Foda-se! Caralho!

E de repente fez-se silêncio. Meu e do outro lado do telefone. Percebi que disse qualquer coisa que não devia ter dito. Busquei, na minha memória imediata, o que tinha acabado de dizer. E entendi.
Do outro lado do telefone o breve silêncio. Depois o suspiro de enfado. O nojo da conversa. E a voz da mulher, a voz fria da mulher sem paciência do outro lado do espectro telefónico diz que vai desligar. E eu fico assustado. Não quero que ela desligue. Não quero que ela se vá embora. Ela diz que aquela linguagem não é linguagem apropriada. Eu disse Foda-se!, mas não a mandei foder. Disse só Foda-se! Uma interjeição. Um grito. Uma forma de sublinhar o meu desespero. O desespero que lhe tinha afirmado mas que percebi que tinha caído em saco roto. Ninguém quer saber dos dramas alheios.
Aquela gente não é gente. Aquela gente tem bits e bytes no lugar do coração. Aquela gente não sente. Não se sente. A lei é regra, mesmo quando injusta. Não há atenuantes. Não interessa a história. Nem o enquadramento. É assim, é assim ponto final, parágrafo.
Porque é que não lidamos directamente com máquinas? Poupávamos nos salários desta gente que não é gente.
Peço desculpa pela minha linguagem, disse. Não queria dizer o que disse, voltei a dizer. Estava, estou, desesperado. Triste. Zangado. Não vislumbro saída. Sinto-me acossado e então, saiu-me Foda-se! Tive sorte não me ter saído um Foda-se! Caralho! que era o mais apropriado quando me sinto encurralado, sem saída e sem fazer puto de ideia de como resolver o problema quando, do outro lado, a voz, aquela voz, monocórdica, gelada, imperturbável, se rege rigidamente pelos mandamentos das regras, da lei, da filha-da-puta da lei que é entendida à letra e feita cumprir à letra a não ser que se possa pagar um advogado, um bom advogado, daqueles que interpreta a lei que, afinal, só é à letra para quem não pode pagar o advogado com dotes interpretativos.
Senti umas lágrimas assomarem aos olhos. A voz a embargar, a ficar retida na garganta. Desculpa! Peço desculpa. Uma e outra vez enquanto ela, a voz, me avisa que vai desligar, que assim não se pode falar e eu vergo tanto as costas a pedir desculpa pela minha linguagem, português, foi português que eu usei! que a voz lá acede a dispensar-me mais uns segundos de caridade à minha pedinchice que eu já sabia que não iria dar em nada. Como não deu.
Depois de desligar o telefone e estar quase na mesma como estava antes do telefonema pensei Estou mesmo fodido! E estou! Estou fodido e não sei como arrepiar caminho.
Há dias em que não me apetece levantar a cabeça da almofada. Há dias em que me apetece ficar na cama, debaixo do edredão, a imaginar mundos de sonho que não são os meus. Há dias em que só um Foda-se! Caralho! me dá alento para continuar vivo, nem sei bem porquê. Nem para quê.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/14]

À Procura de um Sentido

Não preguei olho toda a noite. Vi as horas passarem por mim e eu acordado. Não costumo ter insónias. No geral durmo bem. Durmo profundamente. Nem sonho. Não perco tempo a sonhar. Durmo um sono descansado nos tempos que tenho marcados para dormir. Não esta noite. Não sei o que aconteceu. Talvez a caneca de café da avó que bebi às dez da noite. Talvez o papo-seco com uma fatia de queijo flamengo que comi a acompanhar o café. Talvez os cinco cigarros que fumei depois do café.
Talvez seja uma coisa da idade.
Deitei-me era meia-noite. À uma voltei a acender a luz da mesa-de-cabeceira. Sentei-me na cama. Fiquei ali sentado a olhar para a parede em frente. Uma parece vazia. Pintada de branco-ovo. Sem quadro. Sem móvel. Sem janela. Um pedaço vazio de parede. Estava completamente desperto. Com a sensação de ter os olhos muito abertos. Esbugalhados. Estava assim desde que me tinha deitado. Fiquei assim a tentar que a escuridão da noite, do quarto, da cama, os fizesse fechar.
Levantei-me à uma da manhã e fiquei ali sentado na cama a pensar o que fazer para me entreter, fazer passar o tempo e chamar o sono.
Enquanto pensava, as horas passavam. Uma. Duas. Três. E eu continuava ali sentado na cama, muito direito sentado na cama, sem me decidir em agarrar o iPad, ligar a rádio, a televisão ou pegar num livro da pilha que todos os dias aumenta na mesa-de-cabeceira sem que eu lhe dê andamento. Quatro. Cinco. Seis. E começou a doer-me as costas. O rabo. A cabeça. Tomei um Ben-U-Ron. Levantei-me e fui à casa-de-banho. Sentia-me cambalear. Estava cansado. Precisava de dormir. Sentei-me na sanita e esqueci-me do que tinha lá ido fazer. Lavei os dentes, mas perguntei-me se não os tinha lavado antes de me deitar.
Dei duas voltas à casa a confirmar que tinha as janelas todas fechadas.
Sentei-me na cozinha a fumar um cigarro. Soube-me mal e acabei por só dar duas passas. Pensei em lavar os dentes outra vez. Não o fiz. Voltei para a cama. Eram sete da manhã. Apaguei a luz e deitei-me no escuro possível com a luz do dia a tentar furar por todo o lado.
Eram oito da manhã e acordei com o telemóvel a tocar. Era a minha mãe. Atendi. Estás bem? perguntou-me ela. Estás bem? Estava melhor quando estava a dormir, respondi.
E ela disse Estavas aqui comigo mas não falavas. Tinhas uma coisa nas mãos que não percebi o que era. Tinhas um olhar triste. Eu falava para ti e não me respondias. Estás bem? Sim, mãe, estou bem! Eu falava para ti e tu nem olhavas para mim e depois viraste costas e foste-te embora. Eu ainda corri atrás de ti mas deixei de te ver.
Eu tive uma visão da minha mãe a correr e sorri. E garanti-lhe Estou bem, mãe. Estou mesmo bem. Deve ter sido um sonho. Não, não era. Eu vi-te. E falei contigo. Estás mesmo bem? Sim, mãe. Fica descansada.
Ela desligou o telemóvel. Mas não estava completamente convencida. Eu disse-lhe para passaria em casa dela mais tarde. Eram oito e dez e eu tinha de me levantar.
Sentia-me cansado.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/03]

Fotografa-me!

E ela pediu-me Fotografa-me! e pediu com tanta insistência que me levantei da cama, vesti as cuecas e fui buscar a câmara e o tripé. Mexi nas janelas. Nas persianas das janelas. Nas cortinas da janelas. Moldei a luz que entrava pelo quarto. Ela afastou o edredão de cima de si e mostrou-se nua Fotografa-me! dizia.
Olhei através da câmara. Vi-a. Mexi nela. Mexi no corpo dela. Puxei. Encolhi. Alonguei. Lancei o lençol sobre parte do corpo nu. Afastei-lhe no cabelo. Moldei-a. Disparei umas vezes com a câmara nas mãos. Fui ajeitando a câmara. Fui ajeitando-a a ela. Fui aprendendo. Fui aprendendo-a. Subi para cima da cama, para cima dela e disparei. Disparei várias vezes. Muitas vezes. Ela ia fazendo poses. Muitas poses diferentes. Como se fosse muitas. Muitas elas diferentes.
Disparei a câmara de vários ângulos. Sobre ela em várias posições. Umas mais pornográficas, outras mais eróticas, outras mais tímidas, algumas mais púdicas.
Depois coloquei a câmara no tripé. Cortei mais a luz do quarto. Baixei os estores. Puxei as cortinas. Provoquei sombras. Zonas escuras. Pontos de fuga. Contraste.
Olhei pela câmara. Disparei. Voltei a disparar. Mudei o tripé. Disparei. Disparei outra vez. Modifiquei-a a ela, de novo. Transformei-a para a câmara. Para o olhar da câmara. Para o meu olhar através da câmara.
A câmara gostava dela. Era fotogénica. A primeira vez que a fotografei, não a reconheci. A câmara via-a diferente de mim. Mais bonita. Mais explosiva. Muito carnal. Uma imagem de desejo.
Preparei o temporizador. Despi as cuecas e fui juntar-me a ela na cama. Entre os lençóis e o edredão. Já imaginava as fotografias a preto e branco. Cheias de contraste. Com os negros muito cerrados. Silhuetas. E os contornos. Os contornos dos dois corpos que eram um e se amavam ali, em directo, em directo para a câmara. E tudo ficou registado. Registado para a posteridade. Todo o confronto na cama. Desde os primeiros beijos no pescoço, no corpo, as mãos, os músculos retesados, e a reacção dela, as reacções dela, até ao cansaço final, quando caímos, cada um para seu lado, na cama, cansados, gastos. Satisfeitos.
Ela acabou por se levantar. Afastou as cortinas de uma das janelas. Puxou os estores. Abriu mais o vidro da janela e disse, com um sorriso que, pensei na altura, me parecia triste, Agora vais-me ter sempre na nuvem. Vou estar sempre na nuvem, para ti. E ergueu-se para a janela, os dois pés descalços no parapeito, eu gritei Não! ela ainda olhou para trás, em jeito de despedida, um olhar meigo, e saltou, nua, nua como tinha estado na cama, para a rua.
Eu levantei-me a correr da cama, estiquei-me na janela, tarde, tarde demais, sempre tarde demais e ainda a vi em queda livre, e entrei rápido para dentro do quarto, para dentro de casa, entrei para dentro antes que ela chegasse ao chão lá em baixo, na rua, e se transformasse pela última vez.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/30]

Cinquenta

Foi rapidamente que cheguei aos cinquenta anos. Depois de chegar aos cinquenta anos, deixei de contar a idade. Depois dos cinquenta anos sinto que já estou para lá do que seria espectável. Não que já tenha feito tudo o que queria fazer ou que já tenha atingido os objectivos marcados para a minha vida mas, simplesmente, porque é uma idade em que isso deixou de me interessar. Estou vivo. Vou vivendo. Ok.
Há uns anos, lá em cima, no cimo das cataratas do Iguazú, ali na confluência do Brasil, Argentina e Paraguai, ao ver cair no vazio aquela enorme massa de água, e o poder que de lá emanava, lembro-me de ter pensado Agora já posso morrer! Quando vivemos e vemos coisas assim, coisas intensas, parece que se liberta de nós um peso e percebemos que já chegámos onde queríamos chegar ou onde a vida nos poderia levar. Claro que, logo que saí de lá, logo que se quebrou aquela magia poderosa da força da água a cair e o som trovejante que arrasta consigo, percebi que ainda tinha outras coisas mais para ver e sentir antes de poder dizer Agora já posso morrer! Mas já lá vão muitos anos depois disso. Entretanto, já cheguei aos cinquenta anos, já passei dos cinquenta anos, já deixei para trás os cinquenta anos, por vezes já me sinto cansado, muito cansado, demasiado cansado, já vi muito e já vivi muito e não preciso dizer Agora já posso morrer! porque sei que essa é a condição a que estou a chegar, mais dia menos dia.
Passei dos cinquenta anos. Não vi nenhuma luz. Não atingi o nirvana. Simplesmente deixei de me preocupar. Pelo menos, comigo.
Telefonei à minha mãe. Atendeu e disse Agora não posso falar, e desligou. Achei estranho. A minha mãe adora falar. Mesmo ao telemóvel. Esperei que me ligasse. Não ligou. À noite, refiz a chamada. Atendeu. Já tinha jantado. Estava à janela a ver quem passava. E eu perguntei Porque é que não podias falar? e, do outro lado, o silêncio. O silêncio de uma criança apanhada com a boca na botija. Apanhada em flagrante e sem saber como fugir. E o melhor ataque é a defesa. E, finalmente, diz Olha, queres mesmo saber? Estava no Pingo Doce e havia lá gente e não queria estar a falar alto ao telemóvel para toda a gente ouvir a minha conversa e eu precisava de uns morangos e fui lá à procura deles e levei a máscara e não toquei em mais nada juro! juro por Deus! e também não havia morangos e vi-me embora pronto! Ela sabe que não devia ir ao Pingo Doce sozinha.
E fiquei eu em silêncio.
Já cheguei aos cinquenta anos, estou na ladeira da minha vida e a minha preocupação é com uma criança de quase noventa anos que se faz rebelde e arma a revolução.
Acabei a rir. O que é que adianta? Ficar zangado? Triste? Já passei dos cinquenta anos. Acho que temos de viver o resto dos nossos dias como se fôssemos morrer já amanhã. Porque amanhã pode mesmo já ser tarde. E o resto são só estórias que levamos connosco para o túmulo para nos fazer companhia na eternidade. E consta que, por lá, não há vinho nem cerveja nem cigarros nem música nem dança nem sexo, só mesmo a porra de uma eternidade sem sabor.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/26]

Relevo

Está um belo luar. Não que esteja a apreciá-lo, mas porque me permite ver à minha volta. Quase parece dia mesmo sendo noite. À minha frente vejo as ondas a bater na areia. E ouço-as. Ouço-as como o ribombar do trovão. Às vezes é ensurdecedor, faz-me medo e diz-me quão pequeno sou. Outras vezes faz-me só chorar. Nem sei porquê.
Esta semana voltei a ouvir as pessoas, as pessoas no seu geral, nenhuma delas em particular, que isto é uma ideia generalizada, que a depressão é incógnita e ninguém dá por nada, nunca ninguém dá por nada como se houvesse uma culpa, e ninguém pede ajuda a ninguém, e ninguém diz nada a ninguém, até se é uma pessoa sorridente e feliz, aparentemente feliz, com uma família feliz e feliz no trabalho de todos os dias. E o que é que querem? Que as pessoas andem com os pergaminhos da sua condição pendurados ao pescoço como os diplomas e certificados profissionais pendurados em paredes imaculadamente da cor da casca de ovo?
Há muitos motivos para a depressão e não sou eu que irei falar deles, que não sei nada disso. Não sou médico, nem psiquiatra nem psicólogo. Sou só um tipo como os outros que tem os seus altos e baixos motivados pela vida, pela vida de todos os dias, pelo trabalho ou pela sua ausência, pelo salário baixo ou inexistente, pela indiferença de quem depois vem sempre reclamar não saber, não desconfiar, não perceber, como se quisessem lavar as mãos de um problema que desconhecem. Ninguém é culpado de nada. As coisas são assim. Nós somos assim. A vida, esta vida que vamos levando, ela sim, ela pode ser culpada de algumas coisas.
Acendo um cigarro. É difícil com esta maresia quem vem para cima de mim e molha o cigarro. Mas consigo. Limpo as lágrimas com as costas das mãos.
Estou eu também deprimido? É possível, sei lá. Porque é que me isolei? Porque é que fugi das aglomerações? Porque é que já quase só vivo, feliz, nas redes sociais? Porque é que estou aqui, aqui onde estou, agora?
O mar não está bravo, parece mas não está. Também não está tranquilo. Não é o Mediterrâneo. É o Atlântico e o Atlântico, mesmo quando está tranquilo parece que está a ter uma pequena fúria. Se eu viesse, como ele vem, lá do outro lado, depois de ter visto o que ele viu, depois de ter vivo o que ele viveu, se calhar também estava zangado. Zangado, mas não furioso. A zanga não me dá fúria, pois não? Desmotiva-me. Sim, a zanga, a mim, desmotiva-me. Mas não ando sempre zangado. Só às vezes. Só às vezes é que me zango. E depois desmotivo. E fico assim. Assim como estou hoje, não é? Assim sem vontade. Ansioso. Um bocado perdido. Triste, mas sem saber bem porque estou assim triste.
Levanto-me e caminho ao longo da beira do mar. Vejo o mar a bater na areia. Ouço as ondas rebentarem. Sinto o fumo do cigarro a entrar nos pulmões. Percebo a maresia a misturar-se com as lágrimas. Não sou capaz de parar um pequeno sorriso. E porque deveria pará-lo? Acho piada, apesar de tudo.
Sinto saudades de uma bela sardinhada numa mesa grande e cheia de gente à conversa. Lembro com saudades os espectáculos com os La Fura dels Baus (e porquê os La Fura dels Baus?); o Benfica na Europa e eu no terceiro anel; o ano em que andei a conhecer todas as salas de cinema de Lisboa; quando andei a experimentar as tascas do Bairro Alto e do Cais do Sodré quando o Bairro Alto e o Cais do Sodré ainda tinham tascas; quando ia comprar peixe ao mercado de Campo de Ourique; quando passava, vezes sem conta, de carro, ali à volta do Técnico, em noites solitárias; das férias no Pedrogão com os meus pais; do litoral alentejano com as namoradas que já esqueci – e porque é que já esqueci?; do jornal de parede no liceu; das tardes de fórmula um e de rugby na televisão; das cassetes áudio onde gravava o Som da Frente; a primeira vez que ouvi os Durutti Column; os jogos de futebol na rua, com os amigos; o meu primeiro beijo, sim, ainda me lembro do meu primeiro beijo. A única vez em que fui assaltado, assaltado na rua, em confronto, com uma navalha a picar-me a barriga. Até do assalto tenho saudades.
Páro de andar. Olho o mar. Mando o resto do cigarro fora.
Está um belo luar. Consigo apreciar o luar?
Suspiro.
E luto comigo.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/24]

Às Vezes, Sim… Mas Só Mesmo às Vezes

Às vezes esqueço-me. Às vezes penso que ela ainda está lá, aqui, aqui ao meu lado, aqui no alpendre onde me sento a beber um copo de vinho tinto e a fumar um cigarro enquanto olho as montanhas lá ao fundo, e viro-me para o lado, para o lado onde estaria a segunda cadeira que já cá não está, que eu tirei-a e arrumei-a na arrecadação, viro-me para o lado e pergunto São bonitas as montanhas, não são?
Descubro-me ali sozinho. Afinal estou sozinho. Sempre sozinho. Ela partiu já há muito tempo. Quase o tempo que levo aqui a olhar as montanhas, aqui do alpendre. Dávamos os mãos, cada um com o seu copo de vinho, partilhávamos um charro e olhávamos as montanhas. E ela dizia Temos de lá ir fazer umas fotografias. E eu dizia Sim, sim, um dia destes vamos lá, e nunca fomos. Eu já lá fui. Já lá fui tirar umas fotografias que até já me valeram um prémio. Mas fui lá sozinho. Fui depois dela já ter partido. Fui lá já depois daquele estúpido mergulho no Vale Furado. Porque quis ir à praia? Porque a incentivei a ir à praia? Porque insisti em que descêssemos aquele penhasco íngreme até à areia, até ao mar, até lá baixo ao fundo, ao fundo do Vale Furado? Porque é que mergulhei? Porque é que a deixei mergulhar?
Às vezes esqueço-me que estou sozinho e cozinho a mais. Sempre a mais. Vou enchendo tupperwares que vou depositando na arca-congeladora na arrecadação. Às vezes lembro-me que tenho lá comida já feita e vou buscá-la. Deixo-a a descongelar de um dia para o outro e depois aqueço-a no micro-ondas.
Ponho a mesa para dois. Mudo a fronha da almofada dela na cama. A escova dos dentes, ressequida, ainda está lá pelo copo em cima do lavatório. E o secador com o cabo ligado à ficha da casa-de-banho. Eu nunca usei secador. Continuo a não usar.
Às vezes vou fazer um gin tónico e faço dois. Acabo a beber os dois, é claro. Nada se perde.
Mas não estou maluquinho. Nem parei no tempo. No tempo em que ela estava aqui sentada ao meu lado, aqui onde olhávamos as montanhas lá ao fundo, aqui onde víamos os jogos do Benfica, aqui onde líamos os jornais e as revistas que ela ia buscar à aldeia, e que eu nunca mais fui buscar. Se calhar ainda estão por lá. Se calhar tenho uma grande conta para pagar na tabacaria. Eu sei que ela morreu. Eu sei que ela não vai voltar. Mas as coisas são assim. Mas não me chateio. Nem fico triste. Talvez um pouco melancólico, às vezes.
Às vezes lembro-me de uma anedota, eu que nunca me lembro de anedotas, não tenho jeito nenhum para as guardar e muito menos para as contar, às vezes lembro-me de uma, assim do nada, e conto alto para ela, para ela ouvir a anedota, e às vezes até a ouço rir, mas sei que não é ela, ela não está cá e é tudo fruto da minha imaginação.
A primeira vez que estive com uma mulher depois dela, a primeira vez que trouxe uma mulher cá a casa, ela sentou-se ao meu lado na cama, sorriu-me e disse Não há problema. Eu vou ficar aqui a ver. Mas houve problema. Não consegui estar ali com outra mulher a sentir-me observado por ela. Levantei-me da cama. Disse à mulher Desculpa, já venho! e fui fazer dois gins tónicos. Fui até ao alpendre e dei um gole num deles. O outro era para ela. E depois deixei-os lá.
Voltei para o quarto. Ela não regressou comigo. As coisas acabaram por correr bem. Correr bem! Acabaram por correr bem no limite do possível.
Quando me levantei, mais tarde, quando regressei ao alpendre, descobri os copos vazios. Mas desconfio dos gatos. Eles bebem tudo.
Às vezes sinto o corpo cansado. Deito-me na cama e digo Dá-me uma massagem, por favor. E ela dá. Ou, pelo menos, assim me parece. E sinto o corpo a relaxar. Como agora. Continua, vá. Com um pouco mais de força. Não tenhas medo. Sim, assim.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/31]

Para um Diário da Quarentena (Décimo Primeiro Andamento)

O tempo passa e passa por mim. Vai passando. Umas vezes devagar, outras mais depressa. Eu estou desistente. A minha promessa de construir um diário da quarentena ficou-se pela vontade. Não tenho tido forças para levar com o projecto em frente. Não tenho forças para escrever. Não tenho forças para nada.
Ouço os relatórios diários sobre o número de mortos. Não sei se os ouço todos os dias. Mas vou ouvindo. Eu ainda não morri. Ainda não pertenço às estatísticas. Mas às vezes penso que teria sido uma bênção.
Há já uns dias que não visito a minha mãe. Telefono-lhe todos os dias. De manhã e à tarde. Nestes últimos dias só à tarde. As manhãs já não existem para mim. As manhãs são passadas na cama, o edredão por cima da cabeça, ausente, inerte. À espera que tudo passe sem passar.
Pergunto à minha mãe se precisa de alguma coisa. Ela diz que não. Que não precisa de nada. Eu sei que ela está a mentir. Eu sei que ela nunca iria dizer que precisava fosse lá do que fosse. Eu sei que ela sabe que eu estou sem conseguir ser alguma coisa por mais que me custe não o ser. E custa. Mas não consigo erguer a cabeça. Sinto-a pesada. E leve ao mesmo tempo. Está aqui, deitada sobre a almofada, e por vezes dói-me, e por vezes anda não sei por onde, mas sei que me leva a sítios onde eu nunca estive, mas que ela conhece bem.
Há dias que não vejo a minha mãe. Nem os meus filhos. Nem as minhas amantes. Há semanas que não me apetece ter sexo. Já nem me masturbo. Não tenho vontade nem desejo. Sinto-me morto.
Caí na cama e deixei-me apagar. Já não sei quando foi isso. Talvez ontem. Talvez na véspera. Estou deitado na cama. Acordei já o sol ia alto. Ainda não consegui levantar-me. Não fui à casa-de-banho. Não comi. Não tenho fome. Não me apetece comer. Não me apetece levantar.
Foda-se!
Faço o diário. Vá lá, não custa nada. É só organizar o que (não) vivi hoje.
Estive deitado toda a manhã. Acho que dormi. Acho que dormi toda a manhã. Acordei com o sol já bastante alto. Virei-me para o outro lado. Precisava de um comprimido para voltar a dormir.
Não preciso de ir à casa-de-banho. Não tenho fome. O tempo está cinzento. Pus o braço de fora e arrefeceu. Agora está outra vez dentro da cama. Colado ao corpo. Aquecem-se um ao outro. Procuro um comprimido na mesa-de-cabeceira. Quero voltar a dormir. Não encontro nenhum. Já os devo ter tomado todos. Vou ter de me levantar. Ir à rua. Mas não vai ser agora. Nem hoje. Talvez amanhã.
Mais logo irei telefonar à minha mãe. Vou falar sozinho e alto, um pouco antes, para que a voz não soe tão triste. Ela descobre-me nestas pequenas pontuações. Não quero que ela saiba que não consigo levantar-me.
Viro-me na cama. Agora que já decidi que o meu objectivo, hoje, é telefonar à minha mãe ao final da tarde, tenho mais algum tempo para estar deitado na cama sem me sentir culpado. Mas sinto. Sinto-me culpado desta inércia. De não fazer nada. De nem fazer a barba nem lavar os dentes. De não tomar banho. Mas a verdade é que não quero saber. Não quero saber de lavar os dentes nem se fico com os dentes todos podres e escuros e a boca e o cu a cheirar a podre. Não quero saber. Não quero saber de nada.
Às vezes queria ir para o Pingo Doce desprotegido para ser contaminado e resolver de vez esta ansiedade de ser ou não contaminado. É claro que vou ser. Vamos todos ser contaminados. E quando? Quando é que vou ser contaminado? E porque não agora?, agora que não tenho nada para fazer, que não me apetece fazer nada, agora que o corpo pode bem menos que a cabeça e a cabeça já não pode grande merda?
Dobro mais o meu corpo na cama, debaixo do edredão, fico em posição fetal, ponho as mãos entre as pernas para sentir o calor que vem de mim, e agarro na pila e está murcha, muito murcha e eu sinto-me como ela, murcho, cansado e ausente. Estou mais magro. Sinto os ossos a roçar as peles.
Logo ao final do dia terei de estar acordado e telefonar à minha mãe. Logo, logo mais ao final do dia, vou levantar-me e fumar um cigarro. Beber um copo de vinho. Ainda tenho vinho? E cigarros? Vou ter de comer qualquer coisa. Qualquer coisa. Talvez uma torrada com manteiga. E depois vou sentar-me e escrever qualquer coisa para uma espécie de diário da quarentena. Um relato destes dias. Para mais tarde me lembrar como foram estes dias. Para mais tarde alguém saber como foram estes meus dias. Qualquer coisa para o futuro. Para se saber alguma coisa sobre alguém. Mesmo alguém tão anónimo e insignificante quanto eu.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/27]

A Companhia do Meu Primeiro Cigarro do Dia

Nunca tinha reparado nela e, agora, vejo-a todos os dias. Por volta das oito da manhã, acendo um cigarro na varanda, e vejo-a a caminhar ao longo da rua até desaparecer lá ao fundo, e virar à direita, na esquina da pastelaria agora fechada. Ela não sai aqui do prédio. Já vem de baixo. Do início da rua. Não sei se vive aqui ou se só passa por aqui mas, todos os dias, todos os dias desde que estou fechado em casa, vejo-a passar lá em baixo.
Logo da primeira vez chamou-me a atenção porque não passava ninguém aqui em baixo na rua. Eram oito da manhã e eu tinha saído da cama, vestido uns boxers, e vindo à varanda fumar o meu primeiro cigarro do dia. Estava calor, nesse dia. A rua estava deserta. Esta rua que, num dia normal está cheia de gente que a percorre para cima e para baixo, esta rua que, a partir das oito da manhã começa a carregar as suas baterias com a chegada das carrinhas da panificadora, os camiões da cerveja, o pessoal das entregas da DHL, os empregados das lojas que empurram as montras para o passeio, as esplanadas que brotam de novo com mesas e cadeiras e chapéus-de-sol todos os dias, a senhora das flores que coloca vasos na rua, a escola de condução que estaciona a motorizada frente à entrada a apelar às aulas, agora está deserta. Mesmo o pessoal da câmara que, às vezes, e com ajuda dos bombeiros, vinha aqui dar uma limpeza geral, com mangueira, varrer as misérias presas às pedras da calçada, não têm aparecido agora. Agora e desde aquele primeiro dia em que toda a gente, ou quase toda a gente, ficou em casa para evitar a contaminação. Foi nesse dia o primeiro dia em que a vi, a passar lá em baixo, sozinha, na rua deserta, a caminho de qualquer lugar. Provavelmente trabalhar. Num daqueles trabalhos essenciais à nossa vida. Se calhar é repositora de lineares. Caixa de supermercado. Técnica de farmácia. Médica. Enfermeira. Polícia não me parece. Pelo menos daqui de cima. Tem o cabelo loiro. E eu nunca conheci uma agente da polícia com o cabelo loiro.
Agora já não me levanto todos os dias para vir aqui à varanda fumar um cigarro. Agora levanto-me todos os dias para a ver passar lá em baixo. Vai sempre bonita. Bem arranjada. Eu, desde que estou para aqui fechado em casa, ando de boxers, às vezes nu, quando está frio visto um fato-de-treino, que é o que levo à rua se preciso de sair para ir ao supermercado ou à farmácia, ou então visto uma roupa velha, as calças de ganga de pernas largas, as t-shirts que usava para dormir, as sapatilhas rotas, as meias sem elástico, porque regresso a casa e vai tudo para lavar a quarenta graus, e eu de regresso ao duche. Ela não. Ela vai sempre elegante. Como se fosse para alguma festa, mas não será para uma festa porque agora não existem festas. É só uma miúda que gosta de se arranjar e ainda bem, porque gosto de a ver assim arranjada, às vezes de calças de ganga, sapatilhas All Star, outras vezes de saia e camisa, também já a vi de vestido, um casaco por cima, meias de vidro, tudo de várias cores, não sei se tem uma preferida que já lhe vi a colecção da Pantone. O meu guarda-roupa é essencialmente preto e cinzento e o azul das calças de ganga. Um guarda-roupa triste e melancólico. Ela é uma miúda alegre e que me alegra. Agora já preciso dela diariamente para me marcar o arranque do dia. Preciso de a ver. Começo a ter com ela, uma miúda com que nunca falei, mais afinidade que com as minhas ex-mulheres. Imagino-a cheirosa, o cheiro do banho acabado de tomar e talvez o aroma fresco de um perfume leve. O sorriso, que nunca lhe vi, plantado na cara. E uma conversa sem fim.
No outro dia pensei no dia em que não a vir passar. Pensei no dia em que chego à varanda, acendo um cigarro e ela não passa lá em baixo na rua. Nesse dia deprimi um pouco. Cheguei a ter vertigens na varanda. Espero não voltar a deprimir mais. Espero que ela continue a passar. Espero que continue a fazer companhia ao meu primeiro cigarro da manhã.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/18]

E Vou para Onde?

Eu estava sentado na cama, as costas apoiadas na parede de cabeceira, com um livro de fotografias de Wolfgang Tillmans em cima das pernas (naquela época andava muito interessado nas composições do Tillmans, especialmente na criação de texturas e nas naturezas mortas) e ela estava sentada ao fundo da cama de costas para mim.
Tinha pousado o livro nas pernas quando ela entrou no quarto e se sentou de costas para mim ao fundo da cama. Sentou-se muito direita. O cabelo escorria liso sobre as costas. Nada nela se movia. Sentou-se ao fundo da cama, as mãos pousadas sobre as pernas e o olhar provavelmente fixado no exterior que se via para além da janela que ficava à frente dela. E de mim.
Olhei lá para fora seguindo o que imaginei que fosse o olhar dela. Estava a chover. Estava sempre a chover naqueles dias. Dias cinzentos e frios. Dias chuvosos. Dias tristes. De onde estava não conseguia ver a rua, afinal, aquilo era um terceiro andar, não era muito alto, mas o suficiente para me manter acima do limite da rua. Imaginava a rua vazia. Vazia de pessoas e de carros. Estava tudo em casa. Como eu. Como nós. Já lá iam, quanto? três meses, mais ou menos, de confinamento. Como é que as pessoas se estavam a aguentar? Se fosse como nós, eu e ela, mal, muito mal. Quase já não nos falávamos. Dormíamos na mesma cama mas de costas voltadas um para o outro. Ela ganhara o hábito de se despir e vestir na casa-de-banho para não o fazer à minha frente. Passámos a comer quando tínhamos fome, mas sozinhos. Tínhamos sempre fome em alturas diferentes. Se calhar era propositado. Se calhar a culpa era minha. Talvez fosse dela. Ou da situação. Nunca tínhamos estado tanto tempo sozinhos. Ao fim de quinze dias já não tínhamos nada para contar um ao outro. No final do primeiro mês, já não nos tocávamos. Quinze dias mais tarde já mal nos ouvíamos falar. Grunhidos era o que saía das nossas bocas. Ela continuava nas suas leituras. Aqueles poetas checos e polacos que ela desencantava não sei onde. Eu fazia pesquisa para os meus projectos. Projectos que talvez viesse a realizar um dia mais tarde, quando a vida pudesse retomar uma espécie de normalidade e pudéssemos sair à rua e estarmos uns com os outros.
Lá fora, na rua, continuava a chover.
Foi nessa altura que percebi que ela estava a chorar.
E então disse Quero que te vás embora!, assim, sem se virar para mim. Se calhar não queria que a visse chorar. Se calhar precisava de não olhar para mim para ter forças de me pedir o que estava a pedir.
Eu perguntei Agora?
A pergunta ficou um pouco no ar, a ecoar. Pareceu-me sentir uma fungadela. E depois respondeu Sim, o mais rápido possível.
Fiquei ali a olhar para a nuca dela que continuava de costas para mim, provavelmente a olhar a chuva que caía lá fora. Eu ainda tinha o livro do Tillmans aberto sobre as pernas. Via uma fotografia muito bonita com o que podia ter sido o meu pequeno-almoço, umas laranjas num pequeno prato, um filtro de café sobre uma caneca e uma embalagem que talvez fosse de manteiga, ou de queijo-creme, uma garrafa de vidro de leite vazia e uma colher caída junto a uma janela com um relvado verde e o tronco de uma árvore. Era uma fotografia muito bonita mas muito triste também.
Perguntei E vou para onde?
Vi-lhe o braço a subir e a levar a mão até à cara enquanto rebentava num choro sonoro. Levantou-se e saiu do quarto a correr.
Eu fechei o livro do Wolfgang Tillmans e larguei-o na mesa-de-cabeceira. Lá fora na rua continuava a chover. Pensei que mesmo que houvesse alguém na rua a furar o confinamento, agora estaria mesmo vazia. As pessoas não gostam de andar à chuva.
E voltei a perguntar E vou para onde?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/14]

O Meu Primeiro Dia de Liberdade

Preciso de beber. Preciso de me embebedar. Preciso de me embebedar ao balcão de um bar.
Estou farto de livros de filmes de séries, estou farto de notícias e das frases bonitas com que os jornalistas da SIC se despendem todas as noites, estou farto que utilizem o Mário Viegas como se fosse o Cristiano Ronaldo (vão buscar o Cristiano Ronaldo, caralho!), estou farto das estatísticas e dos gráficos e dos números da DGS que esqueço assim que os ouço, estou farto de me aturar, de me ouvir cuspir palavras amargas todos os dias, farto de me ver engordar dia após dia no espelho da casa-de-banho, já não vejo a pila, as calças de ganga não me servem, tenho os cabelos compridos como um headbanger num concerto dos Judas Priest e a barba mal cortada e cheia de peladas, e os pêlos do nariz e das orelhas parecem bigodes, e estou farto desta solidão triste e melancólica que me arrasta através dos chinelos rotos que não tiro dos pés vai para mais de um mês.
No dia primeiro da minha liberdade vou sair de casa. Abrir a porta da rua e dar um passo, pousar o pé do lado de fora da porta. Depois de tomar um banho quente e lavar o cabelo com champô anti-caspa, vestir uma roupa casual e uns ténis porque os meus pés não aguentarão mais que isso, irei sair de casa e caminhar os mil novecentos e sessenta e seis passos que me separam deste meu quarto andar em prédio citadino ao snack-bar que fica um pouco mais acima na mesma rua e que eu frequentava diariamente antes de me fechar em casa para sobreviver à peste e que irei voltar a frequentar porque sou um gajo de rotinas. Irei caminhar todos esses passos durante os quais irei fumar um cigarro ao longo da rua, enquanto relembro o cheiro a monóxido de carbono das viaturas que irão recuperar as artérias da cidade e irei entrar no snack-bar onde já me conhecem de anos e irei sentar-me ao balcão sujo onde irei colocar um cotovelo enquanto pedirei ao empregado um copo de bagaço que irei despejar de um gole, assim como o segundo e o terceiro, e irei pedir um quarto que irei beber devagar para não vomitar logo tudo, e irei pedir um pires de tremoços e ele irá dizer que é só para acompanhar as imperiais e eu irei então pedir uma imperial para poder trincar os tremoços, e trincarei os tremoços e beberei a imperial no intervalo dos bagaços e irei lamentar-me que não hajam pevides, e ao meu lado irá lá estar a mesma puta de todos os dias, a mesma puta que está sempre sentada no mesmo banco ao balcão desde o princípio dos tempos do snack-bar e ela irá cravar-me um cigarro e eu irei dizer que lhe darei um cigarro se foder comigo na casa-de-banho, dir-lhe-ei que estou necessitado sem um pingo de carinho há muitas semanas, e ela irá anuir sem falar e iremos para a casa-de-banho foder sem preservativo, quem é que irá pensar em preservativos nessa altura?, e será uma coisa assim tão rápida e desenxabida que nem vou perceber que acabei de dar a primeira foda depois da quarentena, e irei regressar ao balcão, beber um quinto bagaço, pagar outro à mulher que está sempre no mesmo banco ao balcão e que me acompanhou à casa-de-banho, e oferecer-lhe-ei um cigarro, irei fumar um com ela e o empregado do snack-bar irá refilar connosco como refila sempre, mas eu irei cagar para o que o empregado irá dizer e depois do sétimo bagaço, irei virar-me para a mulher que está lá sentada desde sempre no mesmo banco e irei vomitar-lhe no colo, irei vomitar tudo o que tenho acumulado dentro de mim até sair a bílis verde quando já não houver mais nada para sair e o empregado irá agarrar em mim e levar-me-á de rojo pelo snack-bar fora até me lançar para a rua, e irei cair no passeio de calçada portuguesa e irei bater com o queixo no chão, abrir um lenho e partir dois dentes e deixar-me lá estar caído até que a mulher vomitada irá lá ter comigo e ajudar-me-á a levantar e será o meu apoio para fazer os mil novecentos e sessenta e seis passos de regresso a casa, durante os quais voltarei a cair e numa dessas quedas quebrar a cabeça, e o sangue irá escorrer-me pela face e a mulher irá dizer que será melhor ir ao hospital e eu dir-lhe-ei, com um sorriso na cara, Estamos livres, mulher! Foda-se!

[escrito directamente no facebook em 2020/04/09]