Fecha os Olhos e Deixa-te Adormecer

Abro um olho e olho para as luzes do despertador digital. São vinte horas. Ponho uma orelha de fora e ouço o zumbido. Parece o coro das cigarras. Mas a esta hora é pouco provável. Talvez o zumbido seja dos cabos de alta tensão. Ou do incêndio que, afinal, talvez esteja já aqui à porta.
Eu vi quando o fogo apareceu lá ao fundo, na zona dos eucaliptos. Mas não liguei muito. Depois dos eucaliptos há um descampado. O fogo devia morrer por ali.
Fui deitar-me em cima da cama. Devo ter adormecido. Acordei a baterem-me na porta. A chamarem-me. Levantei-me em silêncio. Fui à janela da cozinha e espreitei lá para fora. Fui ver quem era. Era gente aqui das redondezas. E a guarda. Andava toda a gente no meu quintal. Às voltas no meu quintal. Bateram à porta. Às portas. Nas janelas. Tentavam espreitar cá para dentro para ver se eu cá estava. Se estava cá alguém.
Eu não queria ver ninguém. Eu não estava. Se eu não estivesse, eles iam embora.
Voltei para a cama. Meti-me debaixo do edredão, mesmo com todo este calor. As vozes continuavam lá por fora. À volta da casa. Ninguém se foi embora, aparentemente.
Ouvi água a cair sobre as janelas, sobre a casa. As vozes aumentavam. Tapei-me com o edredão. Tentei abafar as vozes e os ruídos lá de fora.
Devo ter adormecido, de novo.
Continua a haver barulho lá fora. Já não me parecem vozes. Ou talvez sejam vozes, mas estão diferentes. Ouço um zumbido. Há, outra vez, água a cair sobre a casa. Estará a chover?
Cheira-me a torradas. Ponho o nariz de fora. Cheira-me mesmo a queimado. O zumbido! O zumbido pode ser do pinhal a arder. Talvez o incêndio tenha ido dar a volta lá por baixo, pela estrada. Talvez o descampado não tenha apagado o incêndio. As chamas podem ter dado a volta lá por baixo. Os pinheiros chegam até aqui ao quintal. Entram dentro do quintal. Estão aqui, mesmo ao lado da casa.
O zumbido parece que está mais alto. Já não parece bem um zumbido. Parece mais um crepitar. Cheira-me a queimado. E aquilo ali? será fumo?
Enfio de novo a cabeça debaixo do edredão. Quero acordar. Acorda! digo. Destapo-me e apuro os sentidos. Sento-me na cama. Ouço um crepitar de madeira. Cheira-me a queimado. Vejo fumo a invadir-me o quarto.
Sinto-me tonto. Volto a deitar-me. Tapo-me outra vez. Pode ser que não seja nada. Tenho a cabeça às voltas. Sinto-me tonto. Será uma vertigem? Sinto-me adormecer.
E então vejo-a. E ela diz Fecha os olhos. Deixa-te adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/31]

O Miúdo em Cima da Prancha

Faço a estrada toda até ao fundo. Até ao bairro dos pescadores. Estaciono o carro à sombra. Há sempre lugares vagos no bairro dos pescadores. As pessoas nunca vêm até aqui. Andam às voltas lá à frente, à procura de lugar. Nunca vêm para aqui. Eu encontrei vários lugares vagos. E à sombra. Num dia de sol e calor como o de hoje, é um luxo encontrar um lugar vago à sombra. E sem parquímetro.
Saio do carro. Mijo ali ao lado do pneu traseiro. Olho em volta. Não há ninguém. Não há ninguém a olhar para mim. Não há ninguém para me repreender.
Cruzo a estrada. Vejo os barcos parados na areia. Os barcos estão como estavam antigamente. Parados na areia. Arrastados até cá acima para que a praia-mar não os arraste lá para dentro do mar. Estes pescadores não podem pagar as docas. Puxam-nos cá para cima. Puxam-nos pela areia acima. E largam-nos por aí. Quando voltam ao mar, arrastam-nos de volta lá para baixo. É uma vida de cão.
Acendo um cigarro.
Vejo o mar lá em baixo. O sol bate-lhe nas águas e torna-o prata. Cega-me. Mesmo com óculos de sol, tenho de desviar o olhar.
Ponho-me a caminho. Caminho ao longo do passeio que contorna a marginal. À esquerda os automóveis em velocidade de passeio à procura de lugar vago. Andam às voltas para não irem para o bairro dos pescadores. É uma mania. Uma mania como qualquer outra. À direita, a praia, o mar. E à medida que me adianto ao longo da marginal, a praia vai ficando mais cheia. Cheia de gente. Cheia de corpos plantados ao sol. Corpos em luta no mar. Em luta por um pedaço de fresco das águas frias do Atlântico.
Aparecem as primeiras esplanadas na areia. Esplanadas que tapam a vista sobre a praia. Que tampam a vista sobre os corpos ao sol na praia.
Eu continuo pela marginal fora. Acabo o cigarro. Largo-o no chão. Acendo outro. Gosto de sentir o fumo a invadir-me os pulmões. Mesmo quando está calor. Mesmo quando tenho a boca seca. Gosto de ter um cigarro a queimar preso nos dedos. Gosto de ver o fumo que vou deixando atrás de mim. Gosto de puxar o fumo. Inalá-lo. Deixá-lo à solta dentro dos meus pulmões. Gosto de me intoxicar. Gosto do primeiro cigarro da manhã. O cigarro que me dá vertigem. Gosto mesmo de fumar. Gosto de fumar e de ver os corpos femininos estendidos na areia da praia. E sorrio. Sorrio de mim. Sorrio, de cigarro na mão e a olhar os corpos femininos, despidos, plantados ao sol, a queimarem-se, a bronzearem-se e a chamarem por mim.
Mas não foi por isto que vim aqui.
E continuo pela marginal fora.
Está calor. Um sol quente e muito brilhante. Mesmo com os óculos escuros franzo os olhos. Tenho dificuldade em abrir os olhos com todo este brilho.
Chego finalmente à zona onde estão os miúdos do surf. Abrando o passo. Olho lá para baixo. Para a beira-mar. Procuro-o. Olho para todos os miúdos. Quase todos, invariavelmente, de cabelo loiro. Um loiro moldado pelo sol a queimar.
E vejo-o.
Sento-me ali no paredão da marginal. Debaixo do sol. Olho para ele. Dezasseis anos de vida. Tem um corpo esguio. Musculado, mas não muito. Um corpo seco. Um corpo que vai ao mar de Verão e de Inverno. Um corpo que vai ao mar sempre que quer. Em cima de uma prancha. E eu vejo-o. Vejo-o cá de cima. Vejo-o a pegar na prancha e correr para a água. E pular para cima da prancha. E nadar. Levar a prancha para lá da rebentação. Para ao pé de outros como ele. E miúdas. Há uma miúda que se aproxima dele. Ele sentado na prancha. A ondular em comunhão com o mar.
Eu acendo outro cigarro. E vejo uma onda que se forma. Uma onda que se aproxima. E vejo-o a preparar-se para a apanhar. E vejo-o deitado na prancha. Virado para mim. A dar aos braços. A seguir na onda. A saltar de pés para cima da prancha. E a cavalgar a onda. E vejo-o a aguentar-se bastante. Percorrer um grande troço de mar. Na crista da onda. E aproveitar tudo até ela morrer e ele tombar, finalmente, da prancha abaixo.
Ele não me viu. Não me vê. Nunca me vê. Mas eu estou aqui a vê-lo. E vou ficar aqui até ser quase de noite. Ou até ele ir embora.
Gosto de o ver assim. Incógnito. Sem ele dar por mim. É um bálsamo. Uma felicidade que me inunda os dias.
Um dia também gostaria de saber andar em cima de uma prancha. Talvez ele me ensine.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/29]

É isto Dois Mil e Dezanove?

Acordo com dor de cabeça e a boca empastelada. Tenho algo colado à volta da boca. E sobre o queixo. No peito. Percebo que vomitei durante a noite. Estou todo vomitado. A cama também. Há vomitado pelos lençóis, pelo edredão, pelas almofadas. Pelo chão.
Coço a cara. A barba. As unhas arrancam qualquer coisa que não percebo bem o que é. Mas parece nojento. Massajo a pila. Tenho de urinar. Coço o pé. Mas não o sinto. Não sinto o meu pé a ser coçado. Assusto-me! Levanto-me! Levanto-me rápido demais e tenho uma vertigem. Dou um tempo. Para serenar. Olho para o pé na minha mão e descubro que não é o meu. Afasto o edredão e descubro um corpo nu deitado na cama. É de uma rapariga. Não a reconheço.
Levanto-me nu da cama. Bocejo. Coço os tomates. Tenho uma pequena erecção matinal. É tesão de mijo. Procuro os chinelos mas não os encontro. Vou descalço casa fora.
Entro na casa-de-banho. Começo a urinar e olho para a banheira. Está uma outra rapariga, nua, deitada na banheira. Acabo de urinar. Sacudo-me. Vejo os últimos pingos serem projectados pela parede da casa-de-banho. E sobre mim. Aproximo-me da banheira. Olho para a rapariga. Não se mexe. Não vejo o peito a subir e descer ao ritmo da respiração. Ponho dois dedos no pescoço. Não encontro batidas. Não encontro ritmo. Acho que não está a respirar. Mas posso ser eu. Posso estar ainda a dormir.
Vou ao lavatório. Abro a torneira. Lavo a cara. Agarro na toalha e limpo a cara. O peito. A pila. E mando a toalha para o chão.
Saio da casa-de-banho. Faço café. Bebo um copo de água da torneira. Vejo garrafas caídas no chão da cozinha. Deve ter havido festa cá em casa. Há uma garrafa de espumante quase cheia. Levo o gargalo à boca e bebo um gole. Cuspo logo de seguida. É doce. Muito doce. E está quente. Acendo um cigarro. Vou à varanda fumar o cigarro. A vizinha de frente também está a fumar um cigarro à janela. Aceno-lhe um Bom-dia, vizinha! com a cabeça. Ela ri. Percebo que estou nu. Que se lixe!
A cafeteira apita. O café está feito. Mando o cigarro para a rua e entro em casa. Sirvo-me de uma caneca. Duas colheres de açúcar. Vejo o vapor quente do café a voar. Sopro. Encosto os lábios a medo. Está muito quente. Eu começo a estar com frio.
Penso Tenho de ir vestir uma camisola. Umas calças.
Penso É isto dois mil e dezanove?
Penso Tenho uma rapariga nua na cama. E sorrio.
Lembro-me da rapariga na banheira. Procuro o telemóvel. Marco o 112.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/01]

Preso n’A Viagem de Sophia

Estou preso n’A Viagem da Sophia. Estou preso num loop dentro d’A Viagem.
Quero sair mas não consigo.
Tenho a garganta muda.
Não tenho unhas. As pontas dos dedos em sangue.
Não vejo nada. É um nada. Escuro. Claro. Vazio. Um nada.
A boca mexe mas só cai baba que escorre pelo queixo abaixo.
A cabeça às voltas. Uma vertigem. Agonia.
Vomito sobre mim. Sobre o meu peito.
O que hei-de fazer?
“Compreendeu que lhe restavam somente alguns momentos.
Então virou a cara para o outro lado do abismo. Tentou ver através da escuridão. Mas só se via escuridão. Ela, porém, pensou, Do outro lado do abismo está com certeza alguém.
E começou a chamar.”

[escrito directamente no facebook em 2018/08/12]

Sexta-Feira

Já houve um tempo, há muito muito tempo, em que a Sexta-feira era bem mais fixe que o Sábado. Era o melhor dia da semana. Era o último dia da semana de trabalho; era o início do fim-de-semana; era o dia em que se saía para jantar fora, muitas vezes com os amigos; era o dia da discoteca; dos concertos; muitas vezes, dos namoros que depois se prolongavam fim-de-semana fora até chocarem de frente com a fria Segunda-feira.
Mas isto foi há muito muito tempo.
Agora a Sexta-feira é mais outro dia de merda igual aos outros todos. Talvez mesmo pior. Só não é tão mau como o Domingo porque o Domingo é mesmo o rei da neura.
Hoje é Sexta-feira. Tive um dia de trabalho normal. Almocei uma coisa insípida de pé, ao balcão, para não gastar muito tempo nem dinheiro.
À minha volta percebia a agitação dos meus colegas mais novos, todos com as hormonas aos saltos. Eles gostam das Sextas-feiras.
No final do dia passei pelo café para beber uma cerveja. Já havia gente de banho tomado pronta para a noite. Acompanhei a cerveja com uns tremoços e enjoei a maior parte dos perfumes femininos que pairavam por ali.
Passei no supermercado para comprar pão.
Cheguei a casa e deixei-me cair no sofá. Não estava propriamente cansado, mais saturado dos ritmos que se sucedem dia-após-dia. As rotinas vazias, sem sentido. Para onde raio é que caminho?
Às vezes sinto-me no pior da adolescência e nos seus dramas existenciais. Sim, é estúpido pensar estas coisas, mas a verdade é que se perde o rumo das coisas e caminhamos ao deus-dará e quando chegamos a algum lado, quando chegamos, perguntamos porquê.
O telemóvel tocou. Olhei o nome no ecrã. Não me apetecia. Não naquela altura. Queria ficar em casa. Sozinho. Sem aquelas vozinhas irritantes de quem está muito feliz e quer toda a gente ali em órbita também feliz. Mas as coisas não são assim. E essas vozinhas deixam-me irritado.
Por vezes saio sozinho de casa e evito os sítios por onde andam as vozinhas. Vou a sítios onde ninguém me conhece e eu não tenho de ser uma personagem. Posso estar sozinho, sossegado, em silêncio, a ler um livro ou a ver um jogo do Benfica, a fumar um cigarro, a beber uma imperial ou um café.
Por vezes dou comigo a perguntar se o ser social é mesmo uma condição humana. Porque eu cada vez mais me afasto das pessoas. Não tenho paciência para as vidas a que somos obrigados em conjunto. Sinto-me mais tranquilo e sossegado longe da agitação das pessoas.
Por isso, quando chega a Sexta-feira chega-me também a neura que, regra geral, se mantém até ao Domingo.
Acho que cada vez mais gosto dos dias da semana. Há sempre menos risco de encontrar gente conhecida e com disponibilidade.
Hoje não liguei a televisão. Fui para a mesa da cozinha ver um livro que me ofereceram sobre a obra do Mark Rothko. Acabei por fumar um maço de cigarros e beber uma garrafa de vinho. Fui para a cama sonhar com aquelas cores. Com aquele vazio tão cheio de vertigem.
Acabou por ser uma boa Sexta-feira.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/12]