Assim-como-Assim

Ouço o vento assobiar lá fora. Vejo as árvores a dobrar. Os gatos fugiram para debaixo do carro e ainda lá estão. O carro abana. Não sei se aguenta. Não sei se os gatos estão a salvo. O cão enfiou-se dentro da casota, lá bem no fundo, e não lhe vejo focinho nem cauda.
A máquina do café parou de trabalhar. Vou buscar a chávena e volto para a janela. Acendo um cigarro. Não me atrevo a abrir a janela. O vento entrava-me cá em casa e dava cabo de mim.
Devia ir trabalhar. Sentar-me frente ao computador e escrever qualquer coisa. Nem que fosse só pela ginástica. Mental e manual. Mas não consigo largar a janela. Isto tudo fascina-me!
Estou na cozinha. Vejo o vento passear através da janela da cozinha. A mesa e as cadeiras de plástico desapareceram. O guarda-sol também. Estava fechado. Mas desapareceu. Voou. É uma arma. Tem ponta. Espeta. Espero que não aconteça nada. Nada pior do que o que está a acontecer.
Uma vez li uma estória de um gajo que viu uma vaca a voar. E depois matou a mulher. Também li que uma vez, uma vaca caiu do céu e matou um pescador no mar do Japão. Parece que é verdade. Um avião russo transportava vacas, houve um problema com a porta da carga e as vacas caíram no mar durante o voo. Uma delas caiu, por azar, na cabeça de um pobre pescador que estava em alto mar, num barco de pesca. Loustal fez uma banda-desenhada curta sobre esta pequena história. Uma preciosidade. Tenho-a para aí. Algures. Não sei onde. Talvez num caixote.
Como é que estará lá do outro lado da casa?
Saio da cozinha. Faço o corredor. Vou à janela da sala. Olho para fora. Para o alpendre. Para o quintal. Para a estrada lá ao fundo. As cadeiras do alpendre também desapareceram. As árvores perdem as folhas. Vou ter de limpar tudo. Não há um único carro a passar na estrada. Ninguém vai trabalhar, hoje. Está tudo em casa. A ver se aguenta. As famílias abraçadas. A tentar de sobreviver. A rezar. À espera de um milagre.
Tão melodramático que estou! Não tarda o vento pára. E a vida continua o seu curso normal. Mas isto também é o curso normal. Que raio de solilóquio, o meu. Não tenho mais nada que fazer? Bem, na realidade, não.
Espero. É o que tenho que fazer. Esperar.
Vou beber outro café. Fumar outro cigarro. Continuar a olhar o mundo a desfazer-se. Ver se os gatos aguentam. E o cão. Se calhar devia trazê-los cá para casa.
E a casa? Vai aguentar? E se não aguentar, o Loustal pode fazer uma banda-desenhada sobre o que acontecer a esta casa e a mim. A grafite. Com aquele traço rápido e sujo que ele usa quando trabalha a preto e branco. Como se fosse uma experimentação. Um croquis. Hum!…
Depois do café vou passar à aguardente. Assim-como-assim…

[escrito directamente no facebook em 2019/04/03]

Por que Raio Não Fui para Albufeira?

Tal como muitas das suas colegas, também ela resolveu tirar dez dias de férias nas Caraíbas. Pacote tudo incluído. Pequeno-almoço, almoço, jantar, bebidas à beira-mar, quarto a ouvir as ondas, festas temáticas e o mais que viesse.
Depois de um ano a economizar e a ouvir as suas colegas a dizer tanto bem daquelas águas de um azul turquesa, limpas, límpidas, cristalinas, de ondas suaves, sol todo o dia e a um preço que Podemos pagar, diziam todas, lá resolveu ela experimentar o seu Club Med caribenho.
Mas depressa este paraíso se revelou um inferno.
Depressa percebeu que iria ter companhia de uma gaja terrível, como elas eram, afinal, umas para as outras, umas cabras.
Isto pensava ela enquanto olhava com medo para Irma, além da janela do quarto. Ou melhor, o que Irma lhe fazia passar pelo terceiro andar do seu hotel. Mas ela já não conseguia perceber o que via a voar, Aquilo era uma vaca?!, chegou a murmurar, a medo.
Ao fundo, onde ontem estava o mar azul, agora era um blur cinzento, que já não conseguia enxergar para lá das grossas bátegas que lhe fustigavam o vidro da janela. O barulho era o pior. Pior que a chuva, o vento, as coisas voadoras… O barulho é que trazia lá dentro todo o medo. O barulho ensurdecedor das ondas do mar que já não rebentavam, eram uma explosão constante, o gritos guturais do vento, como se fosse gente, os barulhos das coisas, sim das coisas que batiam umas nas outras, mas ela já nem sabia que coisas eram essas, eram só coisas, coisas e mais coisas a bater umas nas outras, a fazer barulho, muito barulho e a assustá-la de morte.
Passou-lhe pela cabeça pensar Porque raio não fui para Albufeira?, mas foi um pensamento fugaz porque, de repente, sentiu o chão a fugir-lhe debaixo dos pés e só teve tempo de pensar Será que o hotel aguenta?

[escrito directamente no facebook em 2017/09/08]