O Cheiro do Papo-Seco Fresco

Naqueles tempos eu acordava cedo. Bastante cedo. Muito mais cedo do que alguma vez viria a acordar mais tarde, mesmo quando o trabalho assim o exigia. Acordava cedo para aproveitar o dia. E, naquele mês de praia, para aproveitar a baixa-mar e andar a brincar na água até ter os dedos das mãos todos engelhados, saltava da cama aos primeiros raios de sol que entravam pela janela aberta para que o dia me acordasse com ele.
Levantava-me da cama. Lavava a cara. Vestia uns calções e uma camisola, enfiava os pés nos chinelos de borracha, pegava na saca do pão, uma saca de pano com uns desenhos bordados pela minha avó e que, segundo constava, era enxoval da minha mãe, agarrava as moedas que estavam ao pé da saca e saía de casa em silêncio para ir à abertura da padaria. Ainda hoje me lembro daquele cheiro a pão que nunca mais vim a reconhecer em lado nenhum. Ainda cruzava eu a praça deserta, às vezes com gente ainda dos restos das noites que me estavam proibidas, gente que dormia caída à entrada das portas, com poças de vomitado ao lado e restos de garrafas de cerveja tombada pela calçada portuguesa, e já sentia no ar aquele cheiro ao pão acabado de fazer. Às vezes ainda tinha de aguardar alguns minutos pela abertura da porta e, quando abria, era eu o primeiro cliente, levava pão fresco, papo-secos ainda quentes e às vezes uma arrufada que não chegava inteira a entrar em casa. Depois, sentado sozinho na mesa da cozinha, a ler um livro qualquer de quadradinhos, o Major Alvega, a Revista do Tintim ou o Jornal do Cuto, bebia um copo e leite frio e comia um papo-seco com manteiga, rasgado aos pedaços, que enfiava na boca sem tirar os olhos das páginas cheias de desenhos fantásticos e estórias do arco-da-velha.
Depois ia para o sofá da sala esperar que o resto da casa se levantasse. O resto da casa era a minha mãe e a minha irmã. Às vezes o meu pai. Mas o meu pai nunca ia para a praia connosco. Dava-se mal com o calor. Ficava com o corpo cheio de borbulhinhas que lhe davam muita comichão. Eu herdei essa alergia ao calor, mas acabei a contornar esse problema com o Zyrtec.
A minha mãe levantava-se. Acordava o resto da família. Arranjava as coisas. Comia. Dava de comer. E depois íamos.
Eu levava a minha toalha sobre o pescoço e uma sacola com dois ou três livros de quadradinhos para ler nessa manhã na praia.
Quando lá chegávamos eu ia logo ao mar molhar os pés e ver como é que seria o resto do dia. Depois voltava para a barraca, estendia a toalha, fazia um montinho para a cabeça, agarrava num dos livros de quadradinhos e evadia-me.
Regressava quando a minha irmã me chamava para ir com ela ao banho. E então íamos ao banho e ficávamos por lá até a minha mãe nos chamar, depois de estar a chamar-nos durante algum, bastante, tempo. E de nós fingirmos que não a ouvíamos.
Voltávamos para a barraca. Eu estendia-me ao sol. A minha mãe dava-me um pão com manteiga que eu devorava em três dentadas e ficava ali um bocado, de barriga para baixo, as costas para o sol, a imaginar-me nas aventuras com o agente Ene 3, o Buffalo Bill ou o Tarzan, o rei da selva.
Mais tarde haveria de voltar a casa para almoçar, que a minha mãe fazia sempre almoço para nós e para o meu pai, quando o meu pai estava. Iria dormir a sesta. Lancharia. E ainda iria para a praia lá mais para o fim da tarde. Nessa altura dava um passeio até às rochas e depois voltava a ir para o mar, nadar, mergulhar, brincar. Voltaria à toalha. Estender-me-ia ao sol. A minha mãe dar-me-ia um pequeno Tupperware com pedaços de fruta que eu devoraria e, quando o sol começasse a desaparecer no horizonte, voltaríamos para casa onde a minha mãe iria preparar o jantar enquanto eu e a minha irmã tomávamos um banho de chuveiro, rápido. Iria queixar-me das queimaduras nos ombros. A minha mãe iria dizer Eu bem te avisei, enquanto me iria passar um creme hidratante, provavelmente Nivea, nos ombros e, depois de jantar, iríamos dar um passeio pela marginal, regressaríamos a casa e, antes de dormir, eu iria ler mais um livros de quadradinhos.
No dia seguinte tudo se repetiria. Da mesma maneira. Exactamente da mesma maneira. Pelo menos é assim que o recordo. E aquele cheiro ao pão fresco, acabado de cozer. Que vontade tenho agora de voltar no tempo por um daqueles papo-secos acabados de sair do forno.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/14]

Tocar a Rebate

E era o quê? O fim de uma época? O fim de uma história? E onde é que eu estava nela? Na história? Era o protagonista ou um mero figurante a quem davam as ordens a executar? Vira ali, faz assim e assado ao cabelo com a mão, acelera mais um pouco o passo e baixa a cabeça, e os olhos, toma especial atenção em baixar a cabeça. Era o respeito?
No fim de tudo aquilo só queria perceber se eu significava alguma coisa. Se era algum marco na história. Se tinha relevância. Senão, nada valia a pena e o melhor era mesmo acabar com tudo e de vez.
Depois de tantos anos a fazer como as galinhas de carne rija com que a minha mãe fazia a cabidela, a acartar pedra para o castelo, calejar as mãos, magoar as costas, perder a visão e os nervos fazerem-me cair o cabelo, a inação fazer-me crescer a barriga e a pila ficar cada vez mais sem tesão, vejo-me na eminência de perder tudo o resto, o pouco que me sobra, a vida. Uma vida sem grande valor, é certo, mas que é a minha.
Desanimado com tudo o que tem vindo a acontecer, sentei-me no sofá a ver a terceira temporada da série The Deuce. O coração da Big Apple na sua fase mais decadente mas, talvez, a mais criativa. Times Square é um balde de lixo mas onde jorra vida, a vida dos sobreviventes, dos sobreviventes da marginalidade que vinha de trás, a pornografia, a prostituição, a indústria de cinema pornográfico, as drogas e os clubes nocturnos onde toda a gente renascia para mais uma dose de loucura, entre a arte e os excessos. Já se morria de Sida. Eram os homossexuais, primeiro. Não tardaria a chegar a toda a gente. Mas a carga de doença homossexual iria sobreviver ao futuro, mesmo que já todos saibamos que não.
Num dos episódios uma personagem diz para outra, que está infectada com o HIV, Morre, mas morre a gritar, a fazer barulho, a chamar a atenção.
E foi aí que parei. Não vi o resto da temporada. Sei como é que terminou Times Square, agora limpo e higienizado, rico, glamoroso. Não sei como é que terminou a história de Vincent (o irmão gémeo, Frankie, esse foi morto a tiro nas ruas sombrias e decadentes), Candy, Abby, Lory e todos os outros construtores em negativo do sonho americano. Um sonho americano feito em cima de corpos vendidos em pensões baratas, no celulóide e mais tarde no vídeo, e nas ruas sujas e a cheirar a mijo.
Fui ao quarto. Ao armário do quarto. Ao fundo do armário do quarto. À caixa escondida no fundo do armário do quarto. Agarrei no revólver. Prendi-o no cós das calças. Saí de casa. Parei no alpendre. Acendi um cigarro. Um dos gatos veio roçar-se em mim. Baixei-me e fiz-lhe uma festa. O gato caiu no chão de patas para cima à espera que lhe afagasse o peito. Assim fiz. Depois desci a alameda até à estrada. Vi o cão a olhar para mim do quintal. Os gatos acompanharam-me enquanto descia a alameda e pararam ao portão a ver-me fazer a estrada em direcção à aldeia.
Era um dia de sol. Estava sol e calor. Um céu azul como só no Verão. Ninguém diria que estávamos ainda em pleno Março, não era sequer a Páscoa e vivíamos na hora de Inverno.
Fiz a estrada a fumar o cigarro. Quando entrei na aldeia sentia a transpiração a escorregar-me pela testa, os sovacos a ficarem inundados e os olhos a fecharem-se com o excesso de claridade.
Não havia ninguém na rua. As pessoas, pelo menos as da aldeia, e pelo menos naquela altura, estavam a levar a sério a história do confinamento, da reclusão, da quarentena que nos tinham sugerido para não dizer imposto. Agora que tinham começado a morrer uns velhos. E estes já tinham nome. Eram vizinhos, amigos, família. Agora a morte existia e tinha rosto. Finalmente obedeciam à sugestão. Afinal estamos em democracia, não é? O povo é soberano. Pena que uma parte do povo não saiba ser povo e é tão só e ainda animal, animal feroz a aprovisionar para tempos difíceis para si e para os seus esquecendo que somos grupo, sociedade, e só assim, juntos e em grupo conseguimos sobreviver a todas as contrariedades que nos possam aparecer à frente.
Não havia então ninguém nas ruas da aldeia. Talvez fosse afinal por estar calor e terem aproveitado para dormir a sesta. Já que quase ninguém estava a trabalhar, às vezes ainda se via um ou outro aldeão a cuidar dos seus talhões de terra a plantar batatas e milho e outras coisas da época, mas aqueles que trabalhavam na cidade e estavam de regresso a casa, alguns deles despedidos num eufemístico lay-off e outros sem apelo nem agravo, já sem terem onde cair, a comer os últimos tupperware com sopa que uns velhos mais velhos faziam sempre a mais e chega sempre para mais um, a fome que começava a alastrar, a fome que, final, nunca tinha desaparecido desde antes da revolução dos cravos, porque há sempre uns que não encaixam, que são excedentários, que não interessam, chamam-lhes ervas daninhas ou as maçãs podres do cesto, porque há sempre quem saiba tudo e saiba bem e marque o destino dos outros porque antes os outros que eles, antes que eles se tornem nos outros, e então estariam a dormir a sesta porque enquanto se dorme a sesta afugentam-se as fomes, as tristezas e, ao despertar, há sempre um momento em que a história pode tombar para qualquer um dos lados e, um dia, até pode ser que tombe para o lado certo.
Não havia ninguém nas ruas quentes e brancas da aldeia. As portas da igreja estavam abertas. Mas não estava ninguém. Agora ninguém vinha à igreja. A missa era transmitida pela internet. As portas estavam abertas para se algum fiel quisesse, precisasse, de se sentir em comunhão, mas um de cada vez que as regras agora são essas. E eu entrei na igreja e fui direito à torre sineira e abri a porta e entrei e agarrei-me à corda do sino e comecei a puxá-la para baixo com toda a minha força e deixei-me subir com ela no embalo e voltei a puxar a corda e o sino começou a bater a bater com força um toque de rebate violento forte e eu a subir na corda no embalo e a regressar para bater de novo e outra vez e mais outra os pés no chão os pés no ar a puxar a voar a bater a rebate outra vez e mais outra e outra e gritei gritei alto a plenos pulmões todas as minhas dores gritei todo o calão aprendido no anos de liceu e com as mulheres dos pescadores da Nazaré até me deixar sem voz no berro final…
Deixei o sino embalado a tocar sem parar.
Estava transpirado. Cansado. Afónico. Os olhos muito abertos.
Agarrei no revólver que tinha preso no cós das calças e fui para a entrada de portas abertas da igreja. O revólver na mão.
Venham. Venham.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/28]

Um Espirro num Autocarro Expresso Cheio de Gente

Em plena e dramática expansão do Covid-19, tomo, como é normal em mim, mais uma decisão repentina e absurda e apanho o autocarro expresso, mas que pára duas vezes em pouco mais de cem quilómetros, para a cidade grande em horário nobre, o que quer dizer que vai cheio e cheio de estudantes e de sacos de estudantes com roupa lavada e passada a ferro pela mamã e tupperwares com comida congelada que a mãe foi guardando ao longa da semana para o petiz não morrer de fome lá longe e parar de deixar as calças escorregarem pelo rabo abaixo e mostrar os boxers Intimissimi de tanta magreza, de hormonas aos saltos e à galhofa nos bancos traseiros, onde eu costumo esconder-me das multidões, lá está, e a contar anedotas de cariz sexual-badalhoco a que todos eles respondem com sonoras gargalhadas, algumas temperadas com expectoração solta na garganta e fungadelas profundas e profundamente sonoras e penso que estas camionetas já não abrem os vidros das janelas e os miúdos não costumam usar lenços de papel como não usam guarda-chuvas nem desodorizante e enterro-me na minha cadeira, que é sempre pequena, sempre muito mais pequena que eu, e por isso o enterrar é metafórico, e rezo para que a viagem se faça como no tempo d’A Gente do Amanhã, que colocavam as mãos na fivela do cinto (que era um tele-transportador) e desmaterializavam-se num lado para se materializarem noutro, quase instantaneamente, como num piscar de olhos, e é por isso que não fico preocupado quando ouço as preocupações dos jornalistas da ciência com os Exo-Planetas que ficam sempre longe, para cima de 100 anos-luz de distância, os mais próximos, e eu sei que a grande revolução da humanidade vai ser a viagem à velocidade da luz primeiro, depois a utilização de portais e, finalmente, e por último, o transporte-instantâneo.
De repente, um espirro.
Foda-se!
A odisseia começou antes. Podia ter comprado o bilhete por uma aplicação digital. Não comprei. Mas não comprometi nada. Ou quase. Não havia fila para a aquisição de bilhete, o que acabou por ser rápido e ainda pude escolher o lugar, que mais tarde percebi ter sido escolha errada, devia ter deixado funcionar a aleatoriedade. Com isto fui mais cedo. Mais cedo para a garagem central das camionetas. Meia-hora em pé à espera por um autocarro que atrasou mais de dez minutos, esperei de pé que os bancos de madeira estão enfiados numas reentrâncias na parede e é, de todo, e por isso, impossível algum ser-humano sentar-se e encostar as costas ao espaldar dos bancos. Uma vez tentei e ia partindo a nuca. Acho que as dores-de-cabeça que tenho hoje em dia começaram aí. Aguentei estoico o frio da corrente-de-ar que se passeia pela garagem velha, suja e decadente, onde um homem fustiga, desde madrugada, os ouvidos do povo com os berros para um microfone que explode nas colunas roufenhas que informam os cidadãos das camionetas em jogo, em que pista estão, para que destino irão partir e a que horas. Aguento estoico encostado ao pilar de mosaicos a que falta já mais de metade deles e os que restam estão pintados como se de uma mera parede de estuque se tratasse e noto que as camadas de tinta são já tantas que não há pintura que lhe restitua a dignidade. Ufa!
Entretanto assisto ao êxodo da juventude dos subúrbios e das aldeias dos arredores. Descem de camionetas que parecem gastar mais óleo que gasóleo. É uma fumarada dentro da garagem que me entoxica mais que o Português Suave sem Filtro que fumava nos meus anos da Faculdade de Letras. Os miúdos partem em magotes para as escolas. Para as várias escolas da cidade. Vêm de manga curta e de fato-de-treino. Sinto um arrepio nas costas. Não é assim que nos constipamos?
Finalmente o meu autocarro. Tem o símbolo do wi-fi na porta. Mas, lá dentro, é mentira. Ainda pergunto ao motorista Não há wi-fi? Ao que ele responde Está ligado!, e ficamos assim. Regresso ao meu lugar e tento enterrar-me no meu lugar (é agora o momento metafórico em que me enterro num banco que é pequeno demais para mim e para qualquer um dos miúdos que vai ali à minha volta). As únicas pessoas que cabem naqueles bancos e naqueles espaços são as velhotas que vão, invariavelmente, nos bancos da frente, a olharem muito compenetradas, o caminho por onde o condutor as leva.
Lá fora o tempo está cinzento. Chove um pouco. Não muito. Nem dá para dizer que choveu. Na verdade é só mais um preciosismo meu para que a viagem não termine já.
E então lembro-me: um espirro!
Foda-se!

[escrito directamente no facebook em 2020/03/04]

Dia Um de Setembro

Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. Os emigrantes regressam a França. À Suíça. Ao Luxemburgo. Os parques de campismo ganham clareiras. As unidades hoteleiras deixam de estar lotadas. Deixa de haver festas nas aldeias. Os Santos já foram todos homenageados. Os camiões TIR, que se transformam em palcos de luz e cor, voltam para as suas garagens à espera da rentrée, que não tardará. Deixo de ouvir os morteiros que me anunciavam as festas aqui à volta. Os pais pegam no dinheiro que esconderam nas férias, por causa das tentações, e avançam para a compra do material escolar dos filhos. A escola está aí ao virar da esquina. Alguns pais andam desesperados com o site Mega. Não funciona. Ou funciona mal. Aos bochechos. Os pais não conseguem os vouchers para adquirirem os livros gratuitos. As secretarias das escolas vão estar a meio-gás e não vão ter as informações necessárias. Haverá gente que irá parecer não ter ido de férias. Ou ainda não ter voltado. As cidades, amanhã, vão ter mais gente, mais carros, mais confusão.
Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. É altura de eu ir até à praia. Ter espaço para estender a toalha sem ter de deitar a cabeça nos pés do vizinho. Mergulhar na água do mar e não no chichi da velha. Poder dormir na areia e não ter de levar com o tijolo musical do jovem adolescente. Com a bola do atleta. Com a estória interminável da tagarela que não se cala, nem com o choro da criancinha que quer um gelado, uma Bola de Berlim, uma Bolacha Americana, ir ao mar ou, tão só, chatear toda a gente só porque sim.
Dia um de Setembro. Saio de casa de manhã. Levo chinelos nos pés. Calções de banho vestidos e outros para vestir mais tarde. Uma toalha. Um boné. Uma garrafa de água que deixei no congelador de véspera. Um Tupperware com uvas. Os óculos escuros que impedem os raios UV de me estragarem os olhos e uma vontade de mergulhar no Atlântico.
Dia um de Setembro. Cruzo-me com poucos carros na estrada. Pareço estar num filme pós-apocalíptico. Rodo sozinho. Fumo um cigarro enquanto faço o pinhal de Leiria que ainda não ardeu, a caminho da Nazaré. Deito a cinza no cinzeiro. Aproximo-me do primeiro carro que vejo desde que saí de casa. Vejo sair um pacote de batatas fritas pela janela do lado direito do carro. Apito. Ele responde com outra apitadela. Depois vejo um braço a sair pelo vidro esquerdo e fazer-me um pirete. Filho-da-puta!, penso.
Acelero. Ultrapasso o carro. Ponho-me ao lado dele. Olho para o homem que vai a conduzir através dos meus óculos escuros. São Ray-Ban. Não faço nenhum gesto. Só olho. O homem evita olhar para mim. Não estava à espera que eu me chegasse à frente. Guino o volante para a direita. O tipo assusta-se. Guina também para a direita e sai da estrada, entrando pelo pinhal de Leiria dentro. Eu continuo em frente, indiferente ao carro, ao tipo e a quem mandou o pacote de batatas-fritas janela fora.
Estou a chegar à Nazaré. No Calhau vejo uma quantidade enorme de cartazes a anunciar Quartos, Rooms, Zimmers, Habitaciones.
É bom sinal. Quer dizer que já toda a gente foi mesmo embora. Só espero que já não hajam Caravelas Portuguesas a impedir-me de ir ao mar.
Quando começo a descer para Nazaré, percebo que, afinal, ainda não acabaram as férias de toda a gente. É Domingo. É a porra de Domingo. Há fila compacta para chegar lá abaixo, à praia da Nazaré. Na rotunda, vejo que também há fila para ir para o Sítio.
Foda-se!
Contorno a rotunda e volto para trás. Volto para casa. Ainda não estou preparado para multidões. Afinal, ao fim-de-semana, Setembro ainda não é Setembro.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/01]

A Mãe

Ela acordava todos os dias às sete da manhã. Mesmo aos fim-de-semana, dias em que podia descansar um pouco mais. Mas habituara-se. Levantava-se às sete. Casa-de-banho. Duche. Vestia-se. Secava o cabelo, mas nem sempre, à vezes gostava de ir com ele molhado, tombado sobre a cara, a arrefecê-la. Passava pelo quarto do filho mais novo Acorda, vá! Está na hora! Vá, vamos! E ia preparar o pequeno-almoço. Quando o filho mais velho estava de regresso a casa, para lavar roupa e buscar comida, levava-lhe uma caneca de leite com chocolate, que ele adorava. Mas era raro vir a casa. Estava lá para a universidade. A estudar. A estudar o que ela não pode estudar. Ou não quis? Às vezes já nem sabia bem os contornos da sua própria vida. Sentia-se cansada.
Depois de preparar o pequeno-almoço, preparava também o almoço, caso o filho mais novo viesse almoçar a casa. Ela vinha também. Tomar conta dele. Garantir que ele se alimentava. Que nada lhe faltava. Mas era chegar, comer e partir de regresso ao trabalho. Se não viesse a casa almoçar, arranjava uma sandes e umas peças de fruta, que colocava num tupperware, e comia lá no trabalho. Mas não gostava de comer no trabalho. À frente dos outros. Ela até gostava de beber um copinho de vinho à refeição. Mas não à frente dos colegas. Não no trabalho. Não lá.
Antes de sair, e ela era sempre a primeira a sair de casa, ainda ia ver se o filho já estava levantado. Dava comida aos gatos. Dava comida ao cão. Limpava os cocós do cão. Às vezes mudava a areia aos gatos. De Inverno ainda tinha de limpar a geada no vidro do carro. E então, lá ia. Trabalho. Um trabalho sem chama, que não a motivava, mas que lhe pagava as contas de mãe solteira.
Regressava ao fim da tarde. Cansada. O filho mais novo no quarto. Talvez a estudar. Talvez a jogar. Talvez na internet. Aspirava a casa. Limpava o pó. Em certos dias fazia máquinas de roupa. Havia sempre muita roupa para lavar. E para secar. De Inverno era sempre uma chatice para secar a roupa. Não tinha máquina de secar (e onde é que a ia pôr?) e tinha de andar sempre a improvisar estendais lá por casa. Às vezes parecia-lhe que a casa era uma barraca de circo. Ficava envergonhada quando o filho mais novo levava um colega lá a casa e havia roupa estendida. Por isso estava sempre a perguntar Vem alguém contigo cá a casa, hoje? Mas o filho nunca sabia. Ou não respondia. Era adolescente.
À noite, jantava ela e o filho mais novo. Ela ainda tentava saber como tinha corrido o dia do filho. Ele respondia-lhe por monossílabos. Às vezes sentava-se e levantava-se sem abrir a boca. Mas mesmo assim, era melhor companhia que o mais velho. O mais velho quando vinha a casa, era raro jantar. Tinha sempre jantares com os amigos. Mas quando jantava, as poucas vezes que jantava, enfardava qualquer coisa rápido por estava sempre com pressa, sem tempo, atrasado.
Ela estava sempre adiantada nas refeições. Sempre a pensar o que fazer para o jantar de amanhã, para o almoço de depois de amanhã. Era boa cozinheira. Com boa mão. Com olho para os temperos. Mas era raro o dia em que o filho gostava. Não queria. Não tinha fome. Estava cheio. E depois ela ia descobrir papelinhos de chocolates e embalagens de gomas vazias no quarto dele.
Quando, no fim do enorme dia, e depois do filho estar na cama, ela se sentava, finalmente, no sofá, em frente à televisão, adormecia.
Estava cansada.
Já não via nada. Era embalada pelo som baixo da televisão e, normalmente, adormecia por ali, pelo sofá. Às vezes, a meio da noite, acordava para ir à casa-de-banho e então sim, ia para a cama, dormir duas ou três horas mais aconchegada.
Às vezes dava consigo a pensar se não devia ter casado de novo. Ou pelo menos arranjado um namorado. Ou alguém para mandar uns amassos. Corava quando se imaginava na cama com um homem. Não!, pensava. Estou bem assim. Aceitava a sua solidão. Vivia para os filhos. Para a casa. Para ir seguindo a vida. Um dia após o outro. Ainda houve uma altura em que chegou a juntar dinheiro para ir passar uns dias de férias ao Algarve. Talvez ao sul de Espanha. Parece que é mais barato, dizia a si própria. Mas depois… O carro, o seguro do carro, os constantes aumentos do preço da gasolina, alguns arranjos necessários lá em casa, umas sapatilhas para o filho mais novo, umas calças para o filho mais velho e acabou por desbaratar tudo o que tinha guardado.
A sua única tristeza era a falta de afecto dos filhos. Não que fossem maus, que a tratassem mal, que lhe faltassem ao respeito. Não! Nada disso! Mas sentia-lhes a falta de um abraço. Um aconchego. Um beijo. Um pouco de ternura. Não que fossem pessoas frias. Ela é que era, simplesmente, a mãe.
Um dia o filho mais novo acordou já passava da hora de ir para a escola. A mãe esquecera-se de o acordar? Ou fora-se embora e deixara-o na cama? Levantou-se rápido e vestiu-se. Nem tomou banho. Passou pela casa-de-banho para urinar e depois deu um pulo à cozinha, antes de sair de casa, para beber um copo de leite rápido. Foi ao chegar à cozinha que viu a mãe, sentada à mesa, com uma chávena de café, já fria, à frente. Mãe! Estou atrasado! Não me acordaste!, mas a mãe não respondeu. Nem se mexeu. Mãe! Mãe!, insistiu. Aproximou-se da mãe. Colocou-lhe a mão no ombro. Ela não se virou. Agarrou-lhe no braço. E ele caiu, inerte.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/18]

Embalado pelo Mar

Acabou o Agosto. Está a acabar o Verão. Os emigrantes já foram lá para onde estão emigrados. As festas de todos os santos possíveis também terminaram.
Vou à praia e estou sozinho. O mar está calmo. A ondulação é tranquila. Adormece. Deito-me no colchão-de-ar e deixo-me ir ao sabor das correntes fracas que por aqui andam agora. Acho que o mar esperou que toda a gente se fosse embora para me presentear com uma praia de sonho.
O senhor das Bolas de Berlim já não passa por aqui. Mas trago um tupperware com pedaços de melão, do verde e do amarelo, com pedaços de meloa, de melancia.
Sento-me na toalha, molhado, o cabelo a pingar, e dou cabo de todos os pedaços enquanto o diabo esfrega um olho.
Olho à volta e vejo um casal estrangeiro muito branco. Ele espalha Factor 50 pelas costas dela.
Lá mais ao fundo, uma avó com o neto. Ele come um gelado. Ela faz renda.
Não há mais ninguém.
Há gente que se passeia pela calçada marginal.
Sente-se o cheiro das sardinhas assadas. Ainda há pessoas suficientes para fazer mexer os restaurantes e snacks e cafés e bares, mas são outro tipo de pessoas que procura outro tipo de experiências.
Por momentos sinto-me só. Quase sozinho no mundo.
Olho para este mar tão convidativo e penso no que é que poderia querer mais.
Sorrio. Sorrio para mim. Cá por dentro.
Pego no colchão-de-ar e lanço-me ao mar. Deixo-me embalar. Os olhos fecham-se. Deixo-me adormecer. Sinto-me a ser levado para longe. Suavemente. Sinto os poucos barulhos da praia a ficarem cada vez mais longe. Mas não abro os olhos. Deixo-me tombar nas mãos do mar e deixo-me levar onde ele me quiser levar.
Não estou preocupado. Acredito que me vai levar a bom porto. Deixo-me ir. No suave embalo deste mar em final de Verão.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/12]