O Primeiro Mar do Ano

Há uns anos, quando era miúdo, quando ainda estudava e vivia em casa dos meus pais, quando os meus amigos eram os meus vizinhos, quando passava a vida a jogar à bola nos quintais traseiros das casas da rua, quando as festas, todas as festas, eram sempre com os mesmos convidados que eram sempre os mesmos amigos de sempre que eram os mesmos vizinhos de sempre, tive o desejo de conhecer gente diferente.
E conheci.
Havia, na época, um programa de troca de correspondência com estudantes de todo o mundo, e eu era estudante e correspondi-me durante alguns anos com miúdas da minha idade de países tão exóticos como Trinidad e Tobago ou tão banais como Itália. Comunicávamos em inglês e sempre achei que o inglês delas era muito bom, muito melhor que o meu, e que elas deviam ser umas miúdas excepcionais para conseguirem perceber o meu inglês escrito, e na época não havia Google Translate nem podia pedir ajuda e revisão de texto às miúdas mais inteligentes da turma porque não queria que soubessem o que é que eu tanto conversava com estas outras miúdas que nem conhecia mas para quem eu abria o coração e o meu mundo. Agora que penso nisto acho que foi uma espécie de Facebook antes da era da internet.
Para essa correspondência tinha arranjado um papel de carta com fotografias coloridas de pôres-de-sol e parezinhos de namorados em silhueta, abraçados, de mãos-dadas e, às vezes, a trocar um beijo. É claro que comecei a escrever nestes papéis, porque também comecei a receber correspondência escrita em folhas similares, com paisagens bonitas, praias, campo, muito pôr-do-sol e sempre, sempre, um casal a aproveitar, junto, as belezas do mundo.
Lembrei-me disso agora por estar a ver um casalinho abraçado e a trocar beijos encostado ao varandim sobre a falésia do Vale Furado.
Vim ver o mar. O primeiro mar do ano. Vim ao Vale Furado. Parei cá em cima, no pequeno parque em frente ao Mad. Antes de sair do carro vi um casal em contraluz encostado ao varandim em madeira, abraçado e aos beijos, e fui projectado para as minhas memórias de adolescente.
Era um jovem adolescente ainda sem namorada quando comecei a trocar correspondência com estas miúdas de todo o mundo. Escrevi a muitas embaixadas a pedir informação sobre os respectivos países, mapas, fotografias, revistas e recebi muito material que me ajudou a perceber melhor países dos quais nem sabia a existência. As miúdas ajudaram-me a conhecer os países e os países abriram-me as portas para a conversa com as miúdas.
Algures no caminho perdi essa capacidade de conversar. Seja com miúdas ou com miúdos. Perdi a capacidade de comunicar. As pessoas assustam-me e eu fujo delas. Não delas propriamente, mas do contacto com elas.
Saí do carro. Fui até ao varandim sobre a arriba e olhei todo o esplendor da costa marítima que vai dali do Vale Furado até à Praia do Norte e continua por ali fora, Salgados, São Martinho do Porto, Foz do Arelho, às vezes até se vê as Berlengas e os Farelhões, o que não é o caso. Cá de cima o mar não parecia bravo, mas estava. Percebia-se pela quantidade de ondas em cadeia e a espuma que largavam quando chegavam a terra. Vi lá em baixo duas raparigas a tirarem fotografias. Ao mar e a elas. Faziam pose. Riam uma da outra, riam uma com a outra. Estavam felizes, parecia-me. Fumei um cigarro enquanto ia olhando um horizonte inexistente, o céu e o mar confundiam-se lá ao fundo, no que devia ser a linha do horizonte. Estava um pouco de vento e de frio. Não muito. Só o suficiente para perceber que, ao contrário do que parecia, e do sol e de todas as azedas que tinha encontrado pelo caminho até cá, não estávamos afinal na Primavera, mas ainda no pico do Inverno, embora o próprio tempo estivesse baralhado e não percebesse bem como é que devia reagir.
Depois deixei cair o resto do cigarro pela falésia abaixo e fui ao Mad beber um café. A esplanada estava cheia. Um homem agarrava uma mulher, forte, pelas costas e tentava fazer a manobra de Heimlich. Estava eu a entrar na esplanada quando a mulher projectou algo pela boca que passou à minha frente e, quase que me acertava. Ninguém me ligou nada. Ninguém me pediu desculpa. Ninguém me viu. Estava toda agente preocupada com a mulher. Eu era invisível. Arranjei uma pequena mesa ao sol. Era a única pessoa sozinha naquela esplanada. Mas estava bem. Sentia-me bem. Gostava de estar ali assim, a levar com aquele sol de Inverno em cima.
O que seria feito das miúdas com quem troquei correspondência na adolescência?

[escrito directamente no facebook em 2020/01/04]

Dia de São Martinho

Aproximava-me de casa e sentia o cheiro. O cheiro de lareira. A lenha queimada.
A vizinha do lado já tinha inaugurado a época da lareira. Agora era diário. Todos os dias acendia a lareira. Eu sentia o cheiro logo ao início da rua. E dava-me uma certa inveja. Este ano, como no anterior, aliás, não tive dinheiro para encher o canto da garagem. Consegui só meia-dúzia de pequenos toros que roubei no que resta do incêndio do Pinhal do Rei. A caminho do Vale Furado ou da Praia do Norte, há pilhas de troncos à espera de serem levados para qualquer lado. Há dois anos. Ainda não foram. Já tentei lá ir buscar alguns, mas são pesados e não me cabem no carro. Apanhei uns toros pequenos que encontrei caídos por lá, mais uns gravetos e umas pinhas. Estou a guardar isso para a noite de Natal. Talvez também para a Passagem de Ano. Assim vou poder estar no quente enquanto vejo, na televisão, as festas dos outros. Talvez passe outra vez Do Céu Caiu uma Estrela.
Ao chegar a casa tinha sempre a esperança que a vizinha me convidasse para lá ir comer umas castanhas assadas na lareira. Mas não. Mal nos falávamos. Quando me cruzava com ela nas escadas do prédio ela olhava para mim, olhava-me nos olhos, à espera que eu dissesse alguma coisa, mas a única coisa que me saía era um monossílabo que acho que ela nem ouvia.
Sou uma pessoa tímida.
Ela também deve ser.
Eu subia as escadas. O cheiro era cada vez mais forte. No patamar do andar, encostava o ouvido à porta de casa dela, mas não ouvia nada. Nunca ouvia nada. Mas todos os dias repetia o mesmo ritual. O ouvido encostado à porta à escuta. O crepitar na lareira. A respiração ofegante da minha vizinha com algum putativo namorado. Nah! Ela não tinha namorado. Nunca vi ninguém entrar lá em casa. Mas não ouvia nada. Nenhum barulho.
Depois ia para a minha porta, abria-a e entrava em casa.
Largava a mochila com o computador no chão do corredor, à entrada, ia até à sala e deixava-me cair no sofá.
A maior parte das vezes acendia um cigarro e fumava-o enquanto olhava para o ecrã negro da televisão. Não ligava a televisão. Limitava-me a olhar para ela. E fumava o cigarro. E, depois, invariavelmente, adormecia. Acordava horas mais tarde cheio de frio e de fome. Agarrava numa manta que, afinal, estava sempre em cima do sofá e enrolava-me nela. Ia à cozinha ver o que havia para comer. Quase nunca havia nada para comer. E eu dizia, de novo, e outra vez Amanhã tenho e ir ao Supermercado! mas nunca ia. Esquecia-me de ir.
Bebia um copo de água. E ia para a cama. Às vezes deitava-me assim vestido e enrolado na manta. Mas custava-me adormecer porque me sentia preso. Assim, deitava-me vestido e enrolado, até me sentir quente e depois tirava a manta para fora. Despia-me debaixo do edredão e, então, deixava-me adormecer.
No outro dia a campainha tocou quando estava no sofá a fumar um cigarro. A mochila com o computador estava caída no corredor à entrada de casa. Perguntei da sala Quem é? E uma voz respondeu Sou eu! Eu aproximei-me da porta e espreitei pelo óculo. O eu era ela. A minha vizinha. Abri a porta. E ela disse É dia de São Martinho. Tenho castanhas assadas e água-pé. Os miúdos estão com o pai. Preciso de companhia. Eu olhei para ela surpreendido com o convite, com o cigarro preso entre os dedos da mão, e ela ainda disse E podes trazer o cigarro.
Eu fui e ainda não voltei.
Agora estou sentado na cama dela a fumar um cigarro. Ela dorme agarrada a mim. Estamos os dois nus. Eu estou a pensar no que aconteceu. E ainda não consegui perceber muito bem.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/12]

No Mad

Estava no Mad. O Mad é o bar/restaurante do Slavo. O Slavo é um chef. Um bom chef. Na verdade, um excelente chef. Da esplanada do Mad vê-se o mar Atlântico, a norte da Praia do Norte. O Mad fica no Vale Furado, no destruído Pinhal do Rei, e é uma praia que fica no fundo de uma falésia. O Mad fica na falésia, mas não junto à arriba. Junto à arriba há um pequeno miradouro do qual se pode ver toda a costa para sul até à Praia do Norte e se pode adivinhar a Nazaré, se o tempo estiver limpo. Do norte, há muitos anos, chegava o cheiro da Leirosa, a celulose nas cercanias da Figueira da Foz. Ultimamente o cheiro não tem cá chegado. Ou ando constipado.
Estava no Mad. Bebia umas imperiais sentado na esplanada. Via ao longe o mar cheio de carneiros. Estava vento no mar e levantava espuma na crista das ondas. Também estava vento no Vale Furado. Do Mad não se consegue ver a praia. Só do miradouro. Há dois caminhos para a praia. Um pelo lado direito do miradouro, que é também um parque de estacionamento, e outro pelo lado esquerdo. Desço sempre pelo lado esquerdo que é a descida oficial, embora seja tudo muito oficioso e arcaico e arrancado à força dos braços e da vontade das pessoas que gostavam de ir para a praia do Vale Furado e escavaram degraus na terra e nas rochas e depois colocaram algum cimento e fabricaram uma descida íngreme, que também é uma subida abrupta. Sempre que está na hora de subir rezo aos santinhos que me ajudem a galgar todos aqueles degraus e que os meus pulmões aguentem o esforço. Nunca fui pelo lado direito.
Estava no Mad a beber umas imperiais na esplanada e a comer uns tremoços que o Slavo lá foi deixar, barrados em piri-piri e sal, quando senti uma vontade enorme de me levantar e ir até ao miradouro olhar para o mar.
Levantei-me. Deixei a imperial a meio, no copo, mas agarrei um punhado de tremoços que fui a comer enquanto cruzava o parque de estacionamento em terra batida e vazio, até chegar ao miradouro e deitar as cascas fora para o mar.
Olhei para sul e não conseguia ver a Praia do Norte. O tempo estava enublado. Mas via as enormes praias que faziam a costa até ao Vale Furado. Pouca areia. Muito mar. Via-o agitado a alongar-se pela areia. Só não consegui ver a praia do Vale Furado que o mar tinha comido e agitava-se lá em baixo, ao fundo, espumoso, agressivo, batido pelo vento, e então falou-me Vem cá abaixo, meu filho-da-puta! Vem cá abaixo ter comigo! e senti uma enorme vontade física de me envolver nos braços tempestuosos do Atlântico, mesmo se, na cabeça, não queria.
Levantei uma perna e depois a outra. Passei para o outro lado da varanda do miradouro. Senti-me impelido a aproximar-me da arriba. Sentia a forte maresia a subir pela arriba e inundar-me os pulmões, o cérebro, o coração. Senti-me encorajado a dar um passo mais em frente. Porquanto a minha cobardia ser mais forte que a coragem que me era transmitida não sei por quem, senti-me empurrado e acabei por dar o último passo. No vazio.
E caí.
Mas ainda vou a cair. Ainda não cheguei ao fundo do Vale Furado. Estou em queda e não sei quando é que lá chegarei.
Vou estragar as sapatilhas novas.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/17]

No Vale Furado

Desci ao Vale Furado. Era Domingo. Dia de descanso. Estava calor. Fui à praia. Ao Vale Furado.
Cá de cima olhei lá para baixo e suspirei. A praia é muito boa mas, o que tenho de descer e, mais tarde, subir, é um drama. A praia do Vale Furado fica lá em baixo, a meio caminho do Inferno. A descer pequenos degraus feitos na encosta. Alguns em cimento. Passamos por casas construídas, sabe-se lá como, naquelas encostas íngremes que o fogo já beijou há dois anos. Mas ainda por lá se vêm os restos do incêndio. Um verde que não regressou. Árvores carbonizadas nunca cortadas. Mas o que impressiona mais são mesmo as falésias. O Vale Furado fica lá em baixo. Espreito do pequeno e arcaico miradouro para a quantidade de gente que se espalha ao longo de uma praia que é pequena junto às arribas, junto ao caminho vencido ao penhasco para acesso, mas que depois ganha toda a dimensão até à Praia do Norte onde os surfistas arriscam a vida a desafiar Deus.
Suspirei fundo. Suspiro fundo sempre que desço ao Vale Furado ao pensar no que vou ter de subir no regresso. Dou uma olhada ao Mad e penso que, no regresso, irei lá beber uma cerveja, comer uns tremoços e recuperar as forças gastas a subir desde lá do fundo.
Desci. Estendi a toalha. Fui ao mar. Mergulhei. A água estava boa. Fria como sempre. A costa Atlântica nunca me deixa ficar mal. A água do mar está sempre fria. Sinto-a nos ossos, mas gosto. Gosto de a sentir a fustigar-me. Regressei à toalha. Estendi-me ao sol. Primeiro de costas. Depois de frente. E, cada vez que secava, repetia a operação. Mergulho. Duas ou três braçadas. Regresso ao bronze. Por vezes dormito. Ouço as vozes da praia muito ao longe, quase um embalo. Ali nunca há muita confusão. Mesmo quando está cheia, como hoje. Para ali vai gente que procura algum recato. Alguma calma. Alguma tranquilidade. Mas há famílias. Às vezes até cães. Mas não há música. Ali consegue-se ouvir o barulho das ondas a bater na areia. E sinto-as subir, lentamente, até me baterem nos pés e obrigarem-me a chegar um pouco mais para cima na areia.
Era já final de dia. Estava na hora de ir embora. A cerveja estava à minha espera no Mad. Deitado de costas, encolhi o corpo para despir os calções molhados, com que tinha ido ao banho, para vestir uns calções secos. E senti. Quando encolhi as pernas para despir os calções e ficar nu, ali no momento imediatamente antes de conseguir enfiar os calções secos, senti o estalo. Parecia uma pancada seca. Algo acontecera nas minhas costas. Uma dor horrível fez-me gritar Foda-se! em altos berros. Fiquei assim encolhido, nu, com os calções secos na mão, sem me conseguir mexer.
Fui esticando, devagar, as pernas até ficar estendido na toalha. Mas estava cheio de dores. Pedi ajuda, ao lado, para vestir os calções. Voltei a pedir ajuda para me levantar. Foi muito difícil, levantar-me da toalha. Não me consegui baixar para a apanhar e sacudir. Tive de voltar a pedir ajuda. Não conseguia apanhar a toalha nem os chinelos.
Comecei a caminhar devagar ao longo da areia para junto do sopé da encosta. Mas as dores eram imensas. Eu estava vergado sobre mim. Levava uma mão nos ombros dela. O meu peso sobre os ombros frágeis dela. E disse Não posso continuar. E deixei-me cair devagar na areia. Fiquei de joelhos. Dobrado. Não conseguia virar-me. Não conseguia sentar-me.
Ela foi pedir ajuda aos nadadores-salvadores da praia. Eles vieram, solícitos. Tentaram levantar-me. Um de cada lado. Mas eu não conseguia erguer o corpo. Voltaram a deixar-me no chão. De novo de joelhos. Dobrado sobre mim. Os nadadores-salvadores chamaram os bombeiros. Estavam numa praia ali perto e não demoraram a chegar. Mas não conseguiram melhor. Era impossível levarem-me de maca a subir aquele penhasco do Vale Furado. Demasiado íngreme. Demasiado longo. Demasiadas voltas e curvas e curvinhas. Troços muito estreitos.
Os bombeiros sugeriram um helicóptero.
A noite estava a chegar. Eu sentia-me nervoso. Cheio de dores. Queria fumar um cigarro. Queria beber uma cerveja no Mad. Queria ir para casa tomar um banho de água doce e quente. Queria sentar-me no sofá a ver o Trio de Ataque. Queria não estar ali.
A verdade é que não havia grandes soluções. Ainda pensaram fazer-me subir de maca por um guindaste. Um bombeiro sugeriu subir comigo às costas. Mas todas as soluções não eram de facto solução. Era impossível levarem-me lá para cima da maneira como eu estava. E como é que eu estava? Nem sei bem. Estava cheio de dores nas costas, mas ela passava as mãos nas minhas costas e eu não sentia nada. Não conseguia sentir onde é que me doía. Como se fosse uma dor interior. À qual não se conseguia ter acesso. Nem conseguia perceber se era uma dor nos ossos ou nos músculos. Era ali, naquela zona, e doía-me horrores. E eu continuava de joelhos na areia, dobrado sobre mim.
O sol já tinha morrido no horizonte, há já algum tempo, quando, finalmente, se arranjou um helicóptero disponível. Estavam todos a combater os incêndios na zona de Vila do Rei, mas um helicóptero teve de ir a Lisboa e fez um desvio para me acudir.
Fui levantado numa maca para dentro do helicóptero que ficou a pairar lá em cima, por cima da praia do Vale Furado.
Enquanto era puxado só pensava na dor de costas e nem aproveitei para apreciar a paisagem. Mais tarde, depois de tudo passado, iria com certeza ficar irritado comigo por não ter olhado o mar, o horizonte quase a desaparecer na escuridão da noite, o manto das estrelas, as poucas casas nas arribas do Vale Furado e o Mad visto do ar, naquela que seria uma ocasião única. Não, naquele momento só conseguia estar de olhos fechados a pensar no quanto me doíam as costas e que não tinha posição confortável. Até deitado estava desconfortável. E ia amarrado. Detesto sentir-me amarrado. Detesto sentir-me com dores e amarrado e não poder mexer-me e tentar descobrir uma posição mais confortável.
Dentro do helicóptero senti-o a deslocar-se no ar. Ouvi o barulho das hélices a girar com toda a força. Aquilo é uma máquina impressionante.
Fui trazido ao hospital de Santo André.
Lembro-me ainda de ter aterrado no heliporto do hospital de Leiria. Depois devo ter adormecido. Não sei o que se passou. Está tudo em branco.
Acordei horas mais tarde.
Estou deitado numa cama especial de barriga para baixo. Há um buraco onde tenho enfiada a cara. A cabeça está presa. Não me mexo. Ao fundo, à frente da minha cara, tenho o iPad. Falo com a SIRI. E começo a ditar-lhe uma história para publicar no Facebook e, mais tarde, no blog Estórias da Violência. E começo assim Desci ao Vale Furado. Era Domingo. Dia de descanso. Estava calor. Fui à praia. Ao Vale Furado.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/21]

Zangado

 

Estive ausente uma semana, duas semanas, sem escrever um conto no Facebook.
Estava zangado, zangado com tudo. Especialmente comigo. Estava zangando com quem estava zangado comigo. Estava zangado com quem me zurzia aos ouvidos. Estava zangado com quem tem certezas e razões e sabe tudo. Estava zangando com quem me obriga a fazer o que não quero fazer.
Passei noites sentado à secretária com um envelope aberto com 40 valium 10 e 9 valium 5. A olhar para eles. E dizia Não, não é para mim, eu gosto de viver, eu gosto de ir o cinema, ao teatro, ao futebol, de namorar, de passear no Marachão, fazer piqueniques na Ervedeira. Eu gosto de comprar pevides em São Pedro de Moel. De olhar do alto a falésia do Vale Furado. De beber café no Mad. De fazer amor na rua e sentir o frio a bater-me na costas. Gosto de ver os bunker horríveis da Praia da Vieira. Gosto de ver as construções feias da praia do Pedrogão e das suas festas de sardinha, e das suas festas Tecno à beira-mar (ainda existem?), dos chocos fritos de Setúbal, da melhor imperial do mundo no Lebrinha, em Serpa, da sopa de Cação no Lado de Lá que não sei se anda existe. Gosto dos filhos, das mulheres, ex-mulheres, amantes, namoradas, amigos, que ainda os há e tudo e tudo e tudo e acima de tudo, das memórias que, mesmo no mais horrível, sabem bem.
Volto vezes sem conta a sentar-me à secretaria com o envelope aberto. A olhar os valium. Mas as memórias não deixam fazer asneira. Já é tarde. É sempre tarde. Mas desisto.
Até um dia.

Chove lá fora. Estou sozinho. É de noite. Sei que tenho quem goste de mim. Mas não chega. A liberdade não existe sem dinheiro. Dinheiro para pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás, o telefone, para poder comer um pão com manteiga, sustentar os filhos… Porra!, viver.
Peguei numa mão cheia de valiuns e meti-os na boca. Empurrei-os com água. Tenho pena de não ter vodka. Aceleraria o processo. Repeti o gesto três vezes até acabar com os valiuns.
Não senti nada, Não senti nada de diferente.
Levantei-me e imediatamente caí inerte no chão. Senti bater com o nariz nalgum sitio anguloso. Senti parti-lo.
E, então, apaguei.

[2018/04/02]