O Chocolate

Estávamos ali os dois. Um frente ao outro. Ela em frente de mim. Eu estava sentado no fundo do sofá. Sem possibilidade de fuga. Ela estava de pé. Braços cruzados. Acusadora.
Fazia perguntas. Já não sei que perguntas. Eram umas atrás das outras. Assim de rajada. Como uma metralhadora de perguntas. Eram disparadas à velocidade da luz. Eu não as via vir. Só me apercebia delas quando elas cá chegavam. Mas nem as ouvia. As respostas eram sempre as mesmas. Não sei. Não me lembro. Não me recordo. Não tenho memória disso. Não sei.
Ela estava a irritar-se com as minhas respostas. Sei disso porque percebi o tom de voz a levantar. Sei disso porque vi o pé direito a começar a bater no chão. Nervoso. Como a acompanhar o baixo de uma música punk. Três acordes mas muita raiva.
Tentei livrar o olhar de tudo isto. Ela estava entre mim e a televisão. Estiquei o pescoço para conseguir olhar a televisão. Eu não conseguia fugir, mas podia dispersar a atenção por outros lados.
Não sei se ela percebeu que eu desviei a minha atenção para a televisão. Ela continuou a falar. A perguntar. Eu já sabia que, cada vez que se impunha o silêncio era altura de dar uma resposta. E eu dava. Fosse qual fosse a pergunta. Não sei.
Na televisão estava um tipo com um monte de chocolates em cima de uma mesa. Tinha três chocolates na mão e abanava-os. Os chocolates. A mão abanava os chocolates. Gostava de perceber o que o homem estava a dizer, mas não conseguia ouvir. O som da televisão estava baixo e a voz dela impunha-se sobre tudo. Ainda tentei fugir ao tom dela e tentar apanhar o da televisão, mas não fui capaz. A voz dela mata tudo em redor. O melhor que conseguia fazer era ignorar o sentido do que dizia. Percebia que falava. Ouvia-a falar. Mas não percebia o que estava a dizer. Não importava. Importava só a resposta. Não sei.
Depois, alguém que parecia o presidente do Brasil, pegou num dos chocolates que o outro tipo tinha na mão, tirou-lhe o papel, não sem alguma dificuldade, diga-se, e comeu-o. Não podia ser o presidente brasileiro. Ele não ia para a televisão comer chocolates. Ou ia?
Levantei-me do sofá. E então, ouvi-a pela primeira vez. E ela perguntou Onde é que vais?
Eu não percebi logo, mas acabei por perceber. Ela estava a meio de uma comissão de inquérito sobre qualquer coisa que já não recordo. As minhas respostas não eram satisfatórias. Acho. E ela ficou irritada por eu me ter levantado do sofá com intenção de sair da sala. E perguntou Onde é que vais?
E eu disse que ia buscar um chocolate. De repente apetecia-me um bocado de chocolate. E ela disse Não há chocolate cá em casa. Nenhum de nós gosta de chocolate. O que é que te deu?
Sim, o que é que me deu? Porque é que queria chocolate? Ela tinha razão. Eu não gostava de chocolate. Nem ela.
E disse-lhe Vou buscar um copo de vinho. Queres? E ela disse Sim. Traz também os cigarros.
E ainda a vi sentar-se no sofá antes de sair da sala para ir buscar dois copos de vinho e o maço de cigarros. Não podia esquecer o cinzeiro que estava no lava-loiça a secar.
Hoje apetecia-me sexo. Apetecia-me ir para a cama com ela. Será que ela queria ir para a cama comigo? Era por isso que queria um copo de vinho? Queria libertar-se?

[escrito directamente no facebook em 2019/05/10]

Sexta-Feira Santa

É Sexta-feira Santa.
Almocei um bitoque na esplanada. Desculpa, mãe! Duas imperiais. Molhei um bocado de pão na gema mole do ovo a cavalo.
Ao meu lado, um casal com dois filhos adolescentes devorou um cabrito com batatinha assada e grelos. Por encomenda. Só há por encomenda. Os miúdos não tocaram nos grelos.
Enquanto bebo uma Ponte de Amarante e um café, observo quem passa na marginal à minha frente. Ao fundo o mar, de um azul bem escuro e a contrastar com o azul bebé pintado no céu.
Uma velha passa manca, sem bengala.
Três gordos com coletes do Moto-Clube da Nazaré discutem o tamanho das mamas da striper.
Carros, de alta cilindrada, passam em passo de caracol. Não há milagres. É a procissão dos tristes. Ali, na fila, são todos iguais. A rapariga do Punto. O homem do Jaguar.
As gaivotas vêm a terra. Grasnam. Voam em círculos. Rasam a cabeça das pessoas. É impossível não pensar no Alfred Hitchcock.
Um casal de namorados, muito novinhos, adolescentes, comem uns carapaus secos, como se fossem tremoços. Beijam-se. Ela queixa-se. Leva os dedos à boca e retira uma espinha dos dentes. Ele ri-se.
Há muita gente repetida a passar. Velhos barrigudos de bigode farfalhudo. Velhas empinocadas com o cabelo armado como as senhoras finas da Tentadora, ali no início da Ferreira Borges, no exclusivo Campo de Ourique, em Lisboa. Também há classe nas berças. E repetem-se. Há muita gente velha a passear ao sol envergonhado de Abril.
Uma miúda tira fotografias. É gira, a miúda. Coça a cabeça. Depois leva o dedo à boca. Ninguém é perfeito.
Uma criancinha chora. Quer um gelado. Um Epá. A mãe, presumo que seja a mãe, não diz nada e continua o seu caminho. A criança segue-a a chorar. Os dedos a esfregar os olhos.
Ao meu lado há uns espanhóis. Bebem cafés e comem pastéis de nata.
Há muita gente com roupa domingueira. Mas o Domingo já não é o que era. Nem as roupas. Muito menos as roupas domingueiras que hoje são compradas nas lojas dos chineses onde conseguem ser mais baratas que na Zara. Mas também são de muito pior qualidade. De qualquer forma não é Domingo.
Então, uma pausa. Não passa ninguém, agora. Acabo a Ponte de Amarante.
Do outro lado alguém berra Amanhã vou almoçar a Fátima! mas um velho pergunta O quê? Vou almoçar a Fátima! O velho acena a cabeça mas não ouviu nada.
Alguém deposita outra Ponte de Amarante à minha frente. Eu não queria. Mas não vou desperdiçar.
Os espanhóis vão-se embora. Passam mais motards. Gordos. Enormes. Alguns deles são mulheres. Também são enormes. Gordas. Mas têm os cabelos mais compridos.
Vejo alguém a tirar-me uma fotografia. Não digo nada. Aceito como parte do processo de globalização a que estamos sujeitos. Vou aparecer no Instagram de quem?
Senta-se um pai. Uma mãe. Um filho adolescente com a cara cheia de acne. Ele pede um café. Ela um descafeinado. Um compal para o miúdo. A mãe acende um cigarro. O miúdo abana a mão à frente da cara em jeito de reprovação. A mãe ignora-o. Putos insolentes!, penso.
Recomeça a passar gente à minha frente. Gente vestida para todas as estações. Miúdos de manga curta. Velhos com casacos de pêlo. Adultos com anoraques, gabardines e sobretudos. Mas está sol. E calor. É Sexta-feira Santa.
Reparo, ao olhar as pessoas que passam à minha frente, que há muita gente feia no mundo. Valha-me Deus.
Topam-se os estrangeiros pelos desenhos das caras. Pelos cabelos. Pelas roupas. Mas também são feios. Aqui, o mundo é democrata. São todos feios. Eu acabei por ter sorte.
Passa um pescador de camisa ao quadrados, como um grunge de Seattle, de bicicleta. Cigarro ao canto da boca. Atrás, uma miúda de patins segue-o.
Os carros continuam a passo de caracol. Já me agonia o cheiro a gasóleo, gasolina, combustível. O barulho dos motores. A greve dos motoristas de materiais perigosos não podia ter demorado um pouco mais?
No meio de tanta gente vestida de preto e cinzento, uma senhora passa com um casaco vermelho. Dá nas vistas. Os homens que passam por ela viram-se para trás.
Um rapaz olha para o telemóvel e escreve qualquer coisa enquanto caminha. Não olha para onde vai. Olha para o telemóvel. E escreve. Vejo os dedos mexerem-se à velocidade da luz.
Uma loira pára mesmo à minha frente. Baixa-se e sacode os cabelos. Depois tira um elástico do pulso e prende o cabelo num rabo de cavalo.
O pai já bebeu o café e pede uma mini. O filho pede uma torrada. A mãe acende outro cigarro.
Eu esqueci-me da Ponte de Amarante. Agarro no cálice e bebo dois goles. Também acendo um cigarro. Um homem senta-se ao meu lado, onde estavam os espanhóis, e olha-me com reprovação por estar a fumar ali na esplanada. Ignoro-o.
É Sexta-feira Santa. Alguém foi à missa?

[escrito directamente no facebook em 2019/04/19]

Os Anos Passam Rápido

Passaram os anos. Passaram à velocidade da luz. Ainda ontem apanhei a minha primeira bebedeira. Lembro-me de me sentir a morrer, a cabeça à roda, o corpo atrás da cabeça, o mundo a fugir de mim e eu enjoado. Vejo-me a vomitar. A vomitar para cima de mim. A vomitar-me a camisola, as calças, as botas. A transpirar. Eu todo um nojo de suor e restos líquidos vermelhos com qualquer coisa pastosa que se arrastava para fora da boca e rolava pelo peito abaixo com um cheiro azedo à volta, e a miúda a meu lado, a mão quente na testa fria, a aguentar aquele cheiro a podridão e a dizer, numa ladainha, Está tudo bem! Vais ficar bem! Isto vai passar! E eu a querer que ela se calasse. A sentir que ia morrer. Morrer para sempre. Morrer sem ter visto uma miúda nua. Sem ter tocado uma pele de seda do corpo nu de uma miúda, que o álcool apareceu primeiro que o sexo e está resolvida a questão do ovo e da galinha: mais tarde foi a bebedeira que desbloqueou o caminho para a cama de uma outra miúda, a primeira, agora já rapariga, mais crescida, assim como eu. Adolescentes, contudo. E foi ontem. Foi ontem que aconteceu. E aconteceu muitas vezes. Todas elas ontem. E recordo-as a todas. E eu não morri. Ou morri e ressuscitei de todas as vezes necessárias para me satisfazer e ficar com aquele sorriso parvo na cara, aquele sorriso parvo que tem quem se sente desfalecer nos braços de uma mulher.
Passaram os anos. Passaram rápido. Tão rápido que perdi tudo o que tinha. Perdi tudo o que tinha sem me aperceber. Todos os meus amigos. Todas as minhas amantes. Todos os meus filhos. Os meus pais. Ainda hoje aqui estavam, ao meu lado. Ainda hoje aqui estavam todos, na conversa. Na brincadeira. Nas conquistas. No amor. E depois, e depois nada, que nada se pensa quando estamos a girar loucamente, a acompanhar a rotação da Terra, e não queremos acreditar que deixámos coisas para trás, mas tão só que as largamos momentaneamente porque quisemos correr livremente de encontro a expectativas que se abriram no mundo e Eu volto! Eu volto!, ouço-me dizer e sei que não volto porque o tempo não volta, nem o tempo nem eu nem mais nada, a não ser a memória e isso é o pior de tudo porque fica aqui e tudo aconteceu agora e é sempre impossível fugir e esquecer o agora porque o agora está a acontecer e é o momento da eternidade e de quando tudo mais dói e não queremos que algum dia deixe de doer.
Passaram os anos. Tantos anos e tão rápido. Agora percebo o quão rápido tudo passou. Não houve tempo para corrigir os erros. Emendar a mão.
Agora só há tempo para este cigarro. Para este copo de vinho. E esperar que não doa mais do que tem doído. E que passe muito mais rápido do que o que já passou.
Sento-me no alpendre a olhar o horizonte. Um cigarro numa mão. Um copo de vinho na outra. A pensar que no meio de tudo isto houve muita beleza. Como este verde-azul que tenho pincelado à minha frente, a tentar deixar gravado na memória como a última imagem, como se fosse uma canção de amor eterno que irá perdurar para além de mim.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/25]

Ainda Estou Zangado?

Parámos em frente um do outro. Apanhados na coincidência. Ela a sair. Eu a entrar. Ela parou dentro do elevador com a mão a bloquear o sensor. Eu fiquei lá fora, à espera de poder entrar.
De início foi um reflexo condicionado. Intuitivo. Esperar que saíssem para eu entrar. Ela vinha, simplesmente, a sair do elevador. Mas entretanto, demos um com o outro. E bloqueámos. A porta do elevador, e não só.
Foram só alguns segundos. Talvez mesmo, uns nano-segundos. Mas que pareceram minutos. Uma hora. Talvez a eternidade.
Quando fora a última vez que estivéramos assim tão próximos? Fisicamente, digo. Quando? Talvez em São Pedro de Moel, quando ela disse o que disse. Ela na sua toalha. Eu na minha. Estávamos também assim, a esta distância um do outro. Mas um muro a separar-nos. Um fosso. Uma incomunicabilidade. Lembro-me que me levantei da toalha. Corri para o mar. Mergulhei. Mergulhei no mar de São Pedro de Moel. No mar Atlântico de São Pedro de Moel. Estava maré cheia. Mergulhei. Furei uma onda. Depois nadei um pouco em frente. Estava furioso. Mas ainda ouvi o apito da Natália. Prrrri! Prrrri! Sabia que o mar estava perigoso. Bandeira vermelha. Mas não conseguia voltar para trás. Encarar toda a gente. Levar um ralhete da Natália. Virei para a esquerda. Nadei ao longo da praia, mas para fora daquela zona. Para longe de toda aquela gente. Para longe dela.
Ela estava com a mão a bloquear o sensor para não deixar fechar a porta. Não sei se estava à espera que eu entrasse ou se queria sair mas não queria passar por mim. Não sabia bem o que estava ali a acontecer. Mas pensei na relatividade do tempo. Pensei que todas as análises que estava a fazer, como se fosse um algoritmo, estavam a acontecer à velocidade da luz e que, na realidade, este cruzamento não durou mais que um breve instante. Não mais que o momento em que os meus olhos olharam os olhos dela que olharam os meus. Um sopro.
O que é que estás aqui a fazer? pensei. O que é que estou aqui a fazer? pensei.
Nadei ao longo da costa. Passei a praia. As várias concessões. As várias Natálias. E saí já depois da zona das rochas. Nas praias mais afastadas. Estava cansado. Deixei-me cair na areia. Na areia molhada fustigada pelas ondas da maré cheia. Sentia a areia a fugir debaixo do meu corpo. Mas estava cansado. Precisava de descansar um pouco antes de me levantar. E quando me levantei, estava cheio de areia. No corpo. Dentro dos calções. No rabo. Na cabeça. Nas orelhas. Mas fui em frente. Subi a duna. Andei pela mata. Apanhei uma estrada. Uma estrada esburacada. Uma rua. Entrei num café. Pedi para fazer um telefonema. Telefonei. E disse Vem buscar-me, e sentei-me numa mesa, molhado, cansado, descalço e só de calções de banho. Pedi uma imperial. E elas foram chegando até chegar quem me vinha buscar. Não sei o que aconteceu depois. Perdi-me nas imperiais. Acho que fiz uns submarinos. Está tudo muito nebuloso. Mas nunca mais a vi. Nunca mais nos vimos. Até hoje. Até agora.
Ela tirou a mão do sensor e saiu do elevador. E quando saiu disse Olá!, quase sobrepondo-se ao meu Olá!, que disparei mal a vi mexer-se e sair do elevador, mas um bocadinho mais atrasado que o dela. Não sei se ela ouviu o meu cumprimento. Eu ouvi o dela. E entrei no elevador. Quarto andar. Dentista. Será que ela ouviu o meu olá? Ou acha que sou mal-educado? Ou que ainda estou zangado com ela? E estou? Ainda estou zangado com ela?
E o que é que isso importa, agora?

[escrito directamente no facebook em 2019/01/09]

Enquanto Ela Faz uma Panela de Sopa

Ela anda de um lado para o outro na cozinha a preparar uma sopa. Corta uns legumes. Batatas. Cenouras. Bocados de uma abóbora. A um canto da bancada, uma pequena televisão debita um qualquer programa da tarde que acompanha a espaços, enquanto vai colocando as coisas que preparou numa panela. Pega num copo de vinho branco e beberica um pouco. Olha para trás. Para mim. Sorri.
Eu estou aqui, também. Estou na cozinha. Estou sentado à mesa da cozinha e olho-a a preparar a sopa. Também tenho um copo de vinho branco. Mas bebo tudo de um trago. Volto a encher o copo. Sou eu que tenho a garrafa. E vou despejando-a à velocidade da luz.
Tenho um livro à frente. Tenho um livro sobre Charlotte Salomon à minha frente. Um livro sobre a vida e a arte de Charlotte Salomon. Para ler. Para ver. Para apreciar as suas pinturas. Mas não consigo. O livro mantem-se fechado. Aprecio o vai-e-vem dela enquanto prepara a sopa.
Pára por momentos em frente à televisão para ouvir melhor algo que lhe prendeu a atenção. Depois diz-me qualquer coisa. Se calhar relacionado com o que acabou de ouvir. Mas eu não ouço. Não consigo ouvir. Vejo-a. Vejo-a só. Vejo-a a falar para mim. E a continuar a cirandar na cozinha, de um lado para outro. A mexer em objectos que não conheço. Corta. Barra. Mistura. Despeja. Acende. Tritura. Separa. Lixo. Ufa.
Aproxima-se de mim e coloca-me à frente um prato com petiscos. Umas tostas barradas com queijo-creme, salmão fumado, cebolinho, limão.
A quantidade de coisas que consegue fazer ao mesmo tempo é assustadora. Eu não consigo fazer mais que olhar para ela.
Então, viro-me na mesa e deito o copo para o chão. Estilhaça-se. Estava vazio. Menos mal. Mas já ela vem com uma pá. Uma vassoura. Apanha os bocados de vidro. Depois traz uma esfregona e limpa o chão. Também não havia muito para limpar. Se não se fizesse nada, daqui a pouco estava seco. Mas ela limpa. Seca. E eu fico ali, fascinado, a vê-la pôr ordem no caos.
Já tenho outro copo à frente. Com vinho branco. Ele agarra o dela. Pede um brinde. Levanto o copo. Levantamos. Tocam um no outro. Ela bebe um golo. Eu volto a despejar o copo. Tenho de moderar a bebida.
Não estou embriagado. Tenho sede. E o vinho escorre pela garganta abaixo.
Volto a olhar para a Charlotte Salomon, ali à minha espera. À espera da minha atenção.
Ele tira-me o livro da frente. Põe a mesa. Dois pratos para sopa. Duas colheres. Um frasco de azeite. Umas azeitonas. Desliga o fogão. Acende um cigarro. Oferece-mo. Acende outro para ela. Pega-me na mão e leva-me para a varanda. Está frio. Um frio de rachar. Ela agarra-se a mim. Enfia-se debaixo do meu braço. Quer o meu calor. Fumamos os cigarros. Batemos o dente. Rimos da estupidez de estarmos ali ao frio. Acabamos de fumar. Deitamos as beatas fora. Voltamos para dentro de casa. Ela pega numa concha e coloca sopa nas duas taças. Põe-lhes umas azeitonas. Um fio de azeite.
Sentamos-nos em frente às malgas de sopa. Vimos o fumo a subir até ao tecto. Sopramos. Esperamos. Esperamos que arrefeça um pouco.
Eu vejo-a comer. Devagar. Devagarinho. Sopra. Arrefece.
E eu esqueço-me de comer a minha.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/07]

Ela Deu-me um Estalo e Eu Fui-me Embora

Ela deu-me um estalo.
Deu-me um estalo e depois ficou ali assim, parada, muito direita na cadeira, sem dizer nada, só a olhar.
Eu senti a cara a ficar vermelha. Não só do estalo. Forte. Sonoro. Mas também de vergonha. Vergonha das pessoas que, no café, viraram a cara para o que estava a acontecer e aguardavam uma resposta de minha parte. E olhavam para mim. Ostensivamente. Nem disfarçavam.
Eu não sabia muito bem o que fazer.
Ela continuava parada, muito quieta, à minha frente. Mas as feições da cara estavam a mudar. Estava com uma expressão dura. Como se estivesse para rebentar. Ou me quisesse rebentar a mim. Olhava-me mas entrava dentro de mim.
Eu estava bastante incomodado. Não queria estar ali. Mas estava.
Algumas pessoas tinham retomado as suas conversas. Mas ainda havia algumas a olhar de esguelha. Outras a espreitar por cima do jornal. Havia mesmo um miúdo que tinha o telemóvel virado na minha direcção. Estava a gravar, o cabrão.
Ela não dizia nada. Se calhar não tinha nada para dizer. Tudo ficara já dito quando me dera o estalo.
Eu olhei para baixo. Para a mesa. O café ainda estava na chávena. Um café queimado. A espuma era da cor da ferrugem. E já devia estar frio. Bebo-o ou não? Eu gosto muito de café. De todo o tipo de café. Expresso, americano, de saco, da avó… Aquele já tinha mau aspecto quando veio para a mesa, lembro-me bem mas, naquela altura, parecia mesmo intragável.
Não voltei a subir o olhar, mas senti os olhos dela em mim. Espetados em mim. Olhos agressivos. Frios. Facas disparadas à velocidade da luz.
Peguei na chávena e bebi o café de um gole. Travei um solavanco de vómito. O café sabia mal. Mas aguentei-o no estômago. Não queria mais vergonhas. Já bastava.
Coloquei a chávena sobre o pires. E contei Um… Dois… Dois e meio… Três!…
Coloquei as mãos na mesa e ajudei ao impulso para me levantar da cadeira. Virei costas e saí dali.
Não disse nada.
Enquanto percorria o café sentia o olhar desanimado das outras pessoas em mim. Não tinha havido sangue. Eu não tinha respondido. Aquele estalo não tinha tido consequências violentas. Que desatino. Que frustração.
Já estava a sair para a rua e a colocar as mãos nos bolsos das calças quando ouvi atrás de mim Espera! Espera aí! Onde vais?
Não me virei. Continuei em frente. Ia-me embora. Havia uma sessão de cinema no Miguel Franco e era para lá que ia. Nem sabia que filme era. Não importava. Uma sala de cinema vazia e escura era o que eu estava a precisar.
Atrás de mim continuava Ouve! Espera aí! Desculpa!

[escrito directamente no facebook em 2018/09/25]

O Happening

E depois da subida aos céus de uma festa, a descida aos infernos de uma ressaca.
Não falo por mim que não sou adepto de festas. Não faço comemorações, não assisto a efemérides, não festejo vitórias. Não me aproximo de grupos de gente em apoteose. Refugio-me na pacatez da casa e, se as coisas começam a descambar, se a minha rua se torna a rua deles, da turba, enfio-me na cama, tomo um zolpidem e vou directo para o dia seguinte.
Mas não me interpretem mal. Também bebo e, geralmente, de mais. Também ressaco. Mas ressaco sozinho. Vomito sozinho.
Estava na varanda a fumar um cigarro e a largar os borrões de cinza e vê-los serem levados pelo vento até tombarem na cabeça de alguém, quando olhei para a varanda do prédio em frente e vejo um tipo, nu, a vomitar para a rua.
Havia uma festa lá em casa. Eu fui vendo, assim discretamente, como quem não quer saber de nada, as miúdas a despirem-se, o pó a ser espalhado por cima da mesa de vidro, o álcool a despejar-se à velocidade da luz, as danças, as intimidades, os excessos.
Ainda fechei as janelas e as persianas de casa. Mas a curiosidade falou mais alto. Não gosto de pessoas mas gosto de espreitar pelo buraco da fechadura das pessoas. E fui olhando pelos buracos das persianas.
Aquilo era um happening.
A determinada altura acho que começaram a jogar ao quarto escuro, mas em toda a casa e com as janelas abertas.
Para ver melhor, fui para a varanda fumar um cigarro e largar borrões de cinza sobre as pessoas lá em baixo na rua. E foi aí que aconteceu. Alguém foi nu para a varanda vomitar para a rua.
Lá de baixo, da rua, chegou o barulho de alguém que não gostou da chuva que lhe caiu em cima.
Não demorou muito a ouvir-se a sirene da polícia. Lá em frente ninguém ligou nenhuma. A música estava alto. O tipo que tinha vomitado já tinha voltado para dentro de casa. A brincadeira continuava.
Fui à cozinha buscar um copo de vinho tinto. Acendi novo cigarro e sentei-me na varanda a apreciar.
O carro da polícia parou lá em baixo. Senti-os sair do carro, entrar no prédio e tocar à campainha da casa. Ninguém ouviu a campainha.
Estou curioso para ver o que é que se vai passar. Espero que alguém acenda a luz.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/27]