Uma Vez à Varanda da Sede da União Desportiva de Leiria

Era miúdo. Andava a brincar nas salas escuras e cheias de tralha, a subir e a descer as escadas de madeira entre os diferentes andares daquele antigo palacete que servia de Sede à União Desportiva de Leiria. Andava a brincar com outros miúdos, pequenos como eu. Os meus pais estavam na Sede. Numa daquelas inúmeras salas. Jogavam Bingo. Ou cartas. Bebiam café no bar. Uma cerveja. Liam as páginas enormes do jornal A Bola, que naquela altura saía três vezes por semana. Ou discutiam a semana desportiva da equipa de Leiria que militava na Segunda Divisão, anos antes de sonharem em subir à Primeira e poderem jogar contra o Benfica e o Sporting.
Era miúdo e andava a cirandar por entre as salas escuras, fechadas, que nós abríamos, e revirávamos tudo, fascinados com as tralhas que se acumulavam naqueles cantos, como um enorme sótão em casa dos avós que não tínhamos. Nem eu nem os outros. Naquela altura os velhos morriam antes de serem velhos e só raramente se conheciam os avós. Eu só conheci uma avó e ela morava em nossa casa e não tinha sótão para me deixar perder.
Mas ali estava eu. Perdido numa sala na semi-obscuridade, uma luz suave passava entre as portadas de madeira mal fechadas. Estava sozinho. Os outros andavam por lá, noutras salas. Ali havia vários caixotes abertos. Bandeiras. Várias bolas de cautchú muito velhas, já sem cor e vazias. Taças. Todo o tipo de taças. Copos de vidro. Pequenos. Grandes. Um vaso com flores de plástico. Pilhas de jornais A Bola velhos, com as páginas amareladas. Muito pó em todo o lado. Muito pó a voar nos raios de sol que entravam pela janela. Circulava por entre os caixotes cheios de pó. Punha um dedo e fazia um risco. Espirrei. Ouvi vozes. Parei e pus-me à escuta. Alguém falava muito alto. Mais que uma voz. Vinha da rua. Vozes zangadas.
Abri a porta da varanda. Saí. Senti o calor da rua a bater-me na cara quando o sol me atingiu em cheio. A claridade obrigou-me a fechar os olhos. Fui abrindo-os aos poucos. Devagarinho. As vozes mantinham-se lá. Eram vozes alteradas. Vozes de gente alterada. Vozes muito irritadas. Abri os olhos. Cheguei-me às grades da varanda. Agarrei-me às grades e olhei lá para baixo. Olhei para a rua.
Um homem, velho, com uma bengala na mão, ameaçava um outro homem, mais novo, brandindo a bengala no ar enquanto o outro gritava que o ia matar. A ele e à cadela da filha dele. Dou cabo de ti, cadela. De ti e desse velho. Eu mato-te, velho. E uma mulher, nova como o outro homem, tentava agarrar o velho. Impedi-lo de bater com a bengala no outro homem. Acho que a mulher estava a chorar. O homem novo tinha a camisa rasgada. A mulher estava com o cabelo desgrenhado e as meias de vidro rasgadas. O velho continuava de braço em riste a agitar a bengala. Eu agarrei-me com mais força às grades da varanda. E continuei a olhar. O homem mais novo abriu a camisa de rompante. Atirou com os botões fora. Esticou o peito para a frente. Começou a bater no peito enquanto crescia para o velho. Parecia o Tarzan. O cabelo comprido a cair-lhe pescoço atrás, até aos ombros. A mulher chegou-se à frente, colocou-se entre os dois e o homem novo bateu-lhe. Bateu-lhe com força. Deu-lhe um estalo com tanta força que a mulher cambaleou e caiu no chão. O velho carregou com a bengala sobre o homem novo que tropeçou e caiu. O velho, então, bateu com a bengala no homem novo caído até partir a bengala.
Eu estava assustado. Via-se algum sangue no chão da rua. Na estrada. Não passava nenhum carro. O velho, com um bocado da bengala na mão, baixou-se perto da mulher e gritou Filha! Filha! O homem novo conseguiu rastejar dali para fora, até ao passeio, e levantou-se. Olhou para o velho. Olhou para a mulher. Olhou em volta. Olhou em volta até o olhar parar em algo que lhe chamou a atenção. Era uma panela de escape de automóvel que estava abandonada junto ao muro que fazia o passeio até ao cruzamento lá mais à frente. Estava ali caída. O homem agarrou na panela, aproximou-se do velho, levantou a panela de escape acima da cabeça como se procurasse uma força divina e descarregou-a sobre a cabeça do velho debruçado sobre a mulher.
Ouvi um barulho seco. Pof. Acho que vi sangue a ser projectado em frente. O velho caiu sobre a mulher. Ouvi os gritos da mulher. Os gritos assustados da mulher. Vi o homem novo parado sobre o velho, com a panela de escape nas mãos sem saber o que fazer. Olhou de novo em volta. O olhar dele cruzou-se com o meu. Não sei se ele me viu, mas os nossos olhares cruzaram-se. O homem novo largou a panela de escape no chão, ao lado do velho caído sobre a mulher que não parava de gritar, histérica, passou a mão pelos cabelos, limpou as mãos com sangue ao que restava da camisa e foi-se embora. Foi-se embora a correr. Desapareceu.
Quando as primeiras pessoas apareceram na rua, o homem novo já não estava lá. O velho estava tombado sobre a rapariga que continuava a gritar. Vi os meus pais lá em baixo na rua. A minha mãe levou a mão à cara e vi-a vomitar. O meu pai amparou-a e voltaram a entrar na Sede da União Desportiva de Leiria.
Eu resolvi também entrar dentro da casa. E foi então que vi que tinha os dedos das mãos a fazer tanta força nas grades da varanda que tinha feito sangue nos dedos. Não me doía. Mas foi difícil abrir os dedos fechados sobre as grades. Quando finalmente consegui, entrei na sala, fechei a janela e desci as escadas à procura dos meus pais.
Uns anos mais tarde a União de Leiria subia, finalmente, à Primeira Divisão e eu pude ver os jogos com o Benfica e o Sporting ao vivo. A Sede do clube mudou para outro lado e eu, e os outros miúdos, deixámos de ter salas para andar a brincar.
Não sei o que aconteceu ao homem novo e à mulher. O velho, acho que morreu. Pelo menos foi o que percebi numa conversa que ouvi entre os meus pais. Depois, muitos anos ainda mais tarde, a União de Leiria também quase que desapareceu. Como o homem novo que agora já deve ser bem velho. Mais velho que o outro, quando ele o matou.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/18]

Fumar um Charro Enquanto Tomo Banho

Cheguei tarde a casa. Cheguei cansado. As palestras exigem muito de mim. Desgastam-me. Quando chego ao fim de uma apresentação sinto-me vazio.
Entrei em casa. Ela estava sentada no sofá. A televisão estava desligada. O que raio é que fazia sentada no sofá com a televisão desligada? Nem um livro aberto sobre os joelhos. A lareira estava acesa. À frente, na mesa de apoio, um copo com qualquer coisa. Talvez whiskey.
Passei por trás dela. Baixei-me e beijei-a na cabeça. Fiz-lhe uma festa nos cabelos. Uma festa suave com a mão que fui deixando para trás enquanto me afastava. Vou tomar banho, disse-lhe. Ela acenou com a cabeça.
Entrei na casa-de-banho. Abri a janela. Senti o ar gelado da cidade entrar e agarrar-se ao meu corpo. Despertou-me um pouco. Gosto de sentir frio quando vou entrar no duche quente. Despi-me. Entrei na banheira e liguei o chuveiro. Deixei-me estar ali por momentos, sem me lavar, só a sentir-me fustigado pelos jactos de água quente que saíam disparados pelos buracos do chuveiro.
Ela entrou na casa-de-banho. Estranhei. Ela nunca entrava na casa-de-banho quando eu lá estava. Ela não gostava que eu entrasse na casa-de-banho quando ela lá estava. Muito menos se estava no duche. E nunca se virava de costas. Dizia que não queria que eu lhe olhasse para o rabo. E tapava-se com as mãos. Tapava tudo aquilo de que sentia vergonha. Eu ria-me e dizia-lhe que gostava dela, do corpo dela e que gostava de a olhar, mas ela gritava, gritava comigo, gritava-me e mandava-me sair. No início chegou à histeria. Berrava-me. Estava algum tempo zangada comigo e não me falava durante alguns dias. Depois, com o passar do tempo, lá passou a acalmar. Mas nunca gostou que eu a visitasse na casa-de-banho. Coisa que eu gostava de fazer. E nunca deixei de o fazer.
Estranhei vê-la entrar pela casa-de-banho.
Eu estava debaixo do chuveiro a absorver o calor da água quente. Ela baixou a tampa da sanita e sentou-se lá em cima. Cruzou as pernas. Eu pus champô no cabelo. Esfreguei. Ela começou a fazer um charro. Outra novidade. Normalmente era eu que os fazia. Ela só fumava. Mas ali estava ela, na casa-de-banho, sentada na tampa da sanita, a fazer um charro. Eu ensaboei o corpo. Tinha um sabonete Patti. Gosto do cheiro deste sabonete. Ela acendeu o charro. Eu comecei a tirar o champô do cabelo e, de seguida, também o sabonete do corpo. Ela estava a fumar o charro. Levantou-se e chegou o charro à minha boca. Eu dei uma passa. Ela voltou a sentar-se no tampo da sanita com o charro nos dedos. Eu desliguei o chuveiro. Peguei na toalha e comecei a limpar-me.
E, então, ela disse Vou-me embora. E eu pensei que estava cansado mas estava disposto a ir com ela e disse-lhe Espera um pouco que vou contigo, fosse lá para onde é que ela ia. E ela insistiu Vou-me embora. Eu já estava seco, larguei a toalha sobre o lavatório e voltei a dizer-lhe Também vou. São cinco minutos. Mas ela levantou-se, deu uma passa no charro e depois colocou-o na minha boca. Eu puxei uma passa. Ela saiu da casa-de-banho e deixou a porta aberta. Estava a puxar uma segunda passa no charro quando ouvi a porta da rua a abrir e a voltar a fechar-se.
Olhei para o espelho mas estava embaciado e não me vi lá reflectido. Puxei mais uma passa. E reparei que a escova dos dentes dela não estava no copo das escovas de dentes.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/07]

Tarde de Piquenique

A tarde era de piquenique entre nós. Nós, os miúdos. Sim, porque já fui miúdo. Como todos vós. Não nasci de natureza espontânea. Desci à rua pelo mesmo vaso comunicante entre o interior e o exterior. Nasci. Cresci. Estupidifiquei. Envelheci. E finalmente cheguei à razão. Já é tarde. O que me resta? As memórias.
Vamos lá então.
A tarde era de piquenique entre nós. Nós, os miúdos. Tínhamos roubado a saca das carcaças da mercearia. Havia dez pães para cada um de nós. Quantos pães? Não sei. Quantos éramos? O R. o P. o outro P. o outro R. o V. o A. e o J.P. a C. a N. e… Perco-me nas memórias. Há gente que cresceu comigo e desapareceu das histórias. Sei que estavam lá. Porque estavam sempre lá. Como eu e os outros, os que não esqueço. Os que me lembro. Estávamos lá sempre todos. Em conjunto. Em comunhão. Antes de crescermos e nos tornarmos intolerantes. Antes de virarmos à esquerda. E à direita. Antes de nos tornarmos parvos. Senhores de um nariz emproado e com a mania da razão. Filhos da certeza. Adultos. Burgueses. Malteses e às vezes. Mas divago. Isto hoje está difícil. Perco-me nas estradas da memória. Fico zangado por me esquecer. E por me lembrar.
Recomeço. Vamos lá.
A tarde era de piquenique entre nós. Os miúdos. Tínhamos roubado a saca das carcaças da mercearia. Havia dez pães para cada um de nós. O que faltava? O que pôr lá dentro. O que pôr lá dentro do pão. Eu roubei duas latas de atum Bom-Petisco em casa. Uma lata de sardinhas com tomate picante. E uma lata de salsichas Isidoro, que a Nobre só chegaria mais tarde. Ninguém lá em casa daria pela falta das latas de conserva. Havia lá sempre bastantes. Cada vez que a minha mãe ia ao Ulmar, o único supermercado da cidade, trazia sempre umas latas que iam para o monte das latas. Não importava se faltavam ou não. Se eram necessárias ou não. As latas davam sempre jeito. Para aqueles dias de pressa. Para aqueles dias em que não apetecia cozinhar à minha mãe. O que quase nunca acontecia. E, então, mesmo nessas ocasiões, era um empadão de arroz com atum e umas pinceladas de ovo por cima do arroz. Para tostar no forno. Era esparguete com atum e ketchup. Era uma Salada Russa com atum, que ocupava o espaço da pescada cozida. Era um cachorro como já não se faz. O pão torrado, não aquecido, a salsicha frita, não cozida, a manteiga a barrar o pão torrado e a mostarda a riscar as salsichas cortadas a meio, e não batata-palha (que merda de conceito!) e alface migada e milho cozido em cima de uma salsicha grossa, cozida e mal parida.
Escolhemos o pinhal atrás do RAL4. Perto de casa, mas longe da vista. Sentados no chão, que a ninguém lembrou levar uma manta. Os rabos picados na caruma, nos restos de pinhocas partidas. A escolha pelos montinhos de musgo que não chegavam para todos os rabos. O pão rasgado à mão, que ninguém se lembrou de levar uma faca, uma navalha, um corta-unhas. O atum e as sardinhas, as salsichas, as fatias de fiambre popular, de mortadela, de queijo flamengo cortado toscamente e enfiado à pressão dentro do pão rasgado, que ninguém tinha levado um garfo, uma colher. Muito menos guardanapos. Em casa ainda se utilizavam guardanapos de pano, lavados depois de uma semana de uso. Ainda nos lembrámos de encher um antigo garrafão de vinho de cinco litros, de vidro, de vidro coberto de palhinhas, de água trazida da torneira exterior da casa de um de nós. A mesma torneira onde uma mangueira, no Verão, nos fazia as delícias de um duche pré-piscina, que não tínhamos, mas que éramos bons a imaginar, que a imaginação foi razão que nunca perdemos mesmo se o dinheiro e as facilidades não fosse coisa que abundasse na rua. Naquela rua da minha infância.
A tarde era de piquenique. Tinha sido de piquenique. Dez pães para cada um de nós. Pães com atum. Com sardinhas. Com salsichas. Com fiambre popular. Com mortadela. Com queijo flamengo. Com embuchanço empurrado com água de sabor a vinho tinto rasco que ainda permanecia, e iria permanecer para o resto da vida, no interior daqueles garrafões que iam constantemente a encher nas adegas sem nome que os pais conheciam. Havia sempre um amigo de um amigo.
A tarde tinha sido de piquenique. A noite seria de dores de barriga. Vómitos. Diarreia e vomitado. Nada que estragasse a minha infância. Era já ritual do habitual. No dia seguinte já estava bom para outra parvoíce qualquer.
E era de parvoíce em parvoíce que íamos gozando a nossa infância. Uns mais que outros. Eu, sempre que possível. Gostava de parvoíces. Ainda gosto. E de piqueniques. Vinho tinto rasco. Agora, sem água. E latas de sardinhas com molho de tomate picante.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/01]

Lavar a Louça É Terapêutico

E o tipo, com um olhar muito sério, disse-me Só é grave quando começas a ver aranhas. Aranhas a sair dos buracos inexistentes da parede. Andas a ver aranhas? perguntou-me, e eu abanei a cabeça. Então caga nisso, disse Anda daí.
Estávamos na véspera da véspera do ano novo. Eu e um grupo de amigos tínhamos alugado uma casa em Vila Nova de Milfontes. Fomos uns dias antes. Para ir fazendo a despedida do ano. E eu já estava zangado com toda a gente, com o ano velho e com aquele que ainda não tinha chegado.
Naquela época eu zangava-me com muita facilidade. Era um rapaz muito sensível. Qualquer coisa, por mínima que fosse, mexia-me com os nervos.
Talvez por não fazer sexo. Naquela época não conseguia arranjar namoradas com facilidade. Eu era um tipo complicado. Muito chato. Picuinhas. Às vezes, até, um pouco arrogante. As namoradas não passavam dos primeiros dois ou três dias, de umas mãos dadas transpiradas e uns beijos sôfregos sem consequências. Talvez por não saber o que fazer da minha vida. Estava tentado a desistir do curso superior que frequentava mas também não sabia muito bem para onde ir. Muitos problemas. Muitas dúvidas. Muito vinho. Muita droga. Porra! que a vida juntou-se toda só para me chatear. Basicamente era assim, a minha vida. De problema em problema. E depois de explodir, depois de mandar toda a gente à merda, ficava sozinho. Curtia a minha depressão. A minha ressaca da zanga. Normalmente dava-me para lavar a loiça. E foi o que fiz depois da terrível discussão em Vila Nova de Milfontes sobre qualquer coisa de muito importante mas que já não me recordo hoje, passados todos estes anos.
Então, era véspera da véspera. Tínhamos acabado de almoçar. Saíram todos de casa, em grupo, e eu odeio grupos!, para irem beber café à rua. Eu fiquei em casa. Eu e a minha neura. Pus-me a lavar a loiça. A loiça de almoço de, quê? cerca de vinte pessoas? Talvez isso. Mais uma, menos uma. Durou uma hora. Ali, em pé, curvado sobre o lavatório da cozinha, de esponja na mão, embalagem de detergente a esguichar em abundância. Fazia muita espuma. Queria sentir a gordura a desaparecer dos pratos, das minhas mãos. Queria ver os copos brilhantes, sem dedadas nem lábios de batom ou de comida.
Quando acabei, doíam-me as costas e tinha os dedos enrugados.
Sentei-me no sofá a olhar para a televisão. Um programa de merda qualquer daqueles para matar horas e entreter os velhos. Um copo de vinho nas mãos. Um cigarro aceso. A neura estava a ir embora. Estar ali a esfregar pratos e talheres e copos e despejar os restos no caixote do lixo e apanhar todas as garrafas vazias de vidro de cerveja e de vinho espalhadas pela casa, tinha-me acalmado.
Depois de fumar o cigarro e beber o copo de vinho, fui à rua levar o lixo. Os caixotes já estavam cheios. Mandei tudo para cima do monte que já se erguia acima da boca do caixote. Pensei quando é que o lixo ia começar a cair para o chão. Vi que já havia muita gente da cidade em Milfontes. Os cabrões! E regressei a casa. Curtir a casa silenciosa e calma antes do regresso dos outros todos, a pensar que Vila Nova de Milfontes já estava a ser inundada de gentinha chata vinda da capital. Gente assim como eu, não é?
Acendi a lareira. Continuei a beber a garrafa de vinho tinto. Entre o calor da lareira e o embalo do vinho, deixei-me adormecer.
Fui acordado com a chegada dos outros. Disseram-me, aos gritos, que íamos fazer uma prova de vinhos cega, com os rótulos tapados. E eu, acordado assim de chofre, aos berros, por gente muito feliz e histérica, a correr de um lado para o outro para preparar a mesa disse Vão para o caralho! Eu não jogo!
Um deles sentou-se ao meu lado, no sofá, e perguntou-me Porquê, pá? e eu respondi Já bebi uma garrafa inteira, sozinho, porque estava sozinho, não estava aqui ninguém, foi-se tudo embora e eu bebi a garrafa sozinho e estou bêbado.
Ele riu-se, o filho-da-puta, e disse Estás bêbado, mas ainda não estás muito bêbado. Por isso não é grave. Só é grave quando começas a ver aranhas. Aranhas a sair dos buracos inexistentes da parede. Andas a ver aranhas? perguntou-me, e eu abanei a cabeça. Então caga nisso, disse Anda daí.
Eu levantei-me do sofá. Acendi um cigarro e fui sentar-me à mesa, à frente de um copo de vidro ainda vazio e várias garrafas de vinho tinto com os rótulos tapados. À vez iam chegando queijinhos e patés e tostazinhas integrais à mesa. Eu agarrei num bloco, numa caneta, e esperei que me servissem o vinho para começar a prova. Ainda não via aranhas.
Nessa passagem de ano continuei sem ter sexo. Lavei a louça todos os dias. Sozinho.
Nesse ano desisti do curso e fui trabalhar enquanto pensava no que fazer à minha vida.
Já passaram, o quê?, mais de trinta anos desde essa época, e eu continuo sem saber o que fazer à minha vida. Mas tenho fé que um dia descubro. Ainda gosto de lavar a louça.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/23]

Só Vemos o que Queremos Ver e Quando o Queremos Ver

Ela aproveitava todas as situações para me expôr ao ridículo. Nada de muito grave. Pequenas coisas que dizia ou fazia em frente às outras pessoas e que me deixavam um pouco desconfortável. Acho que nem fazia por mal. Ela era assim. Acho que era assim quando eu a conheci. Só que naquela altura não via as coisas que não me interessavam ver. Só lhe via o belo cabelo louro, de caracóis soltos. Os lábios carnudos. E os seios. Ah, os seios dela! Naquela altura era o que eu via. E as conversas! Quando me disse que o escritor que mais gostava de ler era o Philip Roth. Que o pintor que mais admirava era o Rothko. Que a música onde mais se refugiava era a do Nick Cave. Principalmente da última fase, mais negra e melancólica. Quem se põe a ver os erros de quem apresenta tantos, e tão bons, cartões de visita?
Depois comecei a notá-los. Os pequenos toques bravios. Por vezes até, um pouco cínicos. Maldosos, mesmo. Limpava-me a caspa dos ombros. E eu nem tenho caspa. Raspava a aba do meu casaco com a unha grande e pintada de vermelho sangue, como se eu tivesse algum resto de comida. Ou esfregava com o polegar os meus lábios, como se estivesse a limpar o batom do beijo que, afinal, e mais lá para o fim, não me tinha dado.
Disse várias vezes Estás a ficar com entradas. Estás a ficar careca. Tens de começar a ir ao ginásio. No princípio essas coisas não me faziam mossa. Pensava sempre que era para mostrar aos meus amigos que se interessava por mim. Que cuidava de mim. Que ficassem descansados que ela tratava bem de mim.
Depois, lá mais para o fim, era já o descaramento. O agarrar-me a mão ostensivamente, em frente de quem quer que fosse, como se eu fugisse de lhe dar a mão, e depois, em casa, já mal trocávamos duas palavras. Foi um altura em que passava muito tempo agarrada ao telemóvel. Não sei a fazer o quê. Também nunca quis saber. Acho que são coisas pessoais e assim devem ficar. Mas incomodava-me vê-la sorrir agarrada ao telemóvel. A comunicar com sei-lá-quem.
Até um dia.
Foi numa festa. Farto de confusão e zangado com o rumo que a minha vida estava a levar com ela, resolvi ir-me embora. Abeirei-me dela e segredei-lhe Vou-me embora. Ela disse Fico mais um pouco. Eu acenei Sim, fica. E depois, num tom um pouco mais alto disse-lhe Tens o vestido sujo atrás. Parece sangue. Ela ruborizou. Olhou em volta. Saiu a correr da festa e deixei de a ver. Deve ter ido para a casa-de-banho. Eu fui embora.
Em casa, fiz-lhe as malas e pu-las à porta. No lado de fora.
Deixei a minha chave na fechadura. Desliguei a campainha. Tomei um Zolpidem. E fui deitar-me.
No dia seguinte as malas dela já não estava à entrada de casa. Nunca mais a vi.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/22]

Trabalho em Troca de uma Cerveja

Vejo o fumo sair da ponta incandescente do cigarro preso entre os dedos e voar lá para cima, para o canto do tecto.
Não se pode fumar aqui, disse a miúda enquanto passava.
Eu ouço o que ela diz, mas estou a ver o fumo a voar para o tecto e juntar-se no canto.
Ainda estava a pensar no que o gajo me tinha dito. Tudo assim ao mesmo tempo. Ele, ela e o fumo. Ele estava à espera de uma resposta. A mim, apetecia-me mandá-lo à merda. Mas ele é um daqueles tipos que não se pode mandar à merda. Por isso é que ia explodindo quando a miúda disse que eu não podia estar a fumar ali. Se não rebento para um lado, rebento para outro. Mas, coitada da miúda. Ela não tinha culpa. O meu problema não era com ela. Era com ele. E sim, sabia que não podia estar ali a fumar. Mas estava. Estava tão zangado que o cigarro foi a minha maneira de mandar tudo para o caralho.
Bebi o resto da bica de um trago. Já estava fria. Deixei lá cair a cinza do cigarro.
O tipo aclarou a garganta. E diz São só uma ou duas horas. Umas fotografias rápidas. Uns registos. Não posso é pagar-te, não é? Não tenho dinheiro para isto!
E é isto! o que me irrita! O isto! O nunca haver dinheiro para isto! mas, no entanto, estão sempre a contar com isto!
O fumo continua a subir para o tecto. A miúda volta a passar. Não diz nada. Mas vejo-a parar lá à frente, a olhar para mim. O olhar a fuzilar-me. A pensar que eu devo julgar-me importante. Ou parvo. Toda a gente sabe que não se pode fumar em sítios fechados que não sejam a casa de cada um. E no entanto, ali estava eu a fumar um cigarro, a colocar a cinza dentro da chávena vazia de uma bica, e a ver o fumo a subir até ao tecto.
Gostava de saber fazer argolas de fumo, como calamares. Mas não sei. Só sei puxar o fumo para os pulmões, prendê-lo e deixá-lo sair, pela boca ou pelo nariz. Nunca fui um artista do fumo. Sou só um artista da imagem. Fotografia. É o que faço. É onde sou bom. Mas há pouco trabalho para um gajo como eu. Não é que não precisem de fotógrafos. É que já têm. Já têm fotógrafos. Geralmente um. Que não chega para as encomendas, claro. Mas para quê pagar a dois gajos para andarem para trás e para a frente a passear as máquinas a tira-colo, a roçar o cu pelas paredes à espera do momento, quando um deles faz o trabalho todo? Mas o problema é que não faz o trabalho todo. Nunca faz. E depois surgem tipos como eu. Os mortos de fome. Os que estão sempre à espera da oportunidade de uma vida. É agora! É agora, porra! Mas nunca é agora. Porque o meu trabalho só é bom quando é à borla. Porque o meu trabalho não é bem trabalho, não é? Os artistas não trabalham, pá! Fazem umas cenas. Divertem-se lá com as coisas deles. E riem-se muito, dentes branquinhos escancarados no sorriso alarve, a rir, a gozar.
Acabo o cigarro. Esmago a beata na chávena. A miúda vem logo retirar a chávena da mesa com o cigarro lá esmagado.
O tipo continua Mas há umas cervejas! Há sempre umas cervejas. É o combustível que nos faz mover, a cerveja. E quando deixar de ser eu, há sempre outro morto de fome à espera da oportunidade.
Olho para o tipo e espeto-lhe um murro entre os olhos. Parto-lhe a cana do nariz. Vejo o sangue a jorrar sobre a mesa do café e a miúda a gritar e a aproximar-se com um pano para limpar a mesa do sangue.
Olho para o tipo e digo-lhe Ok! Está bem! e vejo-o sorrir, aquele sorriso cínico de quem enganou mais um. Mas não foi ele que me enganou. Fui eu que me deixei enganar.
O tipo levanta-se. Dá-me uma palmada amigável no ombro e diz Sempre gostei das tuas fotografias! Tens olho! e eu penso que sim, que tenho olho, mas não tenho mais nada. Não tenho capacidade para me vender e fazer-me render o que devia e penso que ainda não é desta que a minha vida muda.
Levo a mão ao bolso das calças e conto as moedas para ver se tenho suficiente para pagar a bica. Mas o tipo diz Não! Deixa lá! Eu pago!
Eu aceno a cabeça, agradecido. Eu sou um agradecido. Agradeço a bica enquanto ofereço o meu trabalho em troca de umas cervejas.
Mas não fui enganado. Deixei-me enganar. Porque quis. Porque gosto de fazer o que faço. Porque sei que sou bom no que faço. E porque sou melhor que estes tipos que nunca têm dinheiro para pagar o trabalho dos outros a quem têm o descaramento de pedir borlas.
Saio do café e acendo outro cigarro. Saio pela cidade. Esqueço-me do tipo que ficou lá para trás a pagar a bica e desapareço entre gente atrasada, muito atrasada para os seus trabalhos mal-pagos mas que são obrigados a aceitar porque é assim que a vida é.