Liga, Desliga

A A8 abria-se em três faixas só para mim. Vinha em viagem solitária já não sei há quantos quilómetros. Nem carro nem mota nem camião. Nenhum peão a atravessar a auto-estrada a pé, de um lado ao outro, na mesma freguesia rasgada a meio pelo progresso esfomeado. O mundo é solitário.
Ouvia o A3-30. Na rádio a nova música de Manuel Cruz. Já não sei como se chamava. Era nova. Acompanhava a melodia com os dedos a bater no volante. Gosto deste gajo, pensei. E gostava mesmo.
Como companhia os eucaliptos nas margens. De um lado e do outro da estrada. Passavam pela janela e iam ficando lá para trás. Mas acompanhavam-me. Estavam sempre presentes, mesmo que sempre a ficarem lá para trás. Acendi um cigarro. Abri um pouco a janela. O fumo saía como por uma chaminé em movimento. E se deitasse o cigarro fora? Ri. Ri de mim. Do que dizia. Idiota.
Depois o Manuel Cruz foi-se embora. Chegou a Isaura. Liga, Desliga. E a estrada vazia. Fiz o carro dançar. De uma faixa à outra. Liga, Desliga. Guinei o volante à esquerda. Guinei o volante à direita. Liga, Desliga. Ia sozinho pela estrada fora. A estrada era minha. A A8 era a minha pista de dança. O meu Dance Floor. Liga, Desliga. E bailava. Às vezes, mexia o volante assim, mais rápido, de um lado para o outro e via-o girar rápido, por momentos parecia que ia entrar em bolandas e despistar-se. Mas conseguia sempre controlá-lo.
À frente, debaixo de um viaduto, uma estrada que atravessa, aérea, a auto-estrada, uma caixa. Uma caixa que não pertencia lá. Não fazia parte do conjunto original. Um furúnculo. Um furúnculo fétido. Um radar. Foda-se!
Olhei para o velocímetro. Cento e oitenta. E a sensação de estar parado. Uma estrada vazia. Um carro potente. Um carro seguro. Uma estrada com três faixas. Vazia. Cento e vinte quilómetros por hora? Estou fodido.
Reduzi a velocidade. Depois do mal feito.
Desliguei a rádio. Liga, Desliga. Desliguei.
Nem o senti chegar. Por trás de mim. Sorrateiro. A que velocidade voou para me encontrar? Uma sirene. Outra. Queria atenção. E falou Saia na próxima Estação de Serviço, se faz favor!
Acendi um cigarro. O fumo voltou a sair pelo vidro um pouco aberto da janela do carro. Estava nervoso. E disse alto Foda-se! Estou fodido!

[escrito directamente no facebook em 2019/07/06]

A Fauna dos Subúrbios com Banda-Sonora dos Pet Shop Boys

Comprei uns binóculos para ver a tipa do sétimo andar ali de frente, do outro lado da via rápida. A tipa é gira. Um pouco destravada. Vai nua à varanda regar as plantas. Leva amantes lá para casa e tem o cuidado de deixar as cortinas sempre abertas. Há que garantir diversão à vizinhança. Eu não sou voyer mas, às vezes, não tenho outra coisa para fazer enquanto fumo um cigarro à janela.
Não é a única estória que acompanho. Há muitas outras estórias. Desde que vim para cá morar que me comecei a aperceber da riqueza sociológica dos habitantes das cidades-dormitório. Já comecei a compilar umas estórias. Um dia publico um livro de antologia: A Fauna dos Subúrbios com Banda-Sonora dos Pet Shop Boys.
Às Sexta-feiras não há grandes estórias. Pelo menos não a esta hora. As famílias estão a jantar. Normalmente pizza. Vejo chegar as motorizadas de som estridente. Elas andam como aranhas pelas ruas da cidade-dormitório, entre as torres enormes e os jardins sem árvores. Também ouço a subir e descer o elevador do meu prédio. É um corrupio. Comem pizza. Tomam banho. Vêm televisão. Jogam Monopólio. A mãe liga a máquina da loiça. Faz uma máquina de roupa. O pai vê o jogo da bola. Há sempre um jogo da bola. Só por volta das cinco da manhã é que começa a haver alguma actividade mais interessante com os regressos a casa de quem saiu para a noite. Vêm com companhia. Ou sozinhos. Mesmo os que regressam sozinhos trazem o Gregório como companhia. E é vê-los por aí. Nas ruas. Em casa. Na varanda. A despejar tudo.
Mas hoje os binóculos serviram para outra coisa.
O bairro é cortado a meio por uma via rápida. Há um viaduto para as pessoas cruzarem a estrada mas fica muito lá em baixo e tem de se caminhar bastante para completar o desenho feito para abater os desníveis.
As pessoas cruzam então a estrada pelo asfalto.
As pessoas galgam as grades de protecção e cruzam a estrada. Geralmente a correr. Às vezes à frente dos carros que, ali, naquela zona, não se coíbem de espremer o motor. É um efeito tauromáquico. As pessoas a fugirem às bestas.
Já muita gente lá foi colhida. Morreram já algumas pessoas. Aqui mesmo à minha frente. Vejo-as a serem colhidas enquanto fumo um cigarro. É um desfastio.
Foi o que aconteceu hoje.
Uma velha. Hoje foi uma velha.
Eu estava à janela a fumar um cigarro quando a vejo pôr-se de gatas para passar por baixo das grades de protecção. Ainda pensei Não, velha, não faças isso. Mas disse-o baixinho, porque ela não me ia ouvir.
Ela levanta-se e lá vai, de bengala na mão, uma perna a puxar a outra, mais a arrastar-se que a andar, com carros a fazer slalom à sua volta e ela persistente, a caminhar em frente, devagar, sem olhar para os carros, a pensar que eles é que a vêm, eles é que têm de parar, eles é que têm de lhe fugir.
E então… E então levou com um Fiat Punto conduzido por um miúdo. Nem vinha especialmente depressa, o garoto, mas assustou-se com a velha na estrada, os carros nas faixas ao lado, a seguirem em frente, cada um na sua vida, e não soube reagir.
Ouvi o barulho. O barulho do impacto. Um som seco. Um grito. Uma travagem feita tarde demais.
Ainda vi a velha a ser projectada em frente. Em voo livre. A cair no chão e rebolar. Os braços e as pernas a girar como se fosse um boneco.
As pessoas dos outros prédios assomaram às janelas.
Eu ainda peguei nos binóculos. E olhei.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/12]