Estrela Rock

Deixa-me dizer-te uma coisa. Se eu fosse artista, seria um músico de rock. Guitarrista. Provavelmente também vocalista. Tenho pinta de vocalista. Mas guitarrista é que era. O guitarrista é o gajo da música. O gajo que caracteriza o som da banda. E acho que tenho estilo para estrela rock. Estar em cima de um palco e captar em mim todo os olhares sem me deixar amedrontar. Olha aqui o meu air guitar! Olha, olha! Estás a ver? Dou a volta ao braço. Como o Pete Townshend, estás a ver? Sabes quem é, não sabes? O gajo dos Who. Aquele que há uns anos foi acusado de pedofilia. Ou foi só de ter entrado em sites de pornografia infantil? Já não sei. Mas também não interessa muito. O que interessa é que um gajo destes, com pinta, com estilo, tinha as gajas todas na palma da mão, estás a ver? É preciso ter estrutura para se ser estrela rock. Eu acho que tenho essa estrutura. Tenho pena é de não saber tocar guitarra. A culpa foi dos meus pais. Nunca me puseram a aprender a tocar guitarra. Naquela altura os miúdos jogavam andebol e iam para o escutismo. Tive uma semana no escutismo. Andei quatro anos a jogar andebol. Nenhuma das actividades me serviu de nada ao longo da vida, e se ela vai longa. Ainda cheguei a jogar andebol na União de Leiria, sabes? Foi o meu momento de glória. Mas não ganhei nada. Nunca cheguei a fazer nada de glorioso no andebol. Ganhei uma vez uma medalha num campeonato de futebol de salão. Naquela altura chamava-se assim, futebol de salão. Futsal é uma frescura amaricada de gajos que não são bons o suficiente para jogarem futebol a sério, sabes? futebol de onze. Ainda joguei futebol de onze em campos pelados. Esfacelei muitas vezes os joelhos, mas eram jogos entre amigos. Às vezes os jogos terminavam à porrada. Éramos todos muito nervosos. E quando perdíamos, tínhamos todos muito mau perder. Mas eu devia era ter aprendido a tocar guitarra. Se tivesse aprendido a tocar guitarra, poderia ser hoje uma estrela no firmamento e no Walk of Fame ou no Rock and Roll Hall of Fame. Apareceria nas colectâneas dos melhores sucessos do ano. Ia tocar aos festivais de Verão. Qual David Fonseca? Qual Paulo Furtado? Qual Afonso Rodrigues? Era eu, pá! Ao pé de mim, todos eles seriam uns meninos. Porque eu tenho garra para isto. Sou um animal de palco. Um dia fui convidado por um professor, no liceu, para declamar poesia na festa de final de ano lectivo. Eu, que nem gostava de poesia, estás a ver? Quando senti as tábuas do palco debaixo dos meus pés, oh meu Deus, ofusquei todas as outras participações. Até não há muito tempo, ainda se falava da minha prestação. Fumei uma ganza antes de subir ao palco e destruí os poemas que me tinham destinado. Ficou toda a gente admirada comigo. E chegaram-me a dizer Tu tens pinta para o espectáculo. Tu devias ir para teatro. Devias ser actor. Acabei em economia. Também não fiz nada com a merda do curso. Economia! Quem é que quer saber da merda da economia? Como é que engatas uma gaja a dizer que estás a estudar economia? Foi aí que comecei a mentir. Trabalhava em cinema, estás a ver? Comecei por dizer que era assistente de produção, depois assistente de realização, depois argumentista, mas foi quando comecei a dizer que era realizador que as coisas ganharam uma dimensão tal que tive de abandonar a mentira. Já não tinha mãos a medir com o assédio que sofria por parte das gajas. Das gajas e dos gajos. Que aquilo ali, marchava tudo. Mas nunca gostei de gajos. E foi aí que deixei de sair como saía. Acalmei. Terminei o curso. Comecei a trabalhar. Uma vida de merda, estás a ver? Eu que me imaginava o novo Jim Morrison a enfiar pelas goelas abaixo todas as drogas que me ofereciam, como o Jim Morrison fazia com aquela tipa dos Jefferson Airplane, nunca sei o nome dela, quando fizeram a digressão peça Europa, percebes? Estavam sempre a voar, sem aterrar, sem precisarem de abastecer, sempre abastecidos, numa trip do caralho, mas afinal, percebi que já era tarde demais para aprender a tocar guitarra e ser uma estrela rock. A culpa, no fundo foi dos meus pais, não é? Nessa altura ainda me dei com uns gajos da faculdade que tinham uma banda. Cheguei a tentar escrever umas letras para eles. Mas não tinham pinta para aquilo, pá! Aquilo era pessoal que fez uma demo, chegaram mesmo a editar um disco, mas nunca foram a lado nenhum, não tinham estaleca e nunca venderam o suficiente para serem alguma coisa. Eu, eu se tivesse sido músico, acredita, seria mesmo uma estrela do caralho que toda a gente conheceria, como o António Variações, estás a ver? Um gajo excêntrico. Eu também seria excêntrico. As estrelas têm de ser excêntricas para que as vejam acima da mediocridade do pessoal normal. Se os meus pais me tivessem posto a aprender a tocar guitarra…
…e foi aqui, precisamente aqui, neste queixume familiar, que a gaja conseguiu aproveitar uma pausa na minha conversa para me perguntar Mas, afinal, queres que te faça o broche, ou não? ao que eu tive de responder Estou sem dinheiro, pá! E estava. Estava sem dinheiro e tinha acabado de ser posto fora do quarto que tinha alugado na parte velha da cidade. Ah, se eu fosse uma estrela rock!

[escrito directamente no facebook em 2020/05/12]

Às Vezes, Vomito

Almocei pataniscas de bacalhau e fiquei maldisposto. Já vomitei. Lavei os dentes e saí de casa. Fui ao café da aldeia. Ainda não está a funcionar a cem por cento mas, lá vai servindo uns copos e a malta fica lá por fora, sentada no lancil do passeio, a beber e a conversar.
Pedi uma aguardente para me compor o estômago. Acendi um cigarro e encostei-me à montra do café. O lancil estava quase todo ocupado e ao sol. Estava demasiado calor para me sentar ao sol. Fiquei em pé encostado à montra do café. O dono devia lavar o vidro da montra. Aliás, o café todo devia levar uma barrela. Agora é que se nota. Quando metemos a cabeça no interior para fazer o pedido, cheira ao chão do Lagoa dos anos setenta depois de uma vitória da União de Leiria.
Encostado à montra suja do café, de cigarro numa mão e uma aguardente noutra, ouço a conversa alheia.
E alguém diz O Ventura tem razão, os ciganos têm a mania que isto é tudo deles.
E outro alguém responde Tu também tens a mania que isto é tudo teu.
E o primeiro alguém remata Mas eu não sou cigano.
E o segundo alguém pontua Pois!
Ao lado vejo os sorrisos dos outros que não se meteram na conversa. Sorrisos que variavam entre o cínico e o condescendente. Alguns abanavam a cabeça. Concordavam. Mas concordavam com o quê? Com quem?
Eu empinei o copo de aguardente. Larguei-o no beiral da montra e, antes de sair dali disse Vocês vão mas é para o caralho!, conas de merda!
Passei em frente aos tipos sentados no lancil e ainda ouvi alguém perguntar Então, pá? e outro acentuar Xó?!, mas ninguém me disse mais nada. Enquanto ia indo embora, a descer a rua para sair do centro da aldeia, não voltei a ouvir a voz de nenhum deles. Devem ter lá ficado ensimesmados com a explosão de um gajo que normalmente entra mudo e sai calado e não mete conversa com quase ninguém e só o ouvem gritar Golo! quando se dá o caso de assistir por lá a algum jogo do Benfica, coisa que não tem acontecido vai para dois meses.
No caminho para casa senti-me irritado. Não devia ter dito o que disse. Não me devia ter metido numa conversa que não era comigo. Esta mania que eu tenho!
A mão onde levava o cigarro começou a tremer. O cigarro caiu. Enfiei a mão dentro do bolso das calças e desejei que a mão não estivesse a tremer e que tivesse sido só um espasmo muscular. Mas não voltei a tirar a mão do bolso para não ter de me confrontar com a evidência do que não queria.
Ainda antes de chegar a casa voltei a ter de vomitar. Encostei-me a uma árvore e vomitei o pouco que ainda tinha em mim. Eram quase só espasmos. Já não havia quase nada para deitar fora.
E foi então que percebi: As pessoas enjoam-me e fazem-me vomitar. Tenho de começar a vomitar em cima delas. Talvez isso me alivie mais depressa.
O sol batia-me na cabeça. Ergui-me e voltei à estrada. A caminho de casa. E ainda pensei Tenho de lavar os dentes. Odeio o sabor a vomitado na boca.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/07]

Ao Domingo

Naquela época, aos Domingos, eu era o primeiro a levantar-me da cama.
Levantava-me cedo, às vezes tão cedo que havia Domingos em que me levantava ainda quase de noite. Eram dias escuros de Inverno, dias escuros e chuvosos. Mas era sempre eu o primeiro a levantar-me.
Eu levantava-me, aquecia um púcaro com leite. Abria uma carcaça e colocava-a na torradeira. Depois despejava o leite na caneca. Tirava-lhe a nata que ficava a boiar em cima, e juntava-lhe Ovomaltine. Ou era Nesquick, já não tenho a certeza. Barrava manteiga nas torradas e sentava-me na mesa da cozinha, com uma revista de banda-desenhada aberta à minha frente, a comer e a beber. Geralmente deixava cair muitas migalhas à minha volta mas, quando a minha mãe se levantava, e depois de me dar um beijo na cabeça e, invariavelmente dizer-me Lava este cabelo, hoje!, ia buscar a vassoura e uma pá e varria o chão ali à minha volta.
Nessa altura eu ia tomar banho. Lavava o cabelo. Vestia uma roupa domingueira e regressava à cozinha onde ficava a ler bandas-desenhadas até o meu pai estar despachado, de barba feita, banho tomado, vestido e a beber uma caneca com café que a minha mãe já teria feito, e dizer-me Vamos? e nós íamos.
Todos os Domingos, naquela época, eu e o meu pai íamos ver os jogos de futebol das equipas de juniores da União de Leiria. Os jogos eram no campo pelado, ao lado do estádio onde havia o campo relvado onde jogava a equipa principal. Ali, no pelado, jogavam os juniores, os juvenis e os iniciados. Víamos os jogos todos. Às vezes contra o Benfica, o Sporting e o Porto. A União de Leiria tinha, geralmente, boas equipas de miúdos. Os espectadores, nós, estávamos em cima do campo, mesmo atrás dos fiscais-de-linha, que hoje se chamam árbitros assistentes. Mas não havia grandes problemas. Por vezes os jogadores caiam ali, à minha frente, e eu via como os jogadores esfacelavam os joelhos e faziam sangue. Mas não se queixavam. Quer dizer, queixavam-se até o árbitro marcar falta e, depois, estavam já prontos para nova jogada.
Enquanto eu e o meu pai íamos ver os jogos das camadas mais jovens da União de Leiria, a minha mãe ficava em casa, suponho que a fazer o almoço pois, quando chegávamos, a mesa estava posta e o almoço era quase-imediatamente servido.
Nessas manhãs de Domingo encontrava sempre alguns amigos meus a ver também os jogos com os pais deles. Às vezes nós íamos juntos para outro lado do campo e víamos os jogos juntos, como se fôssemos adultos e estivéssemos ali sozinhos a ver o jogo de futebol.
Às vezes essas manhãs eram a primeira parte de um Domingo inteiro cheio de futebol. Depois de almoço a minha mãe já vinha comigo e com o meu pai e íamos ver os jogos da equipa principal da União de Leiria ao estádio Municipal. Levávamos umas almofadas para nos sentarmos um pouco mais confortáveis nas bancadas de pedra onde ficávamos a ver os jogos. A minha mãe gostava tanto ou mais de ver os jogos que o meu pai. Às vezes também a ouvia ralhar com alguém. Ora com um jogador da União, ora com o árbitro, ora com o meu pai por ele estar enervado com alguém que não conhecíamos.
Um dia levantei-me. Estava de chuva. Fazia frio e corria furioso o vento, o vento e a chuva, lá fora, fora das janelas, e eu aqueci o leite e fiz as torradas e tirei a nata ao leite e misturei Ovomaltine (ou seria Nesquick?), barrei manteiga nas torradas e sentei-me na mesa da cozinha a ler uma banda-desenhada, mas a minha mãe demorou mais que o normal dos outros dias a aparecer e, quando apareceu, não me deu um beijo na cabeça nem disse para eu lavar o cabelo, e vinha a chorar. Nesse dia o meu pai não apareceu. E nunca mais apareceu. Nesse dia não fomos ver os jogos de futebol dos miúdos. E nunca mais fomos.
E a partir desse Domingo, os Domingos nunca mais foram os mesmos.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/08]

O Último Suspiro

E naquela tarde desejei que a vida fosse um dia de sol brilhante, quente e confortável, um mar ondulante e dócil de águas mornas onde poderia nadar crawl e que nadaria como ninguém, boiaria num colchão de ar e seria levado ao longo da costa até uma praia deserta e secreta onde encontraria uma sereia verdadeira com rabo de peixe, almoçaria um bife do lombo com batatas fritas e um ovo a cavalo, molharia um bocado de miolo de um papo-seco na gema amarelinha do ovo, beberia um pirolito e guardaria o berlinde de porcelana colorido que iria juntar ao atabafador, ao contra-mundo e ao olho-de-boi na caixinha das preciosidades onde também estaria o pin do Benfica, o cartão de sócio da União de Leiria, os cromos de futebol das pastilhas May e a fotografia da Cindy, uma inglesa de Bristol que conheci na Praia da Oura e com quem andei de gaivota, comi gelados de laranja da Olá e chorei baba e ranho quando me vim embora para Leiria e ela ficou mais uma semana, jurámos trocar cartas e só foi a primeira e só chegaram duas, e que depressa troquei pela Rita que conheci no colégio, mas a fotografia ficou para me lembrar as pequenas histórias que fazem toda a minha vida, e depois iria a uma matinée de cinema ver o Grease, a Guerra das Estrelas ou uma reposição da Fantasia que o meu gosto é eclético, passearia de bicicleta tipo chopper ao longo do rio e subiria a estrada até à nascente do Liz, às Fontes, logo ali acima das Cortes, e regressaria mais tarde até à descida do Seminário onde iria fazer a descida em carrinho-de-rolamentos e passaria pela caixa de água pública onde o Jorge um dia rebentou umas bombas de Carnaval que lhe iam arrancando os dedos da mão, mas não arrancaram e nós fartámos-nos de rir à conta dele que nunca mais pegou em bombas de Carnaval, só em bombinhas de mau-cheiro que partia nas aulas de matemática e a freira era obrigada a dar a aula por terminada porque o cheiro se tornava impossível e ninguém mais tomava atenção à matéria, e saíamos da sala e íamos jogar à bola para o campo pelado onde esfolei e esfolaria ainda mais vezes os joelhos e todos os finais de tarde seriam passados na Feira de Maio, na pista dos carrinhos-de-choque da feira, aos empurrões aos outros carros para impressionar as meninas que olhariam para mim e suspirariam, e eu veria os seus pequenos corações a baterem forte dentro dos seus frágeis corpos de adolescentes à minha passagem e iria passear à volta do mundo com uma dessas meninas e conheceria todos os países e todos os povos da Antártida ao Ártico, passando pela Austrália, a Ásia, a América do Norte, Central e do Sul, e toda a África, e teria todo o tempo do mundo para usufruir da vida de todos estes continentes e povos, e comeria das gastronomias locais e nunca ficaria maldisposto com nenhuma das iguarias que o mundo está cheio de maravilhas para comer e beber e ver e ouvir e tocar e sentir e apreender, e cada vez que regressaria iria rever os meus amigos que ainda seriam sempre os meus amigos porque os amigos seriam sempre para a vida, ao contrário dos amores que se enterram na areia da praia em cada fim de Verão, e mataria saudades dos meus pais e da escola onde andava mas já não andaria porque iria aprender pelo mundo fora a fazer surf no Hawai, mas poderia ser também na Nazaré ou em Peniche, a jogar futebol de praia em Copacabana, judo no Japão, a tocar didgeridoo na Austrália, percussão em África e kazoo… onde é que poderia aprender a tocar kazoo?… talvez em África também e ocarina com os descendentes dos maias e…
…e depois descobria, naquela tarde, que a vida afinal nunca seria assim tão boa enquanto assistia ao último suspiro do meu pai deitado na cama onde estava já há uns meses à espera de ser levado lá para onde vão as pessoas que respiram pela última vez e eu chorava como choravam todos os abandonados cá deste lado ao sentirem-se sozinhos e perdidos, à espera que a vida, mesmo assim, não me abandonasse como parecia ter abandonado naquele momento.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/15]

Gosto

gosto da primavera, de namorar raparigas jovens e menos jovens, já vividas e cheias de estórias para me contarem e gosto do cheiro das flores campestres, de mergulhar no rio, no açude, no lago, nu, e de me deitar sobre as margaridas e deixar-me aquecer pelo sol do meio-dia, e de ler livros deitado na relva, no sofá, sobre a cama, gosto de ler philip roth e mário de sá-carneiro, cormac mccarthy e baudelaire, rimbaud e cocteau e não esquecer camus, borges e cortázar, gosto de sumo de laranja fresco, peixe assado nas brasas, frango de churrasco, e pão acabado de fazer em panificadoras, gosto de rosas e malmequeres, de fumar cigarros e um charro de vez em quando, gosto de ir à escola agora que já não vou, gosto de desenhar mesmo não sabendo, e de matemática, literatura e poesia, gosto da poesia do al berto, da szymborska e do joan margarit, gosto de chupar as azedas que encontro à beira da estrada, de festas de aniversário em garagens onde eu sou o dj, gosto de beber cerveja, loira, stout ou blanche, gosto de tremoços e pevides, castanhas de caju e amendoim torrado, gosto de passear de mão-na-mão, de mãos transpiradas de desejo e de antecipação, gosto de cortar o cabelo muito curto para refrescar a cabeça, usar desodorizante, calçar sapatilhas e vestir t-shirts, gosto de passear pelo país, conhecer as praças das cidades, vilas e aldeias, e gosto do verão, do calor do sol a queimar-me o corpo e a dificultar-me a respiração, gosto de vestir calções e calçar chinelos, gosto da praia e de mergulhar nas ondas do mar, de beber um gin numa esplanada à sombra de uma árvore, de um vodka antes de jantar, de uma pizza em forno a lenha, de uma salada de rúcula e tomate cherry, queijo feta e iogurtes naturais com granola caseira, gosto de ver os jogos olímpicos e o mundial de futebol, que também pode ser o europeu, gosto de banda-desenhada, do hergé e do hugo pratt, do comés e do frank miller, do lostal e do bilal, gosto de água das pedras e coca-cola e não, não pode ser pepsi, mas pode ser zero, sem cafeína ou light e com uma rodela de limão, gosto de amêijoas, berbigão, mexilhão e conquilhas, navalheiras, camarão de moçambique e da figueira da foz, gosto muito de limonadas sem açúcar, do bafo quente do interior alentejano, da costa vicentina e do sotavento algarvio, gosto das festas das aldeias perdidas no interior e das grutas de alvados, gosto das serras d’aire e dos candeeiros e de caminhar por elas, gosto das imperiais no lebrinha, de ver os girassóis a girar, de melancia, melão e meloa, de beber um tinto esporão, um verde alvarinho, gosto de adormecer na praia, ver as suecas em topless, jantar na rua, na varanda ou no quintal, olhar as estrelas, e sonhar ser o starman, também gosto do outono, do casaquinho de algodão, dos óculos escuros que uso o ano inteiro, de música, muita música, dos beatles e dos stones, dos velvet underground e do nick cave, dos joy division, dos jesus and mary chain e dos chameleons, mas também gosto do nick drake, do leonard cohen e do david bowie, dos mão morta, dos pop dell’arte e dos gnr com vítor rua e alexandre soares, de bolas de berlim com creme, da chuva que molha tolos e do cheiro da terra molhada, gosto do fim das férias, do início das aulas, dos cadernos novos, de livros novos, do regresso à vida de todos os dias, do benfica e da união de leiria, gosto de viajar para longe e saber que regresso, gosto de conhecer o que não conheço, de visitar o rainha sofia sempre que possível, de arroz de cabidela, de raparigas despenteadas pelo vento, de lábios carnudos pintados de red velvet, de peitos pequenos médios e grandes, de pernas em meias de vidro pretas, de música ao vivo em salas escuras e sombrias e em jardins luminosos, gosto de ler jornais em papel, sujar os dedos com tinta, desligar a televisão, jogar ao monopólio e ao risco, gosto dos dias a encurtar e as noites a crescer, gosto de dormir acompanhado, de fazer sexo, mas gosto mesmo é de foder, de gritar alto na rua às duas da manhã, de ouvir as persianas a serem levantadas e gente a ralhar comigo, gosto de passear à chuva à beira do rio, e também gosto muito do inverno, da lareira acesa e a lenha a crepitar, de uma morcela de arroz e um chouriço assado, de uma bifana grelhada nas rulotes ao pé do mercado da cidade, gosto de arroz doce e rabanadas, filhoses e sonhos, gosto do frio que me recorda a vida, gosto de filmes e de teatro, do wenders e do godard, da anna karina e da monica vitti, gosto de estar sentado numa sala e ver os actores ao pé de mim, gosto de tempestades, de relâmpagos e do som cavo de um trovão, gosto de tocar campainhas e de sobreviver ao natal e à passagem de ano, gosto de sentir que o mundo está a acabar para me agarrar com unhas e dentes ao tempo que me resta, gosto do meu pai e da minha mãe, dos meus filhos, mesmo os que não sei que tenho e os que não são meus, gosto de todas as mulheres que foram mulheres da minha vida, e gosto muito das saudades que tudo isto me dá, gosto de escrever, ler e aprender, gosto de cozinhar e de comer, gosto de dançar, pular e rir, gosto de estar com pessoas e brincar com os amigos, mesmo que não sejam muitos, gosto das minhas memórias, mesmo as falsas, gosto muito de viver mas, não tenho medo de morrer

[escrito directamente no facebook em 2020/01/07]

Estou à Espera da Minha Saída

A velha alisa o cobertor e puxa a dobra do lençol. Estou todo tapado até ao pescoço. A velha tapa-me todo e mantém-me as mãos debaixo da roupa da cama para eu não lhe apalpar o cu. Velha!… Velho sou eu. Ela terá, quanto muito cinquenta anos. Velho sou eu que já passei dos oitenta. Estou velho mas ainda lhe passava a mão pelo pêlo se ela não me tivesse preso os braços debaixo do cobertor.
Tenho à minha frente o televisor ligado. Está aos pés da cama. Está a dar um qualquer programa da manhã. Se calhar com a Cristina Ferreira, acho que é ela, não é? Daqui parece-me. Não tenho a certeza. Mas deve ser. Deve estar com o som baixo, ou desligado, o que a mim vem a dar no mesmo. Para eu ouvir alguma coisa o vizinho de baixo também teria de ouvir. Então, a televisão faz-me companhia, mas sem som. Só as imagens a galopar no ecrã. Às vezes uso o aparelho, principalmente para ouvir algum disco daqueles que gostava muito de ouvir quando era mais novo. Os noticiários, não. Já não me interessa o que se passa no mundo. Este mundo já não é meu. Nem é para mim. Estou à espera da minha saída. Deve estar a chegar.
Não gosto que a velha trate de mim. Mas não tenho outro remédio, não é? No início fazia-me muita confusão. Ela ir comigo à casa-de-banho. Ela lavar-me. Ela ver o meu corpo nu. O meu corpo flácido. Cheio de manchas. Áspero. Agora já não ligo. Mas agora já não ligo a nada. Não gosto de não ligar a nada. Gostava de ainda ligar a tudo. Era por isso que, no início, lhe apalpava o cu. Ela não gostava nada que eu o fizesse. Se eu fosse mais novo… Mas a verdade é que nem a mim o tocar-lhe me despertava o que quer que fosse. Era só uma brincadeira estúpida a fingir que ainda estava vivo e com desejo. Mas não. Não estava vivo. Nem com desejo. Ainda ando por aqui, é verdade. Os meus olhos ainda piscam. Os meus pulmões ainda inspiram e expiram ar, cada vez menos, e o coração ainda bate. Mas eu já não estou aqui. Eu já morri há muito tempo. Morri no dia em que fiquei confinado a esta cama. Mesmo para ir à janela olhar a rua, tenho de ser ajudado. Ajudado por ela. Pela velha. Para ir à janela onde fumava os meus cigarros. Que saudades tenho de fumar um cigarro.
Passo os dias aqui deitado. E as noites. Durmo quando calha. Não ligo às horas. De resto, é a velha que manda em mim. Como quando ela me dá a comida à boca. Lavo-me quando ela me lava. Vou à janela quando ela me ampara. Às vezes também me leva à rua. Normalmente vou de cadeira-de-rodas, porque vou mais rápido para onde tenho de ir mas, às vezes, levo só uma bengala e ela vai ali ao meu lado, a controlar-me os passos, a ver se não me meto com as miúdas giras com quem me cruzo. Tenho saudades das miúdas giras da minha vida. Dos beijos. Da pele macia e convidativa. Foda-se para a velhice!
Agora que estou para aqui armazenado, à espera da minha vez de partir, penso muito na vida. No que vivi. No que não vivi. No que deixei por viver. Em todas as merdas que fiz às pessoas que se cruzaram comigo ao longo dos anos.
Estava à espera, no entanto, de ir vendo a minha vida a passar-me pela cabeça como uma série de Sábado à noite, episódio atrás de episódio, a recordar os momentos mais importantes da minha vida: o primeiro dia de escola; o dia em que entrei para a faculdade; o dia em que me licenciei; o dia em que me casei, pela primeira vez, depois foi mais do mesmo, uma remake em pior do que já não tinha sido grande coisa; o nascimento do primeiro filho; o nascimento do segundo; o meu primeiro filme; o meu primeiro prémio; a minha primeira viagem ao outro lado do mundo; a morte do meu pai; a morte da minha mãe; o meu primeiro neto; o segundo; o terceiro; acho que já vem aí um quarto, mas não sei se já o posso contabilizar. De qualquer forma, não é nada disso que eu recordo, quase em loop, todas estas horas que passo aqui acordado, na cama, a olhar para o tecto, para a televisão ou para a rua, através da janela, e do qual só vejo o céu azul, cinzento, branco ou preto, com e sem luzinhas de Natal, não! o que eu mais recordo é um almoço que tive com o meu pai, só os dois, sozinhos, eu e ele, em Castanheira de Pêra, e foi a única vez que almocei sozinho com o meu pai, só os dois, e ele conversou comigo como se eu fosse um adulto e não a criança que ainda era. Falámos sobre o Benfica. Sobre a União de Leiria. Eu falei sobre os Sete. Ainda não tinha chegado aos Cinco. Lembro-me de lhe ter falado de cada um dos elementos do grupo e de ele ter escutado. Ele falou-me da escola. E da importância para o meu futuro. E que devia pensar em ser médico, advogado, engenheiro, alguma coisa que me garantisse o futuro. Mas acabou por ficar contente quando viu o meu primeiro filme. E ajudou-me bastante.
Eu devia ter sete, oito anos. Era ainda uma criança. Era Verão. A minha irmã ainda não tinha nascido. A minha mãe estava internada no hospital e o meu pai tinha uma reunião de negócios em Castanheira de Pêra. Não tinha onde me deixar e levou-me com ele. Viajámos os dois pelo interior. Já não me lembro bem do trajecto, mas recordo algumas curvas, talvez. Subidas. Muito campo. Casas espalhadas pelo campo. Aldeias pequenas. Couves. Umas árvores. Muitas árvores. Muito verde.
Lembro-me de achar Castanheira de Pêra uma terra muito mais pequena que Leiria. O que é óbvio. Mas não o era para uma criança de oito anos. Fui com o meu pai a uma empresa. Esperei numa sala com uma senhora muito bonita que me ofereceu rebuçados. E depois fui almoçar com o meu pai. Ele de um lado da mesa. Eu do outro. Estávamos frente-a-frente. Só os dois. Eu pedi um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. Se fosse hoje, era um bitoque. Naquela altura era só um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. O meu pai comeu o mesmo que eu. Eu bebi um refrigerante de laranja. O meu pai bebeu um copo de vinho tinto. Conversámos muito. Mas o que gostei mesmo mais, o que revejo tantas vezes na minha cabeça, sou eu a almoçar sentado a uma mesa em frente do meu pai. Estou eu aqui e ele ali, ali mesmo, à minha frente. E estamos os dois sozinhos. Estamos tranquilos. E conversamos.
Nunca mais voltei a comer sozinho com o meu pai. Entretanto a minha irmã nasceu. A minha mãe nunca mais voltou ao hospital e, alguns anos mais tarde, ainda eu não tinha saído de casa, o meu pai morreu.
É nisso que penso muito agora. Agora que estou aqui deitado na cama, à espera de ir ter com ele, penso no dia em que almoçámos os dois sozinhos. Um com o outro.
Talvez um dia os meus filhos também possam ter uma lembrança assim. Ou não. Cada um tem de ter as lembranças que tiver de ter.
E a velha? Onde anda o raio da velha? Quando me vier dar a sopa vou tentar apalpar-lhe o cu. Tenho tantas saudades…

[escrito directamente no facebook em 2019/11/28]

Arrasto-me

É Domingo e arrasto-me por casa. Vejo o sol muito amarelo a brilhar pouco na rua. Não sinto o calor que estava à espera de sentir. Já não sei se o Verão acabou se está para durar. O ano passado levei o Verão quase até Dezembro. Agora estou em Setembro e arrasto-me por casa com calças de fato-de-treino e camisola de mangas compridas. Não sinto o conforto que costumo sentir.
Acabei de comer umas torradas com pão de sementes, do Pingo Doce, e beber um chá frio de ibisco. Fiquei enjoado. Agora até o chá me enjoa. Pode ter sido o pão. A manteiga. A geleia. O frango assado que comi ao almoço com couve-coração regada com um fio de azeite.
Pensei em descer à rua e ir beber um café à pastelaria. Mas não me apetece sair de casa. Parece que o elevador avariou. Ouvi a campainha tocar bastante. Vozes zangadas. Tenho ouvido passos a subir e a descer as escadas ao longo do dia. Não me apetece descer à rua pelas escadas. Depois vou ter de as subir. Sinto-me demasiado cansado. A minha mãe, se fosse viva, haveria de perguntar Mas cansado de quê? Ao que eu haveria de responder Nem sei, mãe! Nem sei!
Vou à janela. Acendo um cigarro. Sabe-me mal. Mas continuo a fumar. Tusso um bocado. Mas aguento. Um homem aguenta tudo.
Acho que ando a perder cabelo. Tinha a almofada cheia de cabelos, hoje de manhã. E só podem ser meus. Ninguém mais lá tem dormido.
Fui mordido no braço. Talvez um mosquito. Tenho uma bolha que me provoca comichão. Tenho de pôr Fenistil gel. Tenho de ir ao quarto. Mas primeiro acabo de fumar o cigarro.
Ontem vi um bailado fantástico na RTP2. Foi por puro acaso. Giselle. Giselle de Akram Khan. Uma actualização da peça. Uma música assustadora. Doentia. Mas no bom sentido. A peça fez-me enervar, o que foi bom. Geralmente dá-me tédio. Ontem enervou-me. A música fez-me acelerar as batidas do coração. Demorei a adormecer. Revi a peça toda na cabeça. Acabei por adormecer no meio daquelas mulheres em pontas. A tremelicar. No meio daquele ambiente cinzento e muito triste. Gosto da tristeza. Acordei com a vontade de fumar um cigarro. E foi o que fiz. Vim para aqui onde estou agora. A fazer exactamente o que estou a fazer agora. A olhar triste para a rua a espreguiçar-se no seu Domingo.
Há muitos anos, neste dia, estaria, com o meu pai a ver um jogo de futebol da União de Leiria. Gostaria de voltar a esses tempos. Onde tudo era tão mais simples. Eu não me sentia cansado. Nem enjoado. O cabelo não estava a cair. E gostava dos Domingos.
Devia ir ler um bocado. Ir buscar o Fenistil e ir ler um bocado. Não sei o quê. Ler alguma coisa. Talvez os Cinco. Os Sete. Talvez um livro do Tio Patinhas em português do Brasil.
Mando o resto do cigarro para a rua. Sento-me no sofá e ligo a televisão. E deixo-me ficar por aqui. Já vou buscar o Fenistil. E o livro. Vou só descansar um bocadinho em frente à televisão. O que é que estará a dar na CMTV? Os Domingos são dias de gala televisiva, não?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/22]