As Dores de Nick Cave

Tenho de ter no meu horizonte um jogo do Benfica. Ou o lançamento de um livro de um autor de cabeceira. Ou o novo disco de uma banda do coração. Ou a estreia de um filme que penso poder ser extraordinário.
Tenho de ter um horizonte que me garanta motivo de vida. Vontade de galgar os dias que se seguem, secos. Um motivo para me fazer saltar da cama, largar o conforto do edredão, o cheiro a mim nos lençóis e sair para o frio da casa gelada, solitária e triste.
Há dias em que me agarro ao edredão e o puxo para cima da cabeça. Mergulho, inerte, naquela escura solidão. Não ouço o barulho da rua. Não vejo a luz do dia. Não saio da cama. Nem para comer. Nem para mijar.
Sinto-me afundar no conforto do colchão. Deixo todos os problemas lá fora. Sinto-me seguro. Livre. Quero deixar-me ir. Mas depois penso Quando é que o Benfica joga? E contra quem? Acho que quero ver! Quero ver o Benfica!
E então mando o edredão para trás, decidido. Aguento o frio da casa. Levanto-me. Vou mijar. Beber café. Comer uma torrada. Olhar pela janela para a rua, em dia de sol ou de chuva, suspirar e pensar que vou tomar um banho quente, vestir-me e sair de casa.
Coço o rabo com a mão por dentro do pijama. Ainda não estou convencido, embora já tenha decidido. Massajo os testículos. Cheiro os dedos. Tenho de tomar um banho.
Vou sair. Vou à rua. Mas vou escolher caminhar por ruas esconsas e escuras onde ninguém me veja e onde eu não conheça ninguém.
Não quero ter de vomitar sobre os sapatos de ninguém que pare para me dizer Olá, pá! Quero só dar uma volta pela cidade. Respirar o dióxido de carbono dos carros em fila na avenida de um só sentido. Escarrar para o chão as minhas tripas. E aguentar os dias que se sucedem uns-aos-outros até ao próximo jogo do Benfica e esperar que nenhum fim-de-mês se interponha entre mim e o meu futuro breve.
Desvio o olhar da janela. Acendo um cigarro. Sento-me na mesa da cozinha. Trinco a torrada seca. Bebo um gole do café frio. Sinto um novelo dentro de mim. Não descubro a ponta do novelo. Fumo o cigarro. Fumo-o à pressa enquanto acabo com a torrada seca que enfio toda na boca. Engulo o café frio que amolece a torrada seca. Acabo o cigarro. E corro até à cama. Passo pela aparelhagem. Carrego no Play. E deixo, em Repeat, o Ghosteen do Nick Cave & The Bad Seeds. Uma depressão só se combate com outra, penso. Enfio-me de novo debaixo do edredão. E digo, para me acalmar É só por um bocadinho. Só por mais um bocadinho. E penso Devia ter lavado os dentes. Mas acabo por não fazer nada do que devia. E ouço, lá ao fundo, na sala, as dores do Nick Cave.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/07]

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Dia de Eleições

É dia de eleições.
Acordo ainda de noite. Acordo com o cantar do galo. É madrugada escura. Levanto-me e ponho café a fazer. Enquanto o cheiro a café fresco inunda a cozinha, vejo, pela janela, os contornos das montanhas que o sol, do outro lado, começa a fazer clarear.
Tenho tempo e opto por um banho de imersão. Há quanto tempo não o faço?
Enquanto encho a banheira de água quente, faço a barba. Quando me olho ao espelho não me reconheço. Rapei a barba. Desde os dezoito anos que trazia sempre uma pequena penugem. Hoje foi tudo abaixo. Pareço mais novo. Sinto-me mais feio. Não me pareço. Quem sou eu?
Entro na banheira. A água está quente, mas insisto. Entro aos poucos. Devagar. Vejo as pernas a ficarem encarnadas. Grito quando os testículos se queimam. Tenho comichão no rabo. Coço. Mas deixo-me ir. Finalmente estou deitado na banheira, coberto de água quente, e sinto-me bem. Sinto-me confortável. Descontraio. Fecho os olhos. Adormeço.
Acordo com frio. É já de dia. Deixei-me adormecer. A água na banheira está fria. Abro o ralo e deixo-a escorrer. Ligo o duche e tomo um banho rápido de água quente.
Seco-me. Visto uns boxers e uma camisola de alças e vou beber café. Está frio. Aqueço-o no micro-ondas. Torro uma fatia de pão saloio. Barro-lhe manteiga. Como e bebo.
Penso no que vestir. E decido pelo fato. Há anos que não o visto. Comprei-o para um casamento. Os noivos já se divorciaram e eu nunca mais vesti o fato. Mas vou vesti-lo hoje. Agora. Primeiro passo pela casa-de-banho e lavo os dentes.
Ponho uma camisa branca sobre a camisola de alças. Visto as calças. Ponho o cinto de cabedal. Calço os sapatos também de cabedal. Ainda me servem. Mas sinto os pés apertados. Ponho gravata. Casaco. Relógio no pulso. Carteira com os documentos e vinte euros no bolso das calças. Coloco os óculos escuros e saio de casa. Acendo um cigarro.
Está sol. Calor. Mas tenho de ir a pé. Desço o quintal. Viro à esquerda e faço a estrada até ao centro da aldeia. Entro no café. Peço uma Aldeia Velha. Viro-a de um trago. Largo uma moeda no balcão. Saio e dirijo-me à escola primária. Agora chama-se primeiro ciclo. O que importa são os nomes. Também tenho o meu. E preciso dele para descobrir onde votar. Não há muito por onde procurar. Três mesas de voto.
Entro na sala. Dou o cartão de cidadão. Dizem alto o meu nome e sinto alguma vergonha. Baixo os olhos para o chão. Quero passar despercebido. Mas sinto que errei ao vestir o fato. Sou o único de fato a votar. Coloco a cruz no sítio que me parece o certo. Sinto-me livre no meu dever que também é o meu direito. Dobro-o duas vezes. Coloco-o na urna.
Saio da sala. Acendo outro cigarro. Está calor. Sinto umas gotas de transpiração a cair pelas têmporas. A gravata enforca-me.
Vejo as horas. Meio-dia. Olho a carteira. Descubro os vinte euros. Decido ir almoçar um bitoque ao snack-bar. Um bitoque e uma imperial. Um pão para molhar no ovo a cavalo. O bife do bitoque será fino e rijo. Irei deslocar o pulso ao tentar cortar o bife. Irei partir um dente ao trincar um bocado de gordura. Irei deixar cair um pingo de cerveja na camisa branca e um bocado de amarelo do ovo sobre a gravata. Irei pensar no motivo de nunca usar gravatas. Irei beber um café queimado. Uma aguardente manhosa que me irá fazer azia. E irei pensar que teria feito melhor ter ido para casa, fritado umas salsichas, torrado um pão de véspera e comido um cachorro com mostarda, acompanhado pelo vinho tinto da cooperativa e bebido o café da avó feito de manhãzinha.
Coloco as mãos nos bolsos. E vou até ao snack-bar. Está a apetecer-me um bitoque, por mais ranhoso que seja. Com um pouco de sorte há azeitonas de entrada. E dias não são dias. E hoje é dia de eleições.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/06]

As Esplanadas da Minha Cidade São Fechadas com Acrílico

A Bola de Berlim e o Compal laranja à minha frente. Largados assim, na mesa à minha frente. O papelinho com a conta deixado em cima da mesa para me avisar que tenho de pagar. A caixa com os guardanapos, cortesia da Compal, colocada em cima do papel da conta para ele não voar. E fica ali assim, a olhar para mim. A dizer-me Tens de pagar!
Peço à rapariga que limpe a mesa. Afinal, está aqui um cinzeiro cheio e alguma da cinza voou para cima da mesa. A rapariga bufa, mas pega num pano seco e estende o braço, cansado, sobre a mesa. Eu levanto o prato com a Bola, o copo e o Compal para libertar espaço e não serem abalroados com a cinza que, antecipo, irá voar.
E voou.
As pessoas não vêm o que está mesmo à frente dos olhos. Estão sempre noutro lado. Na cama com o amante de ocasião. Com o ouvido no telemóvel. Com a cabeça no ar. E aprender Uma mesa com cinza limpa-se com um pano húmido. Repetir Uma mesa com cinza limpa-se com um pano húmido.
Esta é uma esplanada típica da cidade. Fechada. Fechada com acrílico. Nesta esplanada fuma-se. Quando está calor, abrem-se umas janelas. Quando está frio, fecham-se. Toda agente que está na esplanada, fuma. Queira ou não. Como é fechada, não tem chapéus de sol. Quando o sol está baixo, é impossível estar nesta esplanada porque está em chamas. O calor e a luminosidade do sol ocupam tudo e expulsam os clientes. É uma sauna onde não se consegue abrir os olhos.
Despejo o Compal no copo. Agarro num guardanapo de papel e pego na Bola de Berlim. Dou uma trinca e sinto o açúcar a cair para dentro da barba. Detesto quando isto acontece. Com a língua dou uma lambidela ao creme que ameaça cair. Não cais que eu não deixo.
Dois miúdos fazem desta esplanada um parque infantil. Olho pela janela e a vinte metros daqui há um verdadeiro parque infantil. Mas estas criancinhas não têm autorização para ir para o parque. As mães estão ocupadas a conversar e não podem olhar pelos miúdos. E os tempos são perigosos. Estas foram mães criadas na rua. Largadas na rua. Que brincaram na rua. Os filhos brincam na esplanada. Na esplanada fechada. São aviões de braços abertos a gritar os motores numa esplanada fechada que amplia os sons que me entram cabeça dentro e estão a tornar-me um possível homicida. As mães não dizem nada. Afinal, as crianças têm direito a tudo. Até a infernizar a vida dos outros.
Desperto para uma voz atrás de mim. Estou! Estou! Estou, porra! Viro-me e vejo um velhote a tentar falar com um telemóvel que não lhe traz resposta. As crianças-avião voam em círculo à volta do velho. Ele ri para os miúdos. Talvez lhe lembrem os netos. Talvez lhe lembrem a ele próprio. Talvez só precise de companhia.
Continuo a comer o resto da Bola de Berlim. Chego a boca para a frente para o açúcar cair no prato e não na barba. Lambo os dedos. Às vezes gosto de ser guloso.
Ao fundo, a televisão de dimensões generosas está num qualquer canal de música. Mas está em silêncio. A esplanada é fechada, há fumo de cigarros e uma televisão debita música em silêncio.
Como amar esta cidade? Como não amar?
Uma das crianças vai em voo rasante, e a rapariga tem de parar de repente com a bandeja cheia de copos de vidro sujos para não ser acidentada, avisar a mãe que quer fazer chichi. A mãe pergunta se o miúdo aguenta. Ele abana a cabeça. A mãe levanta-se e vai com o miúdo ao jardim no exterior do exterior. Saem da esplanada fechada e vão ao jardim ao lado. A mãe põe o miúdo a mijar para uns arbustos. O mijo é orgânico. Mas o café tem casa-de-banho. É do outro lado. Longe da vista.
Acabo de beber o sumo de laranja. Procuro a rapariga. Não a vejo em lado nenhum. Há duas raparigas a escrever em computadores. Um homem folheia o Correio da Manhã. Uma senhora de idade come uma torrada e bebe uma meia-de-leite. Olha para as imagens que passam na televisão de dimensões generosas. Esta esplanada é um microcosmos. Não falta sequer o mendigo que vem deixar um isqueiro e um papel com uma história de vida capaz de fazer chorar as pedras da calçada.
A rapariga aparece à porta da esplanada a ver se é preciso alguma coisa. Faço sinal com as mãos a pedir um café. Espero que perceba.
Acendo um cigarro. Digo ao mendigo que não quero o isqueiro e não tenho moedas. E é verdade que não tenho moedas.
A rapariga aparece com o café. Afinal percebeu.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/29]

Pressa

Tinha pressa em sair de casa. Tenho sempre pressa. Ela estava à minha espera e estava ansiosa. Mas quanto mais depressa mais devagar. Olhei em volta e pensei que não conseguia sair e deixar a casa assim.
Comecei a correr. Fiz a cama. Na verdade puxei as orelhas ao edredão. Tirei a louça da máquina e arrumei-a. Pus lá dentro a louça suja que estava no lava-louça. Nem a passei por água. Aqueci, no micro-ondas, uns bocados de carne para o cão. Quando a fui levar, os gatos foram atrás de mim a queixarem-se que também queriam comer. Depois fui abrir duas latas de atum e fui dá-las aos gatos. Apanhei a roupa que estava no estendal. Larguei-a em cima da cama. Passei pela casa-de-banho para lavar os dentes e vi a toalha no chão. Apanhei a toalha. Tirei os cabelos do ralo. Lavei os dentes.
Saí de casa. Entrei no carro. Olhei-me no espelho retrovisor. Foda-se. Estava em tronco nu. Saí do carro. Voltei a casa. Reparei que estava no trinco. Porra! Vesti uma camisola. Saí. Fechei a porta à chave. Entrei no carro. Arranquei. Um sinal sonoro. O carro estava na reserva. Tinha de ir à Estação de Serviço. Fui. Agarrei na agulheta. Parei. Olhei para o depósito. Parei a tempo. Era gasolina. Queria gasóleo. Tinha de ter mais calma. Tinha de pensar no que estava a fazer. Mudei de agulheta.
Enchi o depósito. Paguei. Fui embora.
Entrei na auto-estrada. Voei pela estrada deserta. Quando saí, a máquina de pagamento electrónico acendeu a luz amarela. Devo ter algum problema com a Via Verde. Ou a conta sem dinheiro.
Cheguei a casa dela. Parei o carro. Fui até ao café. Ela estava lá sentada. Bebia uma meia-de-leite e uma torrada em pão de forma. Beijei-a. Perguntei-lhe Então? e ela respondeu-me A quadrilha está lá em cima, em casa. Querem roubar-me o ouro. Que ouro? perguntei. O que acham que eu tenho, respondeu.
Levantei-me e disse-lhe Vou lá acima. Ela olhou para mim assustada e disse-me Tem cuidado. Eu mostrei-lhe a mão no bolso das calças e disse-lhe Tenho aqui uma pistola. Vê lá o que fazes. Não te desgraces.
Eu saí do café. Subi a casa dela. Estava tudo tranquilo. Voltei a descer.
Então?, perguntou-me. E eu disse-lhe Já podes voltar para casa. Dei dois tiros para o ar e eles fugiram. Não ouviste os tiros? Ela olhou-me admirada e abanou a cabeça.
Depois pedi uma torrada para mim. E um sumo de laranja natural. Perguntei-lhe se ainda tinha Xanax. E Zolpidem. Disse-me que sim. Acenei com a cabeça.
O tempo estava bom e acabámos por ficar um bocado ali no café.
Mais tarde ela disse-me Vai-te embora que eu agora vou para casa descansar um bocado. Ela pagou o pequeno-almoço. O dela e o meu. Deu-me um beijo. Disse Obrigada por vires cá. E eu sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/07]

E Não Há Jantar?

Ela saiu de casa de manhã cedo para ir trabalhar. Quando ela saiu já eu estava na sala, sentado no sofá, a ver as notícias na televisão.
Quando ela regressou ao fim do dia, eu ainda estava sentado no sofá a ver um qualquer programa vespertino.
Ela levantou-se de manhã, tomou banho, vestiu-se, fez café, uma torrada, bebeu o café, comeu a torrada e ainda trincou uma maçã antes de lavar os dentes e ir embora trabalhar. Não sei se deu por eu estar na sala, sentado no sofá a ver as notícias. Saiu pela porta da cozinha. Ouvi a porta da rua a bater. Ouvi o motor do carro. E ouvi-o até deixar de o ouvir. E fui aos restos. Ainda havia um pouco de café quente. Bebi-o. Bebi-o directamente da cafeteira. Sem açúcar. Deixei cair umas gotas na t-shirt. Vi-as alastrar pelo algodão. De um pingo a uma mancha. Procurei um resto de torrada. Não havia. Não deixou restos. Só migalhas. Deixei-as onde estavam. Voltei ao sofá.
Vi televisão.
Passei pelas brasas.
Levantei-me para fumar um cigarro.
Lembrei-me que tinha alguma coisa para fazer, mas não me lembrava do quê.
Voltei a passar pelas brasas.
Quando ela regressou, ao fim da tarde, eu ainda estava sentado no sofá. Ela chegou a casa. Foi à casa-de-banho. Ouvi o mijo a pingar. O autoclismo. A torneira do lavatório. A porta da casa-de-banho a abrir. Senti-a chegar por trás de mim. Senti-a aproximar. Senti a cabeça dela a aproximar-se da minha. Senti um beijo na cabeça. E ouvi-a dizer Devias tomar banho! E lavar a cabeça! E senti-a afastar-se de novo.
E jantar? pensei, Não vais fazer o jantar?
Na televisão havia qualquer coisa sobre um sismo no Japão. E depois um tsunami. Não, afinal o tsunami podia vir mas ainda não tinha vindo. Era só um alerta. E o jantar? Não há jantar? Tenho fome.
Tentei ouvir os sons dela pela casa para ver se percebia alguma coisa do que se estava a passar.
Foi para o quarto. Tempo. Passos nus no corredor. Voltou à casa-de-banho. Porra, tanto chichi. Não! Afinal vai tomar banho. Porque raio está a tomar um banho a meio da tarde? Ainda não é de noite. Tomou um de manhã. Porque é que está a tomar banho? Vai sair?
Ouvi o duche a desligar. Senti a toalha a deslizar pelo corpo dela. A balança. O corpo dela a endireitar-se na balança. Vinha aí dizer-me que tinha de fazer dieta porque engordou uns gramas.
E ouvi a porta da casa-de-banho a abrir. Senti os passos dela na sala. Senti o cheiro do banho acabado de tomar. Senti-a baixar-se outra vez ao pé de mim. Senti o calor da sua cara. Do seu corpo. O calor do corpo limpo e doce do banho, e ouvi-a dizer-me Vou-me deitar. Estou muito cansada. Deu-me um beijo na cara e voltou a dizer Toma um banho.
E o jantar? Estou com fome. Não há jantar? pensei. Pensei com muita força para ela ouvir. Mas não ouviu. E foi deitar-se. E eu tinha de ir tomar banho. E doía-me o rabo de estar tanto tempo sentado no sofá. E fui para a janela fumar um cigarro. E ainda era de dia. Ainda se via o sol a morrer atrás dos telhados das casas. E eu não ia jantar. E estava com fome.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/18]

Sexta-Feira Santa

É Sexta-feira Santa.
Almocei um bitoque na esplanada. Desculpa, mãe! Duas imperiais. Molhei um bocado de pão na gema mole do ovo a cavalo.
Ao meu lado, um casal com dois filhos adolescentes devorou um cabrito com batatinha assada e grelos. Por encomenda. Só há por encomenda. Os miúdos não tocaram nos grelos.
Enquanto bebo uma Ponte de Amarante e um café, observo quem passa na marginal à minha frente. Ao fundo o mar, de um azul bem escuro e a contrastar com o azul bebé pintado no céu.
Uma velha passa manca, sem bengala.
Três gordos com coletes do Moto-Clube da Nazaré discutem o tamanho das mamas da striper.
Carros, de alta cilindrada, passam em passo de caracol. Não há milagres. É a procissão dos tristes. Ali, na fila, são todos iguais. A rapariga do Punto. O homem do Jaguar.
As gaivotas vêm a terra. Grasnam. Voam em círculos. Rasam a cabeça das pessoas. É impossível não pensar no Alfred Hitchcock.
Um casal de namorados, muito novinhos, adolescentes, comem uns carapaus secos, como se fossem tremoços. Beijam-se. Ela queixa-se. Leva os dedos à boca e retira uma espinha dos dentes. Ele ri-se.
Há muita gente repetida a passar. Velhos barrigudos de bigode farfalhudo. Velhas empinocadas com o cabelo armado como as senhoras finas da Tentadora, ali no início da Ferreira Borges, no exclusivo Campo de Ourique, em Lisboa. Também há classe nas berças. E repetem-se. Há muita gente velha a passear ao sol envergonhado de Abril.
Uma miúda tira fotografias. É gira, a miúda. Coça a cabeça. Depois leva o dedo à boca. Ninguém é perfeito.
Uma criancinha chora. Quer um gelado. Um Epá. A mãe, presumo que seja a mãe, não diz nada e continua o seu caminho. A criança segue-a a chorar. Os dedos a esfregar os olhos.
Ao meu lado há uns espanhóis. Bebem cafés e comem pastéis de nata.
Há muita gente com roupa domingueira. Mas o Domingo já não é o que era. Nem as roupas. Muito menos as roupas domingueiras que hoje são compradas nas lojas dos chineses onde conseguem ser mais baratas que na Zara. Mas também são de muito pior qualidade. De qualquer forma não é Domingo.
Então, uma pausa. Não passa ninguém, agora. Acabo a Ponte de Amarante.
Do outro lado alguém berra Amanhã vou almoçar a Fátima! mas um velho pergunta O quê? Vou almoçar a Fátima! O velho acena a cabeça mas não ouviu nada.
Alguém deposita outra Ponte de Amarante à minha frente. Eu não queria. Mas não vou desperdiçar.
Os espanhóis vão-se embora. Passam mais motards. Gordos. Enormes. Alguns deles são mulheres. Também são enormes. Gordas. Mas têm os cabelos mais compridos.
Vejo alguém a tirar-me uma fotografia. Não digo nada. Aceito como parte do processo de globalização a que estamos sujeitos. Vou aparecer no Instagram de quem?
Senta-se um pai. Uma mãe. Um filho adolescente com a cara cheia de acne. Ele pede um café. Ela um descafeinado. Um compal para o miúdo. A mãe acende um cigarro. O miúdo abana a mão à frente da cara em jeito de reprovação. A mãe ignora-o. Putos insolentes!, penso.
Recomeça a passar gente à minha frente. Gente vestida para todas as estações. Miúdos de manga curta. Velhos com casacos de pêlo. Adultos com anoraques, gabardines e sobretudos. Mas está sol. E calor. É Sexta-feira Santa.
Reparo, ao olhar as pessoas que passam à minha frente, que há muita gente feia no mundo. Valha-me Deus.
Topam-se os estrangeiros pelos desenhos das caras. Pelos cabelos. Pelas roupas. Mas também são feios. Aqui, o mundo é democrata. São todos feios. Eu acabei por ter sorte.
Passa um pescador de camisa ao quadrados, como um grunge de Seattle, de bicicleta. Cigarro ao canto da boca. Atrás, uma miúda de patins segue-o.
Os carros continuam a passo de caracol. Já me agonia o cheiro a gasóleo, gasolina, combustível. O barulho dos motores. A greve dos motoristas de materiais perigosos não podia ter demorado um pouco mais?
No meio de tanta gente vestida de preto e cinzento, uma senhora passa com um casaco vermelho. Dá nas vistas. Os homens que passam por ela viram-se para trás.
Um rapaz olha para o telemóvel e escreve qualquer coisa enquanto caminha. Não olha para onde vai. Olha para o telemóvel. E escreve. Vejo os dedos mexerem-se à velocidade da luz.
Uma loira pára mesmo à minha frente. Baixa-se e sacode os cabelos. Depois tira um elástico do pulso e prende o cabelo num rabo de cavalo.
O pai já bebeu o café e pede uma mini. O filho pede uma torrada. A mãe acende outro cigarro.
Eu esqueci-me da Ponte de Amarante. Agarro no cálice e bebo dois goles. Também acendo um cigarro. Um homem senta-se ao meu lado, onde estavam os espanhóis, e olha-me com reprovação por estar a fumar ali na esplanada. Ignoro-o.
É Sexta-feira Santa. Alguém foi à missa?

[escrito directamente no facebook em 2019/04/19]

Maria É Nome de Mulher

Ela acorda todos os dias às sete da manhã.
Levanta-se. Toma um duche rápido. Veste-se na casa-de-banho uma roupa escolhida de véspera sem grande prazer. Come uma torrada. Bebe uma caneca de café. Deixa comida aos gatos. Vai deitar milho às galinhas. Põe uma máquina de roupa a lavar. O pequeno-almoço pronto para os filhos. Deixa as coisas preparadas para um almoço rápido que virá fazer a casa.
Às oito menos dez está a sair. De carro.
Das oito à uma da tarde anda para cima e para baixo. Limpezas num lado. Passar a ferro e cozinhar noutro. Às vezes uns pontos de costura. Mas o normal é o aspirador na mão. A vassoura. O ferro de engomar. O tacho. A frigideira.
À uma da tarde regressa a casa. Prepara qualquer coisa rápido que já deixou adiantado de manhã. Uns ovo mexidos com espargos. Umas coxas de frango assadas. Umas cavalas em lata. Acompanha com uns brócolos. Alface. Tomate. Senta-se sozinha à mesa da cozinha. Come. Bebe um copo de vinho. Vê as notícias na televisão pequena, em cima da bancada. Aquece uma caneca de café no micro-ondas e vai bebê-lo para a entrada de casa enquanto fuma um cigarro e vê as galinhas de um lado para o outro, tontas, a debicar no milho que lhes deixou de manhã.
Acaba o cigarro e são duas menos dez. Deixa a louça por lavar no lava-louça. Arranca de carro. Às duas horas está noutro lado. Muda as roupas de cama. De muitas camas. Põe roupa a lavar. Limpa o pó. Aspira os tapetes. Faz pequenos arranjos. Às cinco horas sai. Ou devia sair. Às vezes ainda dá mais uma ajuda. Aqui. Ali. Onde for preciso. Na cozinha. Nos quartos. Às vezes lavar um carro urgente. Regar a relva porque o sistema de rega está avariado. E avaria muitas vezes. Uma ida à farmácia Por favor! buscar qualquer coisa de muito urgente para alguém muito necessitado mas sem tempo.
Chega a casa às cinco e meia. Às seis. Ou às sete. Põe a louça do almoço na máquina. Prepara o jantar. Para ela e para os filhos. Jantam. Verifica os trabalhos de casa. Dos dois. Ouve as queixas. De um. De outro. As sapatilhas que estão rotas. As calças que estão curtas. A camisola que está pequena. As meias novas para o ballet que as velhas estão rotas. O livro do Plano de Leitura que não se vai ler mas tem de se comprar. O fato para a ginástica. As senhas de almoço para a próxima semana. A amiga que amuou. O amigo que já não é. As dores de crescimento dos filhos enquanto, ao mesmo tempo, os vê afastarem-se de si. Mas, para já um ombro. Outro. Limpa umas lágrimas. E quem lhe seca as dela?
Arruma a mesa de jantar. Põe a louça na máquina, a lavar. Tira a roupa da máquina e estende-a à espera que não chova.
Senta-se frente à televisão.
Olha para qualquer coisa que está a dar. Não liga muito. Mas ajuda a espairecer. Dantes ainda via umas novelas. Mas começaram todas a parecerem-lhe iguais. E já não lhe chega as vidas dos outros para animar a sua.
Vai fechando os olhos enquanto olha para a televisão. Entretanto são onze horas. Levanta-se. Prepara a roupa para o dia seguinte. Prepara a roupa para os filhos, mesmo sabendo que eles vão acabar por vestir o que querem.
Na casa-de-banho, enquanto lava os dentes, olha em frente, para si reflectida, e pensa que tem de limpar o espelho. Os vidros das janelas. De aspirar a casa. Limpar o pó. Mudar a roupa das camas. Pelo menos das camas dos miúdos. E tem de comprar pasta dos dentes. Mudar a escova que aquela já tem, o quê?, quase um ano? Pensa que tem de fazer uma lista de coisas que precisa de comprar. E depois precisa de ver se tem dinheiro para tudo e escolher as prioridades.
Enquanto vai pelo corredor, e passa pelos quartos dos filhos para dar o beijo de boas-noites sem que tirem os olhos do telemóvel, pensa que é melhor, no dia seguinte, passar em casa dos pais. Talvez traga umas couves. Um coelho já esfolado. Talvez uma sopa de feijão. Dava bastante jeito uma sopa de feijão seco, pensa.
Deita-se nua na cama fria e solitária e pensa que já passou mais um fim-de-semana e nem deu por isso. Os dias são sempre iguais. Banais. Solitários. Cansativos. E entre um pensamento e outro há um interlúdio e são outra vez sete da manhã. O telemóvel toca a despertar e tudo recomeça da mesma maneira.
Tudo se alterou quando chegaram as primeiras dores de cabeça. Depois as dificuldades em adormecer. Por fim as dificuldades em levantar-se de manhã.
Vai ao médico de família. Análises. Testes. Nada. Não tem nada. Não tem nenhum problema. É só cansaço, ouve. É o stress do dia-a-dia, dizem-lhe. E começam os comprimidos.
Os comprimidos para as dores de cabeça cada vez mais frequentes e intensas.
Os comprimidos para adormecer e esquecer todos os pensamentos que lhe invadem a cabeça enquanto se lança para a cama à procura de um pouco de repouso.
Os comprimidos para acordar e forçar a levantar-se para retomar o seu dia-a-dia de contribuidora para o bem comum.
Foi num fim-de-dia que lá fui para lhe comprar uns ovos. Ovos a sério. Ovos de galinhas do campo. Galinhas que andam a passear dentro do galinheiro a debicar milho e que todos os dias põem ovos frescos com que se equilibram as contas da casa. Foi nesse dia que lá fui aos ovos e a vi caída no chão. Alguma roupa pendurada no estendal. Outra caída. Umas peças tinham voado para cima da figueira.
Não tinha pulso. Chamei o INEM. Mas já foi tarde. Os filhos agora estão a viver com os avós.

Abriram uma vagas de emprego.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/16]