Alguém Bate na Janela do Quarto

Já passa da meia-noite. Desço a Mouraria. Há silêncio no bairro. Ouço, ao longe, um rádio que transmite uma canção. Não distingo o idioma. Está muito distante. Mas não é português. Não saberia dizer o que é. Não reconheço estas línguas asiáticas. Soam-me todas ao mesmo. Sei que não são. A falha é minha.
Desço devagar com medo de escorregar nesta calçada suja e escorregadia. Não há ninguém nas ruas. Ou quase ninguém. Vejo um homem a fumar um cigarro à janela, emoldurado por uma luz amarela que vem por trás. Está de camisola de alças. Está calor. Ele olha para mim e segue-me com o olhar enquanto fuma o cigarro. Não está a observar-me. Exercita o olhar. Descontrai. Olha para mim porque estou em movimento.
Mais à frente cruzo-me com alguém que deve ser autoridade. Pela farda. Mas não me parece polícia. Talvez seja um guarda-nocturno. Não sabia que ainda existiam.
Continuo a descer. A Mouraria é sempre a descer. Sinto, no ar, cheiros diferentes do meu habitual. Mas não tão intensos quanto os que sinto quando aqui passo de dia e os restaurantes indianos, paquistaneses, nepaleses, do Bangladesh e até um chinês, na rua mais em baixo, estão a funcionar em pleno para servir, na maior parte dos casos, gente da terra.
Gosto de vir comer por aqui. No início cheguei a ter algum receio de me fazer mal ao estômago. Não estou habituado a estas especiarias. Mas passei incólume pelo baptismo. Já lá vão muitos anos desde que andei por aqui a primeira vez. Mas está quase tudo na mesma. Quase. Os anos não passam por estas ruas. Mas já começaram a chegar os novos empreendedores.
Já passa da meia-noite e o bairro parece dormir. Não há um bar. Um café. Um restaurante mais tardio. Está tudo fechado. As luzes desligadas. Pelo menos pelas ruas que eu vou serpenteando enquanto vou para baixo, para a baixa da cidade. Permanecem os candeeiros públicos. De luz amarela. Não intrusiva.
Ouço os meus passos ecoados nas paredes silenciosas do bairro. Não há ninguém.
Atrevo-me a descer por ruas mais esconsas e escuras. Ruas onde nunca passei. Procuro vida. Mas acho que está toda a repousar.
Do fundo vejo subir um homem. De mãos nos bolsos. Mochila às costas. Como eu. Também desço de mãos nos bolsos. De mochila às costas. Cruzamos-nos a meio da descida e ele diz-me Boa-noite! Eu respondo com outro Boa-noite! É brasileiro. O sotaque dançado em forma de samba. A cara, um pouco na sombra de uma iluminação pública suave, e vista somente de relance, não parecia a de um homem a dar largas ao seu samba, mas já imerso no fado. Acho que senti dor. Mas talvez a dor fosse minha. Talvez me tivesse visto nele. Sozinho. De mochila às costas. Perdido na cidade. A tombar sobre qualquer coisa que me magoa o corpo e que só vou descobrir mais tarde quando me lançarem uma mão para me levantarem.
Acabo de descer a ladeira. Não escorreguei. Não caí.
Ao contrário do resto do caminho que fiz, agora aqui, em baixo, nesta rua sinuosa e comprida, há gente. Pouca gente, mas alguma. Gente com má vida às costas. Dois rapazes estão tombados nos degraus do pequeno largo que pontua a rua. Uma rapariga, fuma um cigarro e olha em frente. Não me vê. Não me sente passar por trás dela. Eu continuo. Depois ouço, sonoro na noite Oh, foda-se! Acorda, caralho! Levanta-te. Temos de ir lá acima senão o gajo vai-se embora.
Eu ainda viro ligeiramente a cabeça para trás e vejo a rapariga. A abanar um dos rapazes. Cigarro ao canto da boca a cuspir palavras. Anda, porra!
Há muito lixo na rua. Nesta rua. Lixo ao lado dos caixotes. Mas espalhado em volta. Como se alguém tivesse andado a remexer nele. Cheira mal. Vejo restos de comida. Parece-me comida. Caixotes. Muitos cartões. Papel. Algum plástico. Não vejo cães. Nem gatos. Talvez ratos. Acho que vi ali agora um a passar.
Encontro a porta do meu destino. Está aberta, a porta. Está sempre aberta. Acendo a luz do telemóvel para ver nas escadas. Para ver onde ponho os pés. Há muita sujidade. Papéis. Beatas. Uma bota rota. Não vejo seringas. Já não é mau.
Abro a porta do apartamento e sigo para o meu quarto. Está abafado. Cheira a humidade. Abro a janela do quarto e lembro-me que a janela não dá para a rua. Dá para outro quarto. Só me lembro quando abro a janela para trás, para entrar um pouco de fresco da noite, e vejo passar, molhada, com uma toalha enrolada à volta do corpo, uma mulher que, pelos vistos, é a minha vizinha.
Corro a fechar rápido a janela. Fecho-me no quarto. Eu e o cheiro a humidade.
Deito-me sobre a cama. Acendo um cigarro. Penso que não devia estar a fumar no quarto fechado. Mas não me apetece ir à rua para fumar. Quero estar na cama. Quero enterrar-me na cama. Afundar-me na cama. Fundir-me com a cama.
E é então que ouço bater na janela do quarto.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/30]

Algo Estava a Acontecer

Eu estava sentado a uma grande mesa. Estava a jantar. Estava rodeado de muitas pessoas a jantar. Acho que não conhecia ninguém. Mas não tenho certeza. Alguém estava a falar comigo. Alguém estava com um pedaço de carne assada espetado num garfo a olhar para mim. A boca mexia. A boca mexia e não era a mastigar. A carne assada continuava espetada no garfo. Presumo que estivesse a falar comigo. Eu não conseguia ouvir. Esforçava-me para ouvir. Tentava abstrair-me do bruá geral de gente em conversas cada vez mais galopantes. Senti o corpo tombar ligeiramente sobre o tipo que parecia estar a falar comigo. Queria ouvir. Mas não conseguia. Eu tinha um copo de vinho tinto na mão e ia bebericando sem desviar o olhar do olhar do tipo como dando a entender o meu maior interesse no que ele estava a dizer. Mas a verdade é que não ouvia nada do que lhe saía da boca. De vez em quando olhava para o meu prato e via a carne assada com creme de maçã e batatas assadas à minha espera, e eu à espera de ouvir o tipo, ou que o tipo desse por finda a conversa.
Enquanto o tipo ao meu lado continuava naquela ladainha silenciada pelas conversas colaterais dos outros convivas da mesa, uma mão colocou um tigela com grelos. E eu fiquei com vontade de comer logo um bocado, mas só pensava que a carne assada estava a ficar fria, que as batatas assadas estavam a ficar frias e que o creme de maçã, esse não estava a ficar frio porque era frio. Ou assim parecia. O bocado de carne assada que o tipo tinha espetado no garfo caiu no prato. Ele deu conta. Parou de falar para mim por momentos. Desviou o seu interesse para o bocado de carne assada caído no prato. Eu aproveitei para beber o resto de vinho que ainda tinha no copo, voltar a enchê-lo, apanhar um bocado de grelos da tigela, e meter na boca uma garfada de grelos logo seguindo de uma batata com um pedaço de carne assada molhado no creme de maçã a tempo de voltar a olhar para o tipo que, engolindo, finalmente, o bocado de carne assada, e eu vi a maçã-de-adão a mover-se para cima e para baixo no ritual de engolir, estava, de novo, a falar para mim.
No meio da conversa comecei a ouvir um batuque. Como se alguém estivesse a bater na mesa. Como às vezes se faz nos casamentos para exigir um beijo de língua aos noivos. Tum-Tum-Tum. Um som insistente. Olhei à volta. Tentei perceber de onde vinha o barulho. Aquele bater ritmado. Ritmado e insistente.
E acordei.
Abri os olhos e olhei para cima, para o tecto. Um raio de sol rasgava o branco do tecto. E o batuque continuava. Tum-Tum-Tum.
Eu estava deitado na cama. Estava nu. Debaixo do edredão. As janelas abertas. O sol a invadir o quarto. E eu de olhos abertos a olhar o tecto e a tentar perceber que barulho era aquele.
E percebi. A porta. Alguém estava a bater à porta.
Levantei-me. Levantei-me como um autómato. Mandei o edredão para trás e levantei-me da cama. Senti-me a arrastar até à porta da rua. Abri-a. Do outro lado da porta, três homens. Dois deles fardados de polícia. Perguntaram-me se eu era eu. Se tinha saído. Saído de casa. Saído de casa com o carro. Se podiam ver o carro. Se os acompanhava ao carro. Para eles verem o carro. Comigo. E se eu podia ir vestir uns boxers antes de sair à rua. E foi nessa altura que percebi que estava nu frente à polícia à entrada de minha casa. E se podiam esperar por mim dentro de casa. Se me importava que um dos polícias fardados me acompanhasse ao quarto enquanto vestia uns boxers. Se calhar podia calçar uns chinelos.
Abri a porta para trás. Senti-os entrar nas minhas costas. A porta a fechar. Um deles a seguir-me pela casa. Eu entrei no quarto. Olhei à volta a tentar perceber onde tinha largado a roupa. Vi os boxers no chão. Baixei-me. Apanhei-os. Sacudi-os. Vesti-os. E voltei descalço para a porta da rua. Abri a porta e saí com os três homens atrás de mim. Lembro-me de dizer alto, porque me ouvi e achei estranho ouvir-me e sentir a minha voz entaramelada, Precisava de um café!
Fui até ao telheiro onde costumo parar o carro. Parei em frente. Estiquei a mão a dizer que o carro estava ali. Um polícia fardado ficou ao pé de mim. Os outros dois foram olhar o carro. Baixaram-se. Aproximaram-se. Não demoraram muito tempo. Depois o homem que não estava fardado perguntou Quando é que bateu? E aquele vermelho é sangue? E eu tentei processar as perguntas, tentei focar o pensamento e disse-me, em silêncio, Bati? Sangue?
E respondi, sincero, Não sei!
O homem que não estava fardado disse Tem de vir connosco.
E eu não percebi muito bem o que é que estava acontecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/24]

Embalado pelo Mar

Acabou o Agosto. Está a acabar o Verão. Os emigrantes já foram lá para onde estão emigrados. As festas de todos os santos possíveis também terminaram.
Vou à praia e estou sozinho. O mar está calmo. A ondulação é tranquila. Adormece. Deito-me no colchão-de-ar e deixo-me ir ao sabor das correntes fracas que por aqui andam agora. Acho que o mar esperou que toda a gente se fosse embora para me presentear com uma praia de sonho.
O senhor das Bolas de Berlim já não passa por aqui. Mas trago um tupperware com pedaços de melão, do verde e do amarelo, com pedaços de meloa, de melancia.
Sento-me na toalha, molhado, o cabelo a pingar, e dou cabo de todos os pedaços enquanto o diabo esfrega um olho.
Olho à volta e vejo um casal estrangeiro muito branco. Ele espalha Factor 50 pelas costas dela.
Lá mais ao fundo, uma avó com o neto. Ele come um gelado. Ela faz renda.
Não há mais ninguém.
Há gente que se passeia pela calçada marginal.
Sente-se o cheiro das sardinhas assadas. Ainda há pessoas suficientes para fazer mexer os restaurantes e snacks e cafés e bares, mas são outro tipo de pessoas que procura outro tipo de experiências.
Por momentos sinto-me só. Quase sozinho no mundo.
Olho para este mar tão convidativo e penso no que é que poderia querer mais.
Sorrio. Sorrio para mim. Cá por dentro.
Pego no colchão-de-ar e lanço-me ao mar. Deixo-me embalar. Os olhos fecham-se. Deixo-me adormecer. Sinto-me a ser levado para longe. Suavemente. Sinto os poucos barulhos da praia a ficarem cada vez mais longe. Mas não abro os olhos. Deixo-me tombar nas mãos do mar e deixo-me levar onde ele me quiser levar.
Não estou preocupado. Acredito que me vai levar a bom porto. Deixo-me ir. No suave embalo deste mar em final de Verão.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/12]

Tenho Medo

Tenho medo.
Já chegaram 3 cartas do banco. A última chegou hoje, ao meio-dia. Não as abri. Não quero saber o que trazem.
Lá fora está um tipo à minha espera. Vejo-o daqui, da janela. Está atrás daquele carro. Já o vi a olhar cá para cima. Está agora a fumar um cigarro, a fingir que está ali por acaso.
Ontem, quando fui ao supermercado, percebi que a rapariga da caixa também estava a controlar-me. Registou tudo o que comprei. Já estava à espera. Trouxe um pacote de manteiga no bolso do casaco, para a despistar.
O tipo que está lá em baixo vai olhando para aqui, mas não vê nada. Não há luz. Não tenho luz. Não paguei a conta da electricidade.
Tenho medo.
Acendo um cigarro e sento-me aqui na escuridão. Não quero ver ninguém. Tenho medo das pessoas. São perigosas. Querem fazer-me mal.
Pois. Recomeçou a tocar. O telefone está outra vez a tocar. Não se tem calado desde há vários dias. Todos os dias. Várias vezes ao dia. Não sei quem é. Nem o que querem. E não quero saber. Tenho medo de saber o que é que querem de mim. Não tenho nada para dar a ninguém. Sou um zero anónimo. Nada tenho que possa interessar a quem quer que seja.
Está a jogar o Benfica. Gostava de ver o jogo. Mas não tenho televisão. Nem internet. Tive que acabar com a internet. Estavam a espiar-me. A câmara do computador ligava-se sozinha e viam o que eu estava a fazer. E não quero que saibam o que eu faço. O que eu faço é pessoal. É meu. Meu.
Tenho medo. Queria comprar uma arma. Uma pistola. Para fugir quando me quisessem agarrar. Para poder ser livre. Para poder disparar na minha cabeça quando ela começar a tombar.
Levanto-me. Vou até à janela e olho para a rua. O tipo já não está lá. O tipo vem aí. Sinto que está a subir as escadas. Vou esconder-me debaixo da cama. Não me vai encontrar. Devia ter atendido o telefone. Devia ter aberto as cartas do banco. Devia ter sido outra pessoa. Os comprimidos? Onde estão os comprimidos? Preciso de um comprimido. Quero ficar invisível. Quero desaparecer, esconder-me. Quero ir para além de lá. Não quero nada. Não procuro nada. Não desejo nada. Não quero que o tipo venha aí à minha procura. Quero ter luz. Internet. Quero ver o Benfica. Quero ver o Benfica a ganhar o jogo.
Quero sair de casa. Ir ao jardim. Correr na praça. Olhar os pombos. Sentir a chuva. Ver os relâmpagos a cair no mar. Ser feliz. Ser feliz e não ter medo.
Não quero sentir medo.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/17]