Para uma Biografia, que Pode ou Não Ser Auto (capítulo um)

Já tinha acabado o recreio dos anos oitenta e os noventa já davam os primeiros passos. Foi nessa altura que me casei. Que me casei pela primeira vez. Foi um casamento em que tentei prolongar a festa que tinham sido os anos oitenta. E durante algum tempo, foi o que aconteceu.
Alugámos umas águas-furtadas num bairro típico da capital. Era um inferno de Verão. Um gelo de Inverno. Mas era uma boa casa, acolhedora, de desenho bizarro, cheio de corredores e tectos baixos e janelas levantadas sobre o telhado, e divisões amplas. Dissemos que era uma casa fantástica para convidar pessoas e fazermos festas. O facto é que nunca tivemos ninguém lá em casa. Houve festas sim, mas só nós é que éramos os convidados. Só nós os dois. Nós os dois sozinhos até às duas últimas semanas em que lá vivemos, quando nasceu o nosso filho. Duas semanas depois de ter nascido mudámos para uma casa normal, num prédio normal, para tentar ter uma vida normal. Quarto andar com elevador num prédio de oito andares. Um prédio onde não chegámos sequer a conhecer os vizinhos de andar. Nem mesmo os que tinham a porta ao lado da nossa. Um prédio de onde saímos quando nos divorciámos algum tempo depois. Não chegámos a lá estar um ano. Foi nesse prédio que percebemos, mais ela que eu, que os anos oitenta tinham realmente acabado e era preciso crescer. E ela achava que eu não crescia.
A verdade é que na nossa primeira casa, nas águas-furtadas de um prédio de um bairro típico da capital, também não chegámos a conhecer ninguém do prédio, prédio pequeno, de escadas em madeira e íngremes, que em determinadas noites subíamos de gatas, a rir, perdidos de bêbados, onde vomitámos algumas vezes e de onde caímos outras e onde eu fiz esta cicatriz que tenho na testa. Ainda se vê bem a cicatriz quando tenho o cabelo curto, que é quase sempre, agora.
Estes anos nas águas-furtadas foram anos muito intensos. Duraram pouco mas, o que duraram, duraram quase por uma vida.
Nos meses de Verão andávamos sempre nus lá por casa. Eu e ela. As janelas abertas à espera de um pouco de corrente-de-ar que nunca vinha. Janelas abertas numa casa sem cortinas. Janelas abertas à discrição da vizinhança. Às vezes ficávamos horas a fumar cigarros e a ver a ponte sobre o Tejo lá ao fundo, ancas encostadas uma à outra. Às vezes fazíamos amor ali mesmo. À janela. Ela contra a balaustrada. Víamos as luzes dos carros a passar na ponte, as luzes vermelhas dos que iam, as luzes amarelas dos que vinham. Ao lado o Cristo-Rei, acho que envolvido numa luz azul. Por vezes também apanhávamos por ali o pôr-do-sol. O Tejo em tons prata. Os telhados que se estendiam como tapetes multicor. Tanta ganza fumada naquela janela. Algumas pastilhas. Muita loucura.
Vivíamos uma vida simples. Simples, mas intensa.
Em casa tínhamos um colchão no chão, onde dormíamos, e uma mesa com quatro cadeiras onde comíamos e trabalhávamos. Nos primeiros tempos nem prateleiras para os livros que se empilhavam no chão. Depois, alguns meses depois, comprámos umas prateleiras no Continente que montei sozinho, eu e uma chave-de-fendas, e por causa da qual fiquei com um calo na mão direita durante meses. Foi também nessa altura que comprámos uma televisão, pequena, a cores.
Tínhamos uns vasos à janela onde cultivávamos algumas especiarias que utilizávamos nas nossas festas gastronómicas. Nestes anos engordei bastante. Uma dieta à base de experiências gastronómicas exóticas, muito vinho e cocktails e charros que nos obrigavam a terminar as noites em volta de torradas banhadas em manteiga e pacotes de bolachas tartelletes de morango que devorávamos umas a seguir às outras, de boca cheia e onde enfiávamos sempre mais outra bolacha e quando falávamos cuspíamos migalhas sobre o outro e ríamos muito, ríamos que nem parvos.
Tínhamos fogão, frigorífico e esquentador que tinham vindo com a casa. Foi muito útil no início da nossa vida. Nos primeiros tempos nem sentimos a falta da televisão.
No Inverno deitávamos-nos com as galinhas da província. Eu agarrava-me a ela. Ela deixava-se agarrar por mim e dormíamos assim, agarrados e quentes, aquecidos um no outro, sem televisão, a ouvir o barulho da rua que nos embalava, com excepção dos eléctricos que, em dias de chuva, eram um inferno de barulho.
E durante uns tempos, durante alguns anos, o tempo que durou a nossa vida naquela casa de águas-furtadas, parecia que a nossa vida era um compêndio de felicidade. Como se os anos oitenta não tivessem nunca acabado e durassem para sempre. No tijolo que tinha ido connosco no primeiro dia, não parava de tocar uma cassete com os Echo and The Bunnymen e os Chameleons. Tínhamos trabalho, os dois. Um trabalho bem pago. Vivíamos em festa constante. Mas uma festa caseira. Muito sexo. Só os dois. Sem necessidade de mais gente. De outra gente. Às vezes íamos ver um filme ou outro ao cinema. Às vezes saíamos a meio do filme para irmos para casa foder. Às vezes íamos a um concerto ou outro. Mas perdíamos os concertos em enormes filas para conseguir beber cerveja. Às vezes íamos jantar fora. Mas preferíamos os balcões das churrasqueiras que, na década seguinte, entrariam em desuso, ultrapassadas pelos restaurantes-lounge de decoração minimal e preços astronómicos.
Este estado de festa durou até ela engravidar.
Depois ela mudou.
Depois ela quis que eu mudasse.
Depois mudámos de casa.
E acabámos por mudar de vida. E mudámos cada um para seu lado.
Acabou-se a festa e o casamento.
Às vezes penso que os anos oitenta foi uma década com muitos mais anos que os dez que a classifica.
Às vezes acho que regresso lá, mas descubro uma década fechada e vazia e onde já não consigo estar sozinho.
Quando finalmente descobri os anos noventa, já estávamos com medo do milénio.
Mas isso é outra estória.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/09]

Conversas à Varanda

Despertei sozinho na cama. Virei-me para o outro lado, estiquei os braços e as pernas para a outra metade da cama e senti o frio. Ela já devia ter-se levantado há algum tempo. Ao fim-de-semana levanta-se cedo. Acorda cedo. Dá umas voltas na cama. Não consegue voltar a adormecer e levanta-se. Vai pôr roupa a lavar. Aproveita o bom tempo para estender a roupa ao sol. Limpa a casota do cão. Trata do canteiro das especiarias. Às vezes começa a preparar o almoço. Não consegue parar um segundo. É raro encontrá-la sentada no sofá a ler um livro. Não que não goste de ler, não consegue é estar quieta por muito tempo.
Eu levantei-me. Vesti uns boxers. Fui até à cozinha. Tinha um copo com sumo de laranja natural na mesa à minha espera. Peguei no copo. Ouvi vozes vindas do exterior. Aproximei-me da janela da cozinha. Ela estava no alpendre, encostada à um pilar, a fumar um cigarro e a conversar com a vizinha, por cima do muro que dividia as duas casas, enquanto esta lavava a casota do cão. Não percebia o que estavam a dizer. As janelas estavam fechadas. Mas fiquei ali a olhar para elas, uma de cada lado do muro, cada uma delas no seu quintal, a conversar sobre não-sei-o-quê, trivialidades da vida talvez. Gosto de ver esta relação entre vizinhos. Gosto de ver a utilização dos alpendres e das varandas. Gosto de ver vida fora das casas.
Lembro-me da minha mãe que conversava de janela para janela com as vizinhas do prédio. Às vezes trocavam necessidades em pequenos cestos descidos em cordas, como elevadores entre janelas. Às vezes chamava-me quando eu andava na brincadeira com os meus amigos, para ir à mercearia buscar açúcar ou ovos que precisava para fazer um bolo, fazia descer o pequeno cesto por uma corda com o dinheiro e depois, quando eu regressava com o que tinha comprado na mercearia, punha as coisas no cesto e ela voltava a puxá-lo para cima.
No Verão também era normal eu estar a jogar à bola no quintal, com os vizinhos do prédio, e os pais estavam nas varandas a fumar cigarros. Pareciam pirilampos a acender aqui e ali, como um jogo de luzes psicadélicas.
Hoje em dia vejo as varandas vazias. A maior parte delas nem um vaso com flores. Ninguém à varanda. São prédios fantasma. Bairros mortos. Impessoais. Os vizinhos não comunicam. As pessoas não vêm à rua respirar ar fresco, fumar um cigarro, olhar as pessoas a passar, os namorados agarradinhos, os casais apressados, o rapaz que já vai atrasado, a criança que pedala na sua bicicleta com rodinhas de apoio.
Em casa dos meus pais, quando era Verão, ele colocava uma mesa pequena na varanda e comíamos lá. Comíamos nós na nossa varanda e os nossos vizinhos nas varandas deles. Às vezes ainda conversavam de varanda para varanda. Ainda me lembro dos jogos da UEFA ouvidos pela rádio à janela, e as discussões de janela para janela. Uma vez um vizinho despejou um jarro de água sobre a cabeça do vizinho de baixo. Mas continuaram amigos.
Acabo da beber o copo de sumo de laranja natural. Ela entra em casa. Vem a sorrir. Traz um saco de plástico na mão. Dá-me um beijo. Eu digo Hoje almoçamos no alpendre. E ela diz Boa. A vizinha deu-me dois robalos. Podes ir assá-los, e estendeu-me o saco de plástico com os robalos lá dentro.
Fui fazer as brasas. Ela depois apareceu lá com os dois robalos limpos e alguns pimentos. Levou-me uma cerveja e umas azeitonas. Ficou lá, por momentos, a fumar um cigarro e a olhar para mim a assar o peixe que depois iríamos comer no alpendre. Às vezes sinto-me o meu pai.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/07]

O Tempo Estranho e os Meus Dias

Tempo estranho este que domina os meus dias.
Ontem estive aqui na Nazaré. Estive aqui à frente, na praia. Descalcei-me. Despi-me. Fui em cuecas mergulhar no mar. Sem toalha, deixei-me secar debaixo do sol. Estava quase seco quando decidi ir de novo ao mar. E fui. Mergulhei na água fria mas agradável. Deu para dar umas braçadas. Voltei a sair. Caminhei um pouco junto à beira-mar em cuecas a deixar-me secar pelo sol de fim-de-dia e pelo frágil vento que se levantou. Estava agradável. Tenho memórias de Verões da minha infância de dias fechado em casa por culpa do frio, da chuva e das marés-vivas que traziam o mar até à marginal.
Em fim-de-dia, vestido de novo, sem cuecas, que estavam molhadas, vi o céu púrpura que antecipava a noite. Sentei-me numa esplanada a beber um imperial e a ver o sol desaparecer, a luz do dia dar lugar à noite e os faróis dos carros em procissão constante iluminar a estrada à beira dos meus pés.
Agora estou aqui, quase no mesmo sítio.
Estou sentado num dos bancos da marginal, na mesma linha onde ontem mergulhei no mar. Está a chover. Está frio. O mar está picado. As ondas rebentam com força e espalham espuma branca pelo areal.
Hoje estou molhado pela chuva. Ontem estava molhado pela água do mar.
Estou debaixo da chuva e não consigo ir embora. Tenho o capuz do casaco sobre a cabeça. Olho o mar lá ao fundo e penso que não tardará a chegar cá acima. Já há comerciantes a fecharem as lojas. A colocarem barreiras de protecção nas janelas, nas montras, nas portas.
Nos hotéis aqui atrás de mim há gente nas varandas à espera de ver a subida do mar. É uma excitação. Ouço os gritinhos da impaciência.
Já não há quase ninguém na rua. Há pouco passou por aqui um carro da polícia. Esteve parado atrás de mim, senti-o, mas ninguém me disse nada. Não me virei. Ignorei o carro. Mesmo quando ouvi a sirene tocar. Fiz-me surdo. O carro da polícia acabou por partir. Nada garante que o mar suba realmente aqui acima. Mas é muito provável.
Ainda não é de noite mas já está muito escuro O céu está cinzento. Ontem estava azul e o horizonte púrpura. Hoje não há horizonte. Acima da linha de rebentação das ondas há um desfoque que não permite linha nem horizonte. Há uma mistura entre o céu e a Terra que não consigo perceber onde se dá. E tudo em cinzento. Cinzento escuro, molhado e maldisposto.
Já mal se consegue ver o Forte e a rocha que o defende. Mas ainda se consegue perceber a explosão das ondas que ao bater na rocha, se espalham em toda a volta e para cima.
Será que ainda há gente no Forte?
Será que ainda há gente na Praia do Norte?
E as marquises da praça? Como é que vão ser protegidas? Ou serão já elas uma primeira linha de defesa dos restaurantes, marisqueiras e cafés que existem por trás das paredes de acrílico?
Até a Batel acabou por fechar mais cedo. Há andaimes no prédio da Batel. Será que vão aguentar-se se o mar chegar cá acima?
E eu? Devia ir embora. E vou? Eu queria ir. Mas não consigo levantar-me. Não consigo mexer-me. Sinto-me preso. Não consigo deixar de olhar o mar. Estou à espera dele. Acho que estou à espera dele. Acho que ele vem à minha procura. Vem buscar-me.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/01]

A Vítima das Circunstâncias

Três semanas depois de ter começado a trabalhar no Modelo Continente como repositor de lineares, fui despedido. Não é que não merecesse ter sido despedido mas, acho que fui vítima das circunstâncias.
O Modelo Continente abriu há três semanas. Fui um dos empregados originais. Fiz a formação. Preparei-me para ser um sucesso numa equipa que se queria de sucesso. Estive no momento da abertura do supermercado. Ao fim de três semanas fui despedido por ter sido encontrado a comer iogurtes no corredor do frio. Com poucos clientes desde a abertura, eu fui o bode-expiatório para a catarse administrativa que não compreende porque é que os clientes continuam a preferir o Pingo Doce do outro lado da rotunda.
Tive sorte. Pagaram-me o mês inteiro. Quatro semanas.
Como é que vou chegar a casa e dizer, outra vez, que fui despedido outra vez?
Vou a pé até ao centro da cidade. Já não trabalhei o resto do dia.
Está calor. Transpiro. Sinto os sovacos molhados. Sinto um fio de água a escorrer-me pelas costas abaixo. E pelo peito. Parece Verão. Parece. Mas estamos em Fevereiro.
Caminho devagar. Evito pensar que vou ter de regressar a casa. Evito pensar que, a dado momento, vou ter de regressar a casa e voltar a dizer que estou sem trabalho.
Estou com calor. Estou com sede.
Ainda estou longe do centro da cidade mas já não aguento mais este calor. Entro na porta do primeiro snack-bar que encontro. Encosto-me ao balcão de inox e peço um copo de branco, fresco.
Despejo-o de uma vez. Peço outro. Olho para a vitrina de frio e vejo uma pequena bandeja com rissóis. Peço um. É de camarão. Devoro-o em três dentadas. Empurro-o com o copo de vinho branco fresco. Peço um terceiro copo.
Pego no copo e vou para a rua fumar um cigarro. Encosto-me à montra do snack-bar. Na estrada à frente, passam carros, nem sempre muito devagar. Acendo um cigarro. Penso em como enfrentar o problema que vou enfrentar em casa quando disser que estou outra vez sem trabalho. É que já começa a ser um padrão. É a terceira vez que sou despedido desde o ano passado. Mas a culpa não é minha. Eu sou uma vítima das circunstâncias. Ou porque não me calo. Ou porque não acato bem as ordens. Ou porque refilo muito. Ou porque como iogurtes no corredor do frio. As pessoas estão sempre a arranjar desculpas para tramar as outras. Às vezes é só porque sim. Eu acho que tenho uma cara que as pessoas adoram chatear. Tenho cara de vítima.
Dou cabo do copo de vinho. Acabo o cigarro. E agora? Volto para casa? Vejo as horas no relógio de pulso. Não quero ir já para casa. Ainda é cedo para enfrentar o drama.
Decido-me por outro cigarro. Levo a mão ao bolso para tirar o maço e o cheque com o ordenado do mês, das quatro semanas de trabalho das quais só trabalhei três, sai do bolso com o maço de cigarros e voa para a estrada. Estico-me mas não o alcanço, desço o passeio e corro para a estrada atrás do cheque que voa, aos esses, como se quisesse fugir de mim, o cabrão e, depois cai no asfalto, junto ao traço contínuo, eu aproximo-me, baixo-me para o agarrar, não me vá fugir de novo, ouço uma buzina, talvez duas e sinto uma pancada forte no meu corpo, talvez seja na cabeça, não sei, não tenho a certeza e…

[escrito directamente no facebook em 2020/02/23]

O Último Suspiro

E naquela tarde desejei que a vida fosse um dia de sol brilhante, quente e confortável, um mar ondulante e dócil de águas mornas onde poderia nadar crawl e que nadaria como ninguém, boiaria num colchão de ar e seria levado ao longo da costa até uma praia deserta e secreta onde encontraria uma sereia verdadeira com rabo de peixe, almoçaria um bife do lombo com batatas fritas e um ovo a cavalo, molharia um bocado de miolo de um papo-seco na gema amarelinha do ovo, beberia um pirolito e guardaria o berlinde de porcelana colorido que iria juntar ao atabafador, ao contra-mundo e ao olho-de-boi na caixinha das preciosidades onde também estaria o pin do Benfica, o cartão de sócio da União de Leiria, os cromos de futebol das pastilhas May e a fotografia da Cindy, uma inglesa de Bristol que conheci na Praia da Oura e com quem andei de gaivota, comi gelados de laranja da Olá e chorei baba e ranho quando me vim embora para Leiria e ela ficou mais uma semana, jurámos trocar cartas e só foi a primeira e só chegaram duas, e que depressa troquei pela Rita que conheci no colégio, mas a fotografia ficou para me lembrar as pequenas histórias que fazem toda a minha vida, e depois iria a uma matinée de cinema ver o Grease, a Guerra das Estrelas ou uma reposição da Fantasia que o meu gosto é eclético, passearia de bicicleta tipo chopper ao longo do rio e subiria a estrada até à nascente do Liz, às Fontes, logo ali acima das Cortes, e regressaria mais tarde até à descida do Seminário onde iria fazer a descida em carrinho-de-rolamentos e passaria pela caixa de água pública onde o Jorge um dia rebentou umas bombas de Carnaval que lhe iam arrancando os dedos da mão, mas não arrancaram e nós fartámos-nos de rir à conta dele que nunca mais pegou em bombas de Carnaval, só em bombinhas de mau-cheiro que partia nas aulas de matemática e a freira era obrigada a dar a aula por terminada porque o cheiro se tornava impossível e ninguém mais tomava atenção à matéria, e saíamos da sala e íamos jogar à bola para o campo pelado onde esfolei e esfolaria ainda mais vezes os joelhos e todos os finais de tarde seriam passados na Feira de Maio, na pista dos carrinhos-de-choque da feira, aos empurrões aos outros carros para impressionar as meninas que olhariam para mim e suspirariam, e eu veria os seus pequenos corações a baterem forte dentro dos seus frágeis corpos de adolescentes à minha passagem e iria passear à volta do mundo com uma dessas meninas e conheceria todos os países e todos os povos da Antártida ao Ártico, passando pela Austrália, a Ásia, a América do Norte, Central e do Sul, e toda a África, e teria todo o tempo do mundo para usufruir da vida de todos estes continentes e povos, e comeria das gastronomias locais e nunca ficaria maldisposto com nenhuma das iguarias que o mundo está cheio de maravilhas para comer e beber e ver e ouvir e tocar e sentir e apreender, e cada vez que regressaria iria rever os meus amigos que ainda seriam sempre os meus amigos porque os amigos seriam sempre para a vida, ao contrário dos amores que se enterram na areia da praia em cada fim de Verão, e mataria saudades dos meus pais e da escola onde andava mas já não andaria porque iria aprender pelo mundo fora a fazer surf no Hawai, mas poderia ser também na Nazaré ou em Peniche, a jogar futebol de praia em Copacabana, judo no Japão, a tocar didgeridoo na Austrália, percussão em África e kazoo… onde é que poderia aprender a tocar kazoo?… talvez em África também e ocarina com os descendentes dos maias e…
…e depois descobria, naquela tarde, que a vida afinal nunca seria assim tão boa enquanto assistia ao último suspiro do meu pai deitado na cama onde estava já há uns meses à espera de ser levado lá para onde vão as pessoas que respiram pela última vez e eu chorava como choravam todos os abandonados cá deste lado ao sentirem-se sozinhos e perdidos, à espera que a vida, mesmo assim, não me abandonasse como parecia ter abandonado naquele momento.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/15]

Quatro em Cima de uma Sachs

Lembro-me quando chegava o Verão. O tipo lá arranjava um fim-de-semana livre, ou pelo menos o Sábado, e era ele e a mulher, os dois filhos e a tralha toda em cima de uma Sachs K125 a caminho da Praia das Paredes.
Aquilo fazia-me muita impressão. Uma montanha em cima de um triciclo. Primeiro montava ele. Punha a motorizada a trabalhar. Depois montava o filho mais velho, atrás do pai, com um chapéu-de-sol nas mãos. A seguir, a mãe, cheia de sacos, de um lado e do outro. Depois o pai agarrava na mais pequena e sentava-a em cima do depósito de gasolina, à sua frente, presa entre os seus braços.
Se os filhos eram os dois lingrinhas, já os pais, os dois, eram bastante volumosos. Não gordos, gordos. Mas já com alguns quilos a mais. A mãe mais pequena, cada vez mais redonda, o pai a cuidar de uma barriga proeminente regada a cerveja.
Quando a motorizada arrancava lá de casa, a espremer-se toda debaixo daquele peso, os cães das redondezas vinham ladrar às rodas e acompanhavam a motorizada e os seus ocupantes até estes saírem da aldeia. E depois ficavam nos limites da aldeia, junto à placa de cimento com o nome que indicava a quem chegava onde estavam a chegar, a ladrar para o fundo da estrada até deixar de se ouvir o motor arrastado da motorizada.
Gostaria de tê-los visto a subir a estrada antes da recta do pinhal que levava à Praia das Paredes, mas tal nunca aconteceu. Ainda hoje me pergunto como é que a motorizada conseguia subir aquela inclinação com tanta gente lá em cima.
Aqueles dias de Verão eram de enorme festa para os filhos. Nunca iam a lado nenhum e então, naquela altura, iam para a praia. Havia fins-de-semana em que acabavam por ficar por lá, pela praia. Levavam um pano que penduravam à volta do chapéu-de-sol e transformavam-no numa tenda onde se abrigavam durante a noite na praia e, às vezes, o filho mais velho contou-me, tinham de andar a fugir ao mar, que as ondas vinham furiosas, entravam pelo chapéu-de-sol dentro, molhavam tudo e eles tinham de levantar o chapéu-de-sol tornado barraca em peso, e transportá-lo para mais longe, às vezes sonolentos, com a miúda de dedo na boca e a mãe a rezar o terço.
Pelo menos ele tinha sempre história para me contar. Como daquela vez em que o pai ajudou os pescadores a puxarem uma rede e acabaram a noite a assar carapaus numa fogueira, no meio da praia, com um grupo de jovens que apareceram por lá com guitarras e cervejas, comeram dos carapaus assados, cantaram músicas e ainda foram todos ao mar de madrugada tomar banho nus.
Uns anos mais tarde o tipo conseguiu comprar um Mini. E o Mini ainda levava mais gente. Nessa altura iam para a praia com o irmão da mulher e a família dele que também incluía dois miúdos. Iam os dois homens à frente no carro e as duas mulheres atrás. Os dois filhos deles iam atrás, com as mulheres, mais um dos miúdos do irmão. E o outro, o mais novo, ia ao colo do pai, à frente. A tralha ia no tejadilho do Mini, atada com cordas que mais pareciam formar uma teia-de-aranha a qual, às vezes, viam-se gregos para conseguir abrir os nós e tirar as coisas que precisavam e que estavam em caixas de plástico presas no tejadilho.
Nunca foi multado. E nunca teve carta de condução. Nem da motorizada nem do carro.
Quando o tipo morreu, num Inverno chuvoso, foi toda a gente a pé. Toda a gente das pessoas que foram ao funeral, o que não era muita gente, mesmo tendo em conta a pouca quantidade de pessoas que ainda vivia na aldeia. Ele não era uma pessoa muito querida. Eu conhecia-o porque éramos vizinhos. E não tenho nenhuma queixa dele nem da família. Eu e o filho mais velho éramos amigos. Às vezes ainda bebemos um copo juntos. Mas eles eram uma família pobre, era o que eram. Pobres. Não que houvesse gente muito rica na aldeia, mas toda a gente tinha uns terrenos, com umas árvores. Uns pinheiros. Umas laranjeiras. Até umas vinhas. Coisas que davam mais despesa do que lucro, mas eram proprietários. Pequenos proprietários. Eles não. Eles trabalhavam à jorna nos terrenos de todos os outros. Por isso é que ir à praia, que nem era assim tão longe, era dia de festa para os meus vizinhos.
No dia em que o tipo morreu, eu bebi um bagaço com o filho mais velho na taberna da aldeia. Ele não chorou. Eu dei-lhe um abraço.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/01]

Natureza-Morta

É Domingo. Acordo e já é meio-dia. Levanto-me da cama, sinto o frio do quarto e visto uma camisola sobre a pele arrepiada dos braços. Ponho os pés nuns chinelos e vou à cozinha. Olho à entrada e vejo. Vejo a natureza-morta da minha cozinha.
A mesa, um pouco deslocada para a direita, centra o que poderia ser uma pequena sala de jantar anexada à cozinha. Atrás, junto à parede onde estou parado à porta a olhar, a antiga lareira que foi adaptada à modernidade e se transformou numa salamandra enfiada no plateau da antiga lareira, demasiado grande para os tempos de míngua e solitários que vivo. Já não preciso de ter a panela ao lume com a água quente pronta a aquecer umas couves que acompanham um bocado de toucinho cortado à navalha, depois de desembrulhado do papel almaço que o envolve. Mas os enchidos ainda lá estão pendurados. O chouriço, a morcela, o bucho, a farinheira, tudo aqui das redondezas, tudo oferecido pela vizinhança. Há umas tranças com cebolas. Uns ramos feitos de folhas de louro. Gosto do cheiro que tudo isto me deixa na cozinha.
Sobre a antiga lareira onde jaz uma nova salamandra, a caçadeira do meu avô. Não sei se está em condições de disparar. Nunca a limpei. Para mim não é mais que um adereço. Um adereço de caça que foi do meu avô. Uma herança que, para mim, não é mais que um objecto decorativo.
Sobre a mesa, uma pequena fruteira com dióspiros, algumas tangerinas e uma maçã já pisada, com uma mancha castanha que começa a alastrar. Não a devia mandar para o lixo?
Caída da fruteira sobre a mesa, uma banana. Talvez seja uma banana da Madeira, mas não tenho a certeza. Não me recordo de a ter comprado. Talvez tenha sido a rapariga que vem cá a casa uma manhã todas as semanas que a tenha deixado. Talvez seja uma prenda do operariado ao patronato. E dou comigo a pensar que também eu posso ser patrão. Largo uma pequena gargalhada que transforma esta leitura da minha natureza-morta numa natureza-morta com banda-sonora na figura de uma gargalhada tímida e surpresa. Afinal, até eu posso ser patronato? Quem diria!
Na parte esquerda da cozinha, o lava-loiças vazio. Não tenho cozinhado. Não tenho sujado louça. Quanto muito, a tábua para cortar o pão, a faca de serrilha e a faca para barrar a manteiga nas carcaças que engulo com prazer ao lembrar o papo-seco da minha infância. Agora utilizo manteiga Milhafre, dos Açores, e esta manteiga faz-me lembrar a manteiga Primor da minha infância mais que a Primor dos dias de hoje. Gosto muito de pão com manteiga.
O frigorífico ao canto. Já lá teve preso vários postais. Hoje está limpo de informação e imagens. Por cima do frigorífico, um antigo galheteiro que já não uso. Entre o frigorífico e a parede, um caixote do lixo com pedal para não sujar as mãos. Não se vê, mas o pedal está partido. Afinal, sempre tenho de sujar as mãos. Ao lado, uma vassoura e uma pá caída no chão. Depois, a seguir ao frigorífico, um bocado de bancada antes do fogão incrustado. Um micro-ondas sobre a bancada. Uma chaleira. Um máquina de café com café. É de quando, este café? Quando foi a última vez que fiz café? Há também um rolo de papel-de-cozinha enfiado numa geringonça de plástico. Depois o fogão. Uma tampa de madeira sobre o fogão. Uma tampa que arranjei à beira da estrada e que funciona como protecção. Por cima da tampa um cesto de pão. Lá dentro um saco-de-pano, de chita, talvez com pão. Carcaças, talvez. É o que gosto de comer. Depois continua a bancada. Há uma torradeira sobre a bancada. Utilizo muito a torradeira. Ao lado um frasco grande com azeitonas. Azeitonas do produtor. Um vizinho que as ofereceu. Ainda não estão em condições de serem comidas. As azeitonas ainda estão muito salgadas. Preciso de ir mudando a água com alguma regularidade.
O lava-loiças. Por cima, uma janela. A janela por onde olho enquanto lavo a loiça. A janela por onde vejo as montanhas lá ao fundo, as montanhas de eterno cume branco, onde subo durante o Verão, quando está mais quente e mais facilmente aguento os caminhos íngremes que me levam lá acima.
Depois o resto da bancada, onde está uma tomada que utilizo para pôr o telemóvel à carga. Às vezes está lá uma garrafa de vinho tinto. Às vezes, um cesto com fruta acabada de apanhar e que me vêm trazer cá a casa. Figos. Nêsperas. Maçãs. Às vezes um bolo da festa. Uns tremoços. No Verão, um melão encetado. Ou uma melancia que retiro do frigorífico algum tempo antes de comer por causa dos dentes.
A seguir a porta da rua. A porta que abro para o alpendre onde fumo os meus cigarros a olhar as montanhas.
Regresso à mesa. A mesa um pouco deslocada para a direita. A mesa onde não está um coelho guisado em tacho de barro mas onde podia estar. Faz parte da minha natureza-morta. O coelho guisado em tacho de barro que a minha mãe fazia para o meu pai e que mais tarde começou a fazer para mim. Eu também sei fazer esse coelho. Mas estou sem paciência para cozinhar. Para cozinhar só para mim. Gosto de cozinhar para mais gente, para mais pessoas..
A minha cozinha só tem espaço para a natureza-morta.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/26]