Regressar a Casa, parte 04

[continuação]

E então, o cheiro. O cheiro dos refogados da minha mãe. A cebola a aloirar no azeite, na companhia do alho picado, a abrir caminho para as amêijoas de Sábado, compradas no Mercado da cidade, o Sábado era sempre dia de peixe fresco, sardinhas, carapau, peixe-espada, às vezes uma posta de safio, às vezes berbigão ou amêijoa, o que eu gostava mais, que a minha mãe fazia com pedacinhos de toucinho para dar Um gostinho, como ele dizia, e um pouco de vinho branco para embebedar as amêijoas, e eu sentado na cama a ler uma banda-desenhada e já depois de ter despachado uma fatia de pão saloio torrado, barrado com manteiga, sentia chegar-me os odores do meu almoço predilecto de Sábado, e então, de banho tomado de véspera, levantava-me da cama, vestia-me e ia perguntar se a minha mãe precisava de alguma coisa e já sabia a resposta, Não, meu querido, obrigada, e eu afinal queria era rasgar um bocado de pão para ir ao molho que se formava no tacho enquanto se transformava aquelas conchas sem jeito nenhum num manjar dos deuses se os deuses tivessem uma cozinheira como a minha mãe, não era mãe?
Não abro os armários da cozinha mas imagino a colecção de pratos e de copos desirmanados que para lá deve haver que a minha mãe guardava tudo e nunca deitava nada fora e o que estivesse bom era guardado e por isso manteve alguns pratos que já desapareceram do imaginário de toda a gente, mas eu, quando vejo conjuntos de pratos e copos de vidro verde ou castanho (se calhar é vermelho, mas não vou abrir a porta do armário para confirmar) onde quer que seja sinto uma enorme empatia porque ter aqueles pratos e aqueles copos é uma referencia de época e apetece-me dizer Sobrevivemos, apesar de tudo.
Passo pela mesa da cozinha, deixo o meu dedo percorrer a mesa onde comi, estudei, escrevi, onde ouvi os sermões da minha mãe e do meu pai, a mesa onde disse à minha mãe que tinha entrado na universidade e ia sair de casa, e vejo o risco que o dedo deixa ao limpar uma linha de pó que tem tombado sobre a mesa depois que os meus tombaram na vida.
Antes de sair ainda reparo na máquina de lavar louça e penso que me daria jeito que a minha está avariada e mandar reparar é quase tão caro quanto comprar uma nova e agora não é boa altura para estas despesas, e por mais que goste de lavar a louça à mão, às vezes é melhor não gastar tanta água e detergente e pôr a louça na máquina (é o que me dizem: Gastas muita água gás e detergente para lavar meia-dúzia de pratos).
Regresso ao corredor. Olho para o fundo, onde ficam os quartos, e onde reina a escuridão, tenho de ir abrir as janelas, e vejo-me vir lá do fundo, pequenito, bola de cautchu nas mãos, de calções e sapatilhas, gritar um Ciao, mãe! para o ar, à espera que ela estivesse atenta e ouvisse que eu ia para o terraço jogar à bola com os amigos da rua, jogávamos Benfica-Sporting, às vezes outra coisa qualquer porque não havia paridade nas equipas, e depois chegava a casa com os joelhos esfacelados, os calções rasgados, as sapatilhas rotas, e o meu pai a ralhar comigo porque estive a jogar à bola à chuva Olha a bronquite! E eu passo por mim e não me ligo. Um de nós não está ali, é só um fantasma, uma memória que se atravessa à frente e me faz pensar se não gostaria de voltar lá atrás e refazer tudo outra vez?
Suponho que não.
Caminho pelo corredor. Entro no primeiro quarto, o quarto à direita, o quarto dos meus pais, e volto a abrir a janela, as cortinas, as persianas e os vidros e deixo entrar o ar fresco da rua naquela quarto abafado e cheio de humidade, e vejo a colcha de renda, uma colcha que a minha mãe fez, uma colcha pesada, uma vez peguei-a ao colo para levá-la à lavandaria e senti-lhe o peso, mas o quarto dos meus pais é a divisão de que tenho menos memórias aqui de casa. Recordo a época em que aguardava que o meu pai saísse de casa, sentia a porta da rua a bater, e vinha deitar-me ao lado da minha mãe. Gostava de sentir o cheiro do sono da minha mãe. A cabeça enterrada na almofada do meu pai. Não sei quando é que isso aconteceu mas é uma das poucas memórias que o quarto me traz, não era costume entrar aqui, talvez quando vinha à procura de moedas ou notas perdidas nos bolsos dos casacos e das calças do meu pai, abria a porta do guarda-fatos e enfiava as mãos nos bolsos e às vezes tinha sorte, um ano foi assim que alimentei as minhas idas aos carrinhos-de-choque na Feira de Maio.
À porta do quarto ainda olho para trás, ainda vejo a senhorinha cor-de-rosa da minha mãe mas nunca a vi lá sentada, nunca lá vi roupa caída (aliás, nunca vi roupa caída em lado nenhum, cá em casa, a não ser no meu quarto, aí havia às vezes calças caídas pelo chão, sapatilhas cada uma no seu canto, meias perdidas atrás da cama…).
Estou no corredor e avanço uns passos. Estou à frente da porta do meu quarto. Deito a mão à maçaneta.
Há quantos anos não entro na minha vida de adolescente?

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/22]

O Último Almoço de Páscoa em Casa dos Meus Pais

Foi num Domingo como o de hoje. Um Domingo de Páscoa.
A minha mãe tinha passado o Sábado a tratar do cabrito. A temperá-lo. A assá-lo. A limpar a loiça das cerimónias, a louça que só via a luz do dia duas vezes por ano, no Natal e na Páscoa. O meu pai tratava de escolher o vinho ideal para o almoço de Domingo. Entre todas as garrafas sem rótulo que tinha guardadas na garagem onde faziam companhia ao carro que tratava como se fosse um dos filhos, ele sabia de que produtor era cada uma delas e qual a mais indicada para a ocasião.
Nesse Domingo, ainda de manhã, já quase hora de almoço, cheguei a casa dos meus pais. A minha mãe ainda estava a cozer uns grelos. O meu pai estava a preparar um Martini branco com um pouco de gin para mim. Ele gostava de preparar umas bebidas mas, raramente bebia. Um copo de tinto em algumas refeições mais especiais. Era provável que bebesse um copo de vinho tinto naquele Domingo de Páscoa. Já a minha mãe, acompanhava-me quase sempre. Só não me acompanhava na quantidade. Ela sabia quando parar. Eu ainda não sei.
Naquele dia agarrei o Martini que o meu pai me estendeu e fui até à cozinha dar um beijo à minha mãe. Fizemos um brinde. Ela estava a beber um vinho branco. Eu comi umas azeitonas. Um pedaço de broa. Provei uma das batatinhas assadas, e a minha mãe acabou por me pôr fora da cozinha porque a estava a estorvar no meu deambular de um lado para o outro a depenicar coisas apetecíveis.
Voltei para a sala onde estava o meu pai. Ele estava a pôr um disco de vinil da Amália a tocar na aparelhagem. Lamentámos a ausência de jogos de futebol no Domingo de Páscoa. Lamentámos não podermos ver um jogo do Benfica. Ele perguntou-me como é que eu ia. Eu menti, como mentia sempre. Ele percebia que eu mentia, mas não dizia nada. Depois fui à rua fumar um cigarro.
Passeei-me pelo quintal da casa dos meus pais, uma casa que também tinha sido a minha, e fui até à figueira que ainda existia. A figueira que eu subia até ao coruto. Olhava para ela, olhava lá para cima, e perguntava-me como é que eu subia aquilo? Como é que eu subia aquilo e nunca tinha caído, nem partido a cabeça ou um braço? Ainda estava lá pendurado o baloiço que o meu pai tinha posto para mim e para a minha irmã. Sentei-me e baloicei-me um pouco, mas sem tirar os pés do chão. Um suave ondular com o rabo enquanto fumava o cigarro. Já não havia cão. Dantes, na minha infância e depois adolescência, havia sempre um cão naquele quintal. A maior parte das vezes, cães rafeiros que davam aos meus pais. Cães que a minha mãe encontrava perdidos na rua, especialmente no Verão. Chegou a haver lá três cães de uma vez. Agora já não havia nenhum cão. Acabei por descobrir um gato deitado em cima do muro a olhar para mim. Não o conhecia. Nem sei se era ali de casa ou da vizinhança. Chamei-o, mas o gato ficou onde estava.
Acabei o cigarro e voltei para dentro de casa. O meu pai estava a levar umas travessas para a sala, para a mesa na sala. Eu voltei à cozinha. A minha mãe perguntou-me A tua irmã? e eu não sabia. Nunca sabia. E disse-lhe Deve estar a chegar. E foi nesse momento que o meu telemóvel tocou.
Atendi.
Era o namorado da minha irmã.
Eu fiquei calado a ouvir o que ele dizia. O que ele tentava dizer.
A minha mãe parou o que estava a fazer e ficou a olhar para mim. Para a minha cara. E acho que percebeu primeiro que eu o que tinha acontecido.
O meu pai voltou a entrar na cozinha e perguntou Quem é? e a minha mãe pousou a mão no braço dele para que ficasse quieto. Quieto e atento. Para o acalmar. Para lhe dizer que ela estava ali. Mas o meu pai era pior que eu. Não tinha grande intuição. E quando desliguei o telemóvel e senti os olhos a ficarem molhados, e vi a minha mãe levar a mão à boca para impedir um grito de sair, o meu pai voltou a perguntar Quem era?
Naquele Domingo já não almoçámos. A minha mãe foi despejar o tabuleiro com o cabrito na tigela de comida do cão da vizinha que lhe perguntou o que se passava e a quem ela não respondeu. Nunca mais a minha mãe voltou a cozinhar cabrito. Nunca mais houve almoço de Páscoa em casa dos meus pais. Naquele dia o meu pai deixou de falar e assim continuou até morrer. A última vez que ouvi a voz do meu pai foi quando ele me perguntou Quem era? Naquele dia a tristeza entrou naquela casa e nunca mais se foi embora. Eu continuei a mentir aos meus pais porque não queria que eles também se preocupassem comigo.
Hoje, Domingo de Páscoa, continuo a mentir, agora a mim, para me enganar e fazer-me crer que a vida é bela e que depois da tempestade vem sempre a bonança. Mas não é verdade. Quando a tempestade assenta arraiais, nunca mais se vai embora.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/12]

Para um Diário da Quarentena (Quinto Andamento)

Hoje dei corpo à expressão da directora geral de saúde. Saltei o muro do vizinho e fui lá buscar dois frangos. Hoje ou ontem. Era de noite. Talvez já depois da meia-noite. Ou talvez não. Os dias e as noites, as horas, o tempo está um labirinto onde me sinto perdido. Tenho a noção do agora que é onde estou. Depressa me perco em relação ao tempo passado. Mas acho que foi hoje que já devia ter passado da meia-noite e que devo lá ter ido de madrugada para ninguém me ver.
Hoje, portanto, dei corpo à expressão da directora geral de saúde e saltei o muro da casa do vizinho, que está em França, e fui lá buscar dois frangos ao galinheiro. O vizinho tem lá em casa alguma criação que um velho da aldeia cuida. Galinhas, coelhos, perus. Até lá tem umas cabras que o velho põe a aparar a relva da casa e eu próprio já pensei em pedi-las emprestadas para me virem comer as ervas que crescem desgraçadamente ao deus-dará e para as quais não tenho paciência de andar a cortar quase de dois em dois meses.
Foi um escarcéu dos diabos quando entrei no galinheiro. Mas a casa fica longe da aldeia e o galinheiro fica no lado sul da casa e que serve de bloqueio à propagação do som. Acho que ninguém ouviu o barulho das galinhas a cacarejar e o irritante cocó que não me largava as pernas e, por duas vezes, bateu asas e de um pulo tentou bicar-me o nariz até que lhe dei um pontapé que o fiz dançar e vi-o a fugir para dentro de uma capoeira, talvez para as asas confortáveis de alguma galinha poedeira.
Torci os pescoços aos dois frangos e trouxe-os pendurados nas mãos até casa. Levei-os para a cozinha para o cão e os gatos não se armarem em parvos. Cortei-lhes os pescoços e deixei-os pendurados a derramarem todo o sangue para um alguidar. Pus uma panela grande, a maior panela que tenho em casa e que nunca uso senão para isto, cheia em dois terços de água e deixei-a ao lume em cima do fogão. Enquanto esperava fui para o alpendre fumar um cigarro. Era de noite. Madrugada, já. Via ao longe as luzinhas da aldeia. Não conseguia ver as montanhas lá ao fundo. Não ouvia nenhum barulho. Nem a coruja que costuma pôr-se para aí a assobiar e que às vezes me acorda e me obriga a levantar pois já não consigo voltar a adormecer depois de ter acordado. Ia deitar o sangue fora, claro. Depois de apanhar todo o sangue dos dois frangos, ia deitá-lo fora. Se soubesse fazer arroz de cabidela, guardava-o, mas não sei. Era um segredo da minha mãe que ela própria já esqueceu. No outro dia ainda foi comprar dobrada e fez-me uma dobradinha como eu me lembrava que ela fazia. Falei-lhe da cabidela e ela desculpou-se com as galinhas de agora que já não são boas para a cabidela e eu percebi.
Acabei o cigarro e voltei a entrar na cozinha. A tampa da panela saltitava em cima da água a ferver. Retirei a tampa. Enfiei lá um frango inteiro. Contei mentalmente dois minutos, três minutos e retirei-o e larguei-o no lava-loiças. Fiz o mesmo com o outro. Voltei a contar dois, três minutos. O cheio das penas cozidas dos frangos agoniava-me, mas aguentei. E no fim, atirei o segundo frango para cima do outro, dentro do lava-loiças.
Parei por momentos a tentar pensar no passo seguinte. E agora? perguntei em voz alta. Fechei os olhos e tentei ver a minha mãe a tratar das galinhas que tinha num pequeno galinheiro atrás da garagem onde o meu pai guardava o carro todas as noites para não apanhar o cacimbo nocturno e percebi que era altura de fazer a depenagem.
Arranjei um outro alguidar e levei um frango lá para fora. Sentei-me no alpendre. Uma pequena luz iluminava-me o trabalho. Comecei a depenar o primeiro frango. As penas saíam com facilidade mas, ao mesmo tempo, era preciso usar de uma certa força. Aquela porra estava bem agarrada. O cão e os gatos aproximaram-se de mim. Deitaram-se todos a olhar para o que eu estava a fazer. A olhar para o frango a ser depenado. Um dos gatos saltou para dentro do alguidar cheio de penas molhadas e tive de o enxotar. Depois fui buscar o segundo frango e repeti as acções. No final tinha os frangos depenados e um alguidar cheio de penas. Primeiro acendi um dos bicos do fogão, peguei num dos frangos pelas patas e pelo pescoço e passei-o sobre as chamas para queimar a pequena penugem. Repeti com o outro. Depois despejei as penas dos frangos num saco de lixo e fui levar o lixo ao caixote que está na estrada lá em baixo. Acendi um cigarro e fui a fumar. Larguei o saco no lixo. Parei na estrada. Tentei ouvir barulho, mas não ouvia nada. Parecia que não havia ninguém. O mundo estava silencioso. O céu era uma cúpula cheia de pequenas luzinhas a tremelicar. Do outro lado da estrada, na casa de um outro vizinho, vizinho ausente que tinha ido para a cidade, para a casa do filho para o ajudar, ele e a mulher, mesmo depois de todos os avisos para as pessoas mais velhas evitarem todos estes contactos com os mais jovens e possíveis fontes de contágio muito mais graves para eles, quer dizer, nós, estava uma laranjeira carregada de laranjas. Saltei o muro, que nem era muito alto, tirei a camisola e utilizei-a como saco e trouxe vários quilos de laranjas para casa.
Gostei dessa ideia da horta do vizinho da directora da saúde, mesmo que não seja para ir buscar brócolos.
Regressei a casa. Quando voltei a entrar na cozinha senti o cheiro enjoativo dos frangos passados por uma pequena cozedura, misturado com o queimado da penugem. Abri uma das janelas da cozinha e deixei-a aberta. Tinha rede mosquiteira e os gatos não iriam lá entrar.
E fui-me deitar.
Há pouco, hoje ainda porque o dia ainda é o mesmo que ontem à noite que já era hoje, mas depois de ter acordado, depois de ter feito café fresco e espremido umas laranjas para um saboroso sumo e de ter torrado duas fatias de pão saloio que comi barradas com manteiga, cortei um dos frangos em pedaços pequenos, comecei com uma faca mas depois tive de ir buscar um cutelo, para fazer um guisado.
Já tenho o primeiro frango cortadinho aos bocados. O outro está no frigorífico à espera de uma ideia. Depois irei cortar uma cebola, uns alhos e umas cenouras, juntarei um tomate e um pouco de concentrado, sal, pimenta, um pouco de vinho branco, juntarei o frango em pedaços e, mais tarde, quando o frango estiver quase no ponto, hei-de juntar um bocado de esparguete.
Entretanto estarei aqui pelo alpendre a fumar mais um cigarro. A ouvir o silêncio que me cerca e a ganhar coragem para ir ver quantos são já os mortos de hoje. Mas daqui, desta distância onde estou, tudo me parece irreal. Tenho de ir a mais hortas dos meus vizinhos. Ajuda-me a passar o tempo e a sentir-me vivo, apesar da reclusão. Não tarda é Agosto e eu quero ir à praia. Ou queria. O tempo não está para estes desejos tão mundanos.
Como é que se mata uma cabra?

[escrito directamente no facebook em 2020/03/22]

A Vítima das Circunstâncias

Três semanas depois de ter começado a trabalhar no Modelo Continente como repositor de lineares, fui despedido. Não é que não merecesse ter sido despedido mas, acho que fui vítima das circunstâncias.
O Modelo Continente abriu há três semanas. Fui um dos empregados originais. Fiz a formação. Preparei-me para ser um sucesso numa equipa que se queria de sucesso. Estive no momento da abertura do supermercado. Ao fim de três semanas fui despedido por ter sido encontrado a comer iogurtes no corredor do frio. Com poucos clientes desde a abertura, eu fui o bode-expiatório para a catarse administrativa que não compreende porque é que os clientes continuam a preferir o Pingo Doce do outro lado da rotunda.
Tive sorte. Pagaram-me o mês inteiro. Quatro semanas.
Como é que vou chegar a casa e dizer, outra vez, que fui despedido outra vez?
Vou a pé até ao centro da cidade. Já não trabalhei o resto do dia.
Está calor. Transpiro. Sinto os sovacos molhados. Sinto um fio de água a escorrer-me pelas costas abaixo. E pelo peito. Parece Verão. Parece. Mas estamos em Fevereiro.
Caminho devagar. Evito pensar que vou ter de regressar a casa. Evito pensar que, a dado momento, vou ter de regressar a casa e voltar a dizer que estou sem trabalho.
Estou com calor. Estou com sede.
Ainda estou longe do centro da cidade mas já não aguento mais este calor. Entro na porta do primeiro snack-bar que encontro. Encosto-me ao balcão de inox e peço um copo de branco, fresco.
Despejo-o de uma vez. Peço outro. Olho para a vitrina de frio e vejo uma pequena bandeja com rissóis. Peço um. É de camarão. Devoro-o em três dentadas. Empurro-o com o copo de vinho branco fresco. Peço um terceiro copo.
Pego no copo e vou para a rua fumar um cigarro. Encosto-me à montra do snack-bar. Na estrada à frente, passam carros, nem sempre muito devagar. Acendo um cigarro. Penso em como enfrentar o problema que vou enfrentar em casa quando disser que estou outra vez sem trabalho. É que já começa a ser um padrão. É a terceira vez que sou despedido desde o ano passado. Mas a culpa não é minha. Eu sou uma vítima das circunstâncias. Ou porque não me calo. Ou porque não acato bem as ordens. Ou porque refilo muito. Ou porque como iogurtes no corredor do frio. As pessoas estão sempre a arranjar desculpas para tramar as outras. Às vezes é só porque sim. Eu acho que tenho uma cara que as pessoas adoram chatear. Tenho cara de vítima.
Dou cabo do copo de vinho. Acabo o cigarro. E agora? Volto para casa? Vejo as horas no relógio de pulso. Não quero ir já para casa. Ainda é cedo para enfrentar o drama.
Decido-me por outro cigarro. Levo a mão ao bolso para tirar o maço e o cheque com o ordenado do mês, das quatro semanas de trabalho das quais só trabalhei três, sai do bolso com o maço de cigarros e voa para a estrada. Estico-me mas não o alcanço, desço o passeio e corro para a estrada atrás do cheque que voa, aos esses, como se quisesse fugir de mim, o cabrão e, depois cai no asfalto, junto ao traço contínuo, eu aproximo-me, baixo-me para o agarrar, não me vá fugir de novo, ouço uma buzina, talvez duas e sinto uma pancada forte no meu corpo, talvez seja na cabeça, não sei, não tenho a certeza e…

[escrito directamente no facebook em 2020/02/23]

Croquetes

De vez em quando há um estagiário mais afoito que vai ao fundo do baú recuperar listas perdidas com nomes improváveis. Nomes de gente que já morreu. Nomes de gente proscrita. Nomes de gente banida e esquecida. São os restos. Os que já não contam.
Hoje de manhã tocou o telemóvel. Era um convite. Um convite para uma apresentação ou inauguração ou qualquer coisa assim do género. Que não percebi bem. Que, por defeito, não me interessa. Faço parte dos esquecidos. Mas que acabou por interessar. Ponderei. Pensei que talvez houvesse croquetes. Talvez houvesse vinho tinto. Branco. Espumante. Cajus. Amendoins. Sabem o preço dos frutos secos? Aceitei.
Desliguei o telemóvel e olhei-me reflectido no vidro da janela da sala. A barba grande e compacta. O cabelo desgrenhado. Cheirei os sovacos. E pensei que tinha de tomar um banho.
Primeiro fiz a barba. Cortei a maior parte com uma tesoura. Depois usei a máquina para que não ficasse completamente rapada. Não queria não me reconhecer. Só queria parecer limpo. Apresentável. Social.
Depois tomei um duche de água quente. E deixei-me lá estar em baixo durante algum tempo. A marinar debaixo da água quente. Fervente.
Cortei as unhas dos pés. Cortei as unhas das mãos. Fiquei estafado. Preparei um gin tónico para descansar. Fumei um cigarro à janela. Bebi o gin. Na janela do prédio em frente, uma mulher sacudia tapetes e começou a rir a olhar para mim. Mandou-me um beijo à distância. Percebi que estava nu. À janela. A fumar e a beber. Nu. Sem frio. Para gozo alheio.
Vesti-me. Andei ali às voltas entre uma camisa, um polo, uma t-shirt. Umas calças de ganga azul ou pretas. Sapatilhas, sapatos ou botas? Sapatilhas, claro. E que sapatilhas? Ora, gaita!
Fui preparar outro gin tónico enquanto pensava nas sapatilhas. Pinguei o polo com pingos do limão. Merda! Acabei de beber o gin tónico de novo à janela. A fumar mais um cigarro. Já não estava nu. A mulher dos tapetes também não estava lá.
Depois tirei o polo e vesti uma camisa. Pensei melhor. Ainda era cedo. Tirei a camisa e voltei a vestir o polo sujo até sair de casa.
Voltei à janela. Fumei outro cigarro. Sentia-me nervoso. O sair de casa. O ir para o meio de gente. De muita gente. O ter de falar com pessoas. Estava nervoso com o que lá vinha.
Fui preparar outro gin. Apaguei o cigarro. Bebi o gin enquanto punha roupa suja dentro da máquina de lavar. Lembrei-me do polo. Tirei-o. Pu-lo na máquina. Programa de sessenta minutos. Devia chegar.
Sentei-me à mesa da cozinha com o computador ligado. Procurei as notícias do dia.
Donald Trump a condecorar um cão.
Jair Bolsonaro vociferar como um cão.
No Chile, pessoas a serem tratadas como cães.
Pensei que o mundo estava cão.
Descobri o copo de gin vazio. Olhei em volta. Atrás de mim. Quem o teria bebido?
Preparei outro gin. Olhei as horas no relógio de parede da cozinha. Não percebi imediatamente porque vira as horas. Depois lembrei-me. Tinha onde ir. Mas não consegui perceber se estava a tempo ou atrasado. Acabei de preparar o gin.
Voltei a sentar-me na mesa da cozinha. Frente ao computador. Queria ver as notícias do dia. Mas eram as mesmas em todo o lado e todas diziam o mesmo.
Sentia saudades dos jornais em papel. De outras notícias mais pequenas e só interessantes para mim. Acendi outro cigarro. Gostava de ler notícias em jornais de papel. Gostava de sujar os dedos. Gostava de sentir o cheiro a tinta. De ler aquelas pequenas notícias nas últimas páginas. As locais. Os artigos de opinião. A tira de banda-desenhada. Sentia-me analógico. É verdade que lia todos os dias as notícias online. Mas não era a mesma coisa. Não sentia diferença entre as diferentes origens. Mesmo na televisão, os alinhamentos eram muito parecidos. Havia notícias que só lá chegavam depois de serem mortas pelas redes sociais e, nessa altura, já não eram notícia nem interessavam a ninguém.
Ao puxar o cigarro da boca, ele ficou colado aos lábios. Os dedos escorregaram e queimaram-se na incandescência do cigarro. Depois caiu sobre mim e queimou-me o peito antes de tombar para o chão. Descobri que estava em tronco nu. Percebi que estava a ficar com frio.
Se calhar era tempo de ir embora. Olhei o relógio na parede. Não vi as horas. Esqueci-me de ver as horas. Mas também não me preocupei. Pensei em fazer um último gin antes de sair. Bebi o que tinha de um trago e fui fazer outro.
Enquanto o bebia, vesti a camisa. Vesti um casaco por cima da camisa. Pensei na possibilidade de haver mesmo croquetes lá onde eu ia e para onde tinha sido convidado. Pensei na possibilidade de haver vinho. Pensei que não ia poder fumar lá, onde quer que fosse e acendi um cigarro. Acabei o copo de gin. Larguei-o num sítio qualquer. Pensei na possibilidade de haver mulheres lá onde eu ia. Mulheres como eu. Disponíveis. Ou tão só cheias de vontade. De desejo.
O cigarro caiu-me das mãos. Olhei para baixo à procura dele mas não o encontrei. Levei a mão à boca mas estava vazia. Onde estava o copo de gin?
Abri a porta da rua. Olhei para o corredor que levava ao elevador e pensei Deve estar na hora de me ir embora. E decidi ir-me embora, Vou-me embora! E então o chão moveu-se. Eu tropecei em mim próprio. Desequilibrei-me. Caí. Devo ter caído. Caí entre a entrada de casa e o corredor que levava às portas do elevador. Caí no meio da porta da rua aberta.
Caí e fiquei lá caído. Senti o mundo a andar muito depressa. Como o carrossel da Feira de Maio. Tentei levantar um braço. Tentei agarrar-me a alguma coisa com a mão aberta como uma garra. Mas não agarrei em nada. Os olhos não queriam abrir. Senti um vómito e vomitei à entrada de casa. Não me consegui levantar. Estava tudo escuro. Eu sentia-me bem. Sentia-me confortável. Estava deitado. Apetecia-me um croquete. Sentia-me cansado. Com sono. E deixei-me ir. Sono fora. Senti uma escuridão a ir por mim abaixo e a desligar-me todo. Aos poucos. Até já não sobrar mais nada ligado.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/30]

Quando Ganhei a Caméra d’Or no Festival de Cannes

Era assim à Quinta-feira. Todas as Quintas-feiras. Todas as semanas. Desde o início das aulas.
Saía a correr da sala de aula. Às vezes ainda deixava o professor a gritar qualquer coisa para o ar, para se fazer ouvir por cima do toque de saída das aulas. Mas já não ouvia nada. Já lá não estava. Já estava noutro lado. Em antecipação. Eu e os outros.
Saía a correr da sala de aula. Saía a correr da escola. Do edifício da escola. Entrava no labirinto de ruas esconsas do bairro. Eu e os outros. Todas as Quintas-feiras. A correr até à Adega.
Às Quintas-feiras íamos almoçar à Adega. Eu e eles. Os outros. Íamos à Adega. Uma taberna no coração do bairro. Uma taberna de mesas compridas com toalhas de linóleo sobre ripas carcomidas pelo bicho da madeira. Bancos de madeira, alguns já mancos. Pratos de várias colecções já desaparecidas. Eram os sobreviventes. Sobreviventes com mazelas. Pequenas rachas. Lascas. Os copos era igual. Não havia dois iguais. Mas eram de vidro. Alguns já tinham sido lavados tanta vez que já não se via nada à transparência. Mas eram de vidro. Os talheres era o que havia. Cheguei a usar uma colher como faca. Era o que havia. Mas para o que era, servia.
À Quinta-feira era dia de carapaus fritos com arroz de tomate. Acompanhava com vinho branco da casa servido em jarro de vidro que, esse sim, não era lavado e mantinha sempre o aroma do vinhos servidos, acumulados, uns atrás dos outros, ao longo dos anos. E que importava? Era Quinta-feira. Dia de ir, eu e os outros, almoçar ali, à Adega, apanhar uma cabra e ir para a aula da tarde passar pelas brasas que não havia paciência para aquele professor. Não que fosse um mau professor, que não!, não era. Era até um professor bastante bom. Mas era uma matéria chata, de uma cadeira chata de uma parte chata do curso. Daquelas que ninguém queria saber. Mesmo que fosse importante para o que estávamos a estudar. Para o que queríamos continuar a estudar. Mas ninguém queria estudar aquilo. Só os alunos com pior média. Porque não tinham outro remédio. Eram os últimos a escolher. E já não podiam escolher. Eram escolhidos.
Naquele dia eu ainda não sabia mas, aquela Quinta-feira, havia de ser a última Quinta-feira em que iríamos almoçar à Adega.
Comemos os carapaus fritos com arroz de tomate. Ainda havia salada de alface com tomate e cebola que regámos com bastante vinagre. Bebemos sei-lá-quantos jarros de vinho branco. Um vinho que me deixava com azia. Nos deixava a todos com azia. Ainda não tinha acabado de beber e já sentia o inferno a subir pelo esófago acima. Mas o vinho não se desperdiça. É pecado desperdiçar vinho, mesmo que não seja o sangue de Cristo, é só vinho branco, caramba!, mas não deixa de ser vinho. Não ficava nenhuma gota para amostra e nesse dia manteve-se a tradição. Nem uma gota no jarro. Nem uma gota nos copos.
Bebemos cafés. Bagaços. Fumámos cigarros. Muitos cigarros. Uns atrás dos outros. Alguns durante o almoço. O cigarro preso entre os dedos enquanto a mão levava um carapau inteiro, cabeça à frente, à boca. Uma nojice pré-ASAE. Uma nojice saborosa.
Pagámos ao balcão. Cada um o seu almoço. Mas contas simples. O total a dividir por cada um de nós. Naquela altura ainda não havia muitos cartões de plástico, só uma estranha Chave 24 que servia para levantar dinheiro que a minha mãe depositava lá na terra e eu levantava na capital. Modernices.
As contas feitas na toalha de papel que cobria o linóleo. Fomos pagando. Um-a-um. E fomos saindo. Um-a-um. Para a rua. Para uma das ruas esconsas do bairro. Ruas onde passavam poucos carros. Mas não naquele dia.
Saímos da Adega na brincadeira. A brincar uns com os outros. Bebidos. Fomos esperando uns pelos outros. Já estávamos atrasados, mas esperávamos. Vínhamos juntos. Íamos juntos. E então ouvimos. O barulho. O barulho do motor. O barulho do motor de um carro. Dois. Dois carros a subir pela rua esconsa do bairro. Um à frente do outro porque não havia espaço para ultrapassar. Mas em aceleração. Ambos. A rua era estreita. Nós estávamos na rua. E vinham os carros a subir. A acelerar. Ouvia-se o barulho espremido dos motores. E falta alguém. Quem? Lá vinha ele. O que faltava. Quem faltava. A sair da Adega. A colocar o pé na rua no preciso momento em que o primeiro carro passa. E logo depois o segundo. E eu já só vejo o corpo jogado para cima pelo primeiro carro. E lançado para a parede da Adega pelo segundo. O som das pancadas. A primeira. A segunda. Um som obsceno. Violento. Mortal. Eu vi. Nós vimos. Eu estava cheio de azia. E vomitei logo ali. Vomitei ainda antes dos carros pararem lá mais acima. Mas pararam. Deram assistência. Vieram ver o que tinham feito. Não fugiram. Mas era tarde. Já nada restava dele. Eu continuava a vomitar dobrado sobre mim. A mão na parede.

Anos mais tarde fiz um filme sobre ele. Sobre nós. Sobre as Quintas-feiras e a Adega. Sobre aquelas ruas esconsas do bairro. Sobre os carros a acelerar. Sobre o acidente. Sobre a morte. Sobre o fim de uma época.
O filme foi a Cannes e ganhou o Caméra d’Or.
Nunca mais realizei nenhum filme. Depois da minha história com ele, com ele e com os outros, e de tudo o que tinha para dizer e que disse nesse filme, deixei de ter o que dizer.
Calei-me. Até hoje. Não sei porquê.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/18]

Um Casal no Aeroporto

08:00’
Estou no aeroporto. Vim esperar alguém. Alguém que tenho de levar a um sítio.
Embora a cidade estivesse deserta, as chegadas do aeroporto estão cheias de gente. Gente que espera. Gente que desespera. Há alguns voos atrasados. Mas há gente que chega. Encontros. Abraços. Choro. Muita alegria. Alegria carregada de malas de todas as cores e feitios.
Eu espero.
Vejo um rapaz, novo, com uma rosa amarela na mão. Vejo o rapaz olhar para uma rapariga que chega. A rapariga sorri, envergonhada. Ele vai ao encontro dela. Ela caminha para ele. Encontram-se. Abraçam-se.
Eu sorrio.
Ela coloca as mãos nos cabelos dele. Ele beija-lhe o pescoço. Prolongam a saudade. Aguentam o desejo. Agarram-se. Olham-se. Aproximam os lábios. Beijam-se. Beijam-se com sofreguidão.
Eu sinto um pingo de inveja.
Ele agarra nela e fá-la rodopiar ali no meio das chegadas do aeroporto. A rosa amarela cai no chão. Nenhum deles se apercebe. Já se esqueceram da rosa. Já só têm olhos um para o outro.
Param o beijo. Olham-se. Os olhos dançam. Os lábios, húmidos, sorriem. Ela cruza as mãos no pescoço dele. Levanta o pé direito enquanto lhe beija a cara em formato bilhete-postal. Ele agarra na mala dela. Estão de mãos-dadas. E partem a flutuar pelo pé-direito alto da nave das chegadas do aeroporto.
Ninguém os viu. Eu vi.

13:00’
Estou a almoçar à beira-rio. Levei quem fui buscar a comer um peixinho assado. Partilho o gosto. A mesma vontade. Peixe-assado para dois. Na companhia de uns brócolos. Um vinho branco. Da casa. Nem sei de onde é. É da casa e a casa escolhi eu. Ali à beira-rio. Junto ao fresco da maré.
Enquanto a fome devasta umas azeitonas embebidas em azeite e alho e umas fatias de pão alentejano, vejo-os chegar. O casal do aeroporto. Estão com a mesma roupa. Um e outro. Sem a mala dela. Sem a rosa deixada caída lá no aeroporto. Esquecida.
Não têm mesa reservada. Esperam. Esperam em pé. À entrada da esplanada. Junto ao rio. À beira-rio. Ao sol quente deste início de Primavera que promete ser um pequeno Verão.
Ele acende um cigarro e põe-se a olhar os barcos no rio. Ela está próxima dele. Ela passa-lhe a mão pelo braço. Afaga-o. Longamente. Depois vira-se para a esplanada. Vira-se para mim. E eu vejo. Vejo-lhe o olho negro. O olho negro que ela não tinha negro de manhã.
Eu sinto pena. Primeiro sinto pena. Depois sinto raiva.
E despejo um copo de branco de uma só vez.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/04]