Do que É que Estou à Espera?

Do que é que estou à espera?
Estou vestido. De banho tomado e roupa interior lavada. As calças bem vincadas e a camisa engomada. Os sapatos engraxados. Estreei uma gravata. Tenho os botões de punho do meu pai. O relógio Omega Constellation Chronometer Electronic F300 Hz que também era dele. O telemóvel no bolso das calças. A carteira também. A carteira dos documentos que também é a carteira onde levo o dinheiro. As moedas vão numa outra carteira, pequenina, de pele, com fecho, que também está no bolso das calças. Um maço de cigarros novo no bolso do casaco. O isqueiro é um Zippo e também vai no bolso das calças. Tenho de ter cuidado com esta mania de acender o isqueiro dentro do bolso das calças. Limpei os óculos de sol, que estão em cima da mesa da cozinha à minha espera, e os de ler que estão numa caixa de transporte no bolso do casaco. Com tantas coisas espalhadas pelos bolsos das calças e do casaco, já percebo a moda das malinhas para transportar tanta tralha. E ainda me faltam as chaves de casa, ainda penduradas na porta de saída e as chaves do carro que estão na mesa da cozinha ao lado dos óculos de sol.
E então, do que é que estou à espera?
Lá fora está sol. Há um bocado estava encoberto. Durante a noite choveu. Mais tarde há-de chover de novo. Há ameaça de ventos fortes mas, por agora, o seu está azul, o sol brilha e está calor. Estou arrependido de ter posto gel no cabelo. Não tarda começa a escorre-me pela testa abaixo. Vou ficar com a testa brilhante, gordurosa. Vou ser o ponto de luz para quem toda a gente vai olhar. Serei o alvo de todas as atenções e não será pela melhor das razões.
Tenho um dente a latejar. Tomo já um Clonix para arrepiar caminho. As mãos estão a dar-me comichão. Já sei o que lá vem. É melhor juntar-lhe um Zyrtec. E uma bombada de Ventilan que já sinto a pieira. É dos nervos. Os nervos despertam-me a bronquite. Quando estou nervoso, fico logo cheio de pieira e logo de seguida começa a falta de ar.
Devia sair de casa. Estou em cima da hora.
Suspiro.
Tiro o maço de cigarros novo do casaco e retiro-lhe o celofane. Bato o maço nas mãos. Retiro um bocado de prata e puxo um cigarro. Acendo o Zippo e dou-me lume. Tusso. Tusso umas poucas de vezes. Não é o primeiro cigarro do dia, mas tusso umas poucas de vezes. Depois acalmo.
Sento-me à mesa da cozinha a fumar o cigarro. Na cabeça, uma música Lá-lá-lá-lá-lá lá-lá-lá lá-lá-lá-lá-lá-lá…
Tenho vergonha de estar com esta música na cabeça. Ainda bem que ninguém ouve, que ninguém sabe.
Devia ir-me embora. Do que é que estou à espera?
Estou com calor. Desaperto o nó da gravata. Tiro o casaco e penduro-o nas costas da cadeira. Sinto os pés apertados. Descalço-me. Levanto-me e sirvo-me de um copo de vinho tinto. Bebo o copo de um gole. Volto a servir-me. Dispo as calças. Puxo a gravata. Tiro os botões de punho. Dispo a camisa. Tiro a camisola interior de alças os boxers e as meias. Estou nu. Estou nu com o Omega Constellation Chronometer Electronic F300 Hz que era do meu pai no pulso esquerdo e já não vou a lado nenhum. Não. Vou. Vou até ao alpendre. Acendo um novo cigarro no resto do primeiro, agarro no copo de vinho tinto e vou nu sentar-me no alpendre. Os gatos correm para o pé de mim. O cão também, mas mais devagar. Ao fundo, as montanhas estão encobertas. Chove lá em cima. Acho que vou ficar aqui por casa. Não quero ir a lado nenhum. Quero ficar sozinho. Sossegado. Quero ficar aqui, exactamente aqui, onde estou.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/20]

O Meu Irmão

Eu tive um irmão que não chegou a sê-lo. Se ele fosse, se calhar era eu que não era.
A minha mãe teve um filho nado-morto antes de mim.
Pergunto-me muitas vezes o que é que seria do mundo, deste mundo, se o meu irmão tivesse nascido vivo? Se ele existisse! Eu existiria? O mundo seria igual? Haveria mundo se eu não existisse para o conceber? Se eu próprio não tivesse sido concebido?
Perguntei várias vezes à minha mãe, no papel de filho único, se o meu irmão, aquele que eu não tenho, se ele tivesse nascido vivo, eu teria sido concebido?
A resposta da minha mãe nunca foi sonora. Ri-se. É sempre o que faz. Ri-se. Ela ri-se de mim. Um sorriso silencioso, mas rasgado. Não confirma nem desmente. Vejo-a de Cornetto de morango nas mãos, a sorrir para mim, sem me responder.
Aquele irmão que não chegou a ser, aconteceu cinco anos antes de mim. Eu, provavelmente já não deveria ter existido, tendo existido o meu irmão. Os meus pais já tinham uma idade avançada. Demasiado avançada para serem pais. Estavam quase na idade de serem avós. Avós novos, bastante novos, mas avós.
Penso sempre se eu nasceria de outra forma. Noutra família. Filho de outra mulher. De outro homem. Seria igual? Seria como sou? Viveria na mesma cidade? Teria os mesmos amigos? As mesmas namoradas? Teria os mesmo gostos? Os mesmo desejos? Faria as mesmas merdas que faço hoje? Que tenho feito ao longo da vida? E as desculpas? Poderia eu usar as mesmas desculpas que uso hoje? As mesmas mentiras? Seria uma vítima? ou um carrasco? Qual o poder dos meus possíveis outros pais sobre mim?
Uma coisa que me preocupa é se eu continuaria a gostar de fumar e de beber vinho tinto cerveja gin e vodka.
Há dias em que não consigo pensar noutra coisa. A minha vida esteve dependente de outro. A minha vida esteve, está, sempre dependente de outro. Primeiro o irmão que não tive. Depois os pais que me tiveram. Os amigos que fui tendo. Os patrões que me têm.
Quando é que eu posso ser eu, afinal?
Poderei afirmar que nasci porque tinha de nascer ou que fui só fruto das circunstâncias e, como tal, não tenho qualquer significado para o mundo?
Sempre que penso em todas estas questões que, por vezes, me atormentam, mas não hoje, há uma pergunta que nunca poderei ver respondida mas que é a pergunta que eu mais gostaria de conhecer a resposta Como é que é ser irmão? Ter um irmão?

[escrito directamente no facebook em 2020/08/31]

Violência Gera Violência

Estava a almoçar. Tinha feito dois ovos mexidos com chouriço cortado aos bocadinhos e ajudava o garfo com um bocado de pão saloio do Zé dos Frangos. A caminho da boca, o garfo ficou em suspenso frente à bocarra aberta, ao ver o polícia a disparar sete vezes. Sete tiros. Sete tiros à queima-roupa. Sete tiros pelas costas num homem preto. O homem não estava a fugir. O homem não era nenhuma ameaça. O homem não tinha nenhuma arma nas mãos. O polícia disparou-lhe sete tiros nas costas.
Pousei o garfo. Senti o estômago às voltas. As garfadas de ovos mexidos que já tinha engolido, pareciam querer voltar para trás. Subir pelo esófago, voltar à boca e disparar para fora, sobre o prato, sobre a mesa, pela cozinha. Espalhar-se, azedo, por todo o canto da cozinha.
Peguei no comando do cabo e puxei a notícia atrás.
Um homem preto, perseguido por vários polícias, tenta entrar num carro. Um dos polícias puxa o homem pela camisola. Vejo a camisola esticar-se pelo puxão. O homem preto parece não querer parar. O polícia puxa de uma arma e dispara sete tiros à queima-roupa sobre as costas do homem preto. Repito para eu próprio perceber o que estou a relatar: O polícia puxa de uma arma e dispara sete tiros à queima-roupa sobre as costas do homem preto.
Foda-se! Respiro fundo.
Sinto o estômago às voltas. Percebo os ovos mexidos a voltarem para trás. Levanto-me a correr da mesa e vou até ao lava-loiças. Abro a boca e vomito. Vomito uma massa amarelada com laivos cor-de-rosa, provavelmente do chouriço e do vinho. Deito tudo fora até já não restar mais nada dentro de mim. Transpiro. Sinto o suor a cair pelas têmporas. Cuspo. Cuspo várias vezes para o lava-loiças. Cuspo mesmo quando já não tenho mais saliva na boca para cuspir.
Levo água à boca. Lavo os lábios, a cara, molho o cabelo. Bochecho. Deito fora. Volto a bochechar. Volto a deitar fora. Tento acalmar. Respiro fundo.
Volto para a mesa. Na televisão, a notícia já é outra. Já nem sei o quê. Eu olho para a televisão e o que vejo é um homem preto a ser alvejado pelas costas, sete vezes, alvejado sete vezes à queima-roupa, pelas costas.
Afasto o prato com o resto dos ovos mexidos. Não consigo comer mais. Mas devia que agora não tenho nada no estômago. Bebo um gole de vinho tinto. Acendo um cigarro.
Como chegámos aqui?
Faço tantas vezes esta pergunta e nunca chego à resposta.
O homem branco está com medo de perder o seu privilégio de raça privilegiada. O homem branco heterossexual está com medo das transformações do mundo. O homem branco está com medo de, um dia, ao sair de casa, estar num prédio, numa rua, numa cidade, cheia de pessoas pretas e pessoas homossexuais e mulheres independentes e seguras de si e tem medo do que o destino lhe reserva. Este homem branco tem medo de ser o único e de se sentir só.
Agora, neste momento não consigo pensar em mais nada. Não quero pensar em mais nada. Não quero pensar em ódio. Não quero pensar em fanatismo. Em religião. Em clubes de futebol. Em nós contra eles. Até porque, em qualquer altura, nós somos eles. Eu sou ele.
E a violência gera violência. E sinto o meu olhar a desviar até ao canto da cozinha onde tenho um taco de basebol vindo directamente da América. A violência gera violência. Levanto-me da mesa e caminho até ao canto da cozinha.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/25]

A Namorada do Meu Irmão

Passei a manhã a olhar para ela. Era a primeira vez que via a namorada do meu irmão. Ele era muito cioso da sua vida e tentava manter-nos, a mim e à mãe, sempre afastados. Ela era bonita. Não deslumbrante. Não era daquelas belezas de ficar embasbacado. Mas era bonita. E tinha qualquer coisa que a transformava em algo bem mais interessante que a simples beleza. Talvez fosse carisma. Ou sedução. Ela falava com toda a gente. Era bastante solícita. Sempre de sorriso na cara. Um sorriso alegre e sincero. Mas o que me fascinava mais, era vê-la nas calças de ganga largas que usava, calças que lhe caíam pelo cu abaixo e com as perneiras a prenderem-se por baixo das All Star pretas, sujas e rotas, que calçava. Vestia uma blusa muito leve e quase transparente, preta com umas pequenas florezinhas brancas, de botões abertos até ao peito e caída por cima das calças, mas não era comprida. O cabelo, esse sim comprido, imaginava eu, estava apanhado, displicentemente, e preso com um lápis número 2 da Staedtler.
Eu ia bebendo umas cervejas enquanto o meu irmão assava as sardinhas. O meu irmão e dois amigos dele que vieram matar saudades. Ela, ela e as namoradas dos amigos do meu irmão, ajudavam a minha mãe, pondo a mesa no quintal, à sombra, e fazendo uma salada de pimentos. A ela via-a passar, dentro e fora, dentro e fora, sempre com qualquer coisa nas mãos que levava para a mesa. Ela passava por mim e sorria-me, cúmplice. Porquê, cúmplice? Não nos conhecíamos. Tínhamos acabado de nos conhecer. Há dois anos que ela e o meu irmão namoravam e só agora, só agora que falavam em casar, é que ele apresentou a namorada, futura esposa, a mim e à mãe. Mas ela sorria-me sempre que se cruzava comigo.
Eu fui-me mantendo sempre um pouco à margem. Sou um pouco bicho-do-mato. Eu estou sempre à margem. Sou tímido e afasto-me das pessoas. Enquanto toda a gente preparava o almoço, eu ia fumado cigarros, bebendo minis directamente das garrafas e a fingir que olhava o mar lá ao fundo, que ali do quintal conseguia ver-se o mar lá ao fundo, mas na verdade, estava a olhar para toda a gente, para a mãe, para o meu irmão, para os amigos dele e as namoradas deles mas, especialmente, para ela. Havia qualquer coisa de fascinante nela e eu não lhe conseguia fugir.
Ao almoço estive quase sempre calado. Fui observando os outros a comer. Fui ouvindo as conversas. Fui sorrindo. Acenava quando uma pergunta me era destinada e não requeria mais que um não ou um sim. E, de fugida, ia olhando para ela. Era bonita, ela. Não deslumbrante. Mas bonita.
Comi as minhas cinco sardinhas. Em cima de duas fatias de pão saloio. Repeti duas vezes a salada de pimentos. Bebi o vinho tinto com que me foram enchendo o copo. Ainda comi uns morangos e uma fatia, fininha, de uma tarte de lima.
O calor começou a apertar. A sonolência chegou. Demasiado cedo para ir para a praia. Demasiado tarde para ir para a praia. As conversas, que ainda se mantinham à mesa, começaram a afastar-se para longe, para bem longe de mim. Toda a gente começou a fumar. A beber aperitivos. Eu levantei-me e saí da mesa.
Fui até ao quarto. Deixei-me cair em cima da cama. Com as sapatilhas nos pés em cima da manta que cobria o lençol. A olhar para o candeeiro pendente do tecto e que eu nunca usava. Nunca uso as luzes gerais. Nunca uso os candeeiros que estão pendurados no tecto. Gosto de luzes indirectas. Gosto da luz de pequenos candeeiros cortadas pelos abajours. Agora, ali no quarto, as persianas meio fechadas quebravam um pouco a luz que vinha da rua e eu sentia-me levar pelo sono.
Virei-me de lado, na cama. Em cima da cama. Virei-me para a parede. E ouvi um barulho. Um pequeno e suave barulho de alguém a abrir a porta do quarto atrás de mim. E eu percebi. Sem ver, percebi. Era ela. E ela chegou silenciosa e deitou-se na cama, ao meu lado, por trás de mim. Senti a sua mão a percorrer-me o corpo e arrepiei-me. Senti o seu braço a envolver-me. Senti-a a chegar-se mais para mim. A colar-se a mim. E então, a mão dela desceu pelo meu corpo, abriu os botões da braguilha dos calções e agarrou-me no pénis. Puxou-o para fora. Masturbou-me. Eu vim-me. Vim-me em silêncio. Ela retirou a mão. Deu-me um beijo no pescoço e senti-a levantar-se da cama e sair do quarto. Eu deixei-me estar ali, exactamente da mesma maneira que ela me tinha deixado, com medo que se me levantasse descobrisse que tinha sido tudo mentira. O sonho de um idiota.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/22]

Numa Festa, Possivelmente

Acordo à borda de uma piscina. Tenho os pés dormentes dentro de água. Os dedos dos pés estão enrugados. Sinto um arrepio de frio.
Onde estou?
Tenho uma cabeça loira pousada no meu ventre. A camisa aberta. A pele está viscosa. Os olhos piscam perante a claridade. O excesso de claridade. É manhã. É manhã e está sol. Tenho dificuldade em manter os olhos abertos.
Agarro a cabeça loira e deposito-a no chão, nas lajes que contornam a piscina. A cabeça loira está presa a um corpo de rapariga nu. Com a cabeça no chão, o corpo ergue os braços para apoiarem a cabeça e o corpo encolhe-se. Sinto outro arrepio. Fecho os botões da camisa. Descubro que não tenho calças. Nem cuecas.
Os meus pés descalços pisam algo. São uns óculos. Uns óculos escuros. Apanho-os e coloco-os na cara. É então que vejo a piscina, várias boias na piscina, pessoas em cima das boias, corpos caídos um pouco por todo o lado, garrafas vazias, garrafas cheias, copos tombados, copos partidos, fatias de pizza caídas nas lajes, um bocado de pó espalhado numa mesa de vidro. Passo o dedo pelo pó e levo-o à boca. Esfrego o pó nas gengivas. Encontro um maço de cigarros. Acendo um.
Entro em casa a fumar o cigarro. Não parece haver gente em casa. Tento abrir uma porta. Fechada. Tento a seguinte. Um quarto. Vazio. Abro o guarda-fatos. Escolho umas calças de ganga. Visto-as. Encontro uns chinelos tombados sobre o tapete. Calço os chinelos. O cigarro cai-me da boca. Tento agarrá-lo, mas não consigo. Estou lento. Vejo o cigarro cair em cima do tapete. Vejo-o queimar o tapete. Quero baixar-me, quero apanhar o cigarro, mas não consigo fazer nada. Fico ali a olhá-lo. Fico ali a olhar o cigarro enquanto ele queima o tapete.
Saio do quarto. Ainda olho para trás quando estou a sair, e vejo uma pequena chama a queimar o tapete. Fecho a porta nas minhas costas. Percorro o corredor devagar.
Que casa é esta?
Não há ninguém em casa. Está toda a gente lá fora, na piscina, à volta da piscina, à volta da volta da piscina. Encontro a cozinha. Entro. Está vazia de pessoas mas cheia de restos de comida e bebida. Restos de garrafas meio-vazias. De copos meio-cheios. Travessas com restos de comida. Agarro no que será um pedaço de salmão fumado e levo-o à boca. Cuspo-o fora. Tenho a boca a saber mal. Está pegajosa. Seca. Agarro numa garrafa de vinho tinto e levo-o à boca. Bebo um grande gole. Limpo a boca às costas da mão. Volto a pegar num bocado de salmão fumado. Desta vez como-o. Pego noutra fatia. Agarro em dois pedaços de queijo seco. Levo-os à boca. Apanho um bocado de pão e faço-o acompanhar os pedaços de queijo. Vou até à janela da cozinha. Da janela avista-se a cidade ao fundo.
Que cidade é aquela?
Viro-me para a cozinha. Vejo restos de leitão numa travessa. Agarro as peles. Desfaço os pedaços de leitão para comer só as peles. Volto a agarrar a garrafa de vinho e bebo outro gole. Limpo as mãos à toalha da mesa. Baixo a cabeça e também limpo a boca. Acendo outro cigarro. Volto ao corredor. Continuo. Outra porta. Empurro a porta para trás. A casa-de-banho. Entro na casa-de-banho e ponho-me a mijar na retrete. Sinto um enorme alívio. Um arrepio percorre-me o corpo mas é um bom arrepio. Sinto-me renascer à medida que mijo. Sinto-o a chegar ao fim. Sacudo-me. Ouço os último pingos a cair no fundo da retrete. Puxo o autoclismo. Dirijo-me ao lavatório e lavo as mãos. No canto da boca, o cigarro acesso leva o fumo até aos meus olhos. Olho-me no espelho à minha frente e vejo-me mal através do fumo do cigarro. Vejo também qualquer coisa atrás de mim, mas mal. Vejo qualquer coisa. Viro-me enquanto lavo as mãos. Parece a banheira. A banheira e a cortina de plástico. Acabo de lavar as mãos. Seco-as numa toalha. Vou até à banheira. Agarro na cortina de plástico e puxo-a para o lado.
O cigarro cai-me da boca para o chão.
Um arrepio percorre-me o corpo. Levo a mão à cara é retiro os óculos escuros.
Um corpo está deitado na banheira. Um corpo aberto, rasgado. Há sangue por todo o lado. Em cima do corpo. No esmalte da banheira. A escorrer pelo ralo.
O meu corpo agonia-se. E sinto uma revolução nas minha entranhas. De repente sinto-me acordado. E então, vomito sobre o corpo.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/15]

Num Almoço de Aniversário com a Minha Mãe

Por momentos parei, desliguei-me daquela conversa e, de garfo no ar e um pedaço de carne mal passada espetada nos dentes do garfo, lembrei-me que quando era miúdo era precisamente aquilo que eu fazia. Falava alto. Falava alto sem noção da projeção da minha voz. Lembro-me da minha mãe me mandar calar, me mandar falar mais baixo, que não estávamos em casa, que ninguém precisava de saber da nossa vida, nem ninguém queria saber dos meus dramas de menino mimado, na verdade nem mesmo ela, dizia, porque eu estava a portar-me mal, estava a fazer birra e ela já tinha dito que não e era não e, se eu continuasse naquela espiral mal educada e aos berros, mesmo sabendo que ela não era surda, ficava com pontos negativos e da próxima vez, mesmo que eu me portasse bem, continuava a ser não para aprender a ser bem comportado e a falar mais baixo. Como as outras pessoas. Ouves mais alguém aos berros? perguntava-me a minha mãe. E além do mais, iria fazer queixa ao meu pai. E eu aí desatava a chorar, não porque os castigos do meu pai fossem maiores que os da minha mãe, na verdade, era quase sempre a minha mãe que me castigava, que me dava umas palmadas, o meu pai era um pouco como eu sou agora, complacente, incapaz de fomentar castigos, mas ralhava, e os ralhetes dele doíam-me mais que os castigos da minha mãe.
Despertei quando a ouvi dizer que a carne estava a arrefecer. E olhei para o pedaço de carne preso nos dentes do garfo e levei-o à boca. Mastiguei-o e engoli-o. E depois acabei por aceitar ser sempre eu o centro das atenções. Eu, agora, tinha de falar alto para que ela me ouvisse. E ela agora já não se preocupava com os ouvidos alheios. Agora era eu que, enquanto dizia duas ou três vezes as mesmas coisas aumentando cada vez mais o tom de voz, me preocupava com o que as outras pessoas pudessem pensar. Até que acabei de mandar tudo para trás das costas e aceitar que era assim que as coisas eram, já não era birra, era idade, ela estava a ficar surda e eu tinha de falar mais alto para ela me ouvir e era o que eu iria fazer sem me preocupar com as outras pessoas.
Tirei mais um bocado de brócolos para o meu prato. Só eu é que comia brócolos. Ela não gostava. Nunca tinha gostado. E eu pensei que devia ser o único filho do mundo que gostava de brócolos com uma mãe que não os conseguia comer.
Estiquei os braços e cortei-lhe mais uns bocadinhos de carne para lhe facilitar a vida. E despejei mais um bocado de vinho nos nossos copos. E ela disse Não ponhas mais senão fico com os copos. E eu respondi-lhe Não faz mal. A casa é perto. Só tens de subir o elevador e a cama fica logo ao fundo corredor. Ela ouviu e sorriu da minha conversa parva. Eu também lhe sorri. Levantei o copo e disse-lhe Feliz aniversário, mãe. Ela levantou o copo e voltou a sorrir. E ainda disse Que daqui a um ano possamos cá estar. E eu fiquei a pensar quando é que aquela frase perderia o sentido?

[escrito directamente no facebook em 2020/08/12]

Dias de Alma Vaga

Estou sentado à mesa da cozinha como se fosse o balcão do bar onde já não vou há quatro meses. Deixei de lado a torneira de cerveja e troquei a imperial pela garrafa média da Sagres. Por vezes vou ao pacote de cartão buscar vinho tinto e faço um Tinto de Verão. À espanhola. Encho o copo com gelo. Espremo meio limão. Dois terços de vinho. Um terço de Seven Up. Uma gasosa também serve. Mas isto é no início. Quando ainda estou em condições de fazer alguma coisa. E ainda tenho vontade. Rapidamente chego ao momento em que só de abrir a garrafa, tirar a carica fora sem deixar cair cerveja no chão, é uma aventura.
À minha frente o televisor a preto e branco que o meu pai comprou há muitos anos para levar para o campismo. Passou de televisão do campismo para a televisão da cozinha e, desde então, tem sido a televisão da cozinha. Primeiro em casa dos meus pais. Depois quando fui estudar para Lisboa. Era a televisão da cozinha porque a cozinha também era a sala. Não havia sala naquela casa. Todas as divisões eram quartos. A cozinha era cozinha e sala. A televisão estava lá e cumpria as suas duas funções, era a televisão da cozinha e também era a televisão da sala.
Quando tive a minha primeira casa e comprei a minha primeira televisão, ainda com cinescópio mas já em 16-9, a pequenina televisão a preto e branco, de caixa de baquelite branca, voltou para casa dos meus pais e à cozinha deles. Mais tarde consegui recuperar a televisão que já ninguém queria. Era pequena. Quadrada. Branca, que horror. De baquelite. E não tinha comando. Era preciso levantar o rabo de onde estava sentado para mudar os canais. E, às vezes, era preciso andar com a antena, uma antena que era parte da televisão e que fazia lembrar as antigas antenas dos carros com rádio OM, ou os walkie-talkies que alguém trouxe uma vez de Andorra, para apanhar a emissão mais-ou-menos em condições de visibilidade e que não nos fizesse dar um pontapé numa cadeira e mandá-la contra a porta do frigorífico.
Estou sentado à mesa da cozinha e já estou na cerveja há muito tempo. Já não consigo fazer um Tinto de Verão. O máximo a que me aventuro, para além de retirar a carica da garrafa, é ir bebendo, de vez em quando, um copo de bagaço que um amigo me ofereceu. Bagaço caseiro. Daquele que cega. Bebo-o como se fosse um submarino. Imagino que largo o pequeno copo de vidro com o bagaço dentro do copo de cerveja e bebo tudo junto, mas na verdade, bebo um golaço de bagaço pelo gargalo da garrafa incolor que o meu amigo me ofereceu e depois despejo-lhe logo como cerveja em cima.
À minha frente, pousada na bancada à minha frente, a televisão pequena a preto e branco, de baquelite branco, passa uma emissão qualquer que não percebo porque não está bem sintonizada, mas não consigo levantar-me para procurar melhor sintonia.
Nesta altura sinto que já estou bêbado. Já não consigo fazer melhor que esticar o braço, abrir a porta do frigorífico e agarrar uma garrafa média de Sagres. Enquanto houver.
Descubro que tenho um cigarro entre os dedos mas não me lembro de estar a fumar. Não me lembro se ainda fumo ou não. Mas tenho um cigarro aceso preso entre os dedos da mão, a mesma mão que levanta o copo com cerveja. E percebo que, afinal, ainda não estou muito bêbado. Ainda bebo a cerveja pelo copo. Ainda não a bebo directamente da garrafa. Ainda tenho mais algumas pela frente, antes que fique realmente muito bêbado, enjoado, com vontade de vomitar e vomitar. Depois é arrastar-me até à cama, que fica ali ao fundo do corredor que sai da porta da cozinha até à última porta, onde fica o meu quarto e a cama onde me irei deitar se me conseguir arrastar até lá. Há noites em que não chego lá. Há noites em que me fico pelo corredor. Há noites em que consigo chegar até às bordas da cama, mas erro a queda.
Penso sempre, como estou agora a pensar, aliás, que amanhã é outro dia e posso sempre repetir tudo outra vez e de novo. E tentar acertar na cama.
Que mais há para um tipo fazer em dias assim? ou como diziam os Rádio Macau, dias d’alma vaga / tão perto de Deus / tão longe de mim / sem horas boas nem más / sem horas sequer / apenas vazio na alma / apenas dias assim // há dias assim / feitos de silêncio / com a voz de Deus / a soar em mim / dias sem riso nem choro / sem horas sequer / apenas silêncio d’ouro / apenas dias assim…
Afinal nem devo estar assim tão bêbado. Ainda me lembro da letra de uma música dos Rádio Macau. Deixa cá ver mais outra Sagres.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/07]

Tempo Bipolar

Tempo bipolar, este.
Acordei com a chuva a bater-me na janela do quarto. E os gatos a miar. Tive de me levantar e levar-lhes comida. O dia estava escuro. Voltei para a cama e tapei-me com o edredão.
Voltei a acordar, agora com calor. Estava transpirado. Os raios de sol entravam sem pedir licença pelo quarto, pela casa. Levantei-me e tomei um duche rápido. Depois fui ao alpendre fumar um cigarro.
Gosto de estar ali assim, no alpendre, nu, de pila ao léu, lavado, bem cheiroso, a fumar um cigarro, o primeiro cigarro do dia.
Vi as horas e percebi que já tinha perdido o pequeno-almoço e o almoço. Depois ri-me. Na verdade não tinha perdido nada. Tinha aprendido com os últimos anos de vida da minha mãe. Tens alguém à tua espera? Então come quando tiveres fome. E tinha fome? Mais ou menos. A verdade é que sou difícil de perceber. Por via das dúvidas resolvi fazer uma sandes.
Abri o frigorífico e olhei. Não vi nada. Nada que se comesse assim, de uma forma simples sem ter de cozinhar. Acabei por abrir uma lata de atum. Desfiz o atum numa tigela. Miguei um pouco de cebola. Misturei duas colheres de maionese. Abri uma carcaça e enfiei lá o que coube. Guardei o resto no frigorífico. Tapei a tigela com película aderente. Enchi um copo com vinho tinto. Voltei para o alpendre. Continuava nu. Sentei-me na cadeira e comi. E bebi. E arrotei um pequeno arroto.
Pensei E agora? O que é que vou fazer agora?
Fiquei por ali sentado a pensar e esqueci-me do que estava a fazer ou do que queria ou devia fazer.
Deixei-me adormecer.
Acordei picado por umas formigas.
O sol tinha regressado outra vez lá para trás de um céu cinzento, tão cinzento que nem se viam nuvens, era só cinzento, cinzento escuro. Não estava a chover nem parecia estar a ameaçar chover. Mas já não havia sol nem estava calor. Senti um arrepio e disse Ainda estou nu!
Entrei em casa. Vesti uns calções. Uma camisola. Fui fumar outro cigarro para a porta da cozinha, encostado à ombreira. Não se viam as montanhas lá à frente.
Tocou o telemóvel. Até me assustei. Não estou habituado a que o telefone toque. Atendi. Queriam vender-me um pacote. Eu disse que já tinha e desliguei. Senti o coração a bater mais depressa. Irritam-me estas chamadas telefónicas das operadoras. São uma chatice. Não dizem nada de novo. Não oferecem nada a ninguém. Incomodam. Deixam-me o coração a bater demasiado depressa.
Lancei fora o resto do cigarro, zangado. Não muito zangado. Mas irritado. Sim, irritado. E pensei que, um dia destes, terei de apanhar as beatas que vou lançando para o quintal. Um dia destes, sim.
Voltei para o interior de casa. Fechei a porta. Sentei-me à mesa da cozinha e abri o computador. Tinha um texto para escrever para o jornal.
Já passaram duas horas e ainda aqui estou. A página do word em branco. A garrafa de tinto vazia. O cinzeiro cheio de cinzas e beatas.
O tempo está bipolar e eu sem imaginação. E, finalmente, lá comecei:
Tempo bipolar, este.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/29]

Meio-Frango Assado

Andava para trás e para a frente na avenida. Não fazia a avenida toda porque não conseguia. Mas ia até meio, e depois voltava para trás. Fazia esta caminhada de manhã e ao fim da tarde pela fresquinha. Duas vezes por dia.
De manhã, acordava cedo, ficava uns bons dez minutos na cama a espreguiçar-me e a deixar que os barulhos da rua furassem os vidros da janela e viessem soprar-me ao ouvido. Depois vestia-me e saía. Fazia metade da avenida para lá e regressava. A meio da avenida já me cheirava ao frango assado da loja de take away do Rei dos Frangos. Sempre gostei de frango assado e, mesmo não gostando muito do frango assado do Rei dos Frangos, que é, contudo, bem melhor que o frango assado do Pingo Doce, mas que não cheiro na rua quando lá passo porque esse não chega à rua, gostava de sentir-lhe o cheiro. Ao final do dia, quando voltava a fazer o mesmo caminho, quando ia até meio da avenida, e quando lá chegava sentia outra vez o cheiro do frango assado e, acontecia muitas vezes, acabava por comprar meio-frango assado, que por vezes era uma metade que estava para lá esquecida, que a maior parte das pessoas levava um frango inteiro, e trazia um meio-frango seco, que acabava por não comer e, no dia seguinte, desfiava-o e fazia uma tosta com frango assado e maionese ou misturava o frango com pasta cozida, requentada no wok com um pouco de legumes salteados e tomate seco. Às vezes espalhava um pouco de lascas de queijo da ilha por cima. Depois, um dia, o médico disse-me que não era boa ideia comer coisas no wok e salteadas, e queijo da ilha, porque me fazia mal. Não liguei muito mas reduzi. Todas as vezes que ia até meio da avenida, no meu passo lento e tremido, sentia o cheiro do frango assado e tinha vontade de o voltar a comer, ali mesmo, no meio da rua, à mão, à guloso, como dizia a minha mãe, sem pão nem batatas nem arroz nem couves nem mais nada a acompanhar.
O frango assado, e pensava muito nisso enquanto caminhava ao longo da rua, lembrava-me muito os Domingos com os meus pais, Deus os tenha, depois de um dia de praia e sem tempo para cozinhar, optava-se pelo frango assado com batatas pála-pála semi-caseiras. Também nos Domingos de jogos de futebol, principalmente quando jogava o Benfica, o frango assado era ementa. Comíamos à mão, e lambíamos os dedos. Primeiro o frango era pincelado com molho de limão, depois começou a levar piri-piri. Primeiro também acompanhava com Sumol ou Coca-Cola e, mais tarde, uma litrosa de cerveja. Às vezes bebia um copo de vinho tinto mas, o ideal mesmo era a cerveja. Uma Sagres em garrafa de litro.
Agora já não passo daqui. Fico-me pela esplanada, aqui debaixo de casa. Já me canso ao descer o prédio de elevador. Sento-me logo numa mesa e deixo-me ficar. Às vezes trago uma revista e fico por cá a folheá-la, às vezes adormeço com a revista aberta à minha frente, sentado aqui na esplanada, e acordo ao ouvir Está tudo bem?, e eu abro os olhos, faço um pequeno sorriso simpático e digo Sim, menina, está tudo bem.
Às vezes peço às miúdas do café para me irem comprar um meio-frango lá à frente, ao Rei dos Frangos, e elas fazem-me esse favor. Já não cheiro o frango assado a meio da avenida, mas ainda tenho o prazer de comer um bocado de frango assado à mão, sem mais nada a não ser o frango assado, às vezes demasiado seco, paciência, a acompanhar com um pequeno copo de vinho, que o médico disse-me que cerveja é que nem pensar.
Sinto saudades das minhas caminhadas pela avenida. Agora fico a ver as miúdas a irem lá buscar-me o meio-frango. Mas depressa as perco de vista. Deixo de as ver. Precisava de mudar as lentes do óculos de ver ao longe. Mas não chega para tudo, não é?

[escrito directamente no facebook em 2020/07/27]

Uma Sardinhada

Eu devia ter percebido logo. Mas não percebi. Às vezes não percebo logo as coisas. Mesmo quando são evidentes.
Era perto do meio-dia. Eu estava em pé, no alpendre, a ver o cão às voltas do arbusto e a levantar a perna para mijar e marcar território mas já sem ter mijo para despejar, quando ela chegou por trás de mim com um gin tónico nas mãos. Sorri e agradeci. Estava calor. Não costumo beber álcool de manhã mas, não ia dizer que não. Levantei o copo para ela em agradecimento e bebi um gole, um grande gole com o qual despejei quase metade do copo. Estava refrescante. Soube-me bem.
E então ela disse Comprei sardinhas.
Oh, pá! Afinal, era isso. O gin era para me comprar. Era para me preparar para as sardinhas. A lata dela. Bom, tinha uma fogueira para ir fazer. Tinha brasas para ir fazer. Tinha sardinhas para ir assar.
Dei-lhe um beijo e fui até à churrasqueira. Gravetos. Uns pauzinhos maiores e mais grossos. Pinhocas. Acendalhas. Risquei um fósforo. Acendi o lume. Abanei um pouco com o abanador. Beberiquei o gin. Dei novo gole. Acabei com ele. O gin é refrescante. Escorre pela garganta. Vai-se enquanto o Diabo esfrega o olho. E só bate quando é tarde demais.
Continuei a abanar o lume para fazer crescer as chamas. O fogo estava vivo. Ela voltou a aparecer com outro gin tónico e uma caixa com sardinhas e dois pimentos, um verde e um vermelho. Beberiquei o gin.
Peguei no saco do carvão e despejei um pouco sobre o lume. Dei ao abano. Fiz o carvão incandescer.
Virei-me para trás. Vi-a voltar para o interior de casa.
Há uns anos, numa férias, as primeiras férias que fizemos juntos, partilhámos quase tudo, a cama, a comida e a bebida. Lembro-me de estarmos a vir da praia, primeiro dia de praia juntos, os corpos quentes, o meu muito queimado porque não quis usar creme protector, e mais tarde tive de me besuntar com creme hidratante, sentei-me numa esplanada, com ela, e mandámos vir uma tosta mista que partilhámos. Metade para mim, metade para ela. E uma cerveja. Dois copos. Metade para mim, metade para ela. Ela ainda me deu uma trinca da tosta dela, assim, da boca dela, num bocado maior, com um bocado de fora da boca e que me obrigou a aproximar dela, da boca dela, os lábios a tocarem-se, os dentes a rasgarem o pão de forma torrado, o queijo derretido a cair pelo queixo abaixo.
Os gravetos arderam. O carvão estava em brasa. Coloquei a grelha e os pimentos. Deixei os pimentos assarem bem. Queimaram um pouco mas não havia problema. Era a pele. O queimado era na pele. Bebi mais um bocado de gin. Ela apareceu com um saco de plástico. Coloquei os pimentos dentro do saco de plástico. Ela deu um nó no saco. Eu coloquei as sardinhas na grelha. Ela deu um gole no gin. No meu copo de gin. Eu tirei-lho das mãos e acabei com ele. Ela levou o copo vazio e os pimentos.
Nesse dia, e depois de me ter colocado creme hidratante no corpo, saímos para jantar. Comemos frango assado. Meio-frango assado com batatas-fritas e salada. Era uma dose. Partilhámos a dose pelos dois. Voltámos a beber uma cerveja pelos dois. Naquelas férias foi tudo muito assim. Partilhámos tudo. Ou quase tudo.
Ela voltou com outro gin. Beberiquei. Virei as sardinhas.
Mais tarde, naquela noite, partilhámos uma fartura e fiquei cheio de azia. Tivemos de procurar uma farmácia aberta para comprar Kompensan. Ela também tomou uma pastilha. Não porque precisasse. Mas por solidariedade.
As sardinhas estavam assadas. Acabei com o gin. Sentia-me um pouco tonto. Entrei em casa com as sardinhas e o copo de gin vazio.
A mesa estava posta. Uma fatia de broa nos pratos. Uma batata cozida. A saladeira com uma salada de pimentos, pepino e tomate. Azeitonas. Uma garrafa de vinho aberta e vinho nos copos.
Comi e bebi. Fui pondo as sardinhas sobre a fatia de broa. Parti a batata. Um pouco de salada ao lado. Reguei com azeite. Comi uma azeitona. Outra. Porra, estava com fome. Devorei a sardinha. Fui repondo uma sardinha em cima da fatia de broa. No fim, comi a broa cheia de azeite e gordura das sardinhas. Bebi vários copos de vinho tinto. Não sei quantos.
No fim, arrotei. Estava satisfeito. Sonolento.
Fui até ao alpendre. Sentei-me e deixei-me adormecer.
Voltei à praia. Nessas férias fiz nudismo. Fizemos. Eu e ela. Foi a primeira vez que fiz nudismo na praia. Voltei a não usar creme protector. Voltei a queimar-me. À noite, ela voltou a besuntar-me com creme hidratante. Nessa férias partilhámos tudo. Menos os corpos. Eu não estava em estado de fazer sexo com ninguém. No dia seguinte fomos comprar um chapéu-de-sol e passei o resto das férias debaixo do chapéu.
Acordei agora, há uns minutos. Ainda estou a pensar naquelas férias. Um dia tenho de falar naquelas férias. As férias em que partilhei tudo com ela, menos os corpos. Por minha culpa. Às vezes sou estúpido e faço merdas assim. Mais tarde vim a partilhar o corpo com ela. O meu corpo e o corpo dela. Até hoje. Hoje já não vou para a praia sem creme protector. Mas continuo a partilhar tudo com ela. Agora até o corpo. O meu. O meu e o dela.
Naquelas férias também não comemos sardinhas. Foi o único ano em que não comemos sardinhas. Nem sei porquê.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/13]