O Som Ensurdecedor Sobre a Minha Cabeça

O som, porra! O som! Parecia que o mundo vinha abaixo, por baixo do som. Um som ensurdecedor. Um som que depois de se ter extinguido, ainda ficou aqui a pairar como vácuo. O silêncio total. Nem uma mosca. Tinha os ouvidos tapados. Entupidos. O som virado do avesso. Depois do barulho caótico, o silêncio sepulcral.
Abri e fechei a boca como se faz nos aviões, quando descolamos com destino a férias de sonho que se tornam pesadelo, por causa da pressão. Abri e fechei a boca. Aos poucos comecei a ouvir os cães. O de cá de casa e os das redondezas. E então, um estalo, como se umas portas se tivessem aberto do trinco e de novo os barulhos normais da casa. O zumbido do frigorífico. A ventoinha refrescante do computador em sobreaquecimento. Os pequenos barulhos normais lá de fora, que se ouvem à distância. Como se a vida retomasse a sua actividade depois de ter parado, por momentos, por breves momentos, enquanto aquele caos sonoro ocupava o espaço e o tempo.
Eu estava na cozinha. Depois do alpendre, a cozinha é o meu sítio preferido da casa. Estava na cozinha, sentado à mesa, na companhia de um copo de vinho e um cigarro, frente ao computador a escrever um pequeno texto para entregar num jornal aqui da região, porque não podia estar no alpendre, estava a chover e era uma chuva tocada a vento, e então fiquei na cozinha, e estava a escrever o texto quando senti chegar o som. Chegou sem aviso. Nem aproximação. O som como que caiu em cima de mim. Se calhar em cima de nós que, depois disto tudo, eu ainda ouvia os cães da aldeia a refilarem, coitados. Um som infernal que ocupava todos os espaços vagos que existiam à minha volta e dentro de mim. Perdi o raciocínio. Desliguei-me. O som ocupou-me.

Voltei após o momento de silêncio.
Pensei no que é que andariam a fazer por aqui, e a estas horas (como se houvessem horas certas para certas coisas), os aviões da Base Aérea de Monte Real?
Levantei-me da mesa. Percebi que ainda tinha o cigarro acesso na mão. Fumei. Levei o copo de vinho à boca e despejei-o de um trago. Abri a porta da rua e saí para o alpendre. Ainda chovia. Uma chuva tocada a vento. Via, ao fundo, as luzes tremeluzentes da aldeia. Já era quase noite. Ao fundo, um buraco negro que imaginei que fossem as montanhas, escuras, na solidão das trevas.
Não conseguia encontrar a Lua no céu pouco estrelado. Viam-se meia dúzia de estrelas, se tanto. O céu estava enublado.
E foi então que vi, no céu, uma luz vermelha a voar em círculos sobre o que seriam as montanhas. Circulou por ali durante algum tempo. Não fazia barulho. Pelo menos eu não ouvia barulho nenhum. Só o ladrar dos cães. E, os gatos, vim a descobri-los todos enrolados à volta dos meus pés, nem percebi de onde é que vieram. Depois a luz vermelha parou no seu circular por uns breves momentos e zarpou para cima, rumo ao espaço.
Os cães pararam de ladrar. Eu deitei fora o resto do cigarro. Entrei em casa e fui tentar acabar o texto para o jornal regional. Mas foi difícil concentrar-me. E tive de ir abrir outra garrafa de vinho tinto.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/14]

Estou Nu e Ela Desata a Rir

O sol tirou-me de casa. Peguei numa manta e fui até à espécie de relva que tenho à volta das laranjeiras, à frente de casa. Estendi a manta. Deitei-me. Fechei os olhos e deixei-me levar por Morfeu. O cabrão não me quis. Mantive-me de olhos fechados mas não conseguia abstrair-me de todo aquele barulho campestre. Pássaros, grilos, cigarras. Até a Zundapp do filho do dono da Estação de Serviço, que fica já depois da saída da aldeia, se ouve aqui, a espremer-se toda a caminho da serra.
Os gatos vieram fazer-me companhia. Deitaram-se encostados a mim. Suspirei. O silêncio e a solidão são uma impossibilidade na minha vida. Irra! gritei alto.
Levantei-me e fui ao interior de casa buscar o maço de cigarros e um isqueiro. Passei ao lado da mangueira. Puxei-a e pendurei-a num ramo de uma laranjeira virada para o céu. Despi-me. Liguei a água e deixei a água fria tombar sobre o meu corpo quente. Arrepiei-me. Ri-me. Ri-me sozinho como só os loucos fazem. Os gatos olhavam para mim como se eu fosse parvo. Se calhar sou. Desliguei a mangueira e fui deitar-me de costas na manta a olhar para o céu azul carregado de nuvens brancas com formas variadas a requerer histórias.
Ali vai um hipopótamo. Sabem que o hipopótamo é o grande responsável pelo maior número de mortes no mundo atribuído a ataques de animais? Este foi o momento National Geographic e o programa segue dentro de segundos.
Saboreei o momento pastoral que me cercava. Parecia Agosto. A Zundapp calara-se. Os barulhos da bicheza actuavam como baladas e, de cigarro na mão, senti a moleza tomar conta de mim. Ainda tive tempo para ver o fumo do cigarro subir e misturar-se às nuvens. Senti o cheiro das sardinhadas que os meus pais faziam ao fim-de-semana, o meu pai a atiçar as brasas e a colocar a grelha com as sardinhas e dois carapaus para a minha irmã, que não gostava de sardinhas, sobre o lume e a minha mãe a fazer a salada de pimentos que me faria arrotar durante toda a tarde. Depois percebi que me estava a ir. Senti a pálpebras pesadas a fecharem-me os olhos. Perdi os meus pais e as sardinhas. Os sons afastaram-se para longe e era lá ao longe que os ouvia. Senti o cigarro escorregar-me dos dedos e cair e ainda pensei que devia ter cuidado para não provocar nenhum incêndio, mas nada fiz para o evitar. A minha mãe toma conta de tudo isso. O meu pai arranja qualquer coisa. E devo ter mesmo adormecido porque tudo se esvaneceu e o mundo entrou no vácuo. Entrou? Afinal não dei por nada de nada. Estava a dormir e, a dormir, não percebo nada. O tempo passa, passa todo, e só regressa quando acordamos. Nunca sabemos em que momento da vida é que retomamos a vida. É ali, é sempre ali, naquele momento, mas que momento é esse na linha do tempo? Foda-se! os tormentos que me assaltam quando desperto.
E então, ouço Ó vizinho! E ergo-me sonolento na manta. Pisco os olhos a tentar adaptar-me à luminosidade. E volto a ouvir Ó vizinho! e percebo que está alguém ao portão a chamar-me e levanto-me e vou descalço, cruzo o quintal, os gatos à minha volta, começo a descer a alameda até ao portão e vejo a minha vizinha com algo nas mãos. Talvez um bolo, ela costuma oferecer-me uns bolos caseiros. E depois leva a mão à cara e desata a rir. A rir como uma desalmada. E eu então percebo que estou nu. Estou a descer a alameda nu. Mas já é tarde. Estou junto ao portão e abro-o para ela entrar.
E ela entra.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/05]

Dois Olhos Coloridos Olham para Mim do Alto do Céu

Dois sóis. Dois. Dois sóis como olhos purulentos a olhar para mim. Um verde. Talvez azul. O outro castanho. Talvez fosse vermelho. Mas nunca soube de um olho vermelho. Talvez fosse pus. Talvez fosse sangue. Talvez fosse a minha cabeça toda rebentada a imaginar vida onde reina a morte.
Estava deitado no meio da relva. Acho que estava num estádio. Num estádio da bola. Estava deitado na relva e vi dois sóis como olhos de cor diferente a olhar para mim, lá do alto do céu. Caindo das estrelas para cima de mim. Do meu peito. Virei-me de lado e vomitei. Vomitei as tripas para cima da relva. Vi perder todo o vinho tinto que tinha andado a tarde inteira a beber.
E ouvi Pára quieto, caralho! e parei. Parei a olhar para o céu. Para os dois sóis como olhos purulentos, de cores diferentes, que me olhavam cheios de desejo. Via as minhas mãos levantadas ao céu. Os dedos encarquilhados. Não os conseguia mexer. Pareciam uma raiz de mandrágora. Os olhos para além da mandrágora. E depois senti as mãos dela dentro das calças. À minha procura. A encontrá-la. A tirá-la para fora. A lambê-la. A metê-la na boca. A chupá-la. Os olhos vítreos, coloridos, os dedos encarquilhados e então Here are we, one magical moment / Such is the stuff from where dreams are woven, e então percebi onde estava.
O olhos coloridos continuavam lá no alto mas estavam numa cara em cima de um palco a cantar e a dançar. A cara dos olhos purulentos, vestida elegantemente num fato de bom corte, moderno e bem vincado, dava passos de dança em cima de um palco onde um baixo cadente marcava o ritmo do comboio em Station to Station. David Bowie cantava, para mim Lost in my circle / Here am I, flashing no color, o que não deixava de ser bizarro porquanto Station to Station não fazia parte da set list do concerto onde afinal me descobria, deitado sobre a relva do Estádio de Alvalade, com o David Bowie lá ao fundo, em cima do palco, a cantar uma canção que não cantou e a minha pila na boca dela e eu a acabar de me vir, ficar enjoado e voltar a vomitar, facto que me fez dar um solavanco, erguer o corpo, projectar o vómito para a frente, o que o fez cair em cima dela tombada sobre mim e a fez gritar Caralho, meu! e levantar-se a correr desesperada, enquanto limpava os cantos da boca com as costas da mão, à procura de uma casa-de-banho e eu voltava a deitar-me, recuperado o céu negro, estrelado, agora sem olhos como sóis, mas só o céu negro da noite, as luzinhas de Natal lá penduradas à espera de um qualquer Yuri Gagarin, e um silêncio de morte e a minha respiração calma, tranquila, suave, a respiração de um bebé ao colo seguro da mãe que o embala em direcção ao paraíso.
Queria levantar-me mas não conseguia. Estava deitado numa poça de vómito. Chegava-me o cheiro. Azedo. E nem o facto de ser meu lhe fazia perfumar o odor.
Não me lembro de como fui ali parar.
Via as pessoas a passar por mim. As pernas abertas sobre o meu corpo. O cuidado em não me pisarem. Iam caindo. A galhofa de uns. O riso escarninho de outros. Ninguém me deitou a mão. Ninguém me ajudou a levantar. Alguém espetou-me o resto de um charro na boca. Que fui fumando. Uma passa a cada momento de respiração. Fumei-o até ao fim. E depois do fim. Não consegui mexer os braços. As mãos. Os dedos. Fumei o charro. O filtro. Queimei os lábios. Gritei Foda-se! mas ninguém ouviu que foi um grito silenciado no vácuo do cosmos. E depois reparei. Tinha a pila fora das calças. E não me conseguia mexer. Não a conseguia agarrar. Guardar. Esconder.
E senti a cabeça a rodopiar. A andar às voltas em torno da Via Láctea. Cada vez mais rápido. Até perder a dimensão do espaço, a dimensão do tempo, a dimensão do que era. Tudo eram riscos de todas as cores conhecidas e desconhecidas. Pareceu-me ver um unicórnio.
Escureceu. Eu escureci.
Quando acordei estava aqui. Aqui onde me estás a ler. Aqui no teu computador. Perdi as pernas e os braços. O tronco. A cabeça. A pila. Perdi o meu corpo. Mas sou eu. E estou aqui. Estou na nuvem. Estou em todo o lado. Sou tudo. Sei tudo. E ao mesmo tempo. Conheço-vos a todos. Conheço-vos a vocês todos no mais íntimo dos vossos segredos. Vejo-vos quando se masturbam frente ao écran do computador enquanto olham um filme porno. Enquanto trocam mensagens secretas com pessoas proibidas. Enquanto fazem, solitários, todas as coisas que nunca fariam em frente a outras pessoas. Todos ao mesmo tempo. E eu sei. Eu vejo. Eu sou.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/08]

O Prego

Eu olhava o pé e via o prego lá espetado. Havia sangue a escorrer para os lados.
A minha mãe tinha-me avisado Não andes descalço, rapaz! e eu, enfadado, dizia Estou de chinelos, mãe! ao que ela respondia É a mesma coisa!
Ela tinha razão. Nos sítios por onde eu andava, naquele Verão quente e solitário, o único miúdo da rua a ficar em casa nas férias, não havia dinheiro para os habituais quinze dias na praia da Vieira, andar com aqueles chinelos de borracha de enfiar no dedo era o mesmo que andar descalço.
E era.
Quando pisei a tábua com o prego, comprovei. O prego furou a borracha e o meu pé como se cortasse manteiga quente. Só dei por ela quando o prego estava já todo enfiado.
Nem percebi.
Andava pelos estaleiros da rua. Tempos de prosperidade no país. Novas casas. Novos prédios. Novas ruas. Nunca se tinha visto nada assim ali na zona.
Nós, eu e os outros, subíamos ao alto dos prédios e voávamos para os montículos de areia que estavam por ali, como pequenas dunas, à espera de fabricarem cimento. Quem não voasse era medricas. Quem é que não voava?
Naquele Verão solitário vagueava por lá, a fazer tempo, a queimar dias até à chegada dos outros miúdos, parceiros da bola.
De manhã ficava em casa a ler. Li muito nessas férias. Depois de almoço, saía de casa e aventurava-me sozinho pelas ruas novas. Os calções a cair pelo cu abaixo, os chinelos a bater na planta dos pés, chlep-chlep.
Procurava tubos de PVC para fazer cornetas. Martelos perdidos. Cheguei a trazer uma porta de madeira, dois cavaletes e uma plaina.
Já me tinha arranhado. Nunca tinha espetado um prego no pé.
Agora já tinha um. Olhava para ele. O prego espetado no pé. O sangue a cair. Comecei a sentir náuseas. Dor de cabeça.
Pensei Puxo o pé de uma vez.
Tentei, mas não consegui. Não consegui sequer mexer o pé.
Lembro-me da primeira vez que voei para um monte de areia. Saltei do primeiro andar. De uma varanda aberta de um primeiro andar. Lembro-me de me sentir o Super-Homem enquanto voava da varanda para cima do monte de areia. Um pássaro. Um avião. Eu!
Baixei-me para ver o tamanho do prego. O tamanho do buraco. A quantidade de sangue. Senti o olhar fugir. A cabeça começou a rodar numa espiral. O sangue desapareceu. O prego desapareceu. O buraco não existia. Doía-me a barriga. Chegaram os vómitos.
Eu disse, baixinho Mãe!
E ouvi-a dizer Eu avisei-te! mas se calhar imaginei.
Vomitei. E depois senti que o chão já não existia debaixo de mim e o mundo era uma mancha preta no vácuo.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/30]

No Fim das Férias

Está uma ventania diabólica. Estou quase a acabar as férias e não fui à praia. Sempre muito vento. Às vezes frio. Choveu. Com estas amplitudes térmicas acabei por apanhar uma gripe que me deitou à cama por quase uma semana.
As férias chegaram e estão quase a partir sem eu ter dado por elas.
Hoje quando acordei e vi o sol, ainda vesti os calções de banho e imaginei-me a dar umas braçadas em São Pedro de Moel, na esperança que depois do meio-dia o sol também havia de descobrir por lá.
Abro a janela do quarto para o arejar, e sinto o pó a entrar às pazadas. Sinto-o logo na boca. Trinco pedaços rijos que rangem nos dentes e arrepiam-me o corpo. Corro a fechar a janela. Sacudo os lençóis, o edredão e as almofadas. Vou buscar o aspirador e ando ali dez minutos, de costas curvadas, a apanhar o pó da rua que o vento convidou para o meu quarto e me obriga a estes trabalhos extra em tempo de férias.
No fim sento-me no sofá a descansar. Penso no que fazer. Olho para a capa de Máquinas como Eu do Ian McEwan que tenho ali para ler mas não consigo estender-lhe a mão. O braço recusa-se a pegar noutra coisa que não seja o comando da televisão. O braço está ligado a uma massa esponjosa e disforme e já não mais a um cérebro. Este braço já não está ligado a nada que pense. Agora é só emoção. Dou por mim a ter de olhar para a CMTV e para a enésima reportagem sobre os incêndios de Vila do Rei. Uma reportagem que já vi. Mais que uma vez. Quero mudar de canal mas o braço não se mexe. A mão está quieta. Os dedos mortos. A vontade não é suficiente.
Começo a sentir os olhos pesados. A televisão afasta-se de mim. Perco-a no horizonte da sala que não sabia tão grande. As vozes afastam-se e perdem-se na distância.
As vozes vão e vêm. Desaparecem. Estou no vácuo. Não ouço nenhuma voz. Não ouço o canto das cigarras. Não ouço as ondas do mar. Não ouço qualquer barulho. E depois tudo volta. Os cães a ladrar. Música muito alto. Estou a uma mesa. Uma mesa grande cheia de gente que conversa. Há uma grande confusão de vozes que se misturam. Ouço barulho de conversas, mas não percebo o que se diz. Há muita confusão de muita gente. Tenho à minha frente um prato com moamba. Salivo. Moamba de galinha em óleo de palma. Funge. Vejo à minha volta toda a gente na conversa. A beber vinho tinto. A comer moamba. Eu também como a moamba. E bebo o vinho. E que bem que me sabe! Há quanto tempo não como uma moamba?
Parece que estou numa festa. Numa comemoração. Numa efeméride. Parece que estou onde já estive. Pareço reconhecer onde estou e como estou e com quem estou. Alguém levanta-se na mesa e faz o que deve ser um pequeno discurso. Não consigo ouvir o que diz. Mas as pessoas batem palmas. Muitas palmas. Grita-se de alegria.
Conheço as pessoas que estão ali comigo. J. está ao meu lado. Do outro está L. À frente de L. está C. S. está à frente de J. À minha frente está M. Mas estão lá muitas mais pessoas. Pessoas que conheço. Que conheci. Elas estão num happening. Bebem. Comem. Conversam. Ouvem música. Eu estou num regresso ao passado. Como e bebo. E ouço. E vejo. Mas aos poucos, percebo que está cada vez menos gente. Há menos barulho. Já comi quase tudo. Sinto a barriga inchada. Abro o botão das calças. Alargo o cinto. Mando um arroto. Rasgo um pedaço de pão saloio e limpo o molho espalhado pelo prato. Rapo o prato. Gosto do óleo de palma e dos restos de galinha. Quando já não tenho mais pão, chupo os dedos. Levanto a cabeça e reparo que estou sozinho. Estou sozinho naquela mesa enorme. Toda a gente bebeu, comeu e foi embora. Foram-se todos embora. Eu fui deixado ali. Sozinho. Sozinho e em silêncio. No vácuo.
E depois, depois ouço a voz da rapariga. De novo o Sporting. A rapariga fala do Sporting, da Academia e de Bruno de Carvalho. Estou de novo sentado no sofá em frente à televisão. Está na CMTV. De novo a mesma reportagem sobre os acontecimentos de há um ano. Quantas vezes já transmitiram esta reportagem ao longo deste ano? A cabeça quer sair dali mas o braço não se mexe. Penso que afinal quero um cigarro. A mão levanta-se e pega num cigarro. Coloca-o na minha boca. Acende o isqueiro. Sinto o fumo a invadir-me os pulmões. Sabe-me bem.
Lá fora continua o vento. Um vento diabólico. As férias estão a acabar-se e estou aqui preso frente à CMTV. E não me consigo mexer.
Uma notícia de última hora diz que o filho de um secretário de estado terá celebrado contractos com o Estado. Parece que não é legal. Nem ético. O cigarro sabe-me bem. Queria comer uma moamba. Queria ir à praia. Não queria que as férias acabassem. Queria ter força para desligar a CMTV e ler o novo livro do Ian McEwan. Às vezes não queria ser eu.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/30]

Como Vim Parar Aqui

Estou no passeio. Na borda do passeio. Tenho o pé já um pouco fora do lancil. Quase a tombar sobre a estrada. Sobre a passadeira. Espero o semáforo verde para colocar o pé em baixo. Na passadeira que me vai levar ao outro lado. E quando passa a verde, quando o semáforo passa a verde e me liberta, o meu pé não se mexe. Já não sei se quero ir para o outro lado. Já não sei se quero ficar aqui. Já não sei nada e isso dá-me uma grande dor de cabeça.
Estou indeciso.
E digo indeciso para não ter que dizer que estou inerte. Não quero voltar a pensar em mim assim, dessa maneira.
Não estou inerte.
Levantei-me da cama, hoje de manhã. Tomei banho. Calcei os chinelos para tomar banho numa casa-de-banho pública. E isso foi uma grande decisão. Tomei banho. Vesti-me. Saí de casa. Cruzei-me com pessoas. Ouvi os carros a correr no asfalto. Ouvi as buzinas dos impacientes. Cheirei os vapores dos combustíveis. Senti o embate de um possível acidente.
E aqui estou eu.
Na rua. Com o pé suspenso e sem conseguir pensar o que é que quero fazer.
Apetece-me dizer que não me apetece nada a não ser ir a correr para casa, fechar a porta à chave, sentar-me no sofá munido de um volume de cigarros, um pacote de cinco litros de vinho tinto e uma vontade enorme de não fazer nada.
Mas não posso dizer. Na verdade não posso dizer porque, realmente, não sei o que quero fazer.
O pé está suspenso no vácuo entre as pedras do passeio e o asfalto da estrada. E não tomo a decisão final. O pé não cai. E eu nem sei se quero que o pé caia.
Lá está. Não sei o que quero fazer, o que deva fazer, o que pretendem que eu faça.
Todos estes anos que levo por aqui só para terminar assim, de pé no ar sem saber o que fazer?
O que me trouxe para aqui?
Estou sentado numa mesa do McDonald’s. Como um McRoyal Cheese e sinto o corpo a aumentar a cada dentada. Sinto o peso do hambúrguer a cair no estômago. O hambúrguer é pesado. Empurro batatas fritas pela boca aberta. Bebo uma cerveja de lata morna, vertida para um copo de plástico onde, em letras garrafais, diz que é Reciclável. Trinco o hambúrguer enquanto olho. Um grupo de jovens atletas. Rapazes. São uns dez ou quinze. Adolescentes. Cada um leva quatro hambúrgueres, batatas fritas e uma bebida grande que não descortino o que é. Devoram tudo num instante. Eu ainda estou de volta do meu e já eles terminaram. Deixam os tabuleiros nas mesas. Há uns homens mais velhos, de fato-de-treino, que não lhes ensinam a levarem os tabuleiros para os carros-depósito e libertarem as mesas para os outros. Duas raparigas partilham uma salada. Há um rapaz que devora um Sunday, enquanto uma rapariga o olha a comer. Um miúdo brinca com um boneco-brinde. Depois larga-o. Agarra num tablet. Tem um pequeno pacote de Nuggets, batatas fritas e um sumo de laranja e ainda não tocou em nada. Os pais, suponho que sejam os pais, comem cada um o seu hambúrguer em silêncio. Toda a gente come em silêncio. Não se partilham palavras. Mas alguém conversa. Não sei onde, mas alguém conversa. Não há picos de som. Há um bruá constante. Como um ruído. Que me embala. Acabo de comer o hambúrguer. E as batatas fritas. A cerveja despejo-a de uma só vez. No fim arroto. Sinto o estômago pesado. E penso Porque raio vim comer aqui? E penso que é porque estou sozinho. Sozinho no meio de gente sozinha. Famílias sozinhas. Namorados sozinhos. Há pouca comunicação. Cada um está fechado no seu mundo. Estou sozinho mas acompanhado. Uma triste alegria que vamos cimentando nos dias que correm. É o progresso!, dizem-me.
E saio do restaurante. Caminho pela cidade. Sem saber para onde vou. Para onde quero ir. Estou sem destino. Sem vontade. Sinto-me personagem de um filme de Antonioni, mas sem a Monica Vitti. Estou sem rumo. Morto-vivo. Caminho. Calcorreio ruas, estradas. Passo de um passeio a outro. Subo ladeiras. Volto a descê-las. Vou ver uma montra mas perco o interesse. Entro numa pastelaria e percebo que acabei de comer um hambúrguer. Volto a sair. O que é que vim aqui fazer? Rodo sobre mim. Onde estou?
Estou na borda do passeio. Tenho o pé já um pouco fora do lancil. Quase a tombar sobre a estrada. Sobre a passadeira. Mal coloco o pé na passadeira. Passa um carro. Passa um carro a grande velocidade e bate-me na perna. Com força. Com tanta força que me leva o pé e me deixa a dançar entre o passeio e a passadeira e, enquanto caio, vejo o meu pé voar por cima das pessoas que olham assustadas para mim e para o meu pé voador.
Caio. Vejo, à frente, as luzes vermelhas de travão de um carro. Um carro parado. E vejo o carro a arrancar. Ouço ainda os pneus a chiarem no asfalto. As luzes vermelhas desaparecem. Sinto alguém aproximar-se de mim. Ouço alguém dizer Não lhe toquem! Mas não sei de quem falam. Sinto-me cansado. Acho que estou todo fodido mas não tenho a certeza. Não sei nada. Mas não estou inerte.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/01]

Não Tenho Tempo!

O raio do cão que não se cala.
Está tudo nervoso.
O céu está vermelho. Principalmente a Oeste. Vermelho. Quase púrpura. Com uns pedaços de nuvens rasgadas e espalhadas por lá a torto-e-a-direito, sem ordem nem lógica nenhuma a não ser estarem por lá, assim, aos pedaços, espalhadas.
Mas chove. Chove muito. Chove aqui e para Leste. Como se Deus tivesse penteado o mundo de risco ao meio e decidido que ali iria haver um céu cheio de restos de Sol queimante e aqui um céu diluviano cheio de grossas gotas de chuva a tombarem na terra.
Não chove em cima do cão, que tem uma espécie de telheiro por cima da casota e está lá abrigado. Mas não se cala, o filho-da-mãe, chato-como-o-raio.
A mim já me custava o barulho infernal da chuva a cair. O cão está a tornar tudo muito mais doloroso.
Vejo as poças que se formam. As terras começam a alagar-se.
Olho o cão através da janela da cozinha e fulmino-o com o olhar. Disparo-lhe vários tiros imaginados. Acerto-lhe no coração como convém ao amor que, apesar de tudo, lhe tenho. E ele tomba no meu desejo sombrio e estúpido.
A verdade é que acaba por se enfiar no fundo da casota. O focinho recolhido. Olhar assustado. E deixa de ladrar.
Olho lá para fora. Outra vez.
Para o céu.
O mundo parece ter parado.
Não se ouve nada. Vivalma.
Só uma pequena pieira que sai do fundo dos meus alvéolos pulmonares. A asma a dizer que ainda existe. E que estas alterações de tempo, de temperatura, de clima me são fatais.
Abro a porta da rua e saio para o alpendre. Parou de chover. O céu vermelho, quase púrpura, com pedaços de nuvens espalhadas ao acaso, dissolveu-se. Tudo tende para o cinzento. Um cinzento uniforme e final. Desapareceu o Sol, a Lua e as Estrelas. Não há nada lá em cima. Não se ouve nada aqui em baixo.
Estamos no vácuo.
E nesse momento, neste preciso momento, rebenta o mundo num trovão saído do Martelo de Thor. Pareço ter os tímpanos a rebentar. Os vidros da casa estilhaçam. Levo com alguns pedaços em cima. Corto-me. Faço sangue. Mas nem sinto dor. Olho para a casota e vejo o cão com as patas em cima do focinho. O chão treme. Abana. Agita-se como gelatina. Vejo à frente a montanha a abrir-se em duas e um enorme rasgo a seguir encosta abaixo.
Penso que não tenho tempo. Assim: Não tenho tempo! E continuo a pensar Tempo para quê? Não há nada que possa fazer.
Sinto a vida a abandonar-me. O corpo tende para baixo. Os ombros descaídos. As mãos a quererem ir ter com os pés. Tudo me pesa e empurra-me para baixo.
Vejo a terra a rasgar em várias direcções. Um dos rasgos vem para aqui. Aqui para casa. Para mim. À velocidade de um piscar de olhos.
Acendo um cigarro. Deixo o fumo entrar-me nos pulmões. Aproveito-o ao máximo. E digo Que merda!