Um Cogumelo no Céu de Beirute

A minha mãe dizia que aqui (aqui onde vivíamos) Vivemos num cantinho do céu. Tudo o resto é sempre lá longe. Lá longe onde existem os acidentes. Onde existem as guerras. Onde existem as centrais nucleares que explodem. Onde existem os democratas que implodem a democracia. Onde existe a semente do diabo. É sempre lá longe. Longe da vista. Longe do coração. Longe do paraíso que é este Cantinho do céu guardado por Deus, dizia a minha mãe.
O telemóvel deu sinal. Um alerta da TSF. Notícia importante. Uma enorme explosão em Beirute, no Líbano. O que é uma enorme explosão?
Liguei a televisão da sala. Na SIC Notícias estava uma imagem em loop. A imagem da explosão. Primeiro um cogumelo branco, enorme, que depressa se desintegra, depois um cogumelo mais pequeno, escuro, e o sopro de ar que arrasta o telemóvel que gravava o acontecimento. Sou impressionável.
Acendi um cigarro. Sentei-me no sofá. Estava a tremer.
Revi. Revi tudo. Primeiro um enorme cogumelo branco que se desfez depressa, e deixou caminho a um cogumelo mais pequeno e escuro. Depois o sopro da explosão, a onda de repercussão, que fazia rodopiar o telemóvel e quem o estava a agarrar para gravar a explosão.
Que explosão era aquela? Ninguém sabia. Talvez um acidente. Talvez um ataque. Os especialistas falavam. Cristãos e muçulmanos. Judeus e muçulmanos. O Hezbollah. O Irão. Israel. A crise económica. Há sempre uma crise económica. Oh, a puta da crise económica que nunca deixou de existir desde que eu conto as moedas no bolso das calças. Mas os ricos cada vez mais ricos. É para o que servem as crises económicas. Para os ricos ficarem mais ricos. As crises são sempre uma oportunidade.
A explosão era uma grande explosão. Afinal, haviam várias explosões. Vários mortos. No meio da cidade. Depois das imagens da explosão, as imagens de Beirute depois das explosões. E, de repente, parece que estou a olhar para Aleppo. A explosão destruiu aquela zona da cidade. Destruição, mesmo. Edifícios destruídos. Carros destruídos. Estradas destruídas. Janelas rebentadas numa área de cinco quilómetros. O som ouviu-se no sul do Líbano. Ouviu-se no norte de Israel.
Acabo o cigarro e acendo outro. Encho um copo com Jameson. Sem gelo.
Chegam novas imagens da explosão. Mas o ritmo é sempre o mesmo. O cogumelo grande. O cogumelo pequeno. O sopro da deslocação de ar que parece arrastar tudo à sua frente, tudo ali à volta. Parece um ataque nuclear em miniatura. Efeitos especiais de Hollywood.
A explosão impressiona-me.
Aqui vivemos num cantinho do céu, não é?
Mas lá longe!… Oh, foda-se! Lá longe…
A noite começa a cair em Beirute. Vê-se, melhor, as sirenes dos bombeiros e da polícia. Há muita gente na rua. Gente com telemóveis na mão.
Depois aparecem as imagens da destruição. As imagens depois da explosão. Depois do cogumelo. E é devastador. À volta do porto, a destruição. Uma terraplanagem. Um sopro transformou o centro de Beirute. Mas já lá anda gente. Há sempre gente em todo o lado. As pessoas são como as baratas. Mesmo no coração da destruição não pára de aparecer gente.
Há mortos. Dez mortos, parece. Para já. Centenas de feridos. Para já.
Há terras condenadas ao horror. A viverem o Inferno na Terra.
Nós aqui, vivemos num cantinho do céu. Dizia a minha mãe.
Apago o cigarro. Despejo o copo de whiskey. Acendo outro cigarro. Despejo mais Jameson no copo.
Parece que foi um acidente num armazém de pirotecnia. Mas também pode ter sido outra coisa. Ninguém sabe. Nunca se sabe. No Líbano pode haver sempre mais qualquer coisa. Há-de haver sempre outra explicação. Afinal, estamos no médio-oriente. No Líbano. Em Beirute. Há sempre um problema. Há sempre uma explosão. Há sempre uma morte. Há sempre um Deus. Há sempre a porra de um Deus a justificar tudo. Para o bem e para o mal. É tão bom sacudir a responsabilidade dos ombros.
Entretanto há o Covid-19. Os hospitais de Beirute lotados. Para onde irá esta gente? Estes feridos?
Na televisão, os comentadores não param de falar na crise económica. Na devastação económica. Nos problemas económicos libaneses. Problemas crónicos. Não são sempre crónicos, os problemas económicos?
Uma última notícia no oráculo televisivo afirma Líbano diz que Israel nada tem a ver com explosões.
Há países nascidos para sofrer. Há gente nascida para sofrer.
Apago a beata do cigarro. Bebo o último gole de whiskey. Volto a encher o copo. Volto a acender um novo cigarro.
É noite em Beirute.
No oráculo do canal noticioso, assim como não quer a coisa, a notícia passa em rodapé Israel ataca posições no sul da Síria. Nunca nada é só aquilo que parece.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/04]

Com Vontade de Partir a Cabeça

Mando a garrafa vazia contra a parede ali em frente. Vejo-a estilhaçar-se em pedaços. Vejo os pedaços espalharem-se pela cozinha. Ouço os pedaços que deslizam pelas lajes do chão da cozinha. Alguns pedaços enfiam-se debaixo do frigorífico. Outro vêm para aqui, para perto de mim. Para debaixo de mim. Estou descalço.
Foda-se!
Acho que estou com os copos.
Vejo a parede em frente com uma mancha. Não, um rasgo. Um rasgo na pintura. Devia colocar azulejo.
Levo o copo à boca. Está vazio. Onde está a garrafa? Levanto-me e viro-me para trás, à procura da garrafa. Mexo os pés. Piso alguma coisa. Sinto que um pedaço de vidro entra dentro de mim. Berro! Dou um berro! Sinto dor. Olho para baixo e vejo sangue no chão. Vejo sangue no pé. Vejo um pedaço de vidro espetado no pé. E digo A garrafa!…
Baixo-me e retiro o pedaço de vidro espetado no pé. Sai mais sangue. Tento estancar o sangue com um pano de cozinha. Sento-me de novo e faço pressão sobre o golpe no pé com o pano de cozinha. Penso A garrafa está vazia! Tento pensar se tenho outra garrafa de whiskey e não consigo lembrar-me.
Acendo um cigarro. Olho para o copo vazio. Dou uma passa no cigarro. Vejo o rasgão na tinta da parede em frente. Olho para o copo vazio à minha frente. Dou uma passa no cigarro. Afasto o pano de cozinha do pé e vejo que ainda deita sangue. Volto a fazer pressão. Dou uma passa no cigarro. Olho para o copo vazio. Dou uma passa no cigarro. Levo a mão com o cigarro ao copo e, lentamente, empurro o copo vazio pela mesa, até à borda da mesa e forço-o a cair. O copo cai no chão. Vejo-o partir-se. Ouço-o partir-se em contacto com o chão. E vejo-o partir-se. Os pedaços partidos do copo voam por todo o lado. Fazem companhia aos pedaços da garrafa. Estou descalço.
Porque é que estou a partir coisas? Porque raio é que estou a partir vidros na cozinha? Estou descalço. Vou ter de apanhar os vidros. Todos os pedaços. Mesmo os pequenos. Até aqueles que nem vejo.
Porque é que estou a partir coisas?
Acho que estou com os copos. Estou com os copos?
Acho que estou zangado.
Devo estar zangado com qualquer coisa. Não me lembro.
Levanto-me. Abro a porta de um armário. Há ali várias garrafas. Descubro uma garrafa de Yamazaki de 12 anos. Como é que veio aqui parar? Não tenho dinheiro para isto. Abro a garrafa. Bebo um gole pelo gargalo.
Um néctar, digo. Ninguém me ouve.
Volto à mesa. Sento-me. Não tenho copo. Nem gelo. Vejo os vidros no chão. O chão com sangue. Sinto uma queimadela nos dedos da mão. descubro um resto de cigarro queimado numa das mãos. Largo a beata no chão. Ergo a garrafa e volto a beber pelo gargalo. Penso É mal empregue estar a beber assim.
E depois? Estou com os copos. Sem copo. Estou zangado.
Olho em volta.
Acho que estou perdido. Estou perdido.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/03]

Escondido, parte 07

[continuação de ontem]

Onde é que eu poderia ir procurar alguém? Saber notícias? Perceber o que estava a acontecer e porque é que ninguém parecia ligar ao que estava a acontecer? Porque estava a acontecer alguma coisa, não estava? Eu não estava doido, pois não?
E foi então que pensei nela.
Achava que a tinha visto na manifestação. Ela era toda dada aos movimentos de contestação. E em defesa das minorias e dos animais maltratados. Um dia organizou o rapto de uns cães numa pequena quinta para os lados de Alcogulhe. Isso valeu-lhe uma noite de detenção na esquadra da PSP de Leiria. E essa detenção serviu-lhe como cicatriz, medalha e cv. Isso foi o que me atraiu nela, na altura. Depois, mais tarde, também foi o que me afastou.
No dia da manifestação, tive a impressão que a tinha visto lá no meio de um grupo de amigos. Mas não liguei muito. O que aconteceu, já tinha acontecido há muito tempo. E eu não estava em fase de relembrar histórias do passado, por mais engraçadas e importantes que tivessem sido. Estava noutra. E nem sequer me sentia muito ligado aquele tipo de manifestações. Foi mais pelo tempo que estive enfiado em casa. Foi mais pelo ambiente de festa que se adivinhava. Fui mais para desanuviar. E depois aconteceu o que aconteceu.
Agora as coisas tinham-se tornado outras para mim. O que tinha acontecido na manifestação tinha-me empurrado para outro lado. Agora não era só uma brincadeira, uma forma de desanuviar daqueles quatro meses enfiado em casa e longe de toda a gente. Agora era sério. Agora tinha-se tornado sério. Alguém estava a querer tomar conta da vida. Da vida de todos nós. Alguém estava a querer fechar-nos dentro de uma gaiola e dar-nos ordens. E, aparentemente, quase ninguém parecia preocupado com isso.
Voltei a cruzar a cidade. Subi à Gândara dos Olivais e acabei por andar por lá à procura da casa dela. Aquilo parecia-me tudo igual. Casas, casas, casas. Casas e hiper-mercados. Um bowling. Já lá houve uma Moviflor. Agora há lá uma escola. Os miúdos saem directamente das mesas da escola para os lineares dos hiper-mercados. O mercado de trabalho não qualificado vai de vento em popa. Salários baixos e bons lucros.
Às voltas pelas ruas que me pareciam todas iguais da Gândara dos Olivais, acabei por pensar na primeira vez que fodemos. Foi logo depois da história os cães de Alcogulhe. Achei que tinha sido um grande feito e fui dizer-lho ao balcão do bar onde a encontrei no próprio dia em que foi posta em liberdade. Meia-hora depois estávamos a foder na casa-de-banho, ela encostada à porta e eu por trás, rápido, violento, ambos a arfar e a acabarmos rápido o que estávamos a fazer depois da dona do bar ir lá bater à porta a mandar-nos para o Íbis. Ela ainda disse que o Íbis era caro. Eu disse-lhe, ao ouvido, que era mais bem cheiroso. Ela riu. Eu puxei as calças para cima e ela o vestido para baixo. Nessa noite ainda nos enrolamos no chão da sala e eu fi-la queimar as costas na alcatifa, ao fazê-la roçar-se, para cima e para baixo, à medida em que entrava e quase saía dela. Não deu um queixume. Eu queimei os joelhos, na mesma alcatifa, e passei dois dias com os joelhos a arder.
Andámos uns meses naquilo. Eu nunca tinha tido uma namorada assim. Assim tão corporal. Acho que nunca fodi tanto. Acho que nunca me apareceu foder tanto. E, contudo, uns meses depois, o adeus. Primeiro as férias de Verão e depois a Universidade. Cidades diferentes e um afastamento que surgiu natural. Cruzámos-nos uma ou duas vezes de regresso a Leiria, mas as coisas já tinham seguido outro caminho. Para mim e para ela. Foi uma das poucas vezes em que o fim surgiu sem dor nem dramas. Foi quase como uma normalidade. Como se fosse o prolongamento natural do que tínhamos tido.
Ao virar numa esquina pareci reconhecer a rua. Andei em frente até um prédio e era o prédio. O prédio dela. A porta da rua aberta. Subi no elevador. Toquei à campainha. Esperei. A porta abriu. E lá estava ela. Lá estava ela exactamente como me recordava dela. E depois olhei melhor e percebi que não. Não estava como eu me lembrava dela. Estava com os olhos inchados. Inchados e vermelhos. Tinha estado a chorar. Coisa que nunca a vi fazer. Ela não mostrou surpresa ao ver-me. Soube mais tarde que também me tinha visto na manifestação. E quando me viu ali, à porta de casa, percebeu que estávamos os dois na mesma luta.
Ela abriu a porta e deu-me passagem para o interior de casa. Depois fechou a porta, passou por mim e levou-me para a sala. Deu-me um copo de whiskey com três pedras de gelo e depois disse-me O meu marido está no hospital. E ela contou. E eu ouvi.
Na manifestação, quando as carrinhas bloquearam as saídas da Praça Rodrigues Lobo e os carecas saíram das caixas abertas das carrinhas, o marido dela foi o primeiro a levar com um taco de baseball na cabeça que lhe provocou um traumatismo craniano e, desde então, estava nos cuidados intensivos e o prognóstico era muito reservado. Mais ainda me contou que foi à polícia fazer participação e que a aconselharam a esquecer tudo o que tinha acontecido e não quiseram receber a queixa. Foi aí que percebeu que algo de muito errado estava a acontecer no país. Mas também percebeu que a maior parte das pessoas nem queria saber o que é que estava a acontecer.
E foi então que eu disse Então está mesmo a acontecer alguma coisa, não está? Então eu não estou doido, pois não?
Ao que ela retorquiu Acho que estamos todos doidos.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/24]

O Bar no Centro da Cidade Onde Me Sentava ao Balcão

Foi nos anos oitenta. Mais ou menos a meio dos anos oitenta. Apareceu um bar onde não existia nenhum. Onde não existia nada. Ou quase nada. Apareceu um bar num largo bem no meio da cidade. No centro da cidade. Era um bar com balcão. Uma balcão em U, com o bar no centro de uma das salas, a sala principal (o bar tinha mais que uma sala, o que constituía outra novidade).
Eu chegava cedo ao bar e sentava-me ao balcão. Primeiro bebia um café. Ainda o bar estava vazio. Havia alguma gente, gente sozinha, como eu, que bebia café ao balcão. Depois começava a chegar mais gente e eu começava a beber cerveja. No início bebia média. Depois, com o passar do tempo comecei a beber minis, que dava mais jeito para agarrar com a mão, mas isso foi quando larguei o balcão e comecei a encostar-me às paredes do bar. Mas no início, no início eu sentava-me ao balcão, sempre gostei muito de me sentar ao balcão, primeiro bebia um café e depois ia bebendo cervejas médias, Sagres, até ficar enjoado e passar para o gin tónico. Naquela altura o único gin que havia no bar era o Bosford. E, ao terceiro, quando conseguia chegar ao terceiro, acabava na rua, a vomitar as botas, às vezes a mijar-me pelas calças abaixo, quase sempre no chão, deitado no chão, encostado a uma parede à espera que o mundo parasse de girar ou alguém me levasse até casa. Às vezes havia quem me levasse a casa. Houve quem me levasse para a cama. Houve ainda quem se deitasse comigo. Mas nem me lembro dessas noites. Só sei que aconteceram. Porque me contaram.
Eu chegava cedo ao bar, bebia um café, lia um jornal qualquer que estava por lá, normalmente um jornal de véspera, folheava-o, às vezes lia um ou outro fanzine que algum puto largava por lá para mostrar às pessoas, roubei alguns deles que levei para casa, mas não sei o que lhes fiz, não sei deles, não sei que caminho levaram. Alguns eram muito bons. Com boas ilustrações. Textos interessantes sobre música. Pelo menos é a ideia que tenho. Pode não ter sido bem assim. Se calhar nem foi lá que vi os fanzines. Se calhar nem roubei nenhum. Se calhar nem sequer eram grande merda.
Nessa altura, depois de me sentar ao balcão e beber café e folhear os jornais dos dias anteriores, começava a beber cerveja. Às vezes ofereciam-me tremoços ou milho tufado. Depois apareciam algumas pessoas que conhecia. Sentavam-se lá ao lado. Tínhamos dois ou três dedos de conversa, bebíamos outra cerveja, e eles continuavam a ronda. Mudavam de cadeira, de sala ou iam embora, à procura de outras pessoas noutros lados.
Eu ficava sempre por lá. Ao balcão. Antes de me começar a encostar às paredes. Gosto de rotinas. Ficava sempre lá na mesma cadeira do balcão. Fumava cigarro atrás de cigarro. Às vezes aparecia lá alguém com um charro. Fumávamos mesmo ali, ao balcão. Por vezes o empregado chegava-se e dava umas baforadas no charro. E aquilo rodava. Às vezes deixavam-me lá uns selos. Chegaram-me a dar uns cogumelos. Há partes desse período no bar, nesse bar no largo no centro da cidade, que não recordo. Há noites que foram apagadas. Há noites que não existiram de todo.
Depois de enjoar a cerveja, depois de já estar cheio até ao esófago e a transbordar pela faringe, virava-me então para o gin horroroso que me fodia o fígado e me deixava de rastos, mas não havia outra solução. Não gostava de whiskey e o vodka era só para beber de penálti como se fosse um copo de três.
Quando chegava à fase do gin, geralmente perdia-me. Deixava de saber onde estava, com quem estava ou para que estava. Às vezes não tinha dinheiro para pagar o resto da despesa. Avisavam-me no dia seguinte mal lá punha o pé direito, o pé com que entrava todos os dias pelo bar adentro ao som do People Are People dos Depeche Mode.
Tudo terminou numa noite. Numa noite dessas em que já estava na rua, o bar já estava a fechar, eu não estava caído no chão mas estava encostado à parede, com uma perna flectida e uma mini na mão na conversa com uma miúda, lembro-me dessa miúda porque foi a última vez que a vi, assim como foi a última vez que entrei naquele bar, nesse fim de noite eu estava à conversa com a miúda, uma miúda lindíssima, assim a recordo, as luzes do bar já estavam desligadas, havia mais gente por ali, quando ouvi uns gritos, gritos de gente a correr, gente alarmada, gente em pânico a correr de um lado para o outro e a gritar, aos berros, e ouvi o aproximar de um carro, o som do motor de um carro, um motor em alta rotação, umas luzes muito fortes a encandearem-me e, de repente, uma explosão que me projectou dali para fora e acabei por despertar caído em cima de um banco de jardim, daqueles com ripas de madeira, cheio de dores nas costas e sangue na cara, com vários rasgos na cara e nas mãos. Acordei e olhei o caos instalado à minha volta. Acho que curei a bebedeira e a ressaca imediatamente.
Um carro tinha entrado ali pelo largo a acelerar, perdeu o controle e foi contra a parede do bar, que deitou abaixo, enquanto levava, à frente, a miúda com quem eu estava a conversar. A miúda foi desintegrada. Pouco restou dela. O bar, nunca mais reabriu. O prédio foi deitado abaixo e construíram outro, agora de habitações de luxo. Eu tive uma sorte dos diabos. O carro passou mesmo ao meu lado. Podia ter sido eu, na vez da miúda. Nunca mais bebi gin nem cerveja.
Agora só bebo vinho e, geralmente, em casa, o sítio onde estou mais vezes. Perdi a vontade de ir a bares. Mas continuo a gostar de balcões. Fiz um na cozinha de casa para matar saudades.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/14]

Para um Diário da Quarentena (Terceiro Andamento)

Hoje foi um dia bizarro. Tudo o que não fiz ontem, fiz hoje.
Levantei-me cedo, seduzido pelo sol matinal. Lancei logo o edredão para os pés da cama. Saí de um salto, vesti uma t-shirt e fui à cozinha pôr o café a fazer. Liguei o iPod à coluna e deixei em modo aleatório. Arrancou com PJ Harvey. Uh Huh Her. Acendi um cigarro e fui fumá-lo para o alpendre. Os gatos vieram roçar-se nos meus pés descalços, dengosos, a ronronar.
Lancei o cigarro para o meio do quintal e entrei em casa para ir tomar um duche.
Sentia-me bem-disposto.
Pensei se eu seria mesmo eu.
Tomei o duche. Vesti-me. Bebi café. Comi uma banana. Lavei os dentes e peguei na chave do carro. Desliguei o iPod antes de sair de casa.
Hoje tinha de sair. Por motivos de trabalho, tinha de sair do meu refúgio. Largar as minhas rotinas. Tinha de ir longe. Não ia estar com muita gente. Nem ia demorar muito tempo. Mas era longe. Tinha de ir encher o depósito do carro. Ia aproveitar para registar o Euromilhões. Comprar pão fresco. Umas garrafas de vinho, que andam a esvaziar-se muito depressa.
Tinha umas máscaras e umas luvas no carro caso precisasse. Algumas moedas. O multibanco. Um lápis com borracha para marcar o código do cartão e fazer os pagamentos. E um frasco aspersor com álcool.
Fui.
Fiz o que tinha a fazer.
E regressei.
Entrei em casa. Despi-me ainda na cozinha. Pus a roupa na máquina e lavei-a a quarenta graus. Depois lavei-me a mim e vesti um fato-de-treino.
Abri uma garrafa de Adega de Pias, das mais baratas. Sentei-me à mesa da cozinha, frente ao computador e comecei a escrever. E escrevi bastante e durante bastante tempo. Tanto tempo que tive tempo de despejar a garrafa de vinho. Só então parei e acendi um cigarro. E reparei que já era de noite.
Este foi um bom dia, pá! pensei.
Lembrei-me que havia o Festival Eu Fico em Casa e liguei o Instagram. E deixei a tocar. Nem sei quem era que estava a tocar. Acho que nem conhecia. Deixei na coluna.
Abri outra garrafa de Adega de Pias. Cortei uns legumes. Desfiei um resto de frango assado que tinha no frigorífico. Salteei tudo no wok. Depois misturei uns bocados de sementes de sésamo e uma azeitonas.
Desliguei o festival e liguei a televisão. Hora do noticiário. Jantei os legumes salteados com o resto de frango desfiado na companhia do vinho tinto a tomar atenção às novidades do Covid-19, aos infectados e aos mortos. Afinal estávamos em emergência, ou não?
As coisas estavam cada vez pior.
Mas eu continuava bem disposto.
Quem seria eu, afinal?
Desliguei a televisão da cozinha. Baixei a tampa do computador. Arrumei a louça suja na máquina. Agarrei num copo e despejei-lhe dois dedos de Bushmills. Sem gelo. Fui para a sala. Liguei a televisão. Ao fim de algum tempo de permanência nos canais de notícias, comecei com o zapping.
Comecei a sentir a melancolia a instalar-se.
Relaxei.
Afina, eu era eu. Sou eu. E aqui estou, de rabo enfiado no fundo do sofá, a ganhar coragem para ir à cozinha buscar mais um bocado de whiskey e trazer para aqui o cinzeiro. Mas não me consigo levantar. Apetece-me, mas não me apetece. Tenho qualquer coisa a tremer dentro de mim.
Sorrio, mas não sei de quê.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/17]

Uma História de Amor

Conheci-a no dia em que o pai morreu. Entrei no bar. Sentei-me ao balcão. Pedi um gin tónico, Pode ser Bombay, disse, e ouvi uma fungadela ao meu lado. Era ela. Estava a chorar. Ofereci-lhe um lenço. Aceitou. Depois de ter bebido o meu gin, ofereceu-me ela outro. Aceitei. Conversou comigo. Foi aí que soube que o pai tinha acabado de morrer. Estava no hospital e tinha acabado de morrer. Ela largou toda a gente no hospital o pai, a família, os amigos, o namorado e foi dar uma volta a pé pela cidade. Começou a chover. Entrou naquele bar. Bebeu um whiskey. Começou a pensar no pai. Na ausência do pai. Na falta que já sentia. Começou a chorar. E eu ofereci-lhe um lenço.
Foi nessa altura que vi como era bonita. Cabelos castanhos, nem muito escuros nem muito claros. Um pouco abaixo do ombros. Tapava-lhe o pescoço quando vista por trás, e eu sei porque vi quando fui à casa-de-banho e, ao regressar, regressei pelas costas dela.
Tinha uma voz doce, embora naquela altura estivesse um bocado amargurada. Mas percebia-se a doçura que lá estava. Era calma a falar. Mesmo no meio de toda aquela tristeza. Tinha os dedos esguios, compridos e finos, numas mãos elegantes, nem muito grandes nem muito pequenas. Eu reparei quando ela colocou a mão em cima da minha e me convidou para ir à casa dela. Eu lembrei-me dela ter mencionado um namorado. Hesitei por momentos. Mas momentos tão curtos que acho que ela nem se apercebeu da minha hesitação.
Entrei em casa dela nessa noite e nunca mais saí de lá. A partir desse dia aconteceu uma história de amor. Uma verdadeira história de amor. Como a dos romances de cordel. Eu gostava dela, ela gostava de mim e vivemos felizes para sempre. E foi mesmo isso que aconteceu. Vivemos felizes para sempre.
Estou a falar disto agora porque se acabou o Para sempre. Ela morreu. Morreu de morte natural, ao contrário do pai dela. Já estávamos velhotes. Ela e eu. Ela já foi e eu hei-de ir. Já não falta muito. Eu devia ter ido primeiro. O que é que estou aqui a fazer sem ela?
Acho que fiquei por cá para contar esta pequena história.
A nossa história começou com uma morte e acabou com outra. Primeiro o pai dela, agora ela. No meio, uma história de amor com final feliz. Mas o que ela não sabia, nunca soube, nem ninguém mais soube, foi que houve outra morte nesta história. Uma morte que só eu é que soube que acontecera. Quer dizer, toda a gente soube da morte, mas ninguém nunca soube como é que verdadeiramente morreu. Só eu. E sei porque estava lá. E fui o responsável pela morte. Pela morte do namorado dela. Para toda a gente foi um suicídio. Mas não foi.
Estávamos, eu e ela, a viver juntos já quase há um mês. O pai tinha morrido, tinham feito o funeral e a missa de sétimo dia quando, uma noite, depois de ter ido jantar um prego no pão ao balcão de uma tasca no centro da cidade, perto do sítio onde estava a trabalhar, era já tarde e resolvi comer um prego no pão antes de ir para casa, quando fui abordado por um tipo. Não o conhecia de lado nenhum. Mas ele conhecia-me. E apresentou-se. Era o namorado. O ex-namorado dela. Então primeiro apresentou-se e em seguida ameaçou-me. Que eu não sabia quem ele era, mas que não era flor que se cheirasse (palavras dele), e que sabia que ela ainda gostava dele só que estava desnorteada pela morte do pai e eu tinha ajudado a esse desnorte. O melhor a fazer era afastar-me. Eu ouvi-o. Mais por educação que por respeito. Eu nunca disse nada. Limitei-me a ouvir. No fim, quando percebi que já tinha debitado todas as ameaças para que eu enfiasse o rabo entre as pernas e saísse de casa dela, da vida dela e do amor dela, virei costas e fui para o carro. Estava ao volante do carro quando o vejo virado para mim, levar a mão à cabeça a formar um pistola e fazer um gesto com a boca que, na minha cabeça, ressoou como Bang!
Pus o carro a trabalhar. Fiquei ali uns momentos a olhar para ele com a mão em pistola na cabeça, até que começou a rir, a rir à gargalhada. Cínico. Eu meti a primeira, pisei o acelerador e arranquei com o carro para cima dele. Ao aproximar-me, guinei o volante para a direita mas, ele já se tinha assustado e tinha mandado um salto para a esquerda e acabou a pular o muro que dava para a linha do comboio que ali, naquela zona da cidade, passava desnivelado da estrada, e caiu no meio da linha no momento em que o comboio ia a passar.
Eu ainda parei o carro. Olhei para o muro. Percebi o comboio a passar. Ouvi o comboio a apitar. Percebi o comboio a travar. E fui embora. Não queria saber mais do que tinha acontecido. Talvez não tivesse acontecido nada. Talvez tivesse acontecido alguma coisa. Mas não queria saber. Queria apagar aqueles últimos minutos da minha cabeça. Queria esquecer. E esqueci.
Vivi… Quantos anos?… Mais de trinta anos com ela. Vivi… Vivemos uma verdadeira história de amor. Um com o outro. Eu esqueci o que tinha acontecido. O ex-namorado tinha realmente morrido na linha do comboio. Atropelado pelo comboio. Foi considerado suicídio. Por algum tempo, ela culpou-se por o ter deixado da forma que deixou. Mas passou. Tudo passa, não é?
Foi depois da morte dela que me lembrei daquela noite. Foi depois da morte que me lembrei onde estava ancorada a nossa felicidade.
É por isso que eu tenho de fazer o que vou fazer. Tenho de fechar o círculo. Espero conseguir levantar as pernas por cima do muro. É que o corpo já não me obedece como dantes.
Já vou ter contigo, meu amor.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/08]

Houve uma Época

Houve uma época em que gostei do Natal. Houve uma época em que eu brinquei ao Natal como todas as outras pessoas, crianças e adultos que, nesta altura, brincam às amizades, aos amores e à paz no mundo entre os homens.
Houve uma época em que me levantava de manhãzinha para ir ao fogão da cozinha buscar as prendas que o Pai Natal lá deixava. Não era na lareira porque não havia lareira lá em casa. Nem era na chaminé porque a chaminé era um buraco negro e escuro lá em cima, por cima do fogão onde a minha mãe cozinhava as filhoses e as fatias douradas, dias antes do Natal, e o bacalhau na noite em que nos reuníamos os quatro à volta da mesa, felizes com o que tínhamos porque não sabíamos que havia mais para ter, que havia gente que tinha muito mais e gente que não tinha nada. Naquela altura o Natal não era quando um homem quisesse, era mesmo a 24 de Dezembro a cair para o 25 a festejar o nascimento do Cristo.
Houve uma época em que a mesa da sala levava um acrescento a meio, e a mesa da cozinha ia fazer companhia à mesa da sala para albergar toda a gente que ia jantar lá a casa. Eram os pais, os filhos, os avós, alguma família de todos os lados de todas as famílias, alguns amigos. Gente, muita gente. Muitas prendas que toda a gente presenteava os outros, em especial os mais pequenos. As prendas não era muitas. Mas não havia cá prendas das lojas dos chineses nem a um euro e despacho já o Natal de toda a gente. Dava-se o que era preciso, preferido, desejado. Livros. Jogos. Roupa. Alguns brinquedos. Sim, éramos uma geração estúpida que ainda não tinha encontrado a sagração da tecnologia.
Houve uma época em que nos sentávamos todos à mesa a comer bacalhau, polvo, peru. Mousse de chocolate, pudim flan e molotov. Filhoses, coscorões e rabanadas. Os jantares terminavam com um café da avó a acompanhar uma fatia de Bolo Rei, de que toda a gente retirava as frutas cristalizadas, e uma bebida branca, licores para os mais fraquinhos e whiskey para os mais fortes.
Houve uma época em que tive família e o Natal era, por excelência, a minha festa. A festa da minha família. Numa época em que até eu tive família.
Houve uma época, houve.
Depois, depois deixou de haver uma época. A família desintegrou-se. A morte rondou. Zangas. Separações. Ódios. Oh, tantos ódios e invejas. A família desentendeu-se. A desgraça veio ao caminho da família e irmãos de armas transformaram-se em irmãos com armas.
Sento-me agora aqui fora e deixo-me ir com eles. Com todos eles. Com as crianças que choram. Com os adolescentes de telemóvel em punho e olhar vidrado. Com homens atrasados. Com mulheres desesperadas. Tudo a correr. Tudo a comprar. Compram-se uns aos outros para, em cinco minutos, voltarem a virar costas uns aos outros e até para o ano que haverá mais. Temos de nos encontrar mais vezes, dizem. Eu telefono, continuam a dizer. E fingem acreditar.
Estou sentado aqui fora na rua há duas horas. Já tanta gente passou por aqui e ninguém me viu. Estão todos muito ocupados. Demasiado ocupados para olharem em volta. Para verem.
Hoje morreu alguém. Alguém que eu conhecia. Hoje morreu alguém que eu conhecia e morreu sozinho. Sozinho e na miséria. Esquecido de todos. Eu também o esqueci. Não sou melhor que os outros. Não me lembro melhor que os outros. Acho que só choro um pouco mais. Porque também eu estou esquecido. O Natal não mora aqui.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/10]

Fumar um Charro Enquanto Tomo Banho

Cheguei tarde a casa. Cheguei cansado. As palestras exigem muito de mim. Desgastam-me. Quando chego ao fim de uma apresentação sinto-me vazio.
Entrei em casa. Ela estava sentada no sofá. A televisão estava desligada. O que raio é que fazia sentada no sofá com a televisão desligada? Nem um livro aberto sobre os joelhos. A lareira estava acesa. À frente, na mesa de apoio, um copo com qualquer coisa. Talvez whiskey.
Passei por trás dela. Baixei-me e beijei-a na cabeça. Fiz-lhe uma festa nos cabelos. Uma festa suave com a mão que fui deixando para trás enquanto me afastava. Vou tomar banho, disse-lhe. Ela acenou com a cabeça.
Entrei na casa-de-banho. Abri a janela. Senti o ar gelado da cidade entrar e agarrar-se ao meu corpo. Despertou-me um pouco. Gosto de sentir frio quando vou entrar no duche quente. Despi-me. Entrei na banheira e liguei o chuveiro. Deixei-me estar ali por momentos, sem me lavar, só a sentir-me fustigado pelos jactos de água quente que saíam disparados pelos buracos do chuveiro.
Ela entrou na casa-de-banho. Estranhei. Ela nunca entrava na casa-de-banho quando eu lá estava. Ela não gostava que eu entrasse na casa-de-banho quando ela lá estava. Muito menos se estava no duche. E nunca se virava de costas. Dizia que não queria que eu lhe olhasse para o rabo. E tapava-se com as mãos. Tapava tudo aquilo de que sentia vergonha. Eu ria-me e dizia-lhe que gostava dela, do corpo dela e que gostava de a olhar, mas ela gritava, gritava comigo, gritava-me e mandava-me sair. No início chegou à histeria. Berrava-me. Estava algum tempo zangada comigo e não me falava durante alguns dias. Depois, com o passar do tempo, lá passou a acalmar. Mas nunca gostou que eu a visitasse na casa-de-banho. Coisa que eu gostava de fazer. E nunca deixei de o fazer.
Estranhei vê-la entrar pela casa-de-banho.
Eu estava debaixo do chuveiro a absorver o calor da água quente. Ela baixou a tampa da sanita e sentou-se lá em cima. Cruzou as pernas. Eu pus champô no cabelo. Esfreguei. Ela começou a fazer um charro. Outra novidade. Normalmente era eu que os fazia. Ela só fumava. Mas ali estava ela, na casa-de-banho, sentada na tampa da sanita, a fazer um charro. Eu ensaboei o corpo. Tinha um sabonete Patti. Gosto do cheiro deste sabonete. Ela acendeu o charro. Eu comecei a tirar o champô do cabelo e, de seguida, também o sabonete do corpo. Ela estava a fumar o charro. Levantou-se e chegou o charro à minha boca. Eu dei uma passa. Ela voltou a sentar-se no tampo da sanita com o charro nos dedos. Eu desliguei o chuveiro. Peguei na toalha e comecei a limpar-me.
E, então, ela disse Vou-me embora. E eu pensei que estava cansado mas estava disposto a ir com ela e disse-lhe Espera um pouco que vou contigo, fosse lá para onde é que ela ia. E ela insistiu Vou-me embora. Eu já estava seco, larguei a toalha sobre o lavatório e voltei a dizer-lhe Também vou. São cinco minutos. Mas ela levantou-se, deu uma passa no charro e depois colocou-o na minha boca. Eu puxei uma passa. Ela saiu da casa-de-banho e deixou a porta aberta. Estava a puxar uma segunda passa no charro quando ouvi a porta da rua a abrir e a voltar a fechar-se.
Olhei para o espelho mas estava embaciado e não me vi lá reflectido. Puxei mais uma passa. E reparei que a escova dos dentes dela não estava no copo das escovas de dentes.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/07]

Bronquite

Tenho tido bronquite durante toda a minha vida. Acho que já devo ter nascido assim, com ela. Não sei se tal é possível. Talvez seja. A primeira vez que a História me documenta um ataque de bronquite eu teria duas semanas de vida e tive de ir para Coimbra, de ambulância, fazer qualquer coisa que não podia ser feita aqui, em Leiria. Quem fez o registo para os anais, foi a minha mãe, que me dava colo, mama, me mudava a fralda e foi comigo para Coimbra, a lutar para que não morresse o filho que tinha acabado de parir há não muito tempo.
Sobrevivi. E é o que tenho feito toda a vida.
Passei a minha infância a sentir os pulmões fecharem-se à entrada de ar. Mas caguei neles. Sempre que possível. Não me deixei domar pela tristeza de uma maleita incapacitante. Joguei à bola debaixo de chuva com os outros miúdos. Fartei-me de correr e transpirar, a fugir do dono do pomar onde íamos, eu e os outros, roubar laranjas e nêsperas e maçãs, fruta que nos garantia roubo ao longo do ano, e depois íamos comê-las assim, sujas, à dentada, ofegantes, esfomeados, mas contentes com o fruto de um trabalho doido.
Às vezes, quando sentia muita falta de ar, parecia que estava a entrar num outro universo. A visão afunilava. A audição refinava, talvez para escutar acima, ou abaixo, daquela pieira maldita. Os olhos para o chão. O corpo mirrava e eu parecia fugir do mundo, deste mundo.
Às vezes tinha de dobrar o corpo, pernas direitas, cabeça para baixo, mãos presas na cintura, na presilha das calças, para tentar recuperar o ritmo certo da respiração. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Como se estivesse a aprender. Outra vez. De novo. Tudo de novo.
Fugir de gatos. Fugir de pássaros. Fugir dos ácaros. Fugir do pó da casa. E a minha mãe a arrancar a alcatifa bordeaux, muito anos setenta, que forrava a casa e acumulava horas, dias, semanas, meses de bronquite.
Aquilo não era bem uma doença. Não me doía nada. Não dava nada jeito ficar na cama. Não podia faltar às aulas, Para ficar a fazer o quê?, não me perguntava na altura porque não era preciso, estava subentendido, mas pergunto agora porque fica melhor neste texto onde tento perceber se, ao não ser bem uma doença, é o quê? uma frivolidade? ficar sem ar, sem conseguir respirar, uma paneleirice, com certeza.
Depois apareceu o Ventilan. Acabavam-se as mezinhas que a minha mãe fazia. As papas quentes no peito. O iodo da praia. As vacas. As termas. Os banhos de água fria. De água quente. Os jactos de mangueira. Os vapores. Os vapores caseiros de folhas de eucalipto numa panela com água a ferver.
Matei um problema e criei outro.
O stress de esquecer a bomba. A ansiedade de não ter o Ventilan comigo. Mesmo quando estava bem. Quando respirava como as pessoas normais respiram. E como respiram as pessoas normais? Eu nunca fui uma pessoa normal. Não sei como é que respiram as pessoas normais. Não sei como é nunca ter medo de não conseguir respirar. Saía de casa com o Ventilan no bolso das calças como se fosse uma pila gigantesca, que se alongava braguilha fora. Se não o levasse…
Isto tudo depois de me terem garantido a mim, ao meu pai, à minha mãe, às minhas duas avós, ao cão e ao gato que tive de certeza, que sempre os houve nas casas dos meus pais mesmo que eu não me lembre, que com a idade iria passar. A adolescência iria matar a bronquite. Poderia ser jogador de futebol e ser o Cristiano Ronaldo antes do Cristiano Ronaldo ser o que é porque esta minha incapacidade respiratória morreria antes de eu poder ser um herói do futebol e, no entanto, tanta ciência, tanta tecnologia, conhecimento, liberalismo, progresso, idas à Lua e a Marte, e um sonho que não tive morreu porque, afinal, nada do previsto aconteceu. Claro que joguei à bola. Com a Malta da Rua, na Escola, a fugir ao meu pai que não queria que eu jogasse à bola à chuva, e depois tinha de fugir, outra vez, para escapar à mão pesada que, invariavelmente, iria bater, violenta e dura, no meu rabo.
Não passou, a bronquite. Os anos não mataram a minha bronquite. Mas eu fodi-a. Fumei todos os anos ao longo dos anos. A bronquite não levaria a melhor. E nunca levou. Um cigarro nos dedos, na boca, um cigarro aceso entre os dedos da mão em conversas, nos bares, nas ruas, em casa, na cama, no sofá, na banheira de óculos escuros a ler O Jardim de Cimento de Ian McEwan, na companhia do vinho, da cerveja, do gin, do vodka, do whiskey. Sozinho, tantas vezes sozinho, à janela, à varanda, à entrada do prédio, debaixo do beiral, encostado a uma montra, dentro do carro, em cima da bicicleta, depois de comer, depois de foder, depois de correr e de uma partida de futebol no campo de terra batida do colégio das freiras para onde íamos jogar depois de subir e saltar as grades que eram suposto manter-nos do lado de fora. Fumar. Fumar desde os quinze anos. Diariamente. Não me matas, bronquite. Matar-me-ei eu primeiro.
Mudei várias vezes de medicação tentando acabar com o Ventilan. Tomei medicamentos cujos nomes fui perdendo com o tempo. Uns duraram pouco. Outros duraram um pouco mais. Mas quase todos se revelavam frágeis ao fim de algum tempo em convivência comigo. Sim, eu não sou fácil. Para uns sou uma aventura, para outros um tédio, para a maior parte uma chatice que se quer esquecer.
Agora estacionei no Xoterna. Tem um nome merdoso mas é o medicamento que mais resultado parece ter sobre esta minha incapacidade de respirar como as pessoas normais. Mas o Ventilan anda sempre por cá. Escondido. Já não anda no bolso das calças porque já não preciso dele com urgência. Já não stresso à sua ausência. Mas é sempre bom saber que ele existe. E está na mesa-de-cabeceira. No porta-luvas. Na mochila. E o mais tranquilizador é saber que o posso comprar em qualquer farmácia pela módica quantia de dois euros e tal. O Xoterna, sem receita, custa cinquenta euros. Ter bronquite é uma cena de ricos.
A Primavera é terrível por causa dos pólenes. O Outono é terrível por causa da queda das folhas e dos pós que levanta. O Verão é terrível por causa do excesso de calor. O Inverno é terrível por causa da humidade e do frio. Tudo é terrível e qualquer coisa é motivo para os alvéolos se fecharem, os pulmões mirrarem e me faltar o ar. Mas sobrevivo. Tenho sobrevivido sempre. Com um copo de vinho tinto alentejano numa mão e um cigarro aceso na outra. Fode-te!, bronquite.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/24]

Chicote

Saí do bar com ela. Cruzámos-nos ao balcão. Eu na cerveja. Ela no gin. E ficámos por lá até nos porem na rua. Ela falou-me dela. Eu falei pouco de mim. Ouvi-a. Mas não percebi que podia ser tudo mentira. Acredito nas pessoas. No melhor das pessoas. Que o maquiavelismo só nas novelas ou nas folhas de O Príncipe. Na verdade não a estava a ouvir. Estava a fingir dar-lhe atenção para que se sentisse atraída por mim e pela atenção que lhe dava. Que mais é que eu tinha para lhe dar para além da minha atenção e de um cirrose galopante?
Estávamos ao balcão a beber. A conversar. De dez em dez minutos vínhamos à rua fumar um cigarro. Ninguém nos roubava os lugares. Estava pouca gente. Eu e ela e mais uns poucos de bêbados caídos sobre as mesas.
Ela nem sequer era interessante. Fisicamente, digo. Porque a conversa, não a ouvi. Ela era um pouco vulgar. O cabelo despenteado. Um ligeiro buço aloirado. Já um pouco flácida. Quer dizer, eu também. Também ando sempre despenteado. Às vezes não lavo o cabelo durante dois ou três dias e fico com a testa brilhante. E também tenho o corpo flácido. A barriga tombada sobre a cintura. Os músculo descaídos pelo braços, pelas pernas, pelo peito abaixo.
Na verdade somos como somos e, quando saio à noite, não sou esquisito. Sei o que também sou. O álcool ajuda. E potencia. E como se costuma dizer, à noite todos os gatos são pardos. E sob as luzes coloridas das psicadélicas todos somos desejáveis. E à luz-negra todos os dentes são brancos. E com o strobe todos sabemos fazer o moonwalk.
Ela deu-me conversa. E eu fui na conversa dela. Sou fácil, é verdade. Ainda estávamos no início da nossa noite, ainda nenhum de nós estava bêbado, já eu me imaginava a apalpar-lhe as mamas. Eram grandes, as mamas. Pelo menos pareciam à luz suave e embriagada do bar quase vazio.
E então continuámos por ali fora. Fingimos interesses comuns. Bebemos. Acabámos os dois a ir para o whiskey à espera que batesse mais e mais depressa. Acho que precisávamos de uma desculpa para sair dali. E nunca chegou, durante toda a noite, a desculpa. E ela continuou a falar e eu continuei a ouvir.
O clique só se deu quando o bar fechou. Quando nos despejaram na rua. E agora? perguntei eu já com uma incontrolável vontade de a agarrar. Agora vamos para minha casa, disse ela, assim em jeito de afirmação.
E fomos. Fomos a pé que a casa dela não era longe. Também não era perto. Ainda tivemos de caminhar durante algum tempo. Pelo menos o tempo de fumar três cigarros. Até que chegámos a casa dela.
Abriu a porta. Fez-me entrar em casa. Levou-me para a sala e disse Senta-te! indicando uma poltrona. E eu sentei-me. Gostei daquela versão mandona. Ela manda e eu obedeço.
Ela saiu. E voltou. Trazia dois copos. Whiskey, disse. Tchin-tchin disse eu. Batemos os copos. Vi-a sorrir. Um sorriso cínico, parece-me agora. Na altura foi só um sorriso e o início de uma noite de sexo. Bebemos. Eu bebi. Queria despachar a parte da bebida.
Ela sentou-se no braço da poltrona. Abraçou-me. Beijou-me o pescoço. Senti um calafrio pela espinha. Bom. E depois… Depois comecei a ver tudo desfocado, como se precisasse dos meus óculos de ler para a ver. Para a ver a ela, que estava ali à minha frente. E, de repente, ela já não estava ali ao pé de mim, mas afastava-se como que o espaço entre nós dilatasse. Senti-me enjoado. A cabeça a andar à roda. Senti-me a desmaiar.
Ainda tentei dizer alguma coisa, mas não consegui. A língua parecia maior que a boca e não se movia. O lábios também não. E estavam secos. Os olhos pareciam querer fugir de órbita. A cabeça rodopiou e eu senti-me ir.
E devo ter ido.
Não me lembro do que se passou a seguir.
Acordei aqui. Aqui que não sei onde é. Está tudo escuro. Acho que estou deitado numa cama. Mas não estou em cima de um colchão. Pareço estar em cima de uma cama de grades. Ouço algum barulho metálico quando me mexo. E sinto uns vergões no corpo. A fazer pressão. Tenho as mãos e os pés atados. Tenho as pernas afastadas. E os braços esticados. Sinto-me exposto. Mas não me vejo. Não vejo nada. Está tudo escuro. Estou nu. Tenho a boca seca. As mãos húmidas. Sinto medo.
E então abre-se uma porta. Entra um feixe de luz quente. Alguém está à entrada da porta, em contra-luz. Tento focar mas isto é o melhor que consigo. E não consigo perceber quem é. Talvez seja ela. Tem uma coisa na mão. Lança essa coisa que tem na mão e ouço o barulho que faz ao estalar no chão. É um chicote.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/18]