Uma Novela Gráfica

Peguei em Sabrina e sentei-me no sofá.
Estava calor. Demasiado calor para ir para o alpendre. Demasiado calor para me passear pela estrada deserta que passa aqui em frente a casa. Demasiado calor para subir às montanhas lá ao fundo. Mesmo que ainda adivinhe neve no cume. Demasiado calor para ir até à praia. Falta-me vontade para sobreviver ao caminho. Até o cão e os gatos estão deitados ali fora, à sombra. Em cima do pequeno charco formado pela torneira mal fechada.
Eu sentei-me no sofá com Sabrina nas mãos. As janelas abertas para fazerem corrente-de-ar. Sem grande sucesso.
Abri o livro. Comecei a ler e a ver. É uma novela gráfica. Duas irmãs encontram-se em casa dos pais. Casa que já foi delas, também. Mas já não é. Estão de passagem. Uma delas, Sabrina, foi cuidar da gata dos pais e acabou a dormir lá. A irmã chega. Contam histórias dos seus passados uma à outra. Depois venho a descobrir que Sabrina desapareceu. Depois descubro que Sabrina foi raptada. Depois ainda descubro que Sabrina foi morta. E a minha transpiração cai sobre as páginas do livro. As folhas ficam enfoladas. As cores das pranchas ganham vida. Ficam mais fortes. Saturadas.
Levantei-me do sofá. Procurei um cigarro. Encontrei-o na cozinha. Acendi-o. Olhei em volta. Tentei perceber se queria beber alguma coisa. Sim, queria beber alguma coisa. Mas não conseguia decidir o quê. Não conseguia decidir o que é que me apetecia beber. Olhei em volta. Vi uma garrafa de vinho tinto. Vi uma de gin. Abri o frigorífico. Vi cerveja. Uma garrafa de vinho branco já encetada. Uma garrafa de plástico com água lisa. Abri o congelador. Vi uma garrafa de vodka. Não consegui escolher. Não sabia o que é que me apetecia. Conclui que não me apetecia nada. A cinza do cigarro caiu ao chão. Larguei um palavrão. Apaguei o cigarro na torneira do lava-louça. Deitei a beata molhada no caixote de lixo. Regressei à sala.
Regressei à sala e sentei-me no sofá com Sabrina nas mãos. Recomecei. Descubro o marido de Sabrina. Ou será melhor dizer o viúvo? Mas aqui, neste momento, eu ainda não sei que ela está morta. Só mais à frente. Aqui acompanho a chegada do corpo de um homem ausente à vida de um amigo disposto a dar-lhe tempo e disponibilidade. Uma companhia. Depois percebo quem é. Porque está assim. Acompanho as notícias. A viralização do filme da morte de Sabrina. Mas nunca vemos nada. Só sabemos porque nos contam. Eles, os que vêm. E deprimem.
Sabrina é uma deliciosa depressão.
Olhei para o ecrã escuro da televisão. Não havia corrente-de-ar. Pousei o livro ao meu lado, no sofá.
Pensei na parte gráfica da história de Nick Drnaso e achei-lhe algumas semelhanças com os desenhos de Chris Ware. Traço claro. Linhas direitas. Tudo muito enquadrado. Muito gráfico. Quadrados iguais. O desenho nunca passa para além da linhas dos quadrados. As letras pequenas. Calmas. Tranquilas. Sabrina é uma história violenta contada de uma forma suave.
Olhei para a capa do livro. Olhei para o perfil de Sabrina. Tinha os olhos cansados. A luz baixou muito. Mesmo com os óculos já tinha dificuldade em continuar a ler. Decidi deixar o resto para amanhã.
E depois? Uma conversa sobre bola na televisão? Não! Não tinha pachorra! Estava com calor. Tinha as costas coladas ao sofá. Acho que me cheirava a chulé. Seria eu?
Às vezes gostava de ser uma novela gráfica. Uma história que se repetia de todas as vezes que uma leitura lhe dava vida. Enfim. Não sei bem o que quero. Para já continuo para aqui. A ver o ecrã escuro da televisão enquanto a luz do dia baixa lá fora e aqui.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/30]