Dia de Eleições

É dia de eleições.
Acordo ainda de noite. Acordo com o cantar do galo. É madrugada escura. Levanto-me e ponho café a fazer. Enquanto o cheiro a café fresco inunda a cozinha, vejo, pela janela, os contornos das montanhas que o sol, do outro lado, começa a fazer clarear.
Tenho tempo e opto por um banho de imersão. Há quanto tempo não o faço?
Enquanto encho a banheira de água quente, faço a barba. Quando me olho ao espelho não me reconheço. Rapei a barba. Desde os dezoito anos que trazia sempre uma pequena penugem. Hoje foi tudo abaixo. Pareço mais novo. Sinto-me mais feio. Não me pareço. Quem sou eu?
Entro na banheira. A água está quente, mas insisto. Entro aos poucos. Devagar. Vejo as pernas a ficarem encarnadas. Grito quando os testículos se queimam. Tenho comichão no rabo. Coço. Mas deixo-me ir. Finalmente estou deitado na banheira, coberto de água quente, e sinto-me bem. Sinto-me confortável. Descontraio. Fecho os olhos. Adormeço.
Acordo com frio. É já de dia. Deixei-me adormecer. A água na banheira está fria. Abro o ralo e deixo-a escorrer. Ligo o duche e tomo um banho rápido de água quente.
Seco-me. Visto uns boxers e uma camisola de alças e vou beber café. Está frio. Aqueço-o no micro-ondas. Torro uma fatia de pão saloio. Barro-lhe manteiga. Como e bebo.
Penso no que vestir. E decido pelo fato. Há anos que não o visto. Comprei-o para um casamento. Os noivos já se divorciaram e eu nunca mais vesti o fato. Mas vou vesti-lo hoje. Agora. Primeiro passo pela casa-de-banho e lavo os dentes.
Ponho uma camisa branca sobre a camisola de alças. Visto as calças. Ponho o cinto de cabedal. Calço os sapatos também de cabedal. Ainda me servem. Mas sinto os pés apertados. Ponho gravata. Casaco. Relógio no pulso. Carteira com os documentos e vinte euros no bolso das calças. Coloco os óculos escuros e saio de casa. Acendo um cigarro.
Está sol. Calor. Mas tenho de ir a pé. Desço o quintal. Viro à esquerda e faço a estrada até ao centro da aldeia. Entro no café. Peço uma Aldeia Velha. Viro-a de um trago. Largo uma moeda no balcão. Saio e dirijo-me à escola primária. Agora chama-se primeiro ciclo. O que importa são os nomes. Também tenho o meu. E preciso dele para descobrir onde votar. Não há muito por onde procurar. Três mesas de voto.
Entro na sala. Dou o cartão de cidadão. Dizem alto o meu nome e sinto alguma vergonha. Baixo os olhos para o chão. Quero passar despercebido. Mas sinto que errei ao vestir o fato. Sou o único de fato a votar. Coloco a cruz no sítio que me parece o certo. Sinto-me livre no meu dever que também é o meu direito. Dobro-o duas vezes. Coloco-o na urna.
Saio da sala. Acendo outro cigarro. Está calor. Sinto umas gotas de transpiração a cair pelas têmporas. A gravata enforca-me.
Vejo as horas. Meio-dia. Olho a carteira. Descubro os vinte euros. Decido ir almoçar um bitoque ao snack-bar. Um bitoque e uma imperial. Um pão para molhar no ovo a cavalo. O bife do bitoque será fino e rijo. Irei deslocar o pulso ao tentar cortar o bife. Irei partir um dente ao trincar um bocado de gordura. Irei deixar cair um pingo de cerveja na camisa branca e um bocado de amarelo do ovo sobre a gravata. Irei pensar no motivo de nunca usar gravatas. Irei beber um café queimado. Uma aguardente manhosa que me irá fazer azia. E irei pensar que teria feito melhor ter ido para casa, fritado umas salsichas, torrado um pão de véspera e comido um cachorro com mostarda, acompanhado pelo vinho tinto da cooperativa e bebido o café da avó feito de manhãzinha.
Coloco as mãos nos bolsos. E vou até ao snack-bar. Está a apetecer-me um bitoque, por mais ranhoso que seja. Com um pouco de sorte há azeitonas de entrada. E dias não são dias. E hoje é dia de eleições.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/06]

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Quem É que Está Aí?

Sinto a porta da rua a abrir. Deve ser ela, penso. Está de regresso, finalmente. Já era tempo, não?
Aproveitei a vergonha do sol para arrumar a lenha que me vieram trazer a casa. Não estava muito calor. Chuviscou um pouco. Peguei no carrinho-de-mão e andei, para cima e para baixo, a acartar a lenha para debaixo do telheiro. Amealhar para o Inverno. Enquanto ainda nos deixam queimar madeira para nos aquecermos.
Ia no segundo carrinho quando o sol despertou e veio na companhia do calor. Custou-me carregar o resto da lenha. Não sei quantas viagens fiz com o carrinho-de-mão. Mas ganhei umas bolhas nas mãos. Despertei a minha alergia ao calor e tive de tomar um Zyrtec. Demorou a fazer efeito.
Enquanto acartava a lenha para o telheiro pensei na conversa que tinha tido com ela no dia anterior. A conversa que azedou e acabou por me deixar sozinho em casa.
Eu só tinha dito que a culpa era dela. Não dela, dela, especificamente. Mas de todas as elas e eles e nós. Eu! Eu também me incluía na culpa mas, na conversa, tinha-me saído um dela por força das circunstâncias. Estávamos a discutir e era eu contra ela. E ela levou com a culpa. Mas a culpa não era só dela. Mas também. Eu só disse A culpa é tua. E ela, admirada, quase escandalizada, perguntou Minha? Minha como? e eu respondi-lhe Porque votaste neles. E ela ficou ali assim, admirada, de boca aberta, a olhar para mim.
O sol já tinha despertado. Abrira as portas ao calor. A transpiração corria-me corpo abaixo. E eu pensava no que ela me tinha dito.
Mas eu sou só um voto e votei para protestar. Não significa mais que isso. Um protesto que não tem poder nenhum. Um voto. O que é que isto significa? Nada! Não significa nada! Mas significava. Tanto significava que eles tinham chegado ao poder. Todos os votos unitários contados um-a-um conseguiu elegê-los. Com maioria absoluta. E estavam a transformar tudo. A vida como nós tínhamos aprendido a viver. Tudo transformado em nome da eficiência. Em nome do futuro. Mas qual futuro? Era tudo muito obscuro e bizarro. Porque nem sequer é para todos. Quem pode pagar pode comprar a bula. Porque há bulas. Há sempre bulas. Há bulas para quem pode pagar. E foi isso que lhe quis explicar. Que pessoas como nós, estão sempre fodidas. Utilizam-nos e depois descartam-nos. Os outros, os que podem, os que mandam, esses podem sempre pagar para ser como eles querem. E, ironia do destino, somos sempre nós que elegemos esta gente. Era isso que eu lhe estava a explicar. E ela só me perguntou E eu sou a culpada pela merda de vida que agora temos? E eu nem precisei de lhe responder. Olhei para ela. Um olhar parvo e cínico, admito. Só olhei para ela. E ela viu a resposta no meu olhar.
Já estava cansado quando fiz a última viagem até ao telheiro com o resto da lenha. E parecia que tudo aquilo era só para me chatear. Na minha última viagem o sol despediu-se. O céu cobriu-se de negro, trouxe de volta um pouco de frio e um bocadinho de chuva. Pensei Ao menos a lenha não fica molhada.
Parei debaixo do telheiro a olhar para a pilha de lenha. Arrumei o carrinho-de-mão. Observei a chuva e voltei a pensar na conversa que tinha tido com ela.
Mas já não houve conversa. Ela ficou zangada comigo. Levantou-se do sofá e saiu de casa. Ouvi o carro a descer a alameda e a sair o portão. Onde andaria?, pensei.
Afinal está aqui, de regresso a casa. Afinal a conversa era estúpida. Não era caso para tanto. Claro que ela era culpada. Ela como eu. Mas não precisava de ficar zangada comigo e sair porta fora. E pergunto alto És tu?, mas ninguém me responde. Nem ouço barulho. Não me chega o cheiro dela. Não lhe ouço a respiração. Nem lhe sinto os passos. Quem será? Quem é que está aí?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/18]

Uma Cama de Corpo-e-Meio

Todas as Quartas-feiras eu ia ter a casa dela. Ia logo de manhã, depois dos pais terem saído para o trabalho e a irmã ter ido para a escola. Em dias de chuva ou de sol, lá estava eu a tocar à campainha na forma de um código de toques, para ela saber que era eu e, se os pais e a irmã já tivessem saído de casa, ela dizia Sobe, babe! pelo intercomunicador e só depois abria a porta da rua. Nunca foi diferente. Os pais, ou a irmã, nunca, por uma vez que fosse, estiveram em casa numa Quarta-feira durante aquele ano.
Eu subia o elevador numa excitação tal que, nas primeiras Quartas-feiras, só com a expectativa do que se adivinhava, vinha-me antes de lá chegar. Era com enorme vergonha que a via a olhar para a mancha nas calças com que eu entrava em casa dela. Mas o desejo era maior que a vergonha.
Ela estava quase sempre de pijama. Às vezes de camisa de dormir. Mas normalmente era de pijama, naqueles pijamas de turco, amarelo, com um desenho infantil qualquer à frente, mas que já não recordo.
Pegava em mim, pela minha mão, e levava-me para o quarto que era dela. Dela e da irmã. E ficávamos lá os dois sozinhos, toda a manhã, até quase à hora do almoço, altura em que saíamos de casa dela e íamos até ao liceu almoçar e às aulas da tarde.
Às Quartas-feiras não tínhamos aulas de manhã. Era a única altura em que não tínhamos aulas, numa semana bastante preenchida de manhã até ao final da tarde. E tudo começou com um trabalho de grupo. Uma trabalho de grupo que acabou por ser a dois. Em casa dela. No quarto dela. Com ela. E tudo aconteceu. De uma forma natural. Tão natural como estas coisas podem acontecer. Uma anedota ou outra. Um sorriso. Depois um riso. Uma conversa sobre gostos, paixões, desejos. Encontros nos livros mas, principalmente, nas bandas de música. A vontade de tocar. De beijar. E, depois, depois passou a acontecer todas as Quartas-feiras.
Eu saía de casa para as aulas, só que não tinha aulas. Fazia o caminho a pé, a gerir as expectativas. Pensava naquelas três horas em que ia estar junto dela, em casa. Sozinhos. Nus. Na cama pequena dela. Na cama pequena em que tínhamos de estar muito juntos, agarrados, para nenhum de nós cair. Ou ela em cima de mim. Para cabermos os dois. E como ela gostava de estar em cima de mim! E eu gostava que ela estivesse em cima de mim. Gostava de a ver cá de baixo. O corpo dela a crescer sobre mim. Os olhos semi-cerrados. A cabeça a bailar. Os braços esticados ao céu. Às vezes, as gotas de transpiração que eu via na sua trajectória pelo corpo dela, até caírem sobre mim, sobre o meu corpo, a minha cara, a minha boca, e eu saborear todo aquele sal que o corpo dela exalava.
Isto começou a meio do primeiro período e durou até ao final do ano. Acabou quando as aulas acabaram. Cada um foi para as suas férias e, no ano seguinte, fomos parar a turmas diferentes e nunca mais tivemos uma Quarta-feira. Sim, porque a nossa relação resumia-se às Quartas-feiras. Em casa dela. No quarto dela. Na cama dela. Fora dali tínhamos uma relação quase inexistente. Não éramos namorados. Nem sequer amigos próximos. A nossa proximidade estava toda ali, naquele quarto, às Quartas-feiras.
Houve um dia em que as coisas tiveram uma narrativa diferente. Naquele dia ela levou-me para a cama dos pais. A cama estava por fazer. Era ela que a deveria fazer. Mas antes de puxar os lençóis e os cobertores, deitou-se lá em cima e puxou-me para cima dela. E invadimos a cama dos pais, ela e eu, e desfizemos ainda mais a cama. No fim fomos para a varanda fumar um cigarro, sentados no chão da varanda, a olhar para o céu azul carregado de nuvens brancas como algodão doce. Deixámos a porta da varanda aberta para arejar a cama. Depois eu ajudei-a a fazê-la. E fomos para o liceu.
Nesse dia, ao final-do-dia, quando cheguei a casa, soube que o meu pai tinha morrido num acidente automóvel. O resto do ano foi muito doloroso. As notas acabaram por se ressentir. Consegui passar de ano à tangente. Mas nunca falhei uma Quarta-feira. Não, as Quartas-feiras eram sagradas. Ainda hoje não consigo dormir em camas-de-casal. Ainda hoje durmo sozinho, numa cama de corpo-e-meio.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/31]

Na Praia do Malhão

Ela pôs-me as mãos em cima e eu senti-me logo excitado.
Estávamos na praia do Malhão. Mal chegámos à praia e tirámos a roupa eu comecei logo a sentir um certo frémito pelo corpo.
Não era só a vista dos corpos nus ali à minha volta e dos quais não conseguia desviar o olhar. Era o facto de estar livre, de me sentir solto e perceber a leve brisa fresca que vinha do mar a acompanhar o balanço que a pila levava, de um lado para o outro, à medida que íamos caminhando ao longo da praia, à procura do nosso sítio.
Encontrámos o nosso local. Era mesmo ali aquele. Afastado, mas perto. Havia gente, mas não estava à pinha. Tínhamos companhia, mas não precisávamos de ouvir a respiração de cada um deles. Cada pessoa naquela praia, tinha espaço suficiente para estar descansado. Poder deitar-se ao sol e deixar-se adormecer enquanto o sol nos trabalhava o bronze.
Uma espécie de paraíso alentejano. E tudo isso estava a contribuir para a minha excitação.
Então, quando ela colocou o factor 25 nas mãos e o começou a espalhar pelos meus ombros e costas, foi o clique.
E aqui estou eu. De costas para ela. De pau feito. A tentar esconder a minha tesão de toda a gente. Que vergonha! Quando ela acabar de colocar o creme, dou uma corrida rápida até ao mar e mergulho logo.
Qual é a equipa do Benfica para este ano? O guarda-redes é o…
Ainda me lembro quando fui pela primeira vez ao Meco. Com umas amigas. Ainda um puto um pouco mais que adolescente. E ainda me lembro de como fui logo a correr até ao mar e mergulhei vestido para esconder o volume que me crescia dentro dos calções. A água ajudou a matar aquela excitação precoce, mas tive de andar a fugir aos corpos nus que se cruzavam à minha frente. Tive de ignorar os corpos das minhas amigas. O que não deixou de ser uma tristeza. Fui ao Meco com elas, várias vezes, e nunca as vi nuas. Tinha sempre de desviar o olhar. Naquela altura tinha o sangue ainda mais quente. E qualquer coisa mínima, que lembrasse sexo, era suficiente para me excitar.
Portanto o guarda-redes do Benfica é… Este ano, é…
É agora. Vou agora ao mar.
E ela pergunta Onde é que vais? Vira-te para cá para te colocar protector no peito.
E eu digo Já venho. Tenho mesmo de mergulhar. Estou muito quente. Estou com muito calor.
Levanto-me e corro. Corro e tento esconder aquela excitação com as mãos enquanto estico as pernas pela areia quente da praia e rezo para que ninguém me veja. Chego ao mar, mergulho de imediato, nem sequer tenho tempo para pensar que a água está fria e eu quente do sol e que devo ir devagar por causa do choque térmico e…
Mergulho.
Nado. Dou umas braçadas lá para a frente. Volto para trás. Sinto as coisas mais calmas. O corpo mais tranquilo. Saio do mar. Olho-me e vejo a minha pila encolhida com o frio da água. E sinto que já estou em condições para andar ali no meio das outras pessoas.
Subo à toalha. Deito-me. De barriga para cima. Ela dá-me um beijo. Eu abro um pouco os olhos, semi-serrados pelo brilho do sol, e vejo-a nua. E sinto que estou tranquilo. Tudo estava tranquilo. E sorrio-lhe.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/11]

Decadência

Dói-me muito as costas. Aqui, aqui mesmo. Aqui mesmo ao fundo. Ao fundo das costas. Não percebo se me dói a zona muscular ou os ossos. Talvez seja ciática. Mas não sei. Não sei nada disto. Nem sei mesmo o é que me dói. Só sei que me dói aqui. E que me dói bastante. E incapacita-me.
Não consigo estar bem sentado. Tenho dificuldades em me baixar. Não consigo fazer algumas tarefas bem simples.
Tenho de me sentar para vestir os boxers. Para vestir as calças. Calçar as meias ou as sapatilhas é um drama. Tenho de levantar as pernas. Descansar uma em cima da outra. Não consigo baixar-me para tocar nos pés, enfiar as meias, atar os atacadores.
Quando me sento, tento sentar-me numa cadeira alta e rija. Evito o sofá. Enterra-me. Entorta-me as costas. Na cadeira sento-me direito. Com ângulos de noventa graus. Para ficar direito. Para não sentir as dores.
Hoje deram-me banho. Nunca pensei chegar a este ponto. Já não conseguia tomar banho de imersão. Não conseguia estar deitado na banheira. Tomo de duche, mas não consigo levantar os braços para lavar a cabeça. Não consigo dobrar-me para lavar os pés. Hoje ela deu-me banho. Foi a primeira vez. E tive o vislumbre do meu futuro. Do que me espera. A dependência. A decadência.
Ela não entrou para o duche comigo. Ficou de fora. Molhou-me todo, primeiro. E eu em pé. A tentar estar direito. A tentar esquecer que estavam a dar-me banho porque me tornei incapaz. Depois o champô no cabelo. O sabonete pelo corpo. Não usou luvas. Eram as mãos dela no meu corpo. Debaixo dos braços. No rabo. O sexo. E eu corei. De vergonha. Voltou a molhar-me. A água estava quente e, no fim, acabou por me agradar. Secou-me. Vesti-me sozinho, com muita dificuldade.
Fui sentar-me numa cadeira na mesa da cozinha.
Fumei um cigarro. Li o Correio da Manhã. Folheei-o. Parei nas folhas de Classificados. Olhei para os convites para as massagens de Relax. Para o Convívio. Havia algumas fotografias. De mulheres nuas. De pernas abertas. A convidar-me. E senti um peso no peito. Uma tristeza que se apoderou de mim. Apaguei o cigarro no cinzeiro. Levantei-me e disse, sem a olhar, que ia dar uma volta, assim Vou dar uma volta!
Saí da cozinha para a rua e senti o olhar dela nas minhas costas. Pressenti um olhar preocupado.
Desci o caminho. Fui até à estrada. Fui devagar.
Na estrada virei à direita e fui.
Não me lembro quando tempo caminhei. Quando dei por ela já estava quase a escurecer. Não sei onde estou. Algures, na estrada, no meio de campos cultivados. Girassóis. São girassóis. Não os reconheci porque já estavam virados ao contrário, à espera que o sol volte a nascer amanhã.
Uma luz ilumina a estrada, os girassóis, o mato. É um carro. É ela. Foi à minha procura. Encontrou-me. Abre a porta. Eu entro muito devagar no carro. Sento-me muito direito no banco. Ela põe-me o cinto de segurança. E faz todo o caminho com uma condução suave por causa das minhas costas. E diz-me Está lá em casa uma massagista para te massajar as costas. Mas sem final feliz. Eu sorrio. Ela também.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/26]

Corte de Cabelo

Desci da camioneta no novo terminal. Aquilo era um novo terminal já comido pelo tempo. Há muitos anos que não ia ali. Não ia ali de camioneta. Naquele tempo o terminal era outro. Este agora era um terminal novo. Mas a memória que tinha do antigo preservava-o mais que este que me garantia ser novo e já tão estragado pela erosão. Também pela falta de manutenção, uma das grandes doenças destes tempos que correm. As entidades gastam as verbas na criação dos espaços mas, depois, não têm como os manter. Ou não querem. Ou esquecem-se. O esquecimento também é uma doença destes tempos.
E foi isso que eu vi quando desci naquele terminal. O esquecimento e a morte.
Saí da camioneta e fui logo bafejado por uma onda de calor. Estava quente. Levei com uma explosão térmica que me fez desejar não ter ido ali. Mas aguentei. Tive de aguentar. Não fiz todos aqueles quilómetros para voltar atrás.
Havia silêncio. Quase silêncio. O motorista tinha desligado o motor da camioneta. Os ouvidos, habituados àquele rame-rame de um motor a gasóleo, suspiraram de alívio. O calor abafava quase todos os sons. Percebia-se o som distante das cigarras. Mais distante ainda, o som do mar. Pelo menos parecia-me. Mas podia ser só sugestão. Estava com calor. Com calor e com vontade de mergulhar. Mas tinha ido ali por outro motivo.
Tinha ido ali para cortar o cabelo.
Saí do terminal e caminhei junto às casas da rua para tentar aproveitar as mínimas sombras existentes. Cheguei à marginal. Olhei o mar. Estava convidativo. Pensei na minha transpiração. Sabia-me bem um mergulho, pensei. Mas vai saber-me melhor o cabelo cortado. Cortado curto. E caminhei durante algum tempo pela marginal. Acompanhei o mar. Olhei as pessoas a apanhar banhos de sol. Apreciei os corpos. Senti alguma vergonha do meu. Depois meti para dentro. Virei numas ruas até chegar à casa. Toquei à campainha. Ouvi um clique. Empurrei a porta. Abriu. Entrei. Avancei pela casa na penumbra. À espera de descobrir o que procurava. Voltei a sair. Luz. Comecei a ouvir música. Umas velhas canções New Wave. Saí do outro lado da casa. Saí para um quintal. Com umas árvores. Um baloiço. Uma piscina de borracha. Uma piscina grande. Um pequeno balcão a fazer de bar. Uma mala térmica. E uma cadeira. A cadeira. A cadeira onde ela cortava o cabelo.
Ela estava a acabar de cortar o cabelo a um rapaz. Eu abri a mala térmica. Olhei lá para dentro. Olhei para as garrafas no bar. Agarrei num limão. Pequei num copo. Fiz um gin tónico. Sentei-me no chão. Encostado a uma árvore. À sombra. À espera.
Depois o rapaz foi despachado.
E ela chamou-me. Levantei-me. Abraçámos-nos. Trocámos beijos. E ela disse Tinha saudades tuas. E eu disse Isto está bonito.
Sentei-me na cadeira. Ela cortou-me o cabelo. Conversámos. Quer dizer, ela falou. Eu escutei. Acabei com o gin.
Ela já não tinha mais cabelos para cortar. Mais tarde haveria de chegar gente para beber uns copos e ouvir música. Aproveitou para entrar na piscina de borracha e refrescar-se um pouco. Eu olhei o relógio de pulso e fui embora. Despedi-me.
Refiz a marginal. Voltei ao terminal. Ainda tinha de esperar uma hora pela camioneta para me levar de regresso a casa.
E foi então que fui ao mar. Dar um mergulho. Com o meu cabelo cortado curto. Nem me lembrei de ter vergonha do meu corpo flácido. Mergulhei no mar e senti-me bem. Senti-me fresco.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/28]

Um Corpo Flácido e Enfraquecido

Convivo mal com a decadência do meu corpo. Os anos passam por mim, na sua cadência segura, e vão deixando um rasto de velhice que se aproxima perigosamente da morte.
Sinto-me dividir em dois. Os anos passam, a cabeça continua arrogante e lúcida mas o corpo está flácido e enfraquecido. Sou dois homens num corpo só. E o que me entristece é que sinto a decadência do corpo a ganhar vantagem sobre a lucidez da cabeça.
Levanto o braço para agradecer os parabéns e sinto os músculos dos braços a abanar, descaídos, sem forma, sem força.
Urino na casa-de-banho e começa a ser normal pingar os pés, as calças. Às vezes sinto vergonha quando saio da casa-de-banho todo pingado. Por vezes sinto que não deitei fora tudo o que devia deitar e percebo que o perigo se alastra pelo algodão suave das cuecas. Trago uma mancha colorida. Sinto vergonha pelo cheiro que devo arrastar comigo. Sinto vergonha por aquilo que me estou a tornar.
Descobri um quisto sebáceo nas costas. Não lhe conseguia chegar. Foi crescendo. Mas cresceu tanto que foi alargando a pele e a pele tornou-se mais fraca. Rebentou sozinho. Um cheiro fétido saiu-me pelas costas, junto com uma massa pastosa. Só o consegui expurgar debaixo do duche. Não sei quantas horas lá estive. Com a água a lavar o meu nojo. E depois… E depois o buraco nunca mais se fechou. O meu corpo já não se regenera. O que perco, fica perdido. Já não recupero nada do que fui perdendo. Foram-se os dentes. Foi-se o cabelo. Foi-se a vista. Tenho de actualizar constantemente as lentes. As unhas partem-se. A barba está branca. Tenho manchas no corpo. Saem-me pêlos por todos os buracos. Ouço mal. Coxeio.
Hoje o meu corpo já mal reage a estímulos. Fujo ao contacto físico com outros corpos para não me envergonhar. Tenho medo do que possa acontecer. Ou melhor, do que possa não acontecer.
É um cansaço constante. E de físico também passa a intelectual.
A preocupação com a perca das qualidades do corpo começa a tomar conta da minha cabeça. Não consigo não pensar nisso.
Evito ir à praia. Vestir calções. Despir a camisola. Tenho vergonha da barriga que tomba sobre os calções. Das veias que ganham dimensão nas pernas. São as varizes. Já nem o moreno do sol as esconde. Agora tenho de usar um factor pelo corpo. Senão, queima. Faz-me mal. Perigo dos melanomas, diz o médico. Sim, agora passo a vida no médico. Colecciono mazelas. Algumas vêm dos excessos da juventude. Outras, porque sim.
Doem-me as costas. Doem-me sempre as costas na cama, por causa do colchão. Doem-me as costas a caminhar porque tenho o vício da postura. O vício de anos com as costas tombadas sobre os pés. Não posso acartar pesos. Não consigo dobrar-me. Não posso fumar. Não devo beber vinho. Nem cerveja. Muito menos café. Tenho de ter cuidado com o açúcar. Fugir dos fritos. E das gorduras. Carne vermelha só muito raramente. Mas não é difícil que não a posso pagar. Devia comer mais peixe cozido. E enfardo cavala, o mais barato. Mas já estou enjoado.
Chega uma altura em que o corpo começa a dizer à cabeça que já chega. Já chega de aventuras. A cabeça resiste. Mas sente-se a ser perfurada. Aos poucos a cabeça começa a ceder ao corpo. Aos poucos começa a perceber que, se calhar, já não vale a pena continuar a lutar por algo que já não regressa. A juventude do corpo ficou no passado. Hoje é só uma memória. E a cabeça começa a cansar-se de memórias. Começa a sentir que isso é viver por procuração.
Tomo vários comprimidos repartidos ao longo do dia. Há dias em que não os tomo. Há dias em que quero parar a marcha inevitável do tempo. E regressar ao passado.
Mas esta não é uma história de ficção.
Sinto o meu corpo a morrer. E a cabeça com ele.
E é nessa altura que regresso à varanda. Com um copo de vinho numa mão e um cigarro aceso na outra. E digo baixinho, para mim É sempre inevitável.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/26]