O Revólver Debaixo da Almofada

Durante três anos dormia com uma garrafa de vinho na mesa-de-cabeceira, um cigarro no cinzeiro pronto a acender, o isqueiro estava mesmo logo ao lado, perto do despertador, e o revólver debaixo da almofada. Durante três anos.
Ela só soube do revólver ao fim dos três anos. E foi aí que me disse Ou o revólver ou eu. E eu precisei de um fim-de-semana inteiro para escolher entre um e outro. E no fim, acho que escolhi mal.
Guardei o revólver no pequeno cofre. Escolhi-a a ela. Passei a acordar de hora-a-hora todas as noites. Acordava transpirado, cheio de suores frios. Com medo. Tinha de me levantar e ir fumar um cigarro para a varanda e esperar acalmar. Sentia falta da segurança que o revólver me dava, ali assim, junto à minha cabeça, debaixo da almofada, onde eu levava a mão para ver se ele ainda lá estava. Bebia um gole de vinho, pelo gargalo, e deitava-me. Depois ouvia-a sempre resmungar Vai lavar os dentes!
Ao fim de um mês ela acabou por se ir embora.
O revólver voltou para debaixo da almofada.
Não sei como é que tudo começou. Mas começou com medo. Foi um medo que me começou a consumir cá por dentro. Foi aí que comprei o revólver. Enfiá-lo debaixo da almofada como companhia foi um pormenor.
Depois dela se ir embora, passei a dormir com o revólver na mão debaixo da almofada. Às vezes acordava a meio da noite. Acordava com algum barulho. Ficava ali parado, a orelha virada para cima atenta a qualquer alteração da ordem lá de casa. Às vezes acabava por me levantar e fumava um cigarro ali mesmo na cama, em silêncio. Largava o revólver e acendia o cigarro. Bebia um gole de vinho. E voltava a deitar-me. Às vezes ouvia-a falar Vai lavar os dentes! E então, tinha mesmo de me levantar e ir lavar os dentes ou então não conseguia deixar de pensar nela e na ordem que ela me dava e eu não cumpria. Mas então, tinha de o fazer.
Um dia fui acordado com uma chuva violenta a bater na janela do quarto. Talvez já tivesse bebido um pouco mais. Talvez tivesse fumado algo mais que um cigarro. Sei que estava a dormir profundamente, com o revólver na mão. Acordei sobressaltado com o barulho da chuva a bater, violentamente, no vidro da janela. Levantei-me num salto, puxei o braço que estava debaixo da cabeça, o revólver veio preso à mão, o dedo mexeu-se, carregou no gatilho e o revólver disparou. Ouvi o som metálico, estridente, mesmo junto a mim. Fiquei surdo por momentos. Fiquei cego. Não bem cego. A vista enturvou colorida. Senti uma pasta na perna, a percorrer-me a perna, percebi o lençol molhado.
Acendi a luz da mesa-de-cabeceira. Tinha dado um tiro na minha perna. Na minha própria perna. E não parava de deitar sangue. Às golfadas.
Ainda consegui telefonar para o cento e doze antes de desmaiar.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/02]

A Playlist do Miguel Guedes

Sabem aquela sensação de querer respirar e não conseguir? De parecer ter algo a bloquear a traqueia? De sentir que se vai desmaiar a qualquer momento por falta de ar? E que nessa altura só queriam ter um revólver nas mãos e apontá-lo à cabeça? Ou à cabeça dela que não se cala? Sabem? E sabem essa sensação de quando começam a mover o dedo no gatilho e já antecipam o tiro, o disparo, a bala a sair do revólver a cruzar o ar e a entrar num pedaço de carne fragmentando tudo à sua volta? E que nesse momento, nesse preciso momento recuperam a capacidade de respirar e mandam um berro, um berro tão grande que tudo à vossa volta cai em silêncio? Sabem? Pois foi o que me aconteceu.
Só não tinha o revólver na mão, que eu não tenho nenhum revólver em casa. Não tenho nenhuma arma para além das facas de cozinha. Mas foi como se tivesse. Mandei o berro e saí de casa. Abri a porta da rua bruscamente e fechei-a com estrondo nas minhas costas. Toda a gente do prédio haveria de ficar a saber que espécie de besta era eu.
Voei pelas escadas do prédio e aterrei no carro. Liguei-o e arranquei.
Na rádio a voz do Miguel Guedes na Playlist da TSF e eu pensei Que porra! Odeio este gajo! Vozinha arrogante. Raios o partam!, mas começou a música e deixei ficar. A música acalma as bestas, não é?
Deixei o carro levar-me estrada fora enquanto fui ouvindo a selecção musical do Miguel Guedes e só pensava Como podemos não gostar de pessoas que têm um gosto musical igual ao nosso? É que era uma selecção de primeira e que podia ter sido feita por mim. De Mazzy Star a Anna Calvi, passando por Arcade Fire, Dark Dark Dark, Elliott Smith, Jorge Palma, Nick Drake e sem esquecer Dylan, Bowie, Cave e Springsteen.
O carro levava-me estrada fora. A música escolhida por Miguel Guedes tinha-me acalmado. Já não queria berrar. Já não queria agarrar num revólver. Nem apertar no gatilho. Já conseguia respirar e estava a respirar bem. Bem e calmamente.
Cheguei a São Pedro de Moel. O carro levara-me até lá. Estava a chover uma chuva miudinha. Uma chuva que mais parecia cacimbo. Desci até à praça. Talvez umas pevides e olhar o mar, pensei.
Mas não.
A descer, quase a chegar à praça, o mar por companhia. O mar comera a praia e galgara as escadas até chegar à praça. Era impossível passar para o outro lado. Não estava lá a senhora dos tremoços. Não estava lá ninguém. Na rádio continuava a Playlist do Miguel Guedes. Continuava a achá-lo um sujeito arrogante, duma arrogância que se detectava logo na voz. O facto dele ser do FC Porto também contribuía para a construção que fazia dele. Mas tinha bom gosto, o cabrão. Um gosto igual ao meu. E foi aí que pensei se não seríamos nós todos, esta gente que gosta de boa música, todos uns arrogantes de merda por conhecerem aquilo que os outros não sonham sequer conhecer?
Abri o vidro do carro e acendi um cigarro. Fiquei ali algum tempo a fumar e a olhar a espuma suja que o mar trazia para a praça. Ainda pensei no que é que ela estaria a fazer em casa. Mas foi um pensamento rápido, que logo se esvaneceu.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/15]

Boca Doce

Aproximava-se o aniversário da minha filha e eu tinha de fazer alguma coisa. Alguma coisa que compensasse estes dias de chumbo que temos vivido. Procurava uma pequena alegria. Procurava colocar-lhe um pequeno sorriso nos lábios e que esse sorriso a fizesse esquecer estes últimos meses.
Levantei-me de manhã cedo. Não a acordei. Deixei-a dormir. Não havia tele-escola e podia dormir um pouco mais. Lavei as mãos. Lavei a cara. Lavei os dentes. Os boxers estavam já demasiado rotos. Nem dava mais para remendar. Tomei nota mental para tentar arranjar mais um ou dois boxers. Vesti umas calças. Calcei as botas com biqueira de aço. Uma camisola. Uma casaco com bolsos. Uma mochila às costas. O cartão multibanco, um lápis com borracha na ponta, algumas moedas e umas notas. Depois calcei umas luvas. Coloquei uma máscara cirúrgica na cara, sobre a boca e o nariz. Apertei a mola sobre a cana do nariz. Agarrei no revólver e coloquei-o preso no cós das calças, nas minhas costas, e uma faca de mato, afiada, dentro das botas. Antes de sair de casa pus os óculos escuros. Não me benzi porque não sou religioso mas, no momento mesmo antes de sair de casa virei-me para trás e olhei para a casa silenciosa e quase na penumbra, os estores estavam corridos até baixo, deixando somente os buracos abertos para passar alguma luz mas não deixar entrar mais nada, para deixar a casa em segurança, e esse momento foi como se me tivesse benzido e rezado uma Avé Maria e um Padre Nosso. Depois saí e fechei a porta à chave nas minhas costas.
Nunca gostei de usar as máscaras. Dificultam-me a respiração, fazem-me comichão e muito calor. Mas sei que tenho de as usar. Se quero sair à rua, tenho de ir protegido. Protegido de todas as formas.
Tinha o carro na garagem. O carro atestado. Mas achei melhor ir a pé. Nem sequer levar bicicleta. Provavelmente teria de ir a vários sítios. O melhor era não estar preocupado que me roubassem o carro, a gasolina, a bicicleta. Ir a pé era a melhor escolha. Mesmo que uma escolha perigosa. E assim fiz.
Cheguei à rua e olhei para um lado e para outro. A rua estava vazia. Aquele era um bairro essencialmente residencial. Era muito raro encontrar alguém na rua. Mesmo nos quintais, quem os tinha, já era difícil encontrar alguém. As pessoas barricavam-se em casa. As que podiam trabalhar em casa trabalhavam. As outras tentavam sobreviver. Ficavam fechadas em casa o dia inteiro. A noite inteira. A semana quase toda. Mas às vezes, às vezes faziam pequenas saídas para procurar alimentos e remédios. Vasculhar os caixotes do lixo. Tentar algum assalto e evitar ser assaltado.
Ainda havia algum comércio durante o dia. A maior parte das lojas já só funcionava no mercado-negro. Eram protegidas por milícias. E continuavam a ser os sítios onde ainda se podia encontrar algumas coisas. Ainda se aceitava cartões multibanco e MBWay. Já ninguém aceitava cartões de crédito. O dinheiro em género era a forma mais imediata de se fazer compras mas, a troca de uns produtos por outros, estava a ganhar o seu espaço. Principalmente porque a maior parte das pessoas já não trabalhava e já não tinha dinheiro.
Eu ainda era um dos poucos sortudos com algum trabalho e algum dinheiro. Mas até para pessoas como eu as coisas estavam a ficar complicadas porque os próprios governos estavam a desintegrar-se. A perder as ruas. O Estado ainda tinha os militares e alguma polícia. Mas as milícias, os grupos armados, os grupos de piratas começavam a estender as suas malhas por todo o lado. Os Mercados já não existiam. Pelo menos, não como eram entendidos antes de tudo isto começar. Agora tudo se comprava e vendia directamente. Troca por troca. Mão havia mercados futuros. Fundos de investimento. Compra e venda de acções. Nada dessas coisas. Agora o que tinha valor era o real. Uma alface. Uma vaca. Um par de sapatilhas Adidas. Uma Glock.
Havia ainda produção no campo. E gente a garantir essa produção. A maior parte eram já protegidos por estes mesmos grupos de piratas. Quem tinha as armas é que mandava. Quem tinha as armas e os homens e a coragem. Os outros todos, obedeciam.
Eu ainda trabalhava para o Estado. Todos os meses ainda recebia o meu dinheiro através do banco. Os bancos ainda funcionavam. Afinal, era lá que os grupos de piratas guardavam o dinheiro. Na verdade, os piratas já tomavam conta dos bancos. Mas eles ainda funcionavam. Funcionavam era já de uma maneira diferente. Com outros objectivos. Agora eram essencialmente cofres-fortes. Guardavam ouro e outros metais preciosos. Pagavam-se entre eles para trocas entre clientes. Era assim que se fazia chegar um carregamento de uvas da Beira-Alta até Lisboa, por exemplo.
Mas enfim, saí de casa, cheguei à rua e virei à esquerda e fiz a rua toda até ao fim, até ao fim do bairro e depois continuei por ali fora, quase uma hora a caminhar pela estrada até chegar ao baldio, um antigo e enorme parque de estacionamento do estádio de futebol abandonado, terreno perigoso quando é noite, mas que se faz relativamente bem durante o dia. Depois faria mais cinco ou seis quilómetros em frente e estaria na periferia da cidade mas numa zona comercial onde, eventualmente, poderia encontrar alguma coisa do que procurava.
Fazer a rua do bairro foi muito penoso. A rua estava deserta. Alguns carros parados nas bermas junto aos passeios, mas já só umas carcaças metálicas. Esqueletos de antigos carros, despojados dos seus acessórios, desmontados e vendidos individualmente para renderem mais no mercado negro.
Havia gente dentro das casas. Via algumas caras à janela. Um homem saiu e disse Vais à cidade? Espera por mim que vou contigo! e voltou a entrar dentro de casa. Eu não esperei. Prefiro ir sozinho. Não levantar ondas. Passar despercebido. Manter-me invisível como sempre tinha sido toda a minha vida. Alguns quintais estavam abandonados. As casas ainda tinham gente mas as pessoas já não vinham à rua. Por medo do vírus. Por medo dos grupos armados. Por medo dos piratas. Por medo de tudo. Até da própria sombra. A vida, por estes dias, não vale um chavo.
Cheguei ao fim do bairro e fiz a estrada. Cerca de dez quilómetros até ao baldio do parque de estacionamento. Estrada deserta. Não passou um carro. Uma antiga estação de serviço abandonada e destruída. Cheguei ao antigo parque de estacionamento. Ao longe já se avistavam outras pessoas como eu, a ir para a cidade, a vir da cidade, atentos. Olhávamos uns para os outros a tentar perceber se éramos um perigo ou não. Agora ninguém sabe com quem se cruza. Há histórias de gente morta por amigos por causa de uma lamela de paracetamol. A vida tinha desvalorizado bastante na bolsa de valores. E a amizade mais ainda. Já não havia amigos. Era difícil encontrar gente em quem confiar. É por isso que precisava de encontrar qualquer coisa de especial. Para um dia especial de uma miúda especial.
Passei ao lado do antigo Estádio. Conta-se que lá dentro é o quartel-general de um dos grupos de piratas mais terríveis da zona. Mas pode ser só um mito urbano. As portas estão fechadas. Não se vê ninguém a entrar nem a sair do Estádio. Mas também se fala que existem túneis secretos. Na verdade não sabemos muito bem o que pensar de tudo isto.
Ao passar ao pé de uma das portas, levei a mão ao bolso onde tinha o revólver. Agarrei-o. Agarrei-o para o sentir. Vi qualquer coisa caída no chão por entre as ervas que cresciam no meio do asfalto rachado do antigo parque de estacionamento. Continuei a andar mas foquei melhor o olhar. Era um corpo. Um corpo de homem. Um cadáver ainda recente, provavelmente. Cuspi para o chão. Continuei em frente. Cruzei a estrada que vinha do norte e continuei até ao limite da cidade. Um quilómetro mais à frente começavam as primeiras lojas. Uns antigos supermercados adaptados aos novos tempos. Agora vendia-se de tudo, de tudo o que houvesse.
Lembro-me há muitos anos, em Luanda, ter ido ao Roque Santeiro, o maior mercado a céu aberto de África. Lá encontrava-se de tudo. Desde uma agulha para coser os meus boxers, quando eles ainda tinham salvação, até um míssil para disparar sobre a cidade vizinha. Agora, por aqui, era mais ou menos assim. Mas havia especializações nas lojas.
Cheguei ao primeiro supermercado logo à entrada da cidade. Era um antigo Minipreço. Mostrei o cartão multibanco ao segurança armado à entrada e entrei dentro do Minipreço. Dei uma volta pelo interior mas não havia nada que me interessasse. O antigo Minipreço era pequeno e não tinha muita variedade de coisas. Era essencialmente um entreposto de lacticínios e enchidos, tudo vindo directamente do produtor, algumas embalagens antigas, já tudo fora de prazo, mas muita coisa a granel. Só se leva o que se pode pagar. E não se pode levar tudo que as coisas são geridas de maneira a haver sempre quase tudo quase sempre.
Saí e entrei num antigo Pingo Doce. Fiz o mesmo ritual. Mostrei o cartão multibanco ao segurança e entrei. O Pingo Doce tinha muitas conservas. Era, essencialmente, um entreposto de latas de comida e bebida. Dei uma volta. Era bom se encontrasse uns pacotes de gelatina. Ela gostava de gelatina quando era miúda. Há quantos anos não comia gelatina? Mas não conseguia dar com nenhuma embalagem de gelatina. Até que, de repente, vejo-a a olhar para mim. Perdida numa prateleira. Fora de sítio, provavelmente, porque não havia ali mais nada daquilo. Uma embalagem de Boca Doce. Boca Doce! Uma embalagem de Boca Doce de Morango. O Boca Doce era uma espécie de pudim gelatinoso instantâneo. Agarrei logo na embalagem. Não precisava de procurar mais. Tinha encontrado o que procurava.
Paguei. Era caro. Paguei com o multibanco. Marquei o código com a parte de borracha do lápis. Depois desinfectei-a com um pouco de álcool e guardei o lápis no bolso do casaco. Pus a embalagem de Boca Doce na mochila. Podia voltar para casa. Não precisava de mais nada.
Saí.
Não tinha andado quinhentos metros, ainda estava dentro dos limites da cidade, quando fui abordado por um homem. Sem máscara. Afasta-te!, pedi. O tipo continuou a avançar para mim, mostrou-me uma faca na mão, uma faca grande, e disse O cartão! e tentou agarrar-me o braço. Eu levei a mão ao bolso do casaco e agarrei no revólver. Disse ao tipo Afasta-te, se fazes favor! Ele voltou a tentar agarrar-me. Deitou-me a mão ao braço e agarrou-me o braço e puxou-me para ele. Eu dei-lhe um pontapé com a biqueira de aço numa canela que o fez tropeçar. Enquanto ele se baixava cambaleante, eu tirei a mão do bolso com o revólver e disparei à queima-roupa. Disparei sobre o tipo. O tiro acertou-lhe em cheio na cara. Senti alguns salpicos a caírem sobre mim. Foda-se! disse. A mão do tipo largou-me o braço e ele caiu no chão. Dei-lhe um pontapé na mão e vi-a voar e cair quieta ao lado do corpo. Eu pequei no frasquinho de álcool e aspergi um pouco sobre mim.
Fui-me embora e deixei o corpo lá caído.
Enquanto passava ao lado do Estádio, enquanto caminhava pelo antigo parque de estacionamento, pensava que tinha de tomar um banho quando chegasse a casa e tinha de pôr a roupa para lavar e tudo isso antes da miúda acordar. E mais ainda pensava que à noite iria fazer o pudim-gelatinoso de Morango para o aniversário dela no dia seguinte. Achava que ela iria gostar de um Boca Doce. E sorri. Depois ainda pensei Não procurei os boxers para mim. E não pensei mais no tipo a quem tinha acabado de matar.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/06]

No Weapons

Há uns anos atravessei a fronteira entre Moçambique e a Suazilândia (acho que a Suazilândia agora tem outro nome). Saí de Maputo, cruzei a Matola em direcção à Namaacha, de passagem por Boane, até à fronteira. Estivemos parados algum tempo na fronteira à espera de sermos atendidos. Aquilo andava devagar. Numa rede separatória, do lado de cá era Moçambique e do lado de lá era a Suazilândia, uma rede que nos conduzia a um pequeno gabinete onde seríamos atendidos e os passaportes carimbados, estava uma folha a4, enfiada dentro de uma mica de plástico, com o desenho colorido de um revólver e os dizeres No Weapons escrito em Comic Sans e preso à rede com uns pequenos arames enfiados pelos buracos da mica.
Estranhei porque os moçambicanos, normalmente, andavam com catanas para desbastar o mato e cortar a cabeça às serpentes que se atravessassem no caminho (e é por isso que, no mato, as mulheres vão sempre atrás). Não costumam andar com revólveres. Com excepção das autoridades (e nem todas porque às vezes não há dinheiro para todas as autoridades terem armas) e dos corpos de segurança.
Cruzei a fronteira sem problemas e não vi nenhuma arma nem ninguém me perguntou se eu levava alguma arma (e eu não levava).
Pensei quão longe ficava aquele mundo do meu.
Hoje, em Leiria, todos andamos com um revólver à cintura. Aprendemos uns com os outros que o nosso pior inimigo não é um vírus mas o vizinho do lado.
Isto tudo começou nos Estado Unidos. Perante a propagação do novo coronavírus, e o caos que se adivinhava, as pessoas de todo o mundo começaram a armazenar papel-higiénico e latas de atum. Os norte-americanos começaram a comprar armas. No início todos nos rimos a pensar como é que os norte-americanos iam limpar o cu com o cano de uma espingarda. Depressa percebemos que, com uma arma, as pessoas conseguiam todo o papel-higiénico e todas as latas de atum que quisessem. A ideia demorou a chegar à Europa e a Portugal. Mas quando chegou, instalou-se. Em Leiria não foi diferente. Toda a gente se armou. Primeiro foram os caçadores a irem às compras na cidade com as espingardas de caça na mão para evitar serem roubados. Mas depressa começou a haver um mercado-negro de armamento pessoal. Chegaram as pistolas e os revólveres. Toda a gente se armou. Eu também.
Não gosto de armas. Nem sei se consigo disparar sobre alguém.
Lembrei-me deste pequeno episódio vivido na fronteira entre Moçambique e a Suazilândia quando ouvi, há pouco, o disparo de uma pistola e o baque de um corpo a cair no chão. As pessoas andam nervosas e, ter uma arma nas mãos, não as ajudam nada.
Ouvi o tiro e virei a cabeça. Ia a caminho de casa depois de ter ido às compras ao Pingo Doce quando ouvi o tiro. Virei a cabeça. Era numa fila para entrar no supermercado Pingo Doce no centro da cidade donde eu tinha acabado de sair. Um homem estava com uma pistola na mão e, à sua frente, aos seus pés, um corpo caído numa poça de sangue. O homem com a pistola na mão dizia sonoro Não mantinha a distância de segurança… Não mantinha a distância de segurança…
Ninguém ligou nenhuma. Só eu virei a cabeça. As pessoas continuaram a entrar no Pingo Doce. As que estavam atrás dele, foram-no ultrapassando. O homem ficou lá parado, com a pistola na mão e o corpo caído aos seus pés a dizer sem parar Não mantinha a distância de segurança…
Eu fui-me embora para casa. Deixei-os ficar para trás. A cidade estava a ficar perigosa. As pessoas não deviam ter acesso a armas e muito menos andar com elas na cidade. As pessoas não estão preparadas para ter uma arma nas mãos. Deviam haver cartazes a avisar No Weapons. Porque somos demasiado impulsivos. Demasiado nervosos. Explodimos por tudo e por nada. E disparamos ao menor problema ou contrariedade. No Weapons era a melhor maneira de não fazermos asneira.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/30]

O Coronavírus

Quando finalmente resolveram fechar os aeroportos, já era demasiado tarde. O vírus já se tinha espalhado por todo o lado.
A resposta das autoridades à epidemia do Coronavirus foi muito lenta e tardia. As poucas decisões, titubeantes, esbarraram sempre na impossibilidade política: não se podiam fechar os aeroportos; não se podiam parar os comboios; não se podiam fechar as estações de Metro e de autocarros. Havia sempre algo em jogo. Nomeadamente dinheiro. Havia sempre demasiado dinheiro em jogo para impedir as pessoas de circular e, eventualmente, espalhar o vírus. Que importa algumas mortes se o dinheiro continuar a circular, junto com as pessoas e a economia. Nada pode parar. Parar é morrer. O objectivo é sempre o crescimento. Parar a circulação de pessoas e bens materiais é parar o crescimento. E isso é impossível.
Lembrei-me do Tubarão, o filme-marco da inauguração dos blockbusters de Steven Spielberg. Quando um grande tubarão aparece numa praia americana a trincar pessoas, o governador não permite que se feche a praia porque as pessoas dependem do Verão para viver o resto do ano – a economia, percebem? E assim vamos indo. O primado da finança sobre a humanidade. Onde é que isso nos levou? Para já, e segundo parece, ao fim-do-mundo. É onde estamos.
Eu estou melhor aqui em casa que as pessoas que estão em Lisboa ou, pior ainda, em Hong Kong. Tenho mantimentos no meu quintal. Comecei a produzir outros mal percebi que as coisas iam descarrilar, como descarrilaram.
Quando finalmente resolveram fechar os aeroportos, já tinham morrido alguns milhões de pessoas em todo o mundo. Como foi possível esperar tanto tempo?
Tenho seguido as notícias através da internet. A internet continua a funcionar. Algumas estações de televisão e rádio também.
Aqui no meu canto, numa aldeia perdida no sopé das Serras de Aire e dos Candeeiros, não tinha a noção de como as coisas estavam. Estão. Agora, nos grandes centros urbanos, ninguém pode sair de casa. O exército patrulha as ruas. Quem for encontrado na rua, é morto a tiro, esteja contaminado, ou não. Quando decretaram o recolher obrigatório total, quem estava em casa ficou em casa, quem estava no trabalho, ficou no trabalho. Algumas dessas pessoas puderam continuar a fazer o seu trabalho, como os que estavam na televisão, um trabalho limitado, claro, mas que mesmo assim, ia tentando pôr alguma ordem na informação que circulava pelas redes sociais.
Houve alguns movimentos de revolta que quiseram desafiar as autoridades e saíram para a rua. Um grupo de pessoas, em Lisboa, arrancou para a cidade em cima de uma camioneta, munida com colunas e música techno. Uma festa ambulante. Foram apanhados por um pelotão da Cavalaria e foram mortos a meio da Avenida de Roma. Alguém filmou do interior de um dos apartamentos. As imagens circularam rápidas pelas redes sociais. A indignação subiu de tom. Havia sempre dois grupos em confronto: os que achavam que a Cavalaria tinha feito o que lhe competia; e os que achavam que as pessoas deviam ter opção de escolha. Eu? O que é que eu acho? Onde estou é diferente. Aqui as pessoas circulam entre as casa de uns e outros. Os militares passam por cá, de vez em quando, mas não ficam. Há pouca gente. Numa cidade grande é diferente. De qualquer forma, eu não costumo sair de casa. Já antes não saía. Mas faço algumas trocas com os meus vizinhos. Ajudamos-nos dentro do possível.
A primeira coisa que fiz quando senti que o caos se estava a instalar foi colocar arame-farpado à volta do quintal. Tenho de proteger a minha horta, o meu pomar. As galinhas e os patos. Anda muita gente por aí no saque. Já disparei sobre dois indivíduos que tentaram saltar o arame-farpado. O cão começou a ladrar e eu disparei a espingarda sobre eles. Acho que lhes acertei, mas não tenho a certeza. Havia sangue sobre o muro, mas podia ter sido das feridas motivadas pelo arame-farpado.
Não sei como é que tudo isto vai terminar. As expectativas não são boas. As últimas notícias davam conta da impossibilidade de controle da epidemia do Coronavírus.
Estão-se-me a acabar os cigarros. Ainda tenho algumas garrafas de vinho na adega. Tenho algumas caixas de balas. Limpo a espingarda todos os dias. O cão e os gatos patrulham o quintal. Arranjei a câmara, que não funcionava, do portão de entrada. Tenho pena de não ter outra para o muro das traseiras.
O céu promete chuva.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/24]

Um Tiro Disparado à Queima-Roupa

Acordei a ouvir falar numa criança e na doença que ela carrega. Uma doença rara. Ouvi dizer que havia um medicamento para esta doença rara que custava dois milhões de euros e sobre o qual, um médico, não sei que médico, mas um médico, dizia que não era uma cura, tão só uma ajuda a suportar a doença.
Uma doença, é uma doença. Rara ou comum, uma doença é uma doença. Mortal ou crónica, uma doença é uma doença. Há doenças piores que outras. Mas uma doença, é uma doença.
Um medicamento que custa dois milhões de euros não é um medicamento. É um euromilhões. Um medicamento que custa dois milhões de euros é uma escolha que está a garantir a imortalidade aos mais ricos dos ricos. Um medicamento que custa dois milhões de euros está a seleccionar quem pode viver. Quem pode morrer. Quem deve morrer.
Um medicamento que custa dois milhões de euros não é um medicamento, é uma dívida. Uma dívida para a vida. Para a vida da vida. Para a descendência. É uma hipoteca das gerações futuras. Para os filhos dos filhos dos filhos onde, entretanto, se encravou o elevador social, laboral e salarial e já não interessa a doença porque já todos têm uma sentença pendente sobre a sua vida. Um medicamento que custa dois milhões de euros é uma sentença de morte. É um tiro disparado à queima-roupa. É uma facada nos rins, e deixar morrer lentamente. É um deserto com o oásis a fugir com a linha do horizonte, e nunca se deixa apanhar.
Se eu tivesse dois milhões de euros gastava-os em álcool e gajas.
Se eu tivesse dois milhões de euros gastava-os a dar a volta ao mundo. A ver mundo. A beber o vinho do mundo. A amar as mulheres de todo o mundo. Perdia-me nas curvas das curvas, nas curvas do mundo, nas curvas das estradas, nas curvas das mulheres embriagadas e nas suas promessas de amor fácil e honesto. O amor é o que é. Ou não é.
Mas só tenho o resto deste Capataz em pacote. Até ontem ainda tinha a pornografia na internet. Mas já me cortaram a luz. A água. O gás. O cabo. A internet. O telemóvel. O meu último maço de cigarros jaz ali, no chão da varanda, amachucado, vazio.
Estou aqui em casa. À varanda do edifício que é a minha casa. Ou era, que já não sei nada de nada. Estou no Edifício Coutinho. A minha casa. Hoje de manhã acordei com os batuques dos martelos a desconstruir o prédio. Começaram no apartamento aqui mesmo ao lado do meu. Querem que eu saia de minha casa. Parece que é para o bem da comunidade. Bebo o último gole de vinho. Largo o copo, de vidro, e vejo-o cair lá em baixo na rua, mesmo ao lado de um segurança privado que levanta o punho em ameaça. Vai-te foder, pá! grito-lhe, mas sei que não me ouve.
Respiro fundo. Não tenho dois milhões de euros. Nem tenho uma doença rara. Sou só um gajo descartável igual a tantos outros que acabam por vociferar contra mim. Enganados.
Preparo-me para seguir o caminho do copo de vinho antes de ser atingido pela indiferença que anda a matar o século XXI.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/28]

E se Eu Fosse?…

E se eu fosse preto? Devia ser maltratado por isso?
E se eu fosse branco? Devia ser glorificado?
E se eu fosse homossexual? Gay? Paneleiro? Maricas? Bicha? Sapatona? Lésbica? Lambedora de velcro? Fessureira? Fufa? Estaria fora da lei de Deus?
E se eu fosse Bispo católico? Devia ser pedófilo?
E se eu fosse Bispo evangélico? Devia receber dízimo?
E se eu fosse Pastor protestante? Devia foder?
E se eu fosse ateu? Devia não ter direito a viver em paz?
E se eu fosse mulher? Devia acusar um homem de assédio?
E se eu fosse homem? Devia assediar uma mulher?
E se eu fosse deputado português? Devia ir a Serralves ver as pilas do Mapplethorpe?
E se eu fosse deputado português? Devia legislar em causa própria?
E se eu fosse deputado português? Devia ser leal ao partido? Devia ser fiel ao povo que me elegeu?
E se eu fosse Santana? Devia fazer mais um partido igual aos outros a fingir que é diferente?
E se eu fosse Aníbal? Não, eu não podia ser Aníbal!
E se eu fosse professor? Devia gostar do Mário Nogueira?
E se eu fosse PSP? Devia pagar a farda?
E se eu fosse GNR? Devia pagar a farda?
E se eu fosse Comando? Devia morrer na recruta?
E se eu fosse parvo? Devia levar um par de estalos?
E se eu fosse Índio norte-americano? Devia pôr o Donald Trump fora dos Estados Unidos?
E se eu fosse o Donald Trump? Devia assediar mulheres? E homens? E gabar-me de ser único? E grande? E enorme? E espectacular? E devia levar dois pares de estalos?
E se eu fosse Alexandre Frota? Devia fazer anal técnico?
E se eu fosse Jair Bolsonaro? Devia dar um tiro nos cornos?
E se eu fosse Povo? Devia ser estúpido?

[escrito directamente no facebook em 2018/10/05]

Os Espantalhos e a Morte

O homem andava para baixo e para cima com um molho de canas debaixo do braço e um saco de plástico pendurado numa delas.
Eu estava sentado no alpendre e ia apreciando a ginástica que o homem ia fazendo.
Parava, espetava uma cana no chão, no meio de umas couves que estavam lá plantadas, e depois retirava um pacote prateado do saco de plástico, soprava para o encher e pendurava-o na cana.
Andava mais um pouco entre as couves e, mais à frente, repetia a acção.
Percebi que estava a fazer uma espécie de espantalhos para assustar a passarada.
E aqueles pacotes… O que era aquilo?
Acendi um cigarro e deixei-me estar a apreciar. Aquilo não parecia resultar.
O homem tinha uma horta diversificada, com couves, milho, tomates, rúcula, batatas, feijão verde e abóboras.
Já tinha espetado os seus espantalho todos mas, os pássaros continuavam a ir para lá. Para eles, aquilo era um banquete.
Ainda o vi correr com uma pá atrás dos pássaros, mas não conseguiu nada. Caiu, espetou-se numa cana e fez sangue. Amaldiçoou o céu, Deus e o Presidente da Junta.
Eu levantei-me para ir fazer um gin.
Entrei na cozinha e fui buscar a garrafa de Bombay.
Já estava a provar o gin que tinha feito, quando ouvi o primeiro tiro. Logo depois, outro.
Voltei ao alpendre para ver o que se passava.
O homem andava histérico com uma caçadeira a disparar sobre os pombos. Bufava alto.
Sentei-me no alpendre a vê-lo ao tiros. O gin estava fresco, amargo e forte.
E, de repente, lembrei-me, São os pacotes de vinho das caixas de cartão. Os espantalhos do homem eram o interior das embalagens de vinho de cartão. Ri-me com o engenho aguçado do homem.
Durou pouco esse riso. Uma bala silvou ao meu ouvido e foi-se alojar na parede ao meu lado. Que porra…!
O homem estava tão desnorteado e tão irritado com os pássaros que lhe destruíam a horta que disparava a torto e a direito, não reparando o que estava a fazer.
Não acertara em nenhum pássaro, o que o estava a irritar sobremaneira, mas já ia acertando em mim.
Continuei a beber o gin. Acendi novo cigarro. E uma outra bala partiu-me o cigarro a meio. Assustei-me. Por pouco não me levava o nariz atrás. Caralho do homem!…
Levantei-me e fui buscar a minha caçadeira.
Voltei a sentar-me no alpendre. Acabei com o gin. Deitei a beata para o chão. Esmaguei-a com o pé.
O homem continuava a correr pela horta, para cima e para baixo, a disparar à toa contra os pássaros sem lhes acertar uma única vez.
Lá em cima, no céu, apareceram uns abutres a planar em círculos, em torno do homem.
Estavam a adivinhar.
Eu mirei o homem.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/06]