A A8 Transforma-se em A17 e Eu Não Sei Porquê

Vou pela A8 que depois se transforma em A17. Não sei porque muda de nome. Talvez tenha a ver com concessões. Mas não sei. Nem vou à procura da razão. Na verdade nem me interessa.
Vou pela A8 que depois se transforma em A17 e vou sozinho. Vou sozinho no carro, para norte, mas vou também sozinho na estrada. Três faixas de rodagem à minha disposição. Penso que os anos ’80 foram bons para as obras públicas, para os empreiteiros e para o modelo 200 da Mercedes-Benz.
Vou pela A8 que depois se transforma em A17, mas preferia ir de comboio. Preferia fazer o trajecto que tenho de fazer numa Linha do Oeste funcional numa CP que não estivesse a soldo de interesses que não conheço, mas que me mataram os comboios.
A última vez que andei de comboio, demorei cinco horas para fazer cento e vinte quilómetros. Nessa altura já a Rodoviária Nacional demorava pouco mais de duas horas a fazer o mesmo trajecto. Hoje, a Rodoviária demora as mesmas duas horas. Às vezes um pouquinho mais. Às vezes um pouco menos. O comboio não sei. Mas acho que continuou lá parado no tempo. Parece que há uns Intercidades todos chiques. Mas acho que é só para a gente elegante de Lisboa e Porto. O resto do país, pelo menos aqui, em Leiria, terra onde habito, desconheço tal iguaria.
Vou portanto pela A8 que depois se transforma na A17 e não vejo vivalma. Estamos perto do meio-dia quando sou ultrapassado por uma viatura. A primeira com que me cruzo. Um pouco mais à frente vejo um carro, dois carros que vêm em sentido contrário.
É quando já estou a aproximar-me de Aveiro que começo a ver mais carros. Aparecem do nada. É nessa altura que percebo que não sei quanto é que estou a pagar pela estrada que usei. Entrei em portagem com portageiro, mas com Via Verde, e acabo por passar por uma portagem aérea que me contabiliza mas não me informa. No resto do trajecto que tenho de fazer apanho com mais duas portagens aéreas, mas desta vez tenho lá, fixo, o valor do meu trajecto.
No regresso, três horas mais tarde, reparo que há agora alguns carros na auto-estrada. Não sei se é o suficiente para pagar a concessão, o investimento, ou se também o estamos a pagar através do Orçamento Geral de Estado. Mas alguém tem de pagar aquele elefante branco. Parece que não há almoços grátis. Pelo menos para alguns. Para outros, nunca na vida hão-de ter de pagar qualquer almoço.
Regresso pela A17 que depois se transforma em A8. À medida que me aproximo mais de Leiria, há menos carros na estrada, embora mais que de manhã. Toda aquela estrada me soa fantasma. Se calhar não existe. Se calhar estou a sonhar. Se calhar ainda estou nos anos ’80. Comi um cogumelo. O Primeiro-Ministro ainda é o Aníbal e vou ter de passar outra vez por aqueles anos de chumbo que só vamos saber que o foram mais tarde. Na ressaca do desenvolvimento tolhido. Quando pudermos virar a cabeça para trás e pudermos olhar com atenção o passado engalanado nos dinheiros da Europa que alimentaram muitas carteiras e cursos e empresas e Ferraris.
Regresso pela A17 que depois se transforma em A8. Faço a auto-estrada até à saída para a Nazaré. Depois deste dia, desta viagem, desta estrada fantasma que teve a vantagem de me esconder das pessoas, preciso de ver o mar.
Chego à Nazaré, mas viro para o Sítio. Gosto cá de cima. Gosto de vir cá para cima. Arranjo lugar com facilidade. Compro uns tremoços. Vou até a uma das arribas e deixo-me ali estar a absorver o belo sol vespertino. Acendo um cigarro. Vejo as ondas lá em baixo a baterem na areia. Há gente na praia. Há gente no mar. Fumo o cigarro. Como uns tremoços. Lanço as cascas cá de cima sobre a cabeça das pessoas que se passeiam debaixo da arribas. Mas ninguém vai saber que sou eu. Um dia destes levo cotonetes e também os lanço daqui. Com um pouco de sorte vão parar ao mar. Às vezes também me apetece fazer asneiras. Às vezes também quero ser mau. Às vezes quero ser como a Nova Leiria. A que já nasceu velha. Feia. E má.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/10]

O Desperdício É um Crime

Estava um dia de merda. Um sol horrível a dizer-me Vai para a praia, pá! Vai para a praia!, e eu casmurro, que não, é Outono e já estou com a neura dos dias curtos com upgrade de fim-de-semana.
Estava, portanto, um dia de merda, com o sol a brilhar nas suaves e quentes ondas de São Pedro de Moel (disseram-me!) e eu fechado em casa por não acreditar no Pai Natal, em Unicórnios e que o sol se levanta antes do meio-dia em São Pedro de Moel (quando, a bem da verdade, são já quase três da tarde).
Estava, então, um dia de merda e eu fui fazer bolhinhas de sabão para a varanda. Soprava, soprava e elas nasciam-me à frente do nariz, voavam pela rua, tocadas a vento e iam morrer, felizes e contentes, em pequenos plocs na calçada portuguesa lá em baixo. Às vezes na cabeça de uma velha. Outras vezes na careca de um skin. Uma vez, uma vez só, no boné de um polícia das multas.
À minha frente, na varanda à minha frente, a minha vizinha fumava um cigarro encostada à porta da varanda e olhava-me com um olhar lânguido. E disse-me Estás a desperdiçar água! e eu respondi-lhe E tu estás a desperdiçar-te aí assim, sozinha e vestida. Ela não respondeu. Ficou a fumar o resto do cigarro enquanto continuava a olhar para mim. Acho que me avaliava. Depois entrou em casa.
Eu continuei a fazer bolhinhas de sabão. Lá em baixo um tipo escorregou no piso cheio de sabão. Deu três gritos, ninguém lhe ligou e foi-se embora.
E eu ouvi É uma pena desperdiçá-la! Olhei em frente e vi a minha vizinha, nua, com uma garrafa de vinho branco entre as pernas (estava a abrir a garrafa!).
Larguei o frasco das bolhinhas e desatei a correr, saí de casa, desci as escadas, cruzei a rua, abri a porta da rua do edifício em frente, subi as escadas e entrei em casa dela antes ainda de o frasco das bolhinhas chegar à calçada portuguesa, lá em baixo, debaixo da minha varanda. Eu moro num quarto andar.
A minha vizinha já tinha a garrafa de vinho branco aberta quando lá cheguei. Ela estava à porta da varanda, nua, a olhar para mim e a despejar o vinho por ela abaixo e disse É um crime desperdiçar este vinho!
Eu concordei.
E o dia melhorou bastante.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/22]