Dia de Eleições

É dia de eleições.
Acordo ainda de noite. Acordo com o cantar do galo. É madrugada escura. Levanto-me e ponho café a fazer. Enquanto o cheiro a café fresco inunda a cozinha, vejo, pela janela, os contornos das montanhas que o sol, do outro lado, começa a fazer clarear.
Tenho tempo e opto por um banho de imersão. Há quanto tempo não o faço?
Enquanto encho a banheira de água quente, faço a barba. Quando me olho ao espelho não me reconheço. Rapei a barba. Desde os dezoito anos que trazia sempre uma pequena penugem. Hoje foi tudo abaixo. Pareço mais novo. Sinto-me mais feio. Não me pareço. Quem sou eu?
Entro na banheira. A água está quente, mas insisto. Entro aos poucos. Devagar. Vejo as pernas a ficarem encarnadas. Grito quando os testículos se queimam. Tenho comichão no rabo. Coço. Mas deixo-me ir. Finalmente estou deitado na banheira, coberto de água quente, e sinto-me bem. Sinto-me confortável. Descontraio. Fecho os olhos. Adormeço.
Acordo com frio. É já de dia. Deixei-me adormecer. A água na banheira está fria. Abro o ralo e deixo-a escorrer. Ligo o duche e tomo um banho rápido de água quente.
Seco-me. Visto uns boxers e uma camisola de alças e vou beber café. Está frio. Aqueço-o no micro-ondas. Torro uma fatia de pão saloio. Barro-lhe manteiga. Como e bebo.
Penso no que vestir. E decido pelo fato. Há anos que não o visto. Comprei-o para um casamento. Os noivos já se divorciaram e eu nunca mais vesti o fato. Mas vou vesti-lo hoje. Agora. Primeiro passo pela casa-de-banho e lavo os dentes.
Ponho uma camisa branca sobre a camisola de alças. Visto as calças. Ponho o cinto de cabedal. Calço os sapatos também de cabedal. Ainda me servem. Mas sinto os pés apertados. Ponho gravata. Casaco. Relógio no pulso. Carteira com os documentos e vinte euros no bolso das calças. Coloco os óculos escuros e saio de casa. Acendo um cigarro.
Está sol. Calor. Mas tenho de ir a pé. Desço o quintal. Viro à esquerda e faço a estrada até ao centro da aldeia. Entro no café. Peço uma Aldeia Velha. Viro-a de um trago. Largo uma moeda no balcão. Saio e dirijo-me à escola primária. Agora chama-se primeiro ciclo. O que importa são os nomes. Também tenho o meu. E preciso dele para descobrir onde votar. Não há muito por onde procurar. Três mesas de voto.
Entro na sala. Dou o cartão de cidadão. Dizem alto o meu nome e sinto alguma vergonha. Baixo os olhos para o chão. Quero passar despercebido. Mas sinto que errei ao vestir o fato. Sou o único de fato a votar. Coloco a cruz no sítio que me parece o certo. Sinto-me livre no meu dever que também é o meu direito. Dobro-o duas vezes. Coloco-o na urna.
Saio da sala. Acendo outro cigarro. Está calor. Sinto umas gotas de transpiração a cair pelas têmporas. A gravata enforca-me.
Vejo as horas. Meio-dia. Olho a carteira. Descubro os vinte euros. Decido ir almoçar um bitoque ao snack-bar. Um bitoque e uma imperial. Um pão para molhar no ovo a cavalo. O bife do bitoque será fino e rijo. Irei deslocar o pulso ao tentar cortar o bife. Irei partir um dente ao trincar um bocado de gordura. Irei deixar cair um pingo de cerveja na camisa branca e um bocado de amarelo do ovo sobre a gravata. Irei pensar no motivo de nunca usar gravatas. Irei beber um café queimado. Uma aguardente manhosa que me irá fazer azia. E irei pensar que teria feito melhor ter ido para casa, fritado umas salsichas, torrado um pão de véspera e comido um cachorro com mostarda, acompanhado pelo vinho tinto da cooperativa e bebido o café da avó feito de manhãzinha.
Coloco as mãos nos bolsos. E vou até ao snack-bar. Está a apetecer-me um bitoque, por mais ranhoso que seja. Com um pouco de sorte há azeitonas de entrada. E dias não são dias. E hoje é dia de eleições.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/06]

Anúncios

Quem É que Está Aí?

Sinto a porta da rua a abrir. Deve ser ela, penso. Está de regresso, finalmente. Já era tempo, não?
Aproveitei a vergonha do sol para arrumar a lenha que me vieram trazer a casa. Não estava muito calor. Chuviscou um pouco. Peguei no carrinho-de-mão e andei, para cima e para baixo, a acartar a lenha para debaixo do telheiro. Amealhar para o Inverno. Enquanto ainda nos deixam queimar madeira para nos aquecermos.
Ia no segundo carrinho quando o sol despertou e veio na companhia do calor. Custou-me carregar o resto da lenha. Não sei quantas viagens fiz com o carrinho-de-mão. Mas ganhei umas bolhas nas mãos. Despertei a minha alergia ao calor e tive de tomar um Zyrtec. Demorou a fazer efeito.
Enquanto acartava a lenha para o telheiro pensei na conversa que tinha tido com ela no dia anterior. A conversa que azedou e acabou por me deixar sozinho em casa.
Eu só tinha dito que a culpa era dela. Não dela, dela, especificamente. Mas de todas as elas e eles e nós. Eu! Eu também me incluía na culpa mas, na conversa, tinha-me saído um dela por força das circunstâncias. Estávamos a discutir e era eu contra ela. E ela levou com a culpa. Mas a culpa não era só dela. Mas também. Eu só disse A culpa é tua. E ela, admirada, quase escandalizada, perguntou Minha? Minha como? e eu respondi-lhe Porque votaste neles. E ela ficou ali assim, admirada, de boca aberta, a olhar para mim.
O sol já tinha despertado. Abrira as portas ao calor. A transpiração corria-me corpo abaixo. E eu pensava no que ela me tinha dito.
Mas eu sou só um voto e votei para protestar. Não significa mais que isso. Um protesto que não tem poder nenhum. Um voto. O que é que isto significa? Nada! Não significa nada! Mas significava. Tanto significava que eles tinham chegado ao poder. Todos os votos unitários contados um-a-um conseguiu elegê-los. Com maioria absoluta. E estavam a transformar tudo. A vida como nós tínhamos aprendido a viver. Tudo transformado em nome da eficiência. Em nome do futuro. Mas qual futuro? Era tudo muito obscuro e bizarro. Porque nem sequer é para todos. Quem pode pagar pode comprar a bula. Porque há bulas. Há sempre bulas. Há bulas para quem pode pagar. E foi isso que lhe quis explicar. Que pessoas como nós, estão sempre fodidas. Utilizam-nos e depois descartam-nos. Os outros, os que podem, os que mandam, esses podem sempre pagar para ser como eles querem. E, ironia do destino, somos sempre nós que elegemos esta gente. Era isso que eu lhe estava a explicar. E ela só me perguntou E eu sou a culpada pela merda de vida que agora temos? E eu nem precisei de lhe responder. Olhei para ela. Um olhar parvo e cínico, admito. Só olhei para ela. E ela viu a resposta no meu olhar.
Já estava cansado quando fiz a última viagem até ao telheiro com o resto da lenha. E parecia que tudo aquilo era só para me chatear. Na minha última viagem o sol despediu-se. O céu cobriu-se de negro, trouxe de volta um pouco de frio e um bocadinho de chuva. Pensei Ao menos a lenha não fica molhada.
Parei debaixo do telheiro a olhar para a pilha de lenha. Arrumei o carrinho-de-mão. Observei a chuva e voltei a pensar na conversa que tinha tido com ela.
Mas já não houve conversa. Ela ficou zangada comigo. Levantou-se do sofá e saiu de casa. Ouvi o carro a descer a alameda e a sair o portão. Onde andaria?, pensei.
Afinal está aqui, de regresso a casa. Afinal a conversa era estúpida. Não era caso para tanto. Claro que ela era culpada. Ela como eu. Mas não precisava de ficar zangada comigo e sair porta fora. E pergunto alto És tu?, mas ninguém me responde. Nem ouço barulho. Não me chega o cheiro dela. Não lhe ouço a respiração. Nem lhe sinto os passos. Quem será? Quem é que está aí?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/18]

Cheira a Homem, Aqui Dentro

A minha mãe entrava pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava à transpiração de um adolescente que dormia enfiado debaixo de dois cobertores em pleno Verão porque gostava de se sentir aconchegado. Cheirava às pívias batidas durante a noite, debaixo dos lençóis, enquanto olhava as fotografias já gastas de um número qualquer da revista Gina.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e lavar os odores impuros que se sentiam ali dentro no quarto onde eu nidificava, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar! e eu que remédio tinha senão levantar-me e manter o respeito pela minha mãe, pelo menos até à hora do almoço, à espera que fizesse algo que fosse do meu agrado, o que quase nunca era um problema porque sempre fui uma boa boca, graças a Deus, e a cozinha dela era santa.
Mais tarde, continuava a entrar pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava ao álcool ingerido de véspera a destilar pelo poros do corpo. Cheirava a tabaco frio fumado e entranhado na roupa que jazia no chão, ao fundo da cama, numa massa disforme. Cheirava a vomitado, pelos excessos da noite.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e lavar os odores impuros que se sentiam ali no quarto onde eu nidificava, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar! e eu não me mexia à espera que ela saísse do quarto sem me puxar os cobertores para trás e não me ver de pau feito, tesão de mijo à espera de se sentir, enfim, aliviado.
E depois, continuava assim a entrar pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava mal. Cheirava a cama. A corpo de homem deprimido sem vontade de se levantar, tomar banho e sair de casa. Cheirava a noites e dias do mesmo pijama caído sobre um corpo que não se lavava e mal se alimentava. Um corpo que se arrastava pelas sombras do corredor para ir à casa-de-banho quando não estava ninguém em casa.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e mostrar-me como a vida corria bonita lá fora, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar!, mas eu não me levantava, não via nada lá de fora, encolhido na cama, cabeça coberta pelos cobertores a ansiar que ela saísse do quarto e me deixasse sozinho ali, na cama.
E mais tarde, muito mais tarde, ela continuava assim a entrar pelo quarto dentro, mas mais devagar, a barafustar, mas a barafustar baixinho, e dizia Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. Mas não era verdade. Já não cheirava mais a homem ali dentro. Ali já só cheirava a memórias de um dia, um outro dia…
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e apoiava-se na janela e respirava o ar fresco que agora era para ela, todo para ela, e já não se virava para trás nem dizia Vá, vamos a levantar!

[escrito directamente no facebook em 2019/08/23]

Um Mergulho na Piscina

A miúda chegou. Foi ter com os outros miúdos. Mandou os chinelos a voar. Tirou logo as calças. A blusa. Largou tudo no chão. Depois fez pose para mostrar o fato-de-banho novo. Reduzido. Fluorescente.
Eu estava no meu canto. Sentado na cadeira. À sombra de um chapéu-de-sol. Quantos anos teria a miúda?, pensei. Dezasseis? Dezassete? Não, definitivamente não. Dezoito anos. Decidi que tinha dezoito anos para não ser atormentado pela culpa. E continuei a olhar para a miúda à beira da piscina, em pose para o grupo de amigos, a mostrar o corpo, o fato-de-banho, aquele conjunto que tapa-e-revela.
E, no fim de tudo, eu ainda gostava de olhar para as miúdas.
Ela virou costas ao grupo e mandou um salto para a piscina, e mergulhou, com as mãos à frente do corpo.
Eu senti um tremor. Imaginei que senti um tremor quando a vi mergulhar na água da piscina. Mantive o olhar ansioso sobre as águas. Sentia umas gotas de transpiração a escorrer-me pelas frontes.
Vi-me há trinta anos atrás. Vi-me assim, num estúpido ritual de acasalamento qualquer. Numa brincadeira animalesca para gáudio dos meus amigos. Para brilhar aos olhos das miúdas. Corri. Corri ao longo da relva da piscina, uma correria elegante, o corpo direito, os braços a cortarem o ar, os cabelos a esvoaçarem sobre os olhos, cheguei à zona das lajes, senti um ligeiro escorregar dos pés, mas percebi-os suficientemente seguros para ganhar impulso, saltar para o ar, sobrevoar a água cheia de cloro, sentir-me o super-herói da piscina, as miúdas de boca aberta, espantadas com a elegância do meu salto, o mergulho na água como uma agulha, a escapar ao atrito, a furar o espelho de água como se fosse uma vara e ir fundo dentro da piscina e esqueci-me que ali, daquele lado, a piscina era baixa, e já ia tarde quando me lembrei, e foi nesse preciso momento em que me lembrei que senti a cabeça a bater no fundo da piscina e senti a dor, um choque eléctrico, e desapareci de mim, deixei de me recordar do que quer que fosse, que já não era eu, pelo menos não era eu acordado, consciente, e só voltei a tomar-me por conta numa cama de lençóis brancos e impecavelmente esticados, e algumas pessoas ao meu lado, reconheci nelas a minha mãe, o meu pai e vi-os a chorar e percebi o que lembrava de ter percebido logo no momento imediatamente antes de apagar e ficar tudo negro Estou fodido! E estava. Estava fodido. E o mundo acabou ali. Naquela cama de hospital.
Nunca chorei.
Passaram muitos anos. E agora estava ansioso por causa do mergulho da miúda. Não devia ter vindo aqui, à piscina.
Revirei os olhos para o lado e disse à rapariga que estava sentada, não muito longe de mim, a ler um livro, não consegui ver a capa, não sei que livro era, e disse-lhe Leva-me daqui. Ela pousou o livro no chão. Vestiu-se. Arrumou as suas coisas e colocou as mãos sobre a cadeira, destravou-a e começou a girá-la . Eu ainda tive tempo de ver a miúda a subir as escadas para sair da piscina e ir, molhada, ter com o grupo de amigos que a esperava deitado sobre a relva.
Eu suspirei aliviado. Mas ainda sentia umas gotas de transpiração a correrem-me pelo pescoço abaixo. A rapariga, baixou-se enquanto empurrava a cadeira e disse-me Foi uma boa manhã. Temos de cá voltar.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/05]

Redes Mosquiteiras

Andei a pôr redes mosquiteiras nas janelas de casa.
A ideia era mandar fazer uns caixilhos em alumínio com uma rede fina de arame. Tudo pintado com as cores das molduras das janelas para passar despercebido.
Mandei fazer um orçamento. Fizeram-no. Mandaram-mo. Recebi-o. E resolvi esperar que me saísse o Euromilhões.
Estava farto das moscas, melgas e mosquitos. A cidade é de todos, bem sei, mas há alguns que acham que são mais que os outros, entram pelas casas dentro e desatam a chatear toda a gente. A morder. A picar. A transmitir doenças. A zumbir. Um horror. E então com a chegada do Verão, a bicheza anda toda doida. O calor em casa é diabólico. Não se pode pagar ar condicionado que é caro e, além do mais, fica sempre bem dizer que é em defesa do ambiente. Eu não tenho ar condicionado em casa porque defendo o ambiente. Eu não tenho ar condicionado em casa porque não o posso pagar.
Bom, estava farto das moscas, melgas e mosquitos. E cansado de morrer de calor dentro de uma casa de janelas fechadas para manter a bicheza na rua. Nem dos cheiros que se acumulam entre-portas me conseguia livrar. Os cheiros a comida, a transpiração, a sexo, a vinho azedo quando vomito, a tabaco frio quando as beatas se acumulam em vários cinzeiros perdidos pela casa. Então, estava com um copo de vinho na mão e um cigarro entre os dedos quando decidi Vou pôr mãos à obra. E assim fiz. Tirei medidas às janelas. Todas iguais. Boa.
Saí de casa com o cartão multibanco e a esperança que o dinheiro acumulado na conta chegasse para as necessidades. Comprei umas ripas de madeira. Uns metros de rede em plástico, de cor verde. Tinta para pintar a madeira da cor das janelas. Agrafador. Agrafos. Um martelo. Uma serra. Uns cantos em metal e parafusos pequenos. Um chave de fendas. Um pincel.  O total. Enfiei o cartão de plástico do Multibanco. Apareceu a conta. Nem olhei para não desanimar. Rezei três Avé-Marias em dois segundos. Carreguei em Verde. Código. Verde. E a transacção foi aceite.
Corri para casa. Fui para a cozinha. Um belo sítio para fazer este tipo de coisas. Cortei as ripas de madeira com as medidas das janelas. Juntei-as com os cantos em metal por dentro. Fiz umas belas molduras. Pintei-as. Enquanto secavam, abri uma garrafa de Real Lavrador, da Adega do Redondo. Era o que havia cá por casa. Acendi um cigarro. Esperei.
Cortei a rede plástica ao tamanho das molduras e agrafei-a à madeira. Depois coloquei-as do lado de fora das janelas e puxei-as para dentro, para ficarem o mais coladas possível à janela.
As redes não ficaram muito bem esticadas. Estão enfoladas. E eu agora já não posso enfiar a cabeça pelas janelas para espreitar para a rua. Agora quando quero dar fé do que se passa tenho mesmo de ir à varanda. Mas a varanda só dá para um lado. Paciência.
Agora estou só à espera que o calor regresse para poder ter as janelas abertas e livre de bichos. Mas o frio, o cabrão do frio, parece que retornou. Raios o partam.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/15]

Despedida de Solteiro

O tipo era um fantasma. Estava branco. Tão branco que parecia translúcido. Eu via-lhe os riscos azuis das veias a cruzarem-lhe a cara. Sentia-lhe as jugulares a pulsar. A transpiração. As gotas de suor a escorrerem da cabeça para baixo. O cabelo brilhava. Era transpiração ou gel? O respirar pesado. Seria tudo nervos?
Ela estava bonita. Bonita como as noivas ficam. Estava bonita e radiante no seu vestido branco.
Estávamos todos à espera que ele dissesse o sim. Mas ele não parecia estar ali. Ele parecia estar a morrer. Estava à espera do momento em que ele vomitava para cima dela e do padre e dos padrinhos e de toda a gente que esperava ansiosa pelo Sim.
Ao meu lado, toda a gente se ria. Só homens. Os miúdos do meu passado, agora crescidos. Homens. E riam-se do noivo. Um deles baixou-se e segredou-me ao ouvido A despedida de solteiro foi ontem! e passou-me alguma coisa para as mãos. Um telemóvel.
E eu pensei no porquê das pessoas fazerem festas de despedida de solteiro. Principalmente na véspera. Qual a razão?
Olhei para o telemóvel que o tipo me tinha passado para as mãos. E vi o noivo. Vi o noivo perdido no meio de pernas e braços e mamas de mamilos pequenos e grandes e rosados e rabos rijos e flácidos e vaginas rapadas e peludas e com desenhos e lábios carnudos vermelhos vermelhos vermelhos que o engoliam todo e lhe iam deixando beijos por todo o corpo. Literalmente por todo o corpo. Em troca do que lhe iam comendo. E comeram-no todo. Logo ali eu vi uma boca a chupar-lhe o dedo grande do pé. E o resto… O resto…
Eu queria deixar de ver o pequeno filme daquele telemóvel. Mas não conseguia não ver. Estava fascinado com aquele happening em despedida de solteiro. Vi coisas que não julgava serem possíveis. E eu não sou propriamente casto.
E depois de todas as impossibilidades físicas e de corpos contorcionistas que não julgava possível existirem, ainda o vi vomitar-se todo para cima dele próprio e de toda a gente que partilhava com ele aquela cama king-size como se fosse só mais uma etapa de um trajecto de luxúria e desejo.
Fiquei mal-disposto.
Porque é que está a casar?
E antes de dar o sim, vejo-o, no altar, vomitar para cima da noiva do padre dos padrinhos das damas de honor e de toda a gente que estava mais próximo para testemunhar aquela união que, percebia agora, não iria realizar-se tão cedo, com certeza, depois de acontecer o que estava a acontecer e depois de toda a gente ir ver o vídeo porque, tinha a certeza, o filme não iria ficar confinado àquele telemóvel que eu tive nas mãos porque os homens não conseguem não ser sacanas e filhos-da-puta uns com os outros, não por maldade mas tão só porque sim.
Devolvi o telemóvel ao dono e sai da igreja. Deixei atrás de mim toda aquela gente em polvorosa, Coitado do noivo a vomitar, terá comido alguma coisa estragada?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/08]

Uma Novela Gráfica

Peguei em Sabrina e sentei-me no sofá.
Estava calor. Demasiado calor para ir para o alpendre. Demasiado calor para me passear pela estrada deserta que passa aqui em frente a casa. Demasiado calor para subir às montanhas lá ao fundo. Mesmo que ainda adivinhe neve no cume. Demasiado calor para ir até à praia. Falta-me vontade para sobreviver ao caminho. Até o cão e os gatos estão deitados ali fora, à sombra. Em cima do pequeno charco formado pela torneira mal fechada.
Eu sentei-me no sofá com Sabrina nas mãos. As janelas abertas para fazerem corrente-de-ar. Sem grande sucesso.
Abri o livro. Comecei a ler e a ver. É uma novela gráfica. Duas irmãs encontram-se em casa dos pais. Casa que já foi delas, também. Mas já não é. Estão de passagem. Uma delas, Sabrina, foi cuidar da gata dos pais e acabou a dormir lá. A irmã chega. Contam histórias dos seus passados uma à outra. Depois venho a descobrir que Sabrina desapareceu. Depois descubro que Sabrina foi raptada. Depois ainda descubro que Sabrina foi morta. E a minha transpiração cai sobre as páginas do livro. As folhas ficam enfoladas. As cores das pranchas ganham vida. Ficam mais fortes. Saturadas.
Levantei-me do sofá. Procurei um cigarro. Encontrei-o na cozinha. Acendi-o. Olhei em volta. Tentei perceber se queria beber alguma coisa. Sim, queria beber alguma coisa. Mas não conseguia decidir o quê. Não conseguia decidir o que é que me apetecia beber. Olhei em volta. Vi uma garrafa de vinho tinto. Vi uma de gin. Abri o frigorífico. Vi cerveja. Uma garrafa de vinho branco já encetada. Uma garrafa de plástico com água lisa. Abri o congelador. Vi uma garrafa de vodka. Não consegui escolher. Não sabia o que é que me apetecia. Conclui que não me apetecia nada. A cinza do cigarro caiu ao chão. Larguei um palavrão. Apaguei o cigarro na torneira do lava-louça. Deitei a beata molhada no caixote de lixo. Regressei à sala.
Regressei à sala e sentei-me no sofá com Sabrina nas mãos. Recomecei. Descubro o marido de Sabrina. Ou será melhor dizer o viúvo? Mas aqui, neste momento, eu ainda não sei que ela está morta. Só mais à frente. Aqui acompanho a chegada do corpo de um homem ausente à vida de um amigo disposto a dar-lhe tempo e disponibilidade. Uma companhia. Depois percebo quem é. Porque está assim. Acompanho as notícias. A viralização do filme da morte de Sabrina. Mas nunca vemos nada. Só sabemos porque nos contam. Eles, os que vêm. E deprimem.
Sabrina é uma deliciosa depressão.
Olhei para o ecrã escuro da televisão. Não havia corrente-de-ar. Pousei o livro ao meu lado, no sofá.
Pensei na parte gráfica da história de Nick Drnaso e achei-lhe algumas semelhanças com os desenhos de Chris Ware. Traço claro. Linhas direitas. Tudo muito enquadrado. Muito gráfico. Quadrados iguais. O desenho nunca passa para além da linhas dos quadrados. As letras pequenas. Calmas. Tranquilas. Sabrina é uma história violenta contada de uma forma suave.
Olhei para a capa do livro. Olhei para o perfil de Sabrina. Tinha os olhos cansados. A luz baixou muito. Mesmo com os óculos já tinha dificuldade em continuar a ler. Decidi deixar o resto para amanhã.
E depois? Uma conversa sobre bola na televisão? Não! Não tinha pachorra! Estava com calor. Tinha as costas coladas ao sofá. Acho que me cheirava a chulé. Seria eu?
Às vezes gostava de ser uma novela gráfica. Uma história que se repetia de todas as vezes que uma leitura lhe dava vida. Enfim. Não sei bem o que quero. Para já continuo para aqui. A ver o ecrã escuro da televisão enquanto a luz do dia baixa lá fora e aqui.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/30]