Não Desci a Avenida por Causa do Jackie Chan

Era vinte e cinco de Abril e eu queria ir à manifestação. Queria descer a Avenida de cravo-na-mão. Porque se pode descer a Avenida de cravo-na-mão em dias certos. Ou no vinte e cinco de Abril ou na festa do Continente. Não vou à festa do Continente. Mas vou no vinte e cinco de Abril.
Levantei-me cedo. Tomei o pequeno-almoço. Mudei os lençóis à cama. Aspirei a casa. Reguei as flores da varanda. Pus uma máquina de roupa a lavar.
Depois fui tomar banho. Lavei o corpo com sabonete Patti. Lavei o cabelo com Linic. Desodorizei os sovacos com Basic Homme da Vichi. Olhei pela janela da casa-de-banho para a rua e estava a chover.
Merda!
Chovia que Deus-a-dava. O céu cinzento. Carregado de nuvens escuras.
Desanimei.
Vesti o fato-de-treino. Fui fumar um cigarro para a varanda. Com cuidado para não me molhar. Podia ser que parasse. Sim, talvez parasse.
Mas não parou.
Acabei o cigarro. Deitei a beata fora. Voltei para dentro de casa. Sentei-me no sofá. Liguei a televisão. Apanhei com um filme do Jackie Chan. Fiquei a ver.
Afundei-me no sofá. Eu e o Jackie Chan.
Quando voltei a olhar pela janela, descobri o sol. Tinha parado de chover. Veio o sol. São Pedro queria que eu fosse à manifestação. Boa. Ia levantar-me. Ia levantar-me mas não me levantei. Continuei enfiado no sofá. A olhar para o Jackie Chan. Ainda espreitei várias vezes para o sol através da janela. Mas não consegui levantar-me.
O Jackie Chan fazia das suas no filme que passava na televisão. Mas eu já nem conseguia rir. Sentia um peso na consciência. Mas não me serviu de nada. Devia ter-me levantado. Devia. Mas não levantei.
O dia correu.
Perdi o interesse no Jackie Chan.
Acabei por adormecer deitado no sofá.
Quando acordei já era noite. Sentia-me um pouco mal-disposto. Tinha o estômago às voltas. Doía-me a cabeça. Apetecia-me vomitar.
Acabei por me levantar. Com muito esforço. Pensei em ir à casa-de-banho vomitar. Mas fui antes para a varanda fumar um cigarro. Achei ser mais urgente.
E depois, enquanto fumava um cigarro na varanda e via passar gente contente com cravos na mão, pensei A vinte e cinco de Abril não fui à Avenida por causa do Jackie Chan. Mas em Maio, em Maio tenho de ir ao Marquês comemorar a vitória do Benfica.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/25]

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Maria É Nome de Mulher

Ela acorda todos os dias às sete da manhã.
Levanta-se. Toma um duche rápido. Veste-se na casa-de-banho uma roupa escolhida de véspera sem grande prazer. Come uma torrada. Bebe uma caneca de café. Deixa comida aos gatos. Vai deitar milho às galinhas. Põe uma máquina de roupa a lavar. O pequeno-almoço pronto para os filhos. Deixa as coisas preparadas para um almoço rápido que virá fazer a casa.
Às oito menos dez está a sair. De carro.
Das oito à uma da tarde anda para cima e para baixo. Limpezas num lado. Passar a ferro e cozinhar noutro. Às vezes uns pontos de costura. Mas o normal é o aspirador na mão. A vassoura. O ferro de engomar. O tacho. A frigideira.
À uma da tarde regressa a casa. Prepara qualquer coisa rápido que já deixou adiantado de manhã. Uns ovo mexidos com espargos. Umas coxas de frango assadas. Umas cavalas em lata. Acompanha com uns brócolos. Alface. Tomate. Senta-se sozinha à mesa da cozinha. Come. Bebe um copo de vinho. Vê as notícias na televisão pequena, em cima da bancada. Aquece uma caneca de café no micro-ondas e vai bebê-lo para a entrada de casa enquanto fuma um cigarro e vê as galinhas de um lado para o outro, tontas, a debicar no milho que lhes deixou de manhã.
Acaba o cigarro e são duas menos dez. Deixa a louça por lavar no lava-louça. Arranca de carro. Às duas horas está noutro lado. Muda as roupas de cama. De muitas camas. Põe roupa a lavar. Limpa o pó. Aspira os tapetes. Faz pequenos arranjos. Às cinco horas sai. Ou devia sair. Às vezes ainda dá mais uma ajuda. Aqui. Ali. Onde for preciso. Na cozinha. Nos quartos. Às vezes lavar um carro urgente. Regar a relva porque o sistema de rega está avariado. E avaria muitas vezes. Uma ida à farmácia Por favor! buscar qualquer coisa de muito urgente para alguém muito necessitado mas sem tempo.
Chega a casa às cinco e meia. Às seis. Ou às sete. Põe a louça do almoço na máquina. Prepara o jantar. Para ela e para os filhos. Jantam. Verifica os trabalhos de casa. Dos dois. Ouve as queixas. De um. De outro. As sapatilhas que estão rotas. As calças que estão curtas. A camisola que está pequena. As meias novas para o ballet que as velhas estão rotas. O livro do Plano de Leitura que não se vai ler mas tem de se comprar. O fato para a ginástica. As senhas de almoço para a próxima semana. A amiga que amuou. O amigo que já não é. As dores de crescimento dos filhos enquanto, ao mesmo tempo, os vê afastarem-se de si. Mas, para já um ombro. Outro. Limpa umas lágrimas. E quem lhe seca as dela?
Arruma a mesa de jantar. Põe a louça na máquina, a lavar. Tira a roupa da máquina e estende-a à espera que não chova.
Senta-se frente à televisão.
Olha para qualquer coisa que está a dar. Não liga muito. Mas ajuda a espairecer. Dantes ainda via umas novelas. Mas começaram todas a parecerem-lhe iguais. E já não lhe chega as vidas dos outros para animar a sua.
Vai fechando os olhos enquanto olha para a televisão. Entretanto são onze horas. Levanta-se. Prepara a roupa para o dia seguinte. Prepara a roupa para os filhos, mesmo sabendo que eles vão acabar por vestir o que querem.
Na casa-de-banho, enquanto lava os dentes, olha em frente, para si reflectida, e pensa que tem de limpar o espelho. Os vidros das janelas. De aspirar a casa. Limpar o pó. Mudar a roupa das camas. Pelo menos das camas dos miúdos. E tem de comprar pasta dos dentes. Mudar a escova que aquela já tem, o quê?, quase um ano? Pensa que tem de fazer uma lista de coisas que precisa de comprar. E depois precisa de ver se tem dinheiro para tudo e escolher as prioridades.
Enquanto vai pelo corredor, e passa pelos quartos dos filhos para dar o beijo de boas-noites sem que tirem os olhos do telemóvel, pensa que é melhor, no dia seguinte, passar em casa dos pais. Talvez traga umas couves. Um coelho já esfolado. Talvez uma sopa de feijão. Dava bastante jeito uma sopa de feijão seco, pensa.
Deita-se nua na cama fria e solitária e pensa que já passou mais um fim-de-semana e nem deu por isso. Os dias são sempre iguais. Banais. Solitários. Cansativos. E entre um pensamento e outro há um interlúdio e são outra vez sete da manhã. O telemóvel toca a despertar e tudo recomeça da mesma maneira.
Tudo se alterou quando chegaram as primeiras dores de cabeça. Depois as dificuldades em adormecer. Por fim as dificuldades em levantar-se de manhã.
Vai ao médico de família. Análises. Testes. Nada. Não tem nada. Não tem nenhum problema. É só cansaço, ouve. É o stress do dia-a-dia, dizem-lhe. E começam os comprimidos.
Os comprimidos para as dores de cabeça cada vez mais frequentes e intensas.
Os comprimidos para adormecer e esquecer todos os pensamentos que lhe invadem a cabeça enquanto se lança para a cama à procura de um pouco de repouso.
Os comprimidos para acordar e forçar a levantar-se para retomar o seu dia-a-dia de contribuidora para o bem comum.
Foi num fim-de-dia que lá fui para lhe comprar uns ovos. Ovos a sério. Ovos de galinhas do campo. Galinhas que andam a passear dentro do galinheiro a debicar milho e que todos os dias põem ovos frescos com que se equilibram as contas da casa. Foi nesse dia que lá fui aos ovos e a vi caída no chão. Alguma roupa pendurada no estendal. Outra caída. Umas peças tinham voado para cima da figueira.
Não tinha pulso. Chamei o INEM. Mas já foi tarde. Os filhos agora estão a viver com os avós.

Abriram uma vagas de emprego.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/16]

Algo Está a Acontecer na Cidade

Acordo debaixo de um pinheiro manso frente à Câmara Municipal de Leiria.
Não sei o que é que estou aqui a fazer.
Estou enrolado em mim. Encostado ao tronco do pinheiro. Estico-me. Faço-me crescer. Endireito-me. Sento-me no pequeno muro que serve de vaso gigante e moldura paisagista ao pinheiro, desço os pés até ao chão e piso aqueles pequenos cubinhos da calçada portuguesa.
Olho em frente para o edifício da Câmara. E penso O que é isto? E acendo um cigarro. Tossico um bocado quando o fumo me invade os pulmões. E vejo o edifício da Câmara rasgar ao meio como uma folha de papel.
Levanto-me do muro e sigo para a minha direita, para o centro da cidade. Para o centro histórico da cidade. Não quero que pensem que tenho algo a ver com o declínio do edifício camarário.
Na Rua Machado dos Santos olho o semáforo e está verde para peões. Cruzo a passadeira para o outro lado.
Atrás de mim ouço o som de um carro a acelerar, potente, próximo, e depois um baque seco. Viro-me e ainda vejo um corpo a voar pelo ar e a cair, lento, no asfalto, a esguichar sangue, enquanto, ao fundo, o carro se afasta a alta velocidade.
Continuo em frente, para a Rua Mártires da Pátria, mas desvio no último momento e desço a Rua de Alcobaça. Começa a chover e o piso fica escorregadio. Mando fora a beata do cigarro e vou com cuidado.
Vejo, à minha frente, uma mulher a empurrar um carrinho de bebé. Vejo, à minha frente, a mulher escorregar e cair e o carrinho de bebé arrancar, rápido, passeio fora. Lá de dentro, do carrinho, vem o choro de um bebé.
Passo pela mulher que continua caída no chão com um pé partido, um osso de fora, e continuo em frente. Chego ao Largo Cândido dos Reis e reparo, ao fundo, caído atrás de uma laranjeira, o carrinho de bebé, torto, partido, virado ao contrário, com uma roda pequenina a girar nhec-nhec-nhec e, do bebé, não ouço nada.
Passo por ele e desvio o olhar. Continuo em frente, sempre em frente, e entro na Rua Barão de Viamonte. Deixo o Terreiro para trás e ganho a Rua Direita. Todas as cidades têm uma. Ficam sempre no centro histórico. São sempre tortas. E cheiram sempre a mijo.
A rua é sombria. Estreita, sinuosa e sombria. O sol fica lá no alto, não entra cá em baixo. Há zonas que me assustam. Ouço barulhos, mas continuo. Olho para trás, mas vou perdendo o olhar, vou perdendo a rua nas suas curvas. Cruzo-me com cadáveres. Putas. Homens gordos, de fato e gravata, dedos grossos e sebosos a segurarem enormes charutos mal-cheirosos com notas de euro a caírem-lhes dos bolsos do fato, a olharem para as janelas de onde se lançam homens e mulheres frágeis. Não morrem porque a altura é curta. Não chega para o suicídio. O suicídio tem caderno de encargos próprio. Mas partem pernas e braços e cabeças. Um homem morre porque parte o pescoço.
Começo a correr. Quero sair da rua Direita depressa. Com urgência. Estou com medo. Com medo dos homens gordos, do suicídio, da rua.
Chego ao Largo da Sé. E olho para a Sé. E não a vejo. O largo está cheio de carros. Carros, carros, carros. Não consigo ver a Sé, a fachada da Sé, a torre da Sé. Só vejo carros. Carros estacionados, carros a circular, carros a arder. Um carro levanta voo.
Então ouço. Ouço as badaladas das… Das quantas? Que horas são? Estou na Sé? Porque é que só há carros aqui?
Quero acordar. Por favor, quero acordar.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/04]