Gosto de Dançar Músicas Bonitas da Minha Infância

Hoje andei cá por casa a dançar.
Acordei cedo, com o sol a bater-me nos olhos e uma fome dos diabos. Liguei o rádio da mesa-de-cabeceira e espalhou-me The Windmills of Your Mind, na versão de Dusty Springfield, por toda a casa. Mandei o edredão para o fundo da cama com os pés e levantei-me de um pulo. Tinha vontade de mijar mas tive de refrear a vontade. Primeiro a dança. E foi a dançar que saí do quarto, percorri o corredor todo até à cozinha, fiz café, uma torrada, fumei o primeiro cigarro do dia enquanto esperava pelo café e pela torrada, no balanço de uma dança muito minha que me punha a bailar como me apetecia bailar ao som da música saída do rádio e que me inundava a casa como um perfume caro de boa disposição.
No fim da música lá fui mijar.
Desliguei o rádio, que não queria saber de noticiários, e acabei a beber a caneca de café e a comer a torrada cheia de manteiga Milhafre, manteiga que me escorria pelo queixo abaixo a cada dentada que lhe desferia.
Aproveitei a boa-disposição para aspirar a casa. Abri todas as janelas de todas as divisões da casa. A corrente-de-ar que sentia percorrer-me o corpo agradava-me. Fui à rua levar o saco do lixo. Só quando lá estava é que me lembrei que estava de cuecas. Na verdade eram boxers e passavam bem por calções. Estava calor e ninguém se sentiu incomodado com as minhas intimidades.
No regresso a casa tudo mudou.
Foi logo ao franquear a porta.
O sol foi coberto por uma nuvem cinzenta. A corrente-de-ar em casa tinha arrefecido e causava-me arrepios. Fechei as janelas todas. Começou a chover. Uma chuva que começou logo por cair violenta. Fiquei à janela da cozinha a ver a chuva a cair forte lá fora. E pensei As coisas boas nunca duram. E acabei a concluir E o Domingo é sempre o Domingo.
Agarrei num cigarro. Não cheguei a acendê-lo. Olhei-o, não senti vontade de o fumar, e acabei a amarfanhá-lo na mão. Lancei-o para o lava-loiça com um desprezo que nem parecia meu. Eu gosto de fumar.
Senti o meu corpo a desfazer-se. Senti o meu corpo a ir por mim abaixo até ao chão que tinha acabado de aspirar e desaparecer entre as frinchas das ripas de madeira.
Regressei ao quarto. Demorei a fazer o corredor. Parecia maior, mais comprido, sem fim, com um horizonte que se projectava para além de si próprio a cada passo que eu dava na tentativa de lá regressar.
Cheguei de novo à cama. Deitei-me. Puxei o edredão sobre mim, sobre a cabeça, e nem os olhos ficaram de fora.
E enquanto tentava adormecer, no quentinho confortável do edredão, pensei como gostava de dançar. Dançar sozinho. Só para mim. Sem ninguém ver. Gostava muito de dançar estas músicas bonitas da minha infância.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/29]

Eu Sei!

Estou no carro. Vou a descer a estrada em direcção à Batalha. Ao fundo, sobre a montanha o céu está negro.
Estou a descer a estrada e sinto cair-me em cima uma enorme opressão sobre o peito. Não sei de onde veio. Caiu assim. Sobre mim. Entristeço. Largo por momentos o volante.
Esqueço-me que estou na estrada.
Pareço ter uma ninhada de ratos a roer-me as entranhas. A furar dentro de mim. A morder-me. A moer-me.
Ponho as mãos na barriga. Dói-me lá dentro. Mas não sinto nada. Não me dói nada físico. É só qualquer coisa lá dentro. Uma impressão. Que sobe até ao pulmões e os aperta. Dificulta-me a respiração. Respiro devagar. Respiro.
Tenho a cabeça a rebentar. Pende do pescoço. Quer cair e rebolar por mim abaixo.
Não cai. Mas eu queria que caísse. Que a cabeça caísse eu deixasse de pensar nos ratos que me comem cá por dentro.

queria fumar um cigarro beber um copo de vinho tinto ver o carmina burana pelos la fura dels baus o jogo sem interesse da selecção nacional contra a lituânia comer uma língua de vaca uma salada de orelha de porco uma salada de polvo com um molho de vinagrete beber uma cerveja belga blanche ir para a cama com a ana com a bela com carla com a dora com elas todas em separado ou juntas não importa quero mijar tomar um ben-u-ron caff contra a enxaqueca que me cega uma bombada de ventilan para respirar melhor usar preservativos para me proteger das intempéries ouvir o novo disco do devendra banhart ou ver o parasitas de bong joon-ho mas esse afinal já vi já vi e gostei bastante foda-se tanto cinema e análise social lá dentro um filme sobre a luta de classes já transportada para outro nível agora é a sobrevivência a qualquer custo e o salário mínimo é miserável e o médio não é grande merda e o salário do antónio mexia é pornográfico mas que se foda o antónio mexia e a edp e o antónio costa e o antónio saraiva e são todos antónios estes cabrões que já me chateia e agora até uma torrada de pão caseiro e barrada com manteiga milhafre dos açores ou primor meio-sal e um chá já me alegrava e podia levar para longe esta amargura que tenho dentro de mim que não sei de onde veio mas podia para lá voltar e deixar-me em paz de papo para o ar a apanhar banhos de sol na praia de são pedro de moel onde o sol nunca nasce antes do meio-dia e beijar a minha mãe o meu pai a minha filha o meu filho a mim num espelho onde me vejo de barba feita e cabelo penteado num eu que não sou mas que deveria ser dizem-me e beber uma garrafa de vinho branco talvez um verde alvarinho a acompanhar umas pernas de rã que comi uma vez e jurei que voltaria a comer porque gostei tanto mas tanto e nunca mais as vi as pernas de rã em lado nenhum e um pastel de tentúgal e um esquimó que dantes havia em todo o lado e agora em lado nenhum ou uma morcela de arroz que acho que ganhou um prémio qualquer que deve ter sido importante e eu só penso em comida não sei porquê que nem fome tenho mas ia ver o concerto do nick cave que afinal é só em abril e no altice arena que tem uma merda de som nunca lá vi nenhum concerto que me agradasse e agarrava agora na eliete da dulce maria cardoso para ler e porque é que não agarro no livro e o leio porquê porquê porquê porquê

E descubro-me dentro do carro a descer a estrada em direcção à Batalha e o céu está escuro como breu e começa a chover torrencialmente e eu vejo as mãos, as minhas mãos, a tremer por cima do volante que está solto, e baixo-as e agarro o volante e o carro e tomo a vida, a minha vida, nas minhas próprias mãos.
Sinto uma angústia enorme a consumir-me. Cá dentro. Cá dentro do peito. Do meu peito. Quero gritar mas não consigo. Tenho o volante nas mãos.
Vejo um camião TIR a vir no sentido contrário. Vem depressa. Eles andam sempre depressa nestas estradas. Eu conduzo na minha faixa. E, no último segundo, viro o volante do carro. E quero mesmo que seja o último segundo. E nesse último segundo ainda penso Eu sei.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/14]

As Dores de Nick Cave

Tenho de ter no meu horizonte um jogo do Benfica. Ou o lançamento de um livro de um autor de cabeceira. Ou o novo disco de uma banda do coração. Ou a estreia de um filme que penso poder ser extraordinário.
Tenho de ter um horizonte que me garanta motivo de vida. Vontade de galgar os dias que se seguem, secos. Um motivo para me fazer saltar da cama, largar o conforto do edredão, o cheiro a mim nos lençóis e sair para o frio da casa gelada, solitária e triste.
Há dias em que me agarro ao edredão e o puxo para cima da cabeça. Mergulho, inerte, naquela escura solidão. Não ouço o barulho da rua. Não vejo a luz do dia. Não saio da cama. Nem para comer. Nem para mijar.
Sinto-me afundar no conforto do colchão. Deixo todos os problemas lá fora. Sinto-me seguro. Livre. Quero deixar-me ir. Mas depois penso Quando é que o Benfica joga? E contra quem? Acho que quero ver! Quero ver o Benfica!
E então mando o edredão para trás, decidido. Aguento o frio da casa. Levanto-me. Vou mijar. Beber café. Comer uma torrada. Olhar pela janela para a rua, em dia de sol ou de chuva, suspirar e pensar que vou tomar um banho quente, vestir-me e sair de casa.
Coço o rabo com a mão por dentro do pijama. Ainda não estou convencido, embora já tenha decidido. Massajo os testículos. Cheiro os dedos. Tenho de tomar um banho.
Vou sair. Vou à rua. Mas vou escolher caminhar por ruas esconsas e escuras onde ninguém me veja e onde eu não conheça ninguém.
Não quero ter de vomitar sobre os sapatos de ninguém que pare para me dizer Olá, pá! Quero só dar uma volta pela cidade. Respirar o dióxido de carbono dos carros em fila na avenida de um só sentido. Escarrar para o chão as minhas tripas. E aguentar os dias que se sucedem uns-aos-outros até ao próximo jogo do Benfica e esperar que nenhum fim-de-mês se interponha entre mim e o meu futuro breve.
Desvio o olhar da janela. Acendo um cigarro. Sento-me na mesa da cozinha. Trinco a torrada seca. Bebo um gole do café frio. Sinto um novelo dentro de mim. Não descubro a ponta do novelo. Fumo o cigarro. Fumo-o à pressa enquanto acabo com a torrada seca que enfio toda na boca. Engulo o café frio que amolece a torrada seca. Acabo o cigarro. E corro até à cama. Passo pela aparelhagem. Carrego no Play. E deixo, em Repeat, o Ghosteen do Nick Cave & The Bad Seeds. Uma depressão só se combate com outra, penso. Enfio-me de novo debaixo do edredão. E digo, para me acalmar É só por um bocadinho. Só por mais um bocadinho. E penso Devia ter lavado os dentes. Mas acabo por não fazer nada do que devia. E ouço, lá ao fundo, na sala, as dores do Nick Cave.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/07]

Dia de Eleições

É dia de eleições.
Acordo ainda de noite. Acordo com o cantar do galo. É madrugada escura. Levanto-me e ponho café a fazer. Enquanto o cheiro a café fresco inunda a cozinha, vejo, pela janela, os contornos das montanhas que o sol, do outro lado, começa a fazer clarear.
Tenho tempo e opto por um banho de imersão. Há quanto tempo não o faço?
Enquanto encho a banheira de água quente, faço a barba. Quando me olho ao espelho não me reconheço. Rapei a barba. Desde os dezoito anos que trazia sempre uma pequena penugem. Hoje foi tudo abaixo. Pareço mais novo. Sinto-me mais feio. Não me pareço. Quem sou eu?
Entro na banheira. A água está quente, mas insisto. Entro aos poucos. Devagar. Vejo as pernas a ficarem encarnadas. Grito quando os testículos se queimam. Tenho comichão no rabo. Coço. Mas deixo-me ir. Finalmente estou deitado na banheira, coberto de água quente, e sinto-me bem. Sinto-me confortável. Descontraio. Fecho os olhos. Adormeço.
Acordo com frio. É já de dia. Deixei-me adormecer. A água na banheira está fria. Abro o ralo e deixo-a escorrer. Ligo o duche e tomo um banho rápido de água quente.
Seco-me. Visto uns boxers e uma camisola de alças e vou beber café. Está frio. Aqueço-o no micro-ondas. Torro uma fatia de pão saloio. Barro-lhe manteiga. Como e bebo.
Penso no que vestir. E decido pelo fato. Há anos que não o visto. Comprei-o para um casamento. Os noivos já se divorciaram e eu nunca mais vesti o fato. Mas vou vesti-lo hoje. Agora. Primeiro passo pela casa-de-banho e lavo os dentes.
Ponho uma camisa branca sobre a camisola de alças. Visto as calças. Ponho o cinto de cabedal. Calço os sapatos também de cabedal. Ainda me servem. Mas sinto os pés apertados. Ponho gravata. Casaco. Relógio no pulso. Carteira com os documentos e vinte euros no bolso das calças. Coloco os óculos escuros e saio de casa. Acendo um cigarro.
Está sol. Calor. Mas tenho de ir a pé. Desço o quintal. Viro à esquerda e faço a estrada até ao centro da aldeia. Entro no café. Peço uma Aldeia Velha. Viro-a de um trago. Largo uma moeda no balcão. Saio e dirijo-me à escola primária. Agora chama-se primeiro ciclo. O que importa são os nomes. Também tenho o meu. E preciso dele para descobrir onde votar. Não há muito por onde procurar. Três mesas de voto.
Entro na sala. Dou o cartão de cidadão. Dizem alto o meu nome e sinto alguma vergonha. Baixo os olhos para o chão. Quero passar despercebido. Mas sinto que errei ao vestir o fato. Sou o único de fato a votar. Coloco a cruz no sítio que me parece o certo. Sinto-me livre no meu dever que também é o meu direito. Dobro-o duas vezes. Coloco-o na urna.
Saio da sala. Acendo outro cigarro. Está calor. Sinto umas gotas de transpiração a cair pelas têmporas. A gravata enforca-me.
Vejo as horas. Meio-dia. Olho a carteira. Descubro os vinte euros. Decido ir almoçar um bitoque ao snack-bar. Um bitoque e uma imperial. Um pão para molhar no ovo a cavalo. O bife do bitoque será fino e rijo. Irei deslocar o pulso ao tentar cortar o bife. Irei partir um dente ao trincar um bocado de gordura. Irei deixar cair um pingo de cerveja na camisa branca e um bocado de amarelo do ovo sobre a gravata. Irei pensar no motivo de nunca usar gravatas. Irei beber um café queimado. Uma aguardente manhosa que me irá fazer azia. E irei pensar que teria feito melhor ter ido para casa, fritado umas salsichas, torrado um pão de véspera e comido um cachorro com mostarda, acompanhado pelo vinho tinto da cooperativa e bebido o café da avó feito de manhãzinha.
Coloco as mãos nos bolsos. E vou até ao snack-bar. Está a apetecer-me um bitoque, por mais ranhoso que seja. Com um pouco de sorte há azeitonas de entrada. E dias não são dias. E hoje é dia de eleições.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/06]

As Esplanadas da Minha Cidade São Fechadas com Acrílico

A Bola de Berlim e o Compal laranja à minha frente. Largados assim, na mesa à minha frente. O papelinho com a conta deixado em cima da mesa para me avisar que tenho de pagar. A caixa com os guardanapos, cortesia da Compal, colocada em cima do papel da conta para ele não voar. E fica ali assim, a olhar para mim. A dizer-me Tens de pagar!
Peço à rapariga que limpe a mesa. Afinal, está aqui um cinzeiro cheio e alguma da cinza voou para cima da mesa. A rapariga bufa, mas pega num pano seco e estende o braço, cansado, sobre a mesa. Eu levanto o prato com a Bola, o copo e o Compal para libertar espaço e não serem abalroados com a cinza que, antecipo, irá voar.
E voou.
As pessoas não vêm o que está mesmo à frente dos olhos. Estão sempre noutro lado. Na cama com o amante de ocasião. Com o ouvido no telemóvel. Com a cabeça no ar. E aprender Uma mesa com cinza limpa-se com um pano húmido. Repetir Uma mesa com cinza limpa-se com um pano húmido.
Esta é uma esplanada típica da cidade. Fechada. Fechada com acrílico. Nesta esplanada fuma-se. Quando está calor, abrem-se umas janelas. Quando está frio, fecham-se. Toda agente que está na esplanada, fuma. Queira ou não. Como é fechada, não tem chapéus de sol. Quando o sol está baixo, é impossível estar nesta esplanada porque está em chamas. O calor e a luminosidade do sol ocupam tudo e expulsam os clientes. É uma sauna onde não se consegue abrir os olhos.
Despejo o Compal no copo. Agarro num guardanapo de papel e pego na Bola de Berlim. Dou uma trinca e sinto o açúcar a cair para dentro da barba. Detesto quando isto acontece. Com a língua dou uma lambidela ao creme que ameaça cair. Não cais que eu não deixo.
Dois miúdos fazem desta esplanada um parque infantil. Olho pela janela e a vinte metros daqui há um verdadeiro parque infantil. Mas estas criancinhas não têm autorização para ir para o parque. As mães estão ocupadas a conversar e não podem olhar pelos miúdos. E os tempos são perigosos. Estas foram mães criadas na rua. Largadas na rua. Que brincaram na rua. Os filhos brincam na esplanada. Na esplanada fechada. São aviões de braços abertos a gritar os motores numa esplanada fechada que amplia os sons que me entram cabeça dentro e estão a tornar-me um possível homicida. As mães não dizem nada. Afinal, as crianças têm direito a tudo. Até a infernizar a vida dos outros.
Desperto para uma voz atrás de mim. Estou! Estou! Estou, porra! Viro-me e vejo um velhote a tentar falar com um telemóvel que não lhe traz resposta. As crianças-avião voam em círculo à volta do velho. Ele ri para os miúdos. Talvez lhe lembrem os netos. Talvez lhe lembrem a ele próprio. Talvez só precise de companhia.
Continuo a comer o resto da Bola de Berlim. Chego a boca para a frente para o açúcar cair no prato e não na barba. Lambo os dedos. Às vezes gosto de ser guloso.
Ao fundo, a televisão de dimensões generosas está num qualquer canal de música. Mas está em silêncio. A esplanada é fechada, há fumo de cigarros e uma televisão debita música em silêncio.
Como amar esta cidade? Como não amar?
Uma das crianças vai em voo rasante, e a rapariga tem de parar de repente com a bandeja cheia de copos de vidro sujos para não ser acidentada, avisar a mãe que quer fazer chichi. A mãe pergunta se o miúdo aguenta. Ele abana a cabeça. A mãe levanta-se e vai com o miúdo ao jardim no exterior do exterior. Saem da esplanada fechada e vão ao jardim ao lado. A mãe põe o miúdo a mijar para uns arbustos. O mijo é orgânico. Mas o café tem casa-de-banho. É do outro lado. Longe da vista.
Acabo de beber o sumo de laranja. Procuro a rapariga. Não a vejo em lado nenhum. Há duas raparigas a escrever em computadores. Um homem folheia o Correio da Manhã. Uma senhora de idade come uma torrada e bebe uma meia-de-leite. Olha para as imagens que passam na televisão de dimensões generosas. Esta esplanada é um microcosmos. Não falta sequer o mendigo que vem deixar um isqueiro e um papel com uma história de vida capaz de fazer chorar as pedras da calçada.
A rapariga aparece à porta da esplanada a ver se é preciso alguma coisa. Faço sinal com as mãos a pedir um café. Espero que perceba.
Acendo um cigarro. Digo ao mendigo que não quero o isqueiro e não tenho moedas. E é verdade que não tenho moedas.
A rapariga aparece com o café. Afinal percebeu.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/29]

Pressa

Tinha pressa em sair de casa. Tenho sempre pressa. Ela estava à minha espera e estava ansiosa. Mas quanto mais depressa mais devagar. Olhei em volta e pensei que não conseguia sair e deixar a casa assim.
Comecei a correr. Fiz a cama. Na verdade puxei as orelhas ao edredão. Tirei a louça da máquina e arrumei-a. Pus lá dentro a louça suja que estava no lava-louça. Nem a passei por água. Aqueci, no micro-ondas, uns bocados de carne para o cão. Quando a fui levar, os gatos foram atrás de mim a queixarem-se que também queriam comer. Depois fui abrir duas latas de atum e fui dá-las aos gatos. Apanhei a roupa que estava no estendal. Larguei-a em cima da cama. Passei pela casa-de-banho para lavar os dentes e vi a toalha no chão. Apanhei a toalha. Tirei os cabelos do ralo. Lavei os dentes.
Saí de casa. Entrei no carro. Olhei-me no espelho retrovisor. Foda-se. Estava em tronco nu. Saí do carro. Voltei a casa. Reparei que estava no trinco. Porra! Vesti uma camisola. Saí. Fechei a porta à chave. Entrei no carro. Arranquei. Um sinal sonoro. O carro estava na reserva. Tinha de ir à Estação de Serviço. Fui. Agarrei na agulheta. Parei. Olhei para o depósito. Parei a tempo. Era gasolina. Queria gasóleo. Tinha de ter mais calma. Tinha de pensar no que estava a fazer. Mudei de agulheta.
Enchi o depósito. Paguei. Fui embora.
Entrei na auto-estrada. Voei pela estrada deserta. Quando saí, a máquina de pagamento electrónico acendeu a luz amarela. Devo ter algum problema com a Via Verde. Ou a conta sem dinheiro.
Cheguei a casa dela. Parei o carro. Fui até ao café. Ela estava lá sentada. Bebia uma meia-de-leite e uma torrada em pão de forma. Beijei-a. Perguntei-lhe Então? e ela respondeu-me A quadrilha está lá em cima, em casa. Querem roubar-me o ouro. Que ouro? perguntei. O que acham que eu tenho, respondeu.
Levantei-me e disse-lhe Vou lá acima. Ela olhou para mim assustada e disse-me Tem cuidado. Eu mostrei-lhe a mão no bolso das calças e disse-lhe Tenho aqui uma pistola. Vê lá o que fazes. Não te desgraces.
Eu saí do café. Subi a casa dela. Estava tudo tranquilo. Voltei a descer.
Então?, perguntou-me. E eu disse-lhe Já podes voltar para casa. Dei dois tiros para o ar e eles fugiram. Não ouviste os tiros? Ela olhou-me admirada e abanou a cabeça.
Depois pedi uma torrada para mim. E um sumo de laranja natural. Perguntei-lhe se ainda tinha Xanax. E Zolpidem. Disse-me que sim. Acenei com a cabeça.
O tempo estava bom e acabámos por ficar um bocado ali no café.
Mais tarde ela disse-me Vai-te embora que eu agora vou para casa descansar um bocado. Ela pagou o pequeno-almoço. O dela e o meu. Deu-me um beijo. Disse Obrigada por vires cá. E eu sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/07]

E Não Há Jantar?

Ela saiu de casa de manhã cedo para ir trabalhar. Quando ela saiu já eu estava na sala, sentado no sofá, a ver as notícias na televisão.
Quando ela regressou ao fim do dia, eu ainda estava sentado no sofá a ver um qualquer programa vespertino.
Ela levantou-se de manhã, tomou banho, vestiu-se, fez café, uma torrada, bebeu o café, comeu a torrada e ainda trincou uma maçã antes de lavar os dentes e ir embora trabalhar. Não sei se deu por eu estar na sala, sentado no sofá a ver as notícias. Saiu pela porta da cozinha. Ouvi a porta da rua a bater. Ouvi o motor do carro. E ouvi-o até deixar de o ouvir. E fui aos restos. Ainda havia um pouco de café quente. Bebi-o. Bebi-o directamente da cafeteira. Sem açúcar. Deixei cair umas gotas na t-shirt. Vi-as alastrar pelo algodão. De um pingo a uma mancha. Procurei um resto de torrada. Não havia. Não deixou restos. Só migalhas. Deixei-as onde estavam. Voltei ao sofá.
Vi televisão.
Passei pelas brasas.
Levantei-me para fumar um cigarro.
Lembrei-me que tinha alguma coisa para fazer, mas não me lembrava do quê.
Voltei a passar pelas brasas.
Quando ela regressou, ao fim da tarde, eu ainda estava sentado no sofá. Ela chegou a casa. Foi à casa-de-banho. Ouvi o mijo a pingar. O autoclismo. A torneira do lavatório. A porta da casa-de-banho a abrir. Senti-a chegar por trás de mim. Senti-a aproximar. Senti a cabeça dela a aproximar-se da minha. Senti um beijo na cabeça. E ouvi-a dizer Devias tomar banho! E lavar a cabeça! E senti-a afastar-se de novo.
E jantar? pensei, Não vais fazer o jantar?
Na televisão havia qualquer coisa sobre um sismo no Japão. E depois um tsunami. Não, afinal o tsunami podia vir mas ainda não tinha vindo. Era só um alerta. E o jantar? Não há jantar? Tenho fome.
Tentei ouvir os sons dela pela casa para ver se percebia alguma coisa do que se estava a passar.
Foi para o quarto. Tempo. Passos nus no corredor. Voltou à casa-de-banho. Porra, tanto chichi. Não! Afinal vai tomar banho. Porque raio está a tomar um banho a meio da tarde? Ainda não é de noite. Tomou um de manhã. Porque é que está a tomar banho? Vai sair?
Ouvi o duche a desligar. Senti a toalha a deslizar pelo corpo dela. A balança. O corpo dela a endireitar-se na balança. Vinha aí dizer-me que tinha de fazer dieta porque engordou uns gramas.
E ouvi a porta da casa-de-banho a abrir. Senti os passos dela na sala. Senti o cheiro do banho acabado de tomar. Senti-a baixar-se outra vez ao pé de mim. Senti o calor da sua cara. Do seu corpo. O calor do corpo limpo e doce do banho, e ouvi-a dizer-me Vou-me deitar. Estou muito cansada. Deu-me um beijo na cara e voltou a dizer Toma um banho.
E o jantar? Estou com fome. Não há jantar? pensei. Pensei com muita força para ela ouvir. Mas não ouviu. E foi deitar-se. E eu tinha de ir tomar banho. E doía-me o rabo de estar tanto tempo sentado no sofá. E fui para a janela fumar um cigarro. E ainda era de dia. Ainda se via o sol a morrer atrás dos telhados das casas. E eu não ia jantar. E estava com fome.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/18]