É isto o Novo Normal?

Será isto então o novo normal? Ou será o mesmo normal de sempre?
Entro dentro do autocarro expresso. Meia-dúzia de gatos-pingados. Todos distantes uns dos outros. Todos de máscara na cara. Todos entretidos com os seus telemóveis a aproveitar a rede digital da rede de expressos.
Procuro a minha cochia.
Sento-me e sinto-me um gigante entre cadeiras montadas para a média do português que viveu nos anos cinquenta. Estamos na segunda década do século XXI e querem-nos com o mesmo tamanho, a mesma medida e, provavelmente, a mesma aceitação e respeitinho. O respeitinho é muito bonito.
O autocarro arranca. Há uns ecrãs de televisão a debitarem anúncios de filmes. Não passa nenhum filme. Só trailers. Penso no Herman José. Sorrio e penso como sou previsível.
Tiro, da mochila, uma banda desenhada para ler, mas não consigo. O autocarro faz estradas municipais. Expresso mas nem tanto. O normal é o mesmo de sempre.
Quando finalmente entro na auto-estrada, estou sonolento e não consigo ler. Deixo-me ir no embalo.
Talvez tenha adormecido. Sou acordado com alguém a falar ao telemóvel. Fala alto para o ouvirem bem lá do outro lado. Não entendo o que diz. Não fala português. Talvez seja árabe. Talvez seja outra coisa qualquer que me soe a árabe. Não sei árabe nem a que soa o árabe. É uma força de expressão. Acho que procuro o meu normal.
Trago sempre um carregamento de livros para as viagens de expresso e acabo sempre por não ler nenhum. Não me consigo concentrar. Não consigo focar as letras. Enjoo. Sinto vontade de vomitar. Ando há dois meses com um livro do Chomsky na mochila. Ainda não o abri. Ainda nem li a introdução. Mas queria. Ainda não houve oportunidade. Começo a não gostar do meu novo normal. Não é normal.
Começo a descer. Percebo que o expresso começa a descer por uma inclinação acentuada. Aproximo-me de Lisboa.
Tento despertar. Não é difícil. O pára-arranca não me deixa voltar a adormecer. Lisboa voltou ao que era antes da pandemia. Uma cidade cheia. Atarefada. Rápida. Barulhenta.
O autocarro chega à estação. Saio. Saio do autocarro. Saio da estação. Saio para a rua e sou abalroado por buzinas, sirenes, motores a cuspir fúria, rodas a patinar no asfalto, borracha a queimar e a entrar-me pelas narinas e gente a gritar.
Lisboa é uma cidade agressiva. Lisboa é uma cidade de psicopatas.
Tenho vontade de apanhar o expresso de regresso à monotonia da minha cidadezinha. Sei que não é possível. Acendo um cigarro. Vejo grupo de miúdos em alegres brincadeiras. Ninguém usa máscara. Já não há pandemia em Lisboa? Será isto o novo normal?

[escrito directamente no facebook em 2020/09/22]

Sem Arranjo

Caiu-me um dente. Estão a desfazer-se. Pareço ter a boca cheia de areia. São os dentes apodrecidos que se desfazem. Já não consigo comer sólidos.
Agora acordo com a almofada cheia de cabelos. A banheira também fica cheia de cabelos depois de lavar a cabeça. Até quando terei cabelos para poderem cair?
Vomito depois de comer. Todas as vezes depois de comer, deito fora tudo o que ingeri. Já não consigo manter nada no estômago. Nem os líquidos e as papas que são as únicas coisas que o estado dos dentes me permite ingerir.
As unhas estão a partir-se. Algumas esfarelam-se.
A caspa deu lugar à seborreia. Cai tudo sobre os ombros. Não adianta sacudi-los. Dois minutos depois está tudo na mesma.
O estômago está inchado. O interior chocalha. Pareço ter um lago dentro de mim, dentro da minha barriga. Está mole.
A pila encolheu. De manhã tenho dificuldade em encontrá-la para urinar. Quando a agarro, nem parece minha. Não a sinto. Não sinto nada.
Dói-me os rins. As costas. As dores de cabeça vão e vêm. Alternam com as enxaquecas. Os pulmões parecem cheios de ar e dificultam-me a respiração. Alivio quando fumo um cigarro.
Apareceram-me mais uns caroços debaixo do braço esquerdo. E também na virilha.
Na semana passada mijei sangue.
Hoje cuspi sangue. Cuspi sangue depois da queda do dente. Pode ter sido da queda do dente. Quero acreditar que sim.
Tenho acordado todas as noites, a meio da noite, com cãibras nas pernas. Massajo-me mas custa a aliviar os músculos. Levanto-me para ir urinar e estou meia-hora na casa-de-banho sem conseguir fazer nada.
Sinto-me um produto em fim de vida e sem arranjo. Penso se não valerá a pena arranjarem outro eu novo. É que este eu, está uma miséria. E não lhe antevejo melhoras. Muito menos um regresso a um tempo funcional.
Deito-me em cima da cama e tento pensar em quando as coisas ainda não eram assim. Tento pensar nas férias de Verão da minha adolescência. Nos mergulhos nas águas frias da costa atlântica. Nos meus amores. Nos primeiros dias de aulas. No primeiro beijo. Na primeira noite de sexo. Na primeira vez que conduzi um carro. No primeiro charro. No assalto que fizemos e na adrenalina que senti.
Cai-me outro dente. Sinto-o solto na boca. Cuspo-o para cima da cama. Cuspo sangue. Babo-me. Perco a vontade. Perco a vontade de ter vontade.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/21]

Os Comprimidos Cor-de-Rosa Já Não Fazem Efeito

Já tomei dois comprimidos rosa, mas não ajudou muito. Agarrei numa garrafa de Vidigueira tinto e fi-la marchar à velocidade da luz.
Sinto-me entorpecido.
Caminho entre o quarto e a cozinha. Faço o corredor. Faço o corredor entre os pontos mais longínquos da casa, o meu quarto e a cozinha. Cada vez me parece mais comprido. Cada vez pareço demorar mais tempo. Cada vez me sinto mais enjoado.
A meio de uma das viagens, faço um desvio à casa-de-banho e acabo a vomitar o syrah, os comprimidos cor-de-rosa e as iscas de cebolada que comi ao almoço. Não devia ter comido as iscas de cebolada.
Quem é que trouxe as iscas de cebolada cá para casa?
Vomito tudo o que tenho dentro de mim. E cuspo. Cuspo na retrete. Cuspo até não ter mais saliva. Lavo os dentes. Bochecho.
Sinto-me tonto. Tenho a cabeça um pouco à roda. Já não tenho nada para deitar fora mas ainda se sinto tonto.
Olho-me ao espelho da casa-de-banho. Vejo as olheiras. Dois papos negros, enormes, tombados sob os olhos. A barba com manchas de pêlos brancos. Algumas peladas. Vejo o cabelo a rarear. Tenho umas entradas grandes. A testa também parece ter crescido. Saem pêlos das orelhas. Tenho os lábios cada vez mais finos. Vejo os dentes amarelados do tabaco. E a espuma da pasta dos dentes nos cantos da boca. Baixo a cabeça e lavo a boca. Bochecho. Lavo a cara. Molho o cabelo. Respiro fundo. Levanto a cabeça.
Vejo uma lágrima a cair pela cara abaixo. Pode ser uma gota de água. Sinto um arrepio no corpo e não é um arrepio de frio. Sinto a angústia chegar. Começo a chorar. Faço uma cara feia ao chorar. Os olhos fecham-se e ficam pequeninos. A boca descai. As maçãs do rosto ficam encarnadas. A cara está luzidia. As lágrimas entram-me na boca e da boca sai uma baba que escorre pelo queixo. O pescoço parece enterrado no meu corpo.
Viro-me de costas para o espelho. Deixo-me escorregar para o chão, encostado ao lavatório.
Encolho-me. As pernas dobradas encostam-se ao peito. Enfio a cara entre as pernas. Dou um berro.
Sinto-me a aliviar. Deito o ar fora, sonoramente, em golfadas. Acalma-me.
Levanto-me. Evito olhar para o espelho da casa-de-banho. Lavo a cara outra vez. Lavo a boca. Bochecho. Esfrego os olhos. Assoo-me e faço barulho ao espremer o nariz para fazer sair a merda que lá está estacionada. Limpo a cara.
Vou até à cozinha. Acendo um cigarro. Olho para a rua. Não consigo ver como é que está o dia. Se é dia ou noite. Se está de chuva ou de sol. Não consigo ver lá para fora. As portadas da cozinha estão fechadas. Olho para a garrafa de vinho vazia. Não tenho mais nenhuma! penso.
Deixo cair o cigarro no chão da cozinha. Esmago-o com o pé descalço. Regresso ao quarto. Volto a fazer o corredor. Agarro em mais dois comprimidos rosa. Não tenho água. Não volto à cozinha. Não vou à casa-de-banho. Engulo-os assim, a seco. Sinto-os arranharem-me a garganta, mas descem por mim abaixo.
Entro na cama. Tapo-me com o edredão.
Espero que passe. Espero que tudo passe.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/29]

Violência Gera Violência

Estava a almoçar. Tinha feito dois ovos mexidos com chouriço cortado aos bocadinhos e ajudava o garfo com um bocado de pão saloio do Zé dos Frangos. A caminho da boca, o garfo ficou em suspenso frente à bocarra aberta, ao ver o polícia a disparar sete vezes. Sete tiros. Sete tiros à queima-roupa. Sete tiros pelas costas num homem preto. O homem não estava a fugir. O homem não era nenhuma ameaça. O homem não tinha nenhuma arma nas mãos. O polícia disparou-lhe sete tiros nas costas.
Pousei o garfo. Senti o estômago às voltas. As garfadas de ovos mexidos que já tinha engolido, pareciam querer voltar para trás. Subir pelo esófago, voltar à boca e disparar para fora, sobre o prato, sobre a mesa, pela cozinha. Espalhar-se, azedo, por todo o canto da cozinha.
Peguei no comando do cabo e puxei a notícia atrás.
Um homem preto, perseguido por vários polícias, tenta entrar num carro. Um dos polícias puxa o homem pela camisola. Vejo a camisola esticar-se pelo puxão. O homem preto parece não querer parar. O polícia puxa de uma arma e dispara sete tiros à queima-roupa sobre as costas do homem preto. Repito para eu próprio perceber o que estou a relatar: O polícia puxa de uma arma e dispara sete tiros à queima-roupa sobre as costas do homem preto.
Foda-se! Respiro fundo.
Sinto o estômago às voltas. Percebo os ovos mexidos a voltarem para trás. Levanto-me a correr da mesa e vou até ao lava-loiças. Abro a boca e vomito. Vomito uma massa amarelada com laivos cor-de-rosa, provavelmente do chouriço e do vinho. Deito tudo fora até já não restar mais nada dentro de mim. Transpiro. Sinto o suor a cair pelas têmporas. Cuspo. Cuspo várias vezes para o lava-loiças. Cuspo mesmo quando já não tenho mais saliva na boca para cuspir.
Levo água à boca. Lavo os lábios, a cara, molho o cabelo. Bochecho. Deito fora. Volto a bochechar. Volto a deitar fora. Tento acalmar. Respiro fundo.
Volto para a mesa. Na televisão, a notícia já é outra. Já nem sei o quê. Eu olho para a televisão e o que vejo é um homem preto a ser alvejado pelas costas, sete vezes, alvejado sete vezes à queima-roupa, pelas costas.
Afasto o prato com o resto dos ovos mexidos. Não consigo comer mais. Mas devia que agora não tenho nada no estômago. Bebo um gole de vinho tinto. Acendo um cigarro.
Como chegámos aqui?
Faço tantas vezes esta pergunta e nunca chego à resposta.
O homem branco está com medo de perder o seu privilégio de raça privilegiada. O homem branco heterossexual está com medo das transformações do mundo. O homem branco está com medo de, um dia, ao sair de casa, estar num prédio, numa rua, numa cidade, cheia de pessoas pretas e pessoas homossexuais e mulheres independentes e seguras de si e tem medo do que o destino lhe reserva. Este homem branco tem medo de ser o único e de se sentir só.
Agora, neste momento não consigo pensar em mais nada. Não quero pensar em mais nada. Não quero pensar em ódio. Não quero pensar em fanatismo. Em religião. Em clubes de futebol. Em nós contra eles. Até porque, em qualquer altura, nós somos eles. Eu sou ele.
E a violência gera violência. E sinto o meu olhar a desviar até ao canto da cozinha onde tenho um taco de basebol vindo directamente da América. A violência gera violência. Levanto-me da mesa e caminho até ao canto da cozinha.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/25]

Dias de Alma Vaga

Estou sentado à mesa da cozinha como se fosse o balcão do bar onde já não vou há quatro meses. Deixei de lado a torneira de cerveja e troquei a imperial pela garrafa média da Sagres. Por vezes vou ao pacote de cartão buscar vinho tinto e faço um Tinto de Verão. À espanhola. Encho o copo com gelo. Espremo meio limão. Dois terços de vinho. Um terço de Seven Up. Uma gasosa também serve. Mas isto é no início. Quando ainda estou em condições de fazer alguma coisa. E ainda tenho vontade. Rapidamente chego ao momento em que só de abrir a garrafa, tirar a carica fora sem deixar cair cerveja no chão, é uma aventura.
À minha frente o televisor a preto e branco que o meu pai comprou há muitos anos para levar para o campismo. Passou de televisão do campismo para a televisão da cozinha e, desde então, tem sido a televisão da cozinha. Primeiro em casa dos meus pais. Depois quando fui estudar para Lisboa. Era a televisão da cozinha porque a cozinha também era a sala. Não havia sala naquela casa. Todas as divisões eram quartos. A cozinha era cozinha e sala. A televisão estava lá e cumpria as suas duas funções, era a televisão da cozinha e também era a televisão da sala.
Quando tive a minha primeira casa e comprei a minha primeira televisão, ainda com cinescópio mas já em 16-9, a pequenina televisão a preto e branco, de caixa de baquelite branca, voltou para casa dos meus pais e à cozinha deles. Mais tarde consegui recuperar a televisão que já ninguém queria. Era pequena. Quadrada. Branca, que horror. De baquelite. E não tinha comando. Era preciso levantar o rabo de onde estava sentado para mudar os canais. E, às vezes, era preciso andar com a antena, uma antena que era parte da televisão e que fazia lembrar as antigas antenas dos carros com rádio OM, ou os walkie-talkies que alguém trouxe uma vez de Andorra, para apanhar a emissão mais-ou-menos em condições de visibilidade e que não nos fizesse dar um pontapé numa cadeira e mandá-la contra a porta do frigorífico.
Estou sentado à mesa da cozinha e já estou na cerveja há muito tempo. Já não consigo fazer um Tinto de Verão. O máximo a que me aventuro, para além de retirar a carica da garrafa, é ir bebendo, de vez em quando, um copo de bagaço que um amigo me ofereceu. Bagaço caseiro. Daquele que cega. Bebo-o como se fosse um submarino. Imagino que largo o pequeno copo de vidro com o bagaço dentro do copo de cerveja e bebo tudo junto, mas na verdade, bebo um golaço de bagaço pelo gargalo da garrafa incolor que o meu amigo me ofereceu e depois despejo-lhe logo como cerveja em cima.
À minha frente, pousada na bancada à minha frente, a televisão pequena a preto e branco, de baquelite branco, passa uma emissão qualquer que não percebo porque não está bem sintonizada, mas não consigo levantar-me para procurar melhor sintonia.
Nesta altura sinto que já estou bêbado. Já não consigo fazer melhor que esticar o braço, abrir a porta do frigorífico e agarrar uma garrafa média de Sagres. Enquanto houver.
Descubro que tenho um cigarro entre os dedos mas não me lembro de estar a fumar. Não me lembro se ainda fumo ou não. Mas tenho um cigarro aceso preso entre os dedos da mão, a mesma mão que levanta o copo com cerveja. E percebo que, afinal, ainda não estou muito bêbado. Ainda bebo a cerveja pelo copo. Ainda não a bebo directamente da garrafa. Ainda tenho mais algumas pela frente, antes que fique realmente muito bêbado, enjoado, com vontade de vomitar e vomitar. Depois é arrastar-me até à cama, que fica ali ao fundo do corredor que sai da porta da cozinha até à última porta, onde fica o meu quarto e a cama onde me irei deitar se me conseguir arrastar até lá. Há noites em que não chego lá. Há noites em que me fico pelo corredor. Há noites em que consigo chegar até às bordas da cama, mas erro a queda.
Penso sempre, como estou agora a pensar, aliás, que amanhã é outro dia e posso sempre repetir tudo outra vez e de novo. E tentar acertar na cama.
Que mais há para um tipo fazer em dias assim? ou como diziam os Rádio Macau, dias d’alma vaga / tão perto de Deus / tão longe de mim / sem horas boas nem más / sem horas sequer / apenas vazio na alma / apenas dias assim // há dias assim / feitos de silêncio / com a voz de Deus / a soar em mim / dias sem riso nem choro / sem horas sequer / apenas silêncio d’ouro / apenas dias assim…
Afinal nem devo estar assim tão bêbado. Ainda me lembro da letra de uma música dos Rádio Macau. Deixa cá ver mais outra Sagres.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/07]

Quase o Fim do Mundo

Parece o fim do mundo.
Não se ouve barulho. Pelo menos, barulho humano. Ouço umas cigarras. Os pinheiros parecem estalar sob esta brasa de calor que me consome. Escorro água de todo o lado. Estou deitado nu no chão da cozinha. Nas lajes frescas do chão da cozinha. As janelas todas abertas. Os mosquiteiros proíbem a entrada à bicharada. Estico o pescoço para uma das janelas e vejo, lá fora, naquele céu azul e limpo, uma águia a planar. Não bate as asas. Plana.
Hoje saí de casa para fazer uma análise ao Covid-19.
Vesti calções e uma t-shirt. Ia a sair de casa com uns chinelos nos pés e depois pensei que ia à cidade e que era melhor não ir de chinelos. Calcei umas sapatilhas. Custou vestir-me. Custou calçar-me. Estou habituado a andar nu e descalço por casa com este calor.
Cruzei a cidade de carro. Estacionei. Fiz umas ruas a pé. Pouca gente na rua. Ninguém conhecido. Vou a entrar no laboratório para a análise e dizem-me para esperar lá fora. Ao sol. Ao calor. Já o lá vão chamar, disseram. Esperei. Mas nem esperei muito. Fizeram-me entrar. Um pequeno interrogatório confirmou as informações já fornecidas anteriormente na inscrição para a análise ao Covid-19. Levam-me para uma sala. Pediram-me para me sentar numa cadeira. Todos os funcionários parecem estar num filme sobre o Ébola. Todos cheios de máscaras e luvas e fardas e barretes. Álcool-gel por todo o lado. Tudo muito asséptico. Muito protegido. Eu estou de máscara social e quando me vou sentar na cadeira que a enfermeira me indica, pergunto-me se devo. Mas sento-me. Ela pede-me para puxar a máscara para baixo e libertar o nariz. Enfia-me um cotonete que fura as minhas fossas nasais e vai até onde eu não sabia que podia ir. Fez-me impressão. Vieram-me as lágrimas aos olhos. Não me doeu. Foi só uma impressão. Depois, repete a acção na narina vizinha. A mesma sensação. A enfermeira pede para baixar mais a máscara e enfia-me outro cotonete até ao fundo da boca, ou à garganta, já nem sei, mas fez-me ter uma convulsão. Por momentos pensei que ia vomitar. Vieram-me mais lágrimas aos olhos. Sou um coninhas!, pensei.
A enfermeira disse que estava despachado e que me podia ir embora. O resultado seria enviado para o mail.
E se eu estiver infectado?
A águia desapareceu do meu campo de visão. Tento esticar o pescoço mas não consigo. Não sou elástico. Tenho os meus limites. E eles agora fizeram-me deitar aqui no chão da cozinha e não me deixam levantar. Não para ir fazer um gin tónico. Nem fumar um cigarro. Muito menos para ir procurar uma águia que quero, à força, que seja um sinal, um bom agoiro.
Rebolo sobre mim e fico de peito no chão. Vejo a parte de baixo do frigorífico. Há lá coisas a mexerem-se. Foda-se. Há vida debaixo do frigorífico e eu não consigo levantar-me para lá ir ver o que é e matar a bicheza.
Estou a olhar para debaixo do frigorífico e sinto o chão a mexer-se. Depois tenho a sensação que há um bicho que pára e fica a olhar para mim. Tento vê-lo melhor. Perceber que raio de bicho será aquele.
O bicho começou a mover-se. Parece que vem na minha direcção. Tenho de me levantar. Tenho de me levantar. Vem lá o bicho. Não consigo levantar-me. E grito, Socorro!, mas sei que ninguém me ouve.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/17]

Os Passos por Cima de Mim

Há dias em que ouço os passos no apartamento por cima de mim. Há dias em que ouço os gritos na cave por baixo de mim.
Nada disto seria preocupante se vivesse num apartamento na cidade, como já vivi, e onde a convivência com os sons da vida da vizinhança é uma companhia constante. Mas não. Vivo numa casa térrea, sem cave, e com um pequeno sótão que não utilizo e onde nunca entrei.
Há dias em que estou deitado no sofá, a olhar para a televisão num correr de zapping tão rápido que não fixo nenhuma imagem e os sons que me ficam são umas onomatopeias sem sentido, quando sinto, sobre mim, passos a caminhar. Pequenos passos a caminhar. Já pensei se não serão ratos. Mas os gatos aqui da casa já trataram de todos os ratos que por aqui havia. Agora, o que caçam, são os coelhos selvagens que passam aqui pelo quintal ou que eles vão caçar ao terreno lá do outro lado da estrada. Que barulho será esse que passa por cima de mim? De quem serão os passos? E serão passos?
Há dias em que estou na cama, às vezes a dormir, e sou despertado por gritos de pânico que parecem vir de baixo, debaixo de terra, porque não há outro baixo de mim que não seja terra, não há cave, nem nenhum bunker nem túnel. Mas ouço os gritos e sinto como são aflitos e aflitivos.
Acordo e fico ali assim, em silêncio, na cama, a evitar mexer-me para não fazer nenhum barulho, e apuro os ouvidos e fico quieto, atento, à espera de novo grito. Geralmente, o grito não volta. Nem o grito nem nada que se lhe assemelhe. Mas, algumas vezes, sinto os passos que se passeiam por cima de mim como quando estou na sala deitado sobre o sofá, a passarem aqui, sobre mim, sobre mim aqui no quarto, deitado na cama. Ouço-os. Serão as patas de algum rato?
Ou será que há fantasmas aqui em casa?
Eu não sou de ter medo nem tendo a levar a sério estas coisas sobrenaturais de fantasmas e almas do outro mundo mas, nos dias em que ouço estes barulhos, descubro-me mais sensível e fico com algum receio, não de coisas transcendentes, mas de coisas terrenas, como um bandido, um assassino, alguém que vai entrar aqui em minha casa, no meu quarto, na minha cama e me vai espetar a lâmina fria de um punhal vinte vezes, trinta vezes, no peito, por todo o ódio que o punhal terá às pessoas e de quem eu serei fiel depositário.
Outras vezes descubro-me no sonho, no sonho de alguém que não eu, que eu não sonho, e percebo-me a ser perseguido por seres alienígenas que me querem raptar para me levarem para planetas distantes e analisarem-me.
Há ainda umas vezes em que me encontro num sonho em que sonho que estou no sonho de outra pessoa e pergunto-me como raio é que sei isto tudo e não me perco e depois fico com uma grande dor de cabeça, vomito e acabo por acordar em casa, no chão da cozinha, a ouvir o cão da vizinha a ladrar, coisa que faz só quando se lançam foguetes a anunciar as festas das aldeias vizinhas e umas baratas a passearem-se por cima de mim.
Hoje ainda não ouvi passos nem gritos. Mas descobri uma aranha peluda ali na parede em frente a olhar para mim.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/15]

Eu Vou para Onde For

As janelas do carro abertas. O vento a enrolar-nos o cabelo. A transpiração a escorrer pelas têmporas. Ela com os pés descalços sobre o tablier. A mão a fazer ondinhas fora da janela. A cabeça não-sei-onde. Eu ia com o braço esquerdo pousado na janela aberta e dois dedos a aparar o volante. A mão direita sobre a alavanca de velocidades.
Estávamos a chegar à Praia da Vieira. Os campos desertos. Nem uma árvore. Nem uma sombra. Estava sol. Sol e muito calor.
À entrada da Praia da Vieira, o parque de campismo. Árido. Agreste. Há uns anos ardeu. Agora não há uma árvore. Não há uma sombra. As tendas estão debaixo do sol torrencial.
Entrámos da Praia da Vieira. Eu disse Há muito tempo que não vinha cá. Ela não disse nada. Na realidade, da última vez que cá vim, vim com ela. E a impressão tinha sido a mesma. A Praia da Vieira parece uma feira. Uma feira muito popular. Uma feira cheia de tralhas para venda. Com cartazes a anunciar os preços em desconto. Já parecia e continua a parecer. Passo ao lado do auditório António Campos. Está decadente. Falta manutenção. Passamos de carro junto à marginal. A praia é lá no fundo. Num fundão. O mar é agressivo. Não é nada convidativo. Nem lhe pergunto se quer parar. Passamos em frente ao que fora outrora a Riomar, uma discoteca da minha adolescência quando as discotecas ainda eram as rainhas da noite e casa dos jovens com cio. Quando as discotecas ainda tinham espectáculo de abertura com gelo seco para os efeitos dramáticos. Depois começaram a aparecer as festas da espuma e acabaram com o glamour.
Seguimos para o Pedrogão. À saída da Praia da Vieira ainda dá para ver um parque para auto-caravanas, árido, sem uma árvore, seco, triste. Como é que as pessoas conseguem estar ali? Porque é que os municípios não plantam umas árvores? Não refrescam as terras? O que vemos não deixa antever melhorias. Nem futuro.
Fazemos a estrada Atlântica até ao Pedrogão.
Passamos no que já foi o Pinhal do Rei. Tudo isto ardeu. Nada mudou. Há pilhas de troncos à espera de qualquer coisa. Há árvores carbonizadas em pé, que não sei se estão mortas ou vivas. Há uma tristeza no ar. Faltam pinheiros.
Chego ao Pedrogão. Passei aqui alguns anos de férias na minha juventude. Vomitei em muitas esquinas. Fumei muita droga nas rochas da praia velha. Está melhor que a Vieira. Mas também não está grande coisa. Também aqui não há uma árvore. E as casas estão velhas. Estragadas. Parece que o tempo passou por elas e carregou-lhes nos anos. E há algumas casas que parecem não serem utilizadas há décadas. Há muitas marquises. Por momentos pareço estar no Cacém. Maldita sorte, a minha.
Há gente na praia, aqui no Pedrogão. Também já havia na Vieira. Os chapéus estão espalhadas ao longo do areal. Respeita-se a distância social. Mas depois há grupos de miúdos. Grupos de miúdos a brincar. Enquanto algumas pessoas percebem que estamos no meio de uma pandemia, há outras que acham que é tudo uma fantasia.
Quero parar o carro mas, ao mesmo tempo, acho que estou sem paciência. Ela desperta do seu torpor. Pede para eu encostar o carro. Sai. Vai comprar tremoços e pevides a umas senhoras que parecem vestidas para o Inverno. Traz também um bolo da festa. Eu digo-lhe que não é bem bolo da festa. Que é parecido mas não é. Ela vira-se para mim e diz Vai para o caralho! Eu rio-me. Ela também.
Arranco com o carro. Para onde vamos? pergunto-me em silêncio. Decido seguir em frente. Talvez até à Figueira da Foz. Estamos sem destino. Não temos obrigações. Podíamos ir até ao fim do mundo. Vamos andando e depois logo se vê. Ela já está outra vez com os pés descalços no tablier. Ela vai para onde eu a levar. Eu vou para onde for.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/08]

Eu Sou um Artista

Eu sou um artista.

Eu sou um artista com uma enorme necessidade de criar. Não crio para ser o melhor nem o maior artista do mundo. Eu crio porque sinto necessidade. Não é para afagar o ego. Não é para as palminhas nas costas. Não é para sentir as mãos alheias a passarem-me pelo pêlo. Eu crio porque preciso de criar da mesma forma que preciso de respirar.
Eu conto estórias. Sou um contador de estórias.
Desenho. Pinto. Escrevo. Realizo. Fotografo. Estórias.
Desenho estórias. Pinto estórias. Escrevo estórias. Realizo estórias. Fotografo estórias. Este é o meu contributo, o contributo da minha arte para o mundo, as minhas estórias nas suas mais diversas formas.
Eu sou um artista.
Não faço arte para agradar a terceiros. Faço arte para mim. Faço arte para me satisfazer a mim. Claro que gosto que me apreciem, me vejam, me leiam, me saboreiem, gosto que entrem no meu mundo e o devorem. Mas não é esse o meu interesse último. Não é o meu interesse último ser adorado pela multidão. A multidão dá-me medo.
Produzo alguma arte que é efémera. Arte que morre ao nascer. Que desaparece ao ver a luz. Arte que só existe na criação e pelo momento de criação. Que deixa de ser quando cumpre a sua função.
Também produzo arte para ficar e ser apreciada quando for apreciada. Quando passarem de moda as modas. Quando não houver medo nem fraqueza para apreciar o arroto, o choro, o berro, a ejaculação.
A minha arte não precisa de ser filha do seu tempo e medida pela medida desse tempo. A minha arte não é devedora dos corredores do poder. Não precisa de obedecer às mesmas regras nem às mesmas leis que a minha vida. Mas não é uma arte ignorante. A minha arte não é de natureza espontânea. Mas é repentista. Há estudo. Conhecimento. Procura.
Gosto de consumir arte. De procurar arte. Arte que me satisfaça. Não me contento com o que me querem dar. Não me contento com o que me querem oferecer. Não me contento com o que me querem impingir. Não me contento com arte normalizada, certinha, bonitinha, escanhoada. Embrulhada em papel colorido cheio de purpurinas e odores hipnotizantes. Eu procuro a arte que me provoca, que me magoa, que me incomoda, que me irrita, que me faz gritar e desejar morrer. Eu procuro arte que me dê vertigem e me faça vomitar.
Eu sou um artista. Um artista que gosta de arte. De arte suja, imperfeita, inacabada, triste, maldita, gorda, seca, desdentada e esfomeada, bêbada, afilhada, malcastrada, mas cheia de tesão para entrar por nós dentro e nos fazer tremer as pernas como o primeiro beijo, a primeira noite, a primeira vez.
Corro sozinho, mas corro pelos caminhos que quero. Não sou obediente. Não lambo-cus. Escrevo o que me apraz, sem rede, mal escrito, mal digerido, mas furioso, rápido, urgente. Capaz.
Sou um artista que não troca a sua arte por uma montra. Sou um artista descalço. Descamisado. Esquecido. Ignorado, mas não ignorante. Sou um artista faminto que prefere a rua ao ar condicionado. Sem trela nem açaime. Sou um artista que morde. Que rasga. Sou um artista que incomoda. Que chateia.
Eu sou um artista e sou indomável. Não cabo em salões nem em festivais. Cuspo na ordem e no respeitinho.
Eu sou um artista. Um artista que corre livre como um cavalo sem freio num campo de girassóis.
Eu sou um artista, e um tolo, também. Mas sou um artista. Sem cheta, mas um artista.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/03]

Desapareço

Sento-me na mesa da cozinha. Tenho o lençol de banho sobre as costas. Ora tenho frio, ora tenho calor. Acabei de vomitar na retrete. Lavei os dentes. Senti um arrepio de frio e coloquei o lençol de banho sobre as costas. Vim até à cozinha.
Liguei a chaleira eléctrica.
Estou sentado na mesa da cozinha à frente do computador. Quero escrever. Quero escrever qualquer coisa. Uma pequena estória. A estória do dia. Sinto-me transpirar. Deixo cair o lençol de banho pelas costas abaixo. Estou nu na cozinha. Os chinelos nos pés. Transpiro. A chaleira deu um estalito e parou de fazer barulho. Levanto-me. Despejo água numa caneca e coloco-lhe um saco de tília. Volto para a mesa. Olho para a página em branco no computador.
Acordei com uma grande dor de cabeça. Talvez fossem enxaquecas. Tomei uma colher de Ben-U-Ron xarope e deixei uma segunda colher a dissolver-se na boca, debaixo da língua. Costuma fazer efeito. Hoje não fez.
Fiz café. Fiz torradas. Sentei-me na mesa da cozinha para o pequeno-almoço e não consegui comer nem beber. Comecei a sentir-me enjoado. Senti um vómito a querer chegar à boca. Corri para a casa-de-banho e vomitei. Vomitei bastante. Lavei os dentes. Voltei para a cama. Deixei-me estar deitado de barriga para cima. Ora com o edredão a tapar-me, ora com o edredão ao fundo da cama.
Adormeci e acordei. Voltei a adormecer e voltei a acordar.
Ao final da tarde, acordei. Acordei de novo. Desta vez com vontade de vomitar. Fui para a casa-de-banho. Vomitei um fiozinho de espuma. Uma espuma esverdeada. Lavei os dentes. Senti um arrepio de frio e coloquei o lençol de banho sobre as costas.
Levo a chávena à boca, mas sinto-lhe o ar quente, a queimar. Sopro-lhe e volto a largá-la na mesa.
Estarei a morrer? É sempre o que penso quando não estou bem. Estarei a morrer?
Os dedos mexem-se sobre o teclado do computador. Escrevem rápido, rápido e sem parar. Olho a página para ler o que estou a escrever e está tudo em branco. Não há letras nem palavras nem frases. Não há estória. Não há nada.
Volto a sentir um arrepio de frio pelas costas. Puxo o lençol de banho para cima de mim. E desapareço.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/20]