. Virei-lhe costas. Sim, não é o mais agradável de se fazer. Imagino a cara dela quando de repente vê que eu lhe viro as costas, afasto-me dela e deixo-a sozinha. Sozinha com o seu mau feitio. Abri a porta da rua e saí. Olhei o pequeno quintal. Um dos gatos estava lá sentado e ficou a olhar para mim. Lá mais à frente, o terreno de cultivo. O pai dela. Andava a cultivar alguma coisa. Talvez milho. Talvez milho para as galinhas. Ele tem galinhas. Galinhas poedeiras. É por isso que comemos tantos ovos. Acendi um cigarro. Percebi nessa altura que estava nervoso. As explosões dela, já habituais, ainda me deixavam nervoso. Puxei duas valentes passas e tentei acalmar. O pai dela viu-me à porta de casa. Levantou a mão numa saudação. Respondi com a minha mão levantada. Dali a pouco já toda a gente na aldeia saberia que eu e ela andávamos de candeia às avessas. Este é um grande problema das aldeias. Destes meios pequenos. Toda a gente sabe de toda a gente. Eu sei as histórias deles, como é que eles não hão-de saber as minhas? Ao fundo ouvi uns foguetes. Havia festa numa terriola perto. Dantes ia com ela aos bailaricos. Dançávamos muito. Bebíamos copos de tinto carrascão. Comíamos filhoses e bolo da festa. Ficávamos cheios de azia mas éramos felizes. Agora já não. Agora já não dançamos. Agora discutimos. Gritamos um com o outro. E acabamos a foder violentamente no chão da sala. Entre as centopeias e os lacraus que entram por baixo da porta e pelas janelas abertas.
Não gosto do campo. Não sou do tipo campestre. Esta não é uma estória bucólica.
Recomeço.
Ela já me tinha mandado com o copo de vinho para cima. O vinho primeiro e o copo depois. O vinho espalhou-se pelo chão e não me acertou que eu desviei-me a tempo. O copo estilhaçou-se na parede atrás de mim. Ela tem má pontaria. Depois colocou a mão na garrafa de vinho, ainda meio cheia. Não a levantou para me mandar com ela. Mas ficou com a mão a agarrar a garrafa, a ameaçar-me. Ouvi as pancadas vindas do apartamento de cima. Ultimamente, os vizinhos de cima batem com o cabo da vassoura no chão deles, o nosso tecto, para avisar que estão fartos dos nossos berros, das nossas discussões e do choro dela. E foi nessa altura que percebi que estávamos em silêncio. Ela estava em silêncio. Já não estava gritar comigo. Estava só a olhar para mim. A mão no gargalo da garrafa, a garrafa em cima da mesa e o olhar parado e frio sobre mim. Ela parecia possuída. E, de repente, parou. Mas aquele olhar. Aquele olhar fixo em mim. Aquele olhar assustava-me. Ultimamente estes ataques dela aconteciam com alguma frequência. Depois passavam. Ela ia para o quarto. Deitava-se sobre a cama. Descansava um pouco. Depois, mais tarde, vinha ter comigo. Pedia-me desculpa. Tocava-me. Beijava-me. E acabávamos a foder na bancada da cozinha. Era a única coisa boa destes ataques. Já não tínhamos o mesmo desejo um pelo outro de antes mas, nestas alturas, depois destes ataques sem sentido dela, terminávamos a foder como dantes, cheios de fúria e vontade. Mas que acabava também por terminar rápido. Eu depois ia para a varanda fumar um cigarro. Ela ia tomar um banho. E acabávamos a noite na sala, cada um na sua poltrona, a fazer zapping por todos os canais do cabo e sem ficar em nenhum. Quer dizer, eu, que tinha o comando na mão, ia fazendo zapping e ela ia não vendo os canais em fast forward comigo. Era um programa como outro qualquer.
Desta vez não. Desta vez virei-lhe as costas e saí de casa. Virei-lhe as costas e percorri o corredor todo até à porta da rua a sentir os olhos dela nas minhas costas. Olhos como punhais. Saí para a rua. Acendi um cigarro. Olhei em volta. Ninguém conhecido. Mandei um berro. Fo-da-se! Uma velha olhou para mim mas continuou em frente. Na cidade ninguém quer saber de ninguém. Ninguém conhece ninguém. Ninguém sabe quem eu sou. Deambulo pelas ruas, de olhos molhados, e ninguém quer saber o que é que se passa comigo. Vem um cão no sentido contrário mas foge de mim. Muda de passeio. Acho que deve ter sido mal tratado. Coitado. Não fujas, pá! que não te faço mal.
Passo à porta do museu. Houve uma altura em que íamos lá todas as semanas. Repetíamos as mesmas exposições vezes sem conta. De cada vez que lá íamos descobríamos coisas novas. E ficávamos contentes pela descoberta. Pela descoberta em conjunto. Pela partilha da descoberta.
Há muito tempo que já não vamos ao museu. Já não me lembro da última vez que vimos uma exposição. Há quanto tempo não vamos ao cinema? E ao teatro? Há quanto tempo não temos um jantar tranquilo, a dois, sem o telemóvel, o mail para responder, o feed de notícias para alimentar, a fotografia que precisa do like. Acho que já não usufruímos da cidade. Estamos em fim de ciclo. E a cidade não nos ajuda em nada. Estamos isolados. Não temos amigos. Estamos sozinhos no meio da confusão. Só nos temos um ao outro. É por isso que insistimos em nós. Nesta relação já desgastada. Mas qual é a alternativa?
Não gosto da cidade. Não gosto do egoísmo da cidade. Preciso de gente com quem falar. Preciso de ir ao café e encontrar as mesmas pessoas e sentir-me em casa.
Recomeço.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/06]

Chorar com Facilidade

Agora desato a chorar por tudo e por nada. Acho que nem preciso de motivo para começar a chorar.
Estava a ver um episódio da série This Is Us, mas sem grande convicção, tinha lá parado no decurso do zapping e, cinco minutos depois, comecei a chorar, solidário com as dores de uma das personagens. Pior que isso, achei que era eu que estava em causa. Que as dores eram minhas. Que aquela história encaixava verdadeiramente na minha história. Que era um eco da minha vida. Que aquela história era a minha história. Bolas. E era mesmo assim. Triste. Emotiva. Dolorosa. E comecei a chorar. Mas a chorar compulsivamente.
Peguei, ao acaso, nos Poemas Quotidianos do António Reis, estiquei o braço para a estante e foi o livro que veio preso nos dedos, abri à sorte e li

Sei que choras
muitas vezes
sozinha

e que lavas
o rosto

(ah onde
ando eu)

para a tua dor
não ser minha

e rompi a chorar. O livro nas mãos. As páginas molhadas das lágrimas. O papel a enfolar. A dor. A dor é minha. Abro a boca. Em silêncio. Mas choro. Choro muito.
Aconteceu-me também ao ver as notícias na televisão. O pivot contava que a Argentina tinha recusado a última tranche da ajuda financeira do FMI ao país por causa dos enormes encargos que acarretava e comecei a chorar. A pensar que ainda havia gente como eu. Gente que pensava como eu. Que achava que havia sempre mais alternativa que a alternativa que diziam ser única.
Também com a morte de José Mário Branco, acontecido nestes últimos dias, chorei. Mas não foi a morte dele que me fez chorar. Foi o ouvir, pela enésima vez, a catarse que é o FMI. Estava sentado no sofá e senti-me desfazer. Deixei de ser eu, de ter corpo e misturei-me ao sofá. Eu era uma massa amorfa e disforme que se tinha moldado ao mais banal dos elementos: o sofá de sala onde se assiste aos filmes de Domingo à tarde; onde se passa pelas brasas debaixo de uma mantinha quente e aconchegante; e, afinal, onde estava sentado, sozinho, enquanto ouvia o FMI na voz dolorosamente bela de José Mário Branco.
Acendi um cigarro e, enquanto fumava, enquanto via o fumo subir ao tecto da sala, comecei outra vez a chorar. Por nada. Comecei a chorar. Acabei por molhar o cigarro. Apagou-se. Entristeceu-me ainda mais. E acendi outro.
Mas cada vez que choro sinto um enorme alívio e pareço renascer.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/27]

O que É que Eu Hei-de Fazer?

Agarro-me ao espelho da casa-de-banho como se fosse a coisa mais importante do mundo. Passo-lhe a mão por cima para tirar o embaciado provocado pelo banho, mas não consigo grande coisa. A mão tira o embaciado mas cria um manto de centenas de gotinhas de água que tapam o espelho de igual forma. Pego na toalha das mãos e esfrego o espelho com ela. Melhor. Mas não está completamente limpo. Aproximo a cara. Vejo as olheiras. Os olhos amarelos. Os pêlos brancos da barba mal crescida. Vejo alguns pontos negros. Mas não os espremo. Vejo os lábios gretados. Os cantos da boca infectados não sei como nem porquê. Os dentes nunca foram muito brancos, mas estão cada vez mais cinzentos. É o tabaco. Devia fazer uma destartarização, penso.
Olho-me ao espelho e penso ainda As merdas que faço quando não estou a trabalhar.
Largo a cara. Vou à janela, nu, e deixo o frio deste Agosto em plenas alterações climáticas cortarem-me o corpo. Sinto um arrepio. E gosto.
Visto uns calções. Uma t-shirt. Calço uns chinelos.
Faço café na cafeteira. Gosto do cheiro do café de manhã. Mesmo que já seja quase meio-dia. E mesmo que o café seja uma merda cheia de chicória.
Bebo o café à janela.
Ainda há pessoas na rua, penso.
Eu estou em casa. A Estação de Serviço só funciona no dias pares. Duas horas por dia. Dois empregados de cada vez. E um grupo de fuzileiros para acalmar os clientes desesperados por gasolina.
Passo a maior parte do tempo em casa. Eu e muita gente.
Venho à janela. Olho a rua. Coço os tomates. Fumo um cigarro, enquanto tenho. Já não bebo vinho que se foi já todo. Ainda vou tendo este café.
Sento-me no sofá a fazer zapping. Não consigo ver um programa inteiro. A cabeça não consegue acalmar. Não me consigo sintonizar. Perco-me.
Estou preocupado. Mas não digo nada a ninguém para não gozarem comigo. Ninguém parece preocupado, porque haveria eu de ser o único?
Ponho as mãos nos bolsos dos calções. Apanho umas moedas. Tiro-as para fora e vejo quanto é. Olho para a rua. Vejo a pastelaria. Sorrio.
Saio de casa. Desço as escadas. Desço à rua. Vou à pastelaria. Está quase vazia. Há uma mesa com um grupo de quatro velhotas. Um bule de chá e quatro chávenas na mesa. A montra está um pouco menos que vazia. Dois pastéis de nata. Um russo. Uma broa de mel. Um pão de deus. É mesmo isso. Peço Um pão de deus, se faz favor. E a rapariga avisa-me, baixinho, É de ontem. Não faz mal, respondo. E a broa de mel. Corte-a em quatro. E leve ali aquelas senhoras.
Pago e vou embora antes que as velhas percebam e queiram agradecer e dar beijinhos e falar das famílias e dos filhos que não lhes ligam nenhuma e a reforma que não chega para nada A minha nem chega a meio do mês haveria de dizer uma delas e outra Tantos anos de trabalho para os outros, e agora isto e eu não queria chorar com a vida dos outros já me bastava a minha e tinha de fazer um esforço para me aguentar inteiro sem me desfazer na merda em que me sentia.
Entro em casa. Abro o pão de deus. Barro-lhe um pouco de manteiga. Corto-o ao meio. Guardo uma metade para mais tarde. Ou para amanhã. Sento-me a fazer zapping enquanto como. Apanho as migalhas que deixei cair na t-shirt e enfio-as na boca. Olho para os cigarros mas penso Tenho de os guardar.
Levanto-me. Vou à janela. Olho a rua. Volto para o sofá. Sento-me. Digo em voz alta O que é que eu hei-de fazer?
Descalço os chinelos. Deito-me no sofá. Suspiro.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/03]