Queimado pelo Sol num Dia de Praia

Abri um olho e vi o dia. Senti calor. Empurrei o edredão com os pés e deixei o frio da manhã lavar-me a transpiração nocturna. Mas afinal não estava frio. Eu é que estava demasiado quente do edredão. Levantei-me da cama. Caminhei descalço ao longo do corredor até à cozinha. Abri a porta da rua e saí. Saí para o alpendre. Estava um sol luminoso. Quente. O céu azul. Um azul bebé e sem nuvens. Os pássaros numa orgia sonora nas árvores à volta. Os gatos dormitavam à sombra e nem levantaram a cabeça quando saí. Peguei nas tigelas dos gatos e do cão e despejei-lhes água da torneira. Os gatos nem ligaram. O cão apareceu e pôs-se a beber água, sofregamente. Eu decidi Vou à praia.
Entrei em casa. Agarrei num boné. Peguei numa toalha. E voltei a sair de casa. No pequeno relvado do quintal estendi a toalha e deitei-me ao sol.
Pus o boné entre a cabeça e a cara. O calor adormecia-me o corpo. Fechava-me os olhos. Embalava-me os pensamentos.
Fui levado de regresso a São Pedro de Moel. Deitado na areia, em baixo das piscinas que já não existem. Deitado de barriga para baixo na toalha sobre a areia da praia. Os olhos abertos, manhosos, espreitam a miúda ao meu lado. Mas eu sei que ela também está a olhar para mim. Também espreita para mim por baixo dos braços, sorrateira, a pensar que eu não percebo que ela está a olhar para mim. Depois eu tiro o braço da frente e olho descarado para ela. Ela faz o mesmo. Sorrimos. Estamos com os braços estendidos nas toalhas e as mãos tocam-se. Quem tomou a iniciativa? Já não sei. Mas estamos de mãos dadas e ela agora fecha os olhos. Já me agarrou. Já estou ali. Já estou ali com ela. Já sou dela. Não precisamos de falar. De explicar nada. Está tudo implícito.
Depois ela levanta-se e puxa-me. Vamos ao mar, diz. E eu vou. Vamos os dois. Mas vamos com cuidado. O mar de São Pedro de Moel não é uma brincadeira. É preciso ter atenção. Mas vamos. Vamos os dois. Com cuidado. De mãos dadas. Molhamos os pés. As pernas. Sentimos os pés enterrarem na areia molhada com o recuo violento da água do mar. Ela larga-me a mão de súbito, corre para uma onda que se aproxima e mergulha. E eu, apanhado de surpresa, fico ali a vê-la fazer o que eu devia ter feito e digo para mim Conas!
Mergulho a seguir. Mas saio logo. E ela também. O mar está a puxar. Estamos parvos um com o outro, como estão os apaixonados, mas não somos estúpidos. Saímos do mar cheios de areia nos calções. Ela deita-se de costas. Eu deito-me de bruços.
Então sinto uma dor. Como se estivesse arder. Sinto o peito a arder. As pernas a arder. A pila a arder. Abro os olhos, e chamo-a. Chamo-a. Mas ela parece não me ouvir. Está a olhar para mim e sorri. Sorri apaixonada. Será que é agora que me vai dar um beijo? Mas eu sinto-me a arder. E então levanto-me. Sento-me na toalha. Não estou em São Pedro de Moel. Estou em casa. No quintal. Já não sou um adolescente apaixonado em São Pedro de Moel. Sou um velho em casa que não tem paciência para confusões e pessoas. E estou mesmo a arder. Tenho o corpo vermelho. Não pus creme protector. Adormeci. Deixei-me levar pelo tempo. O sol já está alto. Queimo.
Que horas serão?
Que dia é hoje?
Em que ano estou, afinal?

[escrito directamente no facebook em 2020/05/17]

Os Dias do Segundo Turno na Fábrica

Eu chegava a casa, depois de oito horas seguidas do segundo turno na fábrica, colocava o Harvest do Neil Young na aparelhagem. Começava por uma primeira audição do Heart of Gold enquanto me despia. Depois colocava no início do Lado A e ia tomar um duche. Despir-me do cheiro da fábrica. Das horas da fábrica. Tirar a fábrica de cima de mim, de dentro de mim. Depois do duche, e como acabava por não ouvir quase nada do disco, voltava a colocar a agulha no início do Lado A. Vestia-me. Vestia-me de lavado. Sentava-me na mesa da cozinha, comia uns pedaços de queijo seco com azeite e uma fatia de pão alentejano e bebia um copo de vinho tinto. Às vezes ainda não tinha acabado de comer e beber e ia virar o disco. Ouvia o Lado B. Depois saía.
De banho tomado, roupa lavada e o Harvest a ressoar-me na cabeça, saía de casa. Descia as escadas. Mesmo se o elevador estivesse no meu andar, eu descia as escadas. Chegava à rua e acendia um cigarro. Deixava o fumo penetrar-me cá dentro. E começava a andar pela cidade. Umas voltas tontas. Sem destino. Misturava-me com as outras pessoas. Sentia-lhes a transpiração quando passavam por mim. Ou aquele cheiro acre de quem não tomou banho. Ou o excesso de perfume a queimar etapas. Algumas das pessoas cheiravam demasiado a tabaco frio. E eu pensava sempre Acho que nunca cheirei assim. E não, nunca cheirei assim. Os carros passavam ao meu lado, na estrada. Eu seguia pelo passeio de calçada portuguesa. Às vezes com pedras levantadas da calçada. As mãos nos bolsos. O cigarro na boca. Desviava-me das outras pessoas. Acusava o barulho dos motores, das buzinas, dos gritos das pessoas zangadas. Havia sempre muita gente zangada.
Às vezes contava as moedas e comprava um jornal. Ia até ao jardim e sentava-me num banco a ler o jornal. Às vezes as notícias já eram velhas. O jornal era da manhã. Entretanto o mundo já dera várias voltas ao mundo. As notícias frescas já tinham morrido e nascido outras. Algumas ressuscitavam, mas diferentes. O que importava ali era estar sentado no banco de jardim, a ver quem passava mas ocupado a ler um jornal, como quem não dava demasiada importância aos outros. Depois fumava mais um cigarro. Largava o jornal num caixote do lixo. Dava mais uma volta pela cidade. Às vezes bebia um café numa pastelaria. Comia um pastel de nata. Nos dias de maior calor sentava-me numa esplanada e bebia uma cerveja. Olhava os miúdos e as miúdas cheios de vida a circularem por ali, nas mesas em volta. Nunca estavam parados. Pareciam beija-flores entre uma mesa e outra, sempre aos saltinhos, sempre em movimento, sempre prontos para irem até outro lado, havia sempre outro lado, outra pessoa, outro beija-flor. Eu ficava sentado à minha mesa a beber a imperial a apreciar as voltas que a juventude dava. Pelo menos aquela ali, aquela que se sentava nas mesmas mesas que eu, nas mesmas mesas na mesma esplanada, onde entre vários rituais que executavam nunca se via um livro a ser lido que fosse. E depois? Eram felizes assim, não eram?
Com a luz a baixar depressa, acabava por me ir embora. Às vezes passava pelo Rei dos Frangos e levava meio-frango assado para comer em casa. Às vezes comprava umas latas de conserva num pequeno supermercado lá perto de casa. Houve uma altura em que comia umas latas de atum que já vinham com feijão frade misturado. E umas latas de bacalhau com grão também misturado. Depois passou-me esta vontade. Regressava a casa, voltava a ligar a aparelhagem com o Harvest e deixava-me adormecer no sofá, frente à televisão desligada e ao som do Neil Young a vaguear pela casa. Andei meses a ouvir o Harvest. Chegava da fábrica e punha o disco a tocar. Havia discos assim, que consumia até ao osso, antes de passar ao próximo.
Agora já não chego a casa. Agora já estou em casa. Já não dou voltas pela cidade. Saio para ir comprar alguma coisa que precise e regresso logo. Agora já só me restam as memórias desses dias, desses dias antes de ser despedido. Agora já nem me apetece ouvir música. Quando um dia quiser lembrar estes dias de confinamento, o que é que terei para recordar?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/20]

A Camisa Castanha

Bastou uma vez. Bastou vê-la uma única vez para perceber.
Estava sentado no muro da rua. Estava a fumar um cigarro, mas com o cigarro escondido dentro da mão para ninguém ver. Para os meus pais não saberem. Claro que, à minha volta, percebia-se o fumo do cigarro a subir em espiral. Mas o cigarro, ninguém via. Estava dentro da mão. E eu levava a mão à boca e fumava. Às vezes a incandescência do cigarro queimava-me a mão, mas eu tinha de aguentar.
Estava sentado no muro da rua a fumar um cigarro quando a vi passar. Era a miúda nova. Fiquei preso na teia que emanava. Prendi-lhe o olhar e não a larguei. Quando passou por mim percebeu o olhar e sorriu. Um sorriso para dentro, mas que eu percebi. Acho que foi feito para eu perceber.
Não falámos. Não falámos durante quase duas semanas. Eu era tímido. Ainda sou. Mas todos os dias eu estava lá. No muro. A fumar um cigarro escondido. E todos os dias eu a olhava. Cada dia mais ostensivo. E ela já não só sorria como respondia, insolente, com um olhar igual ao meu. Quando passava por mim, mesmo próximo de mim, quase-quase a tocar-me que lhe percebia o cheiro adocicado da água de colónia frutada que usava ou a transpiração em dias de ginástica, oh como gostava de a olhar em fato-de-treino, o corpo solto, liberto, o cabelo um pouco molhado tombado sobre os olhos, os olhos que não tirava de mim e que me diziam Então, pá! é hoje que me dizes Olá?
Demorou. Demorou a dizer olá.
Quando lhe disse Olá! pela primeira vez, ela parou ao pé de mim. Olhou-me descarada de cima abaixo. Parou o olhar na minha mão dobrada e fumegante e perguntou Estás a fumar? Eu acenei a cabeça. Ela pediu Dás-me um? E eu, trapalhão, tirei o maço do bolso das calças e deixei-o cair no chão, os cigarros espalharam-se e tive de andar de cu para o ar a apanhá-los. Depois estendi-lhe um. Ela agarrou-me na mão com o cigarro escondido e puxou-a para si. Os olhos em mim. Pôs o cigarro na boca e acendeu o cigarro dela no meu. Encostou-se ao muro onde eu estava e ficou ali ao meu lado a fumar. Ela agarrava o cigarro entre dois dedos da mão direita. Sem medos. E levava a mão com elegância à boca e puxava uma passa. Eu continuava a esconder o meu cigarro. Depois esticou-se para mim, deu-me um beijo na cara e disse-me o nome.
Eu corei.
Disse o meu nome sem olhar para ela.
A partir desse dia passamos a estar juntos todos os dias. Mas não foi tudo nem fácil nem rápido. Passaram dois dias até que conseguisse agarrar-lhe a mão pela primeira vez e passear, com ela, de mãos-dadas, pela rua.
Depois passaram mais dias, semanas, e o nosso à-vontade cresceu. Éramos namorados. Já nos beijávamos. Já nos tocávamos. Estávamos muito próximos de termos a nossa primeira relação sexual.
Quando tudo se precipitou.
Um dia, já andávamos há cerca de um mês, ela chegou de camisa castanha vestida. Bastou uma vez. Bastou vê-la uma vez de camisa castanha.
Tudo morreu ali, naquela camisa castanha. Nunca mais a quis ver.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/29]

A Minha História com F.

Foi a minha primeira paixão. Mas não foi a minha primeira namorada. Nem sei se ela alguma vez soube que eu gostava dela. Nem sei mesmo se ela sabia que éramos da mesma turma. Um ano fomos vizinhos de mesa, mas não sei se ela sabia que eu estava ali, a olhar para ela sempre que podia.
Tudo começou na primeira classe. Era assim a nomenclatura. Primeira classe. E foi na primeira classe que a vi pela primeira vez. Fui atingido pela seta de Cupido. Vi-a e apaixonei-me. Desde esse primeiro momento sempre tive dificuldade em lhe dirigir a palavra. E quando ela, por um qualquer acaso do destino, metia conversa comigo, o gaguejar era a minha única resposta. Ficava vermelho, sentia a cara a ruborescer, e isso ainda ampliava a minha timidez transformada num gaguejar estúpido de onde só saíam grunhidos. Ela acabava por se ir embora, provavelmente a achar que eu era parvo. E era.
Chamava-se F., e é a única coisa que direi dela que não quero que, ao fim de tantos anos, alguém, finalmente, descubra o que eu nunca desvendei. Nem a ela.
Por uma única vez nos cruzámos numa festa. Uma festa de aniversário, claro, que, naquelas idades, não temos autorização para outras festas. E foi nessa festa que ganhei coragem para a convidar a dançar um slow. Mas ninguém dançava naquelas festas. Éramos novos demais. Os meninos andavam em grupo a fazer asneiras, as meninas andavam também em grupo mas aos risinhos. Nunca percebi o que significavam aqueles risinhos.
A certa altura, na única festa em que me cruzei com F., alguém pôs música a tocar. Uma dessas músicas era um slow, um tipo de música que veio a estar na moda na minha adolescência e que os rapazes e as raparigas aproveitavam para mostrar uns aos outros que gostavam de quem gostavam. Ainda me lembro da primeira vez que senti os dedos de uma rapariga a mexer-me nos cabelos, suavemente, como quem não quer nada, e a respiração húmida a tombar sobre o pescoço que começava a ficar rígido, fixo, para não alterar em nada o estado das coisas. E não, não foi, obviamente F. que me mexeu com os dedos no cabelo durante um slow. Até porque nem cheguei a dançar com ela. Mas também não digo quem foi porque toda a gente a conhece e eu não quero causar constrangimentos às raparigas que passaram pela minha vida.
Fui convidar F. para dançar o slow. Eu nunca tinha dançado. Não sabia dançar. Mas arranjei coragem no fundo mais profundo de mim e pensei Seja o que Deus quiser! (na altura andava num colégio de freiras). Para meu terror, ela disse que sim. Ela aceitou o meu convite. Estendeu-me a mão que eu agarrei cheio de vergonha. Lembro-me que, de repente, ficou muito calor. Senti a cara a ficar vermelha. Os meus músculos retesaram-se. Agarrei-lhe na mão e conduzi-a para o meio da sala onde ninguém mais estava a dançar. Vi toda a gente a olhar para mim. Os rapazes a rirem que nem uns perdidos. As raparigas a suspirarem e ansiosamente à espera de também elas serem convidadas. Os meus pés pesavam. As minhas pernas tinham dificuldade em mexerem-se. Sentia o corpo desconjuntado. A transpiração a acumular-se nos sovacos. Então parei. Ela em frente de mim. Estiquei os braços. Ela encaixou em mim. E ao meu primeiro passo pisei-a. Eu estava de sapatos de sola. Ela de sandálias. Magoei-a, claro. Ela deu um berro. Eu assustei-me e larguei-a. Ela saiu dali e foi procurar consolo junto das amigas. Eu fui a chacota dos rapazes.
Durante os quatro anos que durou a primária fui um apaixonado escondido. Nunca olhei para outra rapariga que não a F. e sabia que podia olhar para ela à vontade que o meu olhar nunca se cruzaria com o dela. Eu era invisível. Não existente.
Foi só quando chegámos ao quinto ano, no início do que é hoje o segundo ciclo, é que nos separámos. Fomos para turmas diferentes. Eu ainda a via nos intervalos. Ela continuava a não me ver. A não saber da minha existência. Mas foi só nessa altura que me livrei dessa paixão assolapada que não me permitia olhar para outras raparigas.
E foi então que conheci M. M. era uma colega de turma do quinto ano. M. meteu conversa comigo e, num intervalo, convidou-me para partilhar uma Bola de Berlim com ela. Mas essa é outra história. Essa é a história de M. Esta, de hoje, é a história de F. E a história de F. acaba aqui, no final da primária. Mesmo que, a tempos, me lembre dela. Como hoje. Gostava de me lembrar de um beijo trocado com ela. Mas isso nunca aconteceu.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/15]

Éramos Jovens

Éramos todos jovens. Jovens, bonitos, elegantes e muito sensuais. Eu também era assim. Era o futuro. Aquele que, no presente, representava o futuro e nunca, nunca por nunca, seria passado.
As calças apertadas. As camisas abertas. A barba de três dias. O cabelo revolto ou o gel no cabelo. As discotecas. Os bares dançantes. As saídas de casa. O teatro. O cinema. Os concertos. As bebedeiras. As drogas. As noites de sexo que os pais, coitados, nunca tinham tido. Eram namoradas, amigas, amigas muito coloridas, conhecidas.
No alto da minha arrogância apontava o dedo acusador aos velhos que me tinham precedido. Não sabiam. Já não sabiam. Ria-me de os ver curvados, gordos, carecas. De perderem o fôlego numa pequena corrida. De não entenderem a tecnologia. De terem dedos demasiado grossos para escrever mensagens no iPhone. De esquecerem onde tinham largado os óculos e não verem nada sem eles. Das roupas sem graça que usavam. Dos livros esquecidos que citavam. Das músicas parolas que dançavam. E como dançavam. Colados. Uns aos outros. A sentirem a transpiração uns dos outros.
Eu nunca usaria óculos nem bengala. Nunca mijaria nas calças nem na cama. De corpo direito e cabeça erguida nunca receberia ordens. Seria eu a dá-las.
O mundo era meu. Nosso. Nosso, dos jovens. Os que tinham futuro. Íamos ter trabalhos de grande responsabilidade mas cheios de glamour, com salários com que os nossos pais nunca puderam sonhar, e podíamos ir de férias para todo o lado. O mundo era o nosso quintal. A globalização tinha-nos dado a ideia de que podíamos ir a todo o lado. A internet levou-nos lá. As low-cost levaram-nos, de facto, a quase todos os lados. Mais a uns lados que outros que temos tendência para ir onde vai toda a gente. Precisamos de eco. Ver o que os outros vêm. Ouvir o que os outros ouvem. Ler o que os outros lêem. Ir onde os outros vão. Mas não uns outros quaisquer. Os nossos outros. Os meus outros. Os meus amigos. A minha tribo. O meu parâmetro de comparação. Fomos às mesmas ilhas das caraíbas, em resorts assépticos que a realidade é uma merda. Às mesmas cidades de cartaz. Quem não foi a Veneza? A Barcelona? A Paris? A Londres? Quem não passou férias na República Dominicana e em Cuba? Quem não foi a Jericoacoara? A Natal? Quem não sonhou em ir à Nova Zelândia? Mas já não chegámos lá.
Éramos a geração escolarizada. Todos aprendemos a ler e a escrever. A ter opinião e a deixar de a ter. Éramos superiores aos nossos pais que não sabiam ler ou tinham uma quarta classe tirada em adulto. Fomos os primeiros a levar livros para casa. Falávamos várias línguas. Íamos conquistar o futuro.
E saímos de casa dos pais para ir estudar. Estudar longe de casa – ainda se podia. E a pensar nunca mais voltar.
Como estávamos enganados.
E depois, depois de muitos anos de tudo a que nos julgávamos com direito, depois de muitos anos a tratar o mundo por tu, percebemos que nós éramos os nossos pais.
Eu percebi isso quando voltei para casa deles. Quando regressei, porque não podia ter sido de outro modo. Todo o meu conhecimento não foi suficiente para conseguir um trabalho bem pago. Sem capacidade de pagar uma renda de casa. Mais água. E gás. E electricidade. E o cabo. Como viver sem internet? Sem férias. Sem viagens. O mundo era meu, mas era digital. Estava lá, não estando. Um sonho que que só existia no Facebook, no Instagram.
Então, descobri que eles era eu. Eu era o velho. Era o gordo. Eu é que tinha os dedos demasiado grossos para escrever mensagens no iPhone. O meu presente já não tinha futuro, só passado. Um passado cheio de esperança e ambição que não chegou ao presente.
Agora uso calças largas porque me são mais confortáveis. Óculos para perceber quais os comprimidos a tomar. Já não tenho cabelo. O sexo só por marcação e com ajuda do comprimido azul. Já não saio de casa sem a bengala. Na verdade, já não saio de casa. Tenho frio. E medo.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/04]

Dia de Eleições

É dia de eleições.
Acordo ainda de noite. Acordo com o cantar do galo. É madrugada escura. Levanto-me e ponho café a fazer. Enquanto o cheiro a café fresco inunda a cozinha, vejo, pela janela, os contornos das montanhas que o sol, do outro lado, começa a fazer clarear.
Tenho tempo e opto por um banho de imersão. Há quanto tempo não o faço?
Enquanto encho a banheira de água quente, faço a barba. Quando me olho ao espelho não me reconheço. Rapei a barba. Desde os dezoito anos que trazia sempre uma pequena penugem. Hoje foi tudo abaixo. Pareço mais novo. Sinto-me mais feio. Não me pareço. Quem sou eu?
Entro na banheira. A água está quente, mas insisto. Entro aos poucos. Devagar. Vejo as pernas a ficarem encarnadas. Grito quando os testículos se queimam. Tenho comichão no rabo. Coço. Mas deixo-me ir. Finalmente estou deitado na banheira, coberto de água quente, e sinto-me bem. Sinto-me confortável. Descontraio. Fecho os olhos. Adormeço.
Acordo com frio. É já de dia. Deixei-me adormecer. A água na banheira está fria. Abro o ralo e deixo-a escorrer. Ligo o duche e tomo um banho rápido de água quente.
Seco-me. Visto uns boxers e uma camisola de alças e vou beber café. Está frio. Aqueço-o no micro-ondas. Torro uma fatia de pão saloio. Barro-lhe manteiga. Como e bebo.
Penso no que vestir. E decido pelo fato. Há anos que não o visto. Comprei-o para um casamento. Os noivos já se divorciaram e eu nunca mais vesti o fato. Mas vou vesti-lo hoje. Agora. Primeiro passo pela casa-de-banho e lavo os dentes.
Ponho uma camisa branca sobre a camisola de alças. Visto as calças. Ponho o cinto de cabedal. Calço os sapatos também de cabedal. Ainda me servem. Mas sinto os pés apertados. Ponho gravata. Casaco. Relógio no pulso. Carteira com os documentos e vinte euros no bolso das calças. Coloco os óculos escuros e saio de casa. Acendo um cigarro.
Está sol. Calor. Mas tenho de ir a pé. Desço o quintal. Viro à esquerda e faço a estrada até ao centro da aldeia. Entro no café. Peço uma Aldeia Velha. Viro-a de um trago. Largo uma moeda no balcão. Saio e dirijo-me à escola primária. Agora chama-se primeiro ciclo. O que importa são os nomes. Também tenho o meu. E preciso dele para descobrir onde votar. Não há muito por onde procurar. Três mesas de voto.
Entro na sala. Dou o cartão de cidadão. Dizem alto o meu nome e sinto alguma vergonha. Baixo os olhos para o chão. Quero passar despercebido. Mas sinto que errei ao vestir o fato. Sou o único de fato a votar. Coloco a cruz no sítio que me parece o certo. Sinto-me livre no meu dever que também é o meu direito. Dobro-o duas vezes. Coloco-o na urna.
Saio da sala. Acendo outro cigarro. Está calor. Sinto umas gotas de transpiração a cair pelas têmporas. A gravata enforca-me.
Vejo as horas. Meio-dia. Olho a carteira. Descubro os vinte euros. Decido ir almoçar um bitoque ao snack-bar. Um bitoque e uma imperial. Um pão para molhar no ovo a cavalo. O bife do bitoque será fino e rijo. Irei deslocar o pulso ao tentar cortar o bife. Irei partir um dente ao trincar um bocado de gordura. Irei deixar cair um pingo de cerveja na camisa branca e um bocado de amarelo do ovo sobre a gravata. Irei pensar no motivo de nunca usar gravatas. Irei beber um café queimado. Uma aguardente manhosa que me irá fazer azia. E irei pensar que teria feito melhor ter ido para casa, fritado umas salsichas, torrado um pão de véspera e comido um cachorro com mostarda, acompanhado pelo vinho tinto da cooperativa e bebido o café da avó feito de manhãzinha.
Coloco as mãos nos bolsos. E vou até ao snack-bar. Está a apetecer-me um bitoque, por mais ranhoso que seja. Com um pouco de sorte há azeitonas de entrada. E dias não são dias. E hoje é dia de eleições.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/06]

Quem É que Está Aí?

Sinto a porta da rua a abrir. Deve ser ela, penso. Está de regresso, finalmente. Já era tempo, não?
Aproveitei a vergonha do sol para arrumar a lenha que me vieram trazer a casa. Não estava muito calor. Chuviscou um pouco. Peguei no carrinho-de-mão e andei, para cima e para baixo, a acartar a lenha para debaixo do telheiro. Amealhar para o Inverno. Enquanto ainda nos deixam queimar madeira para nos aquecermos.
Ia no segundo carrinho quando o sol despertou e veio na companhia do calor. Custou-me carregar o resto da lenha. Não sei quantas viagens fiz com o carrinho-de-mão. Mas ganhei umas bolhas nas mãos. Despertei a minha alergia ao calor e tive de tomar um Zyrtec. Demorou a fazer efeito.
Enquanto acartava a lenha para o telheiro pensei na conversa que tinha tido com ela no dia anterior. A conversa que azedou e acabou por me deixar sozinho em casa.
Eu só tinha dito que a culpa era dela. Não dela, dela, especificamente. Mas de todas as elas e eles e nós. Eu! Eu também me incluía na culpa mas, na conversa, tinha-me saído um dela por força das circunstâncias. Estávamos a discutir e era eu contra ela. E ela levou com a culpa. Mas a culpa não era só dela. Mas também. Eu só disse A culpa é tua. E ela, admirada, quase escandalizada, perguntou Minha? Minha como? e eu respondi-lhe Porque votaste neles. E ela ficou ali assim, admirada, de boca aberta, a olhar para mim.
O sol já tinha despertado. Abrira as portas ao calor. A transpiração corria-me corpo abaixo. E eu pensava no que ela me tinha dito.
Mas eu sou só um voto e votei para protestar. Não significa mais que isso. Um protesto que não tem poder nenhum. Um voto. O que é que isto significa? Nada! Não significa nada! Mas significava. Tanto significava que eles tinham chegado ao poder. Todos os votos unitários contados um-a-um conseguiu elegê-los. Com maioria absoluta. E estavam a transformar tudo. A vida como nós tínhamos aprendido a viver. Tudo transformado em nome da eficiência. Em nome do futuro. Mas qual futuro? Era tudo muito obscuro e bizarro. Porque nem sequer é para todos. Quem pode pagar pode comprar a bula. Porque há bulas. Há sempre bulas. Há bulas para quem pode pagar. E foi isso que lhe quis explicar. Que pessoas como nós, estão sempre fodidas. Utilizam-nos e depois descartam-nos. Os outros, os que podem, os que mandam, esses podem sempre pagar para ser como eles querem. E, ironia do destino, somos sempre nós que elegemos esta gente. Era isso que eu lhe estava a explicar. E ela só me perguntou E eu sou a culpada pela merda de vida que agora temos? E eu nem precisei de lhe responder. Olhei para ela. Um olhar parvo e cínico, admito. Só olhei para ela. E ela viu a resposta no meu olhar.
Já estava cansado quando fiz a última viagem até ao telheiro com o resto da lenha. E parecia que tudo aquilo era só para me chatear. Na minha última viagem o sol despediu-se. O céu cobriu-se de negro, trouxe de volta um pouco de frio e um bocadinho de chuva. Pensei Ao menos a lenha não fica molhada.
Parei debaixo do telheiro a olhar para a pilha de lenha. Arrumei o carrinho-de-mão. Observei a chuva e voltei a pensar na conversa que tinha tido com ela.
Mas já não houve conversa. Ela ficou zangada comigo. Levantou-se do sofá e saiu de casa. Ouvi o carro a descer a alameda e a sair o portão. Onde andaria?, pensei.
Afinal está aqui, de regresso a casa. Afinal a conversa era estúpida. Não era caso para tanto. Claro que ela era culpada. Ela como eu. Mas não precisava de ficar zangada comigo e sair porta fora. E pergunto alto És tu?, mas ninguém me responde. Nem ouço barulho. Não me chega o cheiro dela. Não lhe ouço a respiração. Nem lhe sinto os passos. Quem será? Quem é que está aí?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/18]

Cheira a Homem, Aqui Dentro

A minha mãe entrava pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava à transpiração de um adolescente que dormia enfiado debaixo de dois cobertores em pleno Verão porque gostava de se sentir aconchegado. Cheirava às pívias batidas durante a noite, debaixo dos lençóis, enquanto olhava as fotografias já gastas de um número qualquer da revista Gina.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e lavar os odores impuros que se sentiam ali dentro no quarto onde eu nidificava, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar! e eu que remédio tinha senão levantar-me e manter o respeito pela minha mãe, pelo menos até à hora do almoço, à espera que fizesse algo que fosse do meu agrado, o que quase nunca era um problema porque sempre fui uma boa boca, graças a Deus, e a cozinha dela era santa.
Mais tarde, continuava a entrar pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava ao álcool ingerido de véspera a destilar pelo poros do corpo. Cheirava a tabaco frio fumado e entranhado na roupa que jazia no chão, ao fundo da cama, numa massa disforme. Cheirava a vomitado, pelos excessos da noite.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e lavar os odores impuros que se sentiam ali no quarto onde eu nidificava, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar! e eu não me mexia à espera que ela saísse do quarto sem me puxar os cobertores para trás e não me ver de pau feito, tesão de mijo à espera de se sentir, enfim, aliviado.
E depois, continuava assim a entrar pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava mal. Cheirava a cama. A corpo de homem deprimido sem vontade de se levantar, tomar banho e sair de casa. Cheirava a noites e dias do mesmo pijama caído sobre um corpo que não se lavava e mal se alimentava. Um corpo que se arrastava pelas sombras do corredor para ir à casa-de-banho quando não estava ninguém em casa.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e mostrar-me como a vida corria bonita lá fora, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar!, mas eu não me levantava, não via nada lá de fora, encolhido na cama, cabeça coberta pelos cobertores a ansiar que ela saísse do quarto e me deixasse sozinho ali, na cama.
E mais tarde, muito mais tarde, ela continuava assim a entrar pelo quarto dentro, mas mais devagar, a barafustar, mas a barafustar baixinho, e dizia Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. Mas não era verdade. Já não cheirava mais a homem ali dentro. Ali já só cheirava a memórias de um dia, um outro dia…
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e apoiava-se na janela e respirava o ar fresco que agora era para ela, todo para ela, e já não se virava para trás nem dizia Vá, vamos a levantar!

[escrito directamente no facebook em 2019/08/23]

Um Mergulho na Piscina

A miúda chegou. Foi ter com os outros miúdos. Mandou os chinelos a voar. Tirou logo as calças. A blusa. Largou tudo no chão. Depois fez pose para mostrar o fato-de-banho novo. Reduzido. Fluorescente.
Eu estava no meu canto. Sentado na cadeira. À sombra de um chapéu-de-sol. Quantos anos teria a miúda?, pensei. Dezasseis? Dezassete? Não, definitivamente não. Dezoito anos. Decidi que tinha dezoito anos para não ser atormentado pela culpa. E continuei a olhar para a miúda à beira da piscina, em pose para o grupo de amigos, a mostrar o corpo, o fato-de-banho, aquele conjunto que tapa-e-revela.
E, no fim de tudo, eu ainda gostava de olhar para as miúdas.
Ela virou costas ao grupo e mandou um salto para a piscina, e mergulhou, com as mãos à frente do corpo.
Eu senti um tremor. Imaginei que senti um tremor quando a vi mergulhar na água da piscina. Mantive o olhar ansioso sobre as águas. Sentia umas gotas de transpiração a escorrer-me pelas frontes.
Vi-me há trinta anos atrás. Vi-me assim, num estúpido ritual de acasalamento qualquer. Numa brincadeira animalesca para gáudio dos meus amigos. Para brilhar aos olhos das miúdas. Corri. Corri ao longo da relva da piscina, uma correria elegante, o corpo direito, os braços a cortarem o ar, os cabelos a esvoaçarem sobre os olhos, cheguei à zona das lajes, senti um ligeiro escorregar dos pés, mas percebi-os suficientemente seguros para ganhar impulso, saltar para o ar, sobrevoar a água cheia de cloro, sentir-me o super-herói da piscina, as miúdas de boca aberta, espantadas com a elegância do meu salto, o mergulho na água como uma agulha, a escapar ao atrito, a furar o espelho de água como se fosse uma vara e ir fundo dentro da piscina e esqueci-me que ali, daquele lado, a piscina era baixa, e já ia tarde quando me lembrei, e foi nesse preciso momento em que me lembrei que senti a cabeça a bater no fundo da piscina e senti a dor, um choque eléctrico, e desapareci de mim, deixei de me recordar do que quer que fosse, que já não era eu, pelo menos não era eu acordado, consciente, e só voltei a tomar-me por conta numa cama de lençóis brancos e impecavelmente esticados, e algumas pessoas ao meu lado, reconheci nelas a minha mãe, o meu pai e vi-os a chorar e percebi o que lembrava de ter percebido logo no momento imediatamente antes de apagar e ficar tudo negro Estou fodido! E estava. Estava fodido. E o mundo acabou ali. Naquela cama de hospital.
Nunca chorei.
Passaram muitos anos. E agora estava ansioso por causa do mergulho da miúda. Não devia ter vindo aqui, à piscina.
Revirei os olhos para o lado e disse à rapariga que estava sentada, não muito longe de mim, a ler um livro, não consegui ver a capa, não sei que livro era, e disse-lhe Leva-me daqui. Ela pousou o livro no chão. Vestiu-se. Arrumou as suas coisas e colocou as mãos sobre a cadeira, destravou-a e começou a girá-la . Eu ainda tive tempo de ver a miúda a subir as escadas para sair da piscina e ir, molhada, ter com o grupo de amigos que a esperava deitado sobre a relva.
Eu suspirei aliviado. Mas ainda sentia umas gotas de transpiração a correrem-me pelo pescoço abaixo. A rapariga, baixou-se enquanto empurrava a cadeira e disse-me Foi uma boa manhã. Temos de cá voltar.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/05]

Redes Mosquiteiras

Andei a pôr redes mosquiteiras nas janelas de casa.
A ideia era mandar fazer uns caixilhos em alumínio com uma rede fina de arame. Tudo pintado com as cores das molduras das janelas para passar despercebido.
Mandei fazer um orçamento. Fizeram-no. Mandaram-mo. Recebi-o. E resolvi esperar que me saísse o Euromilhões.
Estava farto das moscas, melgas e mosquitos. A cidade é de todos, bem sei, mas há alguns que acham que são mais que os outros, entram pelas casas dentro e desatam a chatear toda a gente. A morder. A picar. A transmitir doenças. A zumbir. Um horror. E então com a chegada do Verão, a bicheza anda toda doida. O calor em casa é diabólico. Não se pode pagar ar condicionado que é caro e, além do mais, fica sempre bem dizer que é em defesa do ambiente. Eu não tenho ar condicionado em casa porque defendo o ambiente. Eu não tenho ar condicionado em casa porque não o posso pagar.
Bom, estava farto das moscas, melgas e mosquitos. E cansado de morrer de calor dentro de uma casa de janelas fechadas para manter a bicheza na rua. Nem dos cheiros que se acumulam entre-portas me conseguia livrar. Os cheiros a comida, a transpiração, a sexo, a vinho azedo quando vomito, a tabaco frio quando as beatas se acumulam em vários cinzeiros perdidos pela casa. Então, estava com um copo de vinho na mão e um cigarro entre os dedos quando decidi Vou pôr mãos à obra. E assim fiz. Tirei medidas às janelas. Todas iguais. Boa.
Saí de casa com o cartão multibanco e a esperança que o dinheiro acumulado na conta chegasse para as necessidades. Comprei umas ripas de madeira. Uns metros de rede em plástico, de cor verde. Tinta para pintar a madeira da cor das janelas. Agrafador. Agrafos. Um martelo. Uma serra. Uns cantos em metal e parafusos pequenos. Um chave de fendas. Um pincel.  O total. Enfiei o cartão de plástico do Multibanco. Apareceu a conta. Nem olhei para não desanimar. Rezei três Avé-Marias em dois segundos. Carreguei em Verde. Código. Verde. E a transacção foi aceite.
Corri para casa. Fui para a cozinha. Um belo sítio para fazer este tipo de coisas. Cortei as ripas de madeira com as medidas das janelas. Juntei-as com os cantos em metal por dentro. Fiz umas belas molduras. Pintei-as. Enquanto secavam, abri uma garrafa de Real Lavrador, da Adega do Redondo. Era o que havia cá por casa. Acendi um cigarro. Esperei.
Cortei a rede plástica ao tamanho das molduras e agrafei-a à madeira. Depois coloquei-as do lado de fora das janelas e empurrei-as para dentro, para ficarem o mais coladas possível à janela.
As redes não ficaram muito bem esticadas. Estão enfoladas. E eu agora já não posso enfiar a cabeça pelas janelas para espreitar para a rua. Agora quando quero dar fé do que se passa tenho mesmo de ir à varanda. Mas a varanda só dá para um lado. Paciência.
Agora estou só à espera que o calor regresse para poder ter as janelas abertas e livre de bichos. Mas o frio, o cabrão do frio, parece que retornou. Raios o partam.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/15]