A Picada

Sentia o vento correr de uma janela à outra e levantar-me os cabelos que, por vezes, me tapavam os olhos.
Percorria Trás-os-Montes. Estava numa zona árida. Rochosa. Quente. Solitária. Uma paisagem lunar. Não via ninguém há que tempos. Nem me lembrava do último carro com que me tinha cruzado. Nem uma vaca. Nem uma ovelha. Só aridez. Calor. Talvez houvesse um sardão, mas não me recordo de o ter visto.
Conduzia um Hyundai. Sem ar condicionado. Nem vidros eléctricos. Nem fecho centralizado de portas. Um carro analógico. Mas tinha rádio. Levava por companhia uma qualquer música popular portuguesa. Esticara-me por cima do banco do lado e abri o outro vidro.
O cotovelo pousado na janela aberta. A mão esquerda no volante. A mão direita no manipulo das mudanças. Nos dedos um cigarro a fumegar. Na rádio uma pimbalhada. À frente os quilómetros por fazer. Uma recta sem fim. Um horizonte que fugia cada vez que me aproximava. O céu azul, de um azul eléctrico. Dois farrapos de nuvem. O sol difuso, com uma argola brilhante em toda a volta, aumentando-o ainda mais. Estava sozinho no mundo. Eu, o cigarro na mão e a música na rádio. Depois lembrei-me que também ouvia o motor do carro. Sim, não conseguia escapar-lhe. Parecia um motor de rega.
Mandei a beata janela fora. Tinha sede. Precisava de um café.
De repente uma picada. Uma picada no pescoço. Uma picada que quase me paralisou. Uma picada atrás, no pescoço.
Guinei o volante para a esquerda. Travei. Reduzi as mudanças. Continuei a travar. Parei. Travão de mão. Chave. Carro desligado. E uma dor do caralho.
Saí do carro. O sol queimava. O asfalto parecia borbulhar. Dei a volta ao carro e fui para a berma. Para cima de uma rocha. Uma rocha a ferver. Eu transpirava. Doía-me o pescoço. Não o pescoço todo. No sítio onde senti a picada. Começou a inchar. Fui olhar no espelho retrovisor. Não via nada, era atrás. Mas sentia já uma batata a crescer.
Teria sido uma abelha? Uma vespa? Uma vespa asiática?
Sentei-me numa rocha e senti o rabo a aquecer. Tinha sede. Doía-me o pescoço. Estava a ficar sonolento. Devia ir para o carro. Devia pôr o carro a trabalhar. Devia arrancar. Devia procurar uma casa. Uma terra. Um hospital.
Vi o carro a afastar-se de mim. Não estava a ir embora, estava só a afastar-se. Como se o espaço entre nós estivesse a aumentar. O sol descia sobre a Terra. Sobre mim. Senti o coração disparar. Tive medo. Transpirava. Transpirava de calor e de medo.
Queria levantar-me, mas não conseguia. Comecei a arrastar-me. Parti as unhas a tentar ferrá-las na rocha para me puxar. Fiz sangue nos dedos. Comi o pó da berma da estrada. Cheguei ao carro. Invoquei todas as minhas forças para agarrar o manipulo do carro. Abrir a porta. Entrar. O coração parecia saltar do peito. As suas batidas feriam-me os ouvidos. Não conseguia mexer o pescoço. Estava muito inchado.
Estiquei-me. Forcei o meu corpo a esticar-se. Mais e mais. Como se fosse elástico. Estava quase a chegar ao manípulo.
E o sol tombou sobre a Terra. Sobre a minha cabeça. Tudo ficou vermelho. Depois amarelo. Finalmente ficou tudo branco. Branco e vazio.
E é onde eu estou agora. Num espaço branco. Asséptico. Vazio. Silencioso. Não sei onde estou. Não sei como estou. Estou aqui.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/19]

Assim-como-Assim

Ouço o vento assobiar lá fora. Vejo as árvores a dobrar. Os gatos fugiram para debaixo do carro e ainda lá estão. O carro abana. Não sei se aguenta. Não sei se os gatos estão a salvo. O cão enfiou-se dentro da casota, lá bem no fundo, e não lhe vejo focinho nem cauda.
A máquina do café parou de trabalhar. Vou buscar a chávena e volto para a janela. Acendo um cigarro. Não me atrevo a abrir a janela. O vento entrava-me cá em casa e dava cabo de mim.
Devia ir trabalhar. Sentar-me frente ao computador e escrever qualquer coisa. Nem que fosse só pela ginástica. Mental e manual. Mas não consigo largar a janela. Isto tudo fascina-me!
Estou na cozinha. Vejo o vento passear através da janela da cozinha. A mesa e as cadeiras de plástico desapareceram. O guarda-sol também. Estava fechado. Mas desapareceu. Voou. É uma arma. Tem ponta. Espeta. Espero que não aconteça nada. Nada pior do que o que está a acontecer.
Uma vez li uma estória de um gajo que viu uma vaca a voar. E depois matou a mulher. Também li que uma vez, uma vaca caiu do céu e matou um pescador no mar do Japão. Parece que é verdade. Um avião russo transportava vacas, houve um problema com a porta da carga e as vacas caíram no mar durante o voo. Uma delas caiu, por azar, na cabeça de um pobre pescador que estava em alto mar, num barco de pesca. Loustal fez uma banda-desenhada curta sobre esta pequena história. Uma preciosidade. Tenho-a para aí. Algures. Não sei onde. Talvez num caixote.
Como é que estará lá do outro lado da casa?
Saio da cozinha. Faço o corredor. Vou à janela da sala. Olho para fora. Para o alpendre. Para o quintal. Para a estrada lá ao fundo. As cadeiras do alpendre também desapareceram. As árvores perdem as folhas. Vou ter de limpar tudo. Não há um único carro a passar na estrada. Ninguém vai trabalhar, hoje. Está tudo em casa. A ver se aguenta. As famílias abraçadas. A tentar de sobreviver. A rezar. À espera de um milagre.
Tão melodramático que estou! Não tarda o vento pára. E a vida continua o seu curso normal. Mas isto também é o curso normal. Que raio de solilóquio, o meu. Não tenho mais nada que fazer? Bem, na realidade, não.
Espero. É o que tenho que fazer. Esperar.
Vou beber outro café. Fumar outro cigarro. Continuar a olhar o mundo a desfazer-se. Ver se os gatos aguentam. E o cão. Se calhar devia trazê-los cá para casa.
E a casa? Vai aguentar? E se não aguentar, o Loustal pode fazer uma banda-desenhada sobre o que acontecer a esta casa e a mim. A grafite. Com aquele traço rápido e sujo que ele usa quando trabalha a preto e branco. Como se fosse uma experimentação. Um croquis. Hum!…
Depois do café vou passar à aguardente. Assim-como-assim…

[escrito directamente no facebook em 2019/04/03]

A Mosca Mole

Estava nu em cima da cama.
Puxei o edredão para baixo, despi-me e deitei-me em cima da cama. Estava à espera dela. Deixei a porta da rua no trinco e vim esperá-la na cama. Era uma surpresa.
Mas a porra da mosca apareceu por ali e nunca mais foi embora. Uma mosca daquelas chatas, moles, que anda ali a voar baixinho, devagarinho, que passam junto aos ouvidos e fazem iiãooo, e irritam, incomodam, dão cabo dos nervos. Pousam em todo o lado. Estão moles mas quando as tentamos apanhar, são sempre rápidas. Mas não tão rápidas que não fiquemos com a sensação que é possível apanhá-las. Mas é raro acontecer. Só com alguma sorte. Ou insistência.
Ela estava atrasada.
E a mosca não ia embora.
Estava a azucrinar-me.
Levantei-me. Agarrei na camisola que tinha largado no chão e pus-me à cata dela.
Abri os estores. As luzes do tecto. Os candeeiros das mesas-de-cabeceira. Tudo para ver melhor. Onde é que andas, minha vaca? disse alto para a mosca.
Vi-a na parede. Levei o braço atrás e mandei-lhe rápido com a camisola em chicote, mas vi-a sair. Eu vi a mosca escapar nano-segundos antes de a camisola lá chegar. Merda.
Agucei o olhar. Procurei no tecto e nas paredes brancas. Nada. Olhei para os lençóis brancos. Para a cabeceira da cama. Para uma mesa-de-cabeceira. Para a outra. Nada também. Foi embora, pensei.
Larguei a camisola no chão. Desliguei as luzes. Baixei os estores. Voltei para cima da cama. E ainda não estava deitado quando a ouvi zunir ao meu ouvido, iiãooo! Parou no meu joelho e começou a subir pela perna acima. Mandei-lhe com a mão aberta. Nada. Foda-se, pá!
Voltei a levantar-me. Puxei de novo os estores. Acendi as luzes. Todas as luzes. Agarrei na camisola e recomecei à procura da mosca.
Olhei pormenorizadamente para cima do móvel. Dos livros em cima do móvel. Nada.
Virei-me para o armário. Vi e revi cada canto das portas do armário. Nada.
E então, vi o ponto negro, solitário, parado na parede branca por cima da cabeceira da cama. E comecei a aproximar-me dela. Devagar. Devagarinho. Com o braço puxado atrás. E a camisola tombada, agarrada pela mão.
Olá! Cheguei!… ouço dizer atrás de mim. Viro-me e vejo-a à entrada do quarto. E continua O que é que estás a fazer aí todo nu?
Eu viro-lhe as costas e resmungo entre os dentes Agora não!, e reparo que a mosca já não está onde estava. Foda-se! Sai daqui que tenho uma guerra para ganhar! disse-lhe, brusco. E ela saiu.
E eu fui à procura da mosca. Tinha de a encontrar.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/31]

Vi à Minha Frente uma Vaca a Voar

Vi passar uma vaca à minha frente.
Vivo num terceiro andar e, da janela da cozinha, vi passar uma vaca a voar à minha frente.
Apareceu um furacão aqui na cidade. Não sei de onde é que ele veio. Não sei onde é que se formou. Mas aqui, na cidade, libertou milagres.
Só na minha rua desfez a esplanada da pastelaria. Os chapéus foram os primeiros a voar. Logo seguidos das mesas e cadeiras. Ainda vi uma pessoa agarrada a uma porta, de pernas no ar, mas que conseguiu entrar dentro da loja. Não apareceu mais ninguém na rua. As pessoas esconderam-se. Alguns carros ganharam vida. Deslizaram pela estrada empurrados pela força do vento. Uns subiram para cima de outros. Houve um que se enfaixou na varanda do primeiro andar. Placas, ramos de árvore, árvores, motas, bicicletas, arbustos inteiros, lixo, pedaços de vida tornados lixo, tudo a voar pelo meio da rua e a subir até à janela da minha cozinha.
Eu acendi um cigarro, mas não abri a janela. Era muito o vento. E assobiava. Fiquei ali a ver o drama a desenrolar-se à minha frente. Nunca tinha visto nada do género. O ar parecia riscado a grafite com a quantidade de… Coisas… Que rodopiavam num remoinho sem fim. O prédio em frente perdia as telhas. As tralhas que os vizinhos guardavam nas janelas já tinham levantado voo há muito tempo. Alguns vidros partiram-se.
E foi então que a vi. A vaca. Estava a voar à frente da minha janela. O cigarro caiu-me ao chão.
Virei-me para o interior de casa e chamei-a. Gritei Anda! Anda cá ver isto! e saí para a varanda, agarrado, com força, à grade de ferro.
A vaca deu uma volta circular e estava, de novo, a aproximar-se da varanda quando ela chegou e eu, apontando a vaca disse-lhe Olha! Olha ali! e ela olhou e abriu a boca de espanto.
Agarrou-se como eu à grade da varanda e depois estendeu o corpo para fora para ver melhor o trajecto que a vaca estava a levar.
E, de repente, tudo parou. Tudo parou para mim.
O vento parou. A chuva parou. O barulho parou. O tempo parou. Tudo parou. E eu fixei o meu olhar nela, e no seu corpo estendido sobre a grade da varanda a ver o trajecto da vaca e tive tempo para analisar todas as variáveis da minha vida, todos os prós e os contras, vi com extrema clareza os diferentes caminhos que a minha vida poderia levar ao optar pelas diferentes soluções. Pensei, analisei, estudei, desejei e decidi.
E tudo recomeçou de novo a funcionar e eu estendi o braço sobre as costas dela e empurrei-a para o meio do furacão, e foi o bastante para ela galgar a varanda e ser arrastada, juntamente com a vaca, num remoinho imparável. E vi-a ganhar altura, olhar para mim por segundos e mostrar todo o horror nos seus olhos, e depois, girar, girar cada vez mais rápido e cada vez para mais longe de mim, ela e a vaca, até desaparecerem as duas lá no alto, onde a minha vista já não conseguia alcançar e, depois, depois o tempo acalmou e tudo morreu.
Todas as coisas que estavam a voar, caíram. Parecia uma chuva de objectos bizarros. Mas houve coisas que desapareceram. Entraram noutra dimensão.
Parou de chover. De fazer vento. Parou o barulho. A esplanada tinha desaparecido. O cão do vizinho da frente, também. Nunca mais vi a vaca. Nem a vi a ela.
Fui à cozinha buscar um cigarro e voltei para a janela para ver se a via. Tinha de me certificar que não, que ela não voltaria.
Já passaram dois dias.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/05]