O Tipo com os Boxers CR7

O tipo estava debruçado sobre a miúda mas, a primeira coisa que eu vi, no que reparei logo, foi no elástico esticado sobre uns refegos de carne apertados, com os dizeres CR7.
Ele estava de costas para mim, debruçado sobre a miúda com um prato cheio de cascas de amêijoa vietnamita à frente, a beijá-la, e eu depois só imaginei a amêijoa vietnamita às voltas na boca da miúda a fugir à língua do lambão que, de costas para mim, ostentava uns boxers do CR7, com o logótipo repetido várias vezes num elástico esticado, obviamente uns boxers demasiado apertados para o tipo que as envergava. Percebi depois, quando estava a passar mesmo ao lado dele, e o tipo se levantou, que fazia dois de mim em largura. Ele era só bíceps. Um peitoral de respeito. Talvez fosse segurança. Talvez gostasse de culturismo. Talvez fosse somente alguém que exagerou nas idas ao ginásio depois da pandemia.
A Nazaré estava assim. Cheia de gente e gente exageradamente. Ainda o vi largar a miúda com a língua de fora, a arfar, e entrar, de lado, pela porta da cervejaria dentro.
Sempre me tinha perguntado quem é que usaria os boxers do Cristiano Ronaldo. Agora já sei.
Virei-me para trás, de novo, para ver a miúda, e vi-a levar um dedo à boca, um dedo com uma unha de gel colorida-fluorescente que via à distância que estava, escavar qualquer coisa dentro da boca e depois lamber o dedo e a unha antes de voltar a agarrar o copo de imperial e despejar o resto que ainda lá estava.
Eu parei para acender um cigarro e continuei a olhar para a miúda. Ela remexeu no prato com as unhas de gel coloridas-fluorescentes a revirar as cascas da amêijoa vietnamita e acabou por encontrar alguma coisa que lhe agradou e levou-a à boca. Depois voltou a chupar o dedo.
Eu sorri.
O tipo dos boxers CR7 saiu, de lado, pela porta da cervejaria a enfiar a carteira, gorda, no bolso de trás das calças, o que lhe provocava um enorme hematoma. A miúda levantou-se, ele colocou-lhe o braço por cima dos ombros, não sem alguma dificuldade, e foram-se embora abraçados. Ele com uns boxers a dizer CR7 e ela com dois fios de tecido azul petróleo por cima da cintura das calças de ganga apertadas e sublinhada com um cinto preto de tachas.
Olhei para o lado e percebi que estava sozinho. Eu, que não tinha boxers do CR7, estava ali, a um Domingo, um Domingo de Outono que ainda era Verão, com o sol a bater forte e as ondas do mar a convidar para o mergulho, eu estava sozinho. Mandei fora o resto do cigarro. Comprei umas pevides a uma velha na marginal e fui a comê-las enquanto caminhava ao longo da beira da praia, largando as cascas pelo o chão e a dizer para mim próprio Que se foda!

[escrito directamente no facebook em 2020/09/27]

Sem Arranjo

Caiu-me um dente. Estão a desfazer-se. Pareço ter a boca cheia de areia. São os dentes apodrecidos que se desfazem. Já não consigo comer sólidos.
Agora acordo com a almofada cheia de cabelos. A banheira também fica cheia de cabelos depois de lavar a cabeça. Até quando terei cabelos para poderem cair?
Vomito depois de comer. Todas as vezes depois de comer, deito fora tudo o que ingeri. Já não consigo manter nada no estômago. Nem os líquidos e as papas que são as únicas coisas que o estado dos dentes me permite ingerir.
As unhas estão a partir-se. Algumas esfarelam-se.
A caspa deu lugar à seborreia. Cai tudo sobre os ombros. Não adianta sacudi-los. Dois minutos depois está tudo na mesma.
O estômago está inchado. O interior chocalha. Pareço ter um lago dentro de mim, dentro da minha barriga. Está mole.
A pila encolheu. De manhã tenho dificuldade em encontrá-la para urinar. Quando a agarro, nem parece minha. Não a sinto. Não sinto nada.
Dói-me os rins. As costas. As dores de cabeça vão e vêm. Alternam com as enxaquecas. Os pulmões parecem cheios de ar e dificultam-me a respiração. Alivio quando fumo um cigarro.
Apareceram-me mais uns caroços debaixo do braço esquerdo. E também na virilha.
Na semana passada mijei sangue.
Hoje cuspi sangue. Cuspi sangue depois da queda do dente. Pode ter sido da queda do dente. Quero acreditar que sim.
Tenho acordado todas as noites, a meio da noite, com cãibras nas pernas. Massajo-me mas custa a aliviar os músculos. Levanto-me para ir urinar e estou meia-hora na casa-de-banho sem conseguir fazer nada.
Sinto-me um produto em fim de vida e sem arranjo. Penso se não valerá a pena arranjarem outro eu novo. É que este eu, está uma miséria. E não lhe antevejo melhoras. Muito menos um regresso a um tempo funcional.
Deito-me em cima da cama e tento pensar em quando as coisas ainda não eram assim. Tento pensar nas férias de Verão da minha adolescência. Nos mergulhos nas águas frias da costa atlântica. Nos meus amores. Nos primeiros dias de aulas. No primeiro beijo. Na primeira noite de sexo. Na primeira vez que conduzi um carro. No primeiro charro. No assalto que fizemos e na adrenalina que senti.
Cai-me outro dente. Sinto-o solto na boca. Cuspo-o para cima da cama. Cuspo sangue. Babo-me. Perco a vontade. Perco a vontade de ter vontade.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/21]

Um Tempo que Me Falha

Os dias passam vorazes por mim. Perco-me no tempo. Mal acordo e me levanto, já é noite, hora de jantar e ir para a cama. Não sei para onde vão os dias, as horas, os minutos. Não sei como fazer o que tenho para fazer no pouco tempo que os dias têm.
Penso que há menos tempo no tempo dos dias de hoje do que havia nos dias de ontem. Não é só uma sensação. É factual. As coisas que eu conseguia fazer ao longo do dia eram muito mais do que consigo fazer hoje. Os dias de antigamente eram enormes faixas de tempo onde cabiam inúmeros mundos. Hoje, essa faixa de tempo é uma ausência. Espirro e termina. Esvai-se num estalar de dedos.
Lembro-me dos dias de Verão da minha infância. As férias grandes, grandes porque eram de facto grandes, enormes. Quando chegávamos a Setembro tínhamos saudades da escola, dos amigos da escola, do cheiro dos livros novos, das folhas imaculadas dos cadernos novos, as novas canetas e as várias versões coloridas, azul, preto, vermelho e verde, eram Bic laranja e cristal. Naqueles Verões havia tempo para viver muitas vidas. Eu vivi muitas vidas. Muitas vidas num só dia. Acordava de manhã. Pequeno-almoço de uma fatia de pão saloio torrado e um copo de leite com Ovomaltine enquanto lia uma banda-desenhada da colecção Falcão ou alguma revista de cowboys da colecção Histórias do Faroeste ou do Buffalo Bill. Vestia-me e ia para a rua. Encontrava outros como eu. Íamos para o pinhal procurar os nossos Rochedos do Demónio em terra firme. Ou para um prédio em construção dar saltos do primeiro andar, ou do segundo, para o monte de areia que às vezes era rija e mais parecia rocha. Subíamos às nespereiras e às figueiras, as árvores mais imponentes da rua, para navegar em alto mar e encher o bandulho de fruta fresca nascida espontânea e sem químicos. Às vezes ia mesmo verde. Às vezes entrávamos dentro dos mares de silvas para apanhar as amoras. Eram pretas. Eram vermelhas. Eram agridoces e muito boas. Regressava a casa para almoçar. Era obrigatório dormir a sesta. E era o que fazíamos. Dormíamos a sesta. Eu deitava-me em cima da cama a ler uma banda-desenhada e deixava-me adormecer. Transpirava porque fazia sempre muito calor. Acordava e lanchava. Não podia sair de casa sem lanchar. E depois ia jogar à bola num dos pátios da rua. Ou um jogo de tabuleiro, normalmente o Monopólio, na garagem de algum de nós, ou íamos brincar para o pequeno riacho que lá passava perto, que não dava para mergulhar nem nadar mas dava para andar na brincadeira, molharmo-nos todos e chegarmos a casa e levarmos uma palmada ou um puxão de orelhas. A infância daquele tempo vinha com alguns castigos físicos, mas que compensavam a maluquice daqueles dias que nunca mais acabavam. E não! Não acabavam. Eram enormes. E ainda havia tempo para fazer asneiras como ir roubar na mercearia da rua ou entrar em casa de alguém que deixara a porta no trinco para roubar pacotes de batatas fritas Dora-Dora ou pacote de bolacha Maria torrada que barrávamos às mãos-cheias de manteiga Primor.
Agora sento-me em frente ao computador, depois de me levantar de manhã e beber uma caneca de café, e quando dou por mim tenho a página do Word em branco, não fiz nada, e a noite já cai lá fora.
Que porra de tempo este que me falha cada vez mais.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/16]

Persisto ou Desisto?

Persisto ou desisto?
Estou aqui no alto das escadas, acima da cidade. Ao fundo, na linha do horizonte, elevado e a roçar as nuvens que se atravessam neste céu azul de um Verão que está para durar, o castelo. Vista daqui, Leiria até é uma bonita cidade. O problema é quando nos aproximamos dela.
Acendo um cigarro. Sinto o fumo encher-me os pulmões.
Faço uma panorâmica sobre os telhados da cidade. Uma cidade envelhecida. Mesmo a sua modernidade é velha. Uma mancha verde que diminuiu. Assim, vista daqui, não parece uma cidade velha e triste.
Começo a descer as escadas de pedra. Degrau a degrau. Escavadas pelo anos. Pelos pés ao longo dos anos. Enquanto tento pensar. Enquanto tento tomar decisões. Temos sempre de tomar decisões.
O meu corpo chocalha enquanto desço. Pequenos saltinhos agitam o meu corpo já pouco musculado e com excesso de gordura. Cada passada abana-me a barriga, o peito, as peles dos braços. Muita comida de merda. Muito pão. Muitos fritos. Muita gordura. Muita comida barata. Comida para encher a barriga, não para alimentar o corpo.
Desisto?
Sinto um soluço bloquear-me a voz interior. Acaba-se o monólogo. Continuo a descer as escadas com a angústia a apertar-me a garganta e tento recuperar a calma, a lucidez. Não, não devo desistir. Não posso desistir.
Desço o último degrau. Coloco o pé na baixa da cidade. Entro pelas traseiras da esplanada do Liz Bar. Umas mesas por levantar. Há restos de marisco. Deixaram as cabeças do camarão. As pessoas não comem as cabeças do camarão. É a melhor parte. A mais saborosa. Onde todo o sabor se fixa.
Sento-me numa das mesas e começo a comer as cabeças dos camarões ali deixadas por quem não sabe apreciar. Bebo o resto da cerveja dos copos abandonados. Chupo as cabeças. Lambo os dedos sujos. Limpo as mãos às calças rotas e sujas. Limpo o nariz à toalha da mesa, à toalha de pano branca que está sobre a mesa, sob as taças com as cabeças de camarão que acabei por chupar e comer. Assoo-me. Há quantos anos não como uns camarões?
Vale a pena persistir?
Vindo lá de dentro, de camisa branca e calças pretas, a abanar um guardanapo branco, o empregado enxota-me. Se calhar tem medo que eu lhe roube a gorjeta. Mas não há dinheiro nas mesas. Nem notas nem moedas. Só as cabeças de camarão destruídas que eu já devorei.
Levanto-me da mesa e continuo pela cidade fora. Ou será pela cidade dentro?
Acendo outro cigarro. Soube-me bem, as cabeças dos camarões. Mas lembra-me outros tempos. Tempos em que eu também era outro. Em que eu podia pagar os camarões. E já nessa altura comia as cabeças. Sempre gostei das cabeças dos camarões.
Páro junto ao lancil do passeio. Há muitos carros a cruzarem a cidade. Passam depressa. Grandes carros. Boas marcas. Há dinheiro, em Leiria. Eu não tenho pressa. Mas pergunto-me se vale a pena. Desisto? Persisto? Tenho um pé em suspenso sobre a estrada. A estrada cheia de carros que voam com pressa para qualquer sítio. E eu? para onde é que quero ir?

[escrito directamente no facebook em 2020/09/13]

É Verão, Caralho!

Acordo com as portadas a baterem nas janelas. Viro-me para o outro lado da cama e tento voltar a adormecer. Mas penso que as portadas estão a bater com tanta força nas janelas que as podem quebrar. Mando o edredão para o fundo da cama e levanto-me maldisposto. Faço o corredor a refilar e saio pela porta da cozinha. Na rua está vento, um vento forte, e cai uma pequena chuva que mais parece cacimbo ou a maresia das manhãs de São Pedro de Moel. Estou longe de São Pedro de Moel. Estou nu e descalço. Volto atrás. Continuo a refilar. Visto uma camisola. Uns boxers. Calço uns chinelos. Volto à rua. Já há luz, mas ainda é de madrugada. Está um pouco de nevoeiro. Não vejo as montanhas. Não vejo grande coisa para além do meu próprio quintal. Dou a volta à casa e fecho as portadas das janelas. Depois penso que devia abri-las. Prendê-las, mas deixar as janelas abertas. Já há luz do dia, mesmo que de dia cinzento. Não tarda é manhã. Volto a dar a volta à casa a abrir as portadas das janelas e a prendê-las bem às paredes.
Entro em casa e descubro-me molhado.
Dispo-me e entro no duche. Tomo um banho rápido. Seco-me. Regresso à cama. Dou voltas. E voltas. E mais voltas. Já não consigo voltar a dormir. Estou desperto.
Levanto-me da cama. Estou outra vez nu e descalço, mas estou em casa. Volto à cozinha. Ligo a máquina do café.
Sento-me à mesa da cozinha à espera do café. Acendo um cigarro. Tenho à minha frente A Noite em que Gwen Stacy Morreu, de Gerry Conway e Gil Kane, a morte do primeiro amor de Peter Parker, o Homem-Aranha. Pego na novela gráfica mas não tenho coragem para ler. Não hoje. Não agora. Não quero mais angústia. Já ando angustiado que chegue.
A máquina do café faz barulho. Levanto-me para ir tirar um café. Olho para a rua e está a chover com mais intensidade. Penso É Verão, caralho! e suspiro.
Apago o cigarro no cinzeiro. Desligo a máquina do café sem ter tirado nenhum café. Agarro na novela gráfica do Homem-Aranha. Regresso ao quarto. À cama. Deito-me e tapo-me com o edredão. Deito-me agarrado à novela gráfica. Tenho um olho aberto e vejo a janela por uma nesga do edredão. Agora chove copiosamente. As portadas estão abertas mas presas. Não batem. Não fazem barulho. O único barulho agora, é da chuva a bater nos vidros das janelas de casa.
Sinto-me embalar ao som da chuva a cair. Sinto-me embalar no conforto da cama ao ouvir e ver a chuva a cair lá fora.
Fecho o olho aberto e viro-me na cama. Penso na Gwen. Acho que estou a ser puxado para dentro do sono. Não discuto. Não forço. Deixo-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/27]

A Memória Vem e Logo se Desvanece

É estranho as pequenas peças acessórias a que nos prendemos. De tanta vida que vivemos juntos durante aqueles anos, o momento que recordo com mais claridade e, afinal, com mais saudade, é um agarrar na mão dela e puxá-la comigo enquanto atravessávamos a estrada fora da passadeira e eu a via e sentia aos pulinhos com as suas sandálias de meio-salto que ela não dominava assim tão bem por ter-se licenciado a caminhar com botas, daquelas de meio-cano e rasas.
Estamos no passeio e eu decido que temos de passar naquele momento para não perdermos o que não poderíamos perder de maneira nenhuma, e eu agarro-lhe na mão, com a minha, e puxo-a e vejo-a vir atrás de mim, um pouco assustada e ao mesmo tempo empolgada, aos pulinhos nos meios-saltos, a atravessar a estrada e, ao chegar ao outro lado, encosta-se a mim, agarra-me, envolve-me com os dois braço em volta do meu pescoço, eu sinto o seu coração a bater, galopante, a cara rosada da excitação, a respiração pesada e a dizer Podíamos ter caído!, enquanto encosta os seus lábios nos meus, porque ainda não tinha coragem suficiente, nem nunca chegaria a ter, para enfiar a língua na minha boca e tocar na minha língua a mostrar-me como o desejo a consumia, mas os lábios húmidos dela encostados aos meus, secos, num beijo suave, assim de passagem, têm o mesmo efeito sedutor e dou comigo, tantos anos volvidos, a pensar precisamente nisso, nesse momento primordial, tão simples e aparentemente tão banal que afinal ganha alforria para aparecer como a súmula de todos aqueles anos. Nem sei porque passámos a estrada a correr. E importa, isso?
É o que recordo mais de todos aqueles anos em que vivemos juntos.
Muitas outras coisas aconteceram, claro. Muitas delas muito importantes, para o bem e para o mal. Mas nada me marcou tanto como aquele quase-nada que foi quase-tudo.
Acendo um cigarro. Estou debaixo do toldo de uma loja. Uma loja de comida de animais. O cheiro daquela comida enjoa-me. Está a chover. Estou molhado. Estou molhado mas consigo manter o cigarro seco e praticável. O Verão é chão que já deu uvas e a chuva rompe por Agosto.
Acabei de passar a estrada aos pulinhos para evitar as poças de água no asfalto. Não fugi aos pingos, mas tentei. Foram os pulinhos que me levaram no tempo. Foram os pulinhos que me trouxeram a memória.
Fico aqui debaixo do toldo da loja a fumar o cigarro. Vejo a chuva a cair. Aos poucos, a memória desvanece-se. Não é o que sucede com todas as memórias?

[escrito directamente no facebook em 2020/08/20]

O Cilindro de Água Quente

Comprei um cilindro cá para casa. O cilindro está na cave. Manda a água quente cá para cima. Mas continuo a manter o esquentador e uma botija de gás. Não vá o diabo tecê-las. Tenho dificuldade em tomar banho de água fria. Mesmo no pico do Verão quando mal saio do banho já estou a transpirar. Mas não consigo tomar banho de água fria. Gela-se-me o corpo. A pila encolhe. Os testículos parecem desaparecer. Os mamilos ficam rijos que nem pedras. Eu começo a bater o dente e, durante alguns segundos, não consigo articular palavra.
Agora com o cilindro, não me falta a água quente. Principalmente quando preciso de tomar um grande banho e esfregar o corpo com pedra-pomes. Exactamente com estou a fazer agora.
Vejo os fios de água vermelha que escorrem por mim abaixo, percorrem a banheira e deixam-se escapar pelo ralo depois de duas ou três voltas no vórtice da queda. Passo várias vezes o sabão azul e branco pelo corpo. Esfrego as mãos e os braços com pedra-pomes para tirar todos os vestígios. Depois ainda hei-de esfregar as unhas com uma escova. Já fiz a barba para raspar todos os pêlos da cara e a possibilidade de conter alguma gota. Esfreguei bem o cabelo. Não o vou cortar porque não posso estar sempre a cortá-lo. Cortei-o há três semanas e ainda está em fase de crescimento. Mais tarde hei-de ir queimar esta roupa que tenho aqui caída em cima de uma toalha. Queimo a roupa e a toalha. Sou cuidadoso. Tenho de ser cuidadoso.
Trouxe o martelo para o banho comigo. Também lavo o martelo com água quente. O martelo é todo em aço. Não tem madeira. É todo limpo. Fica sem mácula.
Vejo as últimas gotas vermelhas saírem de mim e escorrerem pela banheira até desaparecerem pelo ralo. Agora já não há mais vermelho. Agora estou imaculado.
Desligo a torneira. Seco-me numa toalha. Saio da banheira. Vou ao quarto e visto umas calças de fato-de-treino e uma t-shirt. Calço umas sapatilhas. Passo na casa-de-banho e enrolo a roupa na toalha e vou ao quintal. Enfio tudo no bidão. Despejo um pouco de gasolina do jerricã e deito-lhe um fósforo. Acendo um cigarro e fico ali até ao fim, a ver tudo a desfazer-se em cinza. As razões e os motivos acabam por desaparecer. E eu fico ali até ao fim. A comprová-lo.
Sinto-me aliviado. No fim, sinto-me sempre aliviado. Passou a fúria e relaxo.
Regresso a casa. Sento-me no sofá. Ligo a televisão. Sintonizo na CMTV e aguardo. Quanto tempo irá demorar desta vez? Estou ansioso.
Foi uma boa coisa comprar o cilindro cá para casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/18]

Uma História Efémera

Eu tinha dezasseis anos. Ela também. Eu ia de férias para a Zambujeira. Ela também. Eu apanhei o expresso da Rodoviária, na Avenida Heróis de Angola. Ela também. Eu ia sentado ao lado dela. Ela ia sentada ao meu lado.
Chegámos à Zambujeira, os dois ao mesmo tempo. Montámos os dois a canadiana. Depois vesti os calções de banho. Ela vestiu o biquíni. Eu fui para a praia. Ela também. Eu corri de mão dada com ela para o mar. Ela correu de mão dada comigo para o mar. Mergulhámos os dois de mãos dadas. Ela acabou a beber um pirolito. Eu ri-me.
Passámos o resto do dia entre a toalha, estendidos ao sol, e o mar frio do Atlântico. Eu fiquei vermelho. Ela ficou bronzeada. Ela besuntou-se com creme hidratante. E besuntou-me a mim. Eu queixei-me de dores. Ela riu-se.
Na primeira noite jantámos uma tosta-mista. Eu comi metade. Ela comeu a outra metade. Eu bebi uma cerveja. Ela também. Depois fui-me deitar. Ela também. Eu deitei-me com ela na minha canadiana. Ela deitou-se comigo na minha canadiana. Estávamos cansados. Eu dormi. Ela também.
Eu passei uma semana entre o parque de campismo, a praia e uns cafés ao fim da tarde, ao início da noite e, às vezes, ao longo da noite. Ela acompanhou-me sempre.
Eu estava apaixonado. Ela também.
Ao fim de uma semana, eu acordei na canadiana. Ela não acordou na canadiana porque não estava lá.
Ela não estava lá mas deixou um papel no lugar dela. O papel dizia Vou para a Quarteira. Vou ter com a minha tia. X.
Eu olhei o papel. Virei-o. Voltei a lê-lo. Quem era a tia? Porque é que ia ter com a tia? E o que é que queria dizer o X?
No dia seguinte apanhei o expresso de regresso a Leiria. Ela não. Voltei para casa dos meus pais. Ela, acho que ela continuou em casa da tia. Acho que não regressou a casa dos pais. Não naquela altura.
Passei o resto do Verão a ler livros de banda-desenhada e a ir mergulhar ao rio com o meu vizinho. Também fui aos pássaros. Nunca tinha ido aos pássaros. Não gostei. Não voltei a ir os pássaros. Continuei a ler bandas-desenhadas. Continuei a ir mergulhar ao rio.
Parti uma perna ao escorregar na beira do rio.
Quando as aulas recomeçaram, eu estava com a perna engessada. Eu vi-a. Ela viu-me. Ela perguntou-me Partiste a perna? Eu não cheguei a responder. Um tipo, mais velho (já tinha barba), chegou-se ao pé de mim e dela e abraçou-a. Trocaram um xoxo (é assim que se escreve?). Ela não esperou pela minha resposta. Foram-se embora abraçados.
Eu continuava com dezasseis anos. Ela também.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/05]

Escondido, parte 07

[continuação de ontem]

Onde é que eu poderia ir procurar alguém? Saber notícias? Perceber o que estava a acontecer e porque é que ninguém parecia ligar ao que estava a acontecer? Porque estava a acontecer alguma coisa, não estava? Eu não estava doido, pois não?
E foi então que pensei nela.
Achava que a tinha visto na manifestação. Ela era toda dada aos movimentos de contestação. E em defesa das minorias e dos animais maltratados. Um dia organizou o rapto de uns cães numa pequena quinta para os lados de Alcogulhe. Isso valeu-lhe uma noite de detenção na esquadra da PSP de Leiria. E essa detenção serviu-lhe como cicatriz, medalha e cv. Isso foi o que me atraiu nela, na altura. Depois, mais tarde, também foi o que me afastou.
No dia da manifestação, tive a impressão que a tinha visto lá no meio de um grupo de amigos. Mas não liguei muito. O que aconteceu, já tinha acontecido há muito tempo. E eu não estava em fase de relembrar histórias do passado, por mais engraçadas e importantes que tivessem sido. Estava noutra. E nem sequer me sentia muito ligado aquele tipo de manifestações. Foi mais pelo tempo que estive enfiado em casa. Foi mais pelo ambiente de festa que se adivinhava. Fui mais para desanuviar. E depois aconteceu o que aconteceu.
Agora as coisas tinham-se tornado outras para mim. O que tinha acontecido na manifestação tinha-me empurrado para outro lado. Agora não era só uma brincadeira, uma forma de desanuviar daqueles quatro meses enfiado em casa e longe de toda a gente. Agora era sério. Agora tinha-se tornado sério. Alguém estava a querer tomar conta da vida. Da vida de todos nós. Alguém estava a querer fechar-nos dentro de uma gaiola e dar-nos ordens. E, aparentemente, quase ninguém parecia preocupado com isso.
Voltei a cruzar a cidade. Subi à Gândara dos Olivais e acabei por andar por lá à procura da casa dela. Aquilo parecia-me tudo igual. Casas, casas, casas. Casas e hiper-mercados. Um bowling. Já lá houve uma Moviflor. Agora há lá uma escola. Os miúdos saem directamente das mesas da escola para os lineares dos hiper-mercados. O mercado de trabalho não qualificado vai de vento em popa. Salários baixos e bons lucros.
Às voltas pelas ruas que me pareciam todas iguais da Gândara dos Olivais, acabei por pensar na primeira vez que fodemos. Foi logo depois da história os cães de Alcogulhe. Achei que tinha sido um grande feito e fui dizer-lho ao balcão do bar onde a encontrei no próprio dia em que foi posta em liberdade. Meia-hora depois estávamos a foder na casa-de-banho, ela encostada à porta e eu por trás, rápido, violento, ambos a arfar e a acabarmos rápido o que estávamos a fazer depois da dona do bar ir lá bater à porta a mandar-nos para o Íbis. Ela ainda disse que o Íbis era caro. Eu disse-lhe, ao ouvido, que era mais bem cheiroso. Ela riu. Eu puxei as calças para cima e ela o vestido para baixo. Nessa noite ainda nos enrolamos no chão da sala e eu fi-la queimar as costas na alcatifa, ao fazê-la roçar-se, para cima e para baixo, à medida em que entrava e quase saía dela. Não deu um queixume. Eu queimei os joelhos, na mesma alcatifa, e passei dois dias com os joelhos a arder.
Andámos uns meses naquilo. Eu nunca tinha tido uma namorada assim. Assim tão corporal. Acho que nunca fodi tanto. Acho que nunca me apareceu foder tanto. E, contudo, uns meses depois, o adeus. Primeiro as férias de Verão e depois a Universidade. Cidades diferentes e um afastamento que surgiu natural. Cruzámos-nos uma ou duas vezes de regresso a Leiria, mas as coisas já tinham seguido outro caminho. Para mim e para ela. Foi uma das poucas vezes em que o fim surgiu sem dor nem dramas. Foi quase como uma normalidade. Como se fosse o prolongamento natural do que tínhamos tido.
Ao virar numa esquina pareci reconhecer a rua. Andei em frente até um prédio e era o prédio. O prédio dela. A porta da rua aberta. Subi no elevador. Toquei à campainha. Esperei. A porta abriu. E lá estava ela. Lá estava ela exactamente como me recordava dela. E depois olhei melhor e percebi que não. Não estava como eu me lembrava dela. Estava com os olhos inchados. Inchados e vermelhos. Tinha estado a chorar. Coisa que nunca a vi fazer. Ela não mostrou surpresa ao ver-me. Soube mais tarde que também me tinha visto na manifestação. E quando me viu ali, à porta de casa, percebeu que estávamos os dois na mesma luta.
Ela abriu a porta e deu-me passagem para o interior de casa. Depois fechou a porta, passou por mim e levou-me para a sala. Deu-me um copo de whiskey com três pedras de gelo e depois disse-me O meu marido está no hospital. E ela contou. E eu ouvi.
Na manifestação, quando as carrinhas bloquearam as saídas da Praça Rodrigues Lobo e os carecas saíram das caixas abertas das carrinhas, o marido dela foi o primeiro a levar com um taco de baseball na cabeça que lhe provocou um traumatismo craniano e, desde então, estava nos cuidados intensivos e o prognóstico era muito reservado. Mais ainda me contou que foi à polícia fazer participação e que a aconselharam a esquecer tudo o que tinha acontecido e não quiseram receber a queixa. Foi aí que percebeu que algo de muito errado estava a acontecer no país. Mas também percebeu que a maior parte das pessoas nem queria saber o que é que estava a acontecer.
E foi então que eu disse Então está mesmo a acontecer alguma coisa, não está? Então eu não estou doido, pois não?
Ao que ela retorquiu Acho que estamos todos doidos.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/24]

Escondido

Tínhamos ido todos juntos. Amigos, amigos de amigos, conhecidos. Era uma manifestação em jeito de festa. Tínhamos pintado os cartazes em casa. Uns em português. Outros em inglês. Uns a preto e branco. Outros muito coloridos. Ensaiámos palavras de ordem. Uns amigos, com uma banda de música, iam dar um concerto na manifestação, ali no meio dos manifestantes, sem palco, sem som de retorno, em jeito acústico. A girar entre as pessoas que tinham saído dos seus buracos de segurança, dos seus sofás, das suas redes sociais, para irem para a rua gritar, lutar, contestar, chamar a atenção. Afinal, toda a gente pensava da mesma maneira.
Anti-racistas. Anti-xenófobos. Anti-homofóbicos. Pela liberdade.
Era uma manifestação que era também uma festa. Depois de tanto tempo em reclusão por causa do contágio, sabia bem voltar à rua, voltar a ver amigos, e sentirmos-nos úteis por estarmos a lutar por aquilo em que acreditávamos.
De início, parecia mesmo uma festa.
Vivíamos numa bolha. Todos os amigos e os amigos dos amigos e os conhecidos, todos eles eram assim, pensavam assim, manifestavam-se por esses valores.
Depois, acabámos todos por perceber que o mundo não é a nossa bolha.
Eu tinha marcado encontro na esplanada do Jardim Luís de Camões, em Leiria. A concentração era na Praça Rodrigues Lobo e depois subiríamos até aos paços do concelho para entregar um manifesto na Câmara Municipal.
Bebi um café na esplanada do jardim. Estava muita gente. O ambiente era de franca euforia. Era Verão, estava sol e muito calor, e as pessoas estavam contentes com os reencontros. Depois começámos a ir para a Praça Rodrigues Lobo.
Alguém fazia um discurso com megafone. Parecia vir do lado dos arcos, onde estão os cafés. Pelo menos era para lá que estava toda a gente virada. Encontrei amigos. Cumprimentei-os acenando a cabeça. Ainda não estava preparado para tocar em ninguém. Sem vacina, eu fazia o meu papel. Máscara na cara, uma certa distância das outras pessoas e sem tocar nos outros. No bolso, um pequeno frasco com álcool.
Alguém tentava dizer alguma coisa, mas não se percebia. O som do megafone e o bruá de toda aquela gente não permitiam grandes conversas mais íntimas entre as pessoas sem que elas se aproximassem. Eu não me aproximava.
Foi então que veio uma carrinha de caixa aberta vinda do Largo Cinco de Outubro. Primeiro não percebi muito bem o que estava a acontecer, embora tivesse percebido alguma agitação. Uns tipos carecas, com farda para-militar e uma braçadeira vermelha no braço esquerdo, saltaram de cima da carrinha para o meio dos manifestantes, com tacos de baseball, e começaram a bater em toda a gente com quem se cruzassem. Batiam a torto e a direito. Primeiro, fiquei bloqueado. Deixei de ouvir o megafone. O bruá elevou-se. Agora ouviam-se mais gritos. Havia gente a correr. As pessoas corriam para uma qualquer das ruas que saem da Praça Rodrigues Lobo. Levado pelo pânico, também eu despertei do meu torpor e acabei a correr pela Rua Rodrigues Cordeiro, passei em frente ao restaurante Porto Artur e vi as pessoas que estavam na esplanada a olharem espantadas para toda aquela gente em fuga. Ao chegar à Rua Direita, virei à esquerda para subir ao Terreiro, quando reparei que estava uma outra carrinha de caixa aberta com outros carecas fardados munidos de tacos de baseball à espera, ao fundo da rua, à entrada do Terreiro. Voltei para trás. Enfiei-me numa das ruas da zona histórica que sobe até ao castelo. Perdi os meus conhecidos. Mas ia no meio de um mar de gente. Gente que fugia como eu. Gente que fugia não sabia bem de quê. Quer dizer, saber sabíamos, mas não queríamos acreditar que essas coisas acontecessem ali, exactamente ali, em Leiria, uma cidade pacata onde nunca acontece nada. O que é que se estava a passar na cidade? Quem eram aqueles tipos fardados, com fardas a lembrar os militares, que estavam a bater em toda a gente, sem olhar a quem? E a polícia? Onde é que estava a polícia?

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/18]