Da Vida como Ela Era

A minha mãe contava-me que a mãe dela, a minha avó, era do tempo em que uma sardinha assada era o almoço de uma família. A sardinha era pendurada no alto, pendurada pelo rabo, sobre um prato, sobre um prato para onde escorria o molho da sardinha, e as pessoas passavam um bocado de broa pela sardinha para guardarem o sabor que haveria de ficar na boca antes do pedaço de broa descer ao estômago mirrado pela fome.
A minha mãe também me contava que, lá na aldeia onde a mãe dela, a minha avó, cresceu, a criançada era alimentada a sopas de cavalo cansado para aguentarem um dia inteiro na jorna, ali no campo, de sol a sol.
A minha mãe ainda me contava que, no tempo dela, dela minha mãe, não podia ir sozinha ao café. Poder, podia, mas não era de bom tom. Senhora que quisesse continuar a ser senhora não devia ir sozinha ao café. Com os filhos sim, para lhes dar o lanche, um gelado, comprar uma pastilha Pirata e fazer a colecção de cromo da bola. Uma senhora não devia fumar em público. Nem podia sair do país para viajar e conhecer mundo sem autorização escrita do marido, meu pai.
Mais a minha mãe me disse que, no tempo dela, havia crianças descalças na rua. Não ela, nem os irmãos dela, meus tios, mas outras crianças do bairro, com menos possibilidades, menos trabalho, menos salário, menos vida.
A minha mãe também contar-me-ia que eu teria tudo e não ligaria a nada. Teria uma casa com estantes cheias de livros e nunca leria nenhum. Uma discoteca imensa em vinil e só ouviria os relatos da bola em onda média. Uma colecção de carrinhos da Matchbox e só brincaria com caricas das Sagres médias que o vizinho do lado, regressado do Ultramar, acabaria por deitar abaixo diariamente para esquecer o que tinha deixado lá longe, o bom e o mau, e a minha mãe repetir-me-ia, o bom e o mau.
Mas de todas as coisas que a minha mãe me contou ou contar-me-ia, o que eu mais gostei de ouvir foi quando ela disse para eu ir mundo fora conhecer o que não conhecia e queria conhecer e que quando quisesse regressar, a porta de casa estaria aberta e ela haveria de fazer um refogado todos os dias para que o cheiro dos seus cozinhados me guiassem de volta para casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/05]

Revolução? Qual Revolução, Meu Capitão?

Era hoje.
Era hoje à noite. Eu já andava em pulgas. Há semanas que andava em pulgas. Era hoje que eu ia deixar de ser virgem. Um colega tinha prometido ir comigo às putas da Rua Direita. Perder a virgindade antes de abalar para o Ultramar. Comer uma rata antes de ser comido pelos turras.
Andei semanas a preparar esta noite. A saída desta noite. Vinte e quatro de Abril. Mil nove e setenta e quatro. Ia ficar para a história. Para a história da minha vida. A noite em que me tornei homem. Até comprei um sabonete Lux. Aquele das estrelas. Queria ir cheiroso para os braços da minha primeira mulher.
Passei o dia nervoso.
Até pensei que me ia mijar todo na parada.
Estive horas debaixo do chuveiro. A ensaboar-me. Até gozaram comigo, aqueles cabrões dum raio.
Passei a roupa a ferro. Nem um vinco. Nem uma nesga. Tudo limpo e bem passado a ferro. As botas engraxadas e escovadas. Tão brilhantes que me ofuscavam a vista. Se tivesse bigode também o teria aparado e penteado. Mas não tenho. Não tenho bigode. Mas fiz a barba. Não que precisasse muito. Tenho meia dúzia de pêlos no buço. Mas um rapaz que quer ser homem… Um rapaz que vai ser homem tem que fazer a barba até não ter nenhum pêlo na cara. Pelo menos que passe no teste da folha do sargento.
E foi quando já estava a salivar. Foi quando já estava a antecipar a noite em que ia ser homem. Quando já tinha contado três vezes o dinheiro que levava no bolso. Para pagar. Para pagar o que teria de pagar e não mais do que teria que pagar. Já tinha comprado mais um maço de cigarros. Estava a fumar muito. Eram os nervos. A excitação. A antecipação. E foi nessa altura, de cigarro no dedo, olhos brilhantes e expectativa ao rubro que caiu a notícia. Todas as saídas revogadas. Não havia licenças para ninguém. Porra!
Havia qualquer coisa. Não sabia o que era. Mas havia qualquer coisa. Qualquer coisa que me fodeu a noite. Raios partam estes gajos, pensei eu.
Despi a farda de saída.
Preparei a arma. A mochila. Avisaram-nos Vamos como se fossemos para a guerra. Raios os partam. Está bem! Está bem!
Reunimos com o capitão. E ele disse Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. O estado socialista, o estado capitalista e o estado a que isto chegou. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que isto chegou! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos embora para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!
Saímos e formámos. Até parecia mal. Virei-me para baixo, para a braguilha fechada e disse Olha, fica para a próxima!
Arrancámos em coluna.
Íamos para Lisboa. Nunca tinha estado em Lisboa. Queria conhecer a capital. Ouvi dizer que também havia miúdas giras em Lisboa.
Chegámos a Lisboa. Ruas largas. Casas muito altas. Muitos carros. Muitas luzes. E eu com uma enorme vontade de mijar.
A coluna parou num semáforo vermelho. Decidi aproveitar. Disse ao meu colega do lado Vou só ali verter águas! Já venho! e abalei. Enfiei-me entre dois carros. Bonitos, os carros. E comecei a mijar.
E então ouvi-o chegar à minha beira. E disse-me Isto lá é hora de mijar, soldado? Vamos embora que a revolução não espera por nós.
Eu virei-me para trás, ainda a fechar os botões das calças, e perguntei Revolução? Qual revolução, meu capitão?

[escrito directamente no facebook em 2019/04/24]