Os Comprimidos Cor-de-Rosa Já Não Fazem Efeito

Já tomei dois comprimidos rosa, mas não ajudou muito. Agarrei numa garrafa de Vidigueira tinto e fi-la marchar à velocidade da luz.
Sinto-me entorpecido.
Caminho entre o quarto e a cozinha. Faço o corredor. Faço o corredor entre os pontos mais longínquos da casa, o meu quarto e a cozinha. Cada vez me parece mais comprido. Cada vez pareço demorar mais tempo. Cada vez me sinto mais enjoado.
A meio de uma das viagens, faço um desvio à casa-de-banho e acabo a vomitar o syrah, os comprimidos cor-de-rosa e as iscas de cebolada que comi ao almoço. Não devia ter comido as iscas de cebolada.
Quem é que trouxe as iscas de cebolada cá para casa?
Vomito tudo o que tenho dentro de mim. E cuspo. Cuspo na retrete. Cuspo até não ter mais saliva. Lavo os dentes. Bochecho.
Sinto-me tonto. Tenho a cabeça um pouco à roda. Já não tenho nada para deitar fora mas ainda se sinto tonto.
Olho-me ao espelho da casa-de-banho. Vejo as olheiras. Dois papos negros, enormes, tombados sob os olhos. A barba com manchas de pêlos brancos. Algumas peladas. Vejo o cabelo a rarear. Tenho umas entradas grandes. A testa também parece ter crescido. Saem pêlos das orelhas. Tenho os lábios cada vez mais finos. Vejo os dentes amarelados do tabaco. E a espuma da pasta dos dentes nos cantos da boca. Baixo a cabeça e lavo a boca. Bochecho. Lavo a cara. Molho o cabelo. Respiro fundo. Levanto a cabeça.
Vejo uma lágrima a cair pela cara abaixo. Pode ser uma gota de água. Sinto um arrepio no corpo e não é um arrepio de frio. Sinto a angústia chegar. Começo a chorar. Faço uma cara feia ao chorar. Os olhos fecham-se e ficam pequeninos. A boca descai. As maçãs do rosto ficam encarnadas. A cara está luzidia. As lágrimas entram-me na boca e da boca sai uma baba que escorre pelo queixo. O pescoço parece enterrado no meu corpo.
Viro-me de costas para o espelho. Deixo-me escorregar para o chão, encostado ao lavatório.
Encolho-me. As pernas dobradas encostam-se ao peito. Enfio a cara entre as pernas. Dou um berro.
Sinto-me a aliviar. Deito o ar fora, sonoramente, em golfadas. Acalma-me.
Levanto-me. Evito olhar para o espelho da casa-de-banho. Lavo a cara outra vez. Lavo a boca. Bochecho. Esfrego os olhos. Assoo-me e faço barulho ao espremer o nariz para fazer sair a merda que lá está estacionada. Limpo a cara.
Vou até à cozinha. Acendo um cigarro. Olho para a rua. Não consigo ver como é que está o dia. Se é dia ou noite. Se está de chuva ou de sol. Não consigo ver lá para fora. As portadas da cozinha estão fechadas. Olho para a garrafa de vinho vazia. Não tenho mais nenhuma! penso.
Deixo cair o cigarro no chão da cozinha. Esmago-o com o pé descalço. Regresso ao quarto. Volto a fazer o corredor. Agarro em mais dois comprimidos rosa. Não tenho água. Não volto à cozinha. Não vou à casa-de-banho. Engulo-os assim, a seco. Sinto-os arranharem-me a garganta, mas descem por mim abaixo.
Entro na cama. Tapo-me com o edredão.
Espero que passe. Espero que tudo passe.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/29]

Aquele Mês de Agosto

Naquele mês de férias que passei em casa dela, à hora do almoço ela mandava-me sempre para trás da casa, para perto da garagem, onde tinha uma espécie de churrasqueira que o ex-marido tinha construído, com tijolo e cimento e uma chaminé que subia acima do telhado da garagem e levava o fumo para os quintais da vizinhança, numa zona ventosa, e eu ia para lá todos os dias assar sardinhas, pelo menos enquanto houvesse sardinhas, pensava eu, tendo-me esquecido que agora havia sempre sardinhas o ano inteiro porque o Pingo Doce as vendia congeladas e as sardinhas aguentavam assim todos os meses do ano e então, o mês de Agosto, não haveria de ser um problema e sofrer com falta delas.
Assava primeiro dois pimentos, um verde e outro vermelho, que metia, assados, dentro de um saco de plástico que fechava, com um nó, e deixava-os ficarem lá a cozer a pele até ela lá ir buscá-los e levá-los para dentro de casa, despelá-los e juntá-los à salada que estava a fazer e com o qual iríamos acompanhar as sardinhas. Eu também cortava uma fatia de broa de milho para cama da sardinha e que guardava até ao fim, depois de comer todas as sardinhas que me estavam destinadas, para que estivesse bem embebida em azeite e pedaços perdidos das sardinhas. Ela não comia a broa porque dizia que lhe provocava azia e flatulência.
As primeiras vezes, e dada a minha falta de cultura para fazer brasas e assar fosse lá o que fosse, eu, menino da cidade, armado de uma embalagem de gasolina Zippo despejava golfadas e deitava-lhes fogo e via os raminhos a começarem a arder, juntava-lhes o carvão e agitava as chamas com um abanador de palha que lembro de ver um parecido nas mãos da minha mãe quando ela também assava as sardinhas mas num minúsculo fogareiro na varanda do nosso apartamento na cidade. Aprendi depressa a desenrascar-me.
Passei todo o mês de Agosto a comer sardinhas assadas à hora do almoço. Depois dormíamos a sesta debaixo de uma árvore, deitados sobre uma mantinha que partilhávamos com as formigas, fazíamos amor quando acordávamos e dávamos um mergulho no tanque de água gelada que ela usava para regar as hortaliças que cultivava e que vendia para o Pingo Doce, e eu aproveitava para me lavar depois de andar a roçar-me nela e com ela.
Ao fim da tarde ela fazia uma sangria que despejávamos à velocidade da luz. Era refrescante e escorria pelo gargalo abaixo sem pedir autorização.
Ao jantar era ela que inventava sempre qualquer coisa, uma tosta, uma novidade criada assim em cima de uma fatia de pão que torrava e que eu comia com um prazer diabólico, ou uma salada, criada na hora com o que houvesse nas prateleiras do frigorífico ou esquecido na despensa. Às vezes misturava fruta nas saladas que fazia. E queijos.
No fim do mês de Agosto eu tinha engordado cerca de dez quilos.
Decidi que aquilo não era vida para mim. Quando tentei vestir umas calças de ganga, percebi que já não cabia dentro delas. Foi a gota de água. Fui-me embora.
Depois desse mês de Agosto de vacas bem gordas, acabei por cair de amores por uma rapariga escanzelada que a única coisa que cozinhava era um esparguete insípido, demasiado cozido, ao qual juntava uma lata de atum inteira e, às vezes, era ela que acabava por comer o atum todo porque nunca o misturava. Também não me demorei por aquela casa.
Hoje, quando como sardinhas assadas, lembro-me sempre daquele mês de Agosto. Eu nunca mais voltei a assar sardinhas. E tenho saudades daquelas tardes dormidas sobre a mantinha, debaixo da árvore, e do acordar com ela a enfiar-me traqueia abaixo e a dizer-me Cheiras a fumo.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/14]

Regressar a Casa, parte 02

[continuação]

Olho para a janela da cozinha por onde a minha mãe me chamava por diminutivo e vejo-a lá, nem nova nem velha, mãe, que foi o que ela foi sempre, mãe, e penso se vale a pena entrar em casa e deixar-me perder em histórias que já deviam estar mortas.
O que é que lá vou fazer? Recuperar memórias antes da casa ser vendida? Talvez lá estejam ainda os discos de vinil, os discos que nunca levei para mais lado nenhum das minhas casa por se ter intrometido o cd e o mp3 e o streaming e os vinis ficaram cá por casa nas estantes que pedi ao meu pai que fizesse, que tinham de ser fortes para aguentar o peso dos discos que foram sendo comprados ao longo de anos, primeiro timidamente nas discotecas da cidade e depois, mais tarde, vindos directamente de Inglaterra, por correio, porque cá não havia, e eu por ansioso a aguardar, e nunca mais chegavam, os discos, que as coisas às vezes demoravam a chegar e a aparecer, e era quando apareciam, e já o António Sérgio me ensinava o gosto pela diferença, o prazer de escutar sons que não escutava em mais lado nenhum e que fazia de mim um privilegiado que conhecia coisas que a maior parte dos meus amigos não conhecia e ficava muito contente quando encontrava alguém assim, um desconhecido com os mesmo gostos que eu, principalmente se fossem raparigas, e para quantas delas não fiz eu cassetes-pirata com selecções minhas das músicas que passariam a ser nossas pelo tempo que fosse, e nunca era muito tempo porque os gostos mudavam à velocidade da luz e era impossível estar parado, tranquilo, com os acenos que a vida nos dava e hoje, quando penso na calma da vida que levo hoje, na música que já não ouço e nas raparigas com quem já não namoro, pergunto se cresci como devia, se envelheci como devia, se a minha vida foi aquilo que quis que fosse ou se foi aquilo que mereci, depois de tantas cabeçadas dadas ao longo dos anos sempre a aprender, sempre a aprender, mas sempre a cometer os mesmos erros, sem perceber que as mesmas acções dão sempre os mesmos resultados, depois de fugir de casa, da cidade, do país, conhecer mundo e gente diferente com gostos e conhecimentos muito diferentes para terminar aqui, outra vez, no mesmo país, na mesma cidade, na mesma casa, a casa que foi minha, e ainda é claro, agora que os meus pais se foram, agora que eles morreram e a casa está vazia e em silêncio e eu só quero é desfazer-me dela e continuar a minha vida longe de histórias que já ficaram lá para trás e algumas delas não gostaria de lembrar, algumas delas foram esquecidas, trabalhei duro para as esquecer e agora, agora que olho para a janela da cozinha e vejo a minha mãe a chamar-me pelo diminutivo, e se eu não aparecer breve levo, talvez, umas palmadas no rabo, talvez com a colher-de-pau que as mãos da minha mãe são muito frágeis, e eu pergunto o que será feito das cassetes-pirata que nunca seguiram caminho, as cassetes-pirata que gravei e nunca foram entregues, por vergonha ou por prazo de validade, se elas ainda por lá estarão, mas gavetas da escrivaninha do meu quarto onde não entro há tantos anos mas que a minha mãe sempre quis preservar, não fosse o diabo tecê-las e eu tivesse de regressar a casa de partida, O dia de amanhã ninguém sabe!, dizia-me sempre.
Ainda terão os nomes para quem foram gravadas, as cassetes? ou a ideia de terem nomes é uma esperança que invento hoje, agora, na vã tentativa de recuperar o que não pode ser recuperado?
Talvez também esteja por lá o fato do judo que aprendi durante algum tempo, a luta não era o meu forte, não é, nunca foi, e que cor é que cheguei a atingir?, o amarelo, talvez, não sei, mas não andei por lá muito tempo, ainda me lembro bem do fato de judo com que gostava de andar vestido por casa a fingir-me mestre e com o qual cheguei a mascarar-me num Carnaval para fugir ao eterno fato de Cowboy com as calças de ganga de todos os dias, o chapéu e a pistola de fulminantes e o cinto com o coldre e a estrela de Sherife, que um Cowboy que se presasse era sempre um Sherife, comprado no Bazar das Novidades, que sempre imaginei muito maior do que na realidade era, mas foi num ano muito frio e acabei por apanhar uma pneumonia porque a parte de cima do fato estava sempre a abrir-se e acabei constipado e com os meus pais a terem de me levar ao hospital para saberem o que podiam fazer por mim que me viam a sofrer sem saber o que fazer.
Sim, mãe, tudo o que passaste para que eu não sofresse dos problemas comezinhos do mundo e agora foste embora, tu e o pai, e eu fico por cá sozinho, sem saber o que fazer, sem saber se meto a chave à porta e entro em casa ou se viro costas e vou embora.

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/20]

Com o Martelo na Mão

Já só me parecia o coração a bater a bater a bater com muita força contra o peito e a querer saltar fora de mim farto de me aturar e aos gritos que silenciava para não ter ainda mais que aquele bater cadente e hipnótico que estava a dar comigo em doido.
Estava deitado na cama. Em cima da cama. A almofada sobre a cabeça a tentar abafar os sons que vinham do exterior mas em vão. Não abafavam nada. Já não sabia de onde é que os sons vinham, esses cabrões. Agora pareciam vir de mim, de dentro de mim, como se o meu coração estivesse a bater ritmado no adufe à espera da harmonia da guitarra mas essa nunca mais chegava que nada daquilo era como eu achava que era. Não era o meu coração embora ele batesse. Estava vivo, não estava? Não havia adufe nem haveria de haver uma guitarra. Não há guitarras cá em casa que eu nunca soube tocar nada e a única guitarra que houve não era minha e de qualquer forma deixou de existir quando eu a parti na cabeça da dona que passava os dias em solfejo para cima e para baixo como um yo-yo nunca passando daquilo, uma merda pá!, e eu à espera dela para noites tórridas de sexo em pleno Agosto e ela a transpirar com as unhas a arranhar as cordas num solfejo irritante que me fez sair da cama nu tirar-lhe a guitarra das mãos e parti-la na cabeça. E ainda tive de a levar ao hospital para levar uns pontos, sujou-me os estofos do carro com sangue que tive de mandar lavar a seco e ainda tive de lhe comprar uma guitarra nova e eu que nunca soube tocar guitarra tive de gastar dinheiro numa guitarra que nem era para mim e nunca mais a vi nem a miúda nem a guitarra o que não deixou de ser um alívio.
Agora parecia que era um remake e como todos os remakes ainda em pior.
Havia vários ritmos como se fossem várias baterias a tocar ao mesmo tempo, como os Paus, mas estava cada uma a tocar para seu lado e não havia harmonia nem nada a ligá-las era somente barulho barulho barulho puro que me entrava pelos ouvidos e viajava à velocidade da luz pelo cérebro dentro e já não sabia o que era nem de onde vinha era já só tudo dor uma porra de uma dor infernal e eu sem conseguir pensar, só a querer fugir, era fugir que eu queria, fugir dali e encontrar o silêncio mas não devia sair de casa que as ordens eram de confinamento, de distância social, nada de beijos, abraços, relações de proximidade uns com os outros mas barulho isso sim, havia carta branca para furar os tímpanos às pessoas, a mim, a mim que me queixava e a quem ninguém ligava. Já tinha telefonado à polícia. Já tinha ligado para a Junta de Freguesia. Já tinha alertado a CMTV. Mas para uns não havia nada a fazer e para outros era assunto menor.
Não era com eles, não é?
E foi então que me decidi.
Tirei a almofada de cima da cabeça. Na precisa altura em que me pareceu ser um martelo pneumático a partir paredes por cima de mim. Levantei-me da cama. Acendi um cigarro. Fui à despensa. Abri a caixa das ferramentas. Peguei no martelo. Saí pela porta da rua. O cigarro preso ao canto da boca a fumegar. O martelo na mão. Descalço. Em cuecas. Subi as escadas. Aproximei-me da porta do apartamento por cima do meu. Toquei a campainha. Esperei.
Começo a ouvir uns passos. Uns passos que se ouvem por baixo de toda a chinfrineira produzida no interior do apartamento. Levanto o braço com o martelo na mão. Sinto a fechadura a abrir. A porta a abrir. E penso É agora!

[escrito directamente no facebook em 2020/04/21]

Um Espirro num Autocarro Expresso Cheio de Gente

Em plena e dramática expansão do Covid-19, tomo, como é normal em mim, mais uma decisão repentina e absurda e apanho o autocarro expresso, mas que pára duas vezes em pouco mais de cem quilómetros, para a cidade grande em horário nobre, o que quer dizer que vai cheio e cheio de estudantes e de sacos de estudantes com roupa lavada e passada a ferro pela mamã e tupperwares com comida congelada que a mãe foi guardando ao longa da semana para o petiz não morrer de fome lá longe e parar de deixar as calças escorregarem pelo rabo abaixo e mostrar os boxers Intimissimi de tanta magreza, de hormonas aos saltos e à galhofa nos bancos traseiros, onde eu costumo esconder-me das multidões, lá está, e a contar anedotas de cariz sexual-badalhoco a que todos eles respondem com sonoras gargalhadas, algumas temperadas com expectoração solta na garganta e fungadelas profundas e profundamente sonoras e penso que estas camionetas já não abrem os vidros das janelas e os miúdos não costumam usar lenços de papel como não usam guarda-chuvas nem desodorizante e enterro-me na minha cadeira, que é sempre pequena, sempre muito mais pequena que eu, e por isso o enterrar é metafórico, e rezo para que a viagem se faça como no tempo d’A Gente do Amanhã, que colocavam as mãos na fivela do cinto (que era um tele-transportador) e desmaterializavam-se num lado para se materializarem noutro, quase instantaneamente, como num piscar de olhos, e é por isso que não fico preocupado quando ouço as preocupações dos jornalistas da ciência com os Exo-Planetas que ficam sempre longe, para cima de 100 anos-luz de distância, os mais próximos, e eu sei que a grande revolução da humanidade vai ser a viagem à velocidade da luz primeiro, depois a utilização de portais e, finalmente, e por último, o transporte-instantâneo.
De repente, um espirro.
Foda-se!
A odisseia começou antes. Podia ter comprado o bilhete por uma aplicação digital. Não comprei. Mas não comprometi nada. Ou quase. Não havia fila para a aquisição de bilhete, o que acabou por ser rápido e ainda pude escolher o lugar, que mais tarde percebi ter sido escolha errada, devia ter deixado funcionar a aleatoriedade. Com isto fui mais cedo. Mais cedo para a garagem central das camionetas. Meia-hora em pé à espera por um autocarro que atrasou mais de dez minutos, esperei de pé que os bancos de madeira estão enfiados numas reentrâncias na parede e é, de todo, e por isso, impossível algum ser-humano sentar-se e encostar as costas ao espaldar dos bancos. Uma vez tentei e ia partindo a nuca. Acho que as dores-de-cabeça que tenho hoje em dia começaram aí. Aguentei estoico o frio da corrente-de-ar que se passeia pela garagem velha, suja e decadente, onde um homem fustiga, desde madrugada, os ouvidos do povo com os berros para um microfone que explode nas colunas roufenhas que informam os cidadãos das camionetas em jogo, em que pista estão, para que destino irão partir e a que horas. Aguento estoico encostado ao pilar de mosaicos a que falta já mais de metade deles e os que restam estão pintados como se de uma mera parede de estuque se tratasse e noto que as camadas de tinta são já tantas que não há pintura que lhe restitua a dignidade. Ufa!
Entretanto assisto ao êxodo da juventude dos subúrbios e das aldeias dos arredores. Descem de camionetas que parecem gastar mais óleo que gasóleo. É uma fumarada dentro da garagem que me entoxica mais que o Português Suave sem Filtro que fumava nos meus anos da Faculdade de Letras. Os miúdos partem em magotes para as escolas. Para as várias escolas da cidade. Vêm de manga curta e de fato-de-treino. Sinto um arrepio nas costas. Não é assim que nos constipamos?
Finalmente o meu autocarro. Tem o símbolo do wi-fi na porta. Mas, lá dentro, é mentira. Ainda pergunto ao motorista Não há wi-fi? Ao que ele responde Está ligado!, e ficamos assim. Regresso ao meu lugar e tento enterrar-me no meu lugar (é agora o momento metafórico em que me enterro num banco que é pequeno demais para mim e para qualquer um dos miúdos que vai ali à minha volta). As únicas pessoas que cabem naqueles bancos e naqueles espaços são as velhotas que vão, invariavelmente, nos bancos da frente, a olharem muito compenetradas, o caminho por onde o condutor as leva.
Lá fora o tempo está cinzento. Chove um pouco. Não muito. Nem dá para dizer que choveu. Na verdade é só mais um preciosismo meu para que a viagem não termine já.
E então lembro-me: um espirro!
Foda-se!

[escrito directamente no facebook em 2020/03/04]

A Queda, parte 02

Estou debruçado sobre o parapeito da varanda e sinto a vertigem que me atinge. O chão da rua aproxima-se de mim, vem ao meu encontro, ao mesmo tempo que a varanda se afasta da rua, da cidade, da vida de todos os dias. Sinto-me cambalear. Sei que devia voltar para trás. Encostar-me à parede. Não estar assim, debruçado sobre este enorme vazio que me chama. Mas não consigo não olhar. É a própria vertigem que faz o apelo. Olha. Olha, porra! E eu olho. Não consigo não olhar.
Não deixo de pensar na miúda sentada na cerca sobre o penhasco no Vale Furado. A miúda em quem não reparei logo. Mas vim a reparar. Não consigo deixar de pensar que num momento ela estava lá e no momento seguinte estava a deixar de estar. É que ainda não tinha deixado de estar lá. Estava a deixar de estar. E eu vi. Ela estava lá e pôs-se em trânsito para deixar de estar. E eu não fiz nada. Nada. Não fiz nada para parar o que estava em andamento. Fiquei parado. Fiquei parado a olhar. Como agora. Olho. Olho mas não vejo nada. Como não vi então. E ela foi. Foi-se. E eu não consigo deixar de pensar na miúda. Uma miúda nova. Bonita. Podia ser minha filha. E deixei-a ir. E não fiz nada.
Nunca faço nada. Lamento. É sempre o que faço. Lamento. E não é o que fazemos todos? Lamentar? Nunca fazemos nada. Nunca. Porque sim. Porque não podemos. Porque temos as nossas vidas. Os nossos problemas. As nossas quedas. E lamentamos. Lamentamos a nossa incapacidade.
Sinto-me em queda. E preocupo-me? Quero cair? Deixo-me cair?
Recordo uma queda de há uns tempos. Já não sei há quanto tempo. Nem sei se é verdade ou imaginação. Não sei se realmente caí ou imaginei que caí. Mas um dia, ou uma noite, senti-me tombar sobre qualquer coisa que não soube o que era. Qualquer coisa que ficou por baixo de mim e me magoou. Qualquer coisa que me suportou na queda e, na dor, acordou-me. Estava num sono e senti-me cair. Senti o meu corpo perder chão e desconjuntar-se. Tombei. E por baixo de mim algo anguloso que me magoou mais que a queda. Uma dor. Um grito de dor que me despertou e me trouxe do sono.
Não sei se senti esta mesma vertigem. Não sei se a queda de então é a mesma de agora. A que vi. A que sinto. Porque mesmo que não esteja a cair lá em baixo na rua, estou em queda profunda. Não fiz nada. Não faço nada. Só lamento.
Acordo com um chamamento. Ouço o meu nome. Alguém lá em baixo na rua grita o meu nome. Tenho o corpo debruçado sobre o parapeito da varanda. Em queda sobre a rua. Sinto a cidade às voltas como um carrossel. Linhas de cores passam por mim à velocidade da luz. Agarro-me como posso. Sinto vómitos. O mundo a girar. A atracção da gravidade.
Não quero cair.
Puxo-me para cima. Puxo-me para dentro. Mas ainda tenho tempo para ver lá em baixo, parado no meio da rua, o tipo que gritou o meu nome. E reconheci-o.
Balancei-me para trás. Encostei-me à parede da casa. Deixei-me escorregar ao longo da parede. Sentei-me no chão. Acendi um cigarro.
Senti o fumo do cigarro percorrer-me os alvéolos até aos pulmões. Tossi. Tossi mas senti-me bem.
Pensei no tipo que gritou o meu nome lá de baixo. Alguém que me conhece. Alguém que conheço. Alguém com quem me zanguei. Já nem sei porquê. Sei. Mas não quero saber.
Eu podia ter chamado a miúda. Não fiz nada. Nada. Fiquei parado a ver acontecer.
Sou eu que estou em queda.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/05]

O Chocolate

Estávamos ali os dois. Um frente ao outro. Ela em frente a mim. Eu estava sentado no fundo do sofá. Sem possibilidade de fuga. Ela estava de pé. Braços cruzados. Acusadora.
Fazia perguntas. Já não sei que perguntas. Eram umas atrás das outras. Assim de rajada. Como uma metralhadora de perguntas. Eram disparadas à velocidade da luz. Eu não as via vir. Só me apercebia delas quando elas cá chegavam. Mas nem as ouvia. As respostas eram sempre as mesmas. Não sei. Não me lembro. Não me recordo. Não tenho memória disso. Não sei.
Ela estava a irritar-se com as minhas respostas. Sei disso porque percebi o tom de voz a levantar. Sei disso porque vi o pé direito a começar a bater no chão. Nervoso. Como a acompanhar o baixo de uma música punk. Três acordes mas muita raiva.
Tentei livrar o olhar de tudo isto. Ela estava entre mim e a televisão. Estiquei o pescoço para conseguir olhar a televisão. Eu não conseguia fugir, mas podia dispersar a atenção por outros lados.
Não sei se ela percebeu que eu desviei a minha atenção para a televisão. Ela continuou a falar. A perguntar. Eu já sabia que, cada vez que se impunha o silêncio era altura de dar uma resposta. E eu dava. Fosse qual fosse a pergunta. Não sei.
Na televisão estava um tipo com um monte de chocolates em cima de uma mesa. Tinha três chocolates na mão e abanava-os. Os chocolates. A mão abanava os chocolates. Gostava de perceber o que o homem estava a dizer, mas não conseguia ouvir. O som da televisão estava baixo e a voz dela impunha-se sobre tudo. Ainda tentei fugir ao tom dela e tentar apanhar o da televisão, mas não fui capaz. A voz dela mata tudo em redor. O melhor que conseguia fazer era ignorar o sentido do que dizia. Percebia que falava. Ouvia-a falar. Mas não percebia o que estava a dizer. Não importava. Importava só a resposta. Não sei.
Depois, alguém que parecia o presidente do Brasil, pegou num dos chocolates que o outro tipo tinha na mão, tirou-lhe o papel, não sem alguma dificuldade, diga-se, e comeu-o. Não podia ser o presidente brasileiro. Ele não ia para a televisão comer chocolates. Ou ia?
Levantei-me do sofá. E então, ouvi-a pela primeira vez. E ela perguntou Onde é que vais?
Eu não percebi logo, mas acabei por perceber. Ela estava a meio de uma comissão de inquérito sobre qualquer coisa que já não recordo. As minhas respostas não eram satisfatórias. Acho. E ela ficou irritada por eu me ter levantado do sofá com intenção de sair da sala. E perguntou Onde é que vais?
E eu disse que ia buscar um chocolate. De repente apetecia-me um bocado de chocolate. E ela disse Não há chocolate cá em casa. Nenhum de nós gosta de chocolate. O que é que te deu?
Sim, o que é que me deu? Porque é que queria chocolate? Ela tinha razão. Eu não gostava de chocolate. Nem ela.
E disse-lhe Vou buscar um copo de vinho. Queres? E ela disse Sim. Traz também os cigarros.
E ainda a vi sentar-se no sofá antes de sair da sala para ir buscar dois copos de vinho e o maço de cigarros. Não podia esquecer o cinzeiro que estava no lava-loiça a secar.
Hoje apetecia-me sexo. Apetecia-me ir para a cama com ela. Será que ela queria ir para a cama comigo? Era por isso que queria um copo de vinho? Queria libertar-se?

[escrito directamente no facebook em 2019/05/10]

Sexta-Feira Santa

É Sexta-feira Santa.
Almocei um bitoque na esplanada. Desculpa, mãe! Duas imperiais. Molhei um bocado de pão na gema mole do ovo a cavalo.
Ao meu lado, um casal com dois filhos adolescentes devorou um cabrito com batatinha assada e grelos. Por encomenda. Só há por encomenda. Os miúdos não tocaram nos grelos.
Enquanto bebo uma Ponte de Amarante e um café, observo quem passa na marginal à minha frente. Ao fundo o mar, de um azul bem escuro e a contrastar com o azul bebé pintado no céu.
Uma velha passa manca, sem bengala.
Três gordos com coletes do Moto-Clube da Nazaré discutem o tamanho das mamas da striper.
Carros, de alta cilindrada, passam em passo de caracol. Não há milagres. É a procissão dos tristes. Ali, na fila, são todos iguais. A rapariga do Punto. O homem do Jaguar.
As gaivotas vêm a terra. Grasnam. Voam em círculos. Rasam a cabeça das pessoas. É impossível não pensar no Alfred Hitchcock.
Um casal de namorados, muito novinhos, adolescentes, comem uns carapaus secos, como se fossem tremoços. Beijam-se. Ela queixa-se. Leva os dedos à boca e retira uma espinha dos dentes. Ele ri-se.
Há muita gente repetida a passar. Velhos barrigudos de bigode farfalhudo. Velhas empinocadas com o cabelo armado como as senhoras finas da Tentadora, ali no início da Ferreira Borges, no exclusivo Campo de Ourique, em Lisboa. Também há classe nas berças. E repetem-se. Há muita gente velha a passear ao sol envergonhado de Abril.
Uma miúda tira fotografias. É gira, a miúda. Coça a cabeça. Depois leva o dedo à boca. Ninguém é perfeito.
Uma criancinha chora. Quer um gelado. Um Epá. A mãe, presumo que seja a mãe, não diz nada e continua o seu caminho. A criança segue-a a chorar. Os dedos a esfregar os olhos.
Ao meu lado há uns espanhóis. Bebem cafés e comem pastéis de nata.
Há muita gente com roupa domingueira. Mas o Domingo já não é o que era. Nem as roupas. Muito menos as roupas domingueiras que hoje são compradas nas lojas dos chineses onde conseguem ser mais baratas que na Zara. Mas também são de muito pior qualidade. De qualquer forma não é Domingo.
Então, uma pausa. Não passa ninguém, agora. Acabo a Ponte de Amarante.
Do outro lado alguém berra Amanhã vou almoçar a Fátima! mas um velho pergunta O quê? Vou almoçar a Fátima! O velho acena a cabeça mas não ouviu nada.
Alguém deposita outra Ponte de Amarante à minha frente. Eu não queria. Mas não vou desperdiçar.
Os espanhóis vão-se embora. Passam mais motards. Gordos. Enormes. Alguns deles são mulheres. Também são enormes. Gordas. Mas têm os cabelos mais compridos.
Vejo alguém a tirar-me uma fotografia. Não digo nada. Aceito como parte do processo de globalização a que estamos sujeitos. Vou aparecer no Instagram de quem?
Senta-se um pai. Uma mãe. Um filho adolescente com a cara cheia de acne. Ele pede um café. Ela um descafeinado. Um compal para o miúdo. A mãe acende um cigarro. O miúdo abana a mão à frente da cara em jeito de reprovação. A mãe ignora-o. Putos insolentes!, penso.
Recomeça a passar gente à minha frente. Gente vestida para todas as estações. Miúdos de manga curta. Velhos com casacos de pêlo. Adultos com anoraques, gabardines e sobretudos. Mas está sol. E calor. É Sexta-feira Santa.
Reparo, ao olhar as pessoas que passam à minha frente, que há muita gente feia no mundo. Valha-me Deus.
Topam-se os estrangeiros pelos desenhos das caras. Pelos cabelos. Pelas roupas. Mas também são feios. Aqui, o mundo é democrata. São todos feios. Eu acabei por ter sorte.
Passa um pescador de camisa ao quadrados, como um grunge de Seattle, de bicicleta. Cigarro ao canto da boca. Atrás, uma miúda de patins segue-o.
Os carros continuam a passo de caracol. Já me agonia o cheiro a gasóleo, gasolina, combustível. O barulho dos motores. A greve dos motoristas de materiais perigosos não podia ter demorado um pouco mais?
No meio de tanta gente vestida de preto e cinzento, uma senhora passa com um casaco vermelho. Dá nas vistas. Os homens que passam por ela viram-se para trás.
Um rapaz olha para o telemóvel e escreve qualquer coisa enquanto caminha. Não olha para onde vai. Olha para o telemóvel. E escreve. Vejo os dedos mexerem-se à velocidade da luz.
Uma loira pára mesmo à minha frente. Baixa-se e sacode os cabelos. Depois tira um elástico do pulso e prende o cabelo num rabo de cavalo.
O pai já bebeu o café e pede uma mini. O filho pede uma torrada. A mãe acende outro cigarro.
Eu esqueci-me da Ponte de Amarante. Agarro no cálice e bebo dois goles. Também acendo um cigarro. Um homem senta-se ao meu lado, onde estavam os espanhóis, e olha-me com reprovação por estar a fumar ali na esplanada. Ignoro-o.
É Sexta-feira Santa. Alguém foi à missa?

[escrito directamente no facebook em 2019/04/19]

Os Anos Passam Rápido

Passaram os anos. Passaram à velocidade da luz. Ainda ontem apanhei a minha primeira bebedeira. Lembro-me de me sentir a morrer, a cabeça à roda, o corpo atrás da cabeça, o mundo a fugir de mim e eu enjoado. Vejo-me a vomitar. A vomitar para cima de mim. A vomitar-me a camisola, as calças, as botas. A transpirar. Eu todo um nojo de suor e restos líquidos vermelhos com qualquer coisa pastosa que se arrastava para fora da boca e rolava pelo peito abaixo com um cheiro azedo à volta, e a miúda a meu lado, a mão quente na testa fria, a aguentar aquele cheiro a podridão e a dizer, numa ladainha, Está tudo bem! Vais ficar bem! Isto vai passar! E eu a querer que ela se calasse. A sentir que ia morrer. Morrer para sempre. Morrer sem ter visto uma miúda nua. Sem ter tocado uma pele de seda do corpo nu de uma miúda, que o álcool apareceu primeiro que o sexo e está resolvida a questão do ovo e da galinha: mais tarde foi a bebedeira que desbloqueou o caminho para a cama de uma outra miúda, a primeira, agora já rapariga, mais crescida, assim como eu. Adolescentes, contudo. E foi ontem. Foi ontem que aconteceu. E aconteceu muitas vezes. Todas elas ontem. E recordo-as a todas. E eu não morri. Ou morri e ressuscitei de todas as vezes necessárias para me satisfazer e ficar com aquele sorriso parvo na cara, aquele sorriso parvo que tem quem se sente desfalecer nos braços de uma mulher.
Passaram os anos. Passaram rápido. Tão rápido que perdi tudo o que tinha. Perdi tudo o que tinha sem me aperceber. Todos os meus amigos. Todas as minhas amantes. Todos os meus filhos. Os meus pais. Ainda hoje aqui estavam, ao meu lado. Ainda hoje aqui estavam todos, na conversa. Na brincadeira. Nas conquistas. No amor. E depois, e depois nada, que nada se pensa quando estamos a girar loucamente, a acompanhar a rotação da Terra, e não queremos acreditar que deixámos coisas para trás, mas tão só que as largamos momentaneamente porque quisemos correr livremente de encontro a expectativas que se abriram no mundo e Eu volto! Eu volto!, ouço-me dizer e sei que não volto porque o tempo não volta, nem o tempo nem eu nem mais nada, a não ser a memória e isso é o pior de tudo porque fica aqui e tudo aconteceu agora e é sempre impossível fugir e esquecer o agora porque o agora está a acontecer e é o momento da eternidade e de quando tudo mais dói e não queremos que algum dia deixe de doer.
Passaram os anos. Tantos anos e tão rápido. Agora percebo o quão rápido tudo passou. Não houve tempo para corrigir os erros. Emendar a mão.
Agora só há tempo para este cigarro. Para este copo de vinho. E esperar que não doa mais do que tem doído. E que passe muito mais rápido do que o que já passou.
Sento-me no alpendre a olhar o horizonte. Um cigarro numa mão. Um copo de vinho na outra. A pensar que no meio de tudo isto houve muita beleza. Como este verde-azul que tenho pincelado à minha frente, a tentar deixar gravado na memória como a última imagem, como se fosse uma canção de amor eterno que irá perdurar para além de mim.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/25]

Ainda Estou Zangado?

Parámos em frente um do outro. Apanhados na coincidência. Ela a sair. Eu a entrar. Ela parou dentro do elevador com a mão a bloquear o sensor. Eu fiquei lá fora, à espera de poder entrar.
De início foi um reflexo condicionado. Intuitivo. Esperar que saíssem para eu entrar. Ela vinha, simplesmente, a sair do elevador. Mas entretanto, demos um com o outro. E bloqueámos. A porta do elevador, e não só.
Foram só alguns segundos. Talvez mesmo, uns nano-segundos. Mas que pareceram minutos. Uma hora. Talvez a eternidade.
Quando fora a última vez que estivéramos assim tão próximos? Fisicamente, digo. Quando? Talvez em São Pedro de Moel, quando ela disse o que disse. Ela na sua toalha. Eu na minha. Estávamos também assim, a esta distância um do outro. Mas um muro a separar-nos. Um fosso. Uma incomunicabilidade. Lembro-me que me levantei da toalha. Corri para o mar. Mergulhei. Mergulhei no mar de São Pedro de Moel. No mar Atlântico de São Pedro de Moel. Estava maré cheia. Mergulhei. Furei uma onda. Depois nadei um pouco em frente. Estava furioso. Mas ainda ouvi o apito da Natália. Prrrri! Prrrri! Sabia que o mar estava perigoso. Bandeira vermelha. Mas não conseguia voltar para trás. Encarar toda a gente. Levar um ralhete da Natália. Virei para a esquerda. Nadei ao longo da praia, mas para fora daquela zona. Para longe de toda aquela gente. Para longe dela.
Ela estava com a mão a bloquear o sensor para não deixar fechar a porta. Não sei se estava à espera que eu entrasse ou se queria sair mas não queria passar por mim. Não sabia bem o que estava ali a acontecer. Mas pensei na relatividade do tempo. Pensei que todas as análises que estava a fazer, como se fosse um algoritmo, estavam a acontecer à velocidade da luz e que, na realidade, este cruzamento não durou mais que um breve instante. Não mais que o momento em que os meus olhos olharam os olhos dela que olharam os meus. Um sopro.
O que é que estás aqui a fazer? pensei. O que é que estou aqui a fazer? pensei.
Nadei ao longo da costa. Passei a praia. As várias concessões. As várias Natálias. E saí já depois da zona das rochas. Nas praias mais afastadas. Estava cansado. Deixei-me cair na areia. Na areia molhada fustigada pelas ondas da maré cheia. Sentia a areia a fugir debaixo do meu corpo. Mas estava cansado. Precisava de descansar um pouco antes de me levantar. E quando me levantei, estava cheio de areia. No corpo. Dentro dos calções. No rabo. Na cabeça. Nas orelhas. Mas fui em frente. Subi a duna. Andei pela mata. Apanhei uma estrada. Uma estrada esburacada. Uma rua. Entrei num café. Pedi para fazer um telefonema. Telefonei. E disse Vem buscar-me, e sentei-me numa mesa, molhado, cansado, descalço e só de calções de banho. Pedi uma imperial. E elas foram chegando até chegar quem me vinha buscar. Não sei o que aconteceu depois. Perdi-me nas imperiais. Acho que fiz uns submarinos. Está tudo muito nebuloso. Mas nunca mais a vi. Nunca mais nos vimos. Até hoje. Até agora.
Ela tirou a mão do sensor e saiu do elevador. E quando saiu disse Olá!, quase sobrepondo-se ao meu Olá!, que disparei mal a vi mexer-se e sair do elevador, mas um bocadinho mais atrasado que o dela. Não sei se ela ouviu o meu cumprimento. Eu ouvi o dela. E entrei no elevador. Quarto andar. Dentista. Será que ela ouviu o meu olá? Ou acha que sou mal-educado? Ou que ainda estou zangado com ela? E estou? Ainda estou zangado com ela?
E o que é que isso importa, agora?

[escrito directamente no facebook em 2019/01/09]