Às Voltas com o Universo

E todas as vezes que eu tomo uma decisão, não há um outro eu a criar uma nova realidade seguindo a outra hipótese, a hipótese preterida?
E de cada vez que há um sim ou um não, não nasce um outro universo que comporte o não ou o sim que ficam das opções tomadas?
E as pessoas com quem estou? que conheço? Se voltar a encontrá-las mais tarde, ainda que no mesmo sítio, serão as mesmas? Ou já serão versões alternativas de si próprias?
E não será isto tudo uma possibilidade para o mundo se recriar infinitamente?
Ando a ver a série alemã Dark, uma série sobre viagens no tempo, universos alternativos e paradoxos temporais. Nada do que tenho visto na série, que é muito boa, muito bem imaginada, escrita, realizada e interpretada é, na realidade, novo para mim. Não me é novidade a possibilidade de nos movimentarmos no tempo, no espaço e em mundos alternativos nem sequer a hipótese, não levantada na série mas muito utilizada nos universos ficcionais da Marvel e da DC, e que eu tenho vindo a alimentar desde há muitos anos na criação da ideia da perna de fiambre cortada muito fininha, sendo cada fatia, um universo com uma realidade e, todas as outras fatias que se lhe sucedem, realidades alternativas que se vão construindo à medida que vão aparecendo hipóteses diferentes para cada uma das personagens que habita esse mesmo universo primeiro, ou seja, o multiverso.
Imaginemos portanto. Eu dou um beijo numa rapariga e, com esse beijo, inicio uma relação de namoro. Mas posso não dar-lhe o beijo e cada um segue a sua vida. Ou posso dar-lhe um beijo e levar um estalo e, em consequência do estalo, posso tornar-me um psicopata. Ela, em consequência do beijo que não queria e de me ter dado um estalo, entra em depressão. Cada uma destas variações constroem um novo universo, cada universo no mesmo espaço, no mesmo tempo, mas em dimensão diferente. É aqui que nasce o multiverso. Nas camadas alternativas que cada linha da vida tem à sua espera.
Viajar no tempo, ou entre mundos, ou entre dimensões, há-de ser possível um dia, quando se criarem as condições para existirem expressos que nos levem lá, tal como há expressos que nos levam a Lisboa ou a Paris. Claro que primeiro terá de se resolver alguns problemas. Por exemplo, o fluxo de tráfego. Que quantidade de viagens por hora, por minuto, por segundo, são possíveis de fazer sem romper com a estabilidade do espaço-tempo? E como transpor portais dimensionais sem romper com as leis do universo que conhecemos e, mais difícil ainda de resolver, as leis dos universos que não conhecemos? Como serão as outras dimensões para onde vão todas as outras nossas realidades alternativas? Serão uma espécie de compilação de lados b e raridades? Ou serão mais como os bootlegs? Vidas reais mas não oficiais? Sei lá, uma dimensão em que eu sou um travesti por acção de histórias alternativas de outras personagens e não de mim próprio?
Há na série Dark um elemento que me chamou a atenção: Jonas aparece com um casaco impermeável amarelo. Na terceira temporada, é Martha que usa esse casaco. Onde é que houve a troca? É por a Martha ser de outro universo ou fui eu que perdi alguma informação? O multiverso pode destruir o pensamento linear, tal como o Final Cut e o Avid destruíram a montagem linear?
Eu já tive um casaco assim, amarelo, na minha adolescência. Aliás, quase todos os adolescentes de Leiria tiveram. Foi uma moda. Mas não era casaco de moda como o da série. Não era um impermeável com pinta. Era um casaco de plástico que os homens das obras usavam, que não deixava o corpo respirar porque era plástico e, quando chovia, a água escorria toda para as pernas e deixava-nos com as calças encharcadas. Mas em Leiria, adolescente que não o tivesse era um pária.
O casaco fez-me pensar na possibilidade de, ao voltar no tempo, no espaço, noutra dimensão, cruzar-me comigo próprio. Um paradoxo, portanto. Qual deles serei eu? Serei todos eles? Todos eles ao mesmo tempo? E como é que pensarei? Será por camadas? Ou tudo junto? E como é que verei a acção? Através de que olhos? De quais olhos? Através de que cérebro? Haverá um eu principal? Ou será tudo o mesmo? E poder-me-ei tocar? Tocar o outro eu como se fosse outro? Que consequências terá isso para o universo? Posso, através do meu paradoxo, mexer com a vida de toda a gente? ou só a minha? E se o universo explodir (ou implodir) por acções minhas, será todo o universo ou só o meu? E experimentarei sensações com as minhas outras versões temporais como os gémeos? ou como se fosse mesmo eu? e quantos eus poderei ser? e sentir?
Como é que se sai disto?

[escrito directamente no facebook em 2020/08/01]

A Primeira Vez que Saí à Rua de Mãos-Dadas

A primeira vez que saímos para a rua de mãos-dadas, eu fiquei com dois metros de altura, peito inchado, percebi a cara ruborizar e senti-me a pessoa mais importante do universo.
Estava em casa dela. Tinha acabado de lhe dar um beijo nos lábios. Ela tinha aberto a boca. Senti a língua húmida dela a procurar a minha. Os nossos dentes bateram uns nos outros, desajeitados. E depois sorrimos um para o outro.
A minha mão procurou a dela. Encontraram-se e não mais se largaram. Foi difícil abrir a porta da rua e fechar a porta à chave sem largarmos as mãos. Depois saímos, de mãos-dadas. Era a primeira vez que saía para a rua de mãos-dadas. Estava nervoso mas sentia-me muito importante. A pessoa com mais sorte do mundo. Sentia-me nas nuvens e olhava as outras pessoas lá em baixo, aos meus pés. Senti vertigens e, por momentos, enjoei e pensei que ia vomitar. Mas agarrei-me à mão dela. O coração batia tanto e tão alto que tinha medo que ela ouvisse. E, de vez em quando, engasgava-me a respirar e tossia. Sentia-me a ficar com a cara vermelha e muito quente. Piorou quando parámos no passeio, junto à passadeira, à espera de cruzarmos a estrada para o outro lado, e ela encostou a boca ao meu ouvido e disse Gosto de ti! e os lábios dela a mexerem-se na construção fonética fizeram-me cócegas na orelha e senti um arrepio pela espinha, a minha mão começou a transpirar, a dela também, e mesmo com a estrada vazia de carros não conseguimos cruzá-la pela passadeira para o outro lado. Ficámos ali presos aquele momento, a tentar recuperar a lucidez mas sem fazer muito por isso, até que fomos acordados pela buzina de um automóvel que parou para nos dar passagem. Eu pus o pé na estrada e esperei que ela viesse comigo mas a minha mão e a dela escorregaram, tão transpiradas que estavam, e desatámos os dois a rir e ela começou a correr para o outro lado da estrada e eu segui-a e, já no passeio, a rir, ela abraçou-me e ou voltei a beijá-la, enquanto a minha mão agarrou a dela, mas com força, como uma tenaz, para não mais a deixar largada num sítio qualquer onde eu já não estivesse e ela se pudesse perder.
Às vezes penso no que é que mais gostava de voltar a sentir pela primeira vez. E nunca é no primeiro beijo, na primeira relação sexual, no primeiro filho, na vez em que recebi a Palma de Ouro em Cannes ou quando acertei no Euromilhões. Não. O que eu penso sempre que gostaria de voltar a sentir outra vez pela primeira vez era sair de mãos-dadas com ela à rua. Voltar a sentir-me um gigante, a pessoa mais importante do universo, mesmo com o nervosismo, o rubor e as borboletas na barriga, afinal, vem tudo no mesmo pacote.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/26]

O Poço

Há lá fora, no quintal, um poço que está tapado por uma tampa redonda de madeira forte e pesada mas que eu conseguiria abrir se se desse o caso de o querer abrir. Às vezes tenho vontade de lá colocar a cabeça para arrefecer, esquecer ou a fazer adormecer.
Estes tempos não têm sido propícios às minhas divagações mentais. Ponho-me a pensar no que a vida nos está a fazer e, quando dou por mim, estou no quintal a caminho do poço. Sento-me sobre a tampa, cruzo as pernas e acendo um cigarro. Às vezes penso que queria que a tampa cedesse ao meu peso.
Nestes últimos dias em que o tempo tem andado numa roda-viva, de manhã Verão e à tarde Inverno, sem que nunca, em momento algum, haja um cheirinho, por suave que seja, a uma pequena Primavera ou um pequeno Outono, os saltos são assim de gigante como se jogasse à Mamã Dá Licença? com o universo, sinto a asma ganhar dimensão dentro de mim, o corpo verga-se ao peso da respiração pesada e forçada, só estou bem em pé, e conto os minutos até conseguir voltar a fumar um cigarro e limpar a cabeça.
Em dias como os de hoje sinto crescer uma certa melancolia que, nestes últimos tempos me faz vir até ao poço. Tem piada que o poço já cá estava quando para cá vim morar, já estava tapado, até tinha uns vasos com plantas lá por cima, mas eu nunca lhe liguei nenhuma.
Surgiu assim, como num estalar de dedos, estava eu no sofá a ver a contabilização do número de mortos no mundo por causa do Covid-19, quando vi projectado na minha cabeça a imagem do poço e senti formar-se em mim a consciencialização do poço, um poço fundo, não sabia de quantos metros de profundidade, nem se tinha água ou não e se a água era boa para beber. Senti-me atraído pelo poço. Foi essa a primeira vez que fui ao poço. Levantei-me do sofá. Deixei a televisão ligada. Saí de casa. Estava aquele lusco-fusco cinzentão e já tinha chovido durante a tarde. Fui até ao poço. Olhei-o. Senti-o a olhar para mim. Senti-o a convidar-me para me sentar lá em cima, em cima dele. E eu sentei-me. Sentei-me em cima dele. Senti logo o rabo molhado que a tampa do poço estava ainda molhada da chuva da tarde. Cruzei as pernas. Respirei fundo. Depois acendi um cigarro e fiquei ali, em cima do poço a fumar o cigarro.
Enquanto fumava o cigarro pensava que o poço era um portal, uma porta dimensional, que bastava eu deixar-me cair lá dentro e viajava para o passado, viajava para o futuro, viajava para o outro lado do mundo, entrava numa outra dimensão em que havia mais cores do que alguma vez tinha imaginado. E quando acabava o cigarro, como que despertava de um sonho e regressava à minha vida de todos os dias, uma vida tridimensional, cheia de dramas, problemas e, agora, também morte.
Ultimamente tenho-me sentido impelido muitas vezes a ir sentar-me em cima da tampa do poço. Sinto-me convidado a fumar um cigarro. E parece-me que estou a ser levado pela atracção do fundo do poço. Não são poucas as vezes em que imagino cair lá dentro. E vejo-me nessa queda bizarra, em que as paredes do poço passam por mim em câmara lenta e como se fossem um filme preto como o da Marguerite Duras ou colorido como a queda de Alice pelo Walt Disney, mas sem nunca chegar ao fundo.
Agora, neste momento, vim até ao poço para me sentar em cima da tampa e fumar um cigarro e descobri que já retirei a tampa. Não me lembro de o ter feito, mas fi-lo. Descobri uma farpa num dedo e não consigo tirá-la. Olho para o fundo do poço. Meto a cabeça lá dentro e olho. Não vejo nada. Acendo um cigarro. Encosto-me à beira do poço. E volto a meter a cabeça. Olho lá para dentro e desejo que o poço me adormeça.
Sinto-me fascinado e, ao mesmo tempo, um pouco melancólico.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/07]

O Multiverso

Na verdade, a vida é como um naco de fiambre da perna, cortado em fatias muito fininhas. Cada escolha, cada acontecimento, leva a uma nova fatia. A vida não é uma vida, são várias mesmas vidas, mas outras. O universo não é um universo, mas vários universos. Tudo ao mesmo tempo, num mesmo plano de existência, como numa orgia, mas noutro espaço, noutro tempo, noutra dimensão. Numa outra qualquer coisa para a qual ainda não foi encontrada definição. Por isso não importa o que é que acontece aqui porque lá vai acontecer a alternativa. E nós somos sempre nós. Mas nós-outros com outras escolhas.
O que se passa é o seguinte: houve uma época em que queríamos duzentas gramas de fiambre em fatias fininhas e o supermercado colocava à nossa disposição embalagens de esferovite, envolvidas em plástico, com duzentas gramas de fiambre da pá previamente cortadas, mas cortadas em fatias muito grossas, tão grossas que nem pareciam fatias de fiambre mas bifes do cachaço. Então, íamos à senhoras da secção de charcutaria do supermercado para cortar duzentas gramas de fiambre da pá fininhas, daquelas que quase se desfazem mas que, para quem gosta de fiambre, consegue perceber que três ou quatro fatias muito fininhas num papo-seco, é muito diferente de ter uma só fatia muito grossa, e as senhoras diziam que não podia ser. Que tinham ordens. Que não se podia cortar como queríamos porque o fiambre esfarelava-se todo e estragava-se. E as ordens era para não fazerem as vontades às pessoas. Que tinham de se habituar a que quem mandava na tenda era o tendeiro, ou seja, eles, aqueles que nunca estão presentes atrás de um balcão nem do outro lado de uma linha de telefone para fazermos uma reclamação. Merdas do capitalismo. As caras estão sempre escondidas atrás de números. Mas as pessoas tanto refilaram, tanto contestaram, que os supermercados voltaram a permitir que as pessoas dissessem como queriam ver cortadas as fatias do fiambre da pá, mesmo se na vitrina do frio houvesse pilhas várias de vários tipos de fiambre, da perna, da pá, de peru, tipo York, em vários tamanhos, mas todos os tamanhos em grosso.
Ora, para que se perceba a questão da realidade multiplicada infinitamente no mesmo plano de existência, as fatias têm de ser finíssimas, e não grossas, para que percebamos o funcionamento deste conjunto de vários universos. O capitalismo queria, assim, esconder da população geral o facto de vivermos num multi-universo que se multiplica constante e infinitamente.
Vejamos, um papo-seco fresco, comprado na padaria com fabrico próprio de forno a lenha (esta padaria também faz pizzas no forno a lenha e são muito boas, posso passar o número de telefone). Com uma faca de serrilha abrimos o pão ao meio e colocamo-lo em cima de uma tábua para não deixarmos cair migalhas para o chão. Agora vamos fazer um sandes de fiambre. E para simplificar, não vamos barrar manteiga na metade de baixo do papo-seco. Cada vez que fazemos uma escolha, cortamos uma fatia de fiambre. Por exemplo, uma mulher bonita, sensual, pergunta-me se eu quero ir para a cama com ela. A minha resposta imediata é sim. Mas a hipótese negativa não é descartada. O que é que acontece? Corto uma fatia de fiambre e cria-se um novo universo onde eu escolhi não ir para a cama com essa mulher (como se tal fosse possível, mas é, é sempre possível porque todas as escolhas que fazemos abrem caminho às outras opções descartadas por nós aqui, mas aceites por nós mesmos, mas outros, nos outros universos alternativos.
Outro exemplo, preciso de ir de Leiria a Lisboa para tratar de assuntos. Não importa que assuntos. É só a abertura de uma hipótese para explicar a acção. Escolho ir de carro. Mas corto uma fatia de fiambre com a possibilidade de ir de camioneta. Corto outra fatia com a possibilidade de ir de comboio. Mais outra fatia pela possibilidade de ir de motorizada. Ou de bicicleta. Ou até de skate. Ou ainda a pé. Bom, mas aqui também estava dependente do tempo que tinha disponível para chegar a Lisboa. Se tivesse que chegar em poucas horas, teria de deixar de lado as hipóteses de ir a pé, de skate, de bicicleta e até de comboio porque a Linha do Oeste demora cinco horas a ir de Leiria a Lisboa. Ao mesmo tempo, ao optar por ir de carro, escolhia ir pela A1. Mas abria outro universo para ir pela A8 e ainda outro para ir pela EN1. Só aqui, nesta escolha para ir de Leiria a Lisboa, tinha cortado oito fatias de fiambre. Oito novos universos onde as minhas escolhas iriam influenciar o caminho desses mesmos universos. Agora, comer um papo-seco de fiambre com oito fatias fininhas é muito melhor que comer um papo-seco com oito fatias grossas.
E estas são só as minhas escolhas num acontecimento único. Quantos universos alternativos existirão com todas as minhas escolhas e as escolhas dos biliões de pessoas que existem neste universo? Quantos papo-secos de fiambre é que dará? Quantos universos é que, afinal, existirão no multiverso? É um número infinito. E o infinito não é contabilizado porque não existe. E, no entanto, existe. Existe para além da nossa imaginação.
É por isso que não importa as escolhas que fazemos aqui, aqui neste universo. Estamos sempre a viver outras escolhas noutros universos iguais a este, mas diferentes. E nós somos nós, mas outros. Por isso, escolher uma coisa ou outra, todas elas acabam por ter existência.
E foi aqui que ela se levantou e foi embora.
Mais uma vez acabei a noite sozinho. Acabei com o copo de vinho que tinha na mão e saí do bar. Na rua acendi um cigarro. Olhei para a lua que estava pendurada lá em cima no firmamento e perguntei E eu? Qual dos eus é que eu sou? Eu sou o mais parvo, não é? e começou a chover. A chuva acabou-me com o cigarro. Encharcou-me. Cheguei a casa, despi-me, sequei-me com o secador e a toalha de banho e fui deitar-me. Sozinho. Mas ainda tive tempo para pensar que, algures, num outro universo deste enorme multiverso, eu estava a dormir com uma mulher lindíssima que me amava. E adormeci com um sorriso nos lábios. Pelo menos foi assim que imaginei enquanto comia, ao pequeno-almoço, um papo-seco com fiambre em fatias cortadas muito fininhas.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/19]

Bronquite

Tenho tido bronquite durante toda a minha vida. Acho que já devo ter nascido assim, com ela. Não sei se tal é possível. Talvez seja. A primeira vez que a História me documenta um ataque de bronquite eu teria duas semanas de vida e tive de ir para Coimbra, de ambulância, fazer qualquer coisa que não podia ser feita aqui, em Leiria. Quem fez o registo para os anais, foi a minha mãe, que me dava colo, mama, me mudava a fralda e foi comigo para Coimbra, a lutar para que não morresse o filho que tinha acabado de parir há não muito tempo.
Sobrevivi. E é o que tenho feito toda a vida.
Passei a minha infância a sentir os pulmões fecharem-se à entrada de ar. Mas caguei neles. Sempre que possível. Não me deixei domar pela tristeza de uma maleita incapacitante. Joguei à bola debaixo de chuva com os outros miúdos. Fartei-me de correr e transpirar, a fugir do dono do pomar onde íamos, eu e os outros, roubar laranjas e nêsperas e maçãs, fruta que nos garantia roubo ao longo do ano, e depois íamos comê-las assim, sujas, à dentada, ofegantes, esfomeados, mas contentes com o fruto de um trabalho doido.
Às vezes, quando sentia muita falta de ar, parecia que estava a entrar num outro universo. A visão afunilava. A audição refinava, talvez para escutar acima, ou abaixo, daquela pieira maldita. Os olhos para o chão. O corpo mirrava e eu parecia fugir do mundo, deste mundo.
Às vezes tinha de dobrar o corpo, pernas direitas, cabeça para baixo, mãos presas na cintura, na presilha das calças, para tentar recuperar o ritmo certo da respiração. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Como se estivesse a aprender. Outra vez. De novo. Tudo de novo.
Fugir de gatos. Fugir de pássaros. Fugir dos ácaros. Fugir do pó da casa. E a minha mãe a arrancar a alcatifa bordeaux, muito anos setenta, que forrava a casa e acumulava horas, dias, semanas, meses de bronquite.
Aquilo não era bem uma doença. Não me doía nada. Não dava nada jeito ficar na cama. Não podia faltar às aulas, Para ficar a fazer o quê?, não me perguntava na altura porque não era preciso, estava subentendido, mas pergunto agora porque fica melhor neste texto onde tento perceber se, ao não ser bem uma doença, é o quê? uma frivolidade? ficar sem ar, sem conseguir respirar, uma paneleirice, com certeza.
Depois apareceu o Ventilan. Acabavam-se as mezinhas que a minha mãe fazia. As papas quentes no peito. O iodo da praia. As vacas. As termas. Os banhos de água fria. De água quente. Os jactos de mangueira. Os vapores. Os vapores caseiros de folhas de eucalipto numa panela com água a ferver.
Matei um problema e criei outro.
O stress de esquecer a bomba. A ansiedade de não ter o Ventilan comigo. Mesmo quando estava bem. Quando respirava como as pessoas normais respiram. E como respiram as pessoas normais? Eu nunca fui uma pessoa normal. Não sei como é que respiram as pessoas normais. Não sei como é nunca ter medo de não conseguir respirar. Saía de casa com o Ventilan no bolso das calças como se fosse uma pila gigantesca, que se alongava braguilha fora. Se não o levasse…
Isto tudo depois de me terem garantido a mim, ao meu pai, à minha mãe, às minhas duas avós, ao cão e ao gato que tive de certeza, que sempre os houve nas casas dos meus pais mesmo que eu não me lembre, que com a idade iria passar. A adolescência iria matar a bronquite. Poderia ser jogador de futebol e ser o Cristiano Ronaldo antes do Cristiano Ronaldo ser o que é porque esta minha incapacidade respiratória morreria antes de eu poder ser um herói do futebol e, no entanto, tanta ciência, tanta tecnologia, conhecimento, liberalismo, progresso, idas à Lua e a Marte, e um sonho que não tive morreu porque, afinal, nada do previsto aconteceu. Claro que joguei à bola. Com a Malta da Rua, na Escola, a fugir ao meu pai que não queria que eu jogasse à bola à chuva, e depois tinha de fugir, outra vez, para escapar à mão pesada que, invariavelmente, iria bater, violenta e dura, no meu rabo.
Não passou, a bronquite. Os anos não mataram a minha bronquite. Mas eu fodi-a. Fumei todos os anos ao longo dos anos. A bronquite não levaria a melhor. E nunca levou. Um cigarro nos dedos, na boca, um cigarro aceso entre os dedos da mão em conversas, nos bares, nas ruas, em casa, na cama, no sofá, na banheira de óculos escuros a ler O Jardim de Cimento de Ian McEwan, na companhia do vinho, da cerveja, do gin, do vodka, do whiskey. Sozinho, tantas vezes sozinho, à janela, à varanda, à entrada do prédio, debaixo do beiral, encostado a uma montra, dentro do carro, em cima da bicicleta, depois de comer, depois de foder, depois de correr e de uma partida de futebol no campo de terra batida do colégio das freiras para onde íamos jogar depois de subir e saltar as grades que eram suposto manter-nos do lado de fora. Fumar. Fumar desde os quinze anos. Diariamente. Não me matas, bronquite. Matar-me-ei eu primeiro.
Mudei várias vezes de medicação tentando acabar com o Ventilan. Tomei medicamentos cujos nomes fui perdendo com o tempo. Uns duraram pouco. Outros duraram um pouco mais. Mas quase todos se revelavam frágeis ao fim de algum tempo em convivência comigo. Sim, eu não sou fácil. Para uns sou uma aventura, para outros um tédio, para a maior parte uma chatice que se quer esquecer.
Agora estacionei no Xoterna. Tem um nome merdoso mas é o medicamento que mais resultado parece ter sobre esta minha incapacidade de respirar como as pessoas normais. Mas o Ventilan anda sempre por cá. Escondido. Já não anda no bolso das calças porque já não preciso dele com urgência. Já não stresso à sua ausência. Mas é sempre bom saber que ele existe. E está na mesa-de-cabeceira. No porta-luvas. Na mochila. E o mais tranquilizador é saber que o posso comprar em qualquer farmácia pela módica quantia de dois euros e tal. O Xoterna, sem receita, custa cinquenta euros. Ter bronquite é uma cena de ricos.
A Primavera é terrível por causa dos pólenes. O Outono é terrível por causa da queda das folhas e dos pós que levanta. O Verão é terrível por causa do excesso de calor. O Inverno é terrível por causa da humidade e do frio. Tudo é terrível e qualquer coisa é motivo para os alvéolos se fecharem, os pulmões mirrarem e me faltar o ar. Mas sobrevivo. Tenho sobrevivido sempre. Com um copo de vinho tinto alentejano numa mão e um cigarro aceso na outra. Fode-te!, bronquite.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/24]

Perdi a Mochila que Levava às Costas

Atravessava a cidade quando ouvi o primeiro trovão. Fui apanhado desprevenido. Eu e todas as outras pessoas que se deslocavam na baixa da cidade em final de dia cheio de um calor tórrido e sufocante. Estava de calções e chinelos. Uma pequena mochila às costas, com o iPad, a Moleskine, a Kaweco, o Ventilan, as chaves de casa, um pacote de lenços de papel, um canivete-suíço e o livro que andava a ler. Já não sei qual era o livro porque, quando tudo se precipitou, perdi a mochila com tudo o que lá estava dentro.
Quando rebentou o primeiro trovão, toda a gente se assustou. Foi um grande estrondo. E apanhou toda a gente de surpresa. As pessoas pararam a olhar para o céu, a tentar perceber o que estava a acontecer. E foi por pararem a olhar para o céu, que toda a gente viu, e eu também, os relâmpagos que se precipitaram sobre a terra, vindos de um céu que escurecera tão rápido que nem tivemos tempo de processar o que estava acontecer. Eu vi os relâmpagos a riscar o céu. E achei lindo. Fantásticas obras de arte. Uns riscos tortos, descendentes, luminosos, decididos e assustadores. Parecia que cortavam o céu, de cima abaixo. Como se criassem portais para outra dimensão, outro universo. E caíram assim vários relâmpagos antes ainda de se ouvir o primeiro som. E quando começou a ribombar, parecia um concerto celestial diabólico que se abatia sobre a terra, sobre a cidade, sobre mim. Uma percussão em ritmo cadente. Com os baixos a acompanhar.
Começou a chover. Uma chuva copiosa, de gotas grossas que magoavam quando me caíam na cabeça.
Olhei em volta. Desatei a correr até uma esplanada coberta do outro lado do rio. Cruzei a ponte. Olhei, pelo canto do olho, enquanto corria, a água do rio agitada, sovada por milhares de pingos agressivos que faziam subir estilhaços de água até à plataforma da ponte. Entrei dentro da esplanada coberta. O barulho era ensurdecedor. Os pingos da chuva caíam na cobertura da esplanada, que não sei de que era feita, e eram amplificados a ponto de não me conseguir ouvir a pensar.
Sentei-me, molhado, a uma mesa. Sacudi-me. Esperei que me perguntassem o que queria. Nem sabia o que queria. Mas ninguém veio ter comigo. Os empregados do café estavam todos a olhar a chuva a cair e ignoraram os clientes acabados de entrar, clientes assim como eu, fruto do acaso, clientes que se refugiaram ali da chuva e dos relâmpagos, mas que não deixavam de ser clientes. Eu queria qualquer coisa. Um chá, um café, uma cerveja, um bagaço. O que quer que fosse que saísse primeiro da boca no momento de fazer o pedido.
E foi então que um raio caiu no prédio em frente à esplanada. O prédio rebentou como se tivesse sido bombardeado e a deslocação de ar fez rebentar as janelas da esplanada e soprou toda a gente para o fundo do café.
O prédio em frente começou a arder. O café também. Houve máquinas a rebentar. O ar condicionado explodiu. Eu levantei-me. Corri para a rua. Estava a chover torrencialmente. Mas corri feito louco. Descobri que tinha perdido os chinelos e corria descalço. Cruzei de novo a ponte. Nem olhei para a água. Procurei a entrada de um prédio aberta. Não via nenhuma. As lojas estavam fechadas. Outras rebentadas. Os vidros partidos. Havia gente a roubar embalagens, camisas, calças de ganga, t-shirts, cintos dos prontos-a-vestir de montras escancaradas. E vi uma entrada de Multibanco com gente lá dentro. Corri para lá. Abriram-me a porta. Entrei.
Percebi que estava cansado. Com bronquite. Encharcado. Descalço. Com os braços cheios de sangue. Os pés pretos, sujos. Tinha perdido a minha pequena mochila.
Encostei-me a um bocado de parede livre e deixei-me escorregar para o chão. Sentei-me. Lá fora continuava a chover torrencialmente. Continuavam a cair relâmpagos que estavam a deixar a cidade a ferro e fogo. Os trovões não se calavam. E eu não sabia se ali estaríamos em segurança. Mas estava cansado. E senti-me a adormecer.
Sinto-me a adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/12]