O Revólver Debaixo da Almofada

Durante três anos dormia com uma garrafa de vinho na mesa-de-cabeceira, um cigarro no cinzeiro pronto a acender, o isqueiro estava mesmo logo ao lado, perto do despertador, e o revólver debaixo da almofada. Durante três anos.
Ela só soube do revólver ao fim dos três anos. E foi aí que me disse Ou o revólver ou eu. E eu precisei de um fim-de-semana inteiro para escolher entre um e outro. E no fim, acho que escolhi mal.
Guardei o revólver no pequeno cofre. Escolhi-a a ela. Passei a acordar de hora-a-hora todas as noites. Acordava transpirado, cheio de suores frios. Com medo. Tinha de me levantar e ir fumar um cigarro para a varanda e esperar acalmar. Sentia falta da segurança que o revólver me dava, ali assim, junto à minha cabeça, debaixo da almofada, onde eu levava a mão para ver se ele ainda lá estava. Bebia um gole de vinho, pelo gargalo, e deitava-me. Depois ouvia-a sempre resmungar Vai lavar os dentes!
Ao fim de um mês ela acabou por se ir embora.
O revólver voltou para debaixo da almofada.
Não sei como é que tudo começou. Mas começou com medo. Foi um medo que me começou a consumir cá por dentro. Foi aí que comprei o revólver. Enfiá-lo debaixo da almofada como companhia foi um pormenor.
Depois dela se ir embora, passei a dormir com o revólver na mão debaixo da almofada. Às vezes acordava a meio da noite. Acordava com algum barulho. Ficava ali parado, a orelha virada para cima atenta a qualquer alteração da ordem lá de casa. Às vezes acabava por me levantar e fumava um cigarro ali mesmo na cama, em silêncio. Largava o revólver e acendia o cigarro. Bebia um gole de vinho. E voltava a deitar-me. Às vezes ouvia-a falar Vai lavar os dentes! E então, tinha mesmo de me levantar e ir lavar os dentes ou então não conseguia deixar de pensar nela e na ordem que ela me dava e eu não cumpria. Mas então, tinha de o fazer.
Um dia fui acordado com uma chuva violenta a bater na janela do quarto. Talvez já tivesse bebido um pouco mais. Talvez tivesse fumado algo mais que um cigarro. Sei que estava a dormir profundamente, com o revólver na mão. Acordei sobressaltado com o barulho da chuva a bater, violentamente, no vidro da janela. Levantei-me num salto, puxei o braço que estava debaixo da cabeça, o revólver veio preso à mão, o dedo mexeu-se, carregou no gatilho e o revólver disparou. Ouvi o som metálico, estridente, mesmo junto a mim. Fiquei surdo por momentos. Fiquei cego. Não bem cego. A vista enturvou colorida. Senti uma pasta na perna, a percorrer-me a perna, percebi o lençol molhado.
Acendi a luz da mesa-de-cabeceira. Tinha dado um tiro na minha perna. Na minha própria perna. E não parava de deitar sangue. Às golfadas.
Ainda consegui telefonar para o cento e doze antes de desmaiar.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/02]

Quando a Minha Mãe se Fartou dos Programas do Hernâni Carvalho, Jantámos uma Pizza com Cogumelos

Eu estava em pé, à entrada da sala, com o telemóvel nas mãos a ver o correio no Gmail e a pensar Como é que tenho tanto correio por abrir? Eram cerca de três mil mensagens de mail que eu não tinha aberto. A maior parte delas de newsletters que eu tinha subscrito e que nunca tinha lido nem pensava vir a ler. Já tinha pensado em mandar tudo para o lixo mas, achava sempre que poderia ali haver alguma coisa com interesse, que fosse importante e, por isso, a melhor solução era ir vendo as mensagens uma-a-uma e ir apagando as que fossem para apagar. Mas ia adiando. Porque não tinha tempo. Nunca tinha tempo. Nem tempo nem vontade para abrir correio electrónico para o qual ara preciso uma pachorra que eu não tinha.
Então, notei silêncio à minha volta. Silêncio na sala. Levantei os olhos do ecrã do telemóvel e vi-a a levantar-se do sofá. Ela estava a ver um programa do Hernâni Carvalho. E apagara a televisão. Vi as horas no display do telemóvel. Ainda estava a dar o programa. Perguntei-lhe Então? E ela olhou para mim, parou o seu andar lento e disse Estou farta de vinganças e de gente má a fazer mal a toda a gente e da voz dele. Estou farta do Hernâni Carvalho. E da Júlia Pinheiro e do Baião. Estou mesmo farta daqueles gritos e pulos e conversas de chacha. E depois continuou na sua passada lenta até à varanda. Abriu a porta e foi até lá fora.
Nos últimos tempos andava sem vontade de ver televisão. Já largara as novelas Sempre a mesma história, sempre, os mesmo actores, sempre as mesmas coisas! dizia. Chegou a vez do Hernâni Carvalho. Ela via os programas dele religiosamente. Fartara-se. A fórmula é sempre a mesma.
Fui ter com ela à varanda. Estava debruçada no varandim. Olhava para quem passava lá em baixo na rua.
Acendi um cigarro. Ela disse, sem se virar para mim Ainda não deixaste essa chupeta? Faz-te mal! e eu ri-me.
Depois perguntou-me Queres jantar o resto da caldeirada que fiz ontem? e eu pus-me a pensar. Não me apetecia peixe. E ela punha sardinha na caldeirada. E, para mim, sardinha é assada. Assada na brasa. Não, não me estava a apetecer comer caldeirada. E propus-lhe E uma pizza? Eu sabia que de vez em quando ela ia nestas comidas assim. Quando eu as ia buscar. Não gostava muito mas, de vez em quando, gostava de variar da sua cozinha, a mesma desde há mais de oitenta anos. E perguntou-me Com cogumelos? E eu disse Sim, com cogumelos e alcachofra. E bacon para dar lustro. Ela gargalhou e disse Pode ser! Pode ser, sim!
Eu olhei para as cerca de três mil mensagens de correio electrónico na minha conta de Gmail e desliguei o telemóvel. Encostei-me ao varandim ao lado dela. Ela disse Chega esse cheiro para lá! E eu mandei metade de um cigarro ainda por fumar para a rua e ela refilou Então manda-se assim o cigarro para a rua? e deu-me uma palmada no braço.
Dei-lhe um beijo e deixei-a na varanda a ver quem passava.
Saí de casa para ir à pizzaria. Quando estava eu a passar por baixo da varanda da casa dela pensei se ela não iria deixar cair uma bola de cuspo em cima de mim. Se fosse eu era o que fazia. Ela não era como eu.
E quando estava a passar mesmo por baixo da varanda de casa dela, caiu-me um balão com água mesmo ao meu lado. Não me atingiu mas, os salpicos, os salpicos quando o balão rebentou em contacto com o chão, os salpicos salpicaram-me. Olhei para cima e vi o miúdo do andar de baixo da minha mãe a esconder-se para dentro da varanda. Mais acima a minha mãe olhava para a frente, por entre os prédios, e via o sol a pôr-se, atrás da linha do horizonte.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/28]

Quatro Tiros

O homem estava sentado no banco de jardim que não estava propriamente num jardim mas no meio-largo que se formava ali, a meio da rua, do outro lado da estrada, frente à varanda onde eu estava sentado numa cadeira de praia a fumar um cigarro, à espera de almoçar. Olhava a rua e a vida que lhe dava cor.
O homem estava sentado no banco de jardim. Um cão, um cão que era uma cadela, eu sei porque conhecia a cadela, passeava à volta do banco de jardim onde o homem estava sentado e, de vez em quando, chegava-se ao homem e colocava o focinho nas pernas do homem e ele dava-lhe duas palmadas no lombo como que a dizer Gosto de ti!, e a cadela ia dar mais uma volta pela vizinhança. Uma miúda passeava numa bicicleta cor-de-rosa com rodinhas de apoio, sob o olhar atento de uma jovem mulher, talvez a mãe. Dois miúdos davam toques numa bola. Passavam-na um ao outro. Davam uns toques com os pés, sem deixar a bola cair no chão, e depois passavam ao outro. Num outro banco de jardim que estava no passeio que acompanhava a estrada ao longo da rua, uma velha de bengala pousada ao lado, espalhava pedaços de pão aos seus pés para os pombos, que vinham aos magotes para ao pé dela, debicarem os pedaços de pão e eu pensei Não dê de comer aos pombos, minha senhora!, mas não expressei nada sonoro.
Acabei o cigarro. Apaguei-o no vaso com areia e sem flores que estava no cimo do murete da varanda, um vaso cheio de beatas de cigarros que um dia terei de despejar, quando vi passar um miúdo, um adolescente, em cima de um skate, pelo alcatrão da estrada, a fazer slalom entre os carros que circulavam para um lado e para outro. Também estava uma velhota sentada na paragem do autocarro. Está lá sentada todos os dias, quase o dia inteiro, e nunca apanha o autocarro. Está lá sentada para meter conversa com as pessoas que esperam pelo autocarro. Cada um mata a solidão como pode.
Um homem saiu do quiosque mais abaixo com o saco do jornal Expresso. Uma rapariga estava sentada, sozinha, numa mesa da esplanada a fumar um cigarro. Um rapaz veio à porta do restaurante chamar a rapariga e ela largou a beata no chão e entrou no restaurante. Pouco depois saiu um velho. O velho caminhou um pouco na rua e depois parou frente a uma loja a olhar para a cadela. Procurou algo com o olhar e depois voltou a andar. Parou em frente à porta de um prédio, meteu a chave e entrou.
A cadela voltou outra vez para o homem. Colocou, outra vez, o focinho na perna do homem e esperou. Ele voltou a dar-lhe duas palmadas no lombo, a cadela abanou a cauda, contente, e voltou a ir embora.
Uma senhora passou, devagar, a cruzar a estrada pela passadeira, de telemóvel na mão e no ouvido. Ia a falar com alguém. Parecia distraída. Parou a meio da passadeira e manteve-se lá parada por momentos. Depois recomeçou a caminhar para o outro lado. Passou um autocarro mas não parou, não havia ninguém para entrar, a senhora que lá estava sentada já era conhecida de toda a gente e, provavelmente, não havia ninguém para descer. Duas raparigas passeavam, lado a lado, empurrando, cada uma delas, um carrinho de bebé. Os carrinhos eram iguais. As raparigas não. Um homem veio do fundo da rua a correr com uma camisola amarelo-fluorescente e umas sapatilhas verde-alface, passou por trás do banco de jardim que estava naquele meio-largo onde o homem estava sentado, e continuou estrada fora.
O velho saiu do prédio onde tinha entrado e caminhou decidido até ao meio-largo a meio da rua, em frente à varanda onde eu estava sentado numa cadeira de praia, mas já não estava a fumar porque já tinha apagado o cigarro. O velho parou em frente ao homem que estava sentado no banco, apontou-lhe o braço, a mão, e percebi que tinha qualquer coisa na mão, e então ouvi.
Um. Dois. Três. Quatro. Quatro tiros disparados assim, à queima-roupa.
Eu levantei-me da cadeira e debrucei-me sobre a varanda. Toda a vida que despontava ali, naquele pedaço de rua, naquele meio-largo onde estava um banco de jardim mas onde não havia um jardim, parou. Fez-se silêncio. Vi a cadela parar. Olhar para o homem caído ao fundo do banco de jardim, e uma poça de sangue a formar-se à volta do corpo caído. E vi a cadela a fugir dali, enfiar-se numas ruas e desaparecer, assustada.
Aos poucos, a vida regressou àquele espaço. Dois homens correram para o velho, empurraram-no para o chão e deram um pontapé na pistola que tinha caído no chão, para a afastarem do homem. Puxaram os braços do velho para as costas e deixaram-no assim, imobilizado. Uma senhora baixou-se sobre o corpo do homem caído ao fundo do banco e colocou-lhe dois dedos sobre a jugular. Depois levou a mão à boca e começou a chorar.
Eu agarrei no maço de cigarros e acendi outro. E disse Foda-se, pá!
Ao fundo ouvia-se a sirene de um carro da polícia.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/26]

Em Processo de Desconfinamento sem Grande Efeito

Acabei de fumar o cigarro e deitei-o fora. Inspirei longamente o ar fresco da rua e sorri. Coloquei a máscara na cara. Presa entre o nariz e o queixo e nas duas orelhas. Entrei no prédio da minha mãe. Ia buscá-la para darmos uma volta ao quarteirão. Andava em processo de desconfinamento.
Entrei em casa e procurei-a. Na cozinha. Na sala. Fui descobri-la no quarto. Deitada na cama. Chamei-a Mãe! ela abriu os olhos e deu um berro. E gritou Vade retro, Satanás! Sou eu, mãe! acalmei-a. A máscara!, lembrei-me. Estou de máscara de tecido preta na cara. Tirei a máscara e voltei a dizer Sou eu, mãe! Vês? E ela acalmou, mas vi o medo ainda nos seus olhos.
De pé sobre a cama, sobre ela, pergunto O que é que fazes aí deitada? e recebo logo a resposta automática Estava com os pés frios e vi-me deitar. Estava a chover. A televisão não estava a dar nada de jeito. O que é que estava ali a fazer, ao frio? A tremer de frio? Com os pés gelados?
Sento-me na cama, longe dela, mas perto o suficiente para não ter de gritar. E pergunto-lhe Mas não íamos sair? E ela logo responde Sair? Com esta chuva? Com este frio? Quem é que quer sair com este tempo?
E eu digo-lhe Precisas de sair, mãe. Quase dois meses fechada em casa, precisas de ir à rua. Mas ela não desarma. Primeiro não queres que eu saia. Agora queres que saia. Ninguém te entende. Vê lá se atinas de uma vez. Ou é para ficar em casa ou é para sair. Não vou cansar-me a vestir para ficar cá por casa. Ou para ir dar uma simples volta ao quarteirão. Já vais dizer que não posso ir ao café. Que o café só serve café e é para ir a beber na rua e com a mala e a bengala não consigo agarrar o copo de plástico que ainda por cima vai queimar-me a mão. Nem posso lanchar. Nem bater-papo com ninguém. Dizes que não posso ir ao supermercado porque não posso andar lá a mexer em nada porque há muita gente a pôr a mão em tudo onde se pode pôr a mão. Já nem sei por onde andam os velhos com quem conversava. Não me vou vestir só para ir ao talho, porque dizes que ao talho eu posso ir contigo, mas para ir contigo, vais lá tu sozinho. Não é que eu não goste de sair contigo, porque gosto, mas estar a vestir-me só para dar uma volta aqui à volta dos prédios, sem poder entrar em lado nenhum, nem sentar-me numa esplanada a lanchar e a beber um Compal e a ver as pessoas a passar, se é que já há pessoas a passar, que eu da varanda aqui de casa continuo sem ver muita gente, e depois vir logo para casa e ter de me despir toda outra vez, não. Nã!… Não vale a pena. E além do mais preciso de ir primeiro à cabeleireira que este cabelo está uma miséria e não vou assim para a rua, nem tu queres que eu vá assim para a rua, não é?
Eu percebi que a pergunta era retórica. Na verdade não estava à espera que eu respondesse, mas aproveitei a deixa para lhe dizer Oh, mãe, olha que o cabeleireiro agora é só por marcação. Queres que marque? E tens de ir com máscara. Tenho uma para ti. E tiro a máscara de uma pequeno saco de plástico, uma máscara de tecido, como a minha, e mostro-lha e ela olha para mim e olha para a máscara e volta a olhar para mim e diz Deves estar doido! e volta a deitar-se na cama. Ainda disse Está uma lista de compras na mesa da cozinha. Põe a máscara na cara e vai lá ao supermercado, vá!

[escrito directamente no facebook em 2020/05/11]

A Precisar de Desanuviar

Estou a precisar de desanuviar. Adeus.
Foi assim que ela se foi embora, de boleia com o fim do confinamento.
Estava à porta da rua, de mala na mão, casaco vestido, quando eu ia a sair da sala com um livro do Harari na mão. Parei a olhar para ela e perguntei Onde é que vais? e ela colocou a mão na maçaneta da porta da rua, virou-se para mim como se eu fosse um estranho de passagem e disse Estou a precisar de desanuviar. Adeus.
Tínhamos vivido juntos os últimos seis meses. Mais intensamente neste último mês e meio de confinamento. Passámos a maior parte desse tempo na cama. Nus. Transpirados. A foder. Deixei acumular o tele-trabalho. Cozinhei para ela. Até me tornei um semi-vegetariano por causa dela. Deixei que me espremesse pontos negros nas costas. Deixei que me cortasse o cabelo. E depois, Estou a precisar de desanuviar. Adeus.
No início nem percebi muito bem. Pensei que ia dar uma volta pela cidade. Para desanuviar. Claro que achei estranho a mala na mão. Mas nem pensei muito nisso. Pensei que ia só dar uma volta à beira do rio, coisa que eu faço com regularidade. Ou que ia beber um café expresso a sério e não aquela miséria do Nespresso que sempre me pareceu a chicória que a minha mãe fazia aos Domingos, em Dezembro, para acompanhar as filhoses.
Olhei para o livro que trazia na mão e não sabia muito bem o que é que estava ali a fazer, no corredor, à saída da sala, com o livro na mão, e ela ao fundo do corredor, a porta da rua aberta e o Adeus a ecoar. Vi-a afastar-se de mim. O olhar dela largar o meu, virar-se de costas, puxar a porta da rua e ela bater com violência e eu despertei de uma pequena letargia momentânea e percebi que ia a caminho da casa-de-banho quando fui interrompido pela saída furtiva dela.
Fui para a casa-de-banho. Não consegui ler nada. Não consegui estar calmo. Voltei ao corredor. Abri a porta da rua. Espreitei o patamar. Fui à janela da sala. Pus a cabeça de fora e olhei a rua, de um lado, de outro. Pouca gente. E ela não era nenhuma delas. Depois deixei-me cair sobre o sofá.
O livro?
Deixei-o na casa-de-banho. Devia tentar ler. Ler para esquecer. Passar à frente. Tinha de me levantar. Mas não conseguia levantar-me. Não conseguia ler o livro. Não queria ler o livro. Só me revia na cama. Na cama com ela. O meu corpo tombado sobre a cama. Os lençóis encharcados. Ela sobre mim. A mão dela na minha garganta. A mão a apertar a minha garganta. E a dizer Tosse! Tosse! E eu a tossir. A tossir. Depois ela tombava sobre mim. Ficava morta, sobre mim. E eu ficava quieto debaixo dela para não a incomodar. Sentia-lhe o coração a bater muito rápido contra o meu. Depois a respiração a acalmar. E por fim levantava-se e ia buscar um cigarro. Acendia-o e passava-mo. Eu esticava a cabeça para fora da cama, procurava a janela do quarto, sentia a cabeça cair fora da cama, ficar pendurada, mas procurava a varanda do prédio em frente e o tipo estava lá. A olhar para mim. Para o meu quarto. Para a minha cama. Puxava uma passa do cigarro e devolvia-o a ela que ia fumar, nua, para a janela.
Levantei-me do sofá e fui a correr até ao quarto, abri a janela e olhei para a varanda do prédio em frente. Não estava lá ninguém. A varanda estava deserta.
Eu acendi um cigarro e fiquei lá, à janela do quarto, a fumar o cigarro e a olhar para uma varanda vazia à espera que aparecesse alguém.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/04]

A Companhia do Meu Primeiro Cigarro do Dia

Nunca tinha reparado nela e, agora, vejo-a todos os dias. Por volta das oito da manhã, acendo um cigarro na varanda, e vejo-a a caminhar ao longo da rua até desaparecer lá ao fundo, e virar à direita, na esquina da pastelaria agora fechada. Ela não sai aqui do prédio. Já vem de baixo. Do início da rua. Não sei se vive aqui ou se só passa por aqui mas, todos os dias, todos os dias desde que estou fechado em casa, vejo-a passar lá em baixo.
Logo da primeira vez chamou-me a atenção porque não passava ninguém aqui em baixo na rua. Eram oito da manhã e eu tinha saído da cama, vestido uns boxers, e vindo à varanda fumar o meu primeiro cigarro do dia. Estava calor, nesse dia. A rua estava deserta. Esta rua que, num dia normal está cheia de gente que a percorre para cima e para baixo, esta rua que, a partir das oito da manhã começa a carregar as suas baterias com a chegada das carrinhas da panificadora, os camiões da cerveja, o pessoal das entregas da DHL, os empregados das lojas que empurram as montras para o passeio, as esplanadas que brotam de novo com mesas e cadeiras e chapéus-de-sol todos os dias, a senhora das flores que coloca vasos na rua, a escola de condução que estaciona a motorizada frente à entrada a apelar às aulas, agora está deserta. Mesmo o pessoal da câmara que, às vezes, e com ajuda dos bombeiros, vinha aqui dar uma limpeza geral, com mangueira, varrer as misérias presas às pedras da calçada, não têm aparecido agora. Agora e desde aquele primeiro dia em que toda a gente, ou quase toda a gente, ficou em casa para evitar a contaminação. Foi nesse dia o primeiro dia em que a vi, a passar lá em baixo, sozinha, na rua deserta, a caminho de qualquer lugar. Provavelmente trabalhar. Num daqueles trabalhos essenciais à nossa vida. Se calhar é repositora de lineares. Caixa de supermercado. Técnica de farmácia. Médica. Enfermeira. Polícia não me parece. Pelo menos daqui de cima. Tem o cabelo loiro. E eu nunca conheci uma agente da polícia com o cabelo loiro.
Agora já não me levanto todos os dias para vir aqui à varanda fumar um cigarro. Agora levanto-me todos os dias para a ver passar lá em baixo. Vai sempre bonita. Bem arranjada. Eu, desde que estou para aqui fechado em casa, ando de boxers, às vezes nu, quando está frio visto um fato-de-treino, que é o que levo à rua se preciso de sair para ir ao supermercado ou à farmácia, ou então visto uma roupa velha, as calças de ganga de pernas largas, as t-shirts que usava para dormir, as sapatilhas rotas, as meias sem elástico, porque regresso a casa e vai tudo para lavar a quarenta graus, e eu de regresso ao duche. Ela não. Ela vai sempre elegante. Como se fosse para alguma festa, mas não será para uma festa porque agora não existem festas. É só uma miúda que gosta de se arranjar e ainda bem, porque gosto de a ver assim arranjada, às vezes de calças de ganga, sapatilhas All Star, outras vezes de saia e camisa, também já a vi de vestido, um casaco por cima, meias de vidro, tudo de várias cores, não sei se tem uma preferida que já lhe vi a colecção da Pantone. O meu guarda-roupa é essencialmente preto e cinzento e o azul das calças de ganga. Um guarda-roupa triste e melancólico. Ela é uma miúda alegre e que me alegra. Agora já preciso dela diariamente para me marcar o arranque do dia. Preciso de a ver. Começo a ter com ela, uma miúda com que nunca falei, mais afinidade que com as minhas ex-mulheres. Imagino-a cheirosa, o cheiro do banho acabado de tomar e talvez o aroma fresco de um perfume leve. O sorriso, que nunca lhe vi, plantado na cara. E uma conversa sem fim.
No outro dia pensei no dia em que não a vir passar. Pensei no dia em que chego à varanda, acendo um cigarro e ela não passa lá em baixo na rua. Nesse dia deprimi um pouco. Cheguei a ter vertigens na varanda. Espero não voltar a deprimir mais. Espero que ela continue a passar. Espero que continue a fazer companhia ao meu primeiro cigarro da manhã.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/18]

Para um Diário da Quarentena (Sétimo Andamento)

Não estava a fazer conta sair de casa. Levantei-me a meio da manhã, vesti umas calças de fato-de-treino, uma t-shirt, calcei os chinelos e fui para a cozinha espremer laranjas para um sumo. Fui para o alpendre beber o sumo e ler as notícias nos jornais online.
Nada de muito substancialmente diferente, nas notícias. As mesmas coisas mas com os números a aumentar constantemente.
Enquanto lia os números assustadores de mortos, e lia esses números com uma indiferença que já me era transmitida pelos jornais e pelos responsáveis que todos os dias actualizam os números em conferência de imprensa, carregando nos números para aliviar as pessoas, deixando que as pessoas se tornem números e, dessa forma, perderem um pouco da carga emocional que transportam, pensei que podia guisar o coelho que a vizinha, que mora duas casas mais abaixo, veio cá oferecer.
Tocou o telemóvel. Era a minha mãe. Olá, mãe!, disse. E ela começou Vens cá logo? Preciso de ovos e de sumos de manga para o pequeno-almoço. Já não tenho nenhuns. E sacos do lixo… Ah, e antes que me esqueça, preciso de álcool que já não tenho nada cá em casa. E eu respondi Oh mãe!, mas eu não posso ir ao supermercado dia sim, dia não, e senti-a em silêncio lá do outro lado. E continuei Está bem. Vou aí depois de almoço. E damos um passeio à volta do quarteirão. E alegre, ela respondeu Está bem.
E onde é que vou arranjar álcool? pensei.
Troquei os chinelos por umas sapatilhas. Vesti uma camisola. Fui a uma vizinha na aldeia e comprei uma dúzia de ovos. Passei na farmácia, mas não havia álcool. Passei na mercearia mas não havia sumos de manga. Voltei a casa para ir buscar o carro. Já não ia cozinhar o coelho. Levei-o para a minha mãe. Ela até gosta mais de coelho que eu.
Saí com o carro. Ainda tinha combustível. Passei no Pingo Doce. Estava fechado. Só abria mais tarde. Fui ao Lidl. Uma fila enorme. Mais à frente o Modelo-Continente. Aberto. Sem fila. Comprei dois packs de quatro garrafas pequenas de sumo de manga. Um rolo de sacos do lixo de trinta litros. Procurei álcool. Não havia. Lembrei-me do sabão azul e branco. Também não. Procurei luvas e máscaras. Nada.
Fui até casa da minha mãe. Antes de subir fui à pastelaria comprar-lhe pão fresco. Estava fechada. Novo horário. Este será o maior problema destes tempos. O conhecimento dos horários de funcionamento de lojas onde precisamos de ir porque cada uma funciona com o seu próprio horário.
É uma porra, é o que é!
Subi a casa dela. Estava na sala. Larguei as coisas na cozinha. Aspirei a casa. Depois passei uma esfregona molhada na cozinha e na casa-de-banho. Pedi-lhe para ir para a cozinha arrumar as coisas que já íamos sair e aspirei a sala.
Ficou muito contente com o coelho. Ficou triste pela falta de álcool.
Saímos. Descemos no mesmo elevador. Mas ela ia ao fundo. Eu mais próximo da porta. Eu é que ia abrindo e fechando tudo o que precisava de ser aberto e fechado. Na rua começamos a andar ao longo do passeio. Não havia vivalma. Ela sentiu-se triste. E disse-me Eu sei que as pessoas estão em casa mas ver a cidade assim é diferente. Mesmo visto da varanda é diferente. É uma cidade muito triste.
Sim, era uma cidade muito triste. A cidade quase deserta. Quase vazia. Quase silenciosa. Irreal. Mais à frente vimos algumas pessoas. Ela conhecia algumas delas. Sorriu-lhes e cumprimentou alguns conhecidos à distância de um aceno com a mão, ou com um adeus. Andámos à velocidade dela. Distantes um do outro mas próximos o suficiente para ele conversar. Ela é que fazia a maior parte da despesa da conversa. Estava há muito tempo fechada. Precisa de ser ouvida. Ela falava. Eu ouvia. E respondia. Às vezes parava a ver uma montra. Eu dizia-lhe para ter cuidado e não se encostar. Demos a volta ao quarteirão e regressámos a casa dela. Levei-a a casa. Eu ia abrindo e fechando tudo o que precisava de ser aberto ou fechado. Dissemos adeus. Pedi-lhe de novo, e a saber que não valia de nada pedir, para me ir dizendo o que precisava com antecedência para eu anotar tudo e tratar das coisas todas de uma vez. Ela disse que sim, claro. Como diz sempre. Mas acho que já nem se lembra com o que é que está a concordar. Levei o lixo dela para baixo.
Fui embora.
Ao despejar o saco de lixo no caixote, na rua, reparei que haviam luvas e máscaras espalhadas pelo chão. Perguntei-me de onde vinha aquilo. E porque raio estava espalhado pelo chão em vez de estar dentro de sacos dentro do caixote.
No carro, ainda parado, pensei que não tinha luvas, nem máscaras, muito pouco álcool e só um pequeno pedaço de sabão azul e branco. Não conseguia arranjar em lado nenhum. Também não ia de propósito à procura das coisas mas, em todo o lado que ia para comprar outras coisas, procurava e nunca havia. Via muita gente com estes produtos na rua. Se calhar açambarcaram logo no início. Se calhar têm tido sorte em apanhar as novas remessas. Eu não gosto de açambarcar coisas. Não encho jerricãs de combustível. Limitei-me a ter o depósito cheio. E só o enchi uma vez. Não comprei papel-higiénico. Não mais do que o que compro normalmente. Não comprei conservas para além das habituais. Não comprei álcool porque tinha uma garrafa em casa, e é com essa garrafa que me tenho desinfectado antes de entrar em casa da minha mãe e no regresso à minha. Quando tentei comprar máscaras e luvas, percebi que já era tarde. Não havia nem para os profissionais de saúde que estavam na linha da frente do combate e eles precisam mesmo destas protecções, haveria para mim? Mas via muitas pessoas na rua com máscaras.
Depois de chegar a casa, fui lavar as mãos. Despi-me. Tomei banho. Lavei a roupa que tinha utilizado. Depois cortei umas peças de fruta, uma laranja, uma maçã, uma pêra e um kiwi, era o que tinha em casa, despejei um iogurte numa tigela e coloquei a fruta em pedaços à volta. E fui para o alpendre comer. Hoje não via as montanhas. Não estava sol. O cão estava a dormir enrolado nele próprio e nem me ligou. Os gatos olharam-me à distância mas nenhum me veio incomodar. Comi sozinho no alpendre.
Chegaram umas mensagens ao telemóvel que não quis ler.
Deixei-me adormecer.
Acordei com frio e com um arrepio nas costas. O cão continuava no mesmo sítio. Agora também lá estavam os gatos. O telemóvel voltou a acusar a recepção de uma mensagem. Pus o telemóvel no bolso e entrei em casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/26]

Para um Diário da Quarentena (Quarto Andamento)

Estou há uma semana em casa. Mas não estou completamente fechado. Tenho dado uns passeios. Vou ao pão. Às vezes vou ao minimercado onde não há filas de espera e onde, às vezes, sou o único cliente. Para além de mim, costuma estar uma empregada, a mesma que corta o fiambre em fatias fininhas e depois recebe na caixa o dinheiro da despesa.
Mesmo quando estou por casa estou pela rua. Pelo alpendre. Pelo quintal. Desço ao fundo da alameda. Vou até à estrada, ando uma centena de metros para um lado, depois para o outro, e não passa nenhum carro. Pareço ser o último homem na terra.
Ontem saí. Saí de casa, da terra, e fui à cidade. Fui levar mantimentos à minha mãe.
A minha mãe já tem oitenta e nove anos e vive sozinha no meio da cidade. Ela gosta de sair, de laurear-a-pevide, ir ao café, ao supermercado, de ir almoçar uma sopa de peixe à Quarta-feira, ao café da Avenida. Agora passeia-se maldisposta por casa. Vai até à varanda!, digo-lhe eu ao telefone. E ela vai. Passa todo o tempo possível na varanda, pelo menos até o tempo começar a arrefecer, mas depois diz Não é a mesma coisa. E agora já não passa quase ninguém na rua, e eu digo-lhe Tens de aguentar! e lá começa ela a desfiar todas as histórias das minhas adolescentes fugas de casa que, julgava eu, ela não sabia. Mas sabia. E agora penso se não me está a preparar para alguma asneira. E digo-lhe Porta-te bem. Ficas em casa e quando isto passar, vamos comer uma sardinhada à praia, na esperança que uma sardinhada na praia ainda tenha o mesmo efeito cativante de antigamente.
Comprei várias coisas para ela aqui pelo minimercado, pelo pequeno talho e pela senhora que ainda vem à aldeia, numa carrinha, vender peixe fresco. Assim evito as filas dos hipermercados e o contacto com outras pessoas.
O mundo, com as pessoas assim à distância, até nem me parece muito mau.
Fiz um pequeno cabaz com mantimentos para uma semana, mas talvez lá consiga ir mais cedo. Também não quero ter muito contacto com ela, por estes dias.
Levei um robalo que pedi à senhora que o amanhasse e cortasse em quatro partes (era grande, o rabalo), e que em casa iria colocar em saquinhos individuais, dois bifinhos de vaca, duas iscas e um chouriço caseiro. Levei batatas novas, grelos de couve e algumas cebolas e alhos. Uns iogurtes gregos, que ela gosta bastante, e um pacote de manteiga pequeno que ela queixa-se que nunca encontra, são sempre muito grandes, e ela não come muita manteiga, embora às vezes lhe apeteça um bocadinho, e depois fica muito tempo no pacote aberto e ganha ranço. Também levei uma meia-dúzia da ovos caseiros que uma quase-vizinha me ofereceu.
Passei pela padaria e comprei alguns papo-secos, que até aguentam mais tempo molinhos, e uma broa amarela. Passei também na farmácia para levantar uma receita da sua medicação habitual e foi o único sítio onde estive à espera. Mas lá fui aviado sem muitos problemas.
Entre entradas e saídas tenho lavado as mãos com álcool. Não uso máscara que não tenho nenhuma e nunca encontrei à venda.
Cheguei a casa dela. Olá, mãe! Olá, filho! E ela foi para a sala ver televisão enquanto eu desfiz o cabaz e deixei tudo em cima da mesa da cozinha para ela arrumar e saber o que tem lá em casa. Abri-lhe uma garrafa de vinho tinto para ela beber um copo se quisesse. Enchi a caixa dos comprimidos. Havia alguns que ela não andava a tomar. Tinha de lhe dizer que sabia que não os andava a tomar para ver se ela os tomava. Depois fui ao quarto dela e fiz a cama de lavado. Ia gostar de se deitar nos lençóis impecavelmente esticados e depois levei a roupa da cama para a máquina e deixei-a a trabalhar.
Fui à entrada da sala e disse-lhe Vou-me embora. Porta-te bem. Vai até à varanda. E vê lá se tomas os comprimidos todos. E ela começou a abanar a cabeça e respondeu, refilona Se não tomei os compridos todos foi porque não calhou, ora. Nunca te esqueceste de nada? E farta da varanda estou eu. Quando cá voltares e eu não estiver em casa é porque fui dar uma volta, ao que eu repliquei Vê lá, vê!…
Voltei para casa a pensar que na próxima ida teria de aspirar a casa. Dar uma limpeza à casa-de-banho. E que ela estivesse em casa. Ah, sim, que ela estivesse em casa. E ri-me.
Hoje o dia acordou de chuva. Vim para o alpendre onde ainda estou. Os gatos andam para aí a passear à chuva. Nunca percebi isto. Os gatos têm medo de água, cada vez que ligo a mangueira para regar as plantas e as couves, os tipo fogem, e depois andam à chuva. O cão está a dormir todo enrolado ao pé de mim. Eu fumo um cigarro e estou a ver as manchetes dos jornais online. Parece que já morreram doze pessoas. Em Itália já morreram mais de quatro mil.
Como a minha mãe costuma dizer, aqui estamos num cantinho do céu. Espero que continuemos.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/21]

Recomeçar

Ela já tinha mandado o pano de cozinha molhado para o chão. Na verdade atirou-mo a mim, mas eu desviei-me e ele caiu no chão. Salpicou pingos de água em toda a volta. Agora ela tinha um prato de sopa na mão. Não sabia se o ia mandar ou não. Ela já não estava a falar. Nem me apercebi que entretanto deixara de falar. Tinha-me perdido nos meus pensamentos sobre esta repetição quase diária. Já nem estranhava. Ela olhava para mim. Só olhava para mim. Os olhos raiados de sangue. Como se estivesse possuída por alguma entidade maléfica. O prato de sopa na mão.
Que merda é que eu fiz agora? perguntava-me em silêncio. Era um pergunta retórica, claro. Não estava à espera de resposta. Alguma coisa eu devia ter feito. Ou não ter feito. Mas não me lembrava de nada que pudesse ter despoletado aquela reacção tão irritada dela. Outra vez. Nos últimos tempos, isto repetia-se e eu não conseguia descobrir a razão. Mais tarde haveria de querer fazer as pazes comigo. Pedia desculpa e acabávamos a foder no chão da sala. Mas eu estava a ficar farto. Estava saturado destas discussões que, para mim, não tinham sentido. Virei-lhe costas. Sim, não é o mais agradável de se fazer. Imagino a cara dela quando de repente vê que eu lhe viro as costas, afasto-me dela e deixo-a sozinha. Sozinha com o seu mau feitio. Abri a porta da rua e saí. Olhei o pequeno quintal. Um dos gatos estava lá sentado e ficou a olhar para mim. Lá mais à frente, o terreno de cultivo. O pai dela. Andava a cultivar alguma coisa. Talvez milho. Talvez milho para as galinhas. Ele tem galinhas. Galinhas poedeiras. É por isso que comemos tantos ovos. Acendi um cigarro. Percebi nessa altura que estava nervoso. As explosões dela, já habituais, ainda me deixavam nervoso. Puxei duas valentes passas e tentei acalmar. O pai dela viu-me à porta de casa. Levantou a mão numa saudação. Respondi com a minha mão levantada. Dali a pouco já toda a gente na aldeia saberia que eu e ela andávamos de candeia às avessas. Este é um grande problema das aldeias. Destes meios pequenos. Toda a gente sabe de toda a gente. Eu sei as histórias deles, como é que eles não hão-de saber as minhas? Ao fundo ouvi uns foguetes. Havia festa numa terriola perto. Dantes ia com ela aos bailaricos. Dançávamos muito. Bebíamos copos de tinto carrascão. Comíamos filhoses e bolo da festa. Ficávamos cheios de azia mas éramos felizes. Agora já não. Agora já não dançamos. Agora discutimos. Gritamos um com o outro. E acabamos a foder violentamente no chão da sala. Entre as centopeias e os lacraus que entram por baixo da porta e pelas janelas abertas.
Não gosto do campo. Não sou do tipo campestre. Esta não é uma estória bucólica.
Recomeço.
Ela já me tinha mandado com o copo de vinho para cima. O vinho primeiro e o copo depois. O vinho espalhou-se pelo chão e não me acertou que eu desviei-me a tempo. O copo estilhaçou-se na parede atrás de mim. Ela tem má pontaria. Depois colocou a mão na garrafa de vinho, ainda meio cheia. Não a levantou para me mandar com ela. Mas ficou com a mão a agarrar a garrafa, a ameaçar-me. Ouvi as pancadas vindas do apartamento de cima. Ultimamente, os vizinhos de cima batem com o cabo da vassoura no chão deles, o nosso tecto, para avisar que estão fartos dos nossos berros, das nossas discussões e do choro dela. E foi nessa altura que percebi que estávamos em silêncio. Ela estava em silêncio. Já não estava gritar comigo. Estava só a olhar para mim. A mão no gargalo da garrafa, a garrafa em cima da mesa e o olhar parado e frio sobre mim. Ela parecia possuída. E, de repente, parou. Mas aquele olhar. Aquele olhar fixo em mim. Aquele olhar assustava-me. Ultimamente estes ataques dela aconteciam com alguma frequência. Depois passavam. Ela ia para o quarto. Deitava-se sobre a cama. Descansava um pouco. Depois, mais tarde, vinha ter comigo. Pedia-me desculpa. Tocava-me. Beijava-me. E acabávamos a foder na bancada da cozinha. Era a única coisa boa destes ataques. Já não tínhamos o mesmo desejo um pelo outro de antes mas, nestas alturas, depois destes ataques sem sentido dela, terminávamos a foder como dantes, cheios de fúria e vontade. Mas que acabava também por terminar rápido. Eu depois ia para a varanda fumar um cigarro. Ela ia tomar um banho. E acabávamos a noite na sala, cada um na sua poltrona, a fazer zapping por todos os canais do cabo e sem ficar em nenhum. Quer dizer, eu, que tinha o comando na mão, ia fazendo zapping e ela ia não vendo os canais em fast forward comigo. Era um programa como outro qualquer.
Desta vez não. Desta vez virei-lhe as costas e saí de casa. Virei-lhe as costas e percorri o corredor todo até à porta da rua a sentir os olhos dela nas minhas costas. Olhos como punhais. Saí para a rua. Acendi um cigarro. Olhei em volta. Ninguém conhecido. Mandei um berro. Fo-da-se! Uma velha olhou para mim mas continuou em frente. Na cidade ninguém quer saber de ninguém. Ninguém conhece ninguém. Ninguém sabe quem eu sou. Deambulo pelas ruas, de olhos molhados, e ninguém quer saber o que é que se passa comigo. Vem um cão no sentido contrário mas foge de mim. Muda de passeio. Acho que deve ter sido mal tratado. Coitado. Não fujas, pá! que não te faço mal.
Passo à porta do museu. Houve uma altura em que íamos lá todas as semanas. Repetíamos as mesmas exposições vezes sem conta. De cada vez que lá íamos descobríamos coisas novas. E ficávamos contentes pela descoberta. Pela descoberta em conjunto. Pela partilha da descoberta.
Há muito tempo que já não vamos ao museu. Já não me lembro da última vez que vimos uma exposição. Há quanto tempo não vamos ao cinema? E ao teatro? Há quanto tempo não temos um jantar tranquilo, a dois, sem o telemóvel, o mail para responder, o feed de notícias para alimentar, a fotografia que precisa do like. Acho que já não usufruímos da cidade. Estamos em fim de ciclo. E a cidade não nos ajuda em nada. Estamos isolados. Não temos amigos. Estamos sozinhos no meio da confusão. Só nos temos um ao outro. É por isso que insistimos em nós. Nesta relação já desgastada. Mas qual é a alternativa?
Não gosto da cidade. Não gosto do egoísmo da cidade. Preciso de gente com quem falar. Preciso de ir ao café e encontrar as mesmas pessoas e sentir-me em casa.
Recomeço.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/06]

Repito-me

Repito-me.
Não sei se é da velhice ou da senilidade. Eu sou já os dois. Velho e senil. Esqueço-me do que digo e volto a dizê-lo. Esqueço-me do que gosto e deixo de gostar.
Volto a falar do tempo. Que está quente. E frio. E chove. E faz sol. E conto as mesmas histórias. As mesmas histórias de sempre. Contos as mesmas histórias que tenho na cabeça. São as únicas que conheço. São histórias que inventei? ou são histórias que vivi? Perco-me na minha própria existência. Já não sei o que vivi ou inventei. Tento regressar, mas regresso demasiado lá para trás e não consigo perceber o que queria perceber.
Repito-me.
Mostro outra vez The Windmills of Your Mind em versão de Dusty Springfield à rapariga que tenho ao meu lado. Depois percebo que é a minha mulher e que foi assim que meti conversa com ela há… Não sei, mas muitos anos.
E ela abana a cabeça e diz Não era eu! e sorri, um sorriso complacente, um sorriso de quem percebe a minha confusão.
Se não eras tu, quem era? pergunto-me.
Mas não sei que resposta dar-me. Eu tento. Tento buscar lá no fundo de mim os pedaços da minha vida. Eu tento mas não consigo. Talvez amanhã quando não estiver a pensar em nada disto. Talvez quando já não precisar ou não me fizer sentido nenhum.
Repito-me.
Já tive esta conversa, não já?
Acendo um cigarro. Ela diz Já não fumas! e eu tusso e percebo que ela tem razão. Sinto um ataque de asma. Tusso outra vez. Tento puxar ar para os pulmões que parecem fechar-se aos meus desejos.
Olho para ela inquisidor e ouço São do teu filho.
Eu tenho um filho?
Eu sou pai?
Não sou eu o filho?
Olho em volta. Vejo a janela. Quero ir à janela. Levanto-me. Não. Tento levantar-me. Empurro o meu corpo para cima. Com os braços a impelirem-me da cadeira. Tento empurrar o meu corpo. Não consigo levantar-me. Estou preso. Estou preso numa cadeira-de-rodas. Na minha cadeira-de-rodas.
Ela levanta-se agarra na cadeira e empurra-me até à varanda. Leva-me lá para fora.
E eu vejo a rua. As pessoas a caminharem ao longo da rua. As pessoas a conversar enquanto caminham. Uns correm. Jovens. Jovens de manga curta. E eu sinto um arrepio de frio nas costas. E sinto as lágrimas que escorrem pela cara. Mas nem chorar consigo. O melhor que faço é deixar cair as lágrimas.
Sinto a mão dela no meu ombro.
Repito-me, não é?
Queria repetir o primeiro beijo. A primeira mão transpirada na mão. A primeira noite. Mas isso não repito.
Já chorei antes, não já?
Sou um esquecimento.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/02]