Estou no Outono

Estava na casa-de-banho. Estava sentado na borda da banheira. Olhava para a rua através do quadro da janela da casa-de-banho. As árvores verdes, pontilhadas já com algum amarelo torrado. O céu azul com nuvens esbranquiçadas, num espécie de óleo renascentista, visto na dimensão, à distância, como pano de fundo das árvores que estavam em primeiro plano. Eram pinheiros. Pinheiros mansos.
Estava sentado na borda da banheira, nu, e via-me branco, branquinho, como há muito tempo não me via. O Verão tinha acabado e eu não tinha aproveitado os dias de sol e calor para me bronzear. O sol não queima fechado em casa.
Estava na casa-de-banho e via, na rua, através do quadro da janela, as árvores verdes, pontilhadas de amarelo torrado, a esvoaçar um pouco ao ritmo suave da aragem que se fazia sentir neste início de Outono ainda soalheiro.
O tempo já não era mas também ainda não era. Estava num limbo entre uma coisa e outra. O tempo estava como eu, sem saber muito bem como estar e ser. Indeciso entre mundos, funções, desejos. A querer ser uma coisa mas sem deixar de ser a outra.
Eu estava sentado na borda da banheira, nu, olhava para mim e via como estava flácido. Os músculos dos braços tombados para o chão. A barriga proeminente. Sentado, já me dificultava a visão da pila. Onde estás tu? perguntava, e tinha de lá ir com a mão para a sentir e descansar. Ainda a tinha comigo, ainda era homem e a barriga não desfez a minha masculinidade.
Estava na casa-de-banho, com a porta aberta. De um lado ouvia a aragem que agitava as árvores lá fora, na rua. Um som suave, discreto. Um embalo. Do outro lado o silêncio. O silêncio ensurdecedor da casa vazia.
Estava sentado na borda da banheira e ganhei coragem, baixei-me e comecei a cortar as unhas dos dedos dos pés. Não gosto de cortar as unhas. E as dos pés, menos ainda. Mas há alturas em que já não podemos fugir a certas obrigações. E logo ao primeiro corte, um golpe no dedo e o sangue a jorrar. Não percebi o que aconteceu. Pus o pé dentro da banheira, liguei a torneira e pus o pé debaixo de água. Ardeu-me. E vi um grande golpe no dedo. Mais um pouco e tinha cortado mesmo a cabeça do dedo.
Levantei-ma da beira da banheira, abri a gaveta do móvel e tirei gaze, água oxigenada e betadine. Limpei o dedo. Tentei estancar o sangue. Agarrei em fita-adesiva e fixei a gaze. E pensei É melhor ir ao hospital. E levantei-me e fui, a coxear, vestir qualquer coisa para ir ao hospital ver se precisava de pontos no dedo.
Estava mesmo no Outono.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/12]

Anúncios

A Cadeira Miniatura da Minha Avó

No alpendre aqui de casa há uma cadeira pequenina, de madeira, comprada numa feira de artesanato, que lembra as clássicas cadeiras grandes de madeira, mas em miniatura, que era mais decorativa que outra coisa mas que o gato adoptou e para onde costuma ir dormir, principalmente se eu estou sentado lá fora, a fumar um cigarro, a beber um copo de vinho e a ler um livro ou, simplesmente, a olhar as montanhas em frente, carecas, secas e verde-musgo no Verão, cheias de neve branca no Inverno.
Às vezes, quando vejo o gato a dormir nessa cadeira em miniatura, lembro-me da minha avó materna que, lá em casa, em casa dos meus pais, tinha uma cadeira assim, parecida com esta, um pouco mais resistente e cómoda, onde a minha avó se sentava. Era a cadeira dela. Sentava-se naquela cadeira estivesse na cozinha a descascar batatas, na sala a ver as suas novelas, na varanda a respirar ar fresco ou no quintal a ver-me, a mim e à minha irmã, a brincar feitos cabritos, aos pinotes por todo o lado e a subir a nespereira que lá estava, para tomar conta de nós e ver se ninguém caía e partia a cabeça.
A minha avó só não se sentava naquela cadeira às refeições porque senão não chegava à mesa.
Sempre me interroguei o porquê de ela sentar-se sempre naquela cadeira.
Talvez porque tenha sido o meu avô a fazê-la com as suas mãos, de propósito para o corpo da minha avó. Talvez porque como ela era pequena, sentada naquela cadeira em miniatura conseguia ficar com as pernas num ângulo de noventa graus e não quase de pé como eu a via quando ela se sentava à mesa para almoçar ou jantar e só se encostava com o rabo à cadeira, até que um dia a cadeira escorregou e ela caiu. Não partiu a bacia, mas andou uns dias dorida. Depois, a partir desse dia, passou a sentar-se com o rabo na cadeira e os pé passaram a ficar pendurados como ficavam os meus quando eu era pequenino e queria ser grande. Ou talvez porque na sala ela enterrava-se no sofá e não conseguia sair sem ajuda e tinha a sensação que se ia afundar no fofo do sofá e ser engolida pelo monstro do conforto e nunca mais nos veria, a mim e à minha irmã, os seus diamantes, a quem permitia todas as brincadeiras por mais estúpidas que fossem.
Mas não sei. Nunca lhe perguntei. Nem nunca perguntei à minha mãe.
Lembro-me disso agora, quando vejo o gato deitado naquela cadeira miniatura que está no alpendre aqui de casa e que comprei numa feira de artesanato nem sei bem porquê.
Nos dias frios e de cacimbo, o gato dorme lá em cima, todo enrolado nele próprio, como uma bola de pêlo. Nos dias de calor deita-se esticado, por vezes com a cabeça tombada para o chão.
Quando o cão passa por lá, dá uma lambidela no pêlo do gato. A maior parte das vezes o gato ignora. Outras vezes levanta a cabeça, olha para o cão e volta a dormir. A vida é muito complicada para os gatos.
Acho que até a minha avó, velhinha, já com muitas dificuldades de locomoção, era muito mais interactiva que o gato.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/04]

A Celebrar o Equinócio de Outono

Estava toda a gente contente e triste ao mesmo tempo.
Estavam contentes porque celebravam o equinócio de Outono e, ao mesmo tempo, tristes por dizerem adeus ao Verão, às férias, ao calor e à vitamina D.
Mas estavam enganados.
O Verão não estava a acabar. Agosto já tinha partido, sim, era verdade. Setembro estava a chegar ao seu fim. O equinócio de Outono dizia-nos que estávamos a mudar de estação mas, na verdade, e eu sentia-o nos ossos, o frio ainda vinha longe e a praia ainda tinha muito para me dar.
Tenho ido todos os dias à praia. Ainda não é tempo das marés-vivas. Tenho mergulhado no mar. Todos os dias. Deito-me na areia e deixo-me lamber pelo sol.
Ainda ando de calções. T-shirt. Uso o cabelo curto. Às vezes boné para proteger a cabeça dos excessos de raios solares, principalmente nas horas mais quentes.
Mas já ninguém mais vem à praia. Pelo menos a esta aqui, onde estou agora, nu, com ela em cima de mim, a saltar em cima de mim a celebrar o equinócio. Com doçura. Com violência. Arranhou-me o peito. Fez sangue.
Celebra, miúda. Celebra comigo.
O mar está tranquilo. A água está fria, mas é o Atlântico, não é de se esperar outra coisa.
Estou deitado de costas na areia. Ela está sentada em cima de mim. Pula devagar. Por vezes mais depressa. Ginga as ancas com mestria. Eu olho o cimo das arribas e penso se ainda andarão por lá os mirones de Agosto. Se alguém está lá ainda a masturbar-se com a visão da performance sexual dela ou se está a gravar a nossa história para fazer um filme e colocá-lo no PornHub.
Estamos, também, a celebrar o equinócio à nossa maneira. Mais ela que eu. Eu estou mais concentrado em listar a equipa do Benfica que jogou no Sábado passado e não me vir depressa demais e deixá-la frustrada e furiosa com os seus desejos não cumpridos.
As cidades voltaram a encher-se de carros. Os transportes públicos voltaram a encher. Os estudantes ocupam as ruas com as suas manifestações pelo clima. Os partidos políticos, alheados do presente, mantêm as suas campanhas velhas e com cheiro a mofo, em arruadas, festas e debates onde não se fala de nada que interesse às gerações mais novas mas a mesma lenga-lenga de sempre, a esquerda, a direita, a maioria absoluta, os funcionários públicos, os professores, os enfermeiros, a tourada, a carne de vaca, a social-democracia na boca de todos e todos a jurar, a pés-juntos, que só eles conseguem estancar o aumento da pobreza e a falta de perspectivas de trabalho digno para o grosso da população que não tem as valências necessárias para as exigências do futuro.
Ela grita agora um pouco, embora tente abafar o grito, e eu penso que o salário mínimo são seiscentos euros. Seiscentos euros.
E acabo por me esquecer da equipa do Benfica e do valor do salário mínimo nacional e deixo-me ir com ela, para dentro dela e sinto-a tombar sobre mim e não sei se é verdade ou mentira, se ela chegou onde queria chegar ou só não quer que eu me sinta diminuído na minha evidente fragilidade sexual perante ela.
Enfim.
Ela levanta-se. Dá-me a mão. Ajuda-me a levantar. Vamos os dois de mãos dadas ao mar. Mergulhamos no Atlântico. Gritamos com o frio da água, mas rimos de estarmos ali assim, sozinhos, a viver o nosso Verão dentro do Outono e a pensar que Agosto é quando queremos e nós queremos Agosto agora, em plena celebração de um equinócio que também nós vivemos.
Aproveitamos uma onda para sair do mar e voltamos para as toalhas para aproveitar mais um pouco de vitamina D.
Mais tarde sairemos daqui. Subiremos à arriba. Iremos beber um copo de vinho branco. Petiscar uns camarõezinhos da Figueira. Olhar um para o outro. E iremos rir como parvos.
Como gostamos de ser parvos! E iremos rir de novo. E eu irei pensar se, um dia, irei encontrar a minha cara no PornoHub. Mas não estarei preocupado. Nem triste.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/23]

Arrasto-me

É Domingo e arrasto-me por casa. Vejo o sol muito amarelo a brilhar pouco na rua. Não sinto o calor que estava à espera de sentir. Já não sei se o Verão acabou se está para durar. O ano passado levei o Verão quase até Dezembro. Agora estou em Setembro e arrasto-me por casa com calças de fato-de-treino e camisola de mangas compridas. Não sinto o conforto que costumo sentir.
Acabei de comer umas torradas com pão de sementes, do Pingo Doce, e beber um chá frio de ibisco. Fiquei enjoado. Agora até o chá me enjoa. Pode ter sido o pão. A manteiga. A geleia. O frango assado que comi ao almoço com couve-coração regada com um fio de azeite.
Pensei em descer à rua e ir beber um café à pastelaria. Mas não me apetece sair de casa. Parece que o elevador avariou. Ouvi a campainha tocar bastante. Vozes zangadas. Tenho ouvido passos a subir e a descer as escadas ao longo do dia. Não me apetece descer à rua pelas escadas. Depois vou ter de as subir. Sinto-me demasiado cansado. A minha mãe, se fosse viva, haveria de perguntar Mas cansado de quê? Ao que eu haveria de responder Nem sei, mãe! Nem sei!
Vou à janela. Acendo um cigarro. Sabe-me mal. Mas continuo a fumar. Tusso um bocado. Mas aguento. Um homem aguenta tudo.
Acho que ando a perder cabelo. Tinha a almofada cheia de cabelos, hoje de manhã. E só podem ser meus. Ninguém mais lá tem dormido.
Fui mordido no braço. Talvez um mosquito. Tenho uma bolha que me provoca comichão. Tenho de pôr Fenistil gel. Tenho de ir ao quarto. Mas primeiro acabo de fumar o cigarro.
Ontem vi um bailado fantástico na RTP2. Foi por puro acaso. Giselle. Giselle de Akram Khan. Uma actualização da peça. Uma música assustadora. Doentia. Mas no bom sentido. A peça fez-me enervar, o que foi bom. Geralmente dá-me tédio. Ontem enervou-me. A música fez-me acelerar as batidas do coração. Demorei a adormecer. Revi a peça toda na cabeça. Acabei por adormecer no meio daquelas mulheres em pontas. A tremelicar. No meio daquele ambiente cinzento e muito triste. Gosto da tristeza. Acordei com a vontade de fumar um cigarro. E foi o que fiz. Vim para aqui onde estou agora. A fazer exactamente o que estou a fazer agora. A olhar triste para a rua a espreguiçar-se no seu Domingo.
Há muitos anos, neste dia, estaria, com o meu pai a ver um jogo de futebol da União de Leiria. Gostaria de voltar a esses tempos. Onde tudo era tão mais simples. Eu não me sentia cansado. Nem enjoado. O cabelo não estava a cair. E gostava dos Domingos.
Devia ir ler um bocado. Ir buscar o Fenistil e ir ler um bocado. Não sei o quê. Ler alguma coisa. Talvez os Cinco. Os Sete. Talvez um livro do Tio Patinhas em português do Brasil.
Mando o resto do cigarro para a rua. Sento-me no sofá e ligo a televisão. E deixo-me ficar por aqui. Já vou buscar o Fenistil. E o livro. Vou só descansar um bocadinho em frente à televisão. O que é que estará a dar na CMTV? Os Domingos são dias de gala televisiva, não?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/22]

O Acampamento

Os primeiros apareceram por aí está agora a fazer um ano. Vieram para o terreno aqui em frente. Um terreno abandonado. Acho que tem dono, mas nunca o vi por aqui. Cresce o mato. No Verão é um ninho de cobras. No Inverno impera a lama. De vez em quando vinha aqui um tractor cortar o mato. Mas ultimamente não tem vindo.
Os primeiros a chegarem foram as caravanas. Ao início pensava que eram caravanas a caminho das praias. Da Nazaré. Da Vieira. De Paredes de Vitória. Mas o tempo foi passando e elas não arredavam roda. Cada dia iam chegando mais. Depois começaram a aparecer as tendas. Primeiro as grandes, familiares. Mas depois também canadianas.
O baldio aqui em frente parecia ter-se transformado num parque de campismo selvagem. A GNR ainda aqui veio algumas vezes. Chegaram até a conseguir pôr toda a gente fora. No dia seguinte estava cá tudo outra vez. Isto aconteceu umas duas ou três vezes. Depois a guarda deixou de os incomodar. Passam por aí, entram lá dentro, dão uma olhada, e vão embora. Às vezes param o jipe. Saem. Dão uma volta a pé. Mão na coronha da arma. Ou no cassetete. Falam com um ou outro. E vão embora.
Foi quando começaram a chegar os que não tinham nada que percebemos o que é que estava a acontecer.
Começaram a surgir umas casas em cartão. Casas feitas com caixas de cartão, das grandes. Depois apareceram placas de esferovite. De contraplacado. Umas placas de zinco. Fizeram um poço. Colocaram uma torneira.
Nasceu um bairro. Nasceu um bairro aqui mesmo em frente. Um bairro espontâneo. Um bairro de deserdados. Gente escorraçada. Gente sem casa. Sem trabalho. Gente sem eira nem beira. Gente que não tinha mais para onde ir. Foram-se encostando uns aos outros, por aí.
No início tentaram saltar o muro aqui de casa para virem às maçãs e às laranjas. Mas o cão assustou-os. Deixaram de saltar o muro. Até porque há algumas árvores espalhadas por aí, pelos terrenos. Há muita árvore de fruta por aí. Fruta que se perdia pelo chão. Apodrecia. Agora não. Agora eles não lhes dão tempo para apodrecer. Eu quando tenho fruta penduro uns sacos no muro para eles levarem. E eles levam.
Alguns deles trabalham nas fábricas aqui à volta. Trabalham ao dia. À jorna, não é? Mas a maior parte passa os dias por aí, às voltas. Não há muito trabalho. Vão à taberna. Bebem um bagaço. Um café. Já houve alguma tensão. Umas conversas mais azedas. Mas nunca houve desacatos.
Às vezes vejo aí chegar uns carros. Estão lá parados, motor a trabalhar, e depois arrancam. Também já vi algumas pessoas da aldeia a ir dentro do acampamento. Não é muito difícil adivinhar o que é que lá vão fazer. Mas esta gente tem de viver de alguma coisa, não é?
A Junta de Freguesia já colocou lá umas casas-de-banho portáteis. É preciso é que lhes faça a manutenção.
Mas o terreno começa a rebentar pelas costuras. Cada vez chega mais gente. E a gente que chega está em piores condições que os que já lá estão. Há demasiada gente a viver mal num terreno cada vez mais pequeno. Um dia destes vão haver problemas. Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.
Há dois meses comprei uma caçadeira.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/11]

Esgotado em Menos de Uma Hora

Estava há uma semana no Rio. Uma semana para cima e para baixo. A subir e a descer os morros. A percorrer a Avenida Atlântica a bater os chinelos nos pés. Ia à praia. Mergulhava. Deixava-me tostar um pouco naquele sol de Inverno. Sobrevivia aos camelôs da praia que me queriam vender de tudo. Regressava a casa para almoço. Antes de subir no elevador, tinha de limpar todos os grãos de areia presos no corpo, nas pernas, nos pés. Dormia a sesta. Depois voltava a sair. Percorria a Zona Sul toda a pé e debitava, de cor, entre dentes, a Puta de Rogério Skylab

Você vai ao samba.
Uma cabrocha: só no sapatinho.
Gostosa!
No final das contas vocês vão pro motel.
Transam a noite inteirinha.
Trinta dias depois ela volta. Grávida.
E quer ter o filho.
Conclusão: você vai pagar pensão pro resto da sua vida.
Ela te ama? Não!
O que é que ela é então?
Puta! É puta!
Mas você insiste.
Não entrega os pontos.
Vai ao shopping.
Quer comprar uma calça Lee.
Uma vendedora vem ao seu encontro.
E te trata pelo nome, como se fossem íntimos.
Gostosa!
E sensual! Provocante!…
Você não enxerga mais nada.
Compra calça, cueca, meia, sapato.
Conclusão: ela é uma vendedora? Não!
O que é que ela é então?
Puta! É puta!
Cidade do Rio de Janeiro.
Zona Sul.
Garota de Ipanema.
Gostosa!
Você quer morar lá.
Tem money? Não!
Então, não pode não.
Conclusão: essa cidade te ama? Não!
O que é que ela é então?
Puta! É puta!
Calma! Que é isso?
Você tá tão revoltado!, disse a psicanalista diante do meu delírio.
É que todas as coisas que eu via – criança, fábrica, escola… –, todas elas pareciam putas.
Trinta minutos depois, eu paguei a consulta.
E voltei sozinho pra casa.
Com aquela sensação:
Puta! É puta!

Parava nos botecos e bebia um chope. Comia um pastel. Frito. Enorme. Sentia o estômago crescer. Inchar. Uma gravidez psicológica. Então caminhava mais e mais. Caminhava até ao fundo da Zona Sul. Eu e Rogério Skylab. Até Ipanema. Até ao Leblon. Regressava. Um cigarro na mão. O olhar ao longo daquela enorme praia invernal, como se fosse um Verão na costa atlântica portuguesa.
Na Sexta-feira passei na Bienal do Livro. Comprei alguns. Romances. Ensaios. Poesia. Banda-desenhada.
E então, vi-os chegar. Uma trupe entroncada. Armada. As botas cardadas a pisar as havaianas. Os corpos musculados a fazer tremer os corpos lingrinhas e frágeis. A brigada dos bons costumes a passar sermão à multidão de costumes liberais. A Bíblia numa mão. O cassetete na outra. A vistoria aos sacos de plástico. Não pelo plástico. Pelos livros. Pela subversão. Pelo descaramento. O olhar fulminante. O olhar que mata. A mão nervosa a apertar o cassetete. A vontade. A vontade. A vontade de bater pau no miserável impróprio.
Eu não abri a boca. Agarrei os meus livros contra o peito. São meus. Circulei à volta das bancas. E vi. Vi gente a comprar livros. Livros impróprios. Um olho no burro e outro no cigano. Também quero! E é o quê? Um beijo! Um rapaz que beija outro. Um desenho de um rapaz a beijar outro rapaz. As editoras a vender. A despachar livros atrás de livros. Os bons, os maus e os impróprios. Venderam-se milhões de livros. Tudo servia para mostrar a falta de medo perante um poder que se sente estremecer nos seus alicerces.
Em casa vi o material impróprio. Um beijo. Dois rapazes, super-heróis da Marvel, trocam um beijo. Um simples beijo. E não são ungidos em nome de Satã. São só dois rapazes apaixonados que trocam um beijo. Uma boca de encontro à outra. Dois lábios que se tocam. Duas línguas que talvez se toquem. Um desejo que talvez desperte. Esgotou em menos de uma hora.
Puta! É puta!

[escrito directamente no facebook em 2019/09/09]

O Prego

Eu olhava o pé e via o prego lá espetado. Havia sangue a escorrer para os lados.
A minha mãe tinha-me avisado Não andes descalço, rapaz! e eu, enfadado, dizia Estou de chinelos, mãe! ao que ela respondia É a mesma coisa!
Ela tinha razão. Nos sítios por onde eu andava, naquele Verão quente e solitário, o único miúdo da rua a ficar em casa nas férias, não havia dinheiro para os habituais quinze dias na praia da Vieira, andar com aqueles chinelos de borracha de enfiar no dedo era o mesmo que andar descalço.
E era.
Quando pisei a tábua com o prego, comprovei. O prego furou a borracha e o meu pé como se cortasse manteiga quente. Só dei por ela quando o prego estava já todo enfiado.
Nem percebi.
Andava pelos estaleiros da rua. Tempos de prosperidade no país. Novas casas. Novos prédios. Novas ruas. Nunca se tinha visto nada assim ali na zona.
Nós, eu e os outros, subíamos ao alto dos prédios e voávamos para os montículos de areia que estavam por ali, como pequenas dunas, à espera de fabricarem cimento. Quem não voasse era medricas. Quem é que não voava?
Naquele Verão solitário vagueava por lá, a fazer tempo, a queimar dias até à chegada dos outros miúdos, parceiros da bola.
De manhã ficava em casa a ler. Li muito nessas férias. Depois de almoço, saía de casa e aventurava-me sozinho pelas ruas novas. Os calções a cair pelo cu abaixo, os chinelos a bater na planta dos pés, chlep-chlep.
Procurava tubos de PVC para fazer cornetas. Martelos perdidos. Cheguei a trazer uma porta de madeira, dois cavaletes e uma plaina.
Já me tinha arranhado. Nunca tinha espetado um prego no pé.
Agora já tinha um. Olhava para ele. O prego espetado no pé. O sangue a cair. Comecei a sentir náuseas. Dor de cabeça.
Pensei Puxo o pé de uma vez.
Tentei, mas não consegui. Não consegui sequer mexer o pé.
Lembro-me da primeira vez que voei para um monte de areia. Saltei do primeiro andar. De uma varanda aberta de um primeiro andar. Lembro-me de me sentir o Super-Homem enquanto voava da varanda para cima do monte de areia. Um pássaro. Um avião. Eu!
Baixei-me para ver o tamanho do prego. O tamanho do buraco. A quantidade de sangue. Senti o olhar fugir. A cabeça começou a rodar numa espiral. O sangue desapareceu. O prego desapareceu. O buraco não existia. Doía-me a barriga. Chegaram os vómitos.
Eu disse, baixinho Mãe!
E ouvi-a dizer Eu avisei-te! mas se calhar imaginei.
Vomitei. E depois senti que o chão já não existia debaixo de mim e o mundo era uma mancha preta no vácuo.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/30]