A Vida É Difícil

Vim de carro à cidade. Tinha de tratar de uns papéis e vim de carro. Não compreendo isto. Cada vez mais tecnológicos e digitais e ainda temos de passar a vida com papéis e a comparecer ao vivo para provar que nós somos nós e não outros a fazerem-se passar por nós. E, no entanto, nós andamos por todo o lado, vendidos por toda a gente a toda a gente que nos queira comprar. Somos os novos escravos. Aqueles a quem prometeram a democracia e acabaram por levar com a tecnocracia.
Ia eu já de carro, numa estrada via-rápida, quando comecei a sentir um zumbido nos ouvidos. Não sei como surgiu. Nem se surgiu ali, naquele momento. Pode ter aparecido antes mas só ter dado conta ali, talvez por ser mais silencioso, talvez por ser uma zona de muitos cabos de alta-tensão, talvez por eu estar mais atento.
E pensei que, ultimamente, tenho ouvido muito zumbido nos ouvidos. E pensei mais ainda, se seria melhor ouvir zumbidos nos ouvidos ou vozes na cabeça?
Parecia-me que era melhor ouvir vozes. Seria dado como maluquinho e ninguém me levava a mal e perdoavam-me as parvoíces e descontavam-me as asneiras. Com um zumbido nos ouvidos, ninguém se preocupa nem muito menos quer saber.
O quê? o tipo dos zumbidos nos ouvidos? Esse gajo é parvo!
O quê? o tipo das vozes na cabeça? Esse gajo é tontinho, coitado, tens de dar um desconto.
A vida é difícil para quem sai da norma.
Tomo uns comprimidos. Para isto é para outras coisas. Mas às vezes esqueço-me. Não me lembro de tudo. Não consigo lembrar-me de tudo. De tudo, destas coisas, porque há coisas que não me esqueço. Por exemplo, o Salário Mínimo são seiscentos euros. Em dois mil e dezanove, o Salário Mínimo são seiscentos euros. Disto lembro-me. E quando me esqueço vou ao site da Pordata para confirmar. É sempre bom confirmar os factos. A história. As notícias. Não confio em ninguém que manda coisas assim, da boca para fora. Se nem eu sou de confiança para mim próprio…
Cheguei à cidade. Dei várias voltas para estacionar. Nem parece Agosto. Ou se calhar é por isso. É Agosto. Chego à repartição pública e assusto-me. A fila dá a volta ao quarteirão. São famílias inteiras. Algumas com cães. Muitas destas famílias estão em calções de banho e biquínis. Sinto-me na Praia da Vieira. Fala-se francês por todo o lado. Há algum inglês. Pouco. Um casal falava em alemão. Parecia-me.
Abri os braços para o céu. Dirigi o meu olhar para lá. Comecei a rezar um Pai Nosso em alta-voz, enquanto me aproximava do início da fila. Quando acabou o Pai Nosso, avancei com uma Avé Maria. Ao chegar ao início da fila abençoei as pessoas que lá estavam executei uma pregação sobre a vida dos escolhidos de Deus para governar a Terra e pus-me em primeiro lugar.
Já ninguém respeita ninguém. Começaram a refilar comigo. Chamaram-me herege e, perante a minha insistência em nome do Bom Jesus, deram-me uma carga de porrada que me deixaram estendido no chão.
Um funcionário público, lá do interior, viu o que estava a acontecer e chamou a polícia e o INEM. O INEM não apareceu, mas apareceram os bombeiros. Antes ainda da polícia. E levaram-me ao hospital.
Dou graças ao SNS. É a minha vingança. Os gajos que me mandaram para aqui são os gajos que estão a pagar o meu internamento. Sim, fiquei internado.
Continuo com o zumbido nos ouvidos. Agora também já ouço vozes na cabeça. Tomo vários comprimidos ao longo do dia que não sei para o que são. Ninguém me diz nada. Mas são às cores. Parecem saídos de uma embalagem de M&M’s. Eu acho que me dão inibidores sexuais para não saltar para cima das enfermeiras. São giras, as enfermeiras do SNS.
Mas agora, o que me preocupa é o carro. O ticket de estacionamento já passou do prazo há muito tempo. O que é que lhe vão fazer. O quê? Não, não levam nada para a sucata. Queres ir agora? Ah! Depois de almoço? Vamos os dois? Está bem, pá. Vamos os dois para a Praia da Vieira. Mas porquê a Praia da Vieira? Há lá enfermeiras do SNS?

[escrito directamente no facebook em 2019/08/09]

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Só Quero que Me Deixem em Paz

Quando era novo só pensava em sexo.
Era jovem, acabado de sair da adolescência, e corria para os braços que se abriam para me acolher. Saltava de cama em cama. Tinha tesão pela novidade. Pelo novo. Gostava de ouvir as diferentes respirações que me sussurravam ao ouvido. Gostava de passar as minhas mãos pelos diferentes corpos, corpos quentes, corpos despertos, ansiosos pelo meu. Não havia penas, nem tristezas. Não havia amarras, nem prisões. Era livre. Éramos todos livres uns dos outros e desejávamos-nos livres. Corria atrás de paixões que se esvaíam quando eu me esvaía. Tudo era fogo que ardia até se consumir. E consumia-se rápido. Rápido e indolor. Até ao próximo.
Quando cresci descobri o amor. Corri para ele. Corri devagar que o amor é lento. Descobri-o amargo. O amor era uma coisa assim morna, que demora a aquecer, mas logo começa a queimar etapas e tempo e disponibilidade e, quando menos esperamos, chegou ao fim. Alguém chega sempre ao fim. Não dá mais. Porque alguém quer sempre mais. Outra coisa. Porque alguém sente-se sempre enganado. Ultrajado. O amor começa sempre por ser grandioso. Muitas vezes acaba odioso. Por isso se fala tanto da linha ténue que separa o amor do ódio. Quando descobri o amor, fui à Lua buscar uma rocha só para ver o outro feliz. Mas depressa perdi o sorriso. Deixei de ter conversa. Mais rápido procurei consolo noutros braços. Braços vazios. Braços de vingança. Braços tristes. Percorri muitos braços. Tantos como os amores. Amores que me pareceram sempre de Verão. Amores que fui sempre enterrando na areia. Sempre à procura do próximo. Que era o definitivo. Mas nunca era. Somos sempre diferentes. Incompatíveis. Raios partam a matemática.
Envelheci. Envelheci sozinho. Procurei companhia. Depois da paixão e do amor, só queria companhia. Alguém com quem compartilhar uma refeição. Um prato de sopa. Uma pequena conversa sobre a espuma dos dias. Um filme na televisão ao final da noite. A lareira no Inverno, a brisa no Verão. Percorrer as festas das aldeias e comprar Bolo da Festa e ter com quem o compartilhar torrado, barrado de manteiga, na manhã seguinte. Ter alguém com quem ir comer uma filhós e beber um café da avó. Sem dramas nem obrigações. Só pelo prazer da companhia. Algum sexo ocasional. Mas, acima de tudo, a companhia. Alguém que ouça. Alguém que quebre o silêncio. Alguém.
Hoje só quero que me deixem em paz. Já não sei a idade que tenho. Só sei que estou numa cama que não é minha. Num quarto que não é meu. Talvez um hospital. Talvez um lar de idosos, preâmbulo da morte. Trazem-me comida insípida a horas certas. Comprimidos a horas certas. Lavagem do corpo a horas certas. Olho em volta e só vejo outros como eu. Eu nos outros. Tanta solidão em grupo.
E depois, a dias certos, como certa é a morte mas demora como o diabo o chegar!, as visitas de gente que fala comigo como se fosse um bebé. Com vozes aparvalhadas. Deixem-me em paz, porra! é o que me apetece gritar. Mas mantenho-me calado. À espera que se vão embora. E me deixem voltar para debaixo do cobertor. Eu e a minha solidão. Não quero outra coisa. Ficar sozinho. Em paz. Sem ver ninguém. Sem ouvir barulho. Só.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/22]

A Carta de Condução Caducada

Eu soube, mal saí da cama e pus o pé no chão, que aquele dia não ia ser um grande dia.
Acordei. Mandei o edredão para o fundo da cama. Senti a pila a encolher com o fresco da manhã. Levantei o corpo. Tirei os pés para fora da cama e senti, quando estavam a tocar no chão, umas cócegas, uma picada e, logo depois, uma ligeira impressão a alastrar pela planta do pé.
Abri bem os olhos. Olhei para baixo. Para os pés. E vi uma centopeia a escapar-se por entre os dedos dos meus pés e enfiar-se debaixo da cama. Vi as suas dezenas de patas a marcharem para a fuga.
Antes de ir à casa-de-banho passei pela internet e pesquisei Centopeias para perceber o que é que me tinha acontecido. Nada de grave. Mas não consegui afastar um certo nojo. Fui para o duche.
Mais tarde, numa recta que cruza uma pequena aldeia a caminho da cidade, recta de traço contínuo, duplo traço contínuo, vejo um camião TIR vir em sentido contrário a mim, vejo-o vir todo do lado de cá do traço contínuo duplo e vejo-o levar com ele o meu espelho retrovisor exterior. O estrondo do espelho a partir parecia uma bomba atómica a rebentar-me dentro da cabeça. O carro ia-me fugindo. Agarrei-o nos limites. Assustado. Maldisse os motoristas de camiões. Todos os cabrões de motoristas de camião. Pagou o justo pelo pecador. Filhos-da-Puta!, gritei com a cabeça fora da janela do meu lado, a oferecer-me em sacrifício a um outro qualquer camião. Mas não apareceu mais nenhum. Ainda bem para mim e para a minha cabeça. Olhei o camião TIR pelo espelho retrovisor interior. Olhei para o camião TIR que me rebentou com o espelho, e vi-o entrar na rotunda. Uma rotunda que tinha cinco saídas e uma entrada para a auto-estrada. Desisti da vingança. Do reparo.
Parei mais à frente. Num café. Num café à borda-da-estrada. À borda da N1. Pedi uma Amêndoa Amarga. Bebi duas. Fiquei cheio de sede com o adocicado da Amêndoa e tive de pedir uma cerveja. Bebi três. Ainda não eram dez da manhã.
Fui à casa-de-banho despejá-las.
Uma miúda entrou comigo lá dentro. Levantou a saia. Disse-me que estava fresca. Eu disse que era muito cedo para mim. E saí da casa-de-banho. À saída estava um gajo que era dois de mim. Estava de mão estendida. Dei-lhe uma nota de vinte. Não disse nada. Os olhos fixos em mim. A mão estendida. Dei-lhe mais vinte euros. Sorriu-me e disse Obrigado, pá!
Sai do café à borda-da-estrada. Entrei no carro. E voltei à Nacional.
Não tinha ainda feito dez quilómetros quando encontrei uma operação stop. Com a minha sorte, sou um dos eleitos, pensei. E fui. Um elemento da Brigada de Trânsito, no meio da estrada, fez-me sinal para parar na berma-da-estrada. Fui para a berma-da-estrada. Parei o carro. Um guarda pediu-me os documentos. Meus e da viatura. Dei-lhos para as mãos. Dei-lhe tudo o que tinha. Ele desapareceu. E ainda não voltou.
E eu estou aqui à espera. Tenho a perna a tremer. O pé a bater no pedal. Estou nervoso. Desde manhã que sei que a sorte não me deseja e o azar é o meu destino.
O guarda regressa de lá. Para onde tinha ido. Pára ao pé de mim. Dá-me os documentos do carro. Vai olhar o selo, do outro lado. Depois volta à minha janela e, com a minha Carta de Condução na mão diz-me A Carta está caducada.
Foda-se!, pensei. Estou fodido!

[escrito directamente do facebook em 2019/05/31]

O Meu Andreas Gursky na Nazaré

Fui à Nazaré. Fui à Batel. Queria uma sardinha. Não havia.
Foda-se!
Ir de propósito à Nazaré para comer uma sardinha na Batel e não haver, é como ir à Praia do Norte e não ver surfistas enrolados nas ondas.
Sentei-me na esplanada da nova Batel, ali na marginal, junto à praia – acabaram com as duas outras antigas e abriram agora esta, num espaço que já existia e que era outra pastelaria, mas não era Batel. Sentei-me a olhar a praia. A calçada da marginal, a areia, o mar, o céu cinzento. Parecia estar frente a uma fotografia de Andreas Gursky, mas em real, não em papel. Não em revista. Não pendurada numa parede qualquer de um tipo com dinheiro suficiente para poder pagar estas fotografias com grife. Tirei a máquina. Apontei. Registei. Esta não seria do Gursky. Esta era minha. Lanceia-a para o Facebook. Para garantir autoria. Para ser real.
Ao lado, na esplanada ao lado, na esplanada do Irish Pub, um gajo não se calava. Nem me deixava saborear aquele fim-de-tarde de um Inverno cinzento e chuvoso na praia. Era um daqueles gajos que falava para a plateia. Falava para impressionar a miúda com quem estava. Queria concentrar-me na paisagem que se me abria e não conseguia bloquear a voz do tipo. Nem sei o que dizia. Era daquelas vozes que se impunham pelo timbre e pelo volume, bloqueavam tudo o resto, mas depois não deixavam nada. Nada. Mesmo que eu quisesse explicar sobre o que versava aquela conversa de engate com a miúda na mesa da esplanada do Irish Pub, não me lembrava. Era uma conversa sem história. Mas perturbava o momento.
Ainda cheguei a pensar levantar-me, dirigir-me à esplanada onde o tipo estava, à mesa onde dançava obscenamente palavras para a miúda e despejar-lhe a pint para cima das calças. E depois lembrei-me Estamos a entrar na semana Santa!
Recordei as aulas de Religião e Moral do colégio. Lembrei-me da Semana Santa que antecedia a Páscoa. Lembrei-me da Sexta-feira Santa, a morte de Cristo e o dia em que a minha mãe não nos deixava comer carne. Lembrei-me de todas as vezes em que comi sandes de fiambre sem pensar que o fiambre também é carne. E pensei É por isso que a minha vida é tão merdosa! É esta a vingança de Deus? Sacana!
E não me levantei. Não despejei a pint sobre o tipo de voz teatral a engatar miúdas impressionáveis. A minha foto não é tão boa quanto a do Andreas Gursky. Mas a Nazaré ainda é a Nazaré. E ainda tenho muito tempo até à asneira de Sexta-feira Santa, vésperas da ressurreição.
E pus-me a contar o dinheiro que tinha no bolso para ver se conseguia ir jantar à Celeste.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/13]

Baratas

Lembro-me.
Cheguei lá já era de noite. Lembro-me de pisar a areia com os pés nus. Lembro-me de enfiar os dedos pela areia à procura de um pouco de fresco e ouvir alguém dizer Não andem descalços nesta areia da povoação. Há uns bichinhos que entram dentro do vosso corpo e trazem-vos problemas! A sério?, pensei. Tantas horas de viagem com o rabo a bater numa ripa de madeira para isto?
Peguei na mochila e arranquei à procura da Pousada. A Pousada onde tinha reservado um quarto.
A povoação não era grande. Dei três voltas por três ruas pequenas e descobri. Tinha razão. A povoação não era grande. Toquei à campainha. Silêncio. Voltei a tocar. Ninguém. Insisti. Acendeu-se uma luz no primeiro andar. Esperei. Uma cabeça à janela. Digo Tenho quarto reservado! Resposta Oi?
A cabeça recolheu. Depois acenderam-se outras luzes como a fazer um caminho. Abriu-se a porta da rua. Entrei. Registei. Assinei. Segui a cabeça, que agora já tinha corpo, pelo interior da casa. Abriram-me uma porta. Entrei. Fiquei sozinho. Senti o silêncio. O silêncio do quarto. Da casa. Da povoação. E depois, uns barulhinhos. Algo a esgatanhar no chão. Olhei à volta. Olhei o quarto. A cama no meio. Uns quadros coloridos pendurados nas várias paredes. Um quadro azul com o mar. Um quadro verde com a Mata Atlântica. Um quadro beije com as dunas. Um quadro amarelo com o sol. E foi por baixo do quadro amarelo com o sol que vi a primeira barata. A andar desalmada junto ao roda-pé do quarto. Era grande. Mal sabia eu que aquela era, somente, a filha.
Estava cansado. Larguei a mochila numa cadeira. Deitei-me em cima da cama. Deixei pousar o silêncio. Só ouvia a minha respiração. E, depois, algo mais. Vi algo pelo canto do olho. Algo a mexer-se. Atrás de mim. Virei-me. Uma barata. Outra. A mãe da outra. Enorme e barriguda na cama comigo. Mandei-lhe um piparote com o dedo. Voou para o outro lado do quarto. Sentei-me na cama. Olhei em volta. Esperei a vingança.
Mas precisava de dormir. Estava cansado.
Despi-me. Fiquei com os boxers. Coloquei o candeeiro no chão. Deixei-o ligado a noite inteira. Enrolei-me no lençol. Como se fosse a minha mortalha. Cobri-me todo. A cabeça. Os pés. E deixei-me ir.

Acordei de manhã. Manhã tarde, que o sol já estava alto. Acordei com cócegas nos pés. Com as voltas que dei durante o sono, acabei por libertar os pés da mortalha. As baratas descobriram os meus pés descobertos. Chamaram-lhe um figo. Já se passeavam por cima deles. Uma das baratas já se aventurava por uma das minhas pernas acima. Fui acordado pelas cócegas que me faziam nos pés.
Dei três coices. Vi-as a voarem. Levantei-me. Tomei um duche, mas sempre a olhar para o ralo do polibã. Sempre a olhar para a retrete. Sempre a olhar para as torneiras. Sempre a olhar para qualquer buraco.
Vesti-me. Saí do quarto. Entrei na cozinha. Havia café quente. Acabado de fazer. Não vi ninguém. Enchi uma caneca. Abri a tampa do açucareiro. Uma quantidade de pequenos bichinhos a fugir para fora da caixa. Ri-me. Ri-me de nervosismo. E disse para mim próprio O que não mata, engorda!…
Pus duas colheres de açúcar na caneca e pensei que, no fundo, era tudo proteínas.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/23]

A Vida Não Basta

Eu estava a ver-me. Eu estava a ver-me ali sentado, na poltrona baixa, atrás daquela pequena mesa aos meus pés, cheia de livros vários, muitos deles de poesia. E os tipos ao meu lado. O Manuel António Pina. O Afonso Cruz. O Luís Mourão. Eu via-me ali, no meio deles. No meio da conversa deles. O Manuel estava a falar. O Afonso replicava. O Luís sugeria. Eu tentava intervir, mas via-me a balbuciar qualquer coisa de inaudível. Gesticulava. Parecia um boneco daqueles articulados que, dantes, viajavam no vidros traseiros dos carros, assim, a abanar a cabeça, os braços, mas só pelo movimento do carro, não por vontade própria ou com sentido. Mas ninguém via. Ninguém me via. Só eu. Só mesmo eu é que me via ali no meio deles.
Eu estava lá, mas não estava lá. Já não estava lá.
E depois percebi.
Ainda tentei levantar a voz. Pus-me a gritar. Levantei-me da poltrona baixa para dizer ao Manuel como tinha comprado o meu primeiro livro dele por acaso. Por puro acaso. Como uma paixão à primeira vista. Sem saber quem ele era. Sem saber que o livro era dele. E que era tão bom. Oh, porra, se era maravilhoso! Queria dizer-lhe que tinha comprado aquele livro por ter como título o poema mais bonito que já tinha lido
Ainda Não É o Fim Nem o Princípio do Mundo
Calma
É Apenas um Pouco Tarde
Mas ele não me ouvia. Ninguém me ouvia. Nem eu próprio, a ver-me à distância, me conseguia ouvir.
E, então, vi.
Não fui eu que vi. Foi ele. Ele que era eu. Vi os olhos frios de réptil que me observavam do meio da plateia. Os olhos frios de réptil que não estavam a ligar à conversa do Manuel, do Afonso, do Luís. Não. Os olhos frios de réptil estavam cravados em mim. Assim, meio cerrados. Como se me focassem. Como uma faca espetada no coração. Empurrando a lâmina fria cada vez mais para dentro. Devagar. Muito devagar. Com tempo. Com prazer. A fazer doer. Como uma vingança. Como uma vingança que se consome tranquila. Com calma.
Os olhos frios de réptil levantaram-se da cadeira, no meio da plateia atenta ao debate. Uma garra empunhava um revólver apontado na minha direcção, e eu vi o projéctil sair disparado do cano de metal e percorrer brevemente o espaço que nos separava, num tempo presente que logo se tornou passado, e trespassar-me o corpo, bem no meio do coração, e eu vi uma mancha vermelho escuro, quase castanho, a alastrar vagarosa pela camisa clara, vincada de véspera para estar ali, engomada, ao pé deles, à frente de toda a gente, como uma cidade do SimCity original em expansão, comendo centímetros, metros, quilómetros de vida. Assim, aos poucos, mas imparável.
Eu vi-me a ir. E então, percebi.
Percebi porque ninguém me escutava. Porque ninguém me via. Só então percebi que era porque a vida, por si só, não bastava. Não me bastava.
Percebi que, às vezes, é preciso a morte para dar razão à vida.
Sintonizei os ouvidos. Pus-me à escuta. E ouvi
“Os tempos não vão bons para nós, os mortos…”

[escrito directamente no facebook em 2019/01/28]

As Colheres-de-Pau que a Minha Mãe Partiu

A minha mãe partiu muita colher-de-pau a bater-me.
É verdade que eu fui sempre um filho complicado. Não muito. Não mais que os outros filhos da minha geração. Fomos todos feitos no mesmo molde temporal e tendemos a ser iguais uns aos outros e a copiar formas, maneiras de ser e asneiras. Principalmente as asneiras. As asneiras propagam-se à velocidade da luz. De casa para casa. De adolescente para adolescente. Queremos ser iguais. Pertencer. Um terror.
Hoje também será assim. Passa o tempo. Passam as manias. As vontades. Os objectos de desejo. As paixões. Mas os adolescentes serão sempre adolescentes. Tendem a reproduzir-se. A clonar-se.
Não sou a favor das punições corporais. Posso, no entanto, dizer que as sovas que levei foram bem dadas. Não que eu fosse o diabo em pessoa mas, às vezes, parecia não haver outra maneira de eu escutar, de eu ver as coisas, de compreender, de comportar-me, de estudar, de não fazer asneiras senão com um par de estalos, uma sova, uma tareia.
Já na adolescência, a minha mãe chegou à conclusão que, ao bater-me, magoava-se mais ela que a mim. Ou seja, as mãos dela é que ficavam doridas das palmadas que dava no meu corpo-carapaça de adolescente. Então passou às colheres-de-pau. Partiu-me várias no lombo, como ela costumava dizer. Mas antes ainda partiu vários chapéus-de-chuva. Réguas de plástico e de madeira. Réguas da escola. As minhas réguas. Um dia até marchou a régua-T no rabo. Mas achou que ficava caro. Tinha sempre de repor. As réguas e os chapéus-de-chuva. As colheres eram, mesmo assim, mais resistentes.
Lembro um dia em que as coisas tinham corrido bastante mal entre mim e ela. Já nem sei bem porquê. Uma qualquer revolução falhada de minha parte. Uma qualquer posição de força da parte dela. Eu tinha levado uma sova. Tinha gritado a plenos pulmões para que toda a gente no prédio soubesse que eu estava a ser maltratado pela minha mãe. Eu filho-vítima. Chorei baba-e-ranho. Maldisse o meu triste fado. Achei que a minha mãe não tinha razão. Achei que eu é que tinha a razão. Achei que se deveria ter feito como eu queria. Achei que eu era uma entidade com voto na matéria. Então veio-me a fúria. A vingança.
Saí do quarto e, sorrateiro, coloquei-me na esquina do corredor que dava para a cozinha onde era suposto ela estar, e pus-me a fazer-lhe piretes. Sabem o que são? Piretes? O dedo médio esticado e os adjacentes, o anelar e o indicador recolhidos. Como uma arma. Um órgão sexual masculino. Como uma forma de poder. Lembro-me de estar a rir enquanto o fazia, imaginando uma forma de feitiçaria voodoo que levaria a minha vingança sobre a minha mãe. Mas o feitiço, como muitas vezes acontece, virou-se contra o feiticeiro.
A minha mãe veio de trás. Veio de trás de mim. Tinha ido ao quarto dela e eu não percebi. Estava atrás de mim. E viu-me fazer aquilo. Aquilo. Uma obscenidade.
Caiu o Carmo-e-a-Trindade. O céu desceu à Terra. As chamas do Inferno abriram-se para me devorar. Só senti a mão da minha mãe a bater-me na cara. A cara a ficar vermelha. Eu apanhado em flagrante. Eu derrotado. Eu figurinha triste que nem escondido, e à distância, conseguiu a sua pequena vingança na forma daquele estúpido e obsceno pirete.
Levei uma valente tareia. Fui para o quarto chorar. E só desejava que a minha mãe não contasse ao meu pai. Não que ele me fosse bater, que era raro fazê-lo. Mas pela vergonha que sempre me fazia sentir.
No fim de tudo isto, no fim de todos estes anos, no fim de todas estas guerras em que, invariavelmente, fui derrotado porque não tinha razão, nunca deixei de amar a minha mãe como um filho ama.
E só se perderam as que caíram. Naquele tempo ainda não éramos politicamente correctos.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/22]