Tenho a Vontade, mas Já Não Tenho a Idade

Sou muito bom a saltar à corda. Quando era miúdo, as miúdas invejavam-me o jeito para saltar à corda. Saltava com duas cordas movimentadas em sentido contrário uma da outra. Era raro perder. Quase nunca era a minha vez de dar à corda. Eu saltava. Se houvesse um campeonato de saltar à corda, eu ganhava. Não ganhei porque não havia. Mas ganhei duas medalhas em futebol de salão (na altura não havia futsal, isto foi num outro tempo, um tempo antigo e de expressões diferentes para falar do mesmo). A piada das medalhas é que as ganhei como guarda-redes da equipa que venceu, em dois anos consecutivos, o campeonato do colégio. Eu, guarda-redes! Até a mim me custa a engolir, mas foi verdade. É verdade. Na rua, nunca joguei à baliza. Ninguém da Malta da Rua conheceu esta minha faceta. Na rua, eu era um nove. Um descendente de Nené. Nunca sujava os calções. Não corria muito. Andava por ali à mama, como se dizia. Mas estava sempre no sítio certo para colocar o pé e marcar golo. Golos. E dar vitória às minhas equipas. Às minhas equipas construídas na rua. Dois gajos saltavam para a frente um do outro e depois iam andando, um pé de cada vez, um pé à frente do outro, e o tipo que pisasse o pé do adversário era o primeiro a escolher os jogadores para a sua equipa, um de cada vez em escolhas alternadas. Primeiro um, depois o outro. E repetia-se até se acabarem os jogadores disponíveis. Às vezes colocava-se o pé atravessado, como se fosse só metade, para lixar o adversário. Isso não vale, diziam uns. Vale, vale! Sempre valeu, ora!, diziam outros.
Agora, num tentativa estúpida de parar o tempo, tento regressar ao passado através da repetição de coisas em que era bom. Ao Stop. Ao King. À corda. Agarro numa corda que tenho aqui por casa e vou para a rua saltar. Imaginava a glória. Os meus treze anos. Os quinze. As miúdas à volta a gritar por mim. E eu, aos saltos entre as voltas de uma corda, a correr para a glória. E então faço a corda passar por cima da minha cabeça, dou um ligeiro pulo, insuficiente, a corda entrelaça-se nos pés, desequilibra-me, tropeço e caio atabalhoadamente no chão de brita. Coloco as mãos à frente para me aparar a queda e magoo os pulsos. Deslizo na brita e esfacelo os joelhos e os cotovelos. Rasgo as calças. Tenho sangue no corpo. Caiu-me uma das lentes para o chão. Bati com os lábios. Já incharam. Estou cheio de pó. Dói-me a anca. Espero que não me tenha acontecido nada na anca.
Deixo a corda lá, onde está caída. Não quero saber dela. Sacudo-me. Perco a esperança de encontrar a lente. Entro em casa. Penso que os tempos de glória já se foram. E a idade passa por mim a galope.
Entro na casa-de-banho. Dispo-me. Tomo banho. Limpo com cuidado as feridas. Dói-me a alma. Faço uns curativos. Visto um fato-de-treino.
Sento-me no sofá. Estou macambúzio. Acendo um cigarro. Ligo o iPad e acedo ao link para ver o jogo entre a União Desportiva Vilafranquense e a União Desportiva de Leiria para decidir quem sobe à Segunda Liga.
Este é o jogo que jogo melhor. Sentado no sofá. Um cigarro nos dedos. E um copo de vinho na mão. Porra! Falta-me o vinho. Levanto-me e vou buscar um copo.
Empate a uma bola no final da partida. Empate a uma bola no final do prolongamento. O Vilafranquense vence nas grandes penalidades. Foda-se! Despejo o vinho de um gole. Acabo o cigarro. Dói-me o corpo. Dói-me a alma.

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O Rapaz Caleidoscópio

Tinha roubado a bicicleta na semana anterior. Tinha roubado a bicicleta já a pensar na sua utilidade. Ou na necessidade que eu tinha dela para aquele caso em particular.
Eram sete da tarde quando saímos de casa. Quando saímos da Rua. Fomos de Leiria até à Batalha pelas estradas municipais. Cruz d’Areia, Telheiro, Barreira, Andreus e Batalha. Campo da bola na Batalha.
Uma noite amena para ver, ao vivo, UHF, Iodo, Pizolizo e Órbita.
Tinha treze anos. Tínhamos todos mais ou menos essa idade. Éramos cinco. Os Cinco. Os Cinco na Batalha. Os Cinco de Bicicleta. Os Cinco no Concerto. Os Cinco em Liberdade.
A viagem custou mais que o esperado. São mais ou menos quinze quilómetro até à Batalha por aquelas estradas secundárias cheias de curvas. Sempre a subir. No final é a descer. Mas antes, na primeira metade, é sempre a subir. É preciso força nas pernas. Bufar bastante. O descanso viria depois. Na descida.
Chegámos já com os Órbita em palco. Eram uma espécie de grupo de baile, banda de covers, apanhados na espiral do Rock Português. Tudo o que mexia, servia.
Depois foram os Pizolizo, banda de Vila Franca de Xira. Bomba Nuclear, Não. Pouco mais.
Chegaram os Iodo. As Novas das Tesouras Velhas. Uma cópia de Motels, a banda de Martha Davis. Mas também a Boneca de Cera, Ceby e, o hit que invadia as casas da Malta da Rua, o Malta à Porta, Não penses em assinar documentos em papel molhado, Porque ao fim ao cabo, Sais sempre cansado… Estava ganha a noite. Mas os Iodo não tiveram grande vida. Morreram pouco depois.
Ainda estava para vir o fogo-de-artifício e os cabeça de cartaz. O fogo-de-artifício chamava os UHF de António Manuel Ribeiro ao palco. E nós, nós os cinco, ali junto ao palco, estávamos embasbacados a olhar para toda aquela feira fascinante que só conhecíamos dos discos e dos programas de rádio e do Júlio Isidro. O António Manuel Ribeiro estava à minha frente a cantar os Cavalos de Corrida. A Rua do Carmo. O Jorge Morreu. A Geraldina e, acima de tudo, O Rapaz Caleidoscópio, Dá-me, dá-me, dá-me, Dá-me um rapaz, Calidoscópio dá-me, Dá-me um rapaz…
Chegou a madrugada. Os concertos acabaram. Regresso. Era necessário subir a primeira parte da viagem. Fomos de bicicleta à mão. A falar sobre o que tínhamos visto. O meu, o nosso, primeiro concerto ao vivo. Fora de casa. Longe de casa. Sem os pais saberem. Sem os pais sonharem.
Atrás de nós, as Serras d’Aire e dos Candeeiros em chamas. Enquanto falávamos, sentíamos algum medo de sermos apanhados pelas chamas. Era época de incêndios. Chegados aos Andreus, foi sempre a descer até Leiria, e passar na bisga ali, junto ao cemitério da Barreira, não fosse alguma alma penada pedir boleia.
Chegámos a casa e entrámos em silêncio.
Aquele foi o início de uma série de viagens e de concertos e de música que invadiu a minha vida.
Mas nunca nenhum concerto repetiu aquela magia da primeira vez. Foi como uma trip de heroína. E viciou.

Eu era o rapaz caleidoscópio.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/15]

Encostado à Porta do Quarto, à Escuta

Todos os dias, às duas horas da manhã, ele entra no quarto dela.
Todos os dias desde que fez os treze anos e ela foi viver lá para casa.
Ele tem agora dezasseis anos. Ela o dobro. E ele continua, todas as noites, a entrar no quarto dela.
Abre a porta do quarto, aproxima-se dela e vê como dorme, sente o corpo a seguir a ondulação da respiração. Depois circula pelo quarto, em silêncio, como um ninja, mexendo, olhando, cheirando as coisas dela. Um dia deu-lhe mesmo para cheirar a roupa íntima suja que estava espalhada pelo chão. E gostou.
Geralmente limita-se a sentar-se na poltrona ao fundo do quarto e ficar ali, horas, a olhar para ela, a seguir-lhe o vai-e-vem do corpo, as voltas que dá na cama, os pontapés secos com que por vezes o assusta ou os braços que lança para o outro lado da cama.
Outras vezes mexe-lhe nas gavetas, nas roupas. Procura nos bolsos da calças. Já ganhou algumas notas de euro assim. Também lhe roubou alguns comprimidos, não muitos para não dar nas vistas.
Houve um dia que ela chorou a dormir. Ele apanhou-lhe uma lágrima com o dedo e colocou-o na boca. Era salgada.
Hoje, às duas horas da manhã, voltou a levantar-se da sua cama e foi para o quarto dela. Entrou devagar, em silêncio, e aproximou-se da cama para vê-la a dormir. A luz da lua entrava pela janela e incidia sobre a almofada vazia. Assustou-se. Onde é que ela estava? O que é que se tinha passado? Porque é que não estava na cama a dormir?
Ele ficou nervoso. Andou de um lado para o outro sem saber o que fazer. A respiração acelerada. Parou, respirou fundo várias vezes. Até que acalmou. Acalmou e saiu, em silêncio, do quarto. Voltou para o seu. Encostou-se à parede ao lado da porta do quarto e ficou à escuta, à espera que ela voltasse. E ainda continua lá. Atento.

[escrito directamente no facebook em 2017/09/02]