Só Vemos o que Queremos Ver e Quando o Queremos Ver

Ela aproveitava todas as situações para me expôr ao ridículo. Nada de muito grave. Pequenas coisas que dizia ou fazia em frente às outras pessoas e que me deixavam um pouco desconfortável. Acho que nem fazia por mal. Ela era assim. Acho que era assim quando eu a conheci. Só que naquela altura não via as coisas que não me interessavam ver. Só lhe via o belo cabelo louro, de caracóis soltos. Os lábios carnudos. E os seios. Ah, os seios dela! Naquela altura era o que eu via. E as conversas! Quando me disse que o escritor que mais gostava de ler era o Philip Roth. Que o pintor que mais admirava era o Rothko. Que a música onde mais se refugiava era a do Nick Cave. Principalmente da última fase, mais negra e melancólica. Quem se põe a ver os erros de quem apresenta tantos, e tão bons, cartões de visita?
Depois comecei a notá-los. Os pequenos toques bravios. Por vezes até, um pouco cínicos. Maldosos, mesmo. Limpava-me a caspa dos ombros. E eu nem tenho caspa. Raspava a aba do meu casaco com a unha grande e pintada de vermelho sangue, como se eu tivesse algum resto de comida. Ou esfregava com o polegar os meus lábios, como se estivesse a limpar o batom do beijo que, afinal, e mais lá para o fim, não me tinha dado.
Disse várias vezes Estás a ficar com entradas. Estás a ficar careca. Tens de começar a ir ao ginásio. No princípio essas coisas não me faziam mossa. Pensava sempre que era para mostrar aos meus amigos que se interessava por mim. Que cuidava de mim. Que ficassem descansados que ela tratava bem de mim.
Depois, lá mais para o fim, era já o descaramento. O agarrar-me a mão ostensivamente, em frente de quem quer que fosse, como se eu fugisse de lhe dar a mão, e depois, em casa, já mal trocávamos duas palavras. Foi um altura em que passava muito tempo agarrada ao telemóvel. Não sei a fazer o quê. Também nunca quis saber. Acho que são coisas pessoais e assim devem ficar. Mas incomodava-me vê-la sorrir agarrada ao telemóvel. A comunicar com sei-lá-quem.
Até um dia.
Foi numa festa. Farto de confusão e zangado com o rumo que a minha vida estava a levar com ela, resolvi ir-me embora. Abeirei-me dela e segredei-lhe Vou-me embora. Ela disse Fico mais um pouco. Eu acenei Sim, fica. E depois, num tom um pouco mais alto disse-lhe Tens o vestido sujo atrás. Parece sangue. Ela ruborizou. Olhou em volta. Saiu a correr da festa e deixei de a ver. Deve ter ido para a casa-de-banho. Eu fui embora.
Em casa, fiz-lhe as malas e pu-las à porta. No lado de fora.
Deixei a minha chave na fechadura. Desliguei a campainha. Tomei um Zolpidem. E fui deitar-me.
No dia seguinte as malas dela já não estava à entrada de casa. Nunca mais a vi.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/22]

Cristina Ferreira

Hoje acordei e era a Cristina Ferreira.
Não me assustei.
A primeira coisa que fiz foi olhar dentro dos lençóis. Costumo dormir nu. Ela também. Toquei-me. Nas mamas. Nas ancas. Nas coxas. Foda-se! Sou mesmo boa.
Senti-me feliz. Pela primeira vez desde há muito tempo, sentia-me feliz. Empurrei os lençóis para os pés da cama. Levantei-me nua da cama. Olhei para o espelho grande. Gostei de me ver. É estranho ver-me no feminino. Mas ao mesmo tempo, não desgostei. É o que eu sou agora. Uma mulher. Uma mulher gira. Boa. Sexy. E cheia de sucesso.
Primeira preocupação. O que fazer? Telefonei para a SIC. Avisei que estava derreada dos Globos de Ouro, afinal a gala tinha sido eu, e que chamassem o Cláudio Ramos para fazer o Programa da Cristina.
Eu tinha um dia para viver.
Tomei um duche morno e gostei de passar gel pelo corpo. Vesti uma roupa simples. Um vestido leve e esvoaçante que uma antiga namorada por cá tinha deixado. Gostei de me sentir dentro do vestido e do fresco que me subia pela pernas acima. Calcei uns chinelos de salto alto. Eu não me saberia equilibrar naquilo. Já ela!… Observei as pernas. As pernas em cima dos saltos. Sou muito bem desenhada.
Saí de casa e fui ao café aqui da rua. Senti em mim o olhar dos homens. E das mulheres. Pela primeira vez na vida não era uma pessoa ignorada. Agora olhavam cada pedaço do meu corpo. Os passos que dava. O esvoaçar do cabelo solto e caído sobre os ombros. Os meus olhos brilhantes. O gloss nos lábios. O sorriso maroto.
Pedi um croissant folhado e uma bica. Pensei se um croissant faria bem a este corpo, mas depois pensei que, na realidade, não era meu. Comi o croissant folhado. Bebi a bica. A rapariga do café não quis receber. Disse que era por conta da casa e sorriu-me muito. Acho que me piscou o olho, mas pode ter sido só um tique.
Passeei-me pela cidade. As buzinas andavam activas. Ouvi algumas travagens bruscas. Chapa a bater em chapa. Oh, boa!, ouvi eu gritar lá do fundo e aposto que era para mim.
Entrei no quiosque onde nunca entro e comprei todas as revistas sociais que encontrei. Não paguei nenhuma. O rapaz pediu-me para referir o quiosque lá no programa. E eu disse Está bem!
Cruzei-me na rua com o presidente da câmara. Há muito tempo que não o via a pé pela cidade. Mirou-me de alto a baixo. Malandro! Parei numa montra e vi toda a gente do outro lado da rua a olhar para mim.
Entrei numa livraria e comprei uma edição de Os Maias. Ofereceram-ma em troca de uma fotografia com as meninas da loja. Mais tarde vi a fotografia na montra. Devia ter trazido mais livros.
Sentei-me numa esplanada da Praça e dei uma vista de olhos pelas revistas. Nada de especial. Mexericos. Deixei-as em cima da mesa.
Apanhei um táxi e fui até São Pedro de Moel. O taxista não quis receber. E esperou que eu quisesse regressar. Estava nevoeiro. Não fui ao mar. Mas tive pena. Gostava de ter mergulhado em São Pedro de Moel só de fio dental. Contentei-me em molhar os pés. Reparei nas unhas pintadas de vermelho-sangue. Gostei de ver os meus pés a enterrarem-se na areia molhada.
Não comprei pevides nem tremoços que a senhora não estava lá. Regressei. Dei mais uma volta a pé pela cidade. Entrei em boutiques mas não comprei nada. Quiseram oferecer-me coisas. Alguns homens vieram ter comigo. Prometeram-me a Lua. Eu ri-me. Conhecia alguns deles. Homens de família. Com filhos. Com responsabilidades na cidade. Com a língua de fora a salivar. Como cães. Cães com cio. Fartei-me de rir. Parvalhões.
No final do dia fui jantar ao Salvador. Chamaram-me Catarina e trataram-me muito bem. Também quiseram uma fotografia. Acedi. Depois voltei para casa. Sentia-me cansada. Não era fácil ser a Cristina Ferreira.
Quando entrei em casa fiquei apreensiva. Depois de dormir como acordaria? Seria eu? Ou seria ela?
Fui para a cama. Por via das dúvidas, despedi-me da Cristina. Masturbei-me, em jeito de adeus. Gozei a pensar em mim, a pensar nela, a pensar em tudo aquilo que me tinha acontecido.
Agora estou à espera que o sono me leve. Amanhã, logo se vê.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/30]

Entre o Cheiro do Sexo e o Sabor do Gelado

Ela perguntou-me Costumas fazer sexo?, e eu respondi Sim!
Depois ainda perguntou Com regularidade? E eu pensei um bocadinho, um bocadinho mais do que devia ter pensado, e respondi Sim! Para aí uma vez por semana.
Vi o sorriso na cara dela. Não era um sorriso sarcástico. Nem maldoso. Era o sorriso de quem sabe que está a ouvir uma mentira.
Ela colocou o dedo indicador no meu peito e foi descendo, arranhando-me com a unha grande, e pintada de vermelho-sangue, até ao meu umbigo e depois andou ali à volta dele, a deixar-me vergões de sangue. E disse Agora já não tenho tempo, senão voltávamos a tentar.
Ela levantou-se. Vestiu-se. E eu vi-a nua. E vi-a a vestir-se. Uma peça de cada vez. Uma peça de cada vez a cobrir as partes nuas. De cada vez ela era uma mulher nova. Outra. E gostei de ver o que estava a ver. Agora sem pressões. Só desejo.
Já vestida, olhou para mim, sorriu, e exclamou Agora?!
Debruçou-se sobre mim. Deu-me um beijo nos lábios e sussurrou-me Ciao.
Eu fiquei lá deitado. Naquela cama desfeita. Nu. Nu e de pau feito. Um pau feito com atraso. Foda-se!, pensei. Foda-se! Foda-se! Foda-se!
O quarto estava em silêncio, mas eu ouvia a respiração dela. A respiração dela, suave, junto ao ouvido. Os pequenos gemidos que terminaram bruscamente. Nem sei se começaram realmente a ser gemidos ou se eu os imaginei na minha ânsia de boa performance.
Eu estava sozinho no quarto, mas ainda sentia a presença dela. Ao meu lado. Por baixo de mim. Por cima de mim. Carinhosa. Esperançada. Depois frustrada. E terminou compreensiva.
Levantei-me. Olhei pela janela. Olhei para a rua através da janela. A minha vizinha do lado sentada no muro a comer um gelado. Vesti-me. Não tomei banho. Quis-me com cheiro. Com o cheiro dela. Saí de casa. Fui ter com a minha vizinha. Ela estava a comer um gelado de copo. Encostei-me ao muro. Ao lado dela. Ela disse Cheiras mal. Depois deu-me um bocado de gelado numa pequena colher de plástico colorido. Gostei do gelado. Era de pralinê. Acabei por me sentar no muro. Ficámos os dois lá sentados. E eu ajudei-a a acabar com o gelado.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/20]

Ainda Aqui Estou…

À minha frente, lá para os lados do mar, onde o dia morre, o Sol estava encarnado. Vivo. Encarnado vivo. O céu, à volta, estava cor-de-rosa.
Mas não era um encarnado vivo e um cor-de-rosa daqueles que antecipa um dia seguinte de pleno Verão.
O encarnado do Sol era mesmo vermelho. Um vermelho sangue.
Eu ouvia um barulho. Não sabia bem que barulho. Era assim uma coisa metálica que entrava pelos ouvidos mas ficava na cabeça. Não saía. Era assim como as televisões quando não estão sintonizadas. Aquela estática, como chuva miudinha. Tzzzzzzzzzzzz. Uma coisa assim. Só que não ia embora.
Pensei que tinha ficado com água nos ouvidos no banho. Ou que era cansaço. Sentia-me cansado. Sentia-me com se tivesse acabado de correr a maratona. Acabei por pegar num cigarro. Para relaxar. E relaxei. Fumei o cigarro enquanto via aquela toranja fixa no céu, lá ao fundo. Como se estivesse a olhar para mim. Um olho pineal.
E foi então que aconteceu.
Primeiro foram os pássaros. Começaram a cair do céu. Como pedras. Não sei se estavam mortos. Não me aproximei de nenhum. Mas pareciam. Provavelmente estavam. Pareciam tiros, ao cair. Entravam em mim, por cima daquele barulho que já lá estava, mais baixo mas persistente.
Depois foram os cães e os gatos. Eu vi o cão cá de casa meter o rabo entre as pernas, entrar na casota e ficar de costas para a entrada. Ele que dava mil-e-uma voltas antes de deitar-se com o focinho virado para a rua. E o gato enfiou-se atrás do sofá. Nunca mais o vi.
Em seguida foi-se a energia. Todos os aparelhos eléctricos aqui de casa perderam a luzinha encarnada de stand-by. Vi dois carros a pararem lá em baixo, na estrada. Lá ao fundo, nas montanhas, caiu uma avioneta. Em silêncio. A queda em silêncio. Só se ouviu a explosão do choque. Quando caiu na terra. E explodiu.
A ventoinha de vento que tenho aqui no quintal, parou de girar. Não havia uma aragem.
Ouvia os homens dos carros, lá ao fundo na estrada, a perguntarem o que é que se estava a passar. Não se ouvia mais som nenhum. Parecia que estávamos sozinhos no mundo.
Finalmente aquele sol encarnado pôs-se, lá no horizonte. O cor-de-rosa deu lugar ao negro. Nunca tinha visto uma noite assim. Não se via nada. Nem as estrelas. Nem as minhas mãos. Nem a ponta do meu nariz. Fiquei quieto. Não me mexi. Fiquei à espera. Não sabia do quê. Mas fiquei à espera.
Aos poucos comecei a ver contornos. Contornos de mim. Depois contornos das coisas. Era como um desenho bidimensional feito em negativo, riscando branco sobre uma folha preta. Era assim que estava o mundo.
Os homens dos carros lá do fundo começaram a subir a ladeira para vir ter comigo. Estavam assustados. Como eu.
E foi então que o preto se tornou branco. E, novamente não via nada. Não via as minhas mãos. Não via a ponta do meu nariz. Só via branco. Como se tivesse mergulhado num copo de leite, só que de ar.
Deixei de ouvir os homens.
Sentei-me no chão debaixo de mim. Cruzei as pernas. Fiquei em posição de lótus. À espera. À espera de qualquer coisa.

Ainda aqui estou.

Não sei há quanto tempo aqui estou, mas ainda aqui estou.

Ainda.

Ainda…

[escrito directamente no facebook em 2018/09/17]