Volátil

Ela vai à frente a correr. Não vai sempre? Não vai sempre à frente? A correr? Vai a correr desalmada duna acima, duna abaixo. Em direcção ao mar. Às ondas frias de Setembro. E mergulha sem medo.
Ela vai à frente a correr, mas vira-se. Vira-se para trás. Vira-se sempre para trás. Para mim. Ou sou eu que a faço virar? Que imagino que ela se vira? Ela vira-se para trás mas não lhe vejo a cara. O sol bate-lhe nos cabelos d’ouro e explodem em partículas douradas que a escondem. E não a consigo refazer.
Como esqueci a cara?
Mergulha.
Mergulha e vai, vai, vai por ali fora até ao princípio do mar.
Princípio de incertezas.
Até aos meus olhos?
Até às lágrimas dos meus olhos?
Onde moro? Onde moram?
O sangue corre ácido nas veias. Cospe. Vomita.
Como esqueci a cara?

[escrito directamente no facebook em 2018/09/28]

Um Grito Molhado

Ela vem a conduzir o carro, devagar, pela estrada atlântica, ali entre o Pedrogão e a Praia da Vieira, na Beira Litoral. É Verão. Está calor, mas o tempo está cinzento e a estrada não tem movimento algum.
Acompanha-a o barulho do motor e do movimento do carro a bater naquela estrada rugosa, cheia de veios de raízes de árvores que a atravessa de lado a lado.
Não vê o mar, só pinheiros e dunas de areia, mas imagina-o, sabe que está ali, do outro lado. Sente-o.
A dada altura pára o carro na berma da estrada e sai, rápida. Ampara-se com uma mão ao capot e vomita. Quando limpa a boca com as mangas da camisa, limpa também as lágrimas. Olha para a duna e corre para lá e começa a subi-la. Ao chegar ao alto vê o mar e deixa-se ir a correr para ele. Senta-se à sua beira. A ondas aproximam-se mas não lhe tocam.
É então que começa a chover. Primeiro uma chuvinha miudinha, molha-tolos. Mas depois uma bátega, uma chuva furiosa, violenta. As ondas do mar crescem e tornam-se mais agressivas.
Mas ela continua ali sentada, sob a chuva, a ouvir o mar a gritar-lhe.

[escrito directamente no facebook em 2017/08/22]