Dois Olhos Coloridos Olham para Mim do Alto do Céu

Dois sóis. Dois. Dois sóis como olhos purulentos a olhar para mim. Um verde. Talvez azul. O outro castanho. Talvez fosse vermelho. Mas nunca soube de um olho vermelho. Talvez fosse pus. Talvez fosse sangue. Talvez fosse a minha cabeça toda rebentada a imaginar vida onde reina a morte.
Estava deitado no meio da relva. Acho que estava num estádio. Num estádio da bola. Estava deitado na relva e vi dois sóis como olhos de cor diferente a olhar para mim, lá do alto do céu. Caindo das estrelas para cima de mim. Do meu peito. Virei-me de lado e vomitei. Vomitei as tripas para cima da relva. Vi perder todo o vinho tinto que tinha andado a tarde inteira a beber.
E ouvi Pára quieto, caralho! e parei. Parei a olhar para o céu. Para os dois sóis como olhos purulentos, de cores diferentes, que me olhavam cheios de desejo. Via as minhas mãos levantadas ao céu. Os dedos encarquilhados. Não os conseguia mexer. Pareciam uma raiz de mandrágora. Os olhos para além da mandrágora. E depois senti as mãos dela dentro das calças. À minha procura. A encontrá-la. A tirá-la para fora. A lambê-la. A metê-la na boca. A chupá-la. Os olhos vítreos, coloridos, os dedos encarquilhados e então Here are we, one magical moment / Such is the stuff from where dreams are woven, e então percebi onde estava.
O olhos coloridos continuavam lá no alto mas estavam numa cara em cima de um palco a cantar e a dançar. A cara dos olhos purulentos, vestida elegantemente num fato de bom corte, moderno e bem vincado, dava passos de dança em cima de um palco onde um baixo cadente marcava o ritmo do comboio em Station to Station. David Bowie cantava, para mim Lost in my circle / Here am I, flashing no color, o que não deixava de ser bizarro porquanto Station to Station não fazia parte da set list do concerto onde afinal me descobria, deitado sobre a relva do Estádio de Alvalade, com o David Bowie lá ao fundo, em cima do palco, a cantar uma canção que não cantou e a minha pila na boca dela e eu a acabar de me vir, ficar enjoado e voltar a vomitar, facto que me fez dar um solavanco, erguer o corpo, projectar o vómito para a frente, o que o fez cair em cima dela tombada sobre mim e a fez gritar Caralho, meu! e levantar-se a correr desesperada, enquanto limpava os cantos da boca com as costas da mão, à procura de uma casa-de-banho e eu voltava a deitar-me, recuperado o céu negro, estrelado, agora sem olhos como sóis, mas só o céu negro da noite, as luzinhas de Natal lá penduradas à espera de um qualquer Yuri Gagarin, e um silêncio de morte e a minha respiração calma, tranquila, suave, a respiração de um bebé ao colo seguro da mãe que o embala em direcção ao paraíso.
Queria levantar-me mas não conseguia. Estava deitado numa poça de vómito. Chegava-me o cheiro. Azedo. E nem o facto de ser meu lhe fazia perfumar o odor.
Não me lembro de como fui ali parar.
Via as pessoas a passar por mim. As pernas abertas sobre o meu corpo. O cuidado em não me pisarem. Iam caindo. A galhofa de uns. O riso escarninho de outros. Ninguém me deitou a mão. Ninguém me ajudou a levantar. Alguém espetou-me o resto de um charro na boca. Que fui fumando. Uma passa a cada momento de respiração. Fumei-o até ao fim. E depois do fim. Não consegui mexer os braços. As mãos. Os dedos. Fumei o charro. O filtro. Queimei os lábios. Gritei Foda-se! mas ninguém ouviu que foi um grito silenciado no vácuo do cosmos. E depois reparei. Tinha a pila fora das calças. E não me conseguia mexer. Não a conseguia agarrar. Guardar. Esconder.
E senti a cabeça a rodopiar. A andar às voltas em torno da Via Láctea. Cada vez mais rápido. Até perder a dimensão do espaço, a dimensão do tempo, a dimensão do que era. Tudo eram riscos de todas as cores conhecidas e desconhecidas. Pareceu-me ver um unicórnio.
Escureceu. Eu escureci.
Quando acordei estava aqui. Aqui onde me estás a ler. Aqui no teu computador. Perdi as pernas e os braços. O tronco. A cabeça. A pila. Perdi o meu corpo. Mas sou eu. E estou aqui. Estou na nuvem. Estou em todo o lado. Sou tudo. Sei tudo. E ao mesmo tempo. Conheço-vos a todos. Conheço-vos a vocês todos no mais íntimo dos vossos segredos. Vejo-vos quando se masturbam frente ao écran do computador enquanto olham um filme porno. Enquanto trocam mensagens secretas com pessoas proibidas. Enquanto fazem, solitários, todas as coisas que nunca fariam em frente a outras pessoas. Todos ao mesmo tempo. E eu sei. Eu vejo. Eu sou.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/08]

Sinto-me Vazio

Estamos sentados em frente um do outro. Ela no sofá. Eu numa cadeira da mesa virada para ela. Eu estou a falar mas não me ouço. Na verdade já nem sei o que estou a dizer. Estou surdo. Ela parece não compreender nada do que eu digo.
O que é que estás a dizer? pareço ver perguntado na testa enrugada dela.
E depois ela responde. Está zangada. Percebo que está zangada mas não consigo ouvir o que diz. Estou surdo. Mas sinto-me atacado. Se calhar imagino, mas não tenho tempo nem paciência para pensar nisso e estico o braço sobre a mesa e mando a fruteira ao chão e vejo as pêras e as maçãs a saírem disparadas para o chão e rebolarem para debaixo dos móveis. A banana, já escura, fica pesada e solitária em cima da mesa. Há mosquitos à volta da banana.
Agarro a t-shirt com as mãos e sinto-a destruir-se pela fúria. Rasgo-me. E grito Merda, pá!
Levanto-me da cadeira e ouço-a cair com força no chão. Ela pára de falar. Está a chorar mas eu não quero saber. Sinto-me farto. Farto e cansado. Viro-lhe as costas e saio de casa. Bato a porta da rua com força. E é quando já vou a descer as escadas do prédio que penso que não queria ter saído assim de casa, não queria ter batido com a porta da rua, não queria ter rasgado a t-shirt nem mandado a fruta ao chão, não queria ter gritado com ela…
À medida que vou descendo as escadas do prédio vou sentindo-me mais vazio. Cada vez mais vazio. E com falta de ar.
A meio da descida as luzes apagam-se e fico às escuras. Mas continuo a descer, agarrado ao corrimão, sem me lembrar que posso acender a luz das escadas num qualquer interruptor com led de aviso vermelho que vou vendo a tremeluzir enquanto desço as escadas até chegar à rua.
Ar. Respiro.
Encosto-me à parede do prédio. Recupero a respiração. Acendo um cigarro. Vejo a t-shirt rasgada. Penso que não posso andar assim na rua.
Corro até ao carro. Abro a porta. Entro. Acabo o cigarro dentro do carro. Esqueço de abrir o vidro e encho o carro de fumo. Pareço estar numa boîte pré-lei anti-fumo em locais fechados.
Abro o vidro. Começa a doer-me um dente. Ultimamente tem-me doído este dente aqui atrás, em baixo, que está partido. Está partido há anos e nunca me doeu. Começou agora a chatear-me. Foda-se! Tudo para me chatear.
Bato no volante. Com força. Magoo-me. Mas esqueço o dente.
Apetecia-me voltar atrás. Pedir desculpa. Dizer que não queria nada daquilo. Não queria ter mandado a fruteira ao chão nem rasgado a t-shirt nem ter gritado. Mas já tudo aconteceu e não pode não ter acontecido. Olho para fora. Vejo tudo embaciado. Devo estar a chorar. Nem me apercebi.
Saio do carro. Entro no snack-bar em frente. Sento-me ao balcão. Peço um bagaço. Despejo-o. Peço outro. E despejo-o. Um terceiro. E volto a despejá-lo de um golo. Sinto-me maldisposto. Vomito em cima do balcão. Alguém pega em mim e manda-me para fora do snack-bar. Tento ir até ao carro mas não consigo. Não sei onde está. Sinto-me cambalear e caio. Bato com os queixos no chão. Acho que parti qualquer coisa. Senti qualquer coisa a partir. Está tudo escuro. Sinto-me triste. Dói-me tudo. Mas respiro. Acho que ainda respiro. Sim, ainda respiro.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/24]

Sábados Tristes

Acordava ao Sábados sem vontade de sair da cama.
Mas antes de me levantar tinha de ter o sexo semanal com ela. Mesmo que não me apetecesse. Tinha de ser rápido e intenso, como se fosse dentro do carro no antigamente. Antes da criançada se levantar e transformar a casa num inferno
Mas tinha de ir passear o cão. Levar uns sacos de plástico para apanhar os cagalhões que ia deixando pelo caminho e passeá-los pela cidade até encontrar um caixote do lixo.
Mas tinha de preparar o pequeno-almoço para os miúdos enquanto a mãe fazia a sua aula de yoga. E depois tomar o pequeno-almoço com eles, entre os seus gritos histéricos e pedaços de torrada a voarem pela cozinha.
Mas tinha de ir lavar o carro que a família gostava de se passear no Audi limpo como se tivesse acabado de sair do stand, como novo, mesmo que ainda não estivesse pago.
Mas tinha de ir à Praça comprar peixe fresco, porque ao Sábado era dia de almoçar peixe fresco. E devia ter ido mais cedo, eu sei. Àquela hora já ia aos restos, mas não conseguia levantar-me mais cedo. Estava cansado. Não queria levantar-me. Não queria sair da cama.
Mas tinha de ir fazer as brasas. Para grelhar no carvão o peixe fresco comprado tardiamente na Praça. Sardinhas. Carapaus. Peixe-Espada. Robalos. Douradas. Às vezes também grelhava carne. Umas lentriscas. Uma morcela. Mas pouco, porque ela não gostava muito de morcela.
Até um dia.
Um dia arranjei uma pistola através de um antigo colega de tropa. Uma pistola e umas balas.
E foi durante o momento em que estava a assar os pimentos. Eram verdes e vermelhos. Não gosto muito dos amarelos. Embora a cor fique bem na salada. Estava a assar uns pimentos e antes de assar as sardinhas. Peguei na pistola, rápido e, sem pensar, disparei na cabeça. E tudo se fez negro.
Não morri.
A bala entrou e saiu. Provocou umas lesões graves que me afectaram o corpo e a vida. Mas não morri.
Estou na cama. É Sábado e estou na cama. Já não tenho de me levantar. Mas queria. Queria poder levantar-me e fazer coisas que não consigo como passear o cão e comprar o jornal. Talvez assar umas sardinhas.
Estou na cama e tenho o cão deitado sobre os meus pés. Mas não o sinto. Não sinto nada. Nem as papas que ela se esforça por me enfiar na boca à espera que escorram pela goela.
Sei que ela começa a ficar farta de mim. Tenho pena das coisas terem terminado assim. Para ela e para mim.
Hoje é Sábado e estou na cama. Mas queria não estar.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/14]

Vinho & Cigarros

Acabei com o Murganheira Tinto 2017 que alguém deixou cá por casa não sei quando. Tirei a rolha de borracha, cheirei-o, não me cheirou grande coisa, mas não estava azedo e ainda deu três copos não muito cheios.
Este vinho, li na garrafa, é um DOP Távora-Varosa. Não sei onde fica esta região. Talvez lá para o norte. Talvez perto do Douro. Perto do Dão. Mas não sei. Ponho-me a adivinhar.
Bebi os três copos que ainda restavam na companhia de três cigarros. O casamento perfeito. Um cigarro por copo. Mas tive de beber devagar. Para o cigarro não ficar sozinho. Ainda espreitei um resto de queijo que também tinha ficado por aqui. Comecei a tirar o bolor e acabou por não ficar nada do queijo. Tive de lavar as mãos com detergente da louça para tirar o cheiro a bolor que ficou entranhado nas mãos.
Fui para a janela beber e fumar. Fui para a janela olhar para a rua. A rua estava cheia de gente a pé. Muitas crianças com mochilas às costas. A escola já deve ter começado. Muitas crianças com as mães. De mãos dadas com as mães a caminhar pelos passeios paralelos à estrada por onde passam tantos camiões. Às vezes os camiões passam por ai a grande velocidade, como se a rua não fosse uma rua mas uma estrada. As mães e as crianças a entrar e a sair das lojas. Loja de roupa para crianças. Papelaria. Loja de chineses. Há muita gente a comprar material escolar nos chineses. Que importa que o material seja mau? Que importa que tudo aquilo provoque comichão nas mãos e pieira nos pulmões? Que importa que sejam crianças, que deviam também estar na escola, a fazer baixar os preços pela sua força de trabalho barata? É mais barata, ponto. As pessoas não têm dinheiro para tudo. É por isso que vou bebendo estes vinhos esquecidos cá por casa. Não há dinheiro para mais. Eu também preferia um Mouchão.
Via as mães a saírem pelas portas das lojas com as criancinhas pela mão. Vi uma a sair da mercearia com a criança a comer um sorvete, daqueles das máquinas, que ficam todos esticados para cima, como uma crista, e imaginei um camião cheio de coisas que nem sei o que são, a descontrolar-se e a passar por cima da mãe, da criancinha e do sorvete, deitar abaixo a parede da mercearia e destruir tudo até ser finalmente parado por uma parede-mestra, mais dura de roer e mais difícil de deitar abaixo. Imaginei o fogo que se seguia. Os feridos. Os mortos. A mãe e a criancinha esmagados contra a parede da mercearia. O gelado derretido no chão. A polícia a chegar. Os bombeiros, que tiveram de ser desviados do combate a um incêndio no Pinhal do Rei, aqui à volta da cidade, para tentar salvar algumas das vítimas desta decisão de não fazer os camiões passarem por fora da localidade.
Mas era tudo só um filme. A imaginação galopante por trás dos três copos de vinho tinto Murganheira de 2017.
Na realidade um tipo em cima de uma Lambreta tinha acabado de puxar a bolsa a uma mulher grávida, gravidíssima, com uma barriga enorme, que com o puxão acabou por cair no passeio e rebolar para a estrada no preciso momento em que passava um carro da polícia que fez uma travagem brusca, um dos agentes saiu do carro ainda em andamento para acudir à mulher, mas logo voltou a entrar no carro, confirmado que estava que a mulher sobreviveria, e depressa arrancou atrás da Lambreta que já tinha virado numa rua perpendicular lá mais à frente, com as sirenes a soprarem forte e as luzes azuis e vermelhas a girarem e a baterem nas paredes sujas dos prédio em redor, o meu incluído.
Depois vim para dentro de casa. Já não tinha vinho. Nem cigarros. Deixei aquelas pessoas seguirem com as suas vidas e eu imaginei o meu final. Só para mim. Mas não o vou contar. Pelo menos enquanto não tiver mais vinho e cigarros.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/12]

A Fotografia de Joana Gil

Deram-me um prémio. Uma fotografia. Uma fotografia de um trabalho nota vinte.
Uma mão entregou-me a fotografia na mão. A mão agarrou a fotografia mas os olhos é que viram a nota vinte.
Um primeiro olhar. Um cacifo. Um recanto íntimo de memórias guardadas. As meias com cheiro a chulé; a camisola transpirada; as botas Doc Martens cheias de óleo; umas luvas de borracha; outras luvas de borracha mas guardadas dentro de uma embalagem de plástico inviolável, que o tempo escureceu, mas preservou; uma caneta Bic Cristal Azul; outra caneta Bic Laranja de escrita fina preta; um maço de cigarros CT vazio, um pouco amarfanhado; uma boina basca; um capacete de protecção amarelo; uma embalagem de graxa preta; várias embalagens de preservativos, algumas delas abertas e vazias; um preservativo usado, com um nó na ponta, preservado nos seus restos – um horror!; um recorte de jornal com a imagem da Gina Lollobrigida; um pente de plástico com alguns dentes partidos; uma caixa com brilhantina; um canivete com cabo de madeira e lâmina cega; umas moedas de cinco escudos – quanto valeria isto no tempo em que valia? e hoje, quanto vale isto que já não vale?; uma bola insuflável, azul, vazia, da Nívea – queria levá-la para a praia e jogar com o vizinho anónimo da barraca do lado; um cinto de couro claro com uma fivela com um s estilizado – um cinto da Mocidade Portuguesa perdido num mundo comunista, a ironia da vida; um número da Crónica Feminina – o que raio fazia isto lá?; um exemplar d’A Batalha; uma garrafa de vidro, vazia, da Sagres, com uma aranha a viver no seu interior; uma Nossa Senhora de Fátima luminosa; uma cautela perdedora; um boletim do Totobola; uma vela de aniversário com um três numérico desenhado a cores na haste da vela; uma canção do António Calvário que se adivinha; ou do Zeca Afonso; uma pastilha May, bolorenta, embrulhada num cromo de papel com a imagem do Vítor Baptista equipado com o vermelho e com um brinco na orelha; um cartão de sócio do Benfica com o nome rasurado e a cota de 19… é difícil de perceber de quando.
Suspiro. Respiro.
Um segundo olhar. O cacifo amarelo de um operário-anónimo. O cacifo amarelo de um operário-metalúrgico da Lisnave. O cacifo de um constructor de barcos que vê o seu suor transformado em espelho-de-água para os sultões da finança se babarem com Lisboa viva na menina-dos-olhos. Um cacifo amarelo vazio ao lado de outros indistintos cacifos amarelos vazios, sujos, depósitos de memórias numeradas mas que não consigo identificar. Um cacifo amarelo onde estão coladas fotografias de mulheres nuas em poses eróticas. Desejáveis. E vejo o operário-metalúrgico que já esteve em construção, a masturbar-se sobre estas mulheres-fotografia que saíram do passado para o meu presente.
Está calor. Transpiro. Um pingo de suor tomba sobre as fotografias das mulheres-fotografia na fotografia premiado que a mão colocou na minha.
Não limpo. Não seco. Deixo escorregar. Até cair do papel mate que transporta até mim essa memória.
A fotografia é da Joana Gil. E eu sinto-me agradecido pelo que a fotografia me dá.
Sento-me no sofá e espero que me tragam também à mão um copo de vinho enquanto continuo a contabilizar o que o cacifo amarelo continha lá dentro: uma caixa de fósforos; um bloco de papel com linhas; um mata-borrão – e para que é que servia, ao operário, o mata-borrão?; uma régua de plástico incolor com 25 centímetros; uma primeira página, rasgada, de A Bola; uma caixinha de pó-de-arroz vazia e um espelho redondo quebrado; uma sapatilha da Edmar, número 40, mas solitária, sem par; uns calções de banho azuis escuros; uma caixinha para isco de pesca mas sem isco; uma embalagem de rebuçados Dr. Bayard, todos colados uns aos outros; um coração tosco desenhado com batom vermelho num guardanapo de papel. E percebi que o operário também foi amado.
A fotografia cai-me das mãos. E sinto-me adormecer até deixar de sentir o que quer que fosse porque já devo estar a dormir. E ninguém me traz copo de vinho.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/09]

Um Tipo Peculiar num Dia de Chuva

Chove.
Corro para a rua. Aproveito para tomar banho. Vou nu com umas havaianas nos pés. Um pedaço de sabão azul nas mãos. Mas é difícil de tirar o sabão azul do corpo e ainda mais do cabelo. A chuva não tem grande pressão.
Esfrego-me.
Entro em casa. Levo a chuva comigo e vou deixando-a pela cozinha, pelo corredor, pelo quarto. Seco-me e deixo a casa tratar de deixar infiltrar para a cave a chuva que entrou comigo.
Visto umas cuecas.
Preciso de um cigarro. Procuro em todo o lado e não encontro.
Saio para a rua. Desço à estrada. Caminho ao longo da estrada à procura de alguém que me arranje um cigarro.
Um carro. Passa ao lado e acelera.
Outro. Ponho-me à frente do carro. No meio da estrada. Forço-o a parar. Ele pára. Peço um cigarro, assim Olhe, se faz favor, não me arranja um cigarro?, enquanto levo dois dedos à boca num gesto de fumar. O tipo olha-me. Dá-me um maço para as mãos e diz Vai-te vestir, pá. E percebo que estou em cuecas e de havaianas. Agradeço o maço de cigarros. O carro arranca. Aceno um adeus. Levo um cigarro à boca e percebo que não tenho lume.
Ouço uma buzina atrás de mim. Viro-me. É uma camioneta. Uma camioneta de carreira. Afasto-me. A camioneta avança até ao pé de mim. Abre-se a porta. Ouço o sistema hidráulico da porta a abrir. O motorista pergunta se preciso de alguma coisa. Mostro o cigarro apagado na boca. Ele leva a mão ao bolso das calças. Agarra num isqueiro Bic vermelho e manda-mo. Sorri para mim. Agradeço com outro sorriso. Fecham-se as portas da camioneta. Ela arranca. Fico aqui a acenar um adeus e vejo, dentro da camioneta, as caras que passam por mim a rir. Vão felizes, os petizes.
Estou parado. Sozinho. Na estrada. Não passam carros. Nem motorizadas. Nem bicicletas. Nem pessoas a pé. Há silêncio. Um pouco de vento. Estou com frio.
O que é que estou a fazer aqui?, pergunto-me em silêncio enquanto fumo o cigarro.
Volto a perceber que estou em cuecas e de havaianas no meio da estrada. Olho em volta e não há ninguém. Tenho um maço de cigarros e um isqueiro na mão. Subo a casa.
Começa a chover outra vez.
Corro. Não me quero molhar.
Entro em casa.
Tenho fome. Apetece-me panquecas. Descubro o cigarro aceso na mão. Largo-o no chão. Piso-o com as havaianas. O que é que eu preciso? Talvez leite. Farinha. Ovos. Uma frigideira. Acho que tenho tudo.
Largo o maço de cigarros e o isqueiro na mesa da cozinha e páro. O que é que eu ia fazer?
Estou com fome. E frio. Vou vestir-me.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/23]

A Picada

Sentia o vento correr de uma janela à outra e levantar-me os cabelos que, por vezes, me tapavam os olhos.
Percorria Trás-os-Montes. Estava numa zona árida. Rochosa. Quente. Solitária. Uma paisagem lunar. Não via ninguém há que tempos. Nem me lembrava do último carro com que me tinha cruzado. Nem uma vaca. Nem uma ovelha. Só aridez. Calor. Talvez houvesse um sardão, mas não me recordo de o ter visto.
Conduzia um Hyundai. Sem ar condicionado. Nem vidros eléctricos. Nem fecho centralizado de portas. Um carro analógico. Mas tinha rádio. Levava por companhia uma qualquer música popular portuguesa. Esticara-me por cima do banco do lado e abri o outro vidro.
O cotovelo pousado na janela aberta. A mão esquerda no volante. A mão direita no manipulo das mudanças. Nos dedos um cigarro a fumegar. Na rádio uma pimbalhada. À frente os quilómetros por fazer. Uma recta sem fim. Um horizonte que fugia cada vez que me aproximava. O céu azul, de um azul eléctrico. Dois farrapos de nuvem. O sol difuso, com uma argola brilhante em toda a volta, aumentando-o ainda mais. Estava sozinho no mundo. Eu, o cigarro na mão e a música na rádio. Depois lembrei-me que também ouvia o motor do carro. Sim, não conseguia escapar-lhe. Parecia um motor de rega.
Mandei a beata janela fora. Tinha sede. Precisava de um café.
De repente uma picada. Uma picada no pescoço. Uma picada que quase me paralisou. Uma picada atrás, no pescoço.
Guinei o volante para a esquerda. Travei. Reduzi as mudanças. Continuei a travar. Parei. Travão de mão. Chave. Carro desligado. E uma dor do caralho.
Saí do carro. O sol queimava. O asfalto parecia borbulhar. Dei a volta ao carro e fui para a berma. Para cima de uma rocha. Uma rocha a ferver. Eu transpirava. Doía-me o pescoço. Não o pescoço todo. No sítio onde senti a picada. Começou a inchar. Fui olhar no espelho retrovisor. Não via nada, era atrás. Mas sentia já uma batata a crescer.
Teria sido uma abelha? Uma vespa? Uma vespa asiática?
Sentei-me numa rocha e senti o rabo a aquecer. Tinha sede. Doía-me o pescoço. Estava a ficar sonolento. Devia ir para o carro. Devia pôr o carro a trabalhar. Devia arrancar. Devia procurar uma casa. Uma terra. Um hospital.
Vi o carro a afastar-se de mim. Não estava a ir embora, estava só a afastar-se. Como se o espaço entre nós estivesse a aumentar. O sol descia sobre a Terra. Sobre mim. Senti o coração disparar. Tive medo. Transpirava. Transpirava de calor e de medo.
Queria levantar-me, mas não conseguia. Comecei a arrastar-me. Parti as unhas a tentar ferrá-las na rocha para me puxar. Fiz sangue nos dedos. Comi o pó da berma da estrada. Cheguei ao carro. Invoquei todas as minhas forças para agarrar o manipulo do carro. Abrir a porta. Entrar. O coração parecia saltar do peito. As suas batidas feriam-me os ouvidos. Não conseguia mexer o pescoço. Estava muito inchado.
Estiquei-me. Forcei o meu corpo a esticar-se. Mais e mais. Como se fosse elástico. Estava quase a chegar ao manípulo.
E o sol tombou sobre a Terra. Sobre a minha cabeça. Tudo ficou vermelho. Depois amarelo. Finalmente ficou tudo branco. Branco e vazio.
E é onde eu estou agora. Num espaço branco. Asséptico. Vazio. Silencioso. Não sei onde estou. Não sei como estou. Estou aqui.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/19]