Uns Petiscos em Famalicão

Lembro-me de irmos no carro. Éramos quatro. Dois à frente. Dois a trás. Em altos berros, nas colunas fanhosas do carro, o Black Room, o primeiro álbum dos Editors. Uma surpresa. Uma boa surpresa.
Tínhamos estado nos petiscos em Famalicão, ali para os lados da Nazaré. Queijinhos frescos. Salada de polvo. Orelha de porco. Moelas estufadas. Duas imperiais cada um, só para matar a sede, e depois o vinho tinto do jarro a acompanhar os petiscos.
Uma tarde. Era tão só uma tarde de passeio. De mesa. De conversa entre amigos. Era uma tarde a passear de carro. Ouvir música. Viver.
Enchemos o depósito na Estação de Serviço da Galp na rotunda para a Guimarota. E saímos da cidade. Para onde? alguém perguntou. Em frente, alguém respondeu.
E fomos em frente, para fora da cidade.
Alguém tinha comprado o Black Room. Foi posto no leitor. Primeiro, ouvimos o disco todo. Uma novidade já conhecida. Nada de novo. Bom como são as coisas já conhecidas.
Janelas do carro abertas. O vento a despentear os cabelos. Alguém berrou Fechem as janelas. E todos fechámos as janelas. Depois um charro chegou-me as mãos. Veio do lado. Fumei. Passei à frente. Ainda deu mais uma volta. Duas. E alguém disse Vamos à Praia dos Salgados tomar banho. E todos dissemos Sim!
E fomos à Praia dos Salgados.
Chegámos. Largámos o carro e fomos a correr até junto da água. A rir. A rir que nem uns parvos. Um despiu-se. E mergulhou na água fria. Os outros, nós todos, fomos atrás. Nus. Mergulho rápido para fugir ao frio. Um gelo, a água. Umas braçadas para aquecer. Mas logo a desistência. Todos a fugir. Não havia toalhas. Eu sequei-me com a t-shirt. E vesti-a molhada.
Depois chegou a fome. E foi aí que alguém sugeriu uma tasca em Famalicão. E partimos. Estávamos todos com fome. Fome e sede. E uma vontade de cantar. E foi assim que começámos a cantar o disco dos Editors. À frente, alguém batia no tablier a marcar o ritmo. Alguém abriu o vidro e sentou-se à janela a cantar aos berros para os pinheiros que iam passando. Não era eu. Não era o condutor. Não era o marcador de ritmo que ia à frente. Só podia ser o tipo que ia sentado comigo atrás. Sim, provavelmente era ele. Ou, se calhar, era o condutor. Já não sei. Já não me recordo de alguns pormenores.
Chegámos a Famalicão esfaimados. Sequiosos. Saímos do carros e bebemos logo duas imperiais enquanto esperávamos pelos petiscos. Depois migrámos para o vinho. O vinho do jarro de barro. Se calhar saído de uma caixa de cartão de dez litros. Mas não importava. O que os olhos não vêm o coração não sente, não é o que diz o corno?
Então, bebemos. Comemos. Conversámos. Conversámos muito. Sobre tudo e sobre nada. Atropelámos-nos uns aos outros na ânsia de nos fazermos ouvir. Eu atropelei-me a mim próprio, com uma língua que parecia ter ganho vida própria. Fumámos na sala. Estávamos sozinhos. Foi-nos permitido. Ou fomos nós que nos permitimos.
Saciados, voltámos a partir. De regresso ao carro. A fazer as estradas do pinhal. Os Editors em altos berros na companhia das nossas vozes, e risos, e alegria e bebedeira e estupidez. Muita estupidez.
Chegou-me novo charro às mãos.
Não cheguei a desfazer-me dele. Foi naquela curva. Naquela curva na estrada ladeada de pinhal já depois de sairmos de Famalicão. Eu levei o charro à boca. Ouvia, aos gritos, People ar fragile things / You should know by now / You’ll speak when you’re spoken to… E ainda estava a puxar o fumo para os pulmões quando senti o carro a fugir da estrada, rodopiar, vi os braços do condutor no ar e senti uma pancada muito forte no carro, senti o charro a ser cuspido da minha boca com o impacto. Lembro-me do meu corpo aos trambolhões dentro do carro, e depois tudo começou a rebolar, andei eu a rebolar dentro do carro, estive agarrado a alguém e perdi-o, senti vidros a partirem-se e algo a espetar-se em mim e depois, não sei, acho que senti o carro a deslizar durante algum tempo até parar no meio de um ribeiro.
Devo ter adormecido momentaneamente. Acordei com água do ribeiro a passar-me pela cara e a cara começar a arder. Acordei de um pulo, mas sem ter pulado, que estava preso e não me conseguia mexer, muito menos pular. E a primeira coisa que lembro de ter pensado, no meio de todo aquele silêncio, foi Onde está a música?
Depois devo ter desmaiado de novo.
Voltei a acordar numa cama de hospital. Havia gente a chorar à minha volta. Perguntei pelos outros. Ninguém me respondeu. Uma rapariga saiu do meu quarto, rápida. Outra foi atrás dela. Acho que iam a chorar.
Este foi o início da luta que me esperava. Quatro anos de terapia. Vivo numa cadeira de rodas. Mas mexo os braços. Consegui criar músculo. Adaptei-me. A vida adaptou-se. Tenho lido. Tenho lido muito. É o que mais faço.
Às vezes penso naquele dia. Eu fui o que teve azar. Eu fui o que ficou vivo. Vivo nesta cadeira de rodas. Às vezes gostaria de ter tido um pouco mais de sorte. E ter ido na companhia daqueles que eram os meus amigos.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/21]

E se Eu Fosse?…

E se eu fosse preto? Devia ser maltratado por isso?
E se eu fosse branco? Devia ser glorificado?
E se eu fosse homossexual? Gay? Paneleiro? Maricas? Bicha? Sapatona? Lésbica? Lambedora de velcro? Fessureira? Fufa? Estaria fora da lei de Deus?
E se eu fosse Bispo católico? Devia ser pedófilo?
E se eu fosse Bispo evangélico? Devia receber dízimo?
E se eu fosse Pastor protestante? Devia foder?
E se eu fosse ateu? Devia não ter direito a viver em paz?
E se eu fosse mulher? Devia acusar um homem de assédio?
E se eu fosse homem? Devia assediar uma mulher?
E se eu fosse deputado português? Devia ir a Serralves ver as pilas do Mapplethorpe?
E se eu fosse deputado português? Devia legislar em causa própria?
E se eu fosse deputado português? Devia ser leal ao partido? Devia ser fiel ao povo que me elegeu?
E se eu fosse Santana? Devia fazer mais um partido igual aos outros a fingir que é diferente?
E se eu fosse Aníbal? Não, eu não podia ser Aníbal!
E se eu fosse professor? Devia gostar do Mário Nogueira?
E se eu fosse PSP? Devia pagar a farda?
E se eu fosse GNR? Devia pagar a farda?
E se eu fosse Comando? Devia morrer na recruta?
E se eu fosse parvo? Devia levar um par de estalos?
E se eu fosse Índio norte-americano? Devia pôr o Donald Trump fora dos Estados Unidos?
E se eu fosse o Donald Trump? Devia assediar mulheres? E homens? E gabar-me de ser único? E grande? E enorme? E espectacular? E devia levar dois pares de estalos?
E se eu fosse Alexandre Frota? Devia fazer anal técnico?
E se eu fosse Jair Bolsonaro? Devia dar um tiro nos cornos?
E se eu fosse Povo? Devia ser estúpido?

[escrito directamente no facebook em 2018/10/05]

No Buraco

Está a chover torrencialmente.
Já é Verão. Está calor. Mas está também a chover torrencialmente.
E logo hoje que me deu para começar a fazer a piscina. Para usufruir quando? No Inverno?
Já tinha feito um buraco considerável quando começou a chover. E a chuva não chegou, caiu. Quando dei por ela e quis sair do buraco, já não consegui. A lama escorregava debaixo das minhas mãos desesperadas a tentar escavar uma saída do buraco.
Agora continuo aqui no buraco que quase parece uma piscina. Quer dizer, mais parece um poço. Um poço onde não tarda vou ficar sem pé. Não, não vou ficar sem pé porque, primeiro, vou ficar soterrado.
Não há ninguém nas redondezas. Não há ninguém à minha espera. Não virá ninguém à minha procura.
Vou ficar aqui enterrado debaixo desta terra enlameada que já me começou a prender os pés e, não tarda nada, me irá cobrir por completo.
Devia estar com medo. Devia estar a gritar, a chorar, desesperado com o meu destino. Mas estou calmo. Sereno.
Sei que vou ficar por aqui, mas também sei que já vivi o que tinha a viver.
Já não haveria nada de novo. Nada de novo para mim. Tudo seria já uma repetição das repetições. Voltar aos mesmos destinos. Cometer os mesmos erros. Ver os mesmos quadros, os mesmo filmes. Ouvir as mesmas músicas. Ler os mesmos livros. Conversar com as mesmas pessoas.
É bom terminar no fim.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/16]

A Varanda da Minha Vida Tombou

Olhei para trás e não vi nada. Ou vi. Vi a parede sem estuque a desfazer-se aos pouco, restos de humidade e colecção de várias camadas de tinta diferentes que foram camuflando a espécie de vida que tentava viver ali, naquele buraco fétido que se tinha tornado na minha casa. E não percebi. Mas acabei por perceber.
Foi a varanda.
Acabei por olhar para a frente à procura do passado e o que vi foi a varanda.
E foi aí que percebi.
Foi por causa da varanda que nunca saí daquela casa.
Sofri com os assaltos na zona, com a falta de água e luz nos meses mais doridos, com as festas idiotas dos estudantes que se revezavam pelos apartamentos alugados ao quarto ou ainda com o cheiro que precede a morte dos inquilinos mais antigos.
Sobrevivi a tudo isto ali, por causa daquela varanda.
Era a varanda da minha vida. A varanda onde ia fumar os meus cigarros, secava ou arejava a roupa, largava todas as coisas que não me cabiam no apartamento exíguo, cultivava os coentros, a salsa e a hortelã que usava nos meus cozinhados, levava as raparigas a ver a noite na cidade, de onde entrava na vida calhandrada dos meus vizinhos da frente ou de onde mandava bolas de saliva sobre os passantes, fugindo a esconder-me na cozinha enquanto lá de baixo mandavam vir com a falta de educação e respeito.
Foi naquela varanda que me fartei de matar os pombos que me vinham cagar a roupa estendida e onde tentei parar a entrada de baratas em casa (mas as gajas vinham sempre de outro lado qualquer).
E foi com a queda daquela varanda que me perguntei Que porra faço eu aqui?
Foi um dia normal. Ou melhor, uma noite normal. Tinha acabado de ir fumar um cigarro à varanda, largado a beata na rua, e estava a sentar-me no sofá para olhar para a televisão quando ouvi o estrondo de um tombo no fundo da rua. Não matou ninguém. Não estragou nenhum carro. Acabou por esburacar um pouco do passeio e sujar a esplanada que ficava lá ao lado.
Mas a mim, a mim matou-me a vida.
Que ficaria ali a fazer, naquela casa, sem aquela varanda?
Onde iria secar a roupa? Namorar? Arrumar os caixotes de cerveja? Olhar as vidas bem mais interessantes que a minha dos meus vizinhos da frente?
Mais importante ainda, onde raio é que iria fumar os meus cigarros e pensar na vida?
E foi ao olhar para trás, para a falta de estuque e restos de humidade que decidi Vou embora daqui e quero que se foda!

[escrito directamente no facebook em 2018/04/21]

Zangado

 

Estive ausente uma semana, duas semanas, sem escrever um conto no Facebook.
Estava zangado, zangado com tudo. Especialmente comigo. Estava zangando com quem estava zangado comigo. Estava zangado com quem me zurzia aos ouvidos. Estava zangado com quem tem certezas e razões e sabe tudo. Estava zangando com quem me obriga a fazer o que não quero fazer.
Passei noites sentado à secretária com um envelope aberto com 40 valium 10 e 9 valium 5. A olhar para eles. E dizia Não, não é para mim, eu gosto de viver, eu gosto de ir o cinema, ao teatro, ao futebol, de namorar, de passear no Marachão, fazer piqueniques na Ervedeira. Eu gosto de comprar pevides em São Pedro de Moel. De olhar do alto a falésia do Vale Furado. De beber café no Mad. De fazer amor na rua e sentir o frio a bater-me na costas. Gosto de ver os bunker horríveis da Praia da Vieira. Gosto de ver as construções feias da praia do Pedrogão e das suas festas de sardinha, e das suas festas Tecno à beira-mar (ainda existem?), dos chocos fritos de Setúbal, da melhor imperial do mundo no Lebrinha, em Serpa, da sopa de Cação no Lado de Lá que não sei se anda existe. Gosto dos filhos, das mulheres, ex-mulheres, amantes, namoradas, amigos, que ainda os há e tudo e tudo e tudo e acima de tudo, das memórias que, mesmo no mais horrível, sabem bem.
Volto vezes sem conta a sentar-me à secretaria com o envelope aberto. A olhar os valium. Mas as memórias não deixam fazer asneira. Já é tarde. É sempre tarde. Mas desisto.
Até um dia.

Chove lá fora. Estou sozinho. É de noite. Sei que tenho quem goste de mim. Mas não chega. A liberdade não existe sem dinheiro. Dinheiro para pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás, o telefone, para poder comer um pão com manteiga, sustentar os filhos… Porra!, viver.
Peguei numa mão cheia de valiuns e meti-os na boca. Empurrei-os com água. Tenho pena de não ter vodka. Aceleraria o processo. Repeti o gesto três vezes até acabar com os valiuns.
Não senti nada, Não senti nada de diferente.
Levantei-me e imediatamente caí inerte no chão. Senti bater com o nariz nalgum sitio anguloso. Senti parti-lo.
E, então, apaguei.

[2018/04/02]

O Relógio Não Pára

O relógio não pára.
Há dois meses que deixei de comprar o medicamento para a asma. Há uma semana fiquei sem telemóvel. Ontem cortaram a luz. Amanhã, provavelmente, irão cortar a água. No final do mês não vou conseguir pagar a renda da casa.
E o relógio não pára.
Tenho um rim para vender. Metade de um fígado. Acho que também posso dispensar um pulmão. Tenho cabelo para quem dele precisar. E ainda posso engravidar esposas de maridos inférteis.
Mas o relógio não pára.
Tenho pressa.
Não preciso de trabalho. Trabalho tenho bastante. Entre uma coisa e outra, entre a ajuda e o pro bono, entre o prestígio e o correr por gosto, entre o saber fazer e o conhecer, entre a obrigação e o prazer, tenho trabalho.
Preciso é de dinheiro. Preciso de dinheiro para viver. É preciso dinheiro para viver.
Porque o relógio não pára.
Mas já não sei as horas.
Acendo uma vela e procuro no fundos dos bolsos das calças e dos casacos qualquer moeda esquecida. Procuro nos cantos das gavetas todas cá de casa uma qualquer moeda perdida. Enfio a mão nas nesgas do sofá à procura de uma moeda caída.
Olho para as garrafas de vinho vazias no canto da cozinha e compreendo que já não se paga vasilhame.
Olho para os livros, para os cd’s, para os dvd’s, para o iPhone, para o iPad, para o iPod, para o Mac, para a Playstation, para o Wii, para a XBox e penso Amanhã têm de ir.
O relógio não pára, mas já não sei onde anda. Olho para o pulso e vejo-o vazio. O que é feito do meu Omega Speedmaster?
Conto as moedas encontradas.
Saio de casa. Entro no primeiro café e compro um maço de cigarros. Sem filtro são mais baratos. Vou ao supermercado e compro um pacote de vinho tinto.
O relógio não pára. Mas não sei as horas. Sei que já é de noite.
Sento-me nas escadas do teatro. Abro o pacote e bebo um grande gole de vinho. Tiro um cigarro do maço, acendo o isqueiro e olho admirado para a minha mão Olha, ainda tenho o Zippo, acendo o cigarro e penso Amanhã já não.
Olho à volta e estou sozinho e penso Ainda bem. Encosto-me à parede e deixo-me ir.
Já não há tempo.
Um passo… Outro passo… E depois?

[escrito directamente no facebook em 2018/03/12]

Gente em Silêncio

Estava a acabar de comer o caldo verde, que tinha lá a boiar uma rodela de chouriço, com uma fatia de broa, quando me colocaram um copo de plástico com vinho à frente.
Rapei o prato, coloquei a rodela de chouriço em cima da fatia de broa e comi tudo, na companhia do vinho.
Só nessa altura é que reparei em quem estava ao pé de mim, na mesma mesa. Gente como eu. Gente triste e solitária. Gente em silêncio. Gente que não tinha sítio onde viver, que andava por aqui e ali, a tentar não morrer.
Estava frio. Muito frio. Nestes últimos dias tinha estado muito frio e havia pessoas que prescindiam das suas vidas, nestes dias, nestas noites, para nos ajudar um pouco. Não resolvia nada, mas ajudava a continuar a caminhar até onde quer que conseguíssemos ir.
Era vésperas de Carnaval. Havia assim uma certa agitação histérica na cidade. Anunciavam-se festas. Via-se gente mascarada. Grupos de jovens percorriam a cidade em alegres brincadeiras, fazendo barulheira até às tantas da manhã.
Nestes dias é-me mais difícil adormecer com tanta gente nas ruas. Fico mais desassossegado.
Um homem voltou a colocar mais um pouco de vinho no copo e, atrás dele, uma rapariga novinha, muito bonita, ia dando uns sacos de plástico com coisas para comermos mais tarde. Umas bolachas… Maçãs…
Bebi o vinho do copo de uma vez e levantei-me. Preferia sair logo dali antes de me bater a tristeza, antes da nostalgia fazer mossa. Antes que alguém metesse conversa. Antes de ser social e perceber a merda onde estou. Eu sei onde estou. Mas não quero falar nisso. Não quero pensar nisso. Quero passar ébrio por entre estas noites perdidas. Não ver ninguém. Não falar com ninguém. Não criar amizades solidárias. A minha miséria era solitária. Muda. Já nem sei como soa a minha voz. Os obrigados que vou deixando por aí já são quase só grunhidos. Que não soam a mais que isso. Grunhidos.
Saí do armazém. Cá fora estava muito frio. Cheguei a gola do casaco mais para cima e pus-me a andar pela cidade, à espera que ela adormecesse e eu pudesse, enfim, enfiar-me num buraco e descansar um pouco até ser dia outra vez. Estas rotinas ajudam-me a sobreviver. Mas ao mesmo tempo matam-me. Este cansaço prolonga-se no tempo e tudo passa a ser automático. Frio. Sem razão de ser, a não ser… Ser.
E então lembrei-me de, um dia, também estar assim numa festa de Carnaval e estar com um grupo de amigos a dançar na brincadeira e a cantar Lá vai o comboio, lá vai a apitar, e sorri, caiu-me uma lágrima pela cara e ouvi-me cantarolar Lá vai o comboio. E reconheci-me.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/09]