As Brancas Montanhas da Morte

Está mau tempo.
Chove muito, uma chuva tocada a vento. Entra por todo o lado onde exista uma nesga aberta. Fumo em casa com as janelas fechadas. Acendi uma vela por causa do cheiro, mas só tinha uma vela de baunilha que alguém me tinha oferecido e agora estou enjoado.
O vento é muito forte. Ouço-o através das janelas de vidros duplos. As portas e as janelas abanam. Ouço também a chuva a bater contra as persianas. É um barulho violento e um pouco assustador.
O céu está cinzento, o dia escuro e ainda são duas da tarde. Não se vêm nuvens. É uma massa uniforme.
Da janela da cozinha olho para as montanhas mas não as vejo. Talvez estejam tapadas pelo nevoeiro.
Onde é que estão as montanhas?
As notícias dão conta já de dois mortos e vários desaparecidos.
Há cidades inteiras inundadas. Cidades erguidas em leito de cheia. Cidades com os canais pluviais entupidos e esgotos cheios. Cidades de cimento sem escoamento para as águas da chuva.
As barragens abriram as comportas. Há notícias de cidades quase submersas no norte do país. Só morreram duas pessoas até agora. Nenhuma delas nestas cidades quase submersas. Mas há pessoas desaparecidas.
Olho a chuva a tombar sobre as casas batida pelo vento e a ausência das montanhas.
Onde raio é que se meteram as montanhas?
Não está frio. É inverno, está temporal mas não está frio. Estou de t-shirt e descalço na cozinha. Olho para o tempo cinzento e penso que não está frio nenhum.
Apago o cigarro num cinzeiro da Cinzano. Tenho uma grande colecção de cinzeiros em porcelana que eram dos meus pais. Eles não fumavam. Eu fumo.
Outras notícias falam dos meios de transporte públicos que estão parados em todo o lado sem se saber quando poderão retomar a actividade normal. Os aviões não levantam voo. Os comboios dormem na estação. Os barcos baloiçam no cais. Os autocarros não saíram dos terminais. Há inundações um pouco por todo o lado. Há árvores caídas. Abriram-se buracos no asfalto de algumas cidades. Em Lisboa, uma carrinha escolar enfiou-se num buraco na estrada e caiu sobre os carros de um parque de estacionamento subterrâneo. Ninguém morreu. Ninguém ficou ferido. Já há quem fale em milagre. O milagre de Natal. Mas há quem se queixe das avultadas perdas financeiras. As seguradores já vieram explicar que estão a analisar todas as queixas mas esclarecem que a maior parte das pessoas não têm seguro contra intempéries.
Será que as montanhas desapareceram? E tinham seguro?
Uma notícia de última hora diz que a pala do MAAT voou para o Tejo e o museu vai ficar fechado até meados do próximo ano. Já há turistas a desmarcar férias. Há agentes turísticos a quererem indemnizações mas não sabem bem a quem fazer o pedido.
Calço as botas. Visto uma camisola e o casaco e saio de casa.
À saída de casa percebo que a chuva continua a sua queda imparável, tocada a vento. Puxo o capuz do casaco sobre a cabeça, as mãos nos bolsos do casaco, saio para a rua e vou em frente. Vou à procura das montanhas.
As montanhas têm de estar lá.
É difícil cruzar a cidade. Muito trânsito. Muitos carros. Alguns parados em enormes poças de água. Lá mais à frente percebo que o rio galgou as margens e a ponte está submersa. Tenho de seguir pela direita e tentar passar mais à frente.
Há guindastes caídos um pouco por todo o lado. Andaimes tombados. Varandas quebradas. Muitos vasos que fugiram das varandas ventosas.
Há muito barulho na cidade. A chuva o vento os carros as buzinas as motorizadas as pessoas os gritos das pessoas ouve-se música vinda não sei de onde…
Vem-me à memória Jeremiah Johnson, As Brancas Montanhas da Morte de Sydney Pollack. Uma espécie de western que é mais uma lição de vida sobre o confronto do homem com a natureza e a sua luta pela sobrevivência.
Já cruzei a ponte mas nem me apercebi.
Estou distraído. Desconcentrado. Divago. Divago muito.
Vejo postes de alta-tensão vergados ao peso da tempestade. É incrível como estes postes de alta-tensão passam tão perto das cidades, passam por cima de vilas e aldeias.
A estrada começa a subir. Aproximo-me das montanhas. Não vejo nada. Está tudo cinzento. Há um blur cinzento à minha volta. Acho que já não chove. Mas não tenho a certeza. Não vejo nada. Não vejo nada de nada. Não vejo a ponta do meu nariz.
Não ouço nenhum barulho.
Onde estão as montanhas?

[escrito directamente no facebook em 2019/12/20]

Sentei-me no Sofá e Deixei-me Ir

Era um dia cinzento e chuvoso de Verão, o dia em que morri.
Não tive uma morte gloriosa, simplesmente deixei-me ir.
O dia tinha amanhecido cinzento. A meio da manhã começou a chover. Uma chuva miudinha, chata.
Levantei-me, sem vontade, da cama. Arrastei-me até ao sofá. Sentia-me cansado.
Ouvia, ao fundo da rua, os cães a rosnar. Estavam de volta dos caixotes de lixo do supermercado. Lutavam por comida. Andavam magros, os cães aqui da rua. Sentia-os nervosos. Agora ouvia-os a rosnar.
Sentei-me no sofá.
Tentei pensar em qualquer coisa. Tinha a cabeça em branco. Melhor, em cinzento. Não conseguia pensar em nada. Fiz um esforço. Precisava de despertar. Sentia que precisava de me afirmar vivo. Com gana.
Os cães continuavam a rosnar. Lá ao fundo da rua.
Hoje, toda a gente é história. Nos livros do futuro virão loas às equipas de futebol. Às equipas inteiras. Do treinador ao responsável pelo guarda-roupa. Porque a parte faz o todo. E são todos vencedores e especiais. Com destaque para os destaques. Os craques terão uma caixa especial. Debruada a ouro. Nos livros do futuro virão os políticos. Os bons e os maus. Especialmente os maus que as más decisões terão maiores consequências nas vidas de todos os dias e irão ter efeitos bem mais duradouros. Nos livros do futuro virão também os artistas todos. Os cineastas. Os músicos. Os escritores. Os influenciadores. Os instagramers. Os youtubers. As personalidades da televisão, da rádio e da internet. Os actores de cinema, de teatro e de televisão. Os declamadores e os comediantes. Os entrevistadores. Os entrevistados. Os turistas. Os agentes do Alojamento Local, a grande democratização das viagens. Os taxistas e os uberistas. Os pais e as mães. Todos eles especiais. E os príncipes e as princesas desses pais e dessas mães. Todos os filhos príncipes e filhas princesas que poderão ser o que quiserem, basta quererem, que a história há-de tratar de os reverenciar.
Ainda bem que a memória RAM veio ocupar o espaço da massa cinzenta tão em desuso. Já não será preciso decorar tudo isto para os exames escolares, para a vida social-digital do Facebook e do Tinder, para a vida de todos os dias. Bastará googlar e a informação pertinente estará ali, na palma da mão, à beira da vista. Será só colher. Como uma verruga na ponta do nariz de uma bruxa de Salém.
Toda a gente fará parte da história. Da história moderna do Homem. Toda a gente menos eu.
Eu deixei-me ficar parado. Deixei-me ficar parado em casa. Agoniado com tanta e tão grande conta do Homem especial.
Os cães aproximavam-se de casa. Agora lutavam entre eles. Percebia-se bem. O rosnar era outro. Percebia-se que havia bocas ferradas em carne viva que estrebuchava. Havia cães a ganir. Ouvia inúmeros passos a correr no asfalto. Fugiam uns dos outros.
Eu não era ninguém. Nem queria ser ninguém. Nunca fui especial. Nem nunca o desejei ser. Queria só estar ali. Colocar um pé a seguir ao outro. Tonificar com o sol. Florir com a chuva. Mergulhar no mar. Rebolar na relva. Beijar as mulheres e os homens. Passear no Outono. Dormir no Inverno. Cantar na Primavera. Dançar no Verão.
Mas não. Tinha de ter uma casa. Um carro. Um cão. Um emprego. Uma conta no banco. Seguros vários. Estar inscrito na Segurança Social. Ter um nome e um número de identificação pessoal. Tirar férias. Comprar coisas. Muitas coisas. Coisas várias. Ter mulher. Ter mulheres. Várias. E filhos. Muitos. E acreditar em Deus. Ter uma religião e orar. Votar.
E achar que a vida era uma dádiva.
Parei.
Morri.
Não foi uma morte glamorosa nem com honra. Não fui morto na ponta de uma baioneta. Nem a defender ninguém. Nem a lutar por nada. Nem sequer a defender os cães esganados de fome que tentavam sobreviver lá em baixo na rua.
Só morri. Num dia cinzento e chuvoso de Verão. Estava calor. Um pouco abafado. Comecei a ouvir tiros. Os cães ganiam. Ganiam todos. Até deixarem de ganir. E já não haver cães. Agora não havia cães vencedores. Agora os cães estavam a sucumbir aos tiros de espingarda disparados das janelas altas dos prédios urbanos. Os cães mais raivosos matam os cães mais inocentes.
Eu sentei-me no sofá e deixei-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/02]

Subir o Tejo

Decidi subir o Tejo. À procura de… À procura de quê? Na verdade à procura de nada. Subir o Tejo e deixar-me levar contra-corrente. Ele desce. Eu subo. Mas há momentos em que nos encontramos. E nos amamos.
Passo a ponte. Deixo Lisboa e rumo à margem sul. Direcção Almada. Mas vou até Cacilhas. Vejo o que restou da Lisnave. Respiro a História. Muito do PREC passou-se ali. Agora morreu. A Lisnave está vazia. Cheia de fantasmas. Mas vazia. O rio continua lá. Vejo-lhe as ondinhas a bater nos ferrys que se resguardam nas docas abandonadas. Um dia há-de lá nascer algum empreendimento imobiliário. Qualquer coisa de luxo. À beira-rio. Talvez com um Espelho-de-Água. Lisboa em frente. Quem inveja quem? Definitivamente os operários já não moram ali. A margem sul já não é a mesma. A cintura industrial estrebucha. Ainda restam bolsas. Mas tendem todas a morrer.
Volto para trás. Deixo Cacilhas nas costas. Passo pela Cova da Piedade. Amora. É difícil voltar ao Tejo. Por onde vão as estradas? Quero subir o Tejo pela margem esquerda mas não é fácil.
Chego ao Seixal. Não sei onde é a Academia do Benfica. Não passo por lá. Vou ao rio. Vou directo ao rio. Vejo o estuário do Tejo. Garças. Muito trânsito. O Seixal parece a rotunda do Marquês de Pombal em noite de campeonato do Benfica. Tanto carro. Em fila. Gente. Muita gente. Motores a trabalhar. Tubos de escape a deitarem bufadas de gasóleo. Cheira muito a gasolina. Gasóleo. Combustível. Mas ninguém refila. Ninguém buzina. Há uma calma que estranho. Eu fico nervoso e, logo que posso, fujo dali e rumo a Alcochete.
Chego a Alcochete e vejo o rio ferroso. Não sei se aquela água tem ferro mas, a cor, sugere-me isso. Lembra-me o café-com-leite de Manaus, quando o Rio Negro se mistura com o Rio Amazonas. Alcochete parece uma terra-montra. Limpa. Arranjada. Pintada. Caiada. Restaurantes chiques com esplanadas cheias de gente com criancinhas. Há calma. Silêncio. Ouvem-se vozes. Límpidas. Claras como a localidade.
Sigo mais para cima. Perco o nome das terras. Umas misturam-se com outras. Eu misturo nomes. Esqueço outros. Invento ainda outros. Há uma grande confusão de terras, locais, gentes. Laranjeiro. Corroios. Paio Pires. Fogueteiro. Baixa da Banheira. Matosinhos. Não, Matosinhos acho que não é por aqui. Sinto-me baralhado. Ao Tejo é mais difícil de se chegar. Vejo-o. Sei que está lá. Ali. Corre-me paralelo. Mas tenho dificuldade em chegar até ele. Caído do nada, uma placa indica-me uma Praia Fluvial. Outra, um Miradouro. Uma outra ainda um Passeio Fluvial. De repente o Tejo está rico e puxa-me até ele. Afinal, não foge de mim.
Vejo. Observo. Respiro. Registo. E sigo.
Chego a Almourol. Estou na margem esquerda e chego a Almourol. Estou em frente ao castelo. Por cima dele. Num Miradouro abandonado. Uma estátua que me parece do Cutileiro, está altaneira, de guarda ao castelo. É a única coisa que se mantém de pé. Um bar fechado. Vidros partidos. Um vandalismo serôdio em paisagem de cortar a respiração.
Dou a volta. Vila Nova da Barquinha. E vejo Almourol por trás. É diferente. É outra coisa. Igualmente bonito. Tiro fotografias. Talvez as venda a turistas em Lisboa.
Apetecia-me mergulhar nas águas do Tejo. Aqui há muitos bancos de areia. Provavelmente conseguia cruzar o rio a pé. Pondero dar um mergulho. Mas vejo a água suja. Muitos mosquitos. Nuvens de mosquitos. Desisto. Vou comer um gelado num café de apoio ao visitante.
Volto à estrada.
Aproxima-se a noite.
Passo em Constância. Vejo o Zêzere beijar o Tejo. Sigo até Abrantes. Procuro onde ficar. Procuro onde comer. Estou cego. Não encontro nada. Se calhar a falha é minha. Provavelmente é. Por vezes tenho dificuldade em ver coisas que não estejam absurdamente plantadas à minha frente.
Zango-me.
Decido avançar mais uns quilómetros até ao Sardoal.
Vejo luzes. Luzes a convidarem-me. Encontro um sítio onde comer.
Páro o carro. Sento-me a uma mesa. Como uma bifana. Bebo um copo de vinho tinto. Antes de chegar o café, adormeço. Adormeço à mesa. Os braços tombados ao lado do corpo. Durmo ali mesmo. Sentado. À mesa. O café a arrefecer.
Irei acordar no dia seguinte e continuar a subir o Tejo. Prevejo subir até Vila Velha de Ródão. Prevejo avistar Espanha. Talvez vá até Almaraz. Olhar pela última vez para a Central Nuclear. E acreditar que vai fechar em 2020.
Gosto do Tejo. Da vida no Tejo. Mas há morte a rondar.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/11]

E a Laura Acompanhou-me a Casa

Fim de um dia de trabalho. Estou na cidade. No meio da cidade. Tenho fome. Preciso de jantar.
Olho à minha volta. Procuro um toldo. Um néon. Uma placa. Um nome. Procuro um restaurante. Um sítio onde mitigar a fome. E descansar um pouco. Nada. Muito néons mas nenhum restaurante.
Pego no telemóvel. Serve para muita coisa. Google. Restaurantes na cidade. Na parte baixa da cidade. Na zona histórica. E mereço qualquer coisa mais. Peixe cru. Japoneses na zona histórica da cidade. E lá vou eu a caminho de um sushi. Subo. Viro. Desço. Já não existe. O Google está desactualizado. Experimento outro. Percorro. Subo. Ora porra! Um corner! É isto um corner? Outro. Desço. Caminho. Escadas. Viro. Está vazio. Existe. Está aberto. Mas está vazio. Não é apelativo. Experimento mais um. O último, digo-me alto. Estou cansado. Mas ando. Ando. Ando mais um pouco. Modernices. Música em altos berros. Turistas jovens à entrada. Fumam. Falam alto para se sobreporem à música. Parecem estudantes do Erasmus. Não. Definitivamente não. Estou cansado.
Desisto. Na minha cidade saía à rua e tropeçava em restaurantes de sushi.
Continuo com fome.
Prometo entrar no primeiro restaurante que não tenha música aos berros, miúdas com as mamas ao léu e adolescentes aos saltos e a empinar shots.
E lá vou eu.
Ora bem. Cá estou. No primeiro.
Um sítio agradável. Pouca gente. Mas com gente. Uma decoração minimal. Suave. Mas acolhedora. A lista é curta. Uma lista de conceitos. Mas intrigante.
Escolho ceviche de não-sei-quê. Com redução. E espuma. Acompanho com um vinho tinto de não-sei-donde.
Estou cansado. Mas estou sentado. Trazem-me umas fatias de um pão escuro e saboroso. Um bocado de queixo de cabra com pó de laranja. Manteiga de qualquer-coisa que tem uma cor creme e uns bocados de cebolinho por lá espalhado. Devoro tudo enquanto o diabo esfrega um olho. E é depois de comer tudo que me lembro que não tinha lavado as mãos. Ainda vou a tempo. Lavo as mãos. As mão e a cara. E a boca. Estou transpirado. Cheiro-me os sovacos. Não cheiro mal. Ato os atacadores das sapatilhas que descubro desatados. Como é que isto aconteceu?
Regresso à mesa. Sento-me e colocam-me o prato à frente. A quantidade não é muita mas a decoração agrada-me. Parece um quadro do Pollock. Tenho pena de o destruir. Fico a olhar para ele por instantes. Custa-me. Estou aqui para comer, penso. E antes de terminar de formular a frase, já comi tudo. Pouco mas intenso. Tenho o interior da boca a explodir de sensações. Uma pequena maravilha. E não fiquei com nada preso nos dentes. Não preciso de palitos. Nem de fio-dentário.
Pago. Vou-me embora.
Chego ao carro e começa a chover. Uma chuva violenta. Laura. Parece que se chama Laura e está deprimida.
Já matei a fome. Estou cansado. Agora preciso de dormir.
Arranco para casa. Abro o vidro do carro. A chuva molha-me a cara e eu pergunto à Laura Queres vir comigo? E ela vem. Acompanha-me até casa. É a minha companhia.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/05]

A Puta da Gravidade

Nem tudo é preto no branco, // Sou bandido e santo // Mas só toco no céu // Se subir a um banco // Eu nem sei bem porque canto, // Eu já nem a mim me espanto // Orelhas de burro ao canto// A ver se aprendo entretanto…

A puta da gravidade, A puta da gravidade, A puta da gravidade, A puta da!…

Vinha pela estrada do pinhal para a Nazaré. No rádio, a TSF. No rádio os Linda Martini a berrar A Puta da Gravidade. No rádio a Playlist de Tó Trips. E que Playlist! Podia ser a minha. Não! Não podia! Havia três ou quatro escolhas dele que eu não conhecia. E que bem me soube conhecer.

Era Sábado de Carnaval e era bom fugir ao Apita o Comboio e ao Meu Amigo Charlie, Charlie Brown e levar uma bela tareia de bom e velho rock’n’roll de guitarras eléctricas cheias de genica e gana a dar-me cabo da cabeça. Que se fodessem os tímpanos e as dores de cabeça!

Não cheguei a descer à Nazaré. Fiquei-me pelo Sítio. É mais tranquilo. Havia lugar para o carro. E dava para ver o corso lá em baixo. Na marginal.

Engano. Dei logo de caras com o Love Bus. Um autocarro cor-de-rosa cheio de mascarados com duas caras. Foliões de copo na mão. Dançavam uns com os outros. Roçavam-se uns nos outros. Cantavam músicas cujas letras ficavam embargadas nos altifalantes fanhosos e na voz enrolada de gente já muito bebida.

Não vou embora daqui sem ela, nã vou, nã vou, nã vou…

Depois desta gente arrancar atrás do Love Bus, chegaram outros com uma cabeça de tubarão plantado no cocuruto e a cara pintada de branco, como mimos, mas estes não conseguiam estar calados. Estes tentavam vender porta-chaves para pagarem a bebedeira. Deixem-me em paz! dizia eu.

Sentei-me numa esplanada com lugares vagos. Percebi logo o porquê. Das colunas rasgava um som alto de música popular, folclórica e alguma brasileira, com gente a bailar feito louca.

Cada balão uma criança, lá lá lá lá lá…

Os turistas fotografavam. Os locais bebiam. Os locais dançavam. Os locais cantavam. Os turistas riam. Os turistas fotografavam mais ainda. Very typical!…

Alguém disse Olha o corso lá em baixo! E sim, afinal havia corso. Ou uma imitação dele. Uma miúda encostou-se ao muro para uma selfie com o corso na marginal de fundo. Levantou uma perna. Sorriu. Abanou a cabeça. Os cabelos voaram. Ela tirou a selfie. A perna levantada. Desequilibrou-se. Caiu para trás. Ainda lançou a mão para a frente. Para o muro. O telemóvel caiu no chão. Estilhaçou-se. As duas pernas levantaram-se acima do corpo. O sorriso fugiu. Eu levantei-me da cadeira. Ela gritou. E ficou em suspenso por alguns momentos. Em suspenso no ar. No vazio daquele precipício. Entre o Sítio e a Nazaré.

E depois… E depois, a puta da gravidade. E ela foi puxada para baixo. Caiu no vazio. Ainda vi a primeira vez que bateu com a cabeça numa rocha. Depois sentei-me e deixei de a ver cair. Ouvi os gritos das pessoas que acompanhavam ainda a queda. As mãos nas bocas. O desespero nas caras. O horror.

Ao fundo, o Love Bus descia para a Nazaré em alegre cantoria. Os foliões dançavam. Cantavam. Apitavam ao comboio, em apitos de plástico de todas as cores do arco-íris. Eu já não consegui levantar-me da cadeira. O café que tinha pedido estava a ficar frio. Acendi um cigarro. Fumei-o quase todo de seguida. Esqueci-me do café.

Na esplanada a música continuava a sair pelos altifalantes. As pessoas já não cantavam. Nem dançavam. Ali à volta, à volta daquele sítio, ali no Sítio, o Carnaval estava ferido. Havia música mas já não havia vontade de festejar.

Do outro lado Praça havia mais um grupo a preparar-se para descer. Mas estavam longe. Não se tinham apercebido.

Olhei para a praia, lá em baixo. Vi a Doca. Vi a Praia do Salgado. Se fosse Verão haveria lá alguns nudistas. Elas com as mamas ao léu. Eles com as vergonhas a dar-a-dar.

No horizonte do mar viam-se as Berlengas. E os Farilhões. Raios de luz rompiam o céu como uma bênção divina. Faziam círculos iluminados no mar. Às vezes Deus parece adormecido. Depois acorda. Mas geralmente acorda tarde.

Ao fundo da marginal via-se umas luzes a brilhar. Não sabia se era da polícia, dos bombeiros ou do corso de Carnaval. Mas lá em baixo ninguém se tinha apercebido do que tinha acontecido.

A puta da gravidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/02]

Onde Estás?

Como fazer para sair do comboio em andamento?
Como fazer para sair de onde não devia ter entrado?
Como fazer para voltar atrás? E escolher diferente?
Saio do quarto de hotel. Saio atrás dela. Não. Saio à procura dela.
Eu devia ter percebido. Não hoje. Não agora. Não há minutos atrás quando aconteceu. Mas há muito tempo. Quando a conheci. Quando percebi.
Os olhos. Os olhos vítreos. Os nervos. A impossibilidade de estar parada. Quieta.
Saio do hotel. Direita ou esquerda? Estou numa cidade que não conheço. Que não conhecemos. Viro à direita? Viro à esquerda?
Viro para um lado qualquer. Sigo as pessoas. Vou na direcção do vento. Olho para todo o lado. Olho para todas as pessoas. Tento vê-la. Tento vê-la nos outros.
Onde estás?
É fim-de-dia. Hora de ponta. Confusão nas ruas. As esplanadas cheias de gente que bebe. As lojas cheias de gente que compra. Turistas. Gente como eu. Como nós. Como encontrá-la aqui, no meio desta confusão de gente toda igual? Mas ela não é igual. Não, não é.
Entro e saio de cafés. De bares. Salas de jogo. Lojas. Geladarias. Passo ao lado de um Cinema. Um multiplex. Mas não vale a pena. Ela não conseguia estar dentro de uma sala de cinema, às escuras, sossegada.
Passo na zona das putas. Olho-as sem as olhar. Tento vê-la lá. Nas outras. Mas com a esperança de não a encontrar ali. Não estar ali. Mas quero encontrá-la.
Onde estás, porra?
Ao lado das putas, os dealers. Não vale a pena procurar ao pé deles. Não precisa de drogas. Não destas. Não usa destas. Tem as suas. Legais. Compradas às caixas. Em lamelas. Não precisa destas.
Aventuro-me um pouco mais longe. Vou a sítios onde ainda não tínhamos ido. Mas começo eu a ficar nervoso. Não a encontro. Mas tenho de encontrar. Não a posso perder. Não a posso deixar perder. É minha responsabilidade. É da minha responsabilidade.
Mas não quero. Não quero mais essa responsabilidade.
Foda-se! digo alto. Mas ninguém me percebe.
Páro. Estou sem forças. Sinto-me desfalecer. Encosto-me a uma parede. A uma parede de uma loja. Numa rua de lojas. Lojas de sapatilhas. De perfumes. De óculos. De roupa de mulher. De jovem senhora. De criança. Onde estou? Onde estou eu, agora? Não reconheço nada. Sim, percebo. Nunca tinha estado aqui. Nem eu, nem ela.
Tento concentrar-me. Foco o meu olhar nas montras. Nas portas. Nos letreiros que começam a acender. Néons. Cores. Muitas cores vivas. Olho as pessoas. Sigo-as. Passo o olhar de uma para outra. Recupero a calma. Acendo um cigarro.
E se ela voltou para o hotel? pergunto-me.
Olho em volta. Tento perceber onde estou. Não é fácil. Não é fácil, para ninguém. Percebo o caminho. Começo a andar de regresso ao hotel. À espera que ela esteja lá.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/25]

A Sandes de Leitão

É meio-dia e meia. Levanto-me da cadeira, contorno a secretária e saio da sala. Não digo nada a ninguém. É meio-dia e meia. Levanto-me e saio.
Desço no elevador. Saio a porta do edifício. Viro à direita. Ando cento e vinte e cinco metros. Entro no snack-bar. É Terça-feira. Dia de sandes de Leitão. Peço uma.
Saio do snack-bar. Cruzo a estrada em frente e sento-me no banco da rua.
Começo a comer a sandes de Leitão.
À minha frente passam os carros. Furiosos. Em aceleração constante. Têm pressa. Eu não.
Continuo a comer a sandes de Leitão. Devia ter trazido uma cerveja.
Atrás de mim o jardim. O que resta do jardim. Cortaram as árvores quase todas. Estavam doentes, parece. Estão sempre doentes. Estão sempre uma coisa qualquer que leva a que sejam cortadas. Vai lá nascer um condomínio. Sim. Um condomínio em vez das árvores. Do jardim. Das flores. De oxigénio. Casas. Um condomínio. O jardim não dá dinheiro.
O molho do Leitão cai do pão. Cai nas minhas calças. Suja-me as calças. Devia ter trazido mais guardanapos. E umas batatas fritas.
A cidade está barulhenta. Tenho dificuldade em me ouvir. Trânsito em correria desenfreada. Já não há árvores. Nem quase pessoas. Só turistas. Só carros. Só pressa.
Uns miúdos passam à minha frente. Vão entre o passeio e a estrada. Os carros apitam. Mas não abrandam. Pressa. Não têm tempo. Os miúdos têm tempo. Todo o tempo do mundo. Até deixarem de ter. Todos deixam de ter. Todos têm vinte anos. Todos deixam de ter vinte anos. Um deles levanta o dedo do meio aos carros que passam. Ri-se. Riem-se.
Acabo a sandes de Leitão. Procuro um lenço de papel. Limpo a boca. As mãos. Junto os papéis todos. Faço uma bola. Lanço para o caixote do lixo. Acerto. Levanto os braços em glória. Depois percebo onde estou. Baixo os braços. Olho à minha volta. Estou um pouco envergonhado.
Fecho os olhos. Deixo-me embalar pelo som dos carros a passar. Não chego a adormecer. Não quero adormecer. Estou só a respirar. A ganhar coragem.
À minha volta só ouço o som dos carros a galgar asfalto. Não há mais sons. O cheiro é de gasolina. Gasóleo. Não me chega mais nada. Não percebo mais nada.
Acabo por ouvir uma gargalhada. Franca. Sincera. Bem disposta. Abro os olhos. Vejo duas miúdas de mãos dadas. Uma delas transporta um sorriso enorme na cara. A outra está a falar. A dizer-lhe qualquer coisa. Não ouço. Levanto o braço. Olho o relógio no pulso. Vejo as horas. Uma e vinte cinco. Hora de partir.
Olho para cima. O céu azul. O sol quente. Voltámos à Primavera em pleno Inverno. Isto anda tudo trocado.
Olho para a esquerda. Respiro fundo. Sinto-me tremer um pouco e não é de frio.
Volto a olhar para a esquerda. Vejo, ao fundo, um autocarro de passageiros a aproximar-se. Respiro fundo.
Levanto-me. Aproximo-me da beira da estrada. Espero.
Vejo novamente as horas. Uma e trinta.
Soube-me bem a sandes de Leitão.
O autocarro está mesmo a aproximar-se. Eu ponho o pé direito na estrada. E vou todo atrás dele.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/19]