A Noite em Dia

É de novo Domingo. Ainda não saí do anterior já estou no próximo. Já não sei qual deles é. Já não sei em qual deles estou. O tempo confunde-me. Joga comigo entre o passado e o futuro e o presente dilui-se. Como é que é Domingo? Outra vez? Ou ainda?
Está a chover, lá fora. Está a chover desde manhã. Tive dificuldade em me levantar da cama. E agora que o consegui já é de noite. Ainda são horas de dia, mas a luz, lá fora, não quer saber disso. Está escuro. É de noite. São cinco e meia da tarde e já é de noite.
Esta escuridão vespertina deprime-me.
Olho para a rua e não vejo nada. Só escuridão. Ouço a chuva a cair. Vejo um pequeno chuveirinho a passar frente às poucas luzes dos candeeiros da cidade que me chegam aqui à janela. É um tempo irreal. Sinto-me no limbo. Entre tempos. Entre luzes. Entre coisas.
Viro-me para trás, para o interior de casa. Não vejo nada. As luzes estão desligadas e não vejo nada. A escuridão está lá fora na rua e aqui em casa.
O que é que vou fazer?
Almoçar? Fumar um cigarro? Beber um café? Um copo de vinho?
Não me apetece nada. Não me apetece nada disto.
Talvez uma filhós.
Talvez uma rabanada.
Talvez um coscorão.
Talvez um sonho. Oh, fodam-se os sonhos.
Não tenho nada disto em casa. A minha casa já não é a minha casa que era a casa da minha mãe. A minha casa é vazia. Em minha casa não há cá nada destas coisas.
Tenho pão. Manteiga. Chicória.
Não me apetece nada.
Nem me apetece fumar um cigarro.
A noite em dia, faz-me mal.
A aproximação do Natal, faz-me mal.
Toda esta felicidade alheia, faz-me mal.
Sinto um vómito azedo subir pela garganta acima. Páro-o na boca. Não o deixo sair. Forço-o a voltar a descer para de onde veio.
Volto para a cama. Amanhã é, talvez, outro dia.
Talvez um dia melhor.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/08]

Morrer e Voltar a Nascer

Eu já tinha morrido há uns anos, bastantes até, quando fui descoberto. Não eu, eu fisicamente, que eu já estava morto e o que tinha restado de mim tinha sido feito pó e comido pelos bichos, mas o eu que deixou umas coisas escritas pela internet, buraco sem tempo, e que foram descobertas, por puro acaso, por alguém que gostou delas e as partilhou com o mundo.
Eu já tinha morrido. Tinha morrido de fome. Tinha deixado de conseguir trabalho. Tinha-me fechado em mim mesmo e perdido o contacto com um mundo que não espera por ninguém e quem fica para trás fica para trás que o futuro é em frente e o que é preciso é abrir sempre a porta do amanhã, um amanhã glorioso e cheio de vitórias, sucessos pessoais e glórias de equipa, num sempre-eterno crescimento económico e social sem paralelo nos anais da história do mundo.
Eu tinha-me afastado de tudo isso. Não era competidor. Não queria saber de corridas e grandezas. Tinha as minhas dores e não queria que mas tirassem. Era um processo muito pessoal numa época de portas escancaradas nas redes sociais onde toda a gente tinha opinião sobre tudo e sobre todos e quem tivesse mais admiradores e seguidores é que fazia o mundo girar. Oh, e se o mundo girou! Girou tanto que retrocedeu no tempo e o tempo medieval voltou.
Eu já tinha morrido antes de tudo isso acontecer. Tinha-me fechado em casa. Sem trabalho e sem dinheiro, afastei-me de tudo. Fechei-me em casa. Eu e as minhas dores. E comecei a escrever sobre elas e a lançá-las na rede. Para quem quisesse ler. Para que quem tivesse paciência para ler o pudesse fazer. Escrevi durante todos os dias durante todo o tempo que resisti a todas as faltas que começaram a fustigar-me.
Deixei de conseguir pagar a água e a luz. Abri a torneira selada da água. Fiz uma puxada de luz desde o candeeiro da estrada. Deixei de pagar o IMI, mas nunca me vieram chatear por isso. O telefone era coisa que já não usava há muito tempo. Telefonar a quem? Estava toda a gente ocupada. Andava toda a gente a tentar ser feliz, a destilar ódio nas redes sociais para libertar as dores de alma e a serem melhores e maiores uns-que-os-outros.
Fui alimentando-me com o que havia por aqui nas árvores em redor de casa e na pequena horta que fui mantendo enquanto tive paciência e força para tal. Os gatos e o cão desapareceram. Talvez tenham morrido, como eu. Ainda vi por aí um deles morto. Queria tê-lo enterrado, mas o tempo foi passando e eu esqueci-me.
Sentava-me todos os dias no sofá a olhar para a parede branco-ovo em frente, a parede onde esteve pendurado, durante anos, um grande poster da Lolita de Stanley Kubrick que fui obrigado a retirar e a destruir porque era uma pouca-vergonha pedófila. Sentava-me no sofá a olhar para a parede em frente, vazia, e via as estórias. As minhas estórias. Surgiam-me assim. Do nada. Formavam-se na parede, como um filme mudo projectado numa tela, e eu só tinha de escrever o que via e foi o que fui fazendo. Tornou-se esse o meu trabalho. O meu trabalho não remunerado. E durou até eu morrer. Morri de fome. Deixei de conseguir cultivar a horta. As árvores deixaram de dar o que davam. Ainda fui bebendo água durante algum tempo. Emagreci. Emagreci tanto que depois nem água conseguia beber. Fiquei translúcido. Fiquei deitado na cama durante algumas semanas. As semanas finais. Já nem escrevia. Já nem nada.
E um dia, deixei de ser.
Fui enterrado em cova rasa. Comido pelos bichos e mais tarde, quando era já só pó, despejado para dar lugar a outro pobre coitado como eu.
Deixei de ser e depois deixei de estar.
A minha passagem pela Terra não deixara rasto.
Até que um dia…
Um dia alguém encontrou o meu rasto na internet. Encontrou o meu blog e todos os meus contos. Alguém achou que aquilo que ali estava tinha valor. Alguém resolveu retirar os contos do blog e publicá-los. Alguém lucrou muito com o sucesso de um perdedor que tinha morrido de fome muitos anos antes. Antes de ser encontrado. Muito tempo depois do regresso das trevas e, de novo, do regresso da luz e de o humanismo ter regressado, de novo, e outra vez, às agendas políticas do mundo e de o Homem se ter reencontrado consigo próprio
E eu sei que isso aconteceu porque sei tudo. Mesmo depois de morto, desfeito e desaparecido da Terra sem deixar rasto. E estou aqui a contar tudo porque posso. Eu sei. Eu sou. Eu estou.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/03]

O Conformista

Levanto-me tarde. Levanto-me tarde porque não tenho porque me levantar cedo. E levanto-me tarde porque já não conseguia mais estar na cama. Se não, continuava em directa até amanhã de manhã, hora de me levantar, aí sim, para cumprir prazos, obrigações e promessas. Hoje não. Hoje levanto-me porque estou farto de estar deitado.
Visto qualquer coisa que está ali à mão. Ali, caído sobre a pequena poltrona que tenho no quarto e onde nunca me sentei. Umas calças de fato-de-treino, umas meias, um t-shirt. Vou até à cozinha. Fico ali em pé, no meio da cozinha, a tentar perceber o que é que fui ali fazer. Sinto-me um pouco perdido no dia e na casa. Parte de mim continuou na cama. Não sei que dia é. Coço a cabeça. Penso que tenho de voltar a comprar champô para a caspa. Talvez Linic. Como o Ronaldo. O CR7. Coço o rabo e percebo que estou sem cuecas.
Chego-me à janela. A luz está baixa. Mas não deve ser muito tarde. Ligo a televisão da cozinha. Jorge Jesus e a equipa do Flamengo está em todo o lado. Em todos os canais. Até parece que é o Benfica. Que me importa a mim o Flamengo? O Jorge Jesus, fico contente por ele. Acho que ele nunca ficou contente por mim. Eu também nunca fiz nada merecedor de tal honraria. A minha vida é miserável. Não tenho história. Onde está a minha Taça dos Libertadores?
Faço café. Vejo que passa um pouco das duas da tarde. Costumo ver o Leste Oeste, com o Nuno Rogeiro, a esta hora na SIC Notícias. Já percebi que não vou ver. O futebol é poderoso. Come tudo o resto. Já vi o Pedro Santana Lopes a abandonar um estúdio de televisão, por ter uma entrevista interrompida, por causa da chegada de José Mourinho ao aeroporto. Na altura achei que o Santana Lopes tinha razão. Continuo a achar. O futebol mexe com muito dinheiro e é importante. Sim, é certo. Mas é só futebol. É só a porra do futebol. Nada mais que isso. Um jogo. E quanto mais penso nisso mais entendo que a televisão, os programas de televisão, as ideias transmitidas pela televisão, os programas que os programadores decidem que é o que o povo quer ver na televisão, é a grande responsável pelo nivelamento, por baixo, da exigência social e política do país. Dos países.
Enquanto espero pelo café olho para a rua. A luz baixa e cinzenta deprime-me. Vejo a cidade deprimida. A cidade está vazia. Não há ninguém na rua. As pessoas devem estar por casa. Solitárias nas suas casas. Cada um agarrado ao seu computador, ao seu tablet, ao seu smartphone. Filhos e pais de costas voltadas. Amantes desencontrados. Gente sozinha, mesmo que na companhia de corpos presentes, mas tão distantes quanto o alcance da rede.
Acendo um cigarro. Eu preciso sempre de um cigarro. Algumas amigas chateiam-me com o facto de fumar. Que me faz mal. Que é um erro social. Que é um compromisso que não devia ter. Não lhes ligo. Estou em casa. Estou sozinho em casa. Não incomodo ninguém. É estranho que sejam só raparigas a chatearem-me por causa do tabaco. Talvez porque gostem mais de mim. Talvez porque sejam mais controladoras.
Encho uma caneca com café. Sento-me na mesa da cozinha. Vou olhando para a loucura instalada no Rio de Janeiro enquanto se aguarda a volta de honra dos vencedores pela cidade. Tanta gente nas ruas. Tanta gente a aplaudir. Tanta gente a partilhar a glória da vitória. E pergunto-me onde estava esta gente quando Jair Bolsonaro ganhou as eleições deste país-continente? Um presidente que glorifica a ditadura e a tortura da ditadura.
Desligo a televisão. Acabo de beber o café. Vou à sala procurar um livro para ler. Apetece-me ler. Cai-me nas mãos O Conformista do Alberto Moravia. Nem de propósito. É o que somos. O que queremos ser. E por momentos penso que, afinal, Alberto Moravia escrevia sobre o futuro e não sobre o presente. Andamos ainda, e sempre, a aprender.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/24]

Uma Mulher Vai Destruir a Minha Vida, Outra Vai Salvá-la

Tudo começou na época em que fui despedido. A primeira vez em que fui despedido, bem entendido. Depois disso, já fui despedido muito mais vezes. Mas esses despedimentos foram consequência deste primeiro.
Na altura trabalhava num pequeno hotel. Fazia as noites. Dava entrada de pessoas que chegavam de madrugada, poucas, a maior parte delas vinha para aquecer a cama durante algumas horas antes da manhã, em encontros casuais, começados na boîte ali mesmo ao lado, e que continuavam nas camas do hotel, que eu às vezes ouvia-lhes os gritos, e cheguei mesmo a ter que pedir contenção a um ou outro casal mais afoito, e preparava as coisas para o pequeno-almoço dos clientes, antes ainda de me ir embora, e que a pessoa que me vinha substituir mantinha a funcionar até meio da manhã.
Eu estava casado há pouco tempo. O dinheiro que ganhava no hotel não era muito, mas era importante para aquele início de vida. O facto de trabalhar à noite, começou a minar a relação logo ao fim de algum tempo depois de termos casado. E o ter sido despedido acabou por ser a gota de água que fez transbordar o copo. O meu casamento não durou muito tempo.
Ao fim de uma semana depois de ter sido despedido, ela foi-se embora. Os papéis para assinar o divórcio acabaram por chegar mais tarde, através do advogado dela.
De um dia para o outro descobri-me sem trabalho, sem dinheiro e sem mulher.
Achei que a minha vida andava azarada. Aquilo era mau-olhado, com certeza. Inveja. Mas inveja de quê?, perguntava-me. Ora, as pessoas são muito invejosas, não importa do quê! É só inveja pura. Pura maldade.
Como a minha vida parecia não descolar, nem trabalho nem amor e o totoloto também não queria nada comigo, pensei mesmo que havia ali obra do demo.
Fui à bruxa.
Tinha ouvido falar num mulher que havia ali na Gândara dos Olivais, ali à saída de Leiria, a caminho da Figueira da Foz. Disseram-me que não cobrava nada, que era um dom que tinha e não podia cobrar por esse dom, mas que as pessoas deixavam sempre uma lembrança monetária porque a senhora também precisava de comer, pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás e o telefone para onde as pessoas ligavam a pedir ajuda. Eu não telefonei, que não sou pessoa de telefonar, e fui lá directamente.
Estive muito tempo parado dentro do carro à porta da casa da senhora. A ganhar coragem para lá entrar. A rezar para que ninguém me visse e me reconhecesse.
Respirei fundo. Abri a porta do carro e fui até à casa, de olhos a rojar chão fora. Se não visse ninguém, ninguém me via.
Toquei à campainha. Alguém abriu a porta. Fizeram-me entrar. Levaram-me para uma sala onde me fizeram sentar. E esperar.
Esperei.
Esperei algum tempo.
Vieram buscar-me e levaram-me para uma espécie de sala de estar, mais pequena e vazia, mais sombria, mas com santinhos e fotografias e terços e velas a arder e incenso, numa espécie de altar… A senhora estava sentada numa poltrona a um canto. Ela indicou-me a outra poltrona. Em frente a ela. Olhou para mim. Para os meus olhos. Pediu-ma as mãos. Agarrou-as nas dela. Fechou os olhos. Inspirou fundo. E disse-me Os amores, os amores!… E eu não disse nada. Ela também não perguntou nada. Depois voltou a dizer Vão existir duas mulheres muito importantes na sua vida. Uma vai fazer-lhe muito mal. Outra vai fazer-lhe muito bem. Cabe-lhe a si a ordem pela qual as vai encontrar.
Depois abriu os olhos de novo. De novo fixou o olhar em mim. Nos meus olhos. Largou as minhas mãos e sorriu-me. E ainda disse Não há mal que sempre dure, nem sorte que perdure.
A mesma rapariga que me abriu a porta da rua foi buscar-me à sala.
À porta da rua, antes de a abrir, ficou parada a olhar para mim. As mãos presas uma à outra, à frente do colo. A olhar para mim. Em silêncio. E só então percebi. Tirei uma nota de vinte euros do bolso das calças e dei-lhos. Ela agarrou no dinheiro. Dobrou-o na palma da mão. Abriu a porta da rua e deixou-me sair. Boa sorte, disse-me.
Eu entrei para dentro do carro. Estava nervoso com o que tinha assistido. Acendi um cigarro. Fiquei ali parado a pensar no que tinha acontecido. Ou não tinha acontecido. O que é que fui ali fazer? O que é que isto ia resolver a minha vida? Quem seriam aquelas mulheres?
Passaram já alguns anos depois desta minha ida àquela casa. Bastantes, na verdade. Já fui despedido outras vezes. Aliás, fui sempre despedido dos trabalhos que tenho feito. Já tive várias relações. Nenhuma delas muito séria.
Ainda hoje estou à procura dessas mulheres de quem a senhora falou. A mulher que ia destruir a minha vida. A mulher que ia salvar a minha vida. Estava esperançado em encontrar primeiro a mulher que me ia destruir a vida. Não sabia se já a tinha encontrado ou não. Tenho dúvidas. A vida tem-me sido madrasta, mas não tenho a certeza que tenha sido destruída. E não quero encontrar a mulher que me vai salvar sem antes ter encontrado a mulher que me vai destruir. Porque prefiro ser salvo depois de ser destruído, que destruído depois de me julgar salvo.
Cada vez que uma mulher olha para mim, penso sempre qual delas será? Aconteceu agora mesmo. No linear dos frescos. A mulher olhou-me nos olhos e sorriu. Era um sorriso nos lábios, que eu percebi bem. Mas qual delas é que será esta mulher? E será mesmo alguma delas?
Tenho a vida condicionada pelo que me foi contado. Às vezes preferia não ter lá ido.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/22]

A Casa do Lado

A casa do lado está sempre fechada. Parece uma casa vazia. Mas não é.
Por várias vezes, em noites de insónia, saio de casa de madrugada, naquele momento em que a claridade começa a despertar, para fumar um cigarro e caminhar um pouco ao longo da rua e desentorpecer as pernas, e já vi um carro a sair de lá. Parece-me ser uma mulher, ao volante. Mas está sempre em silhueta. Acho que se esconde de propósito.
Estou na rua, o cigarro na boca, ou nos dedos, o fumo a subir aos céus, e ouço o mecanismo da porta da garagem a abrir. Fico ali parado, ao lado da casa, a ver. O carro só sai da garagem depois da porta chegar mesmo ao cimo e parar. Então o carro sai. E pára logo lá em frente e aguarda até a porta da garagem se fechar por completo. E então vai-se embora. Tento sempre espreitar para dentro do carro. Mas não consigo ver com clareza. Parece ser uma mulher. Talvez com o cabelo apanhado. Ou curto. A silhueta é magra. É tudo o que consigo perceber.
Já aqui vivo há cerca de seis anos. A casa já estava assim. Sempre com as janelas fechadas. As portas fechadas. Nunca vi roupa estendida a secar ao sol. Nem tapetes a arejar em janelas abertas. Nunca vi ninguém a ir despejar lixo. Nunca vi ninguém a cuidar do pequeno jardim que existe à frente da casa e, no entanto, o jardim tem um ar cuidado. Nunca vi fumo a sair da chaminé. Ninguém deve cozinhar naquela casa. Ninguém deve acender a lareira, mesmo nos dias gelados de Janeiro.
Aquela casa, aqui ao lado, é um mistério. Mesmo depois de ter ido lá espreitar, uma noite destas.
A casa parece abandonada. Parece não albergar lá vida. Mas já vi sair de lá alguém que me parece uma mulher. E há, por vezes, nem sempre, mas por vezes, uma divisão com luz numa espécie de meio-andar da casa. Uma divisão com uma janela não muito alta, mas larga, como um rasgo no alto da parede da casa, por cima da garagem, o que me faz pensar numa espécie de mezzanine.
Uma noite destas, tinha ido à rua levar o lixo, já era tarde, tarde da noite, tinha largado o saco no caixote, estava a acender um cigarro quando reparei que a luz estava de novo acesa. Na tal janela rasgada quase ao longo da casa mas mais acima na parede exterior, por cima da garagem. A janela tinha cortinas japonesas puxadas para baixo. Não se via nenhuma sombra.
Fumei o cigarro na rua, ao lado do caixote do lixo, enquanto tomava a decisão.
E decidi.
Lancei o resto do cigarro fora. Subi a rua. Galguei o muro da casa vizinha. Não havia cães nem gatos. Passei o jardim que continuava bem tratado. Aproximei-me da casa. Andei à volta dela à procura de um caminho para subir à janela rasgada. Subi a uma janela e puxei-me ao primeiro telhado, o mais baixo. Depois fui andando devagar, com cuidado, até me aproximar do segundo telhado, por cima da garagem. Fui a caminhar por um friso que ficava abaixo da janela, ou por cima da garagem, agarrado ao beiral do segundo telhado, até chegar à janela rasgada com luz no interior. Tentei espreitar, mas não conseguia ver nada. As cortinas japonesas vedavam-me o acesso. Tentei encontrar sombras, mas não dava para perceber nada.
Fui andando ao longo do friso à procura de uma nesga. Devagar, para não cair. A queda também não seria muito grave. E então, aproximei-me da junção de duas cortinas. Uma pequena nesga entre uma cortina e outra. Tentei espreitar. Cheguei-me ao vidro. Andei com um olho para cima e para baixo, De um lado para o outro. E então, finalmente, vi. Vi um corpo de mulher, vestido com um fato de licra cor-de-rosa, e collants de um branco que me parecia creme, a roçar-se numa bola gigante de borracha, uma daquelas bolas de pilatos. O corpo subia e descia sobre a bola. Rolava. Esticava-se. Virava-se. Via os pés esticados, as pontas dos dedos dos pés a tocarem, muito levemente, no chão de madeira, enquanto o corpo se esticava ao longo da curvatura da bola. Não conseguia ver a cara. Tentei várias vezes. Andei com os olhos ao longo da nesga de espaço entre uma cortina e outra, mas nada. Não conseguia ver a cara. Fiquei por ali algum tempo. O corpo mexia-se, mas a cara continuava fora de visão. Era uma mulher. Isso de certeza. Era o corpo de uma mulher. Uma mulher jovem.
Depois o corpo ergueu-se. Largou a bola que vi ficar sozinha. A luz apagou-se. Não ouvi nenhum barulho. Esperei um bocado. Nada.
Desci do friso sobre a garagem. Percorri o jardim. Saltei o muro e voltei à rua. Acendi um cigarro. Virei-me para a casa e estava na escuridão. Parecia uma casa deserta. Uma casa vazia. Mas eu sabia que vivia lá alguém. Havia alguém naquela casa.
Talvez houvesse lá um portal, pensei.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/11]

Burocracia

Saio de casa ainda não são nove horas da manhã. Não tomei banho que estava frio e fiquei sem gás na botija. Em casa, o gás ainda está na botija e sou eu que a tenho de ir buscar ao posto e carregá-la às costas. No Inverno é um bocado chato.
Saio de casa ainda não são nove horas da manhã. Saio de carro.
Auto-estrada. Auto-estrada vazia. Os camiões que fazem esta zona andam pela nacional. É por isso que vou pela auto-estrada. Os camiões voam pela nacional como se voassem na auto-estrada. A auto-estrada é mais segura e mais rápida para mim.
Balcão da EDP. Espero. Jogo um Bubbles no telemóvel. O meu número. Quero electricidade. E gás. Uma coisa de cada vez. Instalação? Uma coisa de cada vez. Não dá para fazer tudo no mesmo dia? Não. Espero. Resolvido. Hei-de ser contactado. Quando? Não se sabe.
Vou a pé. Mas penso melhor. É do outro lado da cidade. Vou de carro.
Pára-arranca.
Pára-arranca.
SMAS. Muita gente à espera. Tiro senha. Espero. Jogo Bubbles no telemóvel. Vou à rua fumar um cigarro. Jogo Tetris. Ainda tenho Tetris no telemóvel? Vou ao café ao lado e bebo uma bica. Olho o Goucha na televisão em altos-berros. Fumo mais um cigarro. Volto a entrar no SMAS. Espero.
Finalmente o meu número. Peço uma instalação. Já foi desligada? O contador está lá? Não sei. Tenho de saber.
Saio do SMAS. Vou a pé à Junta de Freguesia. Espero. Há internet. Navego enquanto espero. Sou atendido. Bem atendido. Bem tratado. Ajudam-me. Explicam-me coisas. São simpáticas as senhoras.
Vou buscar o carro. Subo à Segurança Social. Tiro uma senha. Vejo o número onde vai. Tenho um ataque de riso que se transforma em ataque de tosse. Não consigo fazer as contas. São muitos números. Vou fumar um cigarro.
Penso melhor e dou um pulo às Finanças. É mesmo ali ao lado. Tiro número. Espero. Mas não espero muito. Sou atendido. Sou despachado. Pago e vou-me embora.
Regresso à Segurança Social.
Olho para o écran. Andou dois números. Dois números. Fui às Finanças e despachei-me nas Finanças e regresso aqui e passaram dois números. Sento-me. Espero. Não há internet. Jogo Bubbles. Tetris. Solitaire. Repasso na cabeça a equipa do Benfica. Repasso na cabeça a Selecção Nacional. Vou à rua fumar um cigarro. Olho as raparigas que passam a caminho do Tribunal. São advogadas. Estagiárias, com certeza. São giras.
Regresso à sala. O número ainda é o mesmo. Olho o relógio. Vejo as horas.
Desisto.
Penso que é Sexta-feira. Penso que Segunda-feira ainda é dia.
Vou-me embora. Fumo um cigarro antes de entrar no carro.
E pergunto-me São Pedro de Moel ou Nazaré?

[escrito directamente no facebook em 2019/10/11]

A Lâmina Mais Pequena É Sempre a Mais Afiada

Não sei como fazer as coisas. Mas não posso continuar como se não se passasse nada. Não posso.
Vejo os meus olhos tristes ao espelho. Faço a barba. Faço a barba com navalha e espuma de sabão. Nunca tinha feito a barba com navalha. Ela não está muito bem afiada. E eu nunca tinha feito a barba com navalha. Passo-a várias vezes pelo mesmo sítio. Para raspar bem. Para raspar melhor. Corto-me. Mas nada de grave. Uns cortes sem importância. Estanco o sangue com pedaços de papel higiénico.
Massajo a cara barbeada com after shave. Encetei um frasco que a minha filha me deu há… Há dois anos, acho. Não costumo fazer a barba. Não costumo usar after shave.
Será que vão achar estranho?
Tenho de fazer alguma coisa. Não posso esperar mais.
Tomo um banho de imersão. Há quantos anos não o fazia? Ela vai achar estranho. Não tarda vai querer entrar na casa-de-banho e vai achar estranho eu estar a tomar banho de imersão. E não sei mentir. Não consigo fingir. Oh! Mas sabe-me tão bem!
Deixo-me ficar quieto na banheira durante algum tempo. E penso como a vida pode ser fabulosa na sua simplicidade. Um simples banho de imersão e esqueço-me de mim.
Ela abre a porta da casa-de-banho, coloca a cabeça dentro e diz Demoras muito? e eu sinto-me despertar da minha letargia, forço um pequeno sorriso e digo Saio já! e ela ainda comenta Banho de imersão, hum? Lorde!, sorri e eu volto a dizer Saio já!
E saio. Saio já. Seco-me. Vou vestir-me no quarto. Não me cruzo com ela. Nem com eles. Visto-me. Umas calças de ganga e uma camisola. Ouço-a entrar na casa-de-banho. Ouço-os a eles na brincadeira na cozinha. Desço as escadas e dirijo-me à porta da rua. Grito alto para toda a casa ouvir Adeus! Estou atrasado! Beijos! e ainda os ouço gritar, chamar por mim Pai! Pai!, mas saio a correr, rápido, não os quero ver, não os quero encarar, e entro dentro do carro e arranco pelas ruas do bairro. Olho para o espelho retrovisor e vejo os olhos molhados. Páro o carro na berma de uma rua qualquer e desato a chorar. Choro compulsivamente. Grito. Ainda aqui estou e já sinto saudades. Saudades dela. Deles. Da minha vida. Da vida.
Tento respirar. Tento respirar com calma. Acalmo. Páro o choro compulsivo. Mas choro. Ainda choro. Acendo um cigarro. Abro a janela do carro e deixo o fumo sair para a rua.
Vejo as crianças a pé a caminho da escola. Uma mulher, de robe, passeia um cão pequenino pela berma da estrada. Passam carros. Carrinhas. Um jipe. Motas. Várias bicicletas. Miúdos de bicicleta a caminho da escola.
Deito fora a beata ainda fumegante.
Olho o relógio. Vejo as horas.
Acendo outro cigarro.
Vejo os carros passarem. As pessoas passarem. Os cães passarem. As minutos passarem. A vida passar.
Volto a casa. Está em silêncio. Vazia. Já não está ninguém.
Deixo o carro. Deixo a carteira. O dinheiro. O telemóvel. As chaves. Tudo em cima da mesa da cozinha. O bloco aberto. Amo-vos! escrito numa linha de página do bloco como se fosse uma redacção da escola.
E vou embora. Outra vez. De vez.
Saio a porta. Olho a casa pela última vez. Penso que aguentei quase dois anos sem trabalho. Ela aguentou. Eles todos aguentaram por mim. Mas isto agora… Isto agora já é demais. Eles precisam de viver as suas próprias vidas. Sem âncoras que os prendam.
Faço as ruas do bairro a pé. Não me cruzei com ninguém conhecido. Pelo menos, não dei por isso.
Desço até à cidade. A pé até à cidade. Um bilhete de autocarro para fora da cidade. Não precisa de ser muito longe. Tem de ser é muito rápido. Para não ter tempo de me arrepender.
Vou até uma aldeia que nem conheço. Nunca ouvi falar. E fica aqui nos arredores da cidade. Saio do autocarro. Caminho ao longo da rua da aldeia. Saio da aldeia. Entro no pinhal. Caminho à deriva pelo pinhal. Vou andando enquanto consigo. Começo a chorar. Sinto saudades. Saudades deles. De tudo. Tenho uma dor de estômago e vomito. Vomito agarrado a uma árvore.
Sento-me no chão, em cima de uma manta de musgo, encostado a um pinheiro. Acendo um cigarro. Sinto uma grande angústia.
Penso em quando acompanhei o meu pai à quimioterapia. Penso em quando acompanhei a minha mãe. E penso que não quero que me acompanhem a mim.
Acabo de fumar o cigarro. Apago-o no musgo, entre as minhas pernas.
Agarro no canivete-suíço. Puxo a lâmina mais pequena. Está mais bem afiada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/09]