O Bêbado da Aldeia

O tipo estava sentado lá ao fundo, no muro que limita o quintal. Estava sentado no muro a olhar para as mesmas montanhas que eu costumo olhar, mas cá de cima, do alpendre.
Geralmente não consegue chegar tão longe. Geralmente cai de bêbado logo no início da rua. Quando acorda, volta para trás. Mas há dias em que consegue chegar até aqui. Senta-se no muro. Fuma um cigarro. Às vezes adormece, sentado no muro. E não cai. Depois acorda e volta para trás. Volta para casa. Ele mora do outro lado da aldeia. Costuma sair de casa já bêbado e vem por aí fora até parar. Pára onde parar. Dorme um pouco. Volta para trás. Raramente vai além da minha casa. Quase todos os dias isto repete-se.
Eu fui ao frigorífico e apanhei duas Sagres médias.
Desci o quintal.
Percorri o muro, por dentro. Aproximei-me do tipo. Passei as pernas para o outro lado do muro e sentei-me ao pé dele. Abri uma garrafa e dei-lha. Ele agarrou-a. Abri a outra. Batemos as garrafas e demos uma grande gole. O dele foi enorme. Quase que despejou a garrafa de um só trago.
Acendi dois cigarros. Dei-lhe um. Ele agarrou no cigarro e acenou com a cabeça.
Ficámos ali assim, os dois, a beber uma cerveja, a fumar um cigarro e a olhar as montanhas em frente. Lá muito ao fundo. As montanhas estavam brancas lá no cimo. Estavam com neve. É raro nevar. Às vezes acontece. Tem estado frio. Mas hoje o sol rompeu. Estava-se bem ali, debaixo do sol.
Estivemos algum tempo em silêncio. Só a olhar. Até que ele diz Vou contar-te uma história! Eu olhei-o. Mas ele não me olhou. O olhar dele continuava no alto das montanhas em frente. Mas estavam húmidos. Não sabia se ia chorar ou se era da bebedeira.
Há muito tempo que ela me andava a chatear para levarmos a miúda à praia. Estás a ver? A miúda já tinha cinco anos e ainda não tinha visto o mar. Nem a areia. Nunca tinha ido à praia. E morávamos aqui, tão perto da praia. Naquele dia resolvi fazer uma surpresa, sabes? Levantei-me cedo. Tratei dos animais. Apanhei umas hortaliças. E depois disse-lhe para vestir a miúda. Íamos à praia. Ela ficou tão contente, mas tão contente, que se agarrou a mim, cruzou os braços no meu pescoço e beijou-me. Ela beijava tão bem! E lá fomos nós. Íamos os três na motorizada, sabes? Íamos os três na motorizada para a Nazaré quando, ao chegar aos campos, ali naquela recta antes da subida, estás a ver onde é? vem um carro, branco, tão branco que parecia um sonho, vinha para cá, nós íamos para lá e, de repente, saiu um outro carro, vermelho, esse era vermelho, saiu de trás do outro, para o ultrapassar, acho que não me viu, ou quando me viu já era tarde, já estava ao lado do outro carro, acelerou e, quando estava a aproximar-se de mim guinou para a direita, mas ainda não estava distante suficiente do outro carro e ele bateu-lhe, bateu-lhe na traseira e fez o carro derrapar, e o carro derrapou, derrapou para cima de nós, de nós os três que íamos na motorizada, e eu senti o embate, senti quando fomos projectados mas, depois, depois mais nada!, não me recordo de mais nada. Acho que desmaiei.
Ele levou a garrafa de cerveja à boca e acabou com ela. Olhou para o resto do cigarro, que já era quase só filtro, deu mais uma passa e jogou-o fora. O olhar sempre no alto das montanhas. E, depois de um silêncio, concluiu.
Acordei no hospital. Estive lá um mês. E só depois de sair de lá é que soube.
Eu vi uma lágrima a cair-lhe pela face. A boca mexeu-se, mas não disse nada. Levantou-se. Disse Tenho saudades dos beijos dela! e foi embora. Voltou para trás. Regressou a casa.
Eu fiquei ali no muro mais um bocado. A pensar nas vidas que temos. Nas que perdemos. A pensar como tudo é efémero. E cruel. E a pensar onde é que Deus anda nestas alturas.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/05]

Quatro da Manhã

Despertei. Estava escuro. Virei-me para o lado e vi as horas a brilharem no despertador. Eram quatro da manhã.
Estava na cama. Pensei que estava em casa. Ouvi um barulho. Sentei-me na cama e pus-me à escuta. Silêncio.
Comecei a distinguir alguns volumes do quarto. A pouca luz que vinha do exterior, mostrava-me onde estava. Parecia o meu quarto, mas não exactamente. Ouvi passos no exterior. Levantei-me. Fui até à janela do quarto e espreitei lá para fora. Não vi ninguém. Não vi nada. Umas árvores. Um muro. E o resto na escuridão.
Saí do quarto e movimentei-me pela casa às escuras. Eu reconhecia a casa. Parecia a minha mas, ao mesmo tempo, não era a minha casa.
Fui espreitando pelas janelas. E da janela da cozinha vi um vulto no exterior. Uma mulher.
A mulher aproximava-se da janela da cozinha. Eu afastei-me para os fundos. A mulher pôs as mãos no vidro da janela, forçou para o lado e a janela abriu-se. A mulher começou a subir para o interior. Eu continuei escondido no fundo da cozinha, com medo, a transpirar, com vontade de gritar. A mulher caminhou na cozinha em minha direcção e viu-me. Estendeu a mão para me agarrar e eu abri a boca para gritar, cheio de medo.
E acordei. Acordei na cama, a transpirar e cheio de medo. Percebi que tinha tido um sonho. E comecei a acalmar. Olhei para o lado e vi as horas no despertador. Eram quatro da manhã. Olhei em volta e pensei que estava no meu quarto, em minha casa. E, no entanto, não era o meu quarto, não era a minha cama. Ouvi um barulho. Acho que ouvi um barulho no exterior. Levantei-me. Fui até à janela e olhei lá para fora. Estava tudo calmo. Não havia vento. As folhas das árvores estavam paradas. Nem a água da piscina se ouvia mexer.
Saí do quarto e andei pela casa às escuras a olhar pelas janelas para a rua. Reconhecia a casa. Parecia a minha. Mas não era. Pequenas diferenças. Ligeiras alterações.
Na cozinha aproximei-me da janela e vi um vulto lá fora. Um homem. Eu dei um pulo, assustado.
O homem aproximava-se da janela da cozinha. Eu estava com medo e fugi para o fundo da cozinha. O homem pôs as mão no vidro da janela, forçou para o lado e a janela abriu-se. O homem entrou na cozinha. Eu estava ao fundo, quieto. Cheio de medo. O homem andou pela cozinha e viu-me. Veio na minha direcção. Ficámos frente-a-frente.
Eu estava cheio de medo e, quando ele esticou o braço para mim, abri a boca para gritar cheio de medo.
E acordei. Acordei na cama, aos saltinhos no colchão, transpirado e com a garganta a doer, como se estivesse estado a gritar muito. Olhei para o lado e vi, no rádio-despertador digital, as horas. Eram quatro da manhã.

[2018/05/07]

E Então, Acontece…

Entrámos os dois no consultório. Sentámos-nos lado a lado. Ela ficou mesmo em frente ao médico. Agarrou a minha mão e colocou-a entre as suas.
E o médico começou a falar. Calmamente. Numa linguagem acessível, clara. Bastante clara. E honesta. E ela foi ouvindo a clareza do que o médico ia falando e, de repente, ferrou as unhas na minha mão. Com força. Fez mesmo sangue. Mas eu não retirei a mão, nem me queixei. Aguentei toda a dor que me provocava. Porque tinha de a aguentar. Ela tinha todo o direito de magoar. Quem quer que fosse. E era eu que estava ali.
Saímos do consultório em silêncio. Parecia que caminhávamos em cima de uma nuvem, que era tudo irreal, um sonho, um pesadelo do qual o toque do despertador nos iria acordar.
Caminhámos durante algum tempo sem falar. Passámos o carro estacionado. Andámos sem destino nem objectivo.
Eu queria falar, dizer qualquer coisa. Mas não conseguia.
Então ela parou no meio da rua e disse Desculpa, preciso ficar sozinha, e arrancou no sentido contrário, nem esperar pela minha resposta. E eu fiquei ali parado, a vê-la perder-se no meio da multidão, até desaparecer por completo da minha vista.
Voltei para o carro e fui para casa. Fiz um curativo rudimentar na mão.
As horas foram passando. Eu olhava o telemóvel de cinco em cinco minutos. Mas não havia nenhum sinal.
Anoiteceu. Acendi as luzes de casa. Liguei a televisão e deixei-me estar sentado no sofá, a olhar para a televisão, mas com atenção ao telemóvel.
E então ela entrou em casa. Foi ter comigo à sala, sentou-se ao meu lado, pegou na minha mão com o curativo e fez um pequeno sorriso como quem pede desculpas, e disse, Vou precisar da tua ajuda!, e eu disse que sim, que estaria ali para ela, para o que desse e viesse.
Ela abraçou-me e sussurrou-me ao ouvido, Desculpa a mão, eu sorri e fui o único ali a chorar.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/06]