Gente Doida

Já estava há duas semanas a viver naquela casa perto da aldeia, a casa que um amigo me emprestou por uns tempos, tempos indefinidos, para eu escrever, esquecer mágoas e poupar o pouco dinheiro que me restava, quando eles bateram as palmas no portão ao fundo do quintal. A casa não tinha campainha. E eu não estava à espera de visitas então, não estava muito preocupado com a falta de sinalização para alguém que chegasse se pudesse fazer anunciar pois, com certeza, não seria para me visitar. Afinal, o casal bateu palmas, eram muito expeditos e sim, vinham visitar-me. Mais concretamente, vinham convidar-me para ir jantar a casa deles. Eu e a minha senhora Há uma senhora, não há?, perguntou ela sorridente. E eu disse que não. Era só eu. E era o suficiente para me chatear. Eles fizeram um sorriso amarelo. E ela continuou Os miúdos foram para um Festival de Verão, temos dois filhos, não é? um casalinho, nem sabemos já qual foi o Festival, há tantos, não é?, enquanto punha a mão sobre o meu braço, o marido a olhar, nós os três à entrada, no portão, que não os mandei subir até ao alpendre, e depois continuou E como somos vizinhos resolvemos vir dar-lhe as boas-vindas e convidá-lo para jantar. Amanhã. Não precisa de levar nada. Nem sobremesa. Nem o vinho. Basta aparecer.
Eu não estava com muita vontade de relacionamentos com a vizinhança. Também foi por isso que fui para ali, para aquele Ku de Judas, longe de tudo e de todos. Apetecia-me declinar o convite. Dizer não. Mas o olhar da mulher não mo deixou dizer. E acabei por murmurar Sim… assim, em suspenso, como se ao aceitar daquela forma tão sumida não me estivesse a comprometer. Mas estava. E sabia que estava.
E no dia seguinte, lá acabarei por descer o quintal até ao portão, fiz a estrada até casa deles, mais ou menos dois quilómetros, nos quais acabei por fumar quatro cigarros, numa média de um cigarro por cada quinhentos metros, e toquei à campainha. A casa deles tinha campainha. Apareceu um cão a ladrar ao ouvir a campainha. Não reconhecia a raça do cão. Mas não era daqueles muito amigáveis. O dono acabou por descer até à porta para agarrar na trela do cão e me fazer entrar.
Entrei.
Acabei por levar um saco de plástico com fisális que apanhei lá no quintal e que nascem assim, de natureza espontânea, aos molhos, mais do que lhes consigo dar andamento. Ela agradeceu. Disse que os ia juntar à salada. Colocou-me um copo de vinho branco nas mãos, deixou-me com o marido e voltou para dentro de casa.
Eu acabei por ficar no jardim com o marido. A beber um copo de vinho branco. Ele também. Também tinha um copo de vinho branco nas mãos. E conversámos. Ele conversou. Empregado bancário. Tinha ido para a delegação da aldeia nos anos noventa. Acabaram por comprar aquela casa ali. Tiveram os filhos. Dois. Um casalinho. Estavam num Festival de Verão qualquer. Ela dava aulas ao secundário. Geografia. Deixou de dar e dedicou-se ao fabrico de compotas que vendia na aldeia e pela internet. Gostavam da calma da aldeia. Às vezes sentiam falta de gente com quem conversar. Gente da mesma idade. Com os mesmo gostos. Entretanto o Banco resolveu encerrar a delegação da aldeia. Ele tinha de voltar para a cidade. Ao fim de vinte anos tinha de regressar à cidade. Ou pedia a reforma. Não sabia o que fazer. A mulher também não estava a ser de muita ajuda. Aliás as coisas entre eles já não eram as mesmas. Ele sentia-se cansado dela. Imaginava que ela também estivesse saturada dele. Foi por isso que me foram convidar para jantar. Para mudar rotinas. Fazer algo de diferente.
E eu senti-me estranho. Um estranho no meio de estranhos já com informação que não queria ter. Não queria saber nada daquilo. Não queria aquela intimidade. Não queria ser puxado para dentro de uma vida que não era a minha.
Mas já era tarde. Já estava ali. De copo na mão. De ouvidos abertos à lamúria alheia.
Bebemos aqueles copos. Bebemos mais dois. Ela juntou-se a nós. E depois fomos até ao alpendre onde estava a mesa de jantar.
Comemos um lombo assado no forno com alecrim. Um puré de maçã. Uma salada com rúcula, tomate, requeijão esfarelado e os fisális. E esvaziámos várias garrafas. Agora de vinho tinto.
Já tínhamos jantado. Estávamos os três um pouco alterados com o vinho. Lembro-me de me descobrir a falar muito depressa e muito alto. Não costumo ser assim. Tentei acalmar-me. E foi quando percebi que não era eu que estava alterado. Era ele. E ela. Quando percebi, estavam a discutir um com o outro. Não sei em que altura é que a conversa descambou para aquilo. Acho que se esqueceram de mim. Soltaram os seus problemas. Eu não conseguia seguir a conversa. Só o barulho que faziam. Acendi um cigarro. Voltei a encher o meu copo com o resto de uma garrafa que deixei cair ao chão, e não se partiu, e recostei-me na cadeira a olhar para eles e a pensar se não seria a altura de me ir embora, quando ele pegou no garfo, levantou a mão acima da cabeça e espetou-o com força na mão dela que estava pousada na mesa mesa.
Ela gritou. Eu dei um pulo na cadeira. Ele assustou-se com o próprio gesto. Largou o garfo espetado na mão dela. Começou a chorar. Levantou-se a chorar como um bebé. Ela só dizia asneiras. Maldizia a vida e a ele. Eu deixei cair o cigarro da boca para o chão. E ela disse Vai buscar a chave do carro, caralho! e ele foi. E ela levantou a mão com o garfo espetado e disse Foda-se! Eu reparei que o garfo não tinha espetado na mesa. Já não era mau. Podia ter sido pior. Podia ter preso a mão à mesa.
Ele chegou com a chave do carro. Ela virou-se para mim e disse Desculpa, mas temos de ir ao hospital. E saíram a correr do alpendre para o carro. Ele gritou Quando saíres fecha o portão para o cão não sair. Amanhã telefonamos. E vi o carro arrancar.
Eu acendi outro cigarro. Acabei o copo de vinho. Virei todas as outras garrafas e descobri que estavam todas vazias. Apanhei os fisális que ainda estavam na tigela da salada e comi-os. Voltei a acender outro cigarro e saí de casa deles. Fiz o caminho de regresso a casa devagar. A acender uns cigarros nos outros. A pensar. A pensar nem sei bem em quê. Com músicas dos anos oitenta a tocar na cabeça. Porquê? Porquê músicas dos anos oitenta?
Quando cheguei a casa, arranquei o cabo do telefone fixo da parede. Desliguei o meu telemóvel. Fui à cozinha buscar uma garrafa de vinho e sentei-me no alpendre a fumar outro cigarro. Estava a fumar muito. E de repente percebi o que estava na minha cabeça a fermentar a algum tempo. Era uma frase, uma ideia Esta gente é doida! E lembrei-me porque é que tinha largado a cidade e toda aquela gente que conhecia.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/01]

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Maria É Nome de Mulher

Ela acorda todos os dias às sete da manhã.
Levanta-se. Toma um duche rápido. Veste-se na casa-de-banho uma roupa escolhida de véspera sem grande prazer. Come uma torrada. Bebe uma caneca de café. Deixa comida aos gatos. Vai deitar milho às galinhas. Põe uma máquina de roupa a lavar. O pequeno-almoço pronto para os filhos. Deixa as coisas preparadas para um almoço rápido que virá fazer a casa.
Às oito menos dez está a sair. De carro.
Das oito à uma da tarde anda para cima e para baixo. Limpezas num lado. Passar a ferro e cozinhar noutro. Às vezes uns pontos de costura. Mas o normal é o aspirador na mão. A vassoura. O ferro de engomar. O tacho. A frigideira.
À uma da tarde regressa a casa. Prepara qualquer coisa rápido que já deixou adiantado de manhã. Uns ovo mexidos com espargos. Umas coxas de frango assadas. Umas cavalas em lata. Acompanha com uns brócolos. Alface. Tomate. Senta-se sozinha à mesa da cozinha. Come. Bebe um copo de vinho. Vê as notícias na televisão pequena, em cima da bancada. Aquece uma caneca de café no micro-ondas e vai bebê-lo para a entrada de casa enquanto fuma um cigarro e vê as galinhas de um lado para o outro, tontas, a debicar no milho que lhes deixou de manhã.
Acaba o cigarro e são duas menos dez. Deixa a louça por lavar no lava-louça. Arranca de carro. Às duas horas está noutro lado. Muda as roupas de cama. De muitas camas. Põe roupa a lavar. Limpa o pó. Aspira os tapetes. Faz pequenos arranjos. Às cinco horas sai. Ou devia sair. Às vezes ainda dá mais uma ajuda. Aqui. Ali. Onde for preciso. Na cozinha. Nos quartos. Às vezes lavar um carro urgente. Regar a relva porque o sistema de rega está avariado. E avaria muitas vezes. Uma ida à farmácia Por favor! buscar qualquer coisa de muito urgente para alguém muito necessitado mas sem tempo.
Chega a casa às cinco e meia. Às seis. Ou às sete. Põe a louça do almoço na máquina. Prepara o jantar. Para ela e para os filhos. Jantam. Verifica os trabalhos de casa. Dos dois. Ouve as queixas. De um. De outro. As sapatilhas que estão rotas. As calças que estão curtas. A camisola que está pequena. As meias novas para o ballet que as velhas estão rotas. O livro do Plano de Leitura que não se vai ler mas tem de se comprar. O fato para a ginástica. As senhas de almoço para a próxima semana. A amiga que amuou. O amigo que já não é. As dores de crescimento dos filhos enquanto, ao mesmo tempo, os vê afastarem-se de si. Mas, para já um ombro. Outro. Limpa umas lágrimas. E quem lhe seca as dela?
Arruma a mesa de jantar. Põe a louça na máquina, a lavar. Tira a roupa da máquina e estende-a à espera que não chova.
Senta-se frente à televisão.
Olha para qualquer coisa que está a dar. Não liga muito. Mas ajuda a espairecer. Dantes ainda via umas novelas. Mas começaram todas a parecerem-lhe iguais. E já não lhe chega as vidas dos outros para animar a sua.
Vai fechando os olhos enquanto olha para a televisão. Entretanto são onze horas. Levanta-se. Prepara a roupa para o dia seguinte. Prepara a roupa para os filhos, mesmo sabendo que eles vão acabar por vestir o que querem.
Na casa-de-banho, enquanto lava os dentes, olha em frente, para si reflectida, e pensa que tem de limpar o espelho. Os vidros das janelas. De aspirar a casa. Limpar o pó. Mudar a roupa das camas. Pelo menos das camas dos miúdos. E tem de comprar pasta dos dentes. Mudar a escova que aquela já tem, o quê?, quase um ano? Pensa que tem de fazer uma lista de coisas que precisa de comprar. E depois precisa de ver se tem dinheiro para tudo e escolher as prioridades.
Enquanto vai pelo corredor, e passa pelos quartos dos filhos para dar o beijo de boas-noites sem que tirem os olhos do telemóvel, pensa que é melhor, no dia seguinte, passar em casa dos pais. Talvez traga umas couves. Um coelho já esfolado. Talvez uma sopa de feijão. Dava bastante jeito uma sopa de feijão seco, pensa.
Deita-se nua na cama fria e solitária e pensa que já passou mais um fim-de-semana e nem deu por isso. Os dias são sempre iguais. Banais. Solitários. Cansativos. E entre um pensamento e outro há um interlúdio e são outra vez sete da manhã. O telemóvel toca a despertar e tudo recomeça da mesma maneira.
Tudo se alterou quando chegaram as primeiras dores de cabeça. Depois as dificuldades em adormecer. Por fim as dificuldades em levantar-se de manhã.
Vai ao médico de família. Análises. Testes. Nada. Não tem nada. Não tem nenhum problema. É só cansaço, ouve. É o stress do dia-a-dia, dizem-lhe. E começam os comprimidos.
Os comprimidos para as dores de cabeça cada vez mais frequentes e intensas.
Os comprimidos para adormecer e esquecer todos os pensamentos que lhe invadem a cabeça enquanto se lança para a cama à procura de um pouco de repouso.
Os comprimidos para acordar e forçar a levantar-se para retomar o seu dia-a-dia de contribuidora para o bem comum.
Foi num fim-de-dia que lá fui para lhe comprar uns ovos. Ovos a sério. Ovos de galinhas do campo. Galinhas que andam a passear dentro do galinheiro a debicar milho e que todos os dias põem ovos frescos com que se equilibram as contas da casa. Foi nesse dia que lá fui aos ovos e a vi caída no chão. Alguma roupa pendurada no estendal. Outra caída. Umas peças tinham voado para cima da figueira.
Não tinha pulso. Chamei o INEM. Mas já foi tarde. Os filhos agora estão a viver com os avós.

Abriram uma vagas de emprego.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/16]

Penso que Estou a Ficar Velho

Dói-me a cabeça. Bastante. Parece que vai explodir. Dói-me tanto a cabeça que me deixa maldisposto. Sinto-me agoniado. Tenho dificuldade em abrir os olhos. E não consigo estar bem em lado nenhum.
Estive sentado no sofá, mas tive de me levantar. Não estava bem. Fui até à janela mas não consegui olhar lá para fora. Não consegui abrir os olhos. Tudo o que vi foi uma mancha de claridade. A cabeça doeu-me ainda mais e, por momentos, pareceu-me que ia vomitar.
Corri até à casa-de-banho. Sentei-me na borda da banheira. Ao pé da sanita.
E é onde estou. Mas vou levantar-me. Não estou bem aqui sentado.
Passeio pela casa. Queria pensar em alguma coisa. Alguma coisa para me ajudar a passar o tempo. Mas não consigo pensar. A dor de cabeça ocupa tudo.
Entro no quarto. Olho para a cama. Penso em deitar-me sobre ela. Gostava de me deitar sobre ela. Mas fico ainda mais agoniado só de pensar em estar deitado.
Vou até à cozinha. Encosto-me à mesa. Penso que estou a perder um tempo precioso. Um tempo que poderia estar a usar para terminar o trabalho que tenho de terminar. Ou não fazer nada. Que é o que estou a fazer agora. Nada.
Sinto um vómito a subir e volto a correr até à casa-de-banho. Sento-me na borda da banheira, novamente. Sinto-me pior. Sinto ficar pior a cada momento que passa. Tenho gotículas de água a cair pela testa abaixo. São gordurosas. E sinto a testa fria. A transpiração é fria. Olho para o espelho e vejo-me branco. Pode ser só imaginação. Até porque nem consigo abrir bem os olhos. Mas pareço estar muito branco.
E então vem um vómito mais forte. Que puxa um segundo. E um terceiro. E é este que vem com força suficiente e sai de jacto boca fora em direcção ao fundo da retrete. É uma confusão de líquido vermelho e pedaços sólidos que não identifico. É o vinho tinto do almoço. Ah, e ali vai um bocado de tomate. Ao cair no fundo da retrete, o vomitado provoca alguns respingos que sobem e me batem na cara. Mas nem sinto força para sentir nojo.
Fico ali, assim, debruçado, a deitar fora tudo o que quer sair e agora a pensar que depois de vomitar poderei sentir-me melhor e ganho alento.
Cuspo uns bocados de qualquer coisa que está na boca. Levanto-me. Lavo a cara com água e sabonete. Olho-me ao espelho e não gosto do que vejo. Estou velho.
Lavo os dentes. Esfrego bastante a escova contra os dentes, pela língua, mas com tanta força que acabo por bater com o cabo da escova-de-dentes contra a gengiva e faço sangue.
Que merda!
Bochecho água. Espero que o sangue pare.
A dor de cabeça ainda não foi embora. Mas sinto um alívio no corpo. Já não me dói a barriga. Ainda sinto frio. E não estou bem em lado nenhum.
Puxo o autoclismo. A sanita ainda fica suja. Tenho de a limpar com o piaçaba. Mas não me mexo. Estou a olhar para o fundo da retrete e não consigo mexer-me.
Penso que estou mesmo a ficar velho.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/19]

A Casa Desapareceu

Regressei a casa.
A árvore está seca. É uma figueira. Não sei se está morta. Não sei nada de árvores. Mas está seca. Sem frutos. Sem folhas. Os ramos parecem palha.
Abro a porta de casa. Entro. Sinto o cheiro a caldeirada. O refogado com cebola e alho, e o tomate. E os peixes que a minha mãe lá punha. O safio, a pescada, a sardinha, a lula, a amêijoa, a raia… Ai!, a raia! O que eu gosto de raia. Raia frita! Há quanto tempo não como raia frita?
Entro pelo corredor da direita, directo à cozinha, à sala. Vejo o tacho de barro ao lume, a fervilhar, olho para a rua através das janelas da marquise e vejo o silêncio. Não há vento. Os arbustos não abanam. O baloiço está parado. Há uma quietude. Vou até à sala. A televisão está ligada. Está a dar o Verão Azul. Sorrio de saudade ao ouvir aquelas vozes espanholas cheias de aventura.
Volto para trás. Vou para o outro corredor. O dos quartos. No quarto dos meus pais sinto o cheiro da laca da minha mãe. Do after shave do meu pai. Passo pela casa-de-banho e vem-me o cheiro de um perfume que lá deixei cair. A casa ficou cheirosa durante meses. Ainda hoje me cheira. Lembro-me que me atacou a bronquite.
Passo pelo meu quarto. Vejo a máquina de escrever. O poster da Kim Wilde. Os livros dos Cinco e dos Sete. Os Livros do Harold Robbins que comecei a ler quando me julguei adulto. As cassetes com as gravações do Som da Frente e da voz incompreensível do António Sérgio. Os singles dos Xutos & Pontapés e dos GNR. Os LPs dos Bauhaus e dos Echo and The Bunnymen. Ouço os Chameleons a dizerem que A Person Isn’t Safe Anywhere these Days…
Olho pela janela. Olho pela janela mas não vejo nada. Está emparedada com tijolos. Os cheiros da caldeirada e dos perfumes desvaneceram-se. Os Chameleons calaram-se. A casa desapareceu.
Estou num T0.
Estou no T0 onde vivo. Onde vivo só, na companhia das minhas memórias. Memórias de um tempo de esperança. Um tempo onde a vida prometia ser a Taluda, o Totoloto, o Euromilhões.
Um tempo cheio de maravilhas por vir.
Um tempo de enganos, afinal.
Estou deitado no sofá no T0 onde habito e olho para a televisão onde o Hernâni Carvalho fala de mais um crime contra idosos.
Eu já sou um idoso.
Acho que o Hernâni Carvalho começou a falar para mim. A falar de mim. Eu que me sinto enganado pela vida. Eu, já velho.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/13]

Um Hambúrguer Gourmet no Prato

Fiz um hambúrguer para o jantar.
Fiz uma torre de comida que não consegui colocar inteira na boca para dar uma trincadela.
A minha composição era tão dramaticamente grande que acabei por desfazê-la e comer tudo no prato, em separado. Fiquei triste. E furioso.
Tanto trabalho.
Tento tempo despendido.
E um esforço inglório.
Pensei que bastava abrir muito a boca, mas a minha boca, afinal, não abre assim tanto.
Até comprei pão de hambúrguer. Um pão que parece bolo. Uma coisa nojenta. Tem umas sementes em cima e tudo, que se enfiam entre os dentes e chateiam. Foi difícil tirá-las. Tive de usar fio dentário. Mas pronto…
Uma fatia de pão, um bocadinho torrado. Não muito para não ficar rijo. Um bocado de ketchup picante em cima do pão. O hambúrguer grelhado sobre o ketchup. Uma fatia de queijo da ilha, que o calor do hambúrguer foi derretendo. Não tinha bacon, mas tinha presunto. Uma fatia de tomate, grande, do mesmo diâmetro do pão. Umas pedrinhas de sal. Umas folhas de rúcula selvagem. Um bocado de maionese. Pickles. Uma fatia de peru fumado. Um ovo estrelado. Pimenta sobre o ovo. Cebola frita. E a outra metade do pão a fechar a obra.
Estava orgulhoso.
Primeiro, foi muito difícil manter o hambúrguer em pé. Mais difícil ainda foi conseguir agarrar no hambúrguer inteiro, precisei de esticar os dedos das duas mãos, e conseguir trincá-lo de forma a abocanhar todos os elementos utilizados na composição.
À primeira trincadela começaram a sair pedaços do interior da estrutura. Os molhos esguicharam para as mãos. O ovo rebentou. O hambúrguer, propriamente dito, escorregou para fora. A rúcula morreu. Caiu tudo no prato, com excepção da quantidade de coisas que acabou por cair para o meio do chão e me obrigou a andar lá, de cu para o ar, a apanhar, a limpar e a ficar com dores de costas, que já não tenho idade para estas acrobacias.
Foda-se!
Fiquei irritado.
Mas não me dei por vencido. Espalhei os elementos pelo prato. Ajeitei tudo com as mãos. Fui buscar talher. Um garfo e uma faca. Nada de frescura com as mãos para comer, mesmo que elas já estivessem todas gordurosas. Não tinha vinho em casa, mas fui ao vizinho do lado. Tinha um Esporão que me dispensou. Não sei onde vou arranjar dinheiro para lhe comprar uma.
Juntei umas azeitonas. Abri um pacote de batatas fritas Matutano Ruffles com sabor a presunto e dei cabo do assunto.
Soube-me bem. Matei a fome.
Mas ainda estou irritado.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/01]