As Papoilas Saltitantes

O jogo ainda não terminou, mas já ouço foguetes. Há foguetes um pouco por todo o lado. São morteiros. Como aqueles que anunciam as festas nas aldeias. Para que as gentes das aldeias vizinhas venham à festa. Para que os moços das aldeias vizinhas venham bailar com as moças da terra. E os moços da terra, ciumentos, com o mau vinho a transbordar na garganta, abrem as navalhas com que cortam o toucinho salgado e o pão duro nos almoços pobres no campo, para abrir as barrigas dos invasores.
No futebol como na vida.
Há sempre este grito de pertença. Um grito em uníssono. A mesma rua. O mesmo bairro. A mesma cidade. O mesmo partido. O mesmo clube.
O mesmo grito. Mas eu fujo do grito. Do grito unificado. Não gosto de unanimidades. Gosto de bailar com as moças da aldeia vizinha.
O árbitro apita. É o fim. O fim do jogo. A vitória garante a Vitória. Está muita gente alegre. Eu estou alegre. Levanto os braços ao céu. Ninguém vê. Posso fazer estas coisas. Estou sozinho. Ninguém me vê nestas manifestações de regozijo.
Olho à volta e vejo que mal toquei nos tremoços e nas pevides. Acabei por deixar os camarõezinhos no frigorífico. Nem me lembrei deles. Por outro lado, as cervejas já foram todas. Olho para as garrafas vazias caídas no chão e penso Tenho de as apanhar. Tenho de as apanhar e levar para o vidrão. Tenho de as apanhar mas não já. Não agora.
Levanto-me a custo do sofá. Quanto tempo estive aqui sentado? Olho para trás. Olho para o sofá. Para onde estive sentado. E vejo o sofá a recuperar, lentamente, a sua forma, depois de eu o ter esmagado durante, quantas horas? Nem sei. Muitas.
Vou até à janela. Acendo um cigarro. Olho para a rua. Vejo os carros a passar. Vai gente pendurada nas janelas dos carros. Nos tectos abertos dos carros finos. Nas caixas abertas das carrinhas populares. Rapazes, a transpirar, em tronco nu. Raparigas excitadas, com os peitos a dar-a-dar. Há bandeiras. Cachecóis. Braços esticados no ar. Mãos em V. Apitos. Buzinas. Tantas buzinas. A apitar. A apitar. Lembra-me o comboio Lá vai o comboio, Lá vai a apitar, mas aqui o comboio não apita. Aqui é a Linha do Oeste e o comboio não quer saber desta gente. Esta gente que se une para festejar a vitória como se fosse sua, e não mexe um dedo para exigir, sim exigir!, que o comboio chegue a esta cidade em condições. Com horários. Com rapidez. Com condições dignas de gente digna.
Eu? Eu já não tenho nem idade nem vontade. A cidade matou-me a vontade. E os anos ajudaram a calcá-la. Mas não deixa de me entristecer.
Estou contente com a vitória. Com a vitória do meu clube. Também a sinto um pouco minha. Aliás, muito minha. Mas não vou para a rua. Não gosto de multidões. Não gosto de grupos. As multidões tendem a deixar de pensar. Seguem sempre alguém. Perdem o controle. Eu fico aqui. Aqui na minha janela. A ver à distância. A ouvir os Olé! Olé! Os Esse Ele Bê! Esse Ele Bê! E a não perder o controle.
Vejo os morteiros a rasgarem o céu. Já é quase noite. Daqui a pouco há-de haver alguém a lançar fogo-de-artifício. A iluminar, com múltiplas cores, estas vidas tão pobres e vazias que só se alegram assim, nestes momentos de catarse em grupo.
Lanço a beata para a rua. Acendo outro cigarro. A festa continua. E vai durar até amanhã. Os canais de televisão não vão largar o osso tão depressa. Têm horas ilimitadas de gente a debitar opinião. É barato e garante audiência.
Eu volto a lembrar-me dos camarõezinhos e vou até à cozinha. Já não tenho cerveja. Ainda há vinho. Acompanho os camarõezinhos com vinho tinto. É o que há. Não me queixo. Lá de fora continua a chegar o som dos foguetes, as buzinas dos carros, o cheiro a gasóleo e a borracha queimada.
E alguém canta Ser benfiquista // É ter na alma a chama imensa // Que nos conquista // E leva à palma a luz intensa // Do sol, que lá no céu // Risonho vem beijar // Com orgulho muito seu // As camisolas berrantes // Que nos campos a vibrar // São papoilas saltitantes…

[escrito directamente no facebook em 2019/05/18]

Ela Foi como Veio, sem Abrir a Boca

Caía uma chuva fraquinha.
Eu estava a apanhar azeitonas. Tinha estendido a rede por baixo da primeira árvore quando ela apareceu. Apareceu vinda do nada. Estava a agarrar no varapau para bater na oliveira quando a vi subir a pequena ladeira que ligava a estrada lá em baixo ao campo das oliveiras cá em cima.
Não tenho grande terreno mas, mesmo assim, o suficiente para me fazer trabalhar o campo de vez em quando e manter um cabaz sempre cheio. Praticamente para consumo próprio. Uma vez ou outra serve-me de troca com vizinhos. Raramente para vender. E faço o trabalho sozinho. Não tenho como pagar. E o trabalho não é assim tanto que precise de ajuda. Vou fazendo. Como posso. Quando é preciso. É a minha horta.
Estava pronto a verdascar a oliveira quando a vi surgir na ladeira. Ela viu-me a olhar para ela. Parou. Olhou para mim. Mediu-me. Olhou à minha volta. Olhou as oliveiras. Depois entrou pelo campo dentro, pegou num outro varapau que estava por lá caído e começou a bater na oliveira.
Não disse nada. Não dissemos nada. E andámos a manhã toda naquilo. De oliveira para oliveira. A apanhar a azeitona. Ofereci-lhe água. Aceitou.
A meio do dia parei. Parámos. E aquela chuva de tolos também. Também parou.
Sentei-me debaixo de uma oliveira. Abri a sacola. Cortei uma fatia de pão e estendi-lha. Ela olhou para mim. Depois aproximou-se, agarrou na fatia de pão e sentou-se ao meu lado, debaixo da oliveira. Cortei um bocado de queijo seco e dei-lho. Agarrou. Comeu. O pão e o queijo. Abri uma garrafa de vinho tinto e também lhe ofereci. E também aceitou. E também bebeu.
Depois fumei um cigarro. Não quis.
Voltámos ao trabalho.
No final do dia, com o sol já a esconder-se atrás dos montes, dei por finalizado o trabalho. Olhei para ela. Ela olhou-me. Não dissemos nada. Voltei para casa. Ela veio comigo. Atrás de mim.
Entrei em casa. Entrámos.
Entrei na cozinha. Cozi umas batatas. Juntei uns bocados de toucinho. Dois ovos. Ela foi pela casa fora. O esquentador acendeu-se.
Eu pus a mesa. Servi vinho. Cortei umas fatias de pão. Um frasco com azeite.
Ela regressou. Lavada. O cabelo molhado, penteado para trás. A mesma roupa no corpo. Sentou-se à mesa. Servi-a. Servi-me.
No fim, levantei-me e fui para a janela fumar um cigarro. Ela levantou a mesa e lavou a louça.
No fim do cigarro fui buscar umas roupas lavadas para ela. Um cobertor. Lençóis. Deixei-lhe tudo em cima do sofá.
Era já de madrugada quando a senti entrar na cama. Na minha cama. Agarrar-se a mim. Estava nua. Eu estava nu. Adormecemos. Eu adormeci com ela agarrada a mim.
No dia seguinte, quando acordei já ela estava levantada. Cheirava a café acabado de fazer. E a torradas.
E foi assim.
Vivemos anos lado a lado. Um com o outro. Partilhámos tudo. Ou quase. Não falávamos. Quer dizer, falávamos. Mas nunca um com o outro. Ela falava porque a ouvi gritar alguns palavrões quando se magoava. Quando queimou uma camisa que estava a passar a ferro. Quando cortou mal o cabelo que estava a tentar aparar.
Depois, um dia, foi-se embora. Assim. Foi-se embora como veio. Sem dizer nada. Sem levar nada. Deixou ficar as memórias. E o cheiro. O cheiro que acabou por se diluir até deixar de o sentir.
Já quase não me lembro da cara dela. Da cor dos seus cabelos. Dos olhos, desses não me lembro mesmo da cor. Mas recordo estarmos sentados no alpendre. Eu a fumar. Ela sentada ao meu lado. Ambos em silêncio. A olhar a estrada lá em baixo em companhia um do outro. Até a noite cair. E depois cairmos na cama e eu adormecer com ela abraçada em mim.
Recordei isto hoje porque comecei de novo na apanha da azeitona.
Está a cair uma chuva miudinha.
Ainda olhei lá para baixo para a estrada. Mas não havia ninguém a subir a ladeira.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/19]