Tudo Escuro, Tudo Morto

Acordo assustado. Estou numa aflição. Pareço ter um peso sobre o peito. Sinto-me esmagar. Não consigo respirar.
Abro os olhos e olho o tecto escuro. Uma faixa amarela, do candeeiro da rua, cruza o tecto em diagonal. Vejo uma aranha a caminhar ao longo do feixe de luz.
Quero respirar.
Empurro com os pés, o edredão para o fundo da cama. Tenho peso em cima de mim. Preciso de me libertar.
Levo as mãos ao pescoço e massajo-o. E aperto-o. Para o libertar do que o oprime.
É um pesadelo que se transforma em angústia. Não sonho. Normalmente não sonho. E descubro-me num pesadelo. Não sei o que era. Só que me acordou. E me deixou assim. Assustado. Aflito. Como uma pata de elefante sobre o peito. A esmagar-me. A bloquear-me a respiração.
Ar.
Preciso de ar.
Arranho o pescoço como se arranhasse a garganta. Abrir caminho para o ar entrar nos pulmões. E respirar.
Inspirar.
Expirar.
Olho para o lado. Para a mesa-de-cabeceira. Vejo os contornos do Ventilan, mas não consigo chegar-lhe. Não consigo deitar-lhe os braços. As mãos. Os dedos.
De qualquer forma, não conseguiria fazer entrar o Ventilan nos pulmões. Nos alvéolos. Não tenho força para respirar. Para inspirar. Para expirar. Estou bloqueado.
Sinto o corpo aos saltos na cama. São espasmos. O corpo refila a ausência de ar. A ausência de oxigénio.
Sinto a vida a ir. Não consigo respirar. Sinto as pernas a espernear no ar. As mãos agarradas ao pescoço. Arranham o pescoço. Sinto o sangue a sair pelos rasgos das unhas. Sinto o sangue quente. Sinto-me quente. E sinto-me a rebentar. Sinto que vou explodir como um sapo com um cigarro na boca que não consegue parar de o fumar.
Já não vejo a aranha no tecto. O feixe amarelo que cruzava o tecto na diagonal desapareceu. Ou sou eu que já não o vê. Está tudo escuro.
Já não tenho forças. Já não tenho esperança em conseguir desenrolar o novelo e conseguir respirar. Dói-me. Nem sei bem o quê.
Abro muito a boca. Não entra ar. Não sai nada. Nem voz. Sinto os olhos esbugalhados. Mas já não vejo nada. Só escuridão.
Está tudo escuro. Está tudo morto.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/14]

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Com um Curso de Sociologia

Quase todos os meus colegas de Sociologia estão desempregados. Os que não estão sem trabalho estão em call centers. Há dois deles a dar aulas de Filosofia. Um está a dar Comunicação Social. Todos no secundário. E ainda há um outro que é Bibliotecário, mas tirou um curso de especialização quando percebeu que com a Sociologia não ia a lado nenhum.
Eu sempre fui um ingénuo.
Porque é que há cursos de Sociologia? Porque raio fui eu para Sociologia?
Lembrei-me disto enquanto confirmava que o Verão foi violado pelo Inverno, na sua própria casa, e não há autoridade que lhe meta a mão e organize o que está desorganizado.
Estas alterações têm implicações em mim. No meu funcionamento. No funcionamento do meu corpo.
Estou com tanta bronquite que voltei ao Ventilan. O Xoterna não é suficiente. Mas estou com dores nos pulmões. Parece que estão a arder. Mas não é a arder de acidez, como às vezes acontece na garganta e tenho de chupar um Kompensan. Não. É como se os pulmões encolhessem e não houvesse espaço suficiente para albergar todo o ar que necessito em cada movimento respiratório. Depois sinto umas picadelas, insisto e parece que começam a arder.
Estou à janela, curvado sobre mim, com os polegares nas presilhas das calças para aguentar o meu corpo curvado, a olhar para a rua e a ver as nuvens escuras que passam sobre a casa, sobre as montanhas lá ao fundo, e trazem a promessa de chuva forte e furiosa.
Estou em Agosto e estou cheio de bronquite à espera que chova.
E foi assim que regressei à Sociologia. Porque a culpa é da Sociologia. Se estivesse a trabalhar, provavelmente não estava agora em casa à espera da chuva porque não iria tirar férias em Agosto, porque não gosto de férias em Agosto, ia estar a trabalhar, não pensava nestas alterações tão visíveis à minha frente, nem tenderia a ficar com bronquite porque o trabalho não me deixaria pensar nisso (e uma grande percentagem da minha bronquite é psicológica que se torna física porque não consigo desviar a cabeça daí), não pensaria que estas alterações de clima interferem na minha respiração, não teria dificuldade em respirar, não precisava de Ventilan e os pulmões não me iriam doer por excesso de cortisona.
Ah, porra! A culpa é da Sociologia e do desemprego para onde me despejou.
Tenho tentado concorrer aos hipermercados aqui da zona. Sou eliminado por excesso de formação. Na verdade acho que têm medo que leve a revolução aos lineares.
Faço uns biscates. Corto alguma lenha. Mas já tenho as costas muito velhas para conseguir forçar o machado nos veios do pinho. Ajudo os vizinhos na apanha da fruta. Faço de copy para as pequenas lojas das redondezas a tentar sobreviver aos hipermercados. Este ano também ajudei a limpar o mato. Mas se houver um incêndio, vai haver um incêndio. O que se limpou faz a mata ficar mais bonita, afasta o início de incêndios por incúria, mas se vier um fogo por aí a baixo, passa por cima de tudo isto na mesma.
Na verdade, a única coisa boa, nisto tudo, é o Inverno ter ocupado o lugar do Verão. É mais fácil evitar incêndios com dias de chuva do que com a mata limpa em dias com quarenta graus.
Andou um tipo a estudar Sociologia para isto.
E agora nem um cigarro consigo fumar. Raios me partam!

[escrito directamente no facebook em 2019/08/05]

Flávio com F de Folha

Três dias a tomar Nimed não me arrasaram o fígado, mas trouxeram-me de volta a bronquite. O Xoterna já não me defende. O Ventilan já quase não funciona como s.o.s.. Mando várias bombadas na tentativa de abrir os pulmões. Mas parece que estão cada vez mais fechados. Levo cada vez mais, menos ar aos pulmões que parece que estão cheios de outra coisa que não ar. Faço uma grande barulheira a respirar. Parece que tenho um saco de gatos no peito. O coração bate rápido e parece querer saltar para fora. Talvez saia pela boca junto com um vómito. Estou cansado. Parece que acabei de correr a maratona. Tenho de me agarrar à parede enquanto caminho para o carro. Tenho de sair de casa.
Sento-me no carro. Sento-me com cuidado. Devagar. Doem-me as costas. O Nimed não resolveu o assunto. E tive de parar por causa da bronquite. Hoje tomei um Voltaren. Encosto-me direito no banco. Descanso. Estico as costas. Recupero o ritmo da respiração. Mas continua muito acelerada. Tento não virar nem dobrar as costas. Ligo o rádio.
Na rádio informam que há um grande incêndio activo em São Bartolomeu de Messines. Cada vez que ouço falar em São Bartolomeu de Messines lembro-me dos Flávio com F de Folha (mais tarde Supernova) o melhor nome de banda que alguma vez existiu.
Ali para os lados das serras d’Aire e dos Candeeiros também se vêem umas colunas de fumo. Há fogo, provavelmente. O país é para queimar. Burn bitch, burn!
Tenho de ir a casa da minha mãe. Prometi aspirar-lhe a casa. Provavelmente não devia lá ir. Não devia mexer com pó. Não devia agarrar no aspirador. Não devia baixar-me. Mas prometi.
Agarro o volante e espero. Espero estar em condições para arrancar com o carro. Olho para o braço. Está cheio de borbulhas. Parecem bolhas de água, mas não são. Isto é alergia ao calor. Tenho de tomar um Zyrtec. Quando voltar. Tenho os comprimidos em casa. Ainda posso voltar atrás. Vou voltar atrás. Preciso só de descansar um pouco.
Na rádio ouço alguém dizer que o Kit de Incêndio distribuído às populações das Aldeias Seguras é afinal um brinquedo para ajudar na prevenção. Acho que anda alguém a brincar com isto tudo.
Acabo por sair do carro. Regresso a casa. Tomo um Zyrtec. Abro o frigorífico e empurro o comprimido com água directamente de uma garrafa. Gosto de água fria. Gelada. Mesmo de Inverno. Sinto o corpo estranho. Doem-me os olhos. Acho que me dói tudo. Ultimamente dói-me tudo. Devo estar a chocar alguma. Agarro na caixa de Antigrippine e tomo dois comprimidos. Bebo mais um gole de água. Vou a sair de casa. Abro a porta da rua mas volto a fechá-la. Tenho de me prevenir. Agarro num copo. Verto água fria lá para dentro e mando-lhe com uma Cecrisina. Olho enquanto se desfaz. Vejo as borbulhinhas a explodir para fora do copo. Molha-me a cara com gotas minúsculas. Quando está toda diluída e a água cor-de-laranja, bebo tudo de um gole. Gosto do sabor da Cecrisina.
Agora sim, saio de casa. Vou amparado à parede até ao carro. Sento-me com cuidado. Devagar. Agarro no volante e espero que a respiração acalme. Descanso. Penso que não devia ir a casa da minha mãe. Penso que devia ir para a cama. Enfiar-me debaixo do edredão de Verão e esperar até estar outra vez bem. Sim, porque tudo acaba sempre por passar. Mas não posso. Não posso não ir a casa da minha mãe depois de lhe ter dito que ia lá. Tenho de ir aspirar a casa dela.
Estou cansado. O país está a arder. Os ministros respondem mal às pessoas. Já não sei que comprimidos tomei. Já não sei que mais comprimidos podia tomar para ficar melhor. Se calhar devia fumar um charro. Talvez me acalmasse. E então, volto a pensar de novo nos Flávio com F de Folha e penso Porque raio é que as coisas boas acabam tão depressa? Agarro o volante e espero acalmar. Se melhorar, hoje vou ver um concerto do Zé Café & Guida. Tenho de viver o meu Verão. Enquanto estou vivo.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/26]

Perdi a Mochila que Levava às Costas

Atravessava a cidade quando ouvi o primeiro trovão. Fui apanhado desprevenido. Eu e todas as outras pessoas que de deslocavam na baixa da cidade em final de dia cheio de um calor tórrido e sufocante. Estava de calções e chinelos. Uma pequena mochila às costas, com o iPad, a Moleskine, a Kaweco, o Ventilan, as chaves de casa, um pacote de lenços de papel, um canivete-suíço e o livro que andava a ler. Já não sei qual era o livro porque, quando tudo se precipitou, perdi a mochila com tudo o que lá estava dentro.
Quando rebentou o primeiro trovão, toda a gente se assustou. Foi um grande estrondo. E apanhou toda a gente de surpresa. As pessoas pararam a olhar para o céu, a tentar perceber o que estava a acontecer. E foi por pararem a olhar para o céu, que toda a gente viu, e eu também, os relâmpagos que se precipitaram sobre a terra, vindos de um céu que escurecera tão rápido que nem tivemos tempo de processar o que estava acontecer. Eu vi os relâmpagos a riscar o céu. E achei lindo. Fantásticas obras de arte. Uns riscos tortos, descendentes, luminosos, decididos e assustadores. Parecia que cortavam o céu, de cima abaixo. Como se criassem portais para outra dimensão, outro universo. E caíram assim vários relâmpagos antes ainda de se ouvir o primeiro som. E quando começou a ribombar, parecia um concerto celestial diabólico que se abatia sobre a terra, sobre a cidade, sobre mim. Uma percussão em ritmo cadente. Com os baixos a acompanhar.
Começou a chover. Uma chuva copiosa, de gotas grossas que magoavam quando me caíam na cabeça.
Olhei em volta. Desatei a correr até uma esplanada coberta do outro lado do rio. Cruzei a ponte. Olhei, pelo canto do olho, enquanto corria, a água do rio agitada, sovada por milhares de pingos agressivos que faziam subir estilhaços de água até à plataforma da ponte. Entrei dentro da esplanada coberta. O barulho era ensurdecedor. Os pingos da chuva caíam na cobertura da esplanada, que não sei de que era feita, e eram amplificados a ponto de não me conseguir ouvir a pensar.
Sentei-me, molhado, a uma mesa. Sacudi-me. Esperei que me perguntassem o que queria. Nem sabia o que queria. Mas ninguém veio ter comigo. Os empregados do café estavam todos a olhar a chuva a cair e ignoraram os clientes acabados de entrar, clientes assim como eu, fruto do acaso, clientes que se refugiaram ali da chuva e dos relâmpagos, mas que não deixavam de ser clientes. Eu queria qualquer coisa. Um chá, um café, uma cerveja, um bagaço. O que quer que fosse que saísse primeiro da boca no momento de fazer o pedido.
E foi então que um raio caiu no prédio em frente à esplanada. O prédio rebentou como se tivesse sido bombardeado e a deslocação de ar fez rebentar as janelas da esplanada e soprou toda a gente para o fundo do café.
O prédio em frente começou a arder. O café também. Houve máquinas a rebentar. O ar condicionado explodiu. Eu levantei-me. Corri para a rua. Estava a chover torrencialmente. Mas corri feito louco. Descobri que tinha perdido os chinelos e corria descalço. Cruzei de novo a ponte. Nem olhei para a água. Procurei a entrada de um prédio aberta. Não via nenhuma. As lojas estavam fechadas. Outras rebentadas. Os vidros partidos. Havia gente a roubar embalagens, camisas, calças de ganga, t-shirts, cintos dos prontos-a-vestir de montras escancaradas. E vi uma entrada de Multibanco com gente lá dentro. Corri para lá. Abriram-me a porta. Entrei.
Percebi que estava cansado. Com bronquite. Encharcado. Descalço. Com os braços cheios de sangue. Os pés pretos, sujos. Tinha perdido a minha pequena mochila.
Encostei-me a um bocado de parede livre e deixei-me escorregar para o chão. Sentei-me. Lá fora continuava a chover torrencialmente. Continuavam a cair relâmpagos que estavam a deixar a cidade a ferro e fogo. Os trovões não se calavam. E eu não sabia se ali estaríamos em segurança. Mas estava cansado. E senti-me a adormecer.
Sinto-me a adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/12]

Alergias

Tenho a casa cheia de pó amarelo.
Já aspirei. Varri. Limpei com um pano húmido. Mas o pó acaba sempre por regressar. Eu vejo-o a voar pelos feixes de luz que passam pelos buracos das persianas. Vêm lá de fora. Das árvores. Das malditas árvores.
Odeio árvores.
Chega a esta altura do ano e o pó amarelo invade-me a casa. Preâmbulo para me invadir os pulmões. E depois, só à cacetada. Xoterna. Brisomax. Ventilan. Zyrtec. Aerius. Chá Erva de Príncipe. Aguardente aquecida e bochechada antes de engolir. Tudo o que vagamente me afaste destas árvores da morte.
Odeio árvores.
Houve uma época em que alguém disse aos meus pais que respirar merda de vaca fazia bem à bronquite. Passei a frequentar, todas as Terças e Quintas-feiras, o estábulo da dona Albertina, a senhora que nos vendia o leite. Ia para lá depois das aulas. Levava um livro e sentava-me lá, ao lado das vacas, no meio do estrume, a respirar aquela mistura de merda com feno, na companhia das moscas e do rabo da vaca que por vezes me abanava o cabelo. Li muito Júlio Verne na companhia das vacas leiteiras da dona Albertina. Não resolveu os meus ataques de bronquite. A falta de ar. O vício da postura. O polegar preso na presilha das calças para aguentar o corpo cansado de tanto respirar. Mas conseguiu fazer-me ler bastante.
Tenho a casa cheia deste pó amarelo.
Abro as janelas. Vejo o sol a brilhar lá em cima. Em frente à janela do quarto o campo está verde, pontilhado de amarelo das azedas. Gosto de chupar as azedas. Gosto de como fica o interior da minha boca depois de chupar uma azeda. Vejo o cabrão do gato da vizinha que vem, sorrateiro, por entre as ervas, tentar saltar para cima da minha gata. Vem cá, vem!que te despejo um balde de água em cima!, digo, mais para mim que para ele.
No outro dia apanhei-o debaixo do alpendre a fazer olhinhos à gata. Levou com uma tigela de água em cima. Fugiu. Fugiu que parecia um foguete. Esteve um tempo sem voltar. Agora está aí outra vez. Vem atrás da Primavera, o cabrão.
Odeio os gatos que me querem comer a gata.
Também odeio as árvores que largam este pó amarelo.
E algumas pessoas.
Tenho saudades do Óscar. Ele costuma aparecer por esta altura. Talvez tratasse da saúde ao gato da vizinha. E já agora da vizinha, chata do caralho que não prende o gato, tantas vezes que a avisei.
Começo a coçar o corpo. Começo a ficar com umas borbulhas que aprecem bolhas de água. Dão-me comichão. Tomo outro Zyrtec. Sinto dificuldade em respirar. Como se não houvesse oxigénio suficiente no mundo. Mando duas bombadas de Ventilan. Sinto-me inchar. Maldita cortisona.
Odeio a cortisona. Odeio o gato da vizinha e a vizinha. Odeio as árvores. E algumas pessoas.
Fecho as janelas. Baixo os estores. Puxo as cortinas. Deixo a casa na penumbra. Se não vir o pó amarelo, ele não existe.
Prendo a respiração. Conto até trinta. É difícil. Depois deixo sair o ar. E volto a engolir ar de novo. Um ar renovado.
Vou sobrevivendo. Às árvores. Ao pó. A Deus.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/22]

Na Stereogun

Fui convidado para ler uns textos na Stereogun.
A princípio nem queria acreditar. Estórias na discoteca! Para quem?
Conversaram comigo. Tentaram convencer-me. Explicaram as razões.
Pensei.
Pensei.
Aceitei.
Seleccionei uns textos. Preparei-os. Li-os. Reli-os. Alterei alguns para serem lidos em voz alta. Para serem percebidos por quem ouve a minha voz. Para não matar de tédio o paciente habitual de uma casa de música.
Chegou o dia.
Estava nervoso. Escolhi a roupa com dificuldade. Tomei banho. Despenteei o cabelo. Vesti-me. Despi-me. Vesti outra roupa. Mudei de t-shirt. Tomei uma Cecrisina. Usei o Ventilan. Tudo na prevenção. Não consegui jantar. Tinha o estômago às voltas. Como se estivesse a preparar-me para um exame. Fui à casa-de-banho. Várias vezes.
Fui mais cedo para a Stereogun. Tive de esperar à porta que chegasse alguém. Estava tudo fechado. Era muito cedo. Chegara demasiado cedo. E precisava de ir, de novo, à casa-de-banho. Os nervos.
Chegou alguém. Abriu a porta. Deixou-me entrar. Fui directo à casa-de-banho. Mas que estava eu ali a fazer? Não conseguia frequentar casas-de-banho públicas! Lavei a cara. Esfreguei-a. Esfreguei os olhos. Olhei no espelho. Puxei de um cigarro. Acendi-o. Fiquei ali, na casa-de-banho, a fumar o cigarro, a olhar-me no espelho e a dizer-me Caga nisso! Não é nada! Nada de especial!
Quando saí da casa-de-banho, já a discoteca estava aberta ao público. Já havia algumas pessoas por lá. Fui para o balcão. Uma mini, pedi. E um Bushmills. Sem gelo. Despejei-o de um trago. Fiquei a brincar com a mini. Repeti a dose. E perdi-me nas contas.
Fui despertado por alguém que me agarrou pelo braço e me levou para o palco. Estava lá um banco alto. Encostei-me. Alguém colocou os meus textos num suporte à minha frente. Ao lado do microfone. Deu umas pancadas no microfone. Ouvi o pum-pum nas colunas. Deu-me também uma pancada nas costas e sussurrou-me Muita merda, pá! E por instantes não percebi. O que é que o gajo queria dizer com aquilo? Quis segui-lo com o olhar, mas o olhar embaciou e depois perdi-o na escuridão.
Eu estava debaixo de um foco de luz. Não via nada à minha frente. Esqueci onde estava. Esqueci tudo. Esqueci-me de mim.
Acendi um cigarro. Ouvi alguém dizer qualquer coisa, mas não percebi o quê. Um tipo aproximou-se de mim e tirou-me o cigarro. E disse Então, pá? Começa a ler a merda dos textos! E eu respondi Vai para o caralho!, mas acho que ele não ouviu. Ou não ligou. Ou cagou em mim.
Acendi um cigarro. Ouvi alguém dizer, aos berros pareceu-me, Apaga essa merda! Mas não tenho a certeza. Um tipo aproximou-se de mim, tirou-me o cigarro da mão e deixou-me um copo de whiskey. Acho que era whiskey porque bebi-o num gole e era amargo. Devia ser whiskey.
Acendi um cigarro. Comecei a sentir-me mal. A luz que tinha nos olhos estava a fazer-me confusão. Estava a ficar com calor. Tirei a t-shirt. Queimei-a no cigarro. Doía-me a barriga. Desculpem, o estômago – parece que é esta a expressão correcta. Continuei a fumar. Coloquei a mão em pala sobre os olhos para ver onde estava. Para ver quem é que ali estava. O que havia para além do projector, do foco de luz.
Ouvia barulho. Barulhos. Vozes. Um bruá de vozes. Não percebia o que as vozes diziam. Mas ouvia-as. Vertigens. Estava com vertigens. A cabeça começou a andar à roda. Segurei-me mais ao banco, mas o corpo não queria obedecer. Senti-me rodopiar. O projector de luz cegou-me. O corpo bailava. A cabeça parecia explodir. O estômago refilava comigo. Estava sozinho. Estava ali sozinho e não sabia onde estava. O cigarro caiu-me dos dedos para o chão. O estômago revoltou-se e rebentou. Senti uma massa amarga subir por mim acima. E da minha boca saiu um esguicho de coisas. De várias texturas. De inúmeras densidades. Vomitei. Vomitei para a minha frente. Vomitei tudo o que tinha dentro de mim para a minha frente. Ouvi gritos. Berros. Alguém gritou Filho-da-puta! Não sei se foi para mim. Senti-me cair. Senti dor. Dores. Senti-me magoar. Acho que vi sangue. Podia ser vomitado. E depois…
E depois tudo desapareceu. E eu desintegrei-me.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/20]

A Vida Era Simples e Eu Tinha de a Complicar

Eu estava sentado à mesa da sala. Sentado numa das cadeiras da mesa da sala. Era uma mesa que não era muito utilizada. Normalmente fazíamos as refeições na cozinha. Todas. Na sala víamos televisão e, em dias de festa, aí sim, a mesa era aumentada, com uma tábua que tornava a mesa um terço mais comprida, a minha mãe colocava uma toalha de linho, que era só utilizada nestas alturas, com uma toalha de plástico por baixo para não estragar a mesa, sendo que normalmente ficava furiosa porque apareciam sempre pingos de vinho e de molhos da comida, e a toalha ficava com mais uma nódoa porque Vocês são uns porcos! e O que vale é que tenho ali outra, mas não é para as vossas unhas que vocês estragam tudo!, mais o serviço de mesa inglês comprado a prestações na Lora e que, milagrosamente ainda estava inteiro, com peças que eu nunca soube para que é que serviam, mas que viam a luz da ribalta nestas alturas em que nós, todos nós, a família nuclear, de fatinho domingueiro, banhinho tomado e cabelo bem penteado, com o risco ao lado, nos sentávamos então na mesa da sala e parecíamos uma daquelas famílias da televisão, como os Buddenbrook, mas sem o glamour, a aristocracia e o dinheiro.
Eu estava sentado à mesa da sala mas não era dia de festa nem estávamos lá a fazer nenhuma refeição. Estava lá sentado porque eram as cadeiras mais altas de casa e, por causa de um ataque de bronquite, eu precisava estar sentado num sítio alto, muito direito, com os polegares enfiados nas presilhas das calças para abrir os alvéolos e me facilitar a respiração e tentar sobreviver a mais um ataque.
Estava com falta de ar.
Ainda não tinha descoberto o Ventilan.
A minha mãe fazia umas papas com linhaça, que cozinhava no fogão, fazia uma trouxa com um pano e colocava-me esse preparado sobre o peito. Parece que fazia bem à bronquite. E eu ficava assim, quieto, deitado na cama, de barriga para cima, a olhar as teias-de-aranha no tecto, com aquelas papas de linhaça quente sobre o peito, à espera que a bronquite desaparecesse e eu conseguisse voltar a respirar normalmente, como toda a gente.
Naquele dia eu sentei-me à mesa da sala para respirar melhor porque não queria ir para a cama com a trouxa de linhaça.
Naquele dia, que era já noite afinal, era um Sábado de Euro-Festival da Canção e eu queria estar ali, na sala, a ver quem ganhava, em que lugar ficava a canção portuguesa e qual a canção minha preferida para que, no dia seguinte, pudesse comentar com a Malta da Rua.
Tinha um gravador Sanyo ao pé da televisão, onde carregava nas teclas REC (a vermelha) e PLAY ao mesmo tempo para gravar todo o Festival e poder, no dia seguinte, dizer de minha justiça perante a plateia lá da rua.
Eu estava sentado à mesa da sala com dificuldade em respirar, mas atento ao fim da cassete para a virar para o lado B.
Cada vez que me sento numa mesa de sala, penso nos rituais motivados pela minha bronquite.
Cada vez que vejo o Euro-Festival da Canção, lembro-me do António Calvário, da Madalena Iglésias, da Simone, da Tonicha e do Fernando Tordo.
Cada vez que olho para a minha vida penso sempre como ela era tão simples, porque raio tive de a complicar?

[escrito directamente no facebook em 2019/01/13]