Tenho a Pistola na Mão

Estou a olhar para a pistola. A pistola que tenho na mão. Uma herança do meu pai. A herança do meu pai. A única coisa que me deixou, coitado. A vida não foi muito simpática com ele. Comeu-o até ao osso e depois, no fim, cuspiu-o fora.
A pistola é pesada. Bonita. Não muito grande. Cabe na palma da minha mão. O cano é que sai um pouco para fora. As minhas mãos não são muito grandes.
Acabei de ver a final da Liga dos Campeões. Vi o Liverpool regressar ao convívio dos grandes. Acho que assisti ao mudar de uma época. Acho que acabou, por uns anos, a época de glória do Real Madrid.
Vi gente a gritar de alegria. Vi gente a chorar de tristeza.
A vida é assim. Boa para uns. Má para outros.
Acendi um cigarro. Fui à janela. Abri-a. Fiquei lá debruçado a fumar e a olhar as gentes que chegavam para a noite na cidade.
Não me sentia bem.
Não tinha nada a ver com o jogo. Com a Liga dos Campeões. Com o Liverpool. Nem sequer com a cidade. Acho que tinha a ver comigo. Mas nem sei bem o quê.
Sentia a cabeça pesada. O corpo agitado. Uma certa angústia. A vida também não tem sido muito simpática comigo. Lembrei-me do meu pai. E foi por isso que fui buscar a pistola. Revi-me na vida do meu pai. Prendi um soluço na garganta. Não o deixei ir adiante. E fui buscar a pistola.
A pistola estava num cofre pequenino que tenho no fundo do guarda-fatos. Abri-o. Peguei na pistola. E fui sentar-me no sofá. Com a pistola na mão.
E aqui estou. Sentado no sofá. O jogo já terminou. Gostei que o Liverpool tivesse ganho. A pistola está carregada. A pistola está sempre carregada. Cada vez que a limpo, deixo-a carregada.
A minha mãe não sabe que eu tenho a pistola. Ela tinha-a escondido. E depois, perdeu-se. Foi assim o fim oficial da pistola do meu pai. A minha mãe escondeu-a. Escondeu-a de mim. E depois perdeu-a. Esqueceu-se onde a tinha escondido. Mas eu encontrei-a. E fui eu que a escondi. Fui eu que a encontrei e escondi. Fui eu que acabei por ficar com a pistola que era do meu pai. Foi a minha herança.
Estou com a pistola na mão. Estou sentado no sofá com a pistola na mão. O Liverpool ganhou a Liga dos Campeões. A minha mãe não sabe que eu tenho a pistola que era do meu pai.
Eu tenho a pistola na mão e não sei o que é que hei-de fazer.
Tenho o corpo a tremer. Sinto uma certa ansiedade. A boca seca. A perna a abanar. O pé a bater no chão. Tenho uma vontade enorme de chorar. Tenho a pistola na mão. A pistola que era do meu pai. E que a minha mãe queria esconder de mim.
Tenho a pistola na mão e medo do que possa fazer.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/01]

Sentado no Escuro da Plateia

Estou sentado na plateia. Escondido no escuro. Não propriamente escondido. Estou em silêncio, sentado no fundo de uma cadeira no meio da plateia, anonimamente plantado de forma a que se esqueçam de mim. Sabem que eu estou ali, mas devem perder-me. Devem ignorar-me.
Olho o palco iluminado. Ainda não é o desenho de luz da peça. Mas está iluminado. Os actores movimentam-se. Os actores, meio dentro do corpo das personagens que representam, movimentam-se pelo palco. Estão em casa. Na vida. Numa vida. São verdade e mentira. Existem e não. Mas existem sempre. Mesmo quando mentem e dizem que não existem. Que são ficção. O que é a porra da ficção senão retratos reais?
Um deles dá um berro.
Eu dou um pulo na cadeira onde estou enfiado.
O encenador, sentado perto do palco, vejo-o de perfil, está atento. Não lhe vejo nenhuma emoção. Não sei se está contente com o trabalho que está a executar. Não sei se está contente com a interpretação que os actores estão a fazer da sua escrita representativa. Mas está atento. É a única coisa que consigo perceber. Ele está atento. Muito atento.
Há duas miúdas que se abraçam. Sinto-lhes os peitos a saltar enquanto pulam no palco. Há uma terceira mas está afastada. Espera. Espera pelo nascimento da sua personagem na cronologia da peça. Aparecem dois rapazes. Falam alto. Gesticulam muito.
Sinto-me afastar da história. Do ensaio. Ainda vejo uma miúda beijar a outra na face. Vejo-a ruborizar? Os olhos fecham-se. Não é desinteresse. Estou cansado. Despertei muito cedo. Por vezes acontece-me. Acordo e não consigo voltar a dormir. Hoje aconteceu. Acordei eram quatro da manhã. Acordei a uma hora a que costumava deitar-me. Se calhar é isso. Tenho uma longa relação com as quatro da manhã. Antigamente deitava-me. Agora, levanto-me.
Sinto-me embalado. As vozes dos actores são uma balada que me embala para Slumberland.
E de repente Amigos da Revolução. Ouço perfeitamente dizer, alto e claro Somos amigos da Revolução. E desperto. Percebo onde estou. O que estou a ver. A peça. Os actores. O assunto. Fala-se de revolução.
Endireito-me na cadeira. Tento manter-me acordado. Tento tomar atenção ao ensaio da peça. No palco parece haver um happening. Actores felizes. Personagens positivas. Há festa. Uma festa revolucionária? Sorrio. Estou perdido na cronologia.
Chega um grupo de militares. Ou, pelo menos, militarizados. Um deles, talvez o mais graduado, cospe palavras azedas para o palco. Sinto muita veracidade no que vejo. Desperto completamente.
Os soldados cercam as personagens civis. Estão assustadas. Gosto destes actores. São viscerais. Um deles está completamente branco. Dir-se-ia morto de medo. E então, uma rajada de metralhadora para o ar. Umas placas de esferovite, colocadas no tecto para cortar a reverberação do som, são pulverizadas e chove bolinhas de esferovite sobre o palco. Sobre os actores. Sobre as personagens.
Assusto-me. Sinto tudo demasiado real. Os tiros pareciam mesmo tiros. Tiros a sério.
Um dos actores salta do palco, desesperado, e começa a correr pelo meio da plateia. Um soldado aponta uma metralhadora e dispara um rajada. O actor é atingido. Dá mais três ou quatro passos aos trambolhões. E vem cair ao pé de mim. Aos meus pés. E vejo o sangue que lhe sai de vários buracos do corpo. Ainda lhe vejo os olhos a olharem-me. A pedirem-me ajuda. E eu sem saber o que fazer. Como reagir. Vejo o sangue fluir em golfadas. Ouço os berros dos militares no palco. O medo estampado na cara dos actores que despiram as personagens. Agora as personagens são mesmo os actores. E representam-se a eles próprios. E sentem a vida fugir-lhes. E eu com eles. Como eles.
O que é que está acontecer? O que é que nos está a acontecer? Quero acordar!

[escrito directamente no facebook em 2019/04/26]

Eu Sou o Filho, Eu Sou o Pai

Dia do Pai.
Onde está o meu? Onde estou eu?
Dia do Pai e estou aqui. Estou sentado. Estou sentado a um balcão. Tenho um espelho à minha frente. Um espelho meio tapado pelas garrafas. Um espelho meio despelhado pela queda do metal ou da prata que quebra o vidro e o faz, faria! reflectir.
Vejo-me mal. Uma curvas. Uma silhueta. Sou mesmo eu? Reconheço-me no meio da desfaçatez de um espelho velho e gasto?
Esse sou eu! Talvez.
Não sei onde está o meu Pai. Já o procurei entre as estrelas e não o encontro. Uso óculos. Preciso de lentes mais fortes. Lentes de fundo de garrafa de vinho tinto forjado no terroir alentejano. Lentes que desbravem o cosmos. A alma. A vida e a morte.
Não sei onde estou eu próprio. Eu fugido. Eu Pai.
Estou aqui, sentado ao balcão a tentar descobrir-me num espelho que já não espelha. Tenho um copo vazio à minha frente. Cheio. De novo vazio. Cheio outra vez. Vazio de novo.
Isto é um jogo.
A Cabra-Cega que não vê. A Apanhada que não agarra. As Escondidas que finge que não encontra. Mas sabe. Sabe onde está. Mas não diz. Não vê. Não quer saber.
Mas quer. Quer saber. Mas não sabe como.
Onde está o meu Pai? Onde estou eu?
Porque fugi? Não foi dele. Deles. Foi de mim. Mas não sei porquê. Ou sei. Sei mas não quero saber.
O copo continua cheio. E vazio. E de novo cheio.
Vejo-me ao espelho. Mas não me vejo.
É um jogo.
Tiro o revólver do cós das calças e coloco-o em cima do balcão.
É o dia do Pai.
Onde está o meu?
Onde estou eu?
Bebo do copo cheio. Fica vazio.
Estou ao balcão. Não sei quanto tempo vou ficar aqui. Não sei se quero ficar aqui. Nem sei se quero ir embora. Não sei nada. Não quero saber nada.
Só queria não ser nada. Não ser Pai. Nem ser Filho. Nem Irmão. Nem ser Eu.
Pego no revólver. Pego no revólver e faço girar o tambor. Tem balas, o revólver?
Olho o revólver na minha mão. O tambor a girar. E penso que tenho na minha mão a minha vida; E penso que tenho na minha mão o disco dos Beatles.
Tomorrow Never Knows. E é isto. Amanhã logo se vê. Porque não agora?
E o tambor do revólver gira. Gira no revólver. Não sei se o tambor tem balas. Não sei já o que tenho na mão. Se a minha vida. O amanhã. Todo o lado.
Onde é que está o meu Pai?
Onde é que estou eu?
E tu? E vocês?
Pode isto acabar bem?

[escrito directamente no facebook em 2019/03/19]

Isto Vai Durar Até Quando?

Saí de casa. Estou sempre a sair de casa. Vai-não-vai, aí vou eu. Saio de casa e fecho a porta nas minhas costas. Fecho a porta com estrondo nas minhas costas. Para se ouvir. Para se ouvir que saí de casa.
Faço uma pequena mochila com algumas coisas. Cuecas, meias, um livro. Coisas assim. Essenciais à vida de todos os dias. E penso Desta vez é que é! Como se fosse. Mas nunca é.
Pego na mochila. Saio de casa. Fecho a porta com estrondo nas minhas costas e entro nas ruas da cidade. Nos dias de chuva é mais chato. Gosto mais dos dias de sol. Caminho pelas ruas luminosas enquanto penso no que fazer. Para onde vou? Casa de amigos? Pensão? Alojamento local?
Acabo quase sempre por optar pelo Ibis. Não é caro. É relativamente anónimo. Não está bem no centro da cidade embora não esteja longe. É um hotel discreto.
Mas é sempre uma tristeza.
Acabo deitado em cima da cama. Uma cama sem colchão. As camas do Ibis são de espuma. Deito-me e afundo-me. Cinco minuto depois estou cheio de dores nas costas. Mas aguento. Porra! aguento tanta coisa. Também aguento uma dor nas costas.
Acabo deitado em cima de uma cama de espuma num quarto do Ibis. Vestido. Calçado. O cinto a apertar a barriga. As sapatilhas a sujar a manta branca. O comando da televisão na mão a fazer zapping em canais que nunca vejo a não ser lá, de todas as vezes em que habito lá. Já tenho ficha no Ibis. Já me fazem desconto. Já me arranjaram dormida num dia treze de Maio de lotação esgotada com os peregrinos de Maria. Sou um bom cliente. Um cliente habitual.
Há vezes em que ainda nem decidi o que fazer, ou seja, ainda estou a adiar a solução Ibis, e já o telemóvel toca. Não atendo. Sei que é ela. Ouviu a porta a bater com estrondo. Primeiro fica furiosa. Depois arrepende-se. Em seguida liga-me. Eu não atendo. Volta a ficar furiosa. Manda umas mensagens a refilar comigo. A chamar-me nomes. És um merdas! Depois pára. Normalmente eu já estou no Ibis, deitado sobre a espuma da cama, de comando da televisão na mão a fazer zapping sem nenhum objectivo quando chega a primeira mensagem das desculpas.
Desculpa, diz. Desculpa desculpa desculpa, volta a dizer. Desculpa, não queria dizer o que disse, insiste. Depois chegam várias outras mensagens a explicar porque chegámos ali, aquele ponto. Àquele ponto específico. Aponta as culpas dela. Aponta as minhas culpas. Eu não respondo logo. E ela pergunta onde estou. Onde é que estás?, pergunta. E eu continuo sem responder. E ela avança logo Estás em casa de alguma amiga, não é? E eu rio-me. Um riso amarelo, é certo. Mas acho piada a que tudo se resuma a isso. Estás com alguma amiga, não é? Apetecia-me dizer-lhe que não. Não, não estou com nenhuma amiga, percebes? Estou sozinho. Sozinho no Ibis. Sozinho no Ibis a fazer zapping por canais de merda que nem sei do que falam. Mas não digo nada. Não telefono. Não mando mensagens. Não atendo nem respondo ao que me lança. Ainda estou muito zangado. Não saí de casa por sair. Saí porque me zanguei. Fiquei farto. Quis cortar a ligação. Ir embora. Disse-me Desta vez é que é. E não! Não é!
Passa um dia ou dois. Acabo por atender o telefone. Acabo a falar. A ouvir as desculpas dela. A pedir as minhas desculpas. A pensar que é uma idiota. Que sou um idiota. Que somos todos uns idiotas que só estamos bem onde não estamos. Que só queremos o que não temos.
Olho para o livro na espécie de mesa-de-cabeceira. Não consigo ler. Não tenho espírito para ler. Continuo no zapping. Acabo por ficar num qualquer canal alemão onde não entendo nada do que é dito.
E, depois, acabo por voltar para casa. Acabo sempre por voltar para casa.
A última vez que aconteceu foi hoje ao fim da tarde. Já nem sei porquê. Mais uma discussão parva. Voltei a sair de casa. Voltei a bater a porta com estrondo nas minhas costas. Voltei a caminhar pelas ruas da cidade, já a escurecer e com o frio a cair sobre mim. Voltei a decidir-me pelo Ibis. Voltei a não atender o telemóvel.
Estou deitado em cima da cama de espuma com as sapatilhas a sujar a manta branca. Tenho o comando na mão e faço zapping por canais que nunca vi. Já recebi várias mensagens dela. A última era a perguntar Qual das tuas amigas te cedeu cama? Qual delas te abriu as pernas? E eu estou zangado. Estou sozinho. Estou sozinho a precisar de calma. Não vou responder a estas mensagens. Amanhã vamos fazer as pazes. Daqui a dois dias estou de regresso a casa. E pergunto-me Isto vai durar até quando?

[escrito directamente no facebook em 2019/03/16]

O Monstro do Outro Lado da Janela

O dia acordou enublado. Eu acordei com o despertador, que a luz no quarto, muito difusa, não era suficiente para me fazer abrir os olhos e despertar para a vida.
Olhei para o tecto. Estava lá. Inteiro. Tentei ver rachas, pontos negros. Moscas. Mosquitos. Aranhas. Não havia por lá nada a pontilhar o branco do tecto. Mas podia haver. E eu não ver. A luz não era muita. Eu estava a acordar. Os óculos que usava era só para ler. Mas não sei se não devia começar a usar óculos para ver mais que as letras que fugiam das páginas dos livros que continuava a roubar nas mesmas livrarias de sempre. Coloquei os óculos. Olhei para o tecto. Um borrão. Era só o que via. Um borrão sem forma. Tirei os óculos e larguei-os na mesa-de-cabeceira.
Empurrei o edredão para trás. Senti o frio da manhã pelo corpo. Estremeci. Levantei-me. Agarrei nas calças de fato-de-treino e vesti-as. Enfiei uma t-shirt. Saí do quarto. Entrei na cozinha. Liguei a máquina do café. Fui à casa-de-banho. Regressei à cozinha. Enchi uma caneca de café. Fui beber para a janela. Mas não via nada das árvores. Não via os pinheiros. Não via as laranjeiras cheias de laranjas. Não via o muro do quintal nem a estrada lá ao fundo. Não via as montanhas naquele que era o meu horizonte habitual. Não via nada. Só um borrão difuso. Um nevoeiro tão cerrado e próximo que não via nada.
E, de repente, um monstro. Um monstro saltou à minha frente. Um monstro saído do nevoeiro saltou à minha frente. Dei um salto para trás. Assustei-me. Dei um salto para trás. A caneca de café na mão. A caneca de café saltou comigo. O café também saltou, por sua vez. E tombou sobre mim. Foda-se! disse alto. Foda-se! repeti. O café caiu-me em cima. Em cima de mim. Pela t-shirt. Pelas calças de fato-de-treino. Pelos pés descalços. Pelo chão limpo. Foda-se! disse outra vez ao sentir-me queimado pelo café. O monstro continuava aos saltos frente à janela. O monstro era o cão. O cão veio do nevoeiro. Escondido pelo nevoeiro. E saltou à minha frente. Do outro lado do vidro. Apanhou-me desprevenido. Assustei-me. Cabrão! disse, a pensar no cão. E via-o lá do outro lado do vidro aos saltos.
Larguei a caneca no lava-louça. Fui à despensa buscar um balde e a esfregona. Despejei lá dentro uma medida de tampa de Sonasol Verde. Abri a torneira de água quente no lava-louça e enchi o balde. Depois fui lavar o chão da cozinha. Lavei o chão todo. Não ia deixar manchas. Não ia só lavar aquele pedaço sujo de café. Foi tudo. A cozinha toda. Lá fora o cão continuava a ladrar e a saltar em frente à janela. Queria comer, claro. O cabrão queria comer. Agora esperas!, disse-lhe através da janela fechada à espera que ele ouvisse e compreendesse.
Depois fui tomar banho.
Um duche quente.
Vesti-me. Quando regressei à cozinha, já não havia nevoeiro na rua. O cão já não estava a ladrar lá fora.
Saí à rua. Acendi um cigarro. Já via os pinheiros. Já via as laranjeiras cheias de laranjas. Pensei que mais tarde iria fazer um sumo de laranja. Gosto de sumos de laranja. De laranjas a sério. Olhei mais lá para o fundo e já tinha de regresso o meu horizonte habitual. As montanhas. As montanhas verdes.
Ouvi vozes. Olhei a estrada, ao fundo do quintal. Ao portão. Duas mulheres. Duas mulheres com livros nas mãos. Duas mulheres, de calça e casaco. Mala a tira-colo e uns livros, ou revistas, presos pelos braços junto ao peito.
Testemunhas de Jeová, pensei.
Fiquei em silêncio. Deitei o cigarro fora. Voltei para casa. Ouvi a campainha a tocar. Mas não havia ninguém em casa. Só o cão. O cão que foi ladrar para o portão. Foi ladrar às Testemunhas de Jeová.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/15]

Há Quanto Tempo Não Estou com uma Mulher?

Estou dentro do carro. Na confusão da hora de ponta na cidade. Páro antes de um cruzamento. O semáforo vermelho para mim. O semáforo verde para os peões.
Uma rapariga nova, vestida toda de preto, com uma blusa com botões, abertos até ao peito, caminha pela passadeira e pára a meio. Vira-se para mim e começa a lançar umas bolas ao ar. Bolas pequenas. Três bolas pequenas. Manda-as ao ar e consegue fazê-las ficar todas no ar ao mesmo tempo. Agarra uma bola numa mão e passa-a à outra que a manda com mais força ao ar, e a accão repete-se. Uma e outra vez. Sempre com pequenas diferenças. Diferenças acrobáticas. Artísticas. Eu sorrio.
Eu sorrio mas não para os malabarismos que executa. Eu sorrio mas não para as pequenas modificações que ela provoca neste ritmo constante e minimal das bolas em constante movimento de uma mão para a outra e para o ar, sempre sem parar. Eu sorrio porque vejo a blusa aberta sobre o peito. Vejo a pele da rapariga. Aquela pele alva da rapariga que promete o paraíso. E imagino. Oh, porra! como eu imagino aquilo que lá está mesmo sem ver.
Eu olho a rapariga mas já não a vejo. Já a despi. Já lhe tirei a blusa. As calças. Tudo. Já não é ela. É outra. Outras. Umas reais. Outras recriadas pelo meu desejo.
Há quanto tempo não estou com uma mulher?
Sinto saudades. Saudades dos corpos. O meu corpo estremece à recordação. Sinto nas palmas das minhas mãos todos os seios que por cá já passaram. Revivo-os.
Sinto os corpos que afaguei. Sinto-os a passarem-me pelas mãos. As minhas mãos calejadas. Em sofreguidão pela suavidade daqueles corpos que se abrem à minha vontade.
Há quanto tempo não estou com uma mulher?
Deixei passar tudo ao lado. Perdi a vontade. A paciência. Achei que havia coisas mais interessantes e importantes para conquistar na vida. E havia tempo. Havia sempre tempo. Havia sempre muito tempo até deixar de haver.
A porta de casa abre-se todos os dias para o silêncio. Deixei-me perder tudo o que, agora, faria sentido.
Sinto falta do calor. Da frescura. Da violência de um corpo doce a morrer no meu.
Há quanto tempo não estou com uma mulher?
Desperto para a chuva que tomba no pára-brisas. A rapariga passa ao meu lado, olha para mim, com as bolas na mão, à espera de uma pequena contribuição. Mas eu só vejo que está a chover. Começou a chover torrencialmente. A rapariga volta para trás, agarra numa capa, veste-a e desaparece. O semáforo dispara verde num estilhaço pelo vidro do pára-brisas.
Ouço o som de uma buzina vindo lá de trás.
Ainda procuro com o olhar a rapariga com a blusa aberta até meio do peito. Mas já não a vejo. Chove muito. Arranco com o carro. Tenho a garganta seca. O estômago anda por aqui às voltas. Os olhos estão húmidos.
Que fiz eu à minha vida?

[escrito directamente no facebook em 2019/03/06]

Levas-me a Dançar?

Leva-me a dançar.
Era o que eu queria que ela pedisse. Que ela ordenasse. Mas nunca aconteceu.
Leva-me a dançar. Mas eu dançava sempre sozinho. Até a música parar.
Eu saía. Concertos. Cinema. Amigos. Copos. Sozinho. Ela ficava em casa. Sentada no sofá. Uma manta sobre as pernas. Um chá de uma qualquer erva exótica a fumegar na chávena. Os óculos tombados sobre a ponta do nariz enquanto lia um livro. Ou dois. E olhava para a televisão. Noticiário. Sempre no noticiário. Um olho no burro e outro no cigano. É uma expressão. Imersa no livro, estava atenta ao que era notícia. E o telemóvel sempre ali ao lado. Multitasking.
Saíamos. Claro que saíamos. Quase sempre para jantar. Não de uma forma social. Não havia era paciência para cozinhar. Saíamos. Enfardávamos. Regressávamos.
Eu bebia um whiskey à janela. Fumava um cigarro. Olhava a rua. Ora chovia. Ora fazia sol. Ora era noite. Ora havia vida lá fora. Ora a morte cá dentro.
Ela continuava sentada no sofá.
Lia.
Eu olhava-a e pensava Leva-me a dançar. Mas não levava. Não dançava.
E eu saía. Concertos. Cinema. Amigos. Copos.
Um dia estava parado em frente ao Red, Orange, Orange on Red do Mark Rothko. Estava imerso naqueles tons. Estava quente. Com calor. A camisa aberta. As mangas arregaçadas. A boca seca. Custava-me mesmo a engolir a saliva que não tinha e, mesmo assim, pensava Apetecia-me um cigarro. Estar aqui parado, mergulhado neste vermelho-crime, de cigarro na mão, preso na ponta dos dedos, o fumo a colorir de amarelo as unhas mal cortadas e as peles nos cantos que já não consigo ver mas sinto a roçar-se em mim quando meto as mãos nos bolsos.
E ouvi É pena não poder puxar de um cigarro e fumar na companhia deste vermelho. Este vermelho impele-me a fumar um cigarro.
Virei-me.
E vi que era eu. Não era eu-eu. Era eu-outro. Outra. Alguém que sentia o mesmo que eu perante aquela alucinação de Rothko.
Tirei o maço de cigarros do bolso e ofereci-lhe. Ela agarrou no maço. Retirou um cigarro. Colocou-o na boca. Depois virou-se e começou a andar. Olhou para mim e eu segui-a.
Saímos do museu.
Acendemos os cigarros. Fumámos.
Em silêncio.
E no fim ela perguntou Gostas de dançar?
Eu acenei. Que sim. Claro. Muito.
E ela perguntou Levas-me a dançar?

[escrito directamente no facebook em 2019/01/14]

A Promessa

A minha mãe agarrou em mim ao colo e pôs-se a caminho. E se eu era pesado! Sei que nasci com uns quilos acima do que era normal. Mas não sei quanto pesava.
Ela agarrou em mim e pôs-se a caminho. A pé. Foi comigo a pé até Fátima. Ia cumprir a promessa. Ir a pé até Fátima comigo ao colo. Chegada lá, duas voltas à Capelinha das Aparições de joelhos. Sempre comigo nos braços.
Era Verão.
Não me lembro de nada.
Eu fui o terceiro filho. Mas o primeiro. Os outro morreram. Morreram antes de nascer. Eu fui a oferta. A promessa. Nasci e fui cumpri-la. Uma promessa que não era minha. Mas também não fui eu que fui a pé até Fátima. Foi a minha mãe.
Mais de trinta quilómetros.
Era Verão.
Não me lembro de nada.
A minha mãe não ia sozinha. Havia outras mulheres a pé. A cumprir promessas. Mas ela era a única com um filho nos braços. Um filho pesado nos braços. Havia um carro que as acompanhava. Lhes dava água. Mas não podiam beber muita. A água pesava-lhes no estômago. Mas estava sol. Calor. Transpiravam muito. Desidratavam. Eu também. Disseram-me. E chorei. Chorei muito. Também me disseram. Era do calor. Do sol. Da viagem.
Era Verão.
Não me lembro de nada.
Eu sou, então, o resultado de uma promessa. Uma promessa paga. Não sei quais os contornos do negócio.
Só sei que era Verão.
Mas não me lembro de nada.
Não sei se era acordo dessa promessa eu fazer algo de relevante com a minha vida. Nunca ninguém me mostrou o contrato. Nunca ninguém me explicou os contornos dessa promessa. Nem qual o objectivo. Nem qual o meu destino.
Só sei que era Verão.
Só sei que não me lembro de nada.
E agora que estou no fim da vida, depois de não ter feito nada de relevante com ela, pergunto-me para que é que servi?
Agora que já é quase Inverno.
E que não tenho nada para recordar.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/14]

A Ouvir Wanderer da Cat Power

Estava em pulgas. Queria ouvir o disco. Sou fã. Não aguentei até comprar o CD. Sabia que tinha de o comprar. Tenho todos os outros. Também vou ter este. Mas não aguentava a espera. Estes últimos tempos com estas canções largadas assim, às mijinhas, de vez em quando, a fazer crescer água-na-boca. Não, não consegui esperar. Fui à internet buscar. Download. Coloquei-o no iTunes. Passei-o para o iPod. Sim, ainda tenho um iPod. Daqueles velhinhos. Um Nano dos antigos. Ainda de linhas direitas. Rijo. Preto. Preto mate.
Coloquei os auscultadores nos ouvidos. Play.
[wanderer]
Abri a porta da rua e saí de casa. Não esperei o elevador. Desci as escadas na companhia da voz de Chan Marshall. Uma voz quase sussurrada. Sussurrada ao ouvido. Para mim. Só para mim “Gave my hand to Jesus when I ran away with you // Oh, wanderer, I’ve been wondering”.
[in your face]
O dia está a terminar. Estamos no lusco-fusco. Aproxima-se a noite mas o dia ainda não foi totalmente embora. Por cima da cidade um capacete que é uma palete de cores. Do vermelho-vivo ao azul-escuro, muito escuro, quase preto. Sinto-me melancólico “And when you wake // It’s all in vain”.
[you get]
Cruzo a cidade. Vejo as luzes a acender ao ritmo da minha passada. A cidade acorda comigo. Acorda para uma realidade crua. A iluminação camufla-me, passo despercebido entre as esplanadas cheias de gente e ninguém me vê. Eu não quero ver ninguém “You cross the street, you got the feeling on me // You never listen to reason, you just tell ‘em to be”.
[woman]
Sento-me na borda da Fonte Luminosa. Acendo um cigarro. Tenho uma ligeira tontura. Vejo, à distância, as pessoas a cruzarem a Praça onde está a Fonte. Sinto um calafrio pelas costas. Elas olham para mim. As pessoas olham para mim. Mas não me vêm. Ninguém me vê “If you know people who know me // You might want them to speak.”
[horizon]
Afasto-me da Fonte Luminosa, da Praça, e das pessoas que a cruzam e olham sem me ver. Largo o resto do cigarro no chão e caminho ao longo do rio. Caminho, só, ao longo das margens do rio. Acompanho-o. E penso na minha mãe. Em como era a minha vida quando a minha mãe era a minha mãe e não uma velhinha que eu tinha de cuidar. Quando era ela que cuidava. E que bom era ser cuidado “Mother, I wanna hold your hand”.
[stay]
As margens do rio estão vazias. Desertas. Está frio. E escuro. Penso em voltar para trás, mas continuo em frente. Vou em frente. Quero ir em frente. Não porque queira ir em frente, mas porque não quero voltar para trás. Nem parar. Nem sei o que quero. Não quero nada “I want you to stay // Want you to stay”.
[black]
Está tudo tão escuro que já não sei onde estou. Já não sei onde acaba o céu e começa o rio. É preto sobre preto e eu não vejo nada, só preto. Não há linhas nem sombras nem texturas. Estou no limbo. Estico as mãos para tocar em alguma coisa e não toco em nada. A vida foge-me. Não a mereço “But when the white light went away I knew death was setting in”.
[robbin hood]
Ouço um grito. Um grito na noite. Mas é imaginação. Estou com os auscultadores nos ouvidos. Não ouço grito algum. Ouço sim, um murmúrio. Um murmúrio da Cat Power. Nos meus ouvidos “Gun to your head, they want solely your money.”
[nothing really matters]
Mas não há arma. Não há ninguém. Nunca há ninguém. Regressa a luz. O rio continua lá em baixo. O céu, lá em cima. E estou aqui. E não sei porquê. Não sei o que faço aqui, sozinho, à beira do rio. Está frio. E escuro. E estou com fome “It’s like nothing really matters”.
[me voy]
Vejo as rulotes ao longe. Aproximo-me. Caminho até lá. Já me sinto em casa. Mas é engano. Está muita gente. Parece dia de festa. Não gosto disto assim. Olho em volta. Começo a transpirar. Estou nervoso. Sinto os pingos a caírem pela testa abaixo. Deixo a bifana, o cachorro-quente, o hambúrguer com cebola frita e as minis. Quero voltar para casa. Quero regressar. E consigo ouvir “I’m leaving // Me voy, me voy”.
[wanderer / exit]
Arrasto-me até casa. Não quero ver gente. Subo de elevador “Wild heart, young man, goddamn, I never wanted to keep // Your goal is ages out for the end of your story”.
Abro a porta de casa. Tiro os auscultadores dos ouvidos. O disco chegou ao fim. Estou a chorar. Nem sei porquê. Sei! Os discos da Cat Power têm esse efeito em mim. Arrastam-me pela melancolia. Entristecem-me mas, ao mesmo tempo, fazem-me sentir bem. Estranhamente, dão-me esperança. Não sei bem em quê. Só esperança.
Deve ser uma coisa boa, não?
Sento-me no sofá e penso no dia em que vi a Cat Power ao vivo. Num aniversário. Um bilhete, como prenda de aniversário. O concerto na companhia de amigos. Uma tristeza esperançosa em grupo. Se calhar era uma forma de terapia, não sei.
Mas sei que gosto desta gaja. Faz-me sentir bem. Mesmo que melancolicamente. É bizarro tudo isto. Mas não é assim que a vida é?

[escrito directamente no facebook em 2018/10/06]

Não Tenho Tempo!

O raio do cão que não se cala.
Está tudo nervoso.
O céu está vermelho. Principalmente a Oeste. Vermelho. Quase púrpura. Com uns pedaços de nuvens rasgadas e espalhadas por lá a torto-e-a-direito, sem ordem nem lógica nenhuma a não ser estarem por lá, assim, aos pedaços, espalhadas.
Mas chove. Chove muito. Chove aqui e para Leste. Como se Deus tivesse penteado o mundo de risco ao meio e decidido que ali iria haver um céu cheio de restos de Sol queimante e aqui um céu diluviano cheio de grossas gotas de chuva a tombarem na terra.
Não chove em cima do cão, que tem uma espécie de telheiro por cima da casota e está lá abrigado. Mas não se cala, o filho-da-mãe, chato-como-o-raio.
A mim já me custava o barulho infernal da chuva a cair. O cão está a tornar tudo muito mais doloroso.
Vejo as poças que se formam. As terras começam a alagar-se.
Olho o cão através da janela da cozinha e fulmino-o com o olhar. Disparo-lhe vários tiros imaginados. Acerto-lhe no coração como convém ao amor que, apesar de tudo, lhe tenho. E ele tomba no meu desejo sombrio e estúpido.
A verdade é que acaba por se enfiar no fundo da casota. O focinho recolhido. Olhar assustado. E deixa de ladrar.
Olho lá para fora. Outra vez.
Para o céu.
O mundo parece ter parado.
Não se ouve nada. Vivalma.
Só uma pequena pieira que sai do fundo dos meus alvéolos pulmonares. A asma a dizer que ainda existe. E que estas alterações de tempo, de temperatura, de clima me são fatais.
Abro a porta da rua e saio para o alpendre. Parou de chover. O céu vermelho, quase púrpura, com pedaços de nuvens espalhadas ao acaso, dissolveu-se. Tudo tende para o cinzento. Um cinzento uniforme e final. Desapareceu o Sol, a Lua e as Estrelas. Não há nada lá em cima. Não se ouve nada aqui em baixo.
Estamos no vácuo.
E nesse momento, neste preciso momento, rebenta o mundo num trovão saído do Martelo de Thor. Pareço ter os tímpanos a rebentar. Os vidros da casa estilhaçam. Levo com alguns pedaços em cima. Corto-me. Faço sangue. Mas nem sinto dor. Olho para a casota e vejo o cão com as patas em cima do focinho. O chão treme. Abana. Agita-se como gelatina. Vejo à frente a montanha a abrir-se em duas e um enorme rasgo a seguir encosta abaixo.
Penso que não tenho tempo. Assim: Não tenho tempo! E continuo a pensar Tempo para quê? Não há nada que possa fazer.
Sinto a vida a abandonar-me. O corpo tende para baixo. Os ombros descaídos. As mãos a quererem ir ter com os pés. Tudo me pesa e empurra-me para baixo.
Vejo a terra a rasgar em várias direcções. Um dos rasgos vem para aqui. Aqui para casa. Para mim. À velocidade de um piscar de olhos.
Acendo um cigarro. Deixo o fumo entrar-me nos pulmões. Aproveito-o ao máximo. E digo Que merda!