O Multiverso

Na verdade, a vida é como um naco de fiambre da perna, cortado em fatias muito fininhas. Cada escolha, cada acontecimento, leva a uma nova fatia. A vida não é uma vida, são várias mesmas vidas, mas outras. O universo não é um universo, mas vários universos. Tudo ao mesmo tempo, num mesmo plano de existência, como numa orgia, mas noutro espaço, noutro tempo, noutra dimensão. Numa outra qualquer coisa para a qual ainda não foi encontrada definição. Por isso não importa o que é que acontece aqui porque lá vai acontecer a alternativa. E nós somos sempre nós. Mas nós-outros com outras escolhas.
O que se passa é o seguinte: houve uma época em que queríamos duzentas gramas de fiambre em fatias fininhas e o supermercado colocava à nossa disposição embalagens de esferovite, envolvidas em plástico, com duzentas gramas de fiambre da pá previamente cortadas, mas cortadas em fatias muito grossas, tão grossas que nem pareciam fatias de fiambre mas bifes do cachaço. Então, íamos à senhoras da secção de charcutaria do supermercado para cortar duzentas gramas de fiambre da pá fininhas, daquelas que quase se desfazem mas que, para quem gosta de fiambre, consegue perceber que três ou quatro fatias muito fininhas num papo-seco, é muito diferente de ter uma só fatia muito grossa, e as senhoras diziam que não podia ser. Que tinham ordens. Que não se podia cortar como queríamos porque o fiambre esfarelava-se todo e estragava-se. E as ordens era para não fazerem as vontades às pessoas. Que tinham de se habituar a que quem mandava na tenda era o tendeiro, ou seja, eles, aqueles que nunca estão presentes atrás de um balcão nem do outro lado de uma linha de telefone para fazermos uma reclamação. Merdas do capitalismo. As caras estão sempre escondidas atrás de números. Mas as pessoas tanto refilaram, tanto contestaram, que os supermercados voltaram a permitir que as pessoas dissessem como queriam ver cortadas as fatias do fiambre da pá, mesmo se na vitrina do frio houvesse pilhas várias de vários tipos de fiambre, da perna, da pá, de peru, tipo York, em vários tamanhos, mas todos os tamanhos em grosso.
Ora, para que se perceba a questão da realidade multiplicada infinitamente no mesmo plano de existência, as fatias têm de ser finíssimas, e não grossas, para que percebamos o funcionamento deste conjunto de vários universos. O capitalismo queria, assim, esconder da população geral o facto de vivermos num multi-universo que se multiplica constante e infinitamente.
Vejamos, um papo-seco fresco, comprado na padaria com fabrico próprio de forno a lenha (esta padaria também faz pizzas no forno a lenha e são muito boas, posso passar o número de telefone). Com uma faca de serrilha abrimos o pão ao meio e colocamo-lo em cima de uma tábua para não deixarmos cair migalhas para o chão. Agora vamos fazer um sandes de fiambre. E para simplificar, não vamos barrar manteiga na metade de baixo do papo-seco. Cada vez que fazemos uma escolha, cortamos uma fatia de fiambre. Por exemplo, uma mulher bonita, sensual, pergunta-me se eu quero ir para a cama com ela. A minha resposta imediata é sim. Mas a hipótese negativa não é descartada. O que é que acontece? Corto uma fatia de fiambre e cria-se um novo universo onde eu escolhi não ir para a cama com essa mulher (como se tal fosse possível, mas é, é sempre possível porque todas as escolhas que fazemos abrem caminho às outras opções descartadas por nós aqui, mas aceites por nós mesmos, mas outros, nos outros universos alternativos.
Outro exemplo, preciso de ir de Leiria a Lisboa para tratar de assuntos. Não importa que assuntos. É só a abertura de uma hipótese para explicar a acção. Escolho ir de carro. Mas corto uma fatia de fiambre com a possibilidade de ir de camioneta. Corto outra fatia com a possibilidade de ir de comboio. Mais outra fatia pela possibilidade de ir de motorizada. Ou de bicicleta. Ou até de skate. Ou ainda a pé. Bom, mas aqui também estava dependente do tempo que tinha disponível para chegar a Lisboa. Se tivesse que chegar em poucas horas, teria de deixar de lado as hipóteses de ir a pé, de skate, de bicicleta e até de comboio porque a Linha do Oeste demora cinco horas a ir de Leiria a Lisboa. Ao mesmo tempo, ao optar por ir de carro, escolhia ir pela A1. Mas abria outro universo para ir pela A8 e ainda outro para ir pela EN1. Só aqui, nesta escolha para ir de Leiria a Lisboa, tinha cortado oito fatias de fiambre. Oito novos universos onde as minhas escolhas iriam influenciar o caminho desses mesmos universos. Agora, comer um papo-seco de fiambre com oito fatias fininhas é muito melhor que comer um papo-seco com oito fatias grossas.
E estas são só as minhas escolhas num acontecimento único. Quantos universos alternativos existirão com todas as minhas escolhas e as escolhas dos biliões de pessoas que existem neste universo? Quantos papo-secos de fiambre é que dará? Quantos universos é que, afinal, existirão no multiverso? É um número infinito. E o infinito não é contabilizado porque não existe. E, no entanto, existe. Existe para além da nossa imaginação.
É por isso que não importa as escolhas que fazemos aqui, aqui neste universo. Estamos sempre a viver outras escolhas noutros universos iguais a este, mas diferentes. E nós somos nós, mas outros. Por isso, escolher uma coisa ou outra, todas elas acabam por ter existência.
E foi aqui que ela se levantou e foi embora.
Mais uma vez acabei a noite sozinho. Acabei com o copo de vinho que tinha na mão e saí do bar. Na rua acendi um cigarro. Olhei para a lua que estava pendurada lá em cima no firmamento e perguntei E eu? Qual dos eus é que eu sou? Eu sou o mais parvo, não é? e começou a chover. A chuva acabou-me com o cigarro. Encharcou-me. Cheguei a casa, despi-me, sequei-me com o secador e a toalha de banho e fui deitar-me. Sozinho. Mas ainda tive tempo para pensar que, algures, num outro universo deste enorme multiverso, eu estava a dormir com uma mulher lindíssima que me amava. E adormeci com um sorriso nos lábios. Pelo menos foi assim que imaginei enquanto comia, ao pequeno-almoço, um papo-seco com fiambre em fatias cortadas muito fininhas.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/19]

Bronquite

Tenho tido bronquite durante toda a minha vida. Acho que já devo ter nascido assim, com ela. Não sei se tal é possível. Talvez seja. A primeira vez que a História me documenta um ataque de bronquite eu teria duas semanas de vida e tive de ir para Coimbra, de ambulância, fazer qualquer coisa que não podia ser feita aqui, em Leiria. Quem fez o registo para os anais, foi a minha mãe, que me dava colo, mama, me mudava a fralda e foi comigo para Coimbra, a lutar para que não morresse o filho que tinha acabado de parir há não muito tempo.
Sobrevivi. E é o que tenho feito toda a vida.
Passei a minha infância a sentir os pulmões fecharem-se à entrada de ar. Mas caguei neles. Sempre que possível. Não me deixei domar pela tristeza de uma maleita incapacitante. Joguei à bola debaixo de chuva com os outros miúdos. Fartei-me de correr e transpirar, a fugir do dono do pomar onde íamos, eu e os outros, roubar laranjas e nêsperas e maçãs, fruta que nos garantia roubo ao longo do ano, e depois íamos comê-las assim, sujas, à dentada, ofegantes, esfomeados, mas contentes com o fruto de um trabalho doido.
Às vezes, quando sentia muita falta de ar, parecia que estava a entrar num outro universo. A visão afunilava. A audição refinava, talvez para escutar acima, ou abaixo, daquela pieira maldita. Os olhos para o chão. O corpo mirrava e eu parecia fugir do mundo, deste mundo.
Às vezes tinha de dobrar o corpo, pernas direitas, cabeça para baixo, mãos presas na cintura, na presilha das calças, para tentar recuperar o ritmo certo da respiração. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Como se estivesse a aprender. Outra vez. De novo. Tudo de novo.
Fugir de gatos. Fugir de pássaros. Fugir dos ácaros. Fugir do pó da casa. E a minha mãe a arrancar a alcatifa bordeaux, muito anos setenta, que forrava a casa e acumulava horas, dias, semanas, meses de bronquite.
Aquilo não era bem uma doença. Não me doía nada. Não dava nada jeito ficar na cama. Não podia faltar às aulas, Para ficar a fazer o quê?, não me perguntava na altura porque não era preciso, estava subentendido, mas pergunto agora porque fica melhor neste texto onde tento perceber se, ao não ser bem uma doença, é o quê? uma frivolidade? ficar sem ar, sem conseguir respirar, uma paneleirice, com certeza.
Depois apareceu o Ventilan. Acabavam-se as mezinhas que a minha mãe fazia. As papas quentes no peito. O iodo da praia. As vacas. As termas. Os banhos de água fria. De água quente. Os jactos de mangueira. Os vapores. Os vapores caseiros de folhas de eucalipto numa panela com água a ferver.
Matei um problema e criei outro.
O stress de esquecer a bomba. A ansiedade de não ter o Ventilan comigo. Mesmo quando estava bem. Quando respirava como as pessoas normais respiram. E como respiram as pessoas normais? Eu nunca fui uma pessoa normal. Não sei como é que respiram as pessoas normais. Não sei como é nunca ter medo de não conseguir respirar. Saía de casa com o Ventilan no bolso das calças como se fosse uma pila gigantesca, que se alongava braguilha fora. Se não o levasse…
Isto tudo depois de me terem garantido a mim, ao meu pai, à minha mãe, às minhas duas avós, ao cão e ao gato que tive de certeza, que sempre os houve nas casas dos meus pais mesmo que eu não me lembre, que com a idade iria passar. A adolescência iria matar a bronquite. Poderia ser jogador de futebol e ser o Cristiano Ronaldo antes do Cristiano Ronaldo ser o que é porque esta minha incapacidade respiratória morreria antes de eu poder ser um herói do futebol e, no entanto, tanta ciência, tanta tecnologia, conhecimento, liberalismo, progresso, idas à Lua e a Marte, e um sonho que não tive morreu porque, afinal, nada do previsto aconteceu. Claro que joguei à bola. Com a Malta da Rua, na Escola, a fugir ao meu pai que não queria que eu jogasse à bola à chuva, e depois tinha de fugir, outra vez, para escapar à mão pesada que, invariavelmente, iria bater, violenta e dura, no meu rabo.
Não passou, a bronquite. Os anos não mataram a minha bronquite. Mas eu fodi-a. Fumei todos os anos ao longo dos anos. A bronquite não levaria a melhor. E nunca levou. Um cigarro nos dedos, na boca, um cigarro aceso entre os dedos da mão em conversas, nos bares, nas ruas, em casa, na cama, no sofá, na banheira de óculos escuros a ler O Jardim de Cimento de Ian McEwan, na companhia do vinho, da cerveja, do gin, do vodka, do whiskey. Sozinho, tantas vezes sozinho, à janela, à varanda, à entrada do prédio, debaixo do beiral, encostado a uma montra, dentro do carro, em cima da bicicleta, depois de comer, depois de foder, depois de correr e de uma partida de futebol no campo de terra batida do colégio das freiras para onde íamos jogar depois de subir e saltar as grades que eram suposto manter-nos do lado de fora. Fumar. Fumar desde os quinze anos. Diariamente. Não me matas, bronquite. Matar-me-ei eu primeiro.
Mudei várias vezes de medicação tentando acabar com o Ventilan. Tomei medicamentos cujos nomes fui perdendo com o tempo. Uns duraram pouco. Outros duraram um pouco mais. Mas quase todos se revelavam frágeis ao fim de algum tempo em convivência comigo. Sim, eu não sou fácil. Para uns sou uma aventura, para outros um tédio, para a maior parte uma chatice que se quer esquecer.
Agora estacionei no Xoterna. Tem um nome merdoso mas é o medicamento que mais resultado parece ter sobre esta minha incapacidade de respirar como as pessoas normais. Mas o Ventilan anda sempre por cá. Escondido. Já não anda no bolso das calças porque já não preciso dele com urgência. Já não stresso à sua ausência. Mas é sempre bom saber que ele existe. E está na mesa-de-cabeceira. No porta-luvas. Na mochila. E o mais tranquilizador é saber que o posso comprar em qualquer farmácia pela módica quantia de dois euros e tal. O Xoterna, sem receita, custa cinquenta euros. Ter bronquite é uma cena de ricos.
A Primavera é terrível por causa dos pólenes. O Outono é terrível por causa da queda das folhas e dos pós que levanta. O Verão é terrível por causa do excesso de calor. O Inverno é terrível por causa da humidade e do frio. Tudo é terrível e qualquer coisa é motivo para os alvéolos se fecharem, os pulmões mirrarem e me faltar o ar. Mas sobrevivo. Tenho sobrevivido sempre. Com um copo de vinho tinto alentejano numa mão e um cigarro aceso na outra. Fode-te!, bronquite.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/24]

Perdi a Mochila que Levava às Costas

Atravessava a cidade quando ouvi o primeiro trovão. Fui apanhado desprevenido. Eu e todas as outras pessoas que de deslocavam na baixa da cidade em final de dia cheio de um calor tórrido e sufocante. Estava de calções e chinelos. Uma pequena mochila às costas, com o iPad, a Moleskine, a Kaweco, o Ventilan, as chaves de casa, um pacote de lenços de papel, um canivete-suíço e o livro que andava a ler. Já não sei qual era o livro porque, quando tudo se precipitou, perdi a mochila com tudo o que lá estava dentro.
Quando rebentou o primeiro trovão, toda a gente se assustou. Foi um grande estrondo. E apanhou toda a gente de surpresa. As pessoas pararam a olhar para o céu, a tentar perceber o que estava a acontecer. E foi por pararem a olhar para o céu, que toda a gente viu, e eu também, os relâmpagos que se precipitaram sobre a terra, vindos de um céu que escurecera tão rápido que nem tivemos tempo de processar o que estava acontecer. Eu vi os relâmpagos a riscar o céu. E achei lindo. Fantásticas obras de arte. Uns riscos tortos, descendentes, luminosos, decididos e assustadores. Parecia que cortavam o céu, de cima abaixo. Como se criassem portais para outra dimensão, outro universo. E caíram assim vários relâmpagos antes ainda de se ouvir o primeiro som. E quando começou a ribombar, parecia um concerto celestial diabólico que se abatia sobre a terra, sobre a cidade, sobre mim. Uma percussão em ritmo cadente. Com os baixos a acompanhar.
Começou a chover. Uma chuva copiosa, de gotas grossas que magoavam quando me caíam na cabeça.
Olhei em volta. Desatei a correr até uma esplanada coberta do outro lado do rio. Cruzei a ponte. Olhei, pelo canto do olho, enquanto corria, a água do rio agitada, sovada por milhares de pingos agressivos que faziam subir estilhaços de água até à plataforma da ponte. Entrei dentro da esplanada coberta. O barulho era ensurdecedor. Os pingos da chuva caíam na cobertura da esplanada, que não sei de que era feita, e eram amplificados a ponto de não me conseguir ouvir a pensar.
Sentei-me, molhado, a uma mesa. Sacudi-me. Esperei que me perguntassem o que queria. Nem sabia o que queria. Mas ninguém veio ter comigo. Os empregados do café estavam todos a olhar a chuva a cair e ignoraram os clientes acabados de entrar, clientes assim como eu, fruto do acaso, clientes que se refugiaram ali da chuva e dos relâmpagos, mas que não deixavam de ser clientes. Eu queria qualquer coisa. Um chá, um café, uma cerveja, um bagaço. O que quer que fosse que saísse primeiro da boca no momento de fazer o pedido.
E foi então que um raio caiu no prédio em frente à esplanada. O prédio rebentou como se tivesse sido bombardeado e a deslocação de ar fez rebentar as janelas da esplanada e soprou toda a gente para o fundo do café.
O prédio em frente começou a arder. O café também. Houve máquinas a rebentar. O ar condicionado explodiu. Eu levantei-me. Corri para a rua. Estava a chover torrencialmente. Mas corri feito louco. Descobri que tinha perdido os chinelos e corria descalço. Cruzei de novo a ponte. Nem olhei para a água. Procurei a entrada de um prédio aberta. Não via nenhuma. As lojas estavam fechadas. Outras rebentadas. Os vidros partidos. Havia gente a roubar embalagens, camisas, calças de ganga, t-shirts, cintos dos prontos-a-vestir de montras escancaradas. E vi uma entrada de Multibanco com gente lá dentro. Corri para lá. Abriram-me a porta. Entrei.
Percebi que estava cansado. Com bronquite. Encharcado. Descalço. Com os braços cheios de sangue. Os pés pretos, sujos. Tinha perdido a minha pequena mochila.
Encostei-me a um bocado de parede livre e deixei-me escorregar para o chão. Sentei-me. Lá fora continuava a chover torrencialmente. Continuavam a cair relâmpagos que estavam a deixar a cidade a ferro e fogo. Os trovões não se calavam. E eu não sabia se ali estaríamos em segurança. Mas estava cansado. E senti-me a adormecer.
Sinto-me a adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/12]