Houve uma Época

Houve uma época em que gostei do Natal. Houve uma época em que eu brinquei ao Natal como todas as outras pessoas, crianças e adultos que, nesta altura, brincam às amizades, aos amores e à paz no mundo entre os homens.
Houve uma época em que me levantava de manhãzinha para ir ao fogão da cozinha buscar as prendas que o Pai Natal lá deixava. Não era na lareira porque não havia lareira lá em casa. Nem era na chaminé porque a chaminé era um buraco negro e escuro lá em cima, por cima do fogão onde a minha mãe cozinhava as filhoses e as fatias douradas, dias antes do Natal, e o bacalhau na noite em que nos reuníamos os quatro à volta da mesa, felizes com o que tínhamos porque não sabíamos que havia mais para ter, que havia gente que tinha muito mais e gente que não tinha nada. Naquela altura o Natal não era quando um homem quisesse, era mesmo a 24 de Dezembro a cair para o 25 a festejar o nascimento do Cristo.
Houve uma época em que a mesa da sala levava um acrescento a meio, e a mesa da cozinha ia fazer companhia à mesa da sala para albergar toda a gente que ia jantar lá a casa. Eram os pais, os filhos, os avós, alguma família de todos os lados de todas as famílias, alguns amigos. Gente, muita gente. Muitas prendas que toda a gente presenteava os outros, em especial os mais pequenos. As prendas não era muitas. Mas não havia cá prendas das lojas dos chineses nem a um euro e despacho já o Natal de toda a gente. Dava-se o que era preciso, preferido, desejado. Livros. Jogos. Roupa. Alguns brinquedos. Sim, éramos uma geração estúpida que ainda não tinha encontrado a sagração da tecnologia.
Houve uma época em que nos sentávamos todos à mesa a comer bacalhau, polvo, peru. Mousse de chocolate, pudim flan e molotov. Filhoses, coscorões e rabanadas. Os jantares terminavam com um café da avó a acompanhar uma fatia de Bolo Rei, de que toda a gente retirava as frutas cristalizadas, e uma bebida branca, licores para os mais fraquinhos e whiskey para os mais fortes.
Houve uma época em que tive família e o Natal era, por excelência, a minha festa. A festa da minha família. Numa época em que até eu tive família.
Houve uma época, houve.
Depois, depois deixou de haver uma época. A família desintegrou-se. A morte rondou. Zangas. Separações. Ódios. Oh, tantos ódios e invejas. A família desentendeu-se. A desgraça veio ao caminho da família e irmãos de armas transformaram-se em irmãos com armas.
Sento-me agora aqui fora e deixo-me ir com eles. Com todos eles. Com as crianças que choram. Com os adolescentes de telemóvel em punho e olhar vidrado. Com homens atrasados. Com mulheres desesperadas. Tudo a correr. Tudo a comprar. Compram-se uns aos outros para, em cinco minutos, voltarem a virar costas uns aos outros e até para o ano que haverá mais. Temos de nos encontrar mais vezes, dizem. Eu telefono, continuam a dizer. E fingem acreditar.
Estou sentado aqui fora na rua há duas horas. Já tanta gente passou por aqui e ninguém me viu. Estão todos muito ocupados. Demasiado ocupados para olharem em volta. Para verem.
Hoje morreu alguém. Alguém que eu conhecia. Hoje morreu alguém que eu conhecia e morreu sozinho. Sozinho e na miséria. Esquecido de todos. Eu também o esqueci. Não sou melhor que os outros. Não me lembro melhor que os outros. Acho que só choro um pouco mais. Porque também eu estou esquecido. O Natal não mora aqui.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/10]

O Ensaio do Corso

Comprei tremoços e pevides. Um euro de cada. Comprei às senhoras do Sítio. Aquelas senhoras de Sete Saias que me tratam por Querido. São muito simpáticas essas senhoras. As pevides não são tão boas como as da Senhora das Pevides de São Pedro de Moel.
Sentei-me na esplanada altaneira. A beber uma imperial. A comer os tremoços. A descascar as pevides. A ver o ensaio do corso a passar lá em baixo, na marginal.
Havia muita gente apanhada desprevenida e de carro preso nos ensaios da multidão mascarada para o entrudo. Porque isto do ensaio era treta. Na verdade é um quase-cortejo só com menos espectadores nos passeios e mais carros de populares presos entre as bailarinas e os carros alegóricos.
As bailarinas estão muito vestidas, este ano.
Eu via tudo aqui de cima. Aqui do balcão da esplanada do Sítio.
A imperial fresquinha escorria garganta abaixo.
As pevides enfiavam-se nos buracos dos dentes partidos. Tinha que lá ir com o dedo, enfiar a unha, e libertar a massa produzida pelo mastigar na boca.
O sol batia-me com força na cabeça. Não tinha trazido chapéu. Devia ter trazido.
Fechei os olhos. Embalei-me.
Comecei a ouvir o som ambiente muito distante. O corso já não estava na marginal da Nazaré, mas em São Martinho do Porto. A Nazaré inteira estava em São Martinho do Porto. Distante. Para lá do horizonte.
Pensei Devia ter posto uma máquina a lavar roupa.
Pensei Tenho de fazer a cama de lavado. Gosto do cheiro de alfazema dos lençóis lavados de fresco. Acho que é de alfazema, o cheiro do amaciador, não é? Olha, não me lembro! Já não me lembro do que lá tenho. Mas deve ser isso. Alfazema. Se não é de alfazema é de outra coisa qualquer e eu gosto do cheiro na mesmo porque é o cheiro de lavado. Gosto do cheiro a lavado. Gosto quando ela sai do banho. Gosto de a beijar quando ela sai do banho. O cheiro do champô. Do sabonete de ervas. Gosto de lhe cheirar o corpo quando ela sai do banho e ainda vem a pingar gotas de água. E eu pego numa toalha e seco-lhe o corpo. Aos poucos. Sem esfregar. Suavemente. Como um mata-borrão a secar a tinta da caneta. E limpo os pingos que escorrem pelas pernas. Pelo peito.
Estou a ficar excitado. É este sol.
Abri os olhos. O sol continuava lá em cima. Mas o lá em cima agora era um pouco mais em baixo.
O horizonte tinha desaparecido. Uma nuvem compacta tinha-se formado em toda a volta. Vinha desde as rochas do Forte e continuava para a esquerda, formando uma pequena baía de neblina. Depois entrava pelo vale nas traseiras da Nazaré e já só lhe via o coruto por cima da colina.
Despertei.
O corso ainda estava lá por baixo
Pensei Hoje há Festival da Canção. Hoje é o dia da Surma. Hoje quero ver.
Pensei É melhor ir embora.
Olhei para o mar. Estava com forte ondulação e a rebentar com força na praia. Mas ainda era de dia. E estava calor. Mesmo se se aproximava o nevoeiro.
Pensei Vou beber outra imperial. E levantei o braço.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/23]

O Dia em que o Pingo Doce Acabou com a Passagem de Modelos

A velha saía todos os dias de casa. De manhã. Pela fresquinha. Para dar as suas voltas. Passear. Arejar um pouco. Nunca se afastava muito das redondezas. Tinha medo de lhe faltarem as forças. Tinha medo das pernas fraquejarem.
O mais longe que arriscava era ir até à Praça. O centro da cidade. Gostava de se sentar lá, numa das esplanadas, a olhar os miúdos e miúdas que tomaram a Praça de assalto, e lembrar o tempo em que ela também era assim. Também ela teve o cabelo comprido. Saias rodadas. Os peitos direitos. O rabo rijo. Também ela corria de um lado para o outro. E corava. E passeava de mãos dadas com os rapazes. Bom, isso não, que os tempos eram outros. As meninas não andavam por aí de mãos dadas com os rapazes. Mas podiam ter andado que daí não vinha mal nenhum ao mundo, pensava com os seus botões. Quando ia até à Praça tinha de parar várias vezes para recuperar forças e a respiração. A sorte da velha é que ainda havia alguns bancos públicos plantados ao longo do trajecto. Fazia o seu tabuleiro de xadrez. De casa em casa. Até à Praça. Bebia um carioca. Às vezes um chá. Ou um Compal. Observava a louca vida de quem não se arrasta com uma bengala. E ficava feliz. Ficava feliz por eles. E por ela. Por ainda poder ir até ali. Por não ter de ficar fechada em casa. Por não ter de ficar fechada numa casa cheia de gente como ela. De não ter de ficar presa a uma cama. Dava muitas graças por isso. Não corria. Mas ainda conseguia andar. Devagar. Devagar mas ainda chegava ao seu destino.
Ia à Praça só de vez em quando.
Nos outros dias saía de casa e andava ali à volta. Ia aos correios. À farmácia. Ao supermercado. À loja dos chineses – gostava de ver toda aquela confusão de bric-a-brac. Ao quiosque dos jornais. Fazia o Euromilhões. Às vezes comprava uma raspadinha. Dizia que tinha tido muita sorte no amor. E agora o jogo não queria nada com ela. Nunca ganhou nenhum prémio de jeito. Às vezes ganhava um euro ou dois nas raspadinhas. Dava para se ir mantendo no jogo. Depois ia a um café. A outro. Conhecia as empregadas. Quando estava dois ou três dias sem aparecer, perguntavam-lhe logo se tinha estado doente. Ela queixava-se logo do tempo. Do frio. Das dores nas costas. Da dificuldade em calçar as botas. Desistia de sair. Fica para amanhã, pensava.
Mas onde ela ia mais vezes, de manhã e à tarde, e onde gostava mais de ir, era ao Pingo Doce ver as Passagens de Modelos, como ele lhe chamava. Ia ao Pingo Doce, que à entrada tinha uma pequena pastelaria, com umas cadeiras de plástico, e ela sentava-se lá, ela e os outros velhos, a beberem um café, um garoto, um chá, comiam um folhado misto, um Pastel de Nata, um Croissant e conversavam, conversavam e olhavam. Muito gostavam eles de olhar quem entrava e saía do supermercado. Havia sempre muita gente nova por ali. Gente que descia das escolas para comprar um almoço mais leve, ou um pedaço de frango assado, uma fruta, chocolates e latas de Coca-Cola. O que aquela juventude consumia de chocolates e latas de Coca-Cola, dizia. Diziam. Uns aos outros. E depois lembravam o passado. No tempo deles não era assim. Infelizmente. Que também gostariam de ter bebido Coca-Cola. E comido um chocolate. Daqueles com coisas lá dentro. Passas. Avelãs. Nougat.
Havia sempre gente conhecida no Pingo Doce. Estavam lá sentados à espera uns dos outros. Ou passavam. Às vezes por acaso. Viam-se amigos que já se julgavam mortos. Ou a viverem em lares. Mas não. Andavam por ali, também. Como eles. E era mais um para o grupo. Contavam histórias. Riam. Viam quem passava. Faziam as compras para o almoço. Uma couve portuguesa. Umas tranches de Salmão. Umas cavalas. Tomates. Uma melancia. A quantidade de melancia que aqueles velhos consumiam no Verão. Os empregados cortavam-nas às metades e assim não as deixavam estragar em casa. Meia melancia para cada um deles era uma delícia que escorregava garganta abaixo.
Um dia o Pingo Doce fechou. Para obras. É verdade que já precisava. Era o único supermercado ali, naquela zona baixa da cidade. Durou uma semana. E durante uma semana, a velha e os velhos, esperaram. Esperaram para se voltarem a encontrar. Mas esperaram em vão.
O Pingo Doce não é a Santa Casa da Misericórdia e, vai daí, as obras alteraram profundamente a estrutura do espaço e, por arrasto, a vida daqueles velhos.
Os lineares deixaram de ser cortados a meio e, agora, são corredores enormes que os velho têm dificuldade em percorrer até ao fundo. Mudaram o local de alguns dos produtos. E é vê-los, perdidos, à procura, nem sabem bem do quê, mas que costumava estar ali. Ali naquela prateleira. E agora perdi-lhe o rasto. Já nem sei o que é que queria, dizia a velha.
Mas o pior, o pior foi que retiraram a pastelaria da entrada. Levaram a pastelaria para o interior do supermercado. Retiraram as cadeiras de plástico. E as mesas. Agora o Pingo Doce é um supermercado moderno e tem mesas redondas altas e sem bancos, para os jovens encostarem os cotovelos enquanto puxam os cabelos para trás. E os velhos? Os velhos não conseguem estar em pé. Os velhos estão cansados e precisam de descansar quando vão às compras ao supermercado. E chove. E faz calor. E precisam de esperar. Sentados. E dar dois dedos de conversa. E ver os miúdos. E as miúdas. Os jovens que são o que eles já foram.
Os velhos perderam o seu pouso. O supermercado ignorou uma das faixas principais dos seus clientes. Agora os velhos distribuem-se pelos vários cafés da zona. Alguns até têm grandes montras por onde podem olhar para a rua. Mas não é a mesma coisa. Agora já não há Passagem de Modelos. Agora já não estão todos juntos na galhofa. Agora já não encontram tantos amigos no jogo do acaso.
A velha continua a sair de casa todos os dias. Mas já não é a mesma coisa.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/22]