Dia de São Martinho

Aproximava-me de casa e sentia o cheiro. O cheiro de lareira. A lenha queimada.
A vizinha do lado já tinha inaugurado a época da lareira. Agora era diário. Todos os dias acendia a lareira. Eu sentia o cheiro logo ao início da rua. E dava-me uma certa inveja. Este ano, como no anterior, aliás, não tive dinheiro para encher o canto da garagem. Consegui só meia-dúzia de pequenos toros que roubei no que resta do incêndio do Pinhal do Rei. A caminho do Vale Furado ou da Praia do Norte, há pilhas de troncos à espera de serem levados para qualquer lado. Há dois anos. Ainda não foram. Já tentei lá ir buscar alguns, mas são pesados e não me cabem no carro. Apanhei uns toros pequenos que encontrei caídos por lá, mais uns gravetos e umas pinhas. Estou a guardar isso para a noite de Natal. Talvez também para a Passagem de Ano. Assim vou poder estar no quente enquanto vejo, na televisão, as festas dos outros. Talvez passe outra vez Do Céu Caiu uma Estrela.
Ao chegar a casa tinha sempre a esperança que a vizinha me convidasse para lá ir comer umas castanhas assadas na lareira. Mas não. Mal nos falávamos. Quando me cruzava com ela nas escadas do prédio ela olhava para mim, olhava-me nos olhos, à espera que eu dissesse alguma coisa, mas a única coisa que me saía era um monossílabo que acho que ela nem ouvia.
Sou uma pessoa tímida.
Ela também deve ser.
Eu subia as escadas. O cheiro era cada vez mais forte. No patamar do andar, encostava o ouvido à porta de casa dela, mas não ouvia nada. Nunca ouvia nada. Mas todos os dias repetia o mesmo ritual. O ouvido encostado à porta à escuta. O crepitar na lareira. A respiração ofegante da minha vizinha com algum putativo namorado. Nah! Ela não tinha namorado. Nunca vi ninguém entrar lá em casa. Mas não ouvia nada. Nenhum barulho.
Depois ia para a minha porta, abria-a e entrava em casa.
Largava a mochila com o computador no chão do corredor, à entrada, ia até à sala e deixava-me cair no sofá.
A maior parte das vezes acendia um cigarro e fumava-o enquanto olhava para o ecrã negro da televisão. Não ligava a televisão. Limitava-me a olhar para ela. E fumava o cigarro. E, depois, invariavelmente, adormecia. Acordava horas mais tarde cheio de frio e de fome. Agarrava numa manta que, afinal, estava sempre em cima do sofá e enrolava-me nela. Ia à cozinha ver o que havia para comer. Quase nunca havia nada para comer. E eu dizia, de novo, e outra vez Amanhã tenho e ir ao Supermercado! mas nunca ia. Esquecia-me de ir.
Bebia um copo de água. E ia para a cama. Às vezes deitava-me assim vestido e enrolado na manta. Mas custava-me adormecer porque me sentia preso. Assim, deitava-me vestido e enrolado, até me sentir quente e depois tirava a manta para fora. Despia-me debaixo do edredão e, então, deixava-me adormecer.
No outro dia a campainha tocou quando estava no sofá a fumar um cigarro. A mochila com o computador estava caída no corredor à entrada de casa. Perguntei da sala Quem é? E uma voz respondeu Sou eu! Eu aproximei-me da porta e espreitei pelo óculo. O eu era ela. A minha vizinha. Abri a porta. E ela disse É dia de São Martinho. Tenho castanhas assadas e água-pé. Os miúdos estão com o pai. Preciso de companhia. Eu olhei para ela surpreendido com o convite, com o cigarro preso entre os dedos da mão, e ela ainda disse E podes trazer o cigarro.
Eu fui e ainda não voltei.
Agora estou sentado na cama dela a fumar um cigarro. Ela dorme agarrada a mim. Estamos os dois nus. Eu estou a pensar no que aconteceu. E ainda não consegui perceber muito bem.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/12]

Estou e Vejo

Acabei de acabar…

Estou no alto das ameias do castelo e vejo o rio a serpentear lá em baixo, lá em baixo ao fundo. Vejo uma criança a afogar-se nas águas do rio, com os patos à sua volta a fugirem do gesticular agitado da criança. Um homem mergulha, vestido, na água, e nada, desesperado, em direcção à criança.

E como continuar? e para onde? e para quê?…

Estou na avenida, junto ao terreno baldio que serve de parque automóvel, e vejo, do outro lado da estrada, a miúda, tímida, que olha, intensa, os condutores, e se aproxima dos carros que abrandam perto dela. Um deles pára. Um homem puxa de uma pistola e dispara à queima-roupa sobre a rapariga que é projectada para trás, com um buraco mortal no peito. E o carro arranca, deixando a morte lá atrás.

E o que fazer agora com isto?…

Estou numa casa abandonada, destruída, de janelas rasgadas ao longo de paredes sujas da patina do tempo, sem luz, sem vida, e vejo, muito sumido, no canto da sala, muito escondido, o rapaz a espetar uma seringa. A deixar-se cair para trás, amparado pela parede que o deixa cair docemente para o chão. Depois o rapaz começa com convulsões, e espuma-se pela boca…
Da rua ouve-se a voz de um homem, um homem mais velho, que chama por ele, entra casa dentro, encontra o corpo tombado no chão no canto da sala, ajoelha-se e agarra o corpo inerte ao colo, e chora.

Eu queria voltar atrás. Lá mais atrás. Arrepiar caminho.

Estou numa estrada na periferia da cidade. Dois carros aceleram lado-a-lado, numa estrada de dois sentidos. Um deles acaba por se cruzar com um carro em sentido contrário, e o choque é iminente. Mas o carro desvia-se. E o outro também. E desviam-se ambos para o mesmo lado e chocam um com o outro, de frente, com força, com força bruta, e vê-se e ouve-se uma explosão, e os carros destroem-se e ao que levam lá dentro, no seu interior. Tudo morre. Tudo se destrói.

Já é tarde. Já é tarde demais. É sempre tarde demais.
Eu só observo. É só o que me resta. Observar.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/31]