Dantes Era Assim

Eram cinco da manhã e o meu pai carregava-me ao colo até ao carro. Depositava-me no banco traseiro. A minha almofada já lá estava à espera da minha cabeça sonolenta. Trazia comigo o cheiro a fritos dos rissóis que a minha mãe estava a fritar. Mais umas bifanas. Uns ovos mexidos. Eu não sei bem, que estava a dormir. O meu pai carregava-me em peso até ao carro. Não lavava a cara. Nem os dentes. Nem fazia xixi. Ia da cama para o carro. A dormir. Isto tudo que sei, contava-me depois o meu pai. E a minha mãe. Descobria eu próprio ao remexer na cesta do farnel.
Eram cinco da manhã e o porta-bagagens estava cheio. Cheio e bem arrumado que o meu pai tinha mestria para pôr o Rossio na Betesga.
O meu pai a conduzir. A minha mãe ao lado. Eu atrás. Deitado no banco, a dormir. Com a cabeça enfiada na almofada que me acompanhava para todo o lado.
Era com os primeiros raios de sol, em dias que prometiam calor, que a minha mãe me acordava. Acorda, mandrião! Olha o sol! dizia.
E eu acordava, admirado por estar ali. No carro. Em andamento. Com o sol a bater-me nos olhos. Eles a não quererem abrir. Eu a esfregá-los. Olhava pela janela e via as árvores a passarem lá para trás. Os outros carros que nos ultrapassavam. E eu apertava as pernas. Com vontade de fazer xixi. E o meu pai parava o carro na berma da estrada, algures, onde fosse, e íamos os dois, eu e o meu pai, fazer xixi junto a uma árvore. Os outros carros passavam e apitavam. O meu pai levantava a mão e dizia adeus, lá para trás. Sem se virar.
Voltávamos ao carro e a minha mãe já tinha desmontado a mala que era uma mesa de campismo com quatro bancos lá dentro. Já tinha acendido um pequeno bico de gás. Fazia café para ela e para o meu pai. Aquecia leite para mim. Uma bifana para cada um. Um rissol. E regresso ao carro e à estrada.
E lá íamos nós.
Para onde quer que fosse. Naquela altura todas as viagens começavam assim. Daquela maneira. Sempre igual. Sempre fascinante. Acordava no carro. Com o sol a bater nos olhos. Fazia xixi na rua. A minha mãe tinha umas sandes substanciais para o pequeno-almoço.
Gostava de comer uma bifana assim, no meio do pinhal. Com os carros a passar por nós e a apitar. A fazer xixi contra uma árvore. E o mais importante, ir a caminho da praia.
Chegávamos junto ao Sado. Um rio que se confundia com o mar. Setúbal. Depois de já termos passado Lisboa. Depois de já termos voado sobre o Tejo. E o coração apertado. O medo. O medo das alturas. O medo de cair. Mas a sensação de estar acima de tudo e de todos. E depois esperávamos na fila com os outros carros. Entrávamos no ferry e zarpávamos para Tróia. Saía do carro e tentava ver os golfinhos. Nunca vi nenhum.
Houve um ano que almoçámos num restaurante self-service e eu ainda pude tomar banho numa das piscinas de Tróia. Foi uma boa viagem, essa. Levar o almoço num tabuleiro, como gente grande. Nadar numa piscina nova, bonita, no meio de gente desconhecida, a espreitar os meus pais na esplanada para confirmar que não fugiam e me deixavam ali no meio de estranhos.
Depois o regresso à viagem. As uvas que a minha mãe me dava. A minha mão a surfar o vento à janela até o meu pai me mandar fechar o vidro.
Chegava a saturação. Já chegámos? Ainda falta muito? E agora?
E agora tinha de beber água que a minha mãe me obrigava. Para não desidratar. E agora o meu pai tinha de parar o carro para fazer, de novo, xixi. E agora, comia umas bolachas. Queria um gelado mas não havia. Não tenho aqui gelados!, dizia a minha mãe. Pois não!, confirmava o meu pai. E eu contentava-me com umas bolachas Torrada barradas com manteiga, duas-a-duas, que a minha mãe sabia serem as minhas preferidas.
E agora chegávamos à cento e vinte cinco. A estrada.
E agora o meu pai dizia que já estávamos quase.
E agora eu via a noite cair. O carro sem parar. E já então sabia que o quase dele era diferente do meu.
E quando, finalmente, chegávamos, eu estava, de novo, a dormir. Deitado no banco de trás do carro, com a cabeça enfiada na almofada. E o meu pai iria pegar em mim e levar-me ao colo para a cama, o divã, o sofá onde eu iria dormir nos próximos dias.
E quando acordasse na manhã seguinte, então sim, estava oficialmente de férias.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/29]

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Num Banco de Jardim que Estava numa Praça

Sentei-me no banco de jardim que não estava num jardim, mas numa praça. Numa pequena praça. Numa pequena praça com meia-dúzia de arbustos e algumas flores, mas sem árvores. Uma pequena praça a caminho da entrada do metropolitano. Eu sentei-me ali, naquele banco, no meio da cidade que por ali passava, apressada, a caminho de qualquer coisa, com a mochila ao meu lado.
Sentei-me naquele banco porque dali podia ver as janelas da casa. Da casa dela. Sabia quando estava na cozinha a fazer um chá, a única coisa que se sentia habilitada a fazer – nem a porra de umas torradas! Da última vez teve de chamar o porteiro para lá ir apagar as chamas. Sabia quando estava na sala, pelas luzes que piscavam, as luzes das imagens da televisão onde seguia sempre, atentamente, os programas noticiosos. Sabia quando estava na casa-de-banho porque se acendia a luz da janela mais pequenina, aquela que ficava entre a janela da sala e a do quarto. E sabia quando é que estava no quarto. Porque todas as luzes da casa estavam desligadas. Era hora de dormir.
Sentei-me no banco de jardim por alguns dias. Eu via-a dentro de casa. Olhava para ela a cirandar de um lado para o outro, via-a a olhar cá para fora, para a rua, para aquele banco e, no entanto, sentia que ela não me via. Isso moía-me o coração. Eu estava lá sentado, no banco, no banco de jardim, na pequena praça a caminho da entrada do metropolitano, com a mochila ao meu lado, a olhar para ela e ela não me via. Eu abria a mochila e tirava um livro. E lia. E quando me cansava de ler, tirava um caderno da mochila, uma caneta, e escrevia. E quando chegava a noite, e eu não tinha luz suficiente para ler e para escrever, tirava da mochila o iPod e ouvia música. E sempre com um cigarro a queimar entre os dedos da mão. Parecia que o maço de cigarros não tinha fundo. Havia sempre um cigarro para me acompanhar. E assim passei alguns dias, e algumas noites, naquela pequena praça à entrada do metropolitano, sentado num banco de jardim. Tive sorte. Não choveu. Não fez muito frio. Só tinha de vestir um casaco de lã, velho, que tinha comigo. E a noite passava suave por mim. E eu permanecia sentado no banco de jardim. Fumava um cigarro. Olhava-a. E esperava que ela me olhasse e me visse.
Foi na terceira noite. Na terceira noite que estava sentado no banco de jardim que não estava num jardim, mas sim numa praça. Estava a fumar um cigarro e a perguntar-me Porque raio não tenho fome? Parecia-me estranho estar ali há tantos dias sem comer. Sem ir à casa-de-banho. Nem sequer um xixi nos arbustos à entrada do metropolitano. Quando a vi chegar. Ela chegou num carro que eu não conhecia. Conduzido por alguém que eu também não conhecia. E senti o coração a bater. A bater muito rápido. E vi-a debruçar-se para o lado. Para o lado do tipo que eu não conhecia. E trocarem um beijo. Um beijo que foi mais um toque de lábios, mas um beijo.
Levantei-me do banco de jardim, a tremer, e dirigi-me ao carro que não conhecia. Vi-a dizer qualquer coisa ao homem. Vi o homem dizer-lhe qualquer coisa a ela. Vi-a sorrir. Voltar a emprestar os seus lábios aos lábios do homem. E eu aproximava-me do carro. E ela abriu a porta do carro. E eu cheguei lá. Cheguei ao pé do carro que não conhecia. E ela saiu do carro. E eu estiquei a minha mão para agarrar a mão dela. Mas a mão dela fintou-me e não se deixou agarrar. E ela saiu do carro. Fechou a porta. Eu pus-me à frente dela para lhe bloquear a passagem e senti-a passar por mim. Por dentro de mim. Como se não me visse. Como se eu fosse invisível. Inexistente. Como se eu não estivesse ali.
Fiquei parado. Parado entre ela e o carro que eu não conhecia de lado algum. Fiquei ali a vê-la caminhar até à entrada de casa. Vi-a tocar a campainha. O porteiro a abrir a porta. E ela virar-se. Virar-se para mim. Ela virar-se finalmente para mim, e acenar com a mão, enquanto me mandava um beijo pelo ar. E eu vi o beijo a voar, a voar desde os lábios dela, e dirigirem-se a mim. Eu sorri. Finalmente ela tinha-me visto. E o beijo passou por mim e não parou. Continuou. Continuou a voar até entrar dentro do carro e pousar, suave, doce, sobre os lábios do homem que eu não conhecia. E vi a cara de parvo que o homem fez quando sentiu o beijo dela nos seus lábios. E reconheci aquele sorriso parvo.
Ela entrou em casa. O carro arrancou pela cidade. Eu fui buscar a minha mochila ao banco de jardim que não estava num jardim, mas numa praça. E desci as escadas para o metropolitano.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/26]