Cinquenta

Foi rapidamente que cheguei aos cinquenta anos. Depois de chegar aos cinquenta anos, deixei de contar a idade. Depois dos cinquenta anos sinto que já estou para lá do que seria espectável. Não que já tenha feito tudo o que queria fazer ou que já tenha atingido os objectivos marcados para a minha vida mas, simplesmente, porque é uma idade em que isso deixou de me interessar. Estou vivo. Vou vivendo. Ok.
Há uns anos, lá em cima, no cimo das cataratas do Iguazú, ali na confluência do Brasil, Argentina e Paraguai, ao ver cair no vazio aquela enorme massa de água, e o poder que de lá emanava, lembro-me de ter pensado Agora já posso morrer! Quando vivemos e vemos coisas assim, coisas intensas, parece que se liberta de nós um peso e percebemos que já chegámos onde queríamos chegar ou onde a vida nos poderia levar. Claro que, logo que saí de lá, logo que se quebrou aquela magia poderosa da força da água a cair e o som trovejante que arrasta consigo, percebi que ainda tinha outras coisas mais para ver e sentir antes de poder dizer Agora já posso morrer! Mas já lá vão muitos anos depois disso. Entretanto, já cheguei aos cinquenta anos, já passei dos cinquenta anos, já deixei para trás os cinquenta anos, por vezes já me sinto cansado, muito cansado, demasiado cansado, já vi muito e já vivi muito e não preciso dizer Agora já posso morrer! porque sei que essa é a condição a que estou a chegar, mais dia menos dia.
Passei dos cinquenta anos. Não vi nenhuma luz. Não atingi o nirvana. Simplesmente deixei de me preocupar. Pelo menos, comigo.
Telefonei à minha mãe. Atendeu e disse Agora não posso falar, e desligou. Achei estranho. A minha mãe adora falar. Mesmo ao telemóvel. Esperei que me ligasse. Não ligou. À noite, refiz a chamada. Atendeu. Já tinha jantado. Estava à janela a ver quem passava. E eu perguntei Porque é que não podias falar? e, do outro lado, o silêncio. O silêncio de uma criança apanhada com a boca na botija. Apanhada em flagrante e sem saber como fugir. E o melhor ataque é a defesa. E, finalmente, diz Olha, queres mesmo saber? Estava no Pingo Doce e havia lá gente e não queria estar a falar alto ao telemóvel para toda a gente ouvir a minha conversa e eu precisava de uns morangos e fui lá à procura deles e levei a máscara e não toquei em mais nada juro! juro por Deus! e também não havia morangos e vi-me embora pronto! Ela sabe que não devia ir ao Pingo Doce sozinha.
E fiquei eu em silêncio.
Já cheguei aos cinquenta anos, estou na ladeira da minha vida e a minha preocupação é com uma criança de quase noventa anos que se faz rebelde e arma a revolução.
Acabei a rir. O que é que adianta? Ficar zangado? Triste? Já passei dos cinquenta anos. Acho que temos de viver o resto dos nossos dias como se fôssemos morrer já amanhã. Porque amanhã pode mesmo já ser tarde. E o resto são só estórias que levamos connosco para o túmulo para nos fazer companhia na eternidade. E consta que, por lá, não há vinho nem cerveja nem cigarros nem música nem dança nem sexo, só mesmo a porra de uma eternidade sem sabor.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/26]

O Bar no Centro da Cidade Onde Me Sentava ao Balcão

Foi nos anos oitenta. Mais ou menos a meio dos anos oitenta. Apareceu um bar onde não existia nenhum. Onde não existia nada. Ou quase nada. Apareceu um bar num largo bem no meio da cidade. No centro da cidade. Era um bar com balcão. Uma balcão em U, com o bar no centro de uma das salas, a sala principal (o bar tinha mais que uma sala, o que constituía outra novidade).
Eu chegava cedo ao bar e sentava-me ao balcão. Primeiro bebia um café. Ainda o bar estava vazio. Havia alguma gente, gente sozinha, como eu, que bebia café ao balcão. Depois começava a chegar mais gente e eu começava a beber cerveja. No início bebia média. Depois, com o passar do tempo comecei a beber minis, que dava mais jeito para agarrar com a mão, mas isso foi quando larguei o balcão e comecei a encostar-me às paredes do bar. Mas no início, no início eu sentava-me ao balcão, sempre gostei muito de me sentar ao balcão, primeiro bebia um café e depois ia bebendo cervejas médias, Sagres, até ficar enjoado e passar para o gin tónico. Naquela altura o único gin que havia no bar era o Bosford. E, ao terceiro, quando conseguia chegar ao terceiro, acabava na rua, a vomitar as botas, às vezes a mijar-me pelas calças abaixo, quase sempre no chão, deitado no chão, encostado a uma parede à espera que o mundo parasse de girar ou alguém me levasse até casa. Às vezes havia quem me levasse a casa. Houve quem me levasse para a cama. Houve ainda quem se deitasse comigo. Mas nem me lembro dessas noites. Só sei que aconteceram. Porque me contaram.
Eu chegava cedo ao bar, bebia um café, lia um jornal qualquer que estava por lá, normalmente um jornal de véspera, folheava-o, às vezes lia um ou outro fanzine que algum puto largava por lá para mostrar às pessoas, roubei alguns deles que levei para casa, mas não sei o que lhes fiz, não sei deles, não sei que caminho levaram. Alguns eram muito bons. Com boas ilustrações. Textos interessantes sobre música. Pelo menos é a ideia que tenho. Pode não ter sido bem assim. Se calhar nem foi lá que vi os fanzines. Se calhar nem roubei nenhum. Se calhar nem sequer eram grande merda.
Nessa altura, depois de me sentar ao balcão e beber café e folhear os jornais dos dias anteriores, começava a beber cerveja. Às vezes ofereciam-me tremoços ou milho tufado. Depois apareciam algumas pessoas que conhecia. Sentavam-se lá ao lado. Tínhamos dois ou três dedos de conversa, bebíamos outra cerveja, e eles continuavam a ronda. Mudavam de cadeira, de sala ou iam embora, à procura de outras pessoas noutros lados.
Eu ficava sempre por lá. Ao balcão. Antes de me começar a encostar às paredes. Gosto de rotinas. Ficava sempre lá na mesma cadeira do balcão. Fumava cigarro atrás de cigarro. Às vezes aparecia lá alguém com um charro. Fumávamos mesmo ali, ao balcão. Por vezes o empregado chegava-se e dava umas baforadas no charro. E aquilo rodava. Às vezes deixavam-me lá uns selos. Chegaram-me a dar uns cogumelos. Há partes desse período no bar, nesse bar no largo no centro da cidade, que não recordo. Há noites que foram apagadas. Há noites que não existiram de todo.
Depois de enjoar a cerveja, depois de já estar cheio até ao esófago e a transbordar pela faringe, virava-me então para o gin horroroso que me fodia o fígado e me deixava de rastos, mas não havia outra solução. Não gostava de whiskey e o vodka era só para beber de penálti como se fosse um copo de três.
Quando chegava à fase do gin, geralmente perdia-me. Deixava de saber onde estava, com quem estava ou para que estava. Às vezes não tinha dinheiro para pagar o resto da despesa. Avisavam-me no dia seguinte mal lá punha o pé direito, o pé com que entrava todos os dias pelo bar adentro ao som do People Are People dos Depeche Mode.
Tudo terminou numa noite. Numa noite dessas em que já estava na rua, o bar já estava a fechar, eu não estava caído no chão mas estava encostado à parede, com uma perna flectida e uma mini na mão na conversa com uma miúda, lembro-me dessa miúda porque foi a última vez que a vi, assim como foi a última vez que entrei naquele bar, nesse fim de noite eu estava à conversa com a miúda, uma miúda lindíssima, assim a recordo, as luzes do bar já estavam desligadas, havia mais gente por ali, quando ouvi uns gritos, gritos de gente a correr, gente alarmada, gente em pânico a correr de um lado para o outro e a gritar, aos berros, e ouvi o aproximar de um carro, o som do motor de um carro, um motor em alta rotação, umas luzes muito fortes a encandearem-me e, de repente, uma explosão que me projectou dali para fora e acabei por despertar caído em cima de um banco de jardim, daqueles com ripas de madeira, cheio de dores nas costas e sangue na cara, com vários rasgos na cara e nas mãos. Acordei e olhei o caos instalado à minha volta. Acho que curei a bebedeira e a ressaca imediatamente.
Um carro tinha entrado ali pelo largo a acelerar, perdeu o controle e foi contra a parede do bar, que deitou abaixo, enquanto levava, à frente, a miúda com quem eu estava a conversar. A miúda foi desintegrada. Pouco restou dela. O bar, nunca mais reabriu. O prédio foi deitado abaixo e construíram outro, agora de habitações de luxo. Eu tive uma sorte dos diabos. O carro passou mesmo ao meu lado. Podia ter sido eu, na vez da miúda. Nunca mais bebi gin nem cerveja.
Agora só bebo vinho e, geralmente, em casa, o sítio onde estou mais vezes. Perdi a vontade de ir a bares. Mas continuo a gostar de balcões. Fiz um na cozinha de casa para matar saudades.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/14]

A Rapariga sem os Dentes da Frente

Naquela época vivia com uma rapariga que não tinha os dentes da frente. Tinha batido com a boca no tablier do carro num acidente que tivera com um antigo namorado. Não usava cinto de segurança. Os problemas só acontecem aos outros, não é?
Quando a conheci ela disse-me que andava a juntar dinheiro para mandar pôr uns dentes à frente. Mas que, até ao momento, ainda não tinha conseguido juntar dinheiro nenhum. No seguimento da conversa, ofereceu-me uma bebida. Eu aceitei. Uma bebida nunca vem só e termina sempre da mesma maneira.
Quando acordei, no dia seguinte, ela ainda dormia. Observei-a a dormir. Era bonita, a miúda. Tinha um dormir suave. Depois lembrei-me da falta dos dentes à frente e pensei que não lhe fizeram falta nenhuma na noite anterior. Comecei a rir e ela acordou. Abriu os olhos, esfregou-os com as mãos, olhou para mim e sorriu-me. Eu vi-lhe a ausência dos dentes da frente e percebi que não me incomodava nada.
Nesse momento ela levantou-se da cama, nua, e começou aos saltos em cima do colchão e disse Faço ginástica todos os dias ao acordar. Mas a mim, aquilo não se parecia muito com ginástica. Levantei-me e acompanhei-a aos saltos. Até que a cama partiu e ela caiu para cima de mim e acabámos os dois por cair para cima da mesa-de-cabeceira e deitar o candeeiro ao chão. O abajur de vidro partiu-se. Eu magoei-me numa anca que bateu forte na mesa-de-cabeceira. Ela estava caída em cima de mim a rir que nem uma doida e perguntou-me Queres o pequeno-almoço? e eu, cheio de dores, incapaz de falar, acenei com a cabeça. Ela levantou-se de cima de mim, apanhou uma t-shirt caída no chão (e que era minha) e vestiu-a enquanto saía do quarto.
Regressou o silêncio. Eu estava magoado. Com dores. Levantei-me com cuidado para não me fazer doer mais. Levantei-me com cuidado para não me espetar em nenhum pedaço de vidro. Levantei-me com cuidado para não voltar a cair. Sentei-me em cima da cama partida e deixei-me tombar de costas sobre o colchão. Lembro-me de ver uma grande racha a cruzar o tecto de um lado ao outro e de ver um aranhão (eu tenho medo de aranhas) a subir a parede até ao tecto.
Então ela voltou ao quarto. Vinha a fumar um charro. Passou-mo e disse Pequeno-almoço na cama. E aquele foi o primeiro pequeno-almoço de muitos. Naquele dia deitámos a cama fora e deixámos o colchão no chão onde iríamos dormir nos meses seguintes, sempre a adiar a compra de um estrado novo da mesma forma que ela adiava a colocação dos dentes da frente.
O que não adiávamos eram as noites. Noites de rock and roll. Muito álcool, muitas drogas, muito sexo. De repente parecia que estava de regresso aos anos de faculdade. Só me faltava o sermão do meu pai a perguntar-me O que é que andas a fazer da tua vida?
Foi uma época de muitos excessos, aquela. O vinho às refeições, a cerveja fora delas, o gin à noite e o vodka para atestar. Depois começávamos pelos charros para irmos com calma e seguiam-se as pastilhas para desbundar. Às vezes coca, quando tínhamos dinheiro. Terminávamos a noite a foder que nem uns cães, eu em cima dela, os dois a arfar em cima do colchão que continuava no chão e depois íamos vomitar à sanita da casa-de-banho. Às vezes não chegávamos lá. E, no dia seguinte, lá tínhamos de andar de rabo para o ar a limpar o que tínhamos sujado na véspera. Às vezes o cheiro demorava a ir embora de casa. Mas eu gostava de a ver de gatas, de rabo para o ar, a esfregar o chão. Ela tinha um belo rabo, oh se tinha.
Tudo se precipitou num acidente que tivemos. Nenhum de nós morreu. Mas podíamos ter morrido.
Vínhamos de uma noite numa discoteca à beira mar. Foi ao passar pela zona de pinhal. Vínhamos já muito bêbados e drogados. Ela vinha a conduzir. Eu estava sentado ao lado, debruçado sobre ela, a tentar enfiar-lhe a língua na orelha e ela a fugir com a cara, a percorrer-lhe o corpo com as mãos e ela a rir e a gritar Pára! Pára!, mas a gostar das minhas mãos atrevidas, até que numa curva, não sei o que aconteceu, o carro guinou (ou terá sido ela?) e eu fui projectado do carro pela porta que estava mal fechada e se abriu, andei a rebolar no asfalto, queimei os braços e as pernas, esfacelei os joelhos e as palmas das mãos e acabei a bater com a cabeça numa pedra (pode ter sido num tronco de uma árvore cortada, já não me recordo) e ainda vi o carro a rodopiar antes de bater violentamente contra uma árvore e eu apagar.
Aquele acidente foi o fim de uma época.
Ela partiu o resto dos dentes. Andou de cadeira-de-rodas durante alguns meses, mas acabou por recuperar. Não consegue correr, nem dançar, mas caminha sozinha e sem o apoio de nada nem de ninguém.
Eu fiquei com umas escoriações, nada de muito grave. Mas assustei-me. Deixei o álcool e as drogas. Só não deixei o sexo porque entretanto conheci uma enfermeira no hospital que me tratou durante aquela semana em que estive internado. Era uma enfermeira muito habilidosa com as mãos. A primeira vez que saímos juntos fomos ao cinema ver uma reposição de Os Americanos do Robert Altman segundo Raymond Carver. Fui muitas vezes ao cinema com a enfermeira.
A outra, a rapariga sem dentes à frente e com um belo rabo, nunca mais a vi depois de sair do hospital. Falámos uma vez ao telefone. Uma chamada de despedida.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/16]

As Peças de Xadrez na Caixa das All Star Pretas

No dia em que decidi vir morar para esta casa, guardei as peças de xadrez numa caixa de sapatilhas All Star que durou mais, a caixa, que as sapatilhas, sempre presas nos pés desde o dia em que as comprei até ao dia em que, todas rotas, as enfiei no caixote do lixo. Eram umas All Star pretas, de costura a preto e uma estrela branca na lateral exterior das sapatilhas.
Mas não é das sapatilhas All Star que quero aqui falar. Nem sequer das peças de xadrez que meti dentro da caixa dessas sapatilhas, caixa essa que guardei na arrecadação daqui de casa e nunca mais as fui buscar. Não é que não goste de jogar xadrez, que gosto, mas não gosto de jogar xadrez sozinho e, no momento em que escolhi vir viver para aqui, para esta casa, perdida no campo, perto de uma aldeia que acho que nem vem no mapa, que eu sabia que estava a desistir de ter adversário para o jogo ou companhia para o resto que fosse da minha vida.
Escolhi isolar-me por deixar de gostar das pessoas. Por deixar de acreditar nelas. Claro que podem acusar-me de soberba. Claro que podem achar que me sinto superior a toda a gente e por isso não tenho paciência para aturar pessoas. Mas não, não é por me considerar superior. Também não me considero inferior. Não. Deixei foi de ter paciência para as pequenas guerrilhas diárias. Teorias da conspiração. Políticas manhosas. Falsas. Terrorismo de língua. As palavras começaram a matar. Mudaram-lhes o sentido. Chegámos à novilíngua. E tudo está mal. Tudo está sempre mal. Tudo é horrível. Nós somos maus. A culpa é deles. A culpa é nossa. A culpa é de quem a agarrar. Que importa a culpa, porra? Não é encontrar o culpado que me motiva. É resolver o problema. Superá-lo. Conseguir viver para além dele.
É preciso parar.
É preciso reaprender a respirar.
Peguei em mim. Arrumei as peças de xadrez. O tabuleiro enfeita uma das paredes que estava muito vazia. Demasiado vazia. Eu olhava para aquela parede vazia e via mais do que queria ver. Coloquei lá o tabuleiro de xadrez e o que passei a ver nessa parede foi o tabuleiro de xadrez cujas peças arrumei porque não gosto de jogar sozinho e não tenho adversário para jogar.
Quem sabe onde é que este sítio, onde vivo, fica?
Uso um prato. Um copo. Um talher. Um individual.
As garrafas de gin e as cervejas duram muito mais tempo porque não vem cá ninguém para as beber. O vinho gasto o mesmo. Afinal, já era eu sozinho que dava cabo dele. Como hoje. Bebo o mesmo que bebia. Fumo o mesmo que fumava. Mas tenho os dentes mais brancos. Os dedos não tão amarelos. Cheiro bem menos a tabaco. Passei a ter mais tempo para comigo. Lavo mais vezes os dentes. Lavo mais vezes as mãos. Tomo mais vezes banho. Arejo mais vezes a roupa. Ando mais pela rua. Gosto do alpendre. É a minha divisão preferida da casa. Passo a maior parte do tempo aqui. Posso olhar as montanhas ao fundo. Sei com antecedência quando vai chover ou fazer sol. Vejo quem está ao portão, lá em baixo, na estrada. Posso não abrir. Não fazer barulho. Não estar em casa. Morrer para as pessoas.
Deixei de comprar Ventilan. Deixei de comprar Zolpidem. Respiro melhor. Durmo melhor. Não me zango tanto. Sorrio mais.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/06]

O Último Almoço de Páscoa em Casa dos Meus Pais

Foi num Domingo como o de hoje. Um Domingo de Páscoa.
A minha mãe tinha passado o Sábado a tratar do cabrito. A temperá-lo. A assá-lo. A limpar a loiça das cerimónias, a louça que só via a luz do dia duas vezes por ano, no Natal e na Páscoa. O meu pai tratava de escolher o vinho ideal para o almoço de Domingo. Entre todas as garrafas sem rótulo que tinha guardadas na garagem onde faziam companhia ao carro que tratava como se fosse um dos filhos, ele sabia de que produtor era cada uma delas e qual a mais indicada para a ocasião.
Nesse Domingo, ainda de manhã, já quase hora de almoço, cheguei a casa dos meus pais. A minha mãe ainda estava a cozer uns grelos. O meu pai estava a preparar um Martini branco com um pouco de gin para mim. Ele gostava de preparar umas bebidas mas, raramente bebia. Um copo de tinto em algumas refeições mais especiais. Era provável que bebesse um copo de vinho tinto naquele Domingo de Páscoa. Já a minha mãe, acompanhava-me quase sempre. Só não me acompanhava na quantidade. Ela sabia quando parar. Eu ainda não sei.
Naquele dia agarrei o Martini que o meu pai me estendeu e fui até à cozinha dar um beijo à minha mãe. Fizemos um brinde. Ela estava a beber um vinho branco. Eu comi umas azeitonas. Um pedaço de broa. Provei uma das batatinhas assadas, e a minha mãe acabou por me pôr fora da cozinha porque a estava a estorvar no meu deambular de um lado para o outro a depenicar coisas apetecíveis.
Voltei para a sala onde estava o meu pai. Ele estava a pôr um disco de vinil da Amália a tocar na aparelhagem. Lamentámos a ausência de jogos de futebol no Domingo de Páscoa. Lamentámos não podermos ver um jogo do Benfica. Ele perguntou-me como é que eu ia. Eu menti, como mentia sempre. Ele percebia que eu mentia, mas não dizia nada. Depois fui à rua fumar um cigarro.
Passeei-me pelo quintal da casa dos meus pais, uma casa que também tinha sido a minha, e fui até à figueira que ainda existia. A figueira que eu subia até ao coruto. Olhava para ela, olhava lá para cima, e perguntava-me como é que eu subia aquilo? Como é que eu subia aquilo e nunca tinha caído, nem partido a cabeça ou um braço? Ainda estava lá pendurado o baloiço que o meu pai tinha posto para mim e para a minha irmã. Sentei-me e baloicei-me um pouco, mas sem tirar os pés do chão. Um suave ondular com o rabo enquanto fumava o cigarro. Já não havia cão. Dantes, na minha infância e depois adolescência, havia sempre um cão naquele quintal. A maior parte das vezes, cães rafeiros que davam aos meus pais. Cães que a minha mãe encontrava perdidos na rua, especialmente no Verão. Chegou a haver lá três cães de uma vez. Agora já não havia nenhum cão. Acabei por descobrir um gato deitado em cima do muro a olhar para mim. Não o conhecia. Nem sei se era ali de casa ou da vizinhança. Chamei-o, mas o gato ficou onde estava.
Acabei o cigarro e voltei para dentro de casa. O meu pai estava a levar umas travessas para a sala, para a mesa na sala. Eu voltei à cozinha. A minha mãe perguntou-me A tua irmã? e eu não sabia. Nunca sabia. E disse-lhe Deve estar a chegar. E foi nesse momento que o meu telemóvel tocou.
Atendi.
Era o namorado da minha irmã.
Eu fiquei calado a ouvir o que ele dizia. O que ele tentava dizer.
A minha mãe parou o que estava a fazer e ficou a olhar para mim. Para a minha cara. E acho que percebeu primeiro que eu o que tinha acontecido.
O meu pai voltou a entrar na cozinha e perguntou Quem é? e a minha mãe pousou a mão no braço dele para que ficasse quieto. Quieto e atento. Para o acalmar. Para lhe dizer que ela estava ali. Mas o meu pai era pior que eu. Não tinha grande intuição. E quando desliguei o telemóvel e senti os olhos a ficarem molhados, e vi a minha mãe levar a mão à boca para impedir um grito de sair, o meu pai voltou a perguntar Quem era?
Naquele Domingo já não almoçámos. A minha mãe foi despejar o tabuleiro com o cabrito na tigela de comida do cão da vizinha que lhe perguntou o que se passava e a quem ela não respondeu. Nunca mais a minha mãe voltou a cozinhar cabrito. Nunca mais houve almoço de Páscoa em casa dos meus pais. Naquele dia o meu pai deixou de falar e assim continuou até morrer. A última vez que ouvi a voz do meu pai foi quando ele me perguntou Quem era? Naquele dia a tristeza entrou naquela casa e nunca mais se foi embora. Eu continuei a mentir aos meus pais porque não queria que eles também se preocupassem comigo.
Hoje, Domingo de Páscoa, continuo a mentir, agora a mim, para me enganar e fazer-me crer que a vida é bela e que depois da tempestade vem sempre a bonança. Mas não é verdade. Quando a tempestade assenta arraiais, nunca mais se vai embora.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/12]

Para um Diário da Quarentena (Nono Andamento)

Estou quase a fazer um mês de confinamento em casa. Mais dois dias e faço um mês. Um mês fechado aqui em casa. Sozinho.
A ideia de um diário deste confinamento ficou-se pelas promessas. A inércia tomou conta de mim. Os dias repetem-se. Uns a seguir aos outros. Sempre iguais. As noites como os dias. Já os confundo. Durmo quando calha. Como quando tenho fome. Tenho sempre fome. Engordei. Engordei bastante. Não sei quanto que tenho medo da balança. Fujo-lhe.
Perdi as rotinas antigas e ganhei outras. Nem sei se são rotinas. São uma ausência de actividade. Perdi a vontade. Perdi a vontade de tudo. Não quero ler mais nenhum livro. Não quero ver mais nenhum filme. Não quero acompanhar mais nenhuma série. Estou farto da música. Ainda me lembro das festas unipessoais que fiz na sala, ao início. Eu a dançar feito louco ao som dos Chemical Brothers até cair, derreado, no fundo do sofá. Agora não me apetece dançar nem ouvir música.
A televisão está sempre ligada, dia e noite, para me fazer companhia e me manter na ilusão de que não estou só.
Mas almoço sozinho. Janto sozinho. Durmo sozinho. Bebo café de manhã sozinho e, o primeiro cigarro do dia, é fumado sozinho. Dantes ainda fumava o cigarro à janela. A olhar a rua. A olhar a vida que ainda existia na rua. Agora fumo na cama. E já não é o primeiro cigarro do dia porque já não tenho dia. Os dias e as noites são já só a mesma coisa, sempre a mesma coisa, nunca acabam nem nunca começam. Só continuam, imparáveis.
Deixei de acompanhar as conferências da DGS. Agora só ouço o número de mortos. Depois, desligo. As vozes continuam a debitar números, informação, mas eu já não ouço. Tenho os ouvido e o cérebro programados para o dia em que alguém disser Terminou.
Mas ainda ninguém disse.
O número de mortos continua a somar.
Eu ainda estou vivo.
Pergunto-me para o que é que me estou a preservar. Ainda haverá mundo depois do Covid-19?
A cama tem sido o meu útero. Deito-me e tapo-me com o edredão. Tapo a cabeça. Respiro debaixo de edredão. Acabo por adormecer. Já não como há… Há quanto tempo? Não tenho fome. Não tenho vontade de comer. Bebo água. E bebo água porque às vezes fico com a boca seca e pastosa. Já nem vinho bebo. Acabou-se o vinho. Ainda tenho alguns cigarros. Vou fumando na cama. Tenho o cinzeiro cheio. Esqueço-me de o despejar quando me levanto. E só me lembro quando já estou de regresso à cama. Não volto a levantar-me. E volto a esquecer-me. A minha memória já não é a mesma. Acho que tudo isto me está a afectar. Não estou com o Covid-19, pelo menos acho que não estou contaminado, mas estou a sofrer de problemas colaterais.
Estar em casa está a matar-me. Eu gosto de estar em casa mas por opção. Obrigado, começo a odiar. Odiar tudo. E no cimo de tudo, odiar a vida. Odiar a vida e tudo o que fizemos dela.
Estou na cama. Vou continuar na cama. Espreito por cima do edredão e vejo, através da janela, um céu esbranquiçado. Anémico. Um dia morto.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/11]

Ordem Cósmica

Dia 02 do mês 02 do ano 2020. Não acredito muito em conjugações cósmicas nem cabalas para me dobrar o destino mas, há momentos em que parece que o mundo se une para me ser simpático e para me compensar, com alguma pequenas sortes, todos os azares com que tem pautado a minha vida aqui pela Terra. Hoje é um desses momentos.
Começou logo de manhãzinha. Acordei quando acordei e não fui despertado por nenhum despertador. Abri a janela do quarto e vi o sol em todo o seu esplendor, num belo céu azul, o que afastou para longe toda a neura que os últimos dias, cinzentos e de chuva, tem cultivado. Não queimei o café nem as torradas. O pão não caiu no chão com a manteiga para baixo. Não faltou gás durante o duche. Nem acabou o champô nem o sabonete. Já antes me tinha apercebido que não me iria faltar papel-higiénico por mais que eu o gastasse. A toalha com que me limpei, estava seca e limpa.
Tinha as cuecas lavadas. As meias agrupadas aos pares. As camisas passadas a ferro. As camisolas dobradas. As calças penduradas. Tinha toda a roupa disponível e a dificuldade foi só em escolher o que vestir para ir à rua.
Antes de sair fumei um cigarro à janela. Ainda tinha cigarros no maço e gasolina no isqueiro. Enquanto fumava o cigarro à janela pensava que o Benfica já tinha jogado há dois dias, portanto não havia a possibilidade de perder o jogo. Sorri.
Ia a sair de casa quando tocou o telemóvel que estava com a bateria carregada. Não me tinha esquecido de colocá-lo à carga na véspera. Era a minha mãe a convidar-me para almoço. Tinha feito feijoada. Aceitei logo. Não tinha nada para almoçar e há muito tempo que não comia uma feijoada à transmontana, cheia de couves, feita pela minha mãe.
Saí à rua e entrei na pastelaria do bairro. Pedi um café. Não estava queimado. Depois um favaios. Estava fresquinho. Apareceu um amigo de longa data. Alguém que já não via há anos. E pensei que, afinal, ainda tinha alguns amigos. Conhecidos, vá lá. Pedimos um Martini branco com uma pedra de gelo e um bocado de gin. Repetimos a dose. Ele pagou a despesa. A despesa toda.
Dei um passeio a pé pela cidade até casa da minha mãe. Não fui atropelado. Não tropecei nas pedras levantadas da calçada. Não caí nos buracos do asfalto.
A feijoada estava boa. Não é de admirar. A minha mãe tem boa mão para a cozinha. Repeti. Não me engasguei com nenhum osso nem a minha mãe com as couves – a minha mãe tem historial com engasgar-se com couves. Havia vinho para acompanhar a feijoada, que foi todo para mim. A minha mãe desculpou-se com o facto do corpo não lhe estar a pedir vinho e acompanhou a feijoada com um panaché que fez ao misturar uma mini com um bocado de Seven Up.
Depois do almoço a minha mãe foi fazer uma sesta. Eu também me sentia sonolento, mas não fui dormir. Levantei à mesa e lavei a louça. Não parti nenhum prato nem nenhum copo. Depois saí de casa sem fazer barulho.
Voltei a cruzar a cidade. Enquanto caminhava pensei que era Domingo. Não iria receber nenhuma carta com contas para pagar. Não iria receber nenhuma carta de nenhum advogado a reclamar a pensão de alimentos de nenhuma das minhas ex-mulheres. Não iria ouvir nenhum raspanete de nenhum chefe, director nem patrão.
Passei pelo jardim e não fui assaltado. Cruzei várias vezes a estrada e não fui abalroado por nenhuma trotineta. Encontrei uma nota de vinte euros perdida no passeio. Fui tirar tabaco a uma máquina e estava lá um maço. Precisamente a marca que eu fumo. Mas até poderia ser outra.
Passei ao lado de um estaleiro e não me caiu nenhum andaime em cima. Não me cruzei com nenhum credor nem ex-namorada zangada e maldisposta. Não levei com nenhuma cagadela dos pombos que invadiram a cidade.
Andei por ruas que não conhecia e não me perdi. Comprei castanhas na senhora das castanhas e contei três a mais que a dúzia que tinha pago.
Ao chegar a casa dei conta que tinha começado a chover na rua. Sentei-me no sofá. Liguei a televisão. Estava a dar um filme do 007. Fiquei a ver até adormecer. Quando acordei, fui comer uma maçã. Não tinha bicho. Lavei os dentes e não fiz sangue nas gengivas.
Deitei-me. E enquanto estava deitado, de barriga para cima a ver o rasgo de luz projectado do exterior pela janela mal fechada, pensei como o dia me tinha corrido bem. Não me tinha acontecido nenhuma desgraça.
Não acredito nas sorte e nos azares do destino. Mas este dia 02 do 02 de 2020 foi um dia muito simpático para comigo.
Às vezes penso que faço parte de uma certa ordem cósmica que me quer preservar para além dos problemas do dia-a-dia desta vida comezinha. Mesmo que não acredite em nada do que estou para aqui a dizer.
Amanhã já sei que vou torcer o tornozelo mal coloque o pé no chão ao sair da cama. Se calhar é melhor não me levantar.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/02]

Onde É que Arranjaste o Dinheiro?

O frio tinha finalmente chegado. Entrou com o último sol de ontem. Um sol mentiroso. Um sol brilhante, lá no céu, mas um frio terrível cá em baixo. Quando o sol se foi, o frio ficou.
Hoje nem houve sol. Só o frio.
Estava deitado dobre o tapete da sala a olhar para uma racha no tecto. A televisão desligada. A lareira apagada. Ela sentada no sofá, com uma manta por cima. Eu deitado no tapete da sala, de casaco vestido, a olhar para o tecto, a ver a racha a meio e o bolor da humidade que se estava a instalar nos cantos e por cima da janela. Pensei que tinha de pintar o tecto. Um dia destes.
Ela perguntou Já não há cigarros, pois não? e eu abanei a cabeça. Não sei se ela viu ou não o meu abanar de cabeça. Tentei responder mas a minha voz não saía. Depois ela perguntou Nem há vinho? e eu voltei a abanar a cabeça.
Levantei a mão para o tecto. Tentei apagar a racha com a minha mão, mas os cantos bolorentos estavam sempre visíveis. O tecto estava mesmo nojento.
Ela perguntou Tens algum dinheiro? e eu voltei a abanar a cabeça e fiz um enorme esforço para falar e disse Não. Não sei se ela ouviu. Também não sei se o meu tom de voz era audível. Eu mesmo não me ouvi. Mas eu já não me ouvia há muito tempo. Mantinha acesa a sensação de que falava, mesmo quando não o fazia, e assim nunca sabia quando falava ou estava calado mesmo quando estava a pensar que o estava a fazer.
Enfim.
Não tinha dinheiro. Nem eu, nem ela. Estávamos sem trabalho há algum tempo. Trabalhos precários dão nisto. A disponibilidade desvaloriza-te e a falta de reverência, digamos que também não abonava muito na hora de contratar alguém. Mas não importavam os motivos. A verdade era que estávamos os dois sem trabalho e sem dinheiro. Nem tínhamos direito ao subsídio de desemprego. Fazíamos parte de um grupo de gente marginal que nunca entra nas contas. Éramos artistas. Passávamos recibos verdes. Fazíamos todo o tipo de trabalhos mal pagos. Nunca conseguíamos juntar dinheiro. Andávamos sempre nas lonas. Éramos miseráveis. Uns indigentes.
Ela levantou-se. Saiu da sala.
À minha volta, sobre o tapete onde eu estava deitado, via uns bichinhos a passearem-se. Não eram formigas. Não sei que bichos eram. Mas andavam de volta das migalhas que estavam lá pelo chão. A casa estava um bocado imunda. Precisava de uma barrela. Mas quanto menos se faz, menos se tem vontade de fazer. Não conseguia levantar-me. Não conseguia ir buscar o aspirador. Ou a vassoura. Sentia-me incapaz. Queria ficar ali deitado no chão e deixar-me morrer assim.
Ela entrou na sala de casaco vestido. Tinha pintado os olhos. E os lábios. Os lábios estavam vermelhos. Um vermelho vivo. Tinha dado um jeito ao cabelo. Escovou-o. Prendeu-lhe uma flor. Perguntei-lhe Vais sair? E ela baixou-se ao pé de mim, deu-me um beijo rápido, leve, sobre os lábios e disse Já volto. E saiu de casa. A porta da rua a bater ficou a ecoar dentro da minha cabeça. Agora estava sozinho em casa e não queria estar sozinho em casa. O silêncio era ainda maior. Tentei dizer algumas palavras alto. Para me acompanharem. Rothko. Batman. Godard. Bife com batatas fritas. Um sonho de menino. Mas não sabia se estava mesmo a falar ou não. Não me ouvia. Mas podia dar-se o caso de estar a dormir. A sonhar. Ou estar afónico. Talvez surdo. Não, surdo não, que a ouvi dizer Já volto. Ou foi Já venho? Não tenho a certeza. Esqueci-me. Ando a esquecer-me das coisas.
Queria ir olhar pela janela. Queria ir olhar para a rua. Ver se a via passar lá em baixo. Mas não conseguia levantar-me do chão. E não sabia se era preguiça ou incapacidade física de fazer esforço para me levantar. Estou fraco, pensei. E devia estar. Não me lembrava da última vez que tinha comido. Nem me lembrava o quê.
O tempo passou. Eu continuei deitado no chão da sala. Deitado em cima do tapete sujo da sala. Devo ter passado várias vezes pelas brasas. Estava sonolento. A luz tinha baixado bastante.
Ouvi a porta da rua. Alguém entrou. Ela, com certeza.
E antes de a ver, ouvi-a Levanta-te, vá. E foi então que a vi com uns sacos de papel do McDonald’s. E com um cigarro aceso ao canto da boca. Já não tinha os lábios pintados. Nem a flor no cabelo. E ela ainda disse E há vinho.
Eu tentei levantar-me mas não consegui. Disse-lhe Ajuda-me a levantar, mas não sabia se ela me tinha ouvido e estiquei-lhe um braço. Ela agarrou-me na mão e levantou-me. Senti umas dores nas costas à medida que me erguia. Vacilei. Mas não caí. Agarrei-me a uma cadeira que estava à volta da mesa da sala. E perguntei-lhe Onde foste arranjar o dinheiro? mas percebi que a minha voz não estava audível. Vi-a colocar os hambúrgueres e as batatas fritas em cima da mesa. Vi-a colocar um volume de cigarros e um cinzeiro na mesa. Vi-a abrir uma garrafa de vinho tinto e a encher dois copos. Estendeu-me um. Batemos levemente com o copo um no outro. Bebemos.
E ela disse Não me perguntes onde é que arranjei o dinheiro.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/16]

Não Gosto

não gosto de dias frios em que não possa caminhar junto ao mar, nem de silêncios forçados e choros de tristeza, não gosto de flores mortas nem de plástico, de árvores arrancadas pelas autarquias e florestas ardidas, não gosto de ver crianças despidas, rotas e com fome, nem crianças a trabalhar quando deviam estar a brincar, não gosto da traição, da mentira e da ganância como também não gosto de quem não gosta de nada, não gosto de massada de peixe, de açorda com alho, ensopado de borrego, tofu e seitan, mas como, que remédio tenho se não comer, e também não gosto de cerveja morta nem de garrafas de vinho vazias, de água morna e café frio e muito menos queimado nem de pastéis de nata muito doces, não gosto da minha neura nem do meu tédio mas não lhes consigo fugir, especialmente ao domingo, um dia de que não gosto, dia de ir à missa, a que já não vou, mas ia em novo para estar com as miúdas giras da minha rua, e também não gosto da segunda-feira nem da terça, nem de nenhum dos outros dias da semana quando tenho de fazer tudo aquilo que não quero nem me apetece nem gosto, e também não gosto nada de fascistas nem de comunistas, não gosto de quem quer mandar em mim como se recebesse um contrato divino, e não gosto do liberalismo económico nem do desespero a que vota a maior parte dos homens, mulheres e crianças que não são empreendedores, porque nem todos podemos ser empreendedores e para uns serem outros não podem ser, e sim, também não gosto de ter de ser empreendedor, e não sou, também não gosto de ler livros com folhas dobradas, riscadas ou rasgadas, nem com areia da praia na cota, e é por isso que não levo livros para a praia, também não gosto de ouvir música em streaming, nem de ver filmes no computador, e não gosto que queiram que seja igual a toda a gente que se parece, nem gosto de ter respeitinho por quem não o merece, nem de maços de cigarro vazios e muito menos da carteira vazia, leve e vazia, não gosto de pão do pingo doce no dia seguinte nem da banana muito pisada, não gosto das manchas de bolor nos meus casacos nem nos tectos da casa-de-banho, não gosto que façam mal aos animais e muito menos às pessoas, em especial às mais frágeis, não gosto mesmo nada de déspotas nem de idiotas e por isso não gosto do trump nem do bolsonaro do maduro do putin ou do boris johnson, não gosto das chamadas insistentes das operadores de telecomunicação para me vender mais um pacote muito em conta quando se aproxima a data do fim da fidelidade, e também não gosto do bife muito bem passado, nem da pasta empapada, não gosto de ir às finanças, à segurança social ou ao banco, nem a lado nenhum cheio de burocratas acéfalos que não ouvem um pedido de ajuda, e não gosto de ter frio na cama e de dormir sozinho nessas noites, também não gosto quando ejaculo precocemente, quando vomito, embebedo e fico maldisposto, não gosto de calçar sapatos nem botas, nem de usar fato e gravata, também não gosto de um dia vir a ser careca, mas antes sê-lo, e sê-lo bem rapadinho, que atravessar a cabeça, de um lado ao outro, com meia dúzia de cabelos, não gosto de cortar as unhas nem as das mãos nem as dos pés, nem de fazer a barba nem de me pentear, não gosto dos ataques de bronquite nem os de asma, não gosto de me constipar nem de espirrar para cima das outras pessoas, muito menos gosto que me falte o colo da minha mãe quando estou doente, e não gosto que não compreendam que quando estou doente estou quase a morrer mesmo que não seja verdade, e já não gosto de acampar mas já gostei quando era mais novo e menos burguês, também não gosto de tunas académicas nem do quim barreiros, de música pimba em geral e dos modern talking em particular mesmo que sejam alemães e até se expressem muito bem em inglês, e também não gosto de ver novelas brasileiras, mas já gostei, nem das portugueses, mas já vi, nem gosto do prós e contras nem de nenhum dos programas de futebol em que só se fala e grita e injuria e afinal ninguém joga, também não gosto quando dizem mal do cinema português que até é muito bom e o que falta é criação de públicos e pessoas informadas e cultas para depois não votarem em políticos boçais e burros, não gosto que haja dinheiro para bancos e não para a cultura, não gosto no que as cidades se estão a tornar nem da visão mercantilista de quem as governa, não gosto da lama que me prende o passo nem da laje que me faz escorregar, não gosto da ignorância e não me importo que não gostem de mim

[escrito directamente no facebook em 2020/01/08]

Quase Parece Feriado, mas Não É

Vejo-os a correr. Esbarram uns nos outros e gritam um Desculpe!… enquanto se afastam, atrasados, sempre atrasados para onde quer que vão cheios de pressa.
Quando aqui cheguei, a cidade parecia dormir. Não é feriado mas parece. É véspera de feriado com tolerância de ponto para funcionários públicos que resulta numa cidade fantasma, pelo menos até os primeiros atrasados caírem da cama e perceberem que têm poucas horas para comprar o amor do próximo.
Sentei-me neste banco de jardim, aqui no Rossio da cidade, frente ao antigo Banco de Portugal que já não comporta notas nem ouro (e não sei se alguma vez comportou ouro) e agora expõe as obras de arte dos artistas de que faz gala e não havia ninguém na cidade. Nem a velha varredoura das ruas, uma loira, com quem me cruzo todos os dias, passou aqui em frente. Está tudo a em estágio para a barrigada natalícia.
As horas passam. Vão passando. Conto-as pelas beatas dos cigarros fumados. Devia comer qualquer coisa. Beber um vinho. Mas estou a antibióticos, não devo beber. Fumo. Fico por aqui e vejo passar os apressado, os atrasados, os últimos a aperceber-se de que falta qualquer coisa para atingirem a suprema felicidade.
A cidade foi-se compondo. Por volta das duas da tarde já quase parecia um dia normal. Muita gente nas ruas.
O dia ajudou a que as pessoas saíssem de casa. Está sol. Não está frio. As pessoas não precisam de ir para o Centro Comercial. Mas vão. Muito gostam as pessoas de se enclausurarem entre paredes de néon. E ainda me olham de esguelha porque estou a fazer publicidade negativa. Mas logo largam um esgar porque aceitam a publicidade, e negativa ou não, publicidade é publicidade. Não importa que falem mal, o importante é falarem. As velhas máximas do capitalismo. Ironias. Como aquele que diz que temos de comprar menos coisas mas abre bem as portas da loja para despachar toda a mercadoria e ter um Natal Feliz.
O dia começa a morrer. O sol desapareceu atrás da colina do castelo e, daqui até ser noite é um abrir e fechar de olhos. A cidade volta a parecer fantasma. Agora ainda mais. Há luzes. Muitas luzes numa cidade que volta a estar quase deserta. Passam alguns carros. Poucos. Novamente os atrasados. Já não há pessoas a caminhar nas ruas. Está frio. Agora está frio.
Sinto um cheiro a perfumes no ar. São as pessoas a ultimar-se para as festas, para os reencontros, para dar amor, um amor bem-cheiroso.
Levanto-me a custo do banco de jardim. Faço força na bengala para dar impulso. Vou também para casa. Tenho lá um bocado de arroz de pato que comprei no Rei dos Frangos. Pena que não posso beber vinho. O antibiótico… Os dentes… A merda da velhice, é o que é!
Quando é que vai dar o Sozinho em Casa?

p.s.: por vezes gostava de ser um soldado de regresso a casa para ter um abraço quente a acolher-me… talvez um beijo… talvez um bem-vindo a casa…

[escrito directamente no facebook em 2019/12/24]