A Precisar de Desanuviar

Estou a precisar de desanuviar. Adeus.
Foi assim que ela se foi embora, de boleia com o fim do confinamento.
Estava à porta da rua, de mala na mão, casaco vestido, quando eu ia a sair da sala com um livro do Harari na mão. Parei a olhar para ela e perguntei Onde é que vais? e ela colocou a mão na maçaneta da porta da rua, virou-se para mim como se eu fosse um estranho de passagem e disse Estou a precisar de desanuviar. Adeus.
Tínhamos vivido juntos os últimos seis meses. Mais intensamente neste último mês e meio de confinamento. Passámos a maior parte desse tempo na cama. Nus. Transpirados. A foder. Deixei acumular o tele-trabalho. Cozinhei para ela. Até me tornei um semi-vegetariano por causa dela. Deixei que me espremesse pontos negros nas costas. Deixei que me cortasse o cabelo. E depois, Estou a precisar de desanuviar. Adeus.
No início nem percebi muito bem. Pensei que ia dar uma volta pela cidade. Para desanuviar. Claro que achei estranho a mala na mão. Mas nem pensei muito nisso. Pensei que ia só dar uma volta à beira do rio, coisa que eu faço com regularidade. Ou que ia beber um café expresso a sério e não aquela miséria do Nespresso que sempre me pareceu a chicória que a minha mãe fazia aos Domingos, em Dezembro, para acompanhar as filhoses.
Olhei para o livro que trazia na mão e não sabia muito bem o que é que estava ali a fazer, no corredor, à saída da sala, com o livro na mão, e ela ao fundo do corredor, a porta da rua aberta e o Adeus a ecoar. Vi-a afastar-se de mim. O olhar dela largar o meu, virar-se de costas, puxar a porta da rua e ela bater com violência e eu despertei de uma pequena letargia momentânea e percebi que ia a caminho da casa-de-banho quando fui interrompido pela saída furtiva dela.
Fui para a casa-de-banho. Não consegui ler nada. Não consegui estar calmo. Voltei ao corredor. Abri a porta da rua. Espreitei o patamar. Fui à janela da sala. Pus a cabeça de fora e olhei a rua, de um lado, de outro. Pouca gente. E ela não era nenhuma delas. Depois deixei-me cair sobre o sofá.
O livro?
Deixei-o na casa-de-banho. Devia tentar ler. Ler para esquecer. Passar à frente. Tinha de me levantar. Mas não conseguia levantar-me. Não conseguia ler o livro. Não queria ler o livro. Só me revia na cama. Na cama com ela. O meu corpo tombado sobre a cama. Os lençóis encharcados. Ela sobre mim. A mão dela na minha garganta. A mão a apertar a minha garganta. E a dizer Tosse! Tosse! E eu a tossir. A tossir. Depois ela tombava sobre mim. Ficava morta, sobre mim. E eu ficava quieto debaixo dela para não a incomodar. Sentia-lhe o coração a bater muito rápido contra o meu. Depois a respiração a acalmar. E por fim levantava-se e ia buscar um cigarro. Acendia-o e passava-mo. Eu esticava a cabeça para fora da cama, procurava a janela do quarto, sentia a cabeça cair fora da cama, ficar pendurada, mas procurava a varanda do prédio em frente e o tipo estava lá. A olhar para mim. Para o meu quarto. Para a minha cama. Puxava uma passa do cigarro e devolvia-o a ela que ia fumar, nua, para a janela.
Levantei-me do sofá e fui a correr até ao quarto, abri a janela e olhei para a varanda do prédio em frente. Não estava lá ninguém. A varanda estava deserta.
Eu acendi um cigarro e fiquei lá, à janela do quarto, a fumar o cigarro e a olhar para uma varanda vazia à espera que aparecesse alguém.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/04]

O Clichê

Estávamos os dois deitados, lado a lado, em cima da cama desfeita. Os dois de barriga para cima. Nus. Transpirados. Eu olhava para o tecto. Acho que ela também. Sentia o pé dela a tocar o meu. A unha do dedo grande do pé dela arranhava-me na planta do pé, fazia-me ligeiras cócegas e magoava-me, e era um magoar estranhamente bom. Não era prazer mas, aquela pequena dor, como uma navalha a cortar-me levemente, era agradável. Estranhamente agradável.
Lá fora chovia. Chovia que Deus-a-dava. Chovia tanto que a conseguia ouvir através dos vidros duplos da janela do quarto.
A luz do dia estava baixa. Na rua os automóveis já circulavam com os faróis ligados. Eu via o reflexo das gotas da chuva a escorregar pelos vidros da janela no tecto, projectado pelos faróis dos automóveis em circulação.
A minha respiração começou a acalmar. Deixei de transpirar. Comecei a sentir um ligeiro frio. Especialmente nos sítios por onde senti escorrer as gotas da transpiração. A magia do sexo estava a perder o seu efeito. Puxei o edredão para cima e tapei-nos. Aos dois. E ficamos ali assim, lado-a-lado, a olhar para o tecto, tapados pelo edredão.
A casa estava quase em silêncio. O som distante da chuva na rua e a nossa respiração. Mais a minha que a dela. A minha asma sobrepunha-se a tudo. Acalmei.
Por baixo do edredão a mão dela agarrou na minha. Deixei que a agarrasse. Continuei a olhar o tecto.
Tinha chegado mais cedo e fui buscá-la ao trabalho. Estava a chover e ela estava sem carro. Viemos logo para casa. Ainda lhe perguntei se queria beber uma cerveja. Ou um café. Ela olhou para mim e disse Vamos para casa. E viemos para casa. E, já dentro de casa, quando eu ainda estava a enfiar a chave na fechadura e a fechar a porta à chave, já ela estava a despir-se enquanto caminhava para o quarto. Ia deixando as roupas pelo caminho, como se fosse uma pista para eu seguir e encontrá-la.
Quando entrei no quarto já ela estava dentro da cama. Despi-me rápido e fui ter com ela. Enfiámo-nos os dois debaixo do edredão. A minha cara em frente à cara dela. O meu nariz quase a tocar o nariz dela. O seu hálito quente, e um pouco adocicado, e entrar-me pelas narinas. Disse-lhe Amo-te. Ela disse Também te amo. Beijei-a. Beijou-me. E os nossos lábios, e as nossas línguas, e as nossas bocas invadiram todos os pedaços mais íntimos de cada um de nós e deixámo-nos ir por ali fora, loucos, diabólicos, consumidos, numa velocidade terminal e poderosa.
Estiquei o braço e apanhei um cigarro. Acendi-o. Dei duas passas e vi o fumo subir até ao tecto. Como um balão de diálogo numa banda-desenhada. E ouvi-a dizer Somos um clichê. E eu respondi Sim. E passei-lhe o cigarro para as mãos. Ele deu umas passas e devolveu-me o cigarro. E eu disse Gosto de clichês. E ela respondeu Eu também.
Por baixo do edredão, a mão dela apertou a minha. As unhas dela espetaram-se na minha mão. Magoaram-me. Aguentei sem queixume. Ela teve um estertor. Senti-lhe o corpo tremer. Senti-lhe as convulsões. Virei-me para ela e vi a língua sair da boca e lamber os lábios. Os olhos fechados. Os lábios um pouco abertos e um pequeno gemido a sair, sorrateiro, de dentro dela. Depois parou. Afrouxou a mão dela na minha. Mas não a largou. O pé dela esfregou-se no meu. Abriu os olhos. Olhou para mim. Viu-me a olhar para ela. Sorriu. Tirou-me o cigarro dos dedos. Fumou-o. E disse Gosto muito de ser um clichê. Passou-me de volta o cigarro e eu sorri-lhe.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/15]

Ouro

As paredes eram douradas. Douradas de ouro. Havia homens de picareta a esburacar as paredes. As paredes do quarto. Ela estava sentada na poltrona a olhar. Zangada. Não estava zangada por os homens andarem ali a retirar o ouro das paredes. Estava zangada porque lhe estavam a dar cabo das paredes e a incomodar-lhe o descanso. Principalmente depois de almoço quando gostava de fazer a sua sesta retemperadora. Do ouro nem queria saber, Não é meu!, dizia. Mas o estardalhaço que lhe faziam no quarto, isso sim, incomodava-a.
Ela olhava para os homens em tronco nu, transpirados, de cigarro ao canto da boca a mandarem as picaretas contra as paredes douradas e dizia Vão-se embora! Estão a dar-me cabo das paredes! O que é que o senhorio vai dizer? E depois telefonou-me e disse-me Não consigo respirar com o fumo dos cigarros destes homens. E eu disse-lhe Eu já aí vou para os pôr na ordem.
E fui.
Mandei-os todos embora. E eles foram. Era obedientes. Antes isso.
Ela mostrou-me as paredes esburacadas. As paredes ainda douradas, ainda cheias de ouro, todas esburacadas. Já lá faltava algum ouro, mas não muito porque, afinal, os homens das picaretas eram uns nabos e não tinham muito jeito para aquilo. Abriu as janelas para deixar sair o fumo dos cigarros e aquele cheiro a homem transpirado. E disse-me Amanhã vais avisar o senhorio! Se não, vou lá eu! E eu respondi Está bem!
Deixei a casa arejar. Antes de me ir embora fechei as janelas. Dei-lhe dois beijos e disse-lhe Até amanhã. Ela acenou a cabeça. Ainda estava zangada. Não estava zangada comigo, mas estava zangada.
De manhã ligou-me. Para me avisar que os jornalistas estavam lá. Foi avisar o senhorio. Já sabia que eu não ia dizer nada. Foi avisar o senhorio que lhe estavam a dar cabo da casa. Depois avisou os jornalistas das paredes douradas cheias de ouro. E depois telefonou-me. Para me avisar que os jornalistas tinham lá ido fotografar as paredes douradas. Para me avisar que o senhorio foi lá buscar o ouro que ainda restava. Para me avisar que os homens das picaretas já não regressaram mais porque já não havia mais ouro nas paredes para roubar. O senhorio tinha levado tudo. E eu respirei de alívio.
Ela estava contente. Já não havia cheiro a transpiração de homem. Nem cheiro a tabaco. E o senhorio mandara arranjar as paredes e agora o quarto estava como novo. E isto era ela a dizer-me que tinha resolvido o assunto sozinha porque já sabia que eu não iria resolver nada. E eu fiquei calado. Não lhe disse nada. E ela ainda me pediu Amanhã quando cá vieres traz as revistas. A noticia vai sair nas revistas. Com fotografias minhas, do quarto e do ouro. E eu disse Está bem!
No dia seguinte entrei em casa dela e perguntou-me As revistas? E eu tive de lhe dizer Esgotaram! Já não havia nem uma para amostra!
Depois foi até ao sofá e, com o comando, ligou a televisão. E pôs-se a ver o Programa da Cristina. Eu sentei-me ao lado dela. A ver o Programa da Cristina. Com ela. A olhar para a parede da sala e a pensar E se estas paredes também fossem de ouro?
Mas as paredes agora já não era douradas. Eram de um branco ovo.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/27]