Más Memórias de Coimbra

Ir a Coimbra traz-me sempre más memórias.
Nos meus últimos anos, Coimbra tem sido os Covões e o IPO. Com passagens rápidas pelo Fórum para comer junk food.
Nem sempre foi assim. Coimbra já me foi a cena da música, dos festivais de Música Moderna, do States, dos É Mas Foice e dos Tédio Boys. Também já foi do teatro. E dos Caminhos do Cinema Português. Coimbra já me foram as madrugadas a vomitar pelo Quebra Costas e os pequenos-almoços em tascas com história depois de noites loucas no Via Latina. O que Coimbra nunca foi, para mim, foi a cidade dos estudantes e a universidade, se bem que até tenha por lá passado durante uma queima-das-fitas e tenha andado ao murro com uns gajos do rugby por causa de uma gaja.
Esse tempo já lá vai. Envelheci. Deixei de andar ao murro e aprendi a nunca mais me meter com os tipos do rugby. Deixei de ir a discotecas e bares e deixei de vomitar pelas sarjetas nas ruas da cidade. E acho que Coimbra acompanhou este meu envelhecimento. Esta outra Coimbra, pelo menos. A dos médicos e enfermeiras e medicamentos e consultas.
Nestes últimos anos tenho andado a pagar a factura dos anos de irreverência juvenil. Sinto-lhes a culpa.
Começou com os Covões. Ultimamente é o IPO.
Tudo isto seria suportável. O difícil é cá vir. Sair de casa. Sair de casa de manhã, num dia de chuva como o de hoje, fazer a auto-estrada atrás de um camião que mija de chuveiro para cima do pára-brisas. Parar na estação de serviço de Pombal para beber um café queimado e fumar um cigarro, à pressa, como um agarrado necessitado da próxima dose de nicotina, e que me deixa enjoado. Apanhar a hora de ponta de entrada na cidade. Arranjar um lugar, só um!, lugar vago para o carro enquanto vou ao IPO. Procuro em ruas cada vez mais distantes do portão de entrada. Às vezes penso estacionar o carro em Leiria e apanhar o expresso. E depois são as horas de espera em salas fechadas, de janelas seladas, sem ar-condicionado, na companhia de gente tão mais triste que eu. Ouço-lhes as tosses e as respirações pesadas. Vejo-lhes os cabelos rapados. E o cheiro? O cheiro a humidade, mistura de perfumes baratos e transpiração. Em dias como o de hoje é difícil fugir ao cheiro a mofo. No Verão é o chulé de pés enfiados em sandálias de plástico compradas numa loja do chinês onde a grande maioria das pessoas ainda têm carteira. E sempre, sempre, o cheiro a mijo.
Aguardo. Aguardo sentado em cadeiras rijas, impróprias para quem está com problemas de saúde, ao lado de gente a sofrer mais que eu, em frente de gente que tosse e espirra para cima de mim. Estamos todos juntinhos, colados uns aos outros, transpiração colada a transpiração. Quase que ouvimos os pensamentos uns dos outros. As esperanças frustradas. Os futuros hipotecados. A morte no horizonte. A desgraça. A puta da desgraça. A puta da desgraça do outro que é sempre pior que a minha.
Acabo sempre por pensar que, no meio de tudo aquilo, sou um sortudo. Não sou dos piores. Eu ainda tenho futuro. Um futuro de merda quando olho para a conta bancária. Mas um futuro, mesmo assim.
Passam minutos. Que se tornam horas. O rabo fica dormente naquelas cadeiras rijas. Já me coço todo. A cabeça. Os tornozelos. Já não sei como estar. Levo um livro que não leio. O telemóvel que não apanha Wi-Fi. Levanto-me. Dou o lugar porque já não consigo mais estar sentado.
E finalmente lá vou eu. Entro e saio. Temos de controlar, ouço. Tomar atenção, ouço de novo. Olha para uns exames. Analisa. Decifra. Eu não percebo nada do que vejo, do que ele vê. Ouço o que diz e esqueço. Há quem queira saber tudo. Ouça tudo. Tente decifrar. Procurar na net. Eu não. Eu não quero saber. A minha ignorância mata o mal e livra-me da ansiedade. Não quero saber. A minha morte será inesperada. Pelo menos, para mim.
Saio para a rua. Continua a chover. Mas sabe-me bem as gotas de chuva na cara. Sentir aquele frio sobre mim. A água que escorre pelo pescoço abaixo. Vou para o carro com o guarda-chuva fechado. Caminho à chuva. E sinto-me recuperar.
Antes de por o carro a trabalhar penso que é melhor ir comer qualquer coisa antes de ir embora.
É então que vou ao Fórum. Mais uma vez vou comer ao Fórum. Penso que no meio de tanta oferta gastronómica, poderei escolher qualquer coisa de diferente. E acabo, invariavelmente, de cada vez e todas as vezes, a optar por um McRoyal Cheese. Coca-Cola. Batatas fritas. Sozinho numa mesa solitária. Afastado de toda a gente. Grupos de miúdos da escola à galhofa. Rapariguinhas do shopping a contar segredos umas às outras. E eu ali, num canto, solitário, com um hambúrguer na mão, a pensar… Não, não estou a pensar. Naquela altura não estou a pensar em nada. Deixo-me estar em silêncio a enfiar o hambúrguer pelas goelas e a despejar a cola para desembuchar. E vejo a vida dos outros. Se eles soubessem!…
Depois pego na minha solidão e levo-a de novo para casa. Mas volto atrás. Pego no tabuleiro e liberto a mesa.
Faço o caminho de regresso à chuva, outra vez, com a rádio ligada e as notícias do dia em loop. Mas esqueço-me que vou na estrada. Na auto-estrada. A cabeça voa. Vai não sei onde. Perco-me a mim e a ela. Quando desperto, estou parado à porta de casa.
E antes de sair abano a cabeça e tento esquecer Coimbra. Coimbra traz-me más memórias.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/21]

Uma Vida Arrumada em Caixotes

Tenho a vida toda arrumada em caixotes. Em caixotes grandes e em caixotes pequenos. Cada memória tem o seu caixote. Tenho os caixotes numerados. Identificados. E depois arrumo-os todos na despensa, no roupeiro do corredor, por cima do guarda-fatos do quarto. Quando tenho necessidades, vou à procura dos caixotes. Há sempre um caixote para mim. Para aquele momento. Para aquele momento específico. Normalmente esta necessidade acontece-me quando estou bêbado, deprimido ou demasiado só. Mas às vezes é só mesmo saudades do passado.
Hoje abri um caixote. Um caixote à sorte. Um caixote que não me lembrava que tinha. E quando o abri, libertei uma série de fantasmas que contribuíram para ter chegado aqui, coxo, onde cheguei. Mas o mais importante foi mesmo a memória desses fantasmas. Não sabia que eles existiam. Que ainda os tinha. Descobri um caixote com bilhetes dos concertos da minha juventude. Bilhetes de uma época em que a bilhética era também uma forma de arte. Os bilhetes eram personalizados. Remetiam para épocas e para as tournées que as bandas estavam a produzir ou para os álbuns que andavam a promover. Descobri, com alguma surpresa, como a parte de trás dos bilhetes era um mundo cheio de informação numa altura em que ainda não havia Google, a internet ainda era um bicho de sete cabeças e eram ainda poucas as pessoas que tinham computador e sabiam o que era o Windows.
Coloquei o primeiro disco das 69 Love Songs dos Magnetic Fields, em época de vinte anos de aniversário, na alta-fidelidade. Abri a janela. Sentei-me no chão da sala. O caixote aberto. Acendi um cigarro. Meti a mão. E trouxe um monte de bilhetes.
Os meus olhos brilharam. Vários bilhetes dos Mão Morta. Naked City. Miles Davis. Vários do Nick Cave. Pogues. Lords of the New Church. R.E.M. Sundays. Durutti Column. Varios dos Metallica. Até Manowar e outras coisas assim, mais bizarras.
À medida que ia passando os bilhetes, ia-me lembrando de pequenas histórias que os acompanhavam. Coisas que me aconteceram. Pequenas estórias que vivi. Desatinos com amigos. Nascimento de amizades. Morte de outras. E o sexo! A quantidade de sexo que os concertos traziam. O que é feito desta minha vida?
Lanço a beata para a rua através da janela aberta.
Fecho os olhos.
Volto atrás no tempo. Regresso aos meus vinte anos. Que se foda o futuro. Este futuro. O meu futuro. Quem quer saber deste futuro de merda com um passado tão cheio? Volto à escola. Não, não à escola. À universidade. Ao Bairro Alto dos anos ‘80. Ao Cais do Sodré das putas e dos marinheiros. A uma Lisboa que me fascinava. Uma Lisboa provinciana, feia, malcheirosa, de prédios abandonados e a cair, mas cheia de vida e de gente com vida. Uma Lisboa de padarias abertas às cinco da manhã. Uma Lisboa de arrufadas e sardinhas assadas. De gente que falava alto e mijava nos cantos da cidade. Dos charros fumados às escondidas e dos selos passados de língua em língua. De namorados a correr de mãos dadas pelas ruas esconsas e de asfalto esburacado.
Volto atrás no tempo e não quero regressar mais. Fecho-me no caixote com os meus bilhetes e as minhas estórias. Que se foda o futuro que não é meu. Que se foda esta Lisboa impessoal, fria e gananciosa. Eu quero o meu mundo de paixões.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/10]

Eu Também Sou uma Vítima

Os meus anos de liceu foram complicados.
Era um miúdo enfezado. Aluno mediano. Algumas borbulhas. Vestia a roupa que a minha mãe escolhia. Tinha poucos amigos. Ou nenhum. As miúdas não me viam e era sempre dos últimos a ser escolhido para as equipas de desporto. Mesmo nos trabalhos de grupo era sempre dos últimos a ser escolhido. E até era mais ou menos aplicado. Mas os outros miúdos tinham tendência a não me ver ou a esquecer-me. Quase sempre ignorado. Era raro ser convidado para as festas de aniversário dos outros. Mesmo na rua as coisas também não eram muito melhor. Na rua tinha um grande amigo. O único. E passava os dias de férias sempre em casa dele.
Eu nasci já os meus pais eram velhotes. Pareciam meus avós. Fui uma espécie de restolho. O último de três irmãos. O mais fraquito. Problemas respiratórios. Músculos atrofiados. Pés chatos. Vista curta, o que me levou a usar óculos desde sempre. Na escola não gostava de ginástica. Mas a ginástica também não gostava de mim. E os meus colegas evitavam ter-me na equipa. Não conseguia dar um chuto na bola. Não tinha força para levantar uma bola ao cesto. Uma nulidade no vólei. E, no andebol, não conseguia agarrar a bola que me passavam sem a deixar cair. Normalmente punham-me à baliza. Pior o soneto. Eu tinha medo das bolas. Das bolas lançadas com força pelos adversários. Fosse com os pés ou com as mãos. Virava as costas aos remates e, com sorte, a bola batia-me no corpo. Nódoa negra na certa.
Não era mau aluno, mas também não era um grande aluno. Era um aluno mediano. Mas era um aluno mediano para não dar nas vistas. Às vezes dava respostas erradas, mesmo sabendo as respostas certas, para que não achassem que eu era marrão. É que não era marrão, mesmo. Sabia as coisas com uma certa naturalidade. Mas isso ia levar-me para as luzes da ribalta e eu não gostava de ser o centro das atenções. Se fosse bom aluno tinha os maus alunos a pedirem para copiar por mim, para lhes fazer os trabalhos, para lhes explicar as coisas. E eu preferia não dar nas vistas. Durante todo o liceu esforcei-me por ser um aluno mediano. Dá trabalho ter que não ser bom.
Fisicamente era muito enfezadito. Pernas magrinhas. Sem músculos. Quase só pele e osso. Sem rabo. A pilinha pequenina e, até muito tarde, sem pêlos. Como a minha mãe dizia, um pau de virar tripas. Tive sempre muitas borbulhas. Mas como a barba também apareceu muito tarde, nunca tive muitos problemas por escavacar a cara borbulhosa. Simplesmente não precisava de fazer a barba. Mas isso também não me granjeou grande sucesso com as miúdas. Não tive nenhuma namorada durante os anos de liceu. Talvez fossem as borbulhas. Talvez fosse a minha inépcia para exercícios físicos. Talvez fosse não ter lábia para nada nem ninguém. O facto de vestir a roupa que a minha mãe me escolhia também não abonava muito em meu favor. Eu era um menino. Chegava a Primavera e a minha mãe insistia nos calções, meias de renda pelos joelhos e sapatinho de verniz. Claro que isto foi em criança. Mais velho ainda lutei pelas calças de ganga. E as sapatilhas. As sapatilhas foi mais fácil. Toda a gente usava Sanjo. A minha mãe também as comprou. Eram baratas. As calças de ganga foi mais complicado. Nunca consegui explicar porque é que as Lois eram as calças mais fixes. Tinha de me contentar com sucedâneos da feira de Sábado, como as Gois, as Loise e as Louise.
Durante os anos de liceu nunca fui dormir a casa de nenhum amigo. Nenhum amigo meu, dos poucos que ainda consegui ter, veio dormir a minha casa. Nem o meu melhor amigo lá da rua. Contam-se pelos dedos de uma mão às vezes que fui a festas de aniversário sem ser às da Malta da Rua. Dançar, só dançava em casa, frente ao espelho do guarda-fatos dos meus pais, quando eles não estavam em casa.
Foi só quando fui para a universidade que tive a minha primeira namorada. Namorada?! Uma miúda com quem tive umas experiências sexuais. Que não correram lá grande merda. Foi também com ela que tive as minhas primeiras experiências com drogas.
Aliás, para mim, o sexo e a droga andam juntos, percebes? Um traz o outro. É por isso que cheirei este frasquinho. Conheces? Queres cheirar? Vá lá! Só um cheirinho. Não? Pronto, está bem. Mas ia ajudar-te, sabes? Quando eu te espetar a faca. Porque eu vou espetar-te a faca. Tenho de te espetar a faca. Preciso de espetar-te a faca.
A culpa não é minha, percebes? Eu também sou uma vítima. A culpa não é minha. Eu tenho mesmo de te fazer o que te vou fazer. Não chores, vá lá. Não adianta. Eu tenho mesmo de te espetar a faca. Sabes, a culpa é da minha mãe. Não consigo deixar de pensar naqueles sapatinhos de verniz com uma fivela prateada. Tive de os levar para a escola várias vezes. Sabes que eu sou uma vítima, também. A culpa não é minha. Mas tenho de te espetar a faca.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/20]

Às Vezes Penso em C.

Às vezes ainda penso em C. Em como foi a minha vida e como poderia ter sido.
C. foi a minha primeira namorada. A primeira namorada a sério. A namorada com quem passeava de mãos dadas. A quem dava um beijo de língua logo de manhã, quando nos encontrávamos na escola, mesmo em dias em que me tinha esquecido de lavar os dentes e ela sem se queixar. Foi a namorada com quem tive as primeiras relações sexuais de uma forma mais ou menos constante. Foi também com ela que apanhei os primeiros sustos do atraso do período. Mas nunca chegou a não vir.
Durante os anos em que namorámos fomos inseparáveis. Éramos amigos. Talvez os melhores amigos um do outro. Gostávamos das mesmas coisas. Sem obrigação. É que acabámos por ir adquirindo os mesmo gostos. Líamos os mesmos livros. Ouvíamos os mesmos discos. Íamos juntos ao cinema. Ainda não havia pipocas nem tinha chegado o VLC. Íamos juntos a concertos. Os poucos que existiam. Ainda não havia festivais de Verão. O Vilar de Mouros passou sem darmos por isso e o Artlântico acabou por nos deixar em Lisboa sem sabermos o que fazer na ausência de um festival que acabou por não acontecer. Gostávamos de exposições. Fumámos as mesmas marcas de cigarros. Foram várias ao longo dos anos. Quando nos separámos eu fugi para o CT. Ela deixou de fumar. Bebíamos em conjunto. Eu mais que ela. Eu embebedava-me. Ela aturava-me a bebedeira e os vomitados. Eu era do Benfica. Ela do Sporting. Mas não ligava muito. Ela era de direita. Eu também, mas refilava muito. Ela era mais conciliadora.
Tudo começou por nos detestarmos. Éramos da mesma turma no secundário. Ela era uma miúda de nariz arrebitado e pêlo na venta. Eu era um gajo teimoso e com a mania que sabia sempre tudo. Tivemos muitas discussões nas aulas. Discussões sobre a matéria. Sobre os pontos de vista. A última discussão que tivemos, antes de anos e anos de mãos transpiradas juntas a percorrer as ruas da cidade, terminou com eu a dar-lhe um beijo nos lábios, provocador, e ela, primeiro a ficar corada, depois envergonhada, acabou por sair da sala de aula a correr e a deixar a discussão sem final. A professora deu-me um pequeno ralhete. Que me entrou por um lado e saiu pelo outro.
Fui à procura de C. pela escola. Quando a encontrei foi porque ela veio ter comigo. Eu estava a rir, gozão. Ele chegou ao pé de mim e mandou-me um estalo. Um estalo valente. Sonoro. Fiquei com os dedos dela marcados na cara. Ainda não tinha barba para disfarçar. Mas depois de me dar o estalo, abraçou-me e beijou-me. Beijei-a. Beijámos-nos. Depois perguntei-lhe Queres namorar comigo? e ela disse Sim! Foi a primeira e última vez que pedi namoro a alguém, assim mesmo, com as letras todas. E ela disse sim. E lembro-me de ficar de sorriso enorme, de orelha a orelha, e nunca mais tive um sorriso desses.
Nesse dia, nos final das aulas, fomos lanchar juntos. Foi o primeiro de muitos lanches que partilhámos durante os anos seguintes.
Foi quando fomos para a Universidade que a nossa relação terminou. Fomos para a mesma cidade grande. Mas fomos para Faculdades diferentes. Cursar cursos diferentes. Viver em zonas diferentes da cidade. Fomos com expectativas diferentes. Começámos a ser diferentes. A desejar coisas diferentes. A fazer coisas diferentes. A crescer de forma diferente. Ela a crescer. Eu a manter a adolescência. E quando demos por nós já não éramos nós. Eu já era outro. Ela também. Acabámos por morrer. E renascemos diferentes. Eu e ela. E já não éramos nós.
Depois disso nunca mais a vi.
Soube, há uns anos, que tinha casado. Tinha duas filhas.
Às vezes penso nela. Penso nela como parte de uma época da minha vida em que também penso bastante. E agora, mais velho, é com maior regularidade que regresso lá atrás. E também com muita saudade.
Às vezes pergunto como seria a minha vida se tivesse continuado a namorar com C.
Às vezes sinto uma certa emoção quando penso nessa época e em C.
Às vezes penso se eu ainda seria eu e que versão de mim seria. E se seria melhor ou pior. Diferente, com certeza.
Às vezes gostava de poder voltar atrás no tempo e poder voltar ao mesmo momento. Àquele momento. Não sei qual seria a minha escolha. Mas gostava de poder voltar a escolher. Só para ver. Só para lembrar como é que era. E como é que sou.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/17]

A Estudante

Tive de abandonar o meu quarto. Assim. De um momento para o outro. Nem pude ir buscar algumas das minhas coisas. As mais necessárias. As mais úteis.
Estava a viver num quarto. Em Coimbra. Perto da universidade.
Estava. Já não estou.
Alguns problemas anteciparam-se. Perdi o quarto. Quando estava para lá ir, para ir buscar algumas coisas, já lá estava a polícia. Foi por um momento. Por um breve momento. Por um triz.
E, então? O que fazer?
Havia um concerto no Gil Vicente. Pensei em passar por lá. Talvez arranjasse qualquer coisa. Talvez arranjasse alguém. Talvez um desenrasque.
Tinha fome. Pensei em passar no Mac primeiro. Havia sempre restos de hambúrgueres nas bandejas. Batatas fritas, não. Comem-nas todas, os cabrões.
E foi então que a vi. Conhecia-a. Sim, conhecia-a. Do Piolho. Era uma gaja de uma das repúblicas. Já nos tínhamos engalfinhado, em tempos. Na casa-de-banho do Piolho. Podia ser uma solução. As repúblicas eram sempre uma confusão de gente. A entrar. A sair. Os comensais. Os namorados. As namoradas. Os amigos. Os dealers. Gente. Sempre muita gente.
Seria fácil entrar. E foi.
Segui-a. Estava gente à entrada. Deixei-me estar por lá. Cravei um cigarro. Fumei-o. Andei ali de grupo em grupo. Entrei em casa. Fui ao frigorífico. Agarrei numa cerveja. Subi as escadas. As portas dos quartos fechadas. Circulei. Fui à janela. Olhei para baixo. Para a entrada. Fiz-me sentir à vontade. Fiz-me sentir em casa. Se me sentisse em casa, viam-me como alguém de lá. Circulei a bebericar a cerveja. E vi-a sair de um quarto. Do quarto dela. Foi para a casa-de-banho. Ia enrolada numa toalha. A porta fechada mas não trancada. Entrei. Parei com a porta fechada nas minhas costas. Olhei para tudo. Vi tudo. Estudei tudo. Vi uma carteira. Abri-a. Duas notas de vinte euros. Guardei-as. Na secretária um maço de cigarros. Agarrei nele. Mas não tinha cigarros. Tinha charros. Já prontos a fumar. Só acender o isqueiro. Sorri. Sou um filho-da-puta com muita sorte.
Abri a porta do armário. Era grande. Quase um mini-quarto. Ela tinha uns casacos bonitos. Experimentei um. Ficava-me bem. Ouvi barulho. Tirei o casaco. Entrei dentro do armário. Fui até ao fundo. Sentei-me a um canto. Entre toalhas e umas almofadas.
Ouvi-a entrar no quarto. Deitou-se na cama. Ficou em silêncio. Eu ouvia o meu coração a bater. Alto. Rápido. Tomei atenção aos barulhos para ver se ela saía. Nada. Depois senti uns movimentos. Atrito. Movimentos muito suaves. Quase imperceptíveis. Não conseguia perceber o que era. Mas era alguma coisa. Ouvia cada vez mais alto. Mais sonoro. Mas sem conseguir identificar. Até que percebi a respiração ofegante. A língua a estalar na boca seca. Os pequenos gritinhos abafados. Os gemidos. Ela estava a masturbar-se. Cheguei-me à frente, no armário. Tentei espreitar. Mas estava tudo fechado. Não podia correr o risco de abrir a porta e fazer barulho. Encostei o ouvido. Deixei-me absorver todo o percurso que ela fazia com a mão. Com os dedos. Acompanhei-a. Em silêncio. Até que ela chegou. Um grito estrangulado na garganta. A satisfação. Voltou o silêncio. Depois um isqueiro. Estava a fumar um cigarro. Senti o cheiro.
Alguém entrou no quarto. Disse qualquer coisa. Não percebi. Senti-a levantar-se. Percorrer o quarto. Abriu o armário. Deixei-me ficar quietinho. Ao fundo. Ao fundo do armário. No meio das almofadas. E das toalhas. Escolheu roupa. Vestiu-se. Ouvi a porta do quarto a bater. Deixei sair a minha respiração. Descontraí. E pensei. Saio? Fico?
Naquela noite fiquei. Fiquei lá. Deixei-me adormecer no fundo do armário. Acordei a meio da noite. Silêncio no quarto. Abri a porta do armário com cuidado. Levantei-me. Espreitei a cama. Ela já lá estava. Estava sozinha. Estava a dormir. Também não ouvia barulho no resto da casa. Devia ser tarde. Saí do armário. Saí do quarto. Percorri o corredor. Desci as escadas. Entrei na cozinha. Olhei em volta. Um saco de pão. Um saco de pano de pão. À antiga. Abri-o. Tirei um. Abri o frigorífico. Havia restos de frango assado. Bebi uns golos de um pacote de leite. Tirei uma coxa e uma asa do frango. Fui para a janela da cozinha comer os dois pedaços de frango assado frio com o pão. Soube-me bem. Chupei os dedos. Depois tirei um charro do maço de cigarros e acendi-o. Fumei-o ali. À janela. Na companhia da madrugada e das árvores que me olhavam sombrias na ausência de luar. Depois voltei para o meu armário.
Tenho passado assim os meus dias. As minhas noites. A minha vida. Eu e ela. Eu aqui, no armário. Ela ali, na cama. Às vezes vem mais alguém. Raramente a mesma pessoa. Ela é desapegada. Faz sempre uma grande barulheira. E eu irrito-me. Estou a ficar ciumento. Mas gosto de estar aqui. Escondido. A espreitar. A ouvir.
Comecei a escrever as minhas memórias de dentro do armário.
Todas as madrugadas, e depois da casa adormecer, saio. Ando pela casa. Com cuidado. Assalto o frigorífico. Vou à casa-de-banho. Escrevo as minhas memórias enquanto fumo um charro à janela da cozinha.
Um dia publico-as. Mas para já, estou bem aqui onde estou. Eu e ela. Ela na cama. Eu no armário. Tem tudo para ser uma boa relação.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/07]

Um Jantar de Beringelas

R. vinha jantar cá a casa. Ontem.
Não o via há vários anos. Tínhamos sido amigos de infância. Muito amigos. Do género, melhores amigos. Durou toda adolescência. Depois eu fui para a Universidade e ele para a Força Aérea. Começámos a ver-nos menos. Até que deixámos de nos ver. Seguimos caminhos diferentes. Vidas bastante diferentes.
Encontrei-o há uns dias. Por acaso. Estava na rua, à entrada do café, a fumar e um tipo pediu-me lume. Era ele. Estava igual. Estava mesmo igual. Igual, em mais velho. O mesmo cabelo cortado curtinho, já não à escovinha. O mesmo corpo esguio, magro, mas seco. R. era forte. Forte de músculo, não gordo. Gordo era eu. Muitos anos a beber cerveja e vinho. A comer fritos. A trabalhar sentado. Não era gordo-gordo, pronto, era assim com um pouco de barriga. R. não. R. era elegante e continuava elegante.
Conversa. O que fazes. O que faço. Mulheres. Filhos. Azares. Sortes. Negócios. Viagens. Olha, não queres ir lá jantar a casa esta semana? Está bem. Adeus. Não, adeus não. Ciao. Um aperto de mão que se transformou em abraço e terminou com dois beijos na cara. Saudades.
Então ontem, R. vinha cá jantar.
Fiz algo simples. Umas beringelas recheadas, com novilho picado com pimentos e cenouras, cobertas com queijo emmental e ida ao forno para gratinar. Abri uma garrafa de Esporão Reserva tinto e deixei-o a respirar.
Estava tudo pronto.
Sentei-me no sofá à espera.
A televisão ligada num canal qualquer a dar um programa que nem reparei o que era.
Acendi um cigarro.
Fui buscar um copo de vinho. Comi umas azeitonas.
Comecei no zapping.
Continuei a fumar. Cigarro atrás de cigarro. Copo atrás de copo.
A noite partiu.
Era já de manhãzinha. Não tinha cigarros. Nem vinho. Bebi as duas garrafas que tinha comprado.
Peguei na terrina com as beringelas, cobri-a com película aderente e coloquei-a no frigorífico.
Agarrei o comando. A televisão estava na CMTV. Imagens de uns carros esmagados. Gente encarcerada. Acidente terrível e mortal. Na IC8. Perto de Pombal.
Desliguei a televisão.
Olhei lá para fora. Para a rua. O sol começava a nascer.
Senti um arrepio pelo corpo acima.
A cabeça estava pesada. Um som agudo nos ouvidos.
Fui deitar-me. Vestido. Enfiei-me debaixo do edredão. E tapei-me todo.
Acho que me ouvi chorar.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/03]

Estou na Estatística

Faço tudo aquilo que esperam de mim.
Lavo os dentes depois de comer, antes de deitar e depois de acordar. Corto as unhas dos pés e das mãos com regularidade. Tomo banho de duche todos os dias, às vezes mais que uma vez por dia. Lavo o cabelo no banho, em todos os banhos. Corto o cabelo uma ou duas vezes por ano. Faço a barba todos os dias e trago a cara limpa, fresca e lavada. Também lavo as orelhas e limpo os ouvidos.
Trabalho. Pago os meus impostos. Pago a renda da casa, a electricidade, o gás, a água, o telefone, o cabo.
Cozinho em casa e, às vezes, almoço ou janto fora. Como pão sem glúten, manteiga sem sal, queijo light, maçãs de Alcobaça, pêras do Bombarral, cerejas do Fundão, tangerinas do Algarve, bananas da Madeira, carne de porco pata negra de Barrancos, fumeiro de Montalegre, bebo leite dos Açores, vinho do Alentejo e espumante da Bairrada.
Gosto de Pastéis de Nata e de Bolas de Berlim. Também gosto de Pastéis de Tentúgal. E de rissóis, croquetes, pastéis de bacalhau e de massa-tenra e de chamuças.
Ao almoço como sempre um prato de sopa.
Bebo um litro e meio de água por dia. Engarrafada e da torneira.
Bebo café. Três por dia. Às vezes quatro. Um bagaço e, por vezes, uma aguardente velha.
Passo férias na Costa Alentejana, em São Pedro de Moel e em Moledo.
Vou regularmente ao cinema. A um concerto ao vivo. E ao futebol.
Compro móveis em Paços de Ferreira, sapatos em Oliveira de Azeméis e roupa no Vale do Ave.
Ando a pé bastantes vezes e também de bicicleta.
Compro um jornal por dia. Leio um livro por mês. Leio poesia quando calha. Ouço música diariamente. Vejo séries na televisão e vejo os noticiários.
Voto.
Compro os postais da UNICEF. Dou dinheiro nas campanhas para o Coração, para o Cancro e compro o Pirilampo Mágico para ajudar a CERCILEI.
Estudei em colégios privados e na escola pública. Frequentei o politécnico e a universidade. Joguei andebol, futebol e futsal.
Casei e divorciei-me. Tive filhos. Sobrinhos. Amigos. E amantes.
Faço sexo quando calha.
Jogo todas as semanas no Euromilhões. Mas nunca me saiu nada.
Porra! Sou um português normal e estou na estatística.
Que mais querem?

[escrito directamente no facebook em 2018/03/01]